Thursday, October 16, 2014

Estrelinhas de Fátima

Estrelinhas de Fátima, Foto: Adriano Cerqueira
Algumas viagens valem, não pelo destino, mas sim por aquilo que nos espera quando lá chegamos. São os pequenos pormenores que nos movem. Que aceleram aquele primeiro passo. Que nos fazem saltar da cama, ansiosos pelo dia que temos pela frente. Uma viagem é uma companhia, um caminho, um desvio, um obstáculo, um mapa, um destino, um pormenor. Uma Estrelinha de Fátima.

Este é o primeiro Outono em nove anos cuja chegada não é sinónimo de uma nova temporada de How I Met Your Mother. Os fãs da série que, como eu, ainda estão a remoer o inesperado final que este Março nos ofereceu, recordam-se das longas viagens ininterruptas de Ted e Marshall até Chicago, com o único objectivo de comerem uma Pizza do Gazolla’s.

Uma Pizza não muito diferente de uma outra qualquer, que, no momento a seguir à provarem, fá-los questionar se aquela longa viagem teria valido a pena. Contudo, eles continuam a lá regressar, ano após ano, pelo mesmo motivo. Não o fazem pela Pizza, mas sim pela viagem, pelos momentos que partilham, pelas memórias que cimentam a sua amizade, e pelas inevitáveis peripécias que acabam por colorir o seu percurso.

Todos temos a nossa Pizza do Gazolla’s. Seja ela a melhor francesinha, o Hambúrguer gigante, aquele restaurante Mexicano, ou aquele bolo de chocolate que não mais conseguiste replicar. Para mim, são as Estrelinhas de Fátima da pastelaria Milano. Esta está longe de ser a primeira vez que escrevo sobre elas. Talvez o faça pelas memórias de infância que as acompanham, pelas histórias que trazem envoltas em cada pedaço deste pequeno doce de ovos com amêndoa e açúcar, ou pelo inigualável sabor que lhes é tão característico.

O misticismo em volta desta quase desconhecida iguaria é reforçado, em parte, pela sua raridade. Especialidade única desta pequena pastelaria, são elas também espécies ameaçadas, cuja subsistência irá depender da longevidade deste estabelecimento, da qualidade da sua confecção e da receita, aí guardada em segredo.

Desde pequeno que Fátima é sinónimo de Estrelinhas. Bom, Estrelinhas e Pegadas de Dinossauro, mas isso é outra história. Todos os anos ansiava pela habitual viagem até ao Santuário com o único propósito de as provar. A longa e cansativa viagem, e o tédio inconsequente do dia era compensado por os pequenos momentos de prazer que este pequeno pormenor me proporcionava.

Trazia sempre algumas para casa, mas dada a natureza deste doce, o melhor é mesmo comer na hora. Esta semana tive a sorte de me oferecerem algumas. Há já alguns anos que lá não regresso, e nas poucas vezes que o fiz, nem sempre encontrei a pastelaria aberta, ou então perdi-me à sua procura.

Começo a perceber que as Estrelinhas de Fátima têm uma vontade própria e que nem sempre se deixam revelar. Nem sempre uma viagem tem o sucesso de nos levar até ao destino que tanto desejávamos, mas, por vezes, esse resultado é aquele que mais precisávamos naquele momento.

Vejo quase como uma missão a necessidade de as divulgar. De tornar este desconhecido deleite popular entre aqueles que apreciam a boa gastronomia portuguesa. Contudo, temo também pela banalização de algo que me é tão próximo, e tão valioso. Pois, pudesse eu comer uma Estrelinha todos os dias e talvez a ignorasse, como faço com os Pastéis de Nata, e vulgares croissants.

A viagem, a raridade, o misticismo, o sabor, as memórias, a sua História. São estas coisas que fazem as Estrelinhas de Fátima únicas. São estes pormenores que fazem delas especiais. É tudo isto que me faz escrever sobre elas. É tudo isto que faz com que elas valham a pena.

Se passarem por Fátima, seja em peregrinação, ou apenas de passagem, dêem um salto até à Pastelaria Milano. Provem. Saboreiem. Julguem-nas de vossa justiça, e sigam o vosso caminho. Seja ele qual for, até às vossas Estrelinhas particulares. Já as minhas, encontram-se aí. Apenas aí.

Wednesday, June 05, 2013

Doce Tentação

Pão-de-Ló de Ovar
Doces. Bolos. Pastéis. Gelados. Semi-frios. Se fosse possível, não me importava de passar o resto da minha vida a alimentar-me apenas de doces. Punha de lado a sopa, dispensava os aperitivos e o prato principal e saltava directamente para a sobremesa. Felizmente, sou sensato ao ponto de saber que se o fizesse não teria muitos mais anos para desfrutar destes simples prazeres.

A gastronomia portuguesa é bastante rica e diversificada. De Norte a Sul criámos, ao longo de gerações, inúmeros pratos que, quer em tempos de escassez ou de abundância, apresentam alternativas saudáveis para nos alimentarmos de uma forma sustentável e nutritiva. Todos eles conjugados numa bela coreografia de sabores, difícil de igualar.

Mas como nem só de pão vive o Homem, atrevo-me a retirar do contexto a mal-amada frase de Maria Antonieta e pedir que nos deixem comer bolo. Comecemos então por Lisboa e pelos Pastéis de Belém. Com ou sem canela, alguns gostam deles com açúcar, outros preferem-nos ao natural, sem nunca nos esquecermos do café que os acompanha. Fora da capital comem-se Pastéis de Nata e até já existe uma cadeia de fast food chinesa especializada em os vender. Receita roubada que em nada se assemelha ao segredo bem guardado de uma das 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa.

Seguimos então para Sintra e para as suas famosas Queijadas. Bem junto à estação já se sente o cheiro das fornadas acabadinhas de fazer. Uma óptima oportunidade para nos sentarmos a apreciar a paisagem desta terra icónica, mas o nosso caminho é longo e ainda agora começou. Continuemos assim a subir até Leiria. 

Façamos um intervalo para provar um Mil-folhas ou para conhecer as Brisas-do-Lis, pequenos pastéis de ovos e amêndoa parecidos com o Quindim brasileiro. De seguida damos um salto a Fátima. Não para lavarmos a nossa alma do pecado da Gula, mas sim para bater à porta da Pastelaria Milano, casa das desconhecidas Estrelas de Fátima. Um pequeno doce de ovos, amêndoa e açúcar capaz de nos levar aos céus.

Não. Não me esqueci das Cavacas mas a viagem já vai longa e acabei de chegar a Tentúgal. Casa dos pastéis do mesmo nome. Doces de ovos envolvidos em massa folhada. Que apenas evito comer pois não tarda nada chegarei a Aveiro. 

Decido passar por cá a noite. Passeio na Barra e provo uma Tripa de chocolate. Morango, Ovos Moles, Chocolate com Avelã, Amêndoa, e até mesmo alguns chocolates e doces comerciais podem ser encontrados na lista de sabores deste doce parecido com uma Bolacha Americana que alguém se esqueceu de tostar. 

Na manhã seguinte tomo o pequeno-almoço na Confeitaria Ramos. Em pleno centro de Aveiro experimento uns Ovos Moles com chocolate que não se encontram em nenhum outro lugar. Desço a rua até à Pastelaria Veneza e provo os doces com o mesmo nome dessa cidade Italiana. Não fosse Aveiro a “Veneza de Portugal” e a existência destes pastéis, em muito semelhantes às Estrelas de Fátima, veria a sua origem questionada. 

Regresso à viagem. Paro em Ovar de propósito para levar um Pão-de-Ló. Esqueci-me do garfo por isso terei que o deixar para mais tarde. Em Arouca, logo à entrada, entre Trilobites e Conventos, encontro umas Castanhas de Ovos e umas fatias do Pão-de-Ló local. Húmido e coberto por açúcar, uma única fatia serve entre três a quatro pessoas. Muito bom. Muito doce. Exige-se alguma moderação.

Atravesso o Porto e sigo para Felgueiras. Em Margaride reencontro o seu tão típico Pão-de-Ló. Mais parecido com um bolo seco, é um bom aperitivo para ser comido com queijo da serra acompanhado de um copo de Vinho do Porto. 

Já farto de pães-de-ló vou até Santo Tirso. Entre Jesuítas e Limonetes não me consigo decidir. Podia dar um salto a Santiago de Compostela para comer uma Torta de Amêndoa, mas encontro-me de repente com desejos de alfarroba. 

Apanho o avião para Faro. Em Tavira como uns doces em formato de fruta mas que de saudável pouco ou nada têm. Encontro na alfarroba um excelente substituto para o chocolate e levo algumas para casa, pois a viagem já vai longa e o meu estômago não tem espaço para tanto doce.

Possuímos um rico património gastronómico do qual, estes, são apenas alguns exemplos. A comida portuguesa é um excelente aperitivo para a sobremesa que, quando bem escolhida, permite-nos finalizar uma boa refeição com um pequeno pedaço de céu (seja ele em natas ou não). 

Ninguém pode viver à base de doces, mas eles dão o mote para uma agradável viagem com um garantido final feliz.