Thursday, July 23, 2015

Dez Anos de Super Bock Super Rock

Foto DR
I would like a place I could call my own. Have a conversation on the telephone. Wake up every day that would be a start, I would not complain of my wounded heart.

New Order, Regret

New Order, Moby, Klaxons, Bloc Party, Arcade Fire, Crystal Fighters, Florence + The Machine. 2005, 2007 e 2015. Dez anos depois da primeira vez, e após oito anos de ausência, regressei ao Super Bock Super Rock. Um dos festivais portugueses mais icónicos, embora actualmente seja vítima da maior popularidade do NOS Alive, continua a conseguir trazer alguns dos grandes nomes da música internacional a um Festival de Verão que não parou de crescer desde os primeiros acordes tocados em 1990, um ano tão próximo e, ao mesmo tempo, já tão distante.

A minha primeira visita ao velho Parque Tejo em Loures começou a ganhar forma a partir do momento que anunciaram os New Order, uma das, se não mesmo, a minha banda preferida. Para quem me conhece, os New Order são sinónimos de mim próprio. Como podia perder o seu primeiro concerto em Portugal após vinte anos de ausência? Foi, também ele, um dos últimos concertos que os New Order deram ainda juntos, antes de Peter Hook se separar dos restantes membros por questões que apenas a eles lhes pertencem.

Nesse ano fui com o meu pai, aguardei ansiosamente à beira Tejo, a levar com o frio e a já habitual poeira durante horas. Por concertos dos Loto, de The Hives, Black Eyed Peas e Turbonegro, até que, enfim, a banda que eu tanto aguardava entrou em palco. Cantei cada música até ficar sem voz, e o melhor momento chegou quando o Bernie perguntou ao público que música queriam ouvir e gritei Regret o mais alto que pude. Não sei se ele me ouviu, ou se foi uma coincidência que já constava na setlist, mas foi essa mesmo que eles tocaram. Não podia ter saído mais feliz daquele concerto. Ainda hoje guardo religiosamente a T-Shirt, sem nunca a ter lavado, da Blue Monday que usei nesse dia, assim como o bootleg deste concerto que um colega brasileiro me conseguiu arranjar.

Em 2007, regressei ao Parque Tejo, desta vez mais organizado, e com bilhetes acima dos vinte e cinco euros que paguei pelo meu primeiro ingresso. Fui com um grupo de colegas da faculdade que conseguiram arranjar bilhetes com oferta da viagem de comboio. Ficámos grande parte do dia mesmo em frente às grades, com excepção do concerto dos The Gift, o qual aproveitámos para jantar enquanto esperávamos pelos cabeça de cartaz, Bloc Party e Arcade Fire. Foi um dia desgastante, mas com concertos épicos que ainda hoje guardo na minha memória. A exaustão levou-me até a afastar-me um pouco da multidão durante o encore de Arcade Fire, pois o cansaço do dia e a pressão de estar tão próximo das grades durante todas aquelas horas, fizeram-me atingir os limites da resistência.

Nos últimos oito anos, por diversas vezes pensei em voltar, contudo, a falta de tempo, de dinheiro, ou a pouca qualidade do cartaz, mantiveram-me afastado. Este ano fiz a promessa ao Paulo de que iríamos ao Super Bock Super Rock ver Florence + The Machine. Comprei os bilhetes e, no passado sábado, partimos logo pela manhã em direcção a Lisboa. Chegámos por volta da uma da tarde, e encontrámos estacionamento com alguma facilidade. Um problema que julgávamos complicado de resolver, mas que assim não o foi.

Entrámos no festival por volta das cinco da tarde. Explorámos as atracções promocionais do costume, aprendi a reciclar as caixas de cereais no ecoponto azul e assistimos ao concerto de Márcia sob a pala do Pavilhão de Portugal. Após um rápido jantar, repartido entre panados, sandes e folhados, feitos pela minha mãe, procurámos por um lugar nas bancadas da Meo Arena. O Rodrigo Amarante fez um concerto calmo, ao seu estilo, para uma multidão de poucos milhares. Seguiu-se a grande surpresa da noite, Crystal Fighters. Uma banda que até então era para mim desconhecida, mas que, com uma enorme energia e uma onda de positivismo típico da sua ideologia hippie, fez um grande espectáculo que me deixou profundamente impressionado.

Franz Ferdinand não trouxe nada de novo. Nunca mais era uma da manhã para ver Florence a entrar em palco. Mal os adeptos do afamado arquiduque se ausentaram, eu e o Paulo procurámos um lugar por entre a multidão apeada, no peganhento chão da Meo Arena. Florence fez-nos esperar ainda mais um pouco até à sua grande entrada em palco. Do concerto retenho cada momento. De gastar toda a minha energia na Shake it Out, de absorver cada letra do novo álbum, cuja estreia guardei para este mesmo concerto, e de toda a onda de positivismo, e das loucas correrias de Florence para junto dos fãs. Dos abraços e beijos que alguns tiveram a sorte de partilhar com a vocalista, enfim, de tudo aquilo que fez com que este concerto, este festival, e esta viagem valessem a pena.

Um dia vou regressar a este festival que, nos últimos dez anos, já me trouxe grandes momentos de euforia, sempre aliados a épicos concertos de bandas que conquistaram o seu espaço na minha playlist, na minha montra de CDs ou no meu gira-discos.

Super Bock Super Rock, 25 anos de música. 25 anos de História.

Tuesday, June 24, 2014

True Faith

True Faith, Foto: Adriano Cerqueira
I used to think that the day would never come,
I'd see delight in the shade of the morning sun.
My morning sun is the drug that brings me near,
To the childhood I lost, replaced by fear.
True Faith, New Order

Cada objecto conta uma estória. Do fabrico, à aquisição, do seu passado, e das pessoas que o tornaram possível, ao seu presente, e àqueles que perpetuam as suas qualidades. Hoje trago-vos a história de algo que transita do plano do etéreo e do abstracto, para a realidade física apenas através de suportes analógicos ou digitais. Estou a falar de música. Estou a falar de New Order. Estou a falar da True Faith.

Produzida por Stephen Hague em 1987, True Faith é um dos singles mais populares dos New Order. Reeditada em 1994 e 2001, esta música chegou a estar em quarto lugar nos Tops do Reino Unido no seu ano de lançamento. Popularizada em filmes como American Psycho, ou Bright Lights, Big City, esta faixa foi ainda alvo de covers por bandas como The Wombats ou Anberlin.

Esta foi das primeiras músicas dos New Order com as quais tive contacto. Embora ela nunca tenha sido editada num dos álbuns regulares de New Order, apareceu em algumas compilações como o Substance, The Best of, International, Singles e Total.

Com uma letra tão abstracta como o seu vídeo, é difícil encontrar um sentido real para os versos que a compõem. Como era hábito na altura, o título não surge em qualquer momento da música, e parece de certa forma, desligado do conteúdo e da mensagem que esta transmite.

A interpretação mais comum da letra, retrata a história de um toxicodependente, viciado em heroína, arrependido pela infância que perdeu, e pelas pessoas que a sua dependência afastou. Pessoalmente, prefiro vê-la como um grito à esperança de um futuro livre. Limpo das amarras de um passado repleto de arrependimentos.

Fascinado pela música, pelos seus ritmos positivos, pela ambiguidade da letra, e pela aleatória originalidade por detrás da arte que compõe as suas diversas encarnações, ainda antes de adquirir qualquer álbum dos New Order, procurei efusivamente por este single.

Foi apenas em Setembro de 2004 que desisti de procurar no mercado nacional. Em menos de cinco minutos encontrei o single que há tanto procurava na loja britânica da Amazon. Nunca tinha feito uma compra online, e tinha algum receio que algo pudesse correr mal. Contudo, tal não aconteceu e tive apenas que esperar algumas semanas para o ter. Ao longo dos anos, coleccionei várias versões desta música, quer em Single 7”, Maxi Single 12” e mesmo uma colectânea de remixes, da qual confesso não ser grande fã.

À excepção do single em CD, todas os restantes elementos da minha curta colecção foram comprados em segunda mão. Pela qualidade dos mesmos, quer da capa, quer do próprio disco, presumo que estes pertenciam a pessoas que tinham cuidado com os seus vinis. Se o faziam por gosto, por lhes darem pouco uso, ou por serem donos de lojas com stock para liquidar, não o sei dizer ao certo. Contudo, por vezes encontro-me a pensar sobre as histórias que estes discos escondem. Por quantas mãos passaram. Quem os ouviu e em que situações. Terão assistido ao nascimento de romances? A festas de arromba? Será que foram partilhados entre amigos, ansiosos por descobrir uma música nova? Quantos se sentiram desiludidos? Quantos se apaixonaram?

A True Faith é uma peça estruturante da minha colecção de música, quer em vinil, quer em CD. A sua arte de capa é icónica, e uma das minhas preferidas. Durante anos usei-a como avatar do MSN Messenger, assim como em outras redes sociais. A música em si é parte de mim. Da mesma forma que as diversas versões que hoje possuo são parte integrante da minha memorabilia de New Order.

Cada objecto conta a sua estória. As que viveu e aquelas que o futuro ainda lhe reserva. Esta não é a história de um CD, de um vinil, ou de um mp3. Esta não é a história de uma música, de uma banda, ou de um fã. Esta é a história da True Faith. Esta é a minha história.

Thursday, December 05, 2013

A Mais Bela das Artes

Hard Club, Porto, Foto: Blitz
Music has always been a matter of Energy to me, a question of Fuel. Sentimental people call it Inspiration, but what they really mean is Fuel. I have always needed Fuel. I am a serious consumer. On some nights I still believe that a car with the gas needle on empty can run about fifty more miles if you have the right music very loud on the radio.

Hunter S. Thompson

A Música é uma constante. Define momentos. Alimenta a nostalgia. Afoga o silêncio. Enche o espaço. E recarrega a alma. Entretém-nos em longas viagens a sós. Inspira-nos. Apazigua uma manhã parada no trânsito. Dá cor a uma conversa. Liga-nos. Liberta-nos. Desbloqueia o preconceito. Desinibe o nosso corpo. Faz do sonho, realidade.

Cada um de nós tem as suas histórias. As suas canções. “Há quanto tempo não ouvia isto”. Um simples acorde e somos levados para outro tempo, para outro lugar. Um refrão, e um sorriso toma conta da nossa face. Um excerto de uma letra, e os nossos olhos enchem-se de lágrimas. Cada melodia, uma reacção diferente. Distinta de ouvinte para ouvinte. Sempre pessoal, nunca indiferente.

Há diversos momentos que associo a uma música, a uma banda, ou a uma letra em particular. Muitos, demasiado pessoais para os poder partilhar. Alguns onde uma determinada música, ou um concerto por inteiro, são os principais protagonistas. E outros em que a letra de uma música transporta os meus pensamentos para outros universos, realidades distintas da nossa, ou simples recordações.

Um desses momentos foi a primeira vez que ouvi a Untouchable dos Anathema ao vivo. Reservei a data do concerto no Hard Club do Porto com alguns meses de antecedência. Sempre presente na minha agenda, ficou esquecido nos recantos da minha memória. Por falta de tempo, e de pesquisa, ignorei o facto de os Anathema terem lançado um novo LP, o Weather Systems. O concerto ia ser o meu primeiro contacto com este álbum.

Por entre músicas familiares, surgiu a Untouchable. Mesmo hoje, sou incapaz de descrever o que senti naquele momento. A energia que me envolveu. As emoções que trespassaram o meu coração, e ganharam vida naqueles segundos. Ouvi cada acorde, cada letra, com completa atenção. Fiquei paralisado com a beleza daquela melodia. Naquele instante, nada mais existia. Apenas o belo e sereno aroma de algo que, tão profundamente, toca na tua alma, e que se deixa envolver num terno abraço de compreensão e empatia.

Uma surpresa agradável. Uma experiência irrealizável.

A música também pode servir como uma escapatória. Um meio para libertar frustrações e limpar a tua mente de pensamentos negativos. Em 2011, por obra do acaso, o dia de defesa da minha tese de mestrado coincidiu com a data do concerto dos Within Temptation no Coliseu do Porto. A prenda ideal, a celebração necessária para apagar toda e qualquer tensão que aquele dia podia revelar. E assim foi. Saí do concerto sem voz. Numa noite fria de Outubro, estava completamente suado da cabeça aos pés. Saí de lá sem energias, e com uma sede dos diabos. Mas sentia-me livre. Pronto para um novo começo.

Foram vários os concertos marcantes a que já assisti. Do inigualável espectáculo dos Bon Jovi em 2008, até ao sonho tornado realidade de ver os New Order ao vivo, na sua última tour em 2005. Poder cantar todas as músicas daquela que é a minha banda de “todos os tempos”, tão próximo deles. Vê-los a corresponder ao meu pedido para que tocassem a Regret. Sentir de perto a melancolia da última despedida de uma banda com décadas de existência, e incrivelmente desconhecida pela grande maioria da minha geração.

Incontáveis histórias. Entre concertos, festivais, álbuns, vinis e CDs. Incontáveis momentos. Vividos na companhia desta eterna constante da própria condição humana. Uma arte única. Um acto de criação que nos eleva mais próximos do divino. A eterna vitória sob o inóspito e silencioso desconhecido destino.

Mesmo enquanto escrevo estas palavras, ouço atentamente à inspiradora melodia de Explosions in the Sky. Agarro-me a eles para apagarem o silêncio, para orientarem os meus pensamentos, e para guiarem os meus dedos, na construção desta sinfonia literária que, também ela, reflecte nos seus parágrafos cada nota, e cada composição, da mais bela das artes. A música.

Wednesday, July 14, 2010

Everything's Gone Green

Confusion sprung up from devotion, a halo that covers my eyes, it sprung from this first estrangement, no one have I ever despised.
Everything’s Gone Green, New Order

Até ao início deste ano não acreditava que alguma vez pudesse vir a ser vegetariano, contudo a vida é cheia de surpresas e aquilo que tomamos como certo nem sempre acaba por se confirmar. Um cliché, eu sei, mas por mais que procure, estas são as únicas palavras que encontro capazes de explicar o que me aconteceu.

Gosto de acreditar que sou alguém consciencializado para com os problemas sociais, económicos e ambientais que Portugal e o resto do mundo atravessam. Pelo menos, creio estar bem informado sobre as causas das alterações climáticas e sobre os benefícios que o corte de uma alimentação baseada em produtos animais pode trazer não só para a saúde, como para o próprio planeta e para a Humanidade em geral. Contudo, mesmo tais argumentos por vezes não são suficientes para fazer alguém mudar os seus hábitos. Por mais racional que uma pessoa seja, somos controlados pelos desejos que governam o nosso subconsciente.

Foi necessário queimar-me para aprender que não devo brincar com o fogo. No início deste ano estive doente, tal forçou-me a mudar os meus hábitos de alimentação de uma forma quase radical. Além de deixar o leite e seus derivados, tive que cortar nas carnes vermelhas, fritos, bebidas gaseificadas, álcool, ovos, feijões, azeitonas, etc. Além destas restrições tive que me resignar a um autêntico cocktail de comprimidos que apenas deixei de tomar há algumas semanas. Aliado a isto subjuguei-me perante alguns conselhos de boa alimentação: beber muita água, comer sopa a todas as refeições, preferencialmente daquelas com pouca batata ou arroz, e comer pelo menos um kiwi ou uma laranja por dia. Como não gosto de laranjas, experimentei tangerinas durante uns tempos, mas cedo enjoei A solução encontrada foi então o exótico kiwi que apesar da sua acidez, é mais tolerável do que qualquer laranja.

De lá para cá tenho adequado a minha alimentação de forma aos poucos transitar para uma existência vegan, ou pelo menos próxima. Embora ainda não tenha deixado as carnes brancas, incluí algumas refeições vegetarianas no meu menu semanal e sempre que tal não é possível procuro trocar a carne pelo peixe. Ainda me sinto longe de completamente adoptar esse estilo de vida, mas como qualquer viagem começa com um pequeno passo, acredito estar num bom caminho para uma alimentação mais saudável, e para uma considerável melhoria da minha qualidade de vida.

Ao contrário do que pensava, não tenho saudades dos alimentos que deixei, já não os desejo, fazem agora apenas parte do passado. Sinto-me melhor do que alguma vez estive, sinto-me com mais energia, mais leve, mais livre. Sinto uma melhoria no meu rendimento físico e profissional. Sinto o meu mundo a ganhar um tom esverdeado, e um crescente sentimento de calma e claridade. Talvez um mero resquício das drogas que durante meses me controlaram, ou talvez seja esta a sensação de uma existência saudável.

O meu testemunho é igual ao de tantos outros e embora não deseje a ninguém as terríveis semanas de dor e agonia pelas quais passei, nem tão pouco, os meses de dormência narcótica que se seguiram, talvez não fizesse mal ao mundo passar por isto pelo menos uma vez na vida.

Quando o Universo nos dá um aviso o melhor que temos a fazer é ouvi-lo.

Sunday, January 17, 2010

Quatro Anos Sem Sentido

Como uma Fénix que não renasce das cinzas
Azul, cor da água, do céu, do calmo e da esperança. Água de onde a vida se proliferou, vinda do azul celestial depois de uma viagem longa, mais longa que qualquer viagem alguma vez feita. Vida que das chamas se ergueu para nelas voltar como uma Fénix que não renasce das cinzas. Não, não é aí que chegámos, nem iremos chegar. A Pomba Azul, a esperança, o futuro, a paz. Aquela luz que brilha no horizonte, tal como a estrela Polar guiou as velhas Naus dos descobrimentos, como coelhos na toca, nós agora ascendemos a uma nova realidade de um azul vivo e pacífico que nos guia eternamente, até á ultima chama se apagar, e a Fénix voar o seu último voo.
Manifesto Blue Dove

Faz hoje quatro anos desde o último voo de Blue Dove. A revolução dos Coelhos Amarelos, há muito esquecida nos teares do tempo, permanece nas sombras a preparar discretamente o dia que todos nós ansiamos. Mas hoje não é esse dia.

Há precisamente quatro anos dei início a este novo projecto. Um simples blogue com um propósito não muito diferente do velhinho Blue Dove, mas que ao contrário do seu antecessor sobreviveu aos testes do tempo e permaneceu até hoje como a principal montra da minha criatividade, das minhas emoções, e das pequenas coisas que gosto de partilhar com o resto do mundo.

O projecto No Sense of Reason viu nascer mais quatro blogues. De uma simples plataforma onde tudo e mais alguma coisa podia ser divulgada, nasceu um novo universo. Uma pequena blogosfera temática que trouxe alguma ordem, e um novo propósito ao extenuante caos sem sentido, tão característico deste espaço.

Rubricas como Querido Diário transitaram inalteradas desde o blogue anterior, mas outras como No Comment, ou Confessionário, foram criadas para aos poucos ocuparem um vazio criativo que de tempos a tempos afecta qualquer Fénix demasiado conformada com a sua inevitável mortalidade. Algumas tradições como a apologia do esquecido 23 de Dezembro, já são hoje pequenos marcos deste blogue, momentos que ano após ano são ansiosamente aguardados pelos seus poucos seguidores.

Finalmente, sem nunca descurar a ténue relação iconológica entre a mitologia dos New Order e a existência deste blogue, deixo-vos com uma música cujo simples título transmite a mensagem que melhor identifica o universo No Sense: We’re Here to Stay.

Sunday, October 18, 2009

A Nova Ordem de um Mau Tenente

Bad Lieutenant
Os primeiros meses de 2007 ditaram mais uma separação por tempo indefinido dos New Order. Os já habituais desentendimentos entre Peter Hook e Bernard Sumner levaram Hooky a deixar a banda para embarcar num novo projecto, um super grupo composto apenas por baixistas. Bernard Sumner, Stephen Morris e Phil Cunningham queriam continuar como New Order, mas a oposição de Peter Hook, e o mal-estar que tal iria criar junto dos fãs, levaram os restantes membros a criar um projecto paralelo, e a convidar outros artistas para os acompanhar. Nasce assim Bad Lieutenant.

Era 13 de Outubro de 2009 e o sol brilhou no lançamento de Never Cry Another Tear, álbum de estreia da nova banda. Segundo Sumner, o nome da banda surgiu durante uma visita a casa de Johnny Marr (guitarrista dos The Smith que colaborou com Sumner nos Electronic): “Entrei e ele estava a ver uma cena do filme Bad Lieutenant onde o Harvey Kietel estava a disparar contra um rádio”. “Eu disse, ‘Que merda é este filme?’ Era tão nojento e ao mesmo tempo excelente”, conta Sumner.

Never Cry Another Tear é um álbum mais emocional do que aquilo que os New Order nos habituaram ao longo de quase 30 anos de carreira. Bad Lieutenant assenta assim num nicho diferente, revela uma identidade própria e uma personalidade única, diferenciada de New Order e a anos-luz do obscurantismo de Joy Division. Bernard Sumner e Stephen Morris continuam lá, a voz é a mesma, a bateria é a mesma, a guitarra é a mesma, mas a música e a sonoridade pertencem a algo novo.

Para aqueles que esperavam mais do mesmo, Never Cry Another Tear veio provar o contrário. Mensagens positivas e acordes suaves caracterizam as 12 faixas de um disco que marca o nascimento de uma nova banda.

Sink or Swim, o primeiro, e até agora único single do novo álbum, justifica a sua escolha como ponto de partida para o universo de Bad Lieutenant. Embora peque pela falta do baixo de Peter Hook, a faixa número um não difere muito da sonoridade presente nas restantes músicas, destacando-se como um óptimo ponto de partida para aqueles ainda indecisos entre dar uma oportunidade a Never Cry Another Tear.

O álbum de estreia de Bad Lieutenant conta ainda com as participações de Jake Evans (voz e guitarra), Matt Evans (backup e bateria), Jack Mitchell (baterista dos Heaven), Tom Chapman (baixo), Carl Jackson (bateria) e o nome mais sonante a seguir aos ex-New Order, Alex James (baixista dos Blur).

Bad Lieutenant têm já marcados para Novembro, concertos em Nova Iorque que abrem as portas à tour de promoção de Never Cry Another Tear, nos EUA.

Bernard Sumner, Stephen Morris e Phil Cunningham iniciam assim um novo projecto com bases sólidas. Uma nova ordem para três maus tenentes.


Bad Lieutenant (Sítio Oficial): http://badlieutenant.net/


Bad Lieutenant (Twitter): http://twitter.com/badltmusic

Monday, December 17, 2007

Joy Division, A queda e ascensão de um mito

Joy Division, Foto DR
2 de Maio de 1980, a última vez que Bernard Sumner, Peter Hook, Stephen Morris e Ian Curtis se juntaram em palco. Dezassete dias mais tarde, Ian Curtis punha termo à sua vida, e não mais alguém ouviria ao vivo aquele incontrolável talento de epilepsia musical.

18 de Maio de 1980, um dia antes da viagem para os E.U.A. que levaria os Joy Division dos bastidores da pacata cidade de Macclesfield, para a ribalta da música mundial, o seu vocalista desistiu da fama, do sonho, da família, e da vida.

Os Joy Division tornaram-se naqueles que podiam ter sido, mas nunca o foram. Com a morte de Ian, a pequena banda desmoronou-se, e as suas letras caíram no esquecimento. Apenas foi preciso um ano para que surgissem os New Order, tal como uma Fénix renascida das cinzas dos “desaparecidos” Joy Division.

Estes três rapazes limparam o pó às guitarras e lançaram-se à aventura, conquistando o coração de milhares de fãs em todo o mundo. Mas, o que eles não esperavam, era que o seu velho amigo os acompanhasse neste longo percurso.

Cada vez mais os fãs apregoavam pela Love will tear us apart, envolvidos numa Atmosphere de quem tinha perdido o Control. Vinte e sete anos volvidos desde esse último concerto, e a figura de Ian está mais em moda do que alguma vez esteve.

Os poucos álbuns da banda são reeditados e postos à venda com faixas extra de performances ao vivo. Anton Corbijn, fotógrafo Holandês de renome realiza Control, filme sobre a vida de Ian, baseado no livro da sua esposa, Deborah Curtis, Touching from a Distance (Carícias Distantes). Porquê Ian? Porquê agora, tão depois da tua morte? Por que és agora relembrado?

Com a morte de Ian, os Joy Division caíram no esquecimento, passando décadas numa falsa hibernação. De repente ressurgem, e atiram os New Order para a sua sombra. Porquê acordar este gigante adormecido? Porquê agora?

Que necessidade é esta de imortalizar algo que durante tanto tempo remetemos para a escuridão? Ian cantava,”tenho que encontrar o meu destino, antes que seja tarde”, talvez seja demasiado tarde para ele, mas eis que a sua banda o encontrou, vinte e sete anos mais tarde que o previsto.

Os Joy Division estão de volta, e estão na boca, e no ouvido, de toda a gente. Tiveste que morrer como mártir Ian? Terias tudo isto planeado? Como seria a tua vida se não a tivesses terminado? Valeu a pena?

Não sei as tuas respostas. Não sei se te devo agradecer por teres dado espaço para os New Order renascerem. Não sei que te dizer. Apenas sei que, seja lá porque o fizeste, jamais serás esquecido.

Tuesday, January 17, 2006

The Other Two

Capa do álbum Superhighways de The Other Two
Morre Dantas, morre! Pim!

Para comemorar a estreia do meu novo blogue, renascido das cinzas do velhinho Blue Dove, decidi falar daqueles que não precisam de muitas palavras para demonstrar a sua enormidade e talento. Estou claramente a falar dos New Order. Mas, como em outras situações, vou desviar-me deles para trazer às luzes da ribalta um dos seus projectos alternativos que se tem mantido na obscuridade por esse Mundo fora. Excepção feita talvez, às terras de sua Majestade.

Após a separação da banda no início dos anos 90, dois dos membros, o casal Stephen Morris e Gillian Guilbert, criaram um projecto curiosamente intitulado de The Other Two (Os Outros Dois).

A baixa popularidade deste projecto deveu-se em muito, a falhas no primeiro álbum, The Other Two and You. Embora figurem neste álbum músicas que merecem ser salientadas, como a Selfish – que dá o nome a este blogue – e a Tasty Fish, o álbum está muito aquém das verdadeiras capacidades destes dois membros dos New Order. Contudo, confesso que este continua a ser um bom álbum para todos os amantes de House.

Sim, The Other Two é na sua essência um projecto de House. Ou não fossem os New Order quem contribuiu mais para a expansão deste estilo nos anos 80. Actualmente demarcados deste movimento, e com algumas tentativas experimentais ao longo do seu percurso, os New Order sempre mantiveram aspectos desta corrente na sua música.

Não me posso afirmar como um apreciador de House, mas quando ligamos House aos New Order e a DJs relativamente decentes, vejo-me forçado a mudar completamente de opinião. Não se trata de um qualquer conflito de interesses, já que eu não afirmo não apreciar House, apenas digo que passo muito bem sem ouvir a maioria das músicas intituladas de House que andam por aí.

Pondo agora de lado o meu egocentrismo – numa tentativa desesperada de regressar ao tema original – os The Other Two lançaram em 1999 o álbum Superhighways. Este álbum afasta-se um pouco da vertente House, sendo caracterizado por algumas músicas electrónicas com um ritmo mais lento, e mais à "New Order".

Os The Other Two são mais um dos grupos paralelos aos New Order, frutos de uma paragem criativa, que tinha tudo para ter sucesso. Mas, infelizmente, neste mundo os filhos ilegítimos não têm lugar para superarem os seus progenitores.

The Other Two, tal como Monaco e Electronic, tinham tudo para serem muito maiores, mas algo falhou. Talvez suportar a sombra de New Order seja um fardo demasiado pesado para carregar. O que lhes vale é que de vez em quando lá surgem almas bravas como eu que os tentam ajudar a ganhar algum conhecimento mediático. Mas esta é uma tarefa árdua, e o homem é pequeno.

The Other Two, não só para os apreciadores de House, é definitivamente uma banda a ter em conta.