Thursday, June 12, 2014

Ser Europeu

Foto DR
Progress, far from consisting in change, depends on retentiveness. When change is absolute there remains no being to improve and no direction is set for possible improvement: and when experience is not retained, as among savages, infancy is perpetual. Those who cannot remember the past are condemned to repeat it.

George Santayana

Que significa ser Europeu? Viver num continente livre, seguro, com oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal. Partilhar o berço de grandes civilizações, da cultura, da arte, da sociedade, e da ciência. Caminhar por ruas históricas, ao lado de muitos dos grandes génios que a Humanidade já conheceu, e tratá-los como pares. Estar no centro onde tudo acontece. Ser Presente e ver a História a desenrolar-se à nossa frente, e por baixo dos nossos próprios pés.

Que significa ser Europeu? Para dois terços dos portugueses parece significar muito pouco. Dois terços que podem atravessar fronteiras sem passaportes, sem vistos, sem revistas obrigatórias, ou qualquer tipo de justificação ao Estado. Dois terços que podem trabalhar em qualquer país membro da União Europeia, e lá residir. Dois terços que podem usufruir dos serviços de saúde, segurança social e de apoio ao emprego, em qualquer um desses estados, e serem tratados como cidadãos nacionais.

Dois terços livres. Dois terços de abstenção. Dois terços de alienação. Dois terços de indiferença. Dois terços que gostava de ouvir. Dois terços que optaram por não ter voz. Dois terços que não passam de mais um número vazio, sem qualquer significado ou influência. Apenas dois terços, que jamais serão mais que isso.

O que motiva alguém a ser não mais que uma estatística? O que faz alguém abdicar da sua voz? Das suas ideias? Do seu apoio? Ou do seu protesto? O que faz alguém esquecer os seus deveres, e ignorar os seus direitos?

Gostava de os ouvir. Cada voz. Cada justificação, dos mais de seis milhões de portugueses que optaram por ficar calados nas últimas eleições europeias. Quero ouvir os emigrantes que não se informaram junto dos seus consulados. Os estudantes, e trabalhadores deslocados que não votaram por correspondência. Os anti-sistema que não sabem que um voto em branco é mais poderoso que qualquer abstenção. Os alienados que passaram o dia na praia, porque tudo está bem, e o calor até está a voltar.

Gostava de os ouvir a todos. Gostava que na sua incapacidade de se justificarem, fossem capazes de se aperceber como erraram. Gostava de os ver tomar a decisão de não o voltar a repetir. Mas acima de tudo, gostava de os ver a votar nas próximas eleições.

Se nenhum partido se identifica com as vossas ideologias. Se nenhum candidato vos transmite confiança. Se estes usam assuntos internos como bandeira de voto, ignorando os temas que realmente têm que ser discutidos. Se não se sentem representados pelos vosso Governo. Votem em branco.

Os votos em branco são votos de protesto, mas acima de tudo, são votos úteis. Uma maioria de abstenção, ou de votos nulos, nada vale. São apenas uma estatística, jargão técnico, curiosidades, e pouco mais. Uma maioria de votos em branco significa uma nova eleição, com candidatos diferentes. Com ideias diferentes. Força os partidos a mudar os seus rumos, e a discutir as ideias que realmente importam.

Ser Europeu é participar. É ter uma voz. É saber usá-la. Protestar. Apoiar. Defender as vossas próprias ideias, ou aquelas de quem admiram. Mas acima de tudo, ser Europeu é ser livre.

Dêem valor à vossa liberdade. Usem-na. Votem. Participem nas decisões que moldam o vosso futuro. Não se deixem liderar por uma minoria que soube aproveitar-se da vossa alienação para crescer e ganhar o poder.

Aproveitem os próximos cinco anos para viajar. Conheçam os vossos colegas europeus. Leiam sobre os restantes vinte e sete membros da União Europeia. Os seus problemas, a sua História, a sua cultura, os seus desejos, os seus sonhos. Aprendam com eles. Criem as vossas próprias ideias sobre que futuro querem para a Europa. Cresçam em conjunto. Sejam solidários. Sejam Europeus.

A História conta-nos diversos episódios em que a alienação generalizada, e a ascensão de minorias extremistas, passaram a governar o coração dos Europeus. Nenhum desses episódios teve um final feliz. Não deixemos que a História se repita, porque optámos por ficar em silêncio, quando nos pediram para falar.

Monday, May 13, 2013

O Escudo está Velho e Cheio de Verdete

Imagem DR
Na velha sala da minha avó tinha por hábito guardar uma série de papéis e documentos com pouca ou nenhuma importância. Por conveniência deixava-os ali, alinhados por detrás de uma figura de porcelana que ilustrava uma fadista e uma guitarra portuguesa eternamente imortalizadas em concerto. 

Ontem, ao início da tarde, decidi perder alguns minutos a organizar aquela papelada. Entre cartões caducados, horários de turmas, velhos recibos, postais e calendários, metade dos quais acabou no ecoponto, encontrei uma cesta meio escondida por entre as prateleiras. A cesta continha uma série de caricas e de porta-minas vazios. Lixo. Lixo peganhento e coberto de pó. Apenas lixo não fosse o pequeno tesouro que se escondia por debaixo deste entulho aleatório. Um tesouro pobre composto por algumas pesetas, uma moeda de duzentos escudos e outra de vinte e cinco, ambas cobertas de verdete.

Apesar de ainda guardar algumas moedas iguais a estas em bom estado, optei por as salvar. Embora espere ter sucesso na sua restauração, o mesmo não posso dizer em relação ao Escudo. Messias e bem-aventurado salvador da Pátria, nos últimos tempos, temos presenciado o crescimento de um movimento anti-Euro e pró-Escudo nunca antes visto. 

Os seus assinantes olham para a velha moeda como a resposta às nossas preces de crescimento económico e criação de emprego. Vêem o Escudo como o mítico D. Sebastião, por fim regressado das brumas. Dizem-se cientes das consequências dessa eventual operação. Afirmam serem capazes de resistir à deflação e não se importam de ver as suas poupanças reduzidas a ninharias. Contudo, falham ao serem incapazes de compreender o quão frágil é o Calcanhar de Aquiles da nossa velha moeda: A inexistente produção nacional.

Sim, o escudo permitir-nos-ias controlar as nossas próprias finanças sem um grande controlo do Banco Central Europeu. Podíamos valorizá-la ou desvalorizá-la “à vontade”, adaptarmo-nos aos mercados e injectar capital sempre que o achássemos necessário. Podíamos reduzir as taxas de cambio e tornar os salários mais atractivos para as grandes multinacionais que na década de 1990 tanto nos ajudaram a empregar e a enriquecer a população. Contudo, até chegarmos a esse ponto, teríamos que viver no limiar da pobreza extrema durante um período nunca inferior a dez anos. 

Portugal não possui neste momento produção nacional suficiente para alimentar uma população de 10 milhões de habitantes. Temos terrenos, culturas e pessoas, mas não os estamos a usar. As sementes não são plantadas e ninguém está disposto a regressar ao campo para pôr as mãos à obra. 

Com o regresso do Escudo, a comida que hoje custa um euro no supermercado não irá custar 200 escudos amanhã, mas sim mil, se não mais. Importamos demasiados produtos básicos para que a nossa produção seja sustentável. Somos limitados internamente por normas europeias que visam impedir uma excessiva competitividade de preços dos bens básicos entre os estados membros da União Europeia. 

A descida dos salários e a desvalorização das poupanças que a saída do Euro irá provocar faria com que uma grande maioria da nossa população simplesmente deixasse de ter dinheiro para comer. A actual onda de emigração seria ridícula em comparação com o êxodo que nos veríamos forçados a presenciar. Enquanto hoje em dia as pessoas apenas abandonam o país para encontrarem melhores condições de vida e empregos qualificados com melhores condições salariais, com a saída do Euro, muitos portugueses teriam que sair apenas para sobreviver. 

Que futuro para esses emigrantes? Serem explorados e maltratados como acontecia há 30 e 40 anos atrás? Teria a Europa ou qualquer outro país capacidade para os empregar? Fechar-nos-iam as fronteiras como se de uma praga se tratasse? Espero nunca vir a saber a resposta a estas questões.

A altura para sair do Euro não é agora, mas sim há doze anos atrás. O erro não foi continuarmos no Euro, mas sim, termos aderido à moeda única. Perdemos a competitividade do Escudo e perdemos a nossa capacidade de auto-gestão da nossa economia. Era cedo. Fomos imprudentes. Paciência. A cama está feita.

Mas ao continuarmos no Euro não estamos condenados a ciclos contínuos de crescimento e austeridade? Não valem a pena esses dez, vinte, ou até mesmo, quarenta anos de sofrimento para depois podermos recuperar o controlo da nossa economia? Se formos capazes de aprender com os erros cometidos na última década, não.

O Euro é hoje uma moeda frágil por ter ambicionado a tornar-se forte demasiado depressa. Sofremos um duro golpe com o lobby do dólar e optámos por nos manter independentes e por deixar a gestão das contas públicas a cada um dos estados da Zona Euro. A solução passa por desistirmos deste tipo de imposição narcisista. 

A Europa apenas será forte se for capaz de funcionar como um só. Não pode existir uma gestão de contas públicas país a país. Essa gestão tem que ser global e partilhada. Todos os estados membros devem partilhar os gastos assim como os ganhos. Deve existir um salário mínimo único e regulado em todos os países da Zona Euro. Uma única dívida. Um único PIB. Basta de desigualdade social entre o sul e o norte da Europa. Se querem uma moeda única, não basta existir um Banco Central, é necessária uma gestão central, um governo central.

Mantenhamos o nosso poder executivo, legislativo e judicial, mas deixemos a nossa economia ser aglomerada com as dos restantes países. É esse o caminho que devemos caminhar. É esse o sonho da União Europeia e a única forma de construirmos uma economia forte, sólida e capaz de competir directamente com o Brasil, com a Rússia, com a Índia e com a China. 

A Europa é o continente com as melhores condições de vida, de saúde, de segurança e de protecção social em todo o Mundo. Para quê fecharmo-nos no nosso cantinho e desligarmo-nos das maravilhas que uma Europa Unida nos tem para oferecer? 

Por mais saudades que eu sinta do Escudo, aceito hoje o Euro e espero que este não nos deixe tão cedo. O Escudo é uma peça de museu e um ícone da nossa História. Nada mais. 

O Escudo está velho e cheio de verdete. Não vale a pena restaurá-lo.