Monday, January 16, 2017

Dez Anos

Foto: Rebocado em Março de 2014
É difícil não me recordar daquela fria manhã quando ambos os tanques do meu carro ficaram a zero. Dos longos minutos que estive parado no acesso à Ponte da Arrábida. Do funil que a funcionária da Repsol me emprestou e que não mais devolvi. E do garrafão de água que tive de esvaziar para o encher de gasolina. Um dia irei reconhecer a ironia deste momento, mas esse dia ainda não chegou.

Podia também relembrar os dois acidentes que tive. O primeiro por falha dos travões naquela chuvosa tarde de Janeiro. O segundo por distracção numa escura noite com pouca ou nenhuma História. Podia, mas não o vou fazer.

Todos os passeios até à Torreira, ou São Jacinto. A viagem até ao Aeroporto. As manhãs de quarta-feira. As aulas de Russo. Os regressos nocturnos do Porto. As incontáveis passagens por Aveiro, Santa Maria da Feira, Vale de Cambra, Albergaria, São João da Madeira e Oliveira de Azeméis. Aquele mês passado em Coimbra. As incontáveis idas ao Furadouro, ao Modelo e ao Continente. Os rotineiros percursos entre casa e a estação. Aquela noite que fui ver os The Kills na Casa da Música. Como chovia. Pouco ou nada conseguia ver à minha frente.

Seria fácil enumerar todos os sustos. Todos os momentos em que me deixaste ficar mal. Desde aquela Viagem Medieval que decidiste não arrancar. Até àquele jogo da selecção que nos obrigaste a regressar a pé. 

São já dez anos de histórias. Dez anos de riscos. De pancadas. De viagens. De música. De momentos. 

Há quatro que deixaste de ser meu. Passaste a ser um companheiro de fins-de-semana, de férias. De um Agosto sem cantina. Hoje raramente te vejo. Raramente te uso. Há muito que me deixaste de ser útil. Há muito que deixaste de partilhar os meus dias.

Temo que estes dez anos marquem o fim da nossa história. Temo não ser capaz de encontrar alguém que te revitalize. Alguém que te dê valor. Está na hora de seguir em frente. De te deixar para trás. De encontrar um carro novo e de escrever novas estórias atrás de um volante que não o teu.

Faz hoje dez anos que passei no exame de condução. Numa tarde em que me esqueci de dar o pisca no acesso à auto-estrada. Onde não me atrevi a ultrapassar os 80, e onde repeti todas as manobras pelo menos uma vez. 

Podia ter contado como nessa mesma noite levei a antiga carrinha do meu pai até à Júlio Dinis para treinar no ginásio com o pessoal. Podia ter falado das diversas viagens que fiz. Ora contigo, ora com substitutos por um dia, ora com outros carros que não tu. Não o fiz e não o vou fazer.

Estás longe de ser um investimento. Foste apenas uma contínua despesa. Um longo buraco destinado a sugar todos os fundos necessários para se manter à deriva.

Estou a ser duro contigo, tal como tu foste. Uma besta difícil de domar. Imprevisível. Infiel. Inconsistente. Por vezes até desconfortável. 

Nem sempre estiveste lá. Nem sempre foste uma opção. Afinal, eras apenas um carro. Velho, usado, longe dos seus tempos áureos. O que poupavas em combustível gastavas em reparações. 

Não sei se a culpa foi minha. Do teu anterior dono. De nunca teres tido uma garagem. Do tempo. Da conversão para GPL. De quem te reparou. Da sorte. Ou de alguma simples sina ainda por decifrar.

Há dez anos foste a minha opção. Hoje talvez tivesse sido diferente. Mas, quanto a isso, nada posso fazer.

Até à nossa despedida, velho amigo, guardo em mim as recordações dos episódios que partilhámos. Apenas te peço que aguentes mais alguns meses até que encontre uma solução que te permita enfim descansar. Até lá continua a rolar. De casa para o Furadouro. Do Modelo para a Estação. Do Continente até ao Sal. Pelas estradas que tão bem aprendeste a conhecer. Até lá, velho amigo, continua a rolar, até ao meu regresso.

Wednesday, April 20, 2016

Idiossincrasias

Imagem DR
Poucas coisas são mais irritantes que aquela palavra teimosamente presa na ponta da tua língua. Momentâneas obsessões que tomam conta do teu cérebro. Mordazes e incapacitantes obsessões. Persistentes obsessões. Enfurecedoras obsessões. Obsessões. Obsessões. Obsessões.

Uma importante parte dos meus constantes desafios e exercícios mentais passam pelo controlo do sentimento de obsessão. Aquela voz inquietante que não te deixa adormecer enquanto não te certificares se desligaste de facto o aquecedor. Que te incita a verificares o e-mail que acabaste de enviar para teres a certeza que não te esqueceste de nenhum anexo. Isto apesar de já o teres revisto umas dez vezes antes de carregares no botão de envio.

Em certos casos esta obsessão pode ser útil. É aquele pequeno gesto que te impede de enviar um projecto com erros, e que impele um certo toque perfeccionista em cada obra que produzes. Não fosse assim, e ‘ser um perfeccionista’ seria tudo menos a resposta mais comum à pergunta, ‘qual o teu maior defeito’. Contudo, há um motivo para que ser-se perfeccionista encaixe na categoria de defeitos e não na de virtudes. A perfeição consome uma grande quantidade de tempo. Tempo esse que é precioso. Tempo esse que é apertado. Tempo esse que não tem lugar para obsessões. Especialmente para aquelas que pouco ou nada têm de racional.

Há dias tinha uma palavra presa na ponta da minha língua. Tentei ignorá-la e descansar na hipótese de que eventualmente a iria recordar. Contudo, não há obsessão mais difícil de controlar que esta. Não há nada mais irritante que aquela palavra que não consegues dizer. Após alguns minutos a arranhar o meu cérebro, escavando o meu subconsciente em busca de algo que me pudesse ajudar a encontrá-la, apenas descobri as seguintes pistas: F podia ser a primeira letra da palavra; Quintessência; e uma possível sílaba com um som ‘L’. 

A minha mente funciona de forma misteriosa, abstracta e demasiado complexa, mesmo para a minha própria compreensão. A palavra que procurava era um termo usado maioritariamente pela classe política e cujo significado é ‘uma característica comportamental peculiar a um indivíduo ou grupo’. Nada tem a ver com quintessência, e as pistas silábicas estavam erradas.

Após uma longa e infrutífera pesquisa online, parei então o episódio da série que estava a ver e fui escavar por entre uma pilha de livros em busca de um velho dicionário da Porto Editora. É um daqueles volumes laranjas pesados que raramente vemos em uso hoje em dia. Encontrei a letra F e folheei na diagonal todas as páginas desta letra, em busca da palavra que tanto me atormentava.

Enfim, desisti e recorri ao último recurso que apenas uso em caso de emergências obsessivas: pedi ajuda nas redes socias. Após uma breve troca de comentários jocosos, acabei por encontrar alguém capaz de me ajudar: Idiossincrasia. Era esta a palavra que me tinha atormentado nas últimas horas.

Sim, compreendo a profunda ironia de ter uma obsessão, ou melhor, uma característica comportamental peculiar à minha pessoa, a ditar uma incessante busca pela palavra ‘idiossincrasia’.

Não consigo descrever o sentimento de alívio que senti quando finalmente a reencontrei. Talvez seja esse sentimento a verdadeira quintessência da minha obsessão. O meu desejo por essa sensação de tranquilidade e calma catártica força-me a obcecar pela mais ínfima coisa, de forma a satisfazer a minha dose diária de paz intelectual.

Talvez isto não passe mesmo de uma característica comportamental peculiar à minha pessoa. Apenas sei que, até hoje, raras são as vezes que as pistas do meu cérebro fazem sentido a alguém que não a mim próprio. E, neste caso, nem aí surtiram algum efeito.

São as nossas próprias idiossincrasias que ajudam a construir as peculiaridades da nossa personalidade. Algumas são benéficas, outras são irritantes. Algumas são estruturantes, outras necessitam de ser trabalhadas. 

Há dias falhei em controlar a minha obsessão. Já ontem. Ontem fui dormir sem me preocupar se tinha tirado ou não as pilhas da lanterna. Pequenos passos num longo caminho. Episódicos dias, cada um a seguir ao outro.

Sunday, January 17, 2016

Dez Anos de No Sense of Reason

Design: Adriano Cerqueira
É difícil imaginar que já passaram dez anos. É difícil contabilizar trezentas e dez publicações. Entre crónicas, contos, poemas, vídeos, fotos, imagens, estórias sem sentido, episódios do dia-a-dia, momentos de introspecção, sentimentos, enfim, incontáveis palavras espalhadas por cento e vinte meses de dedicação, esforço e devoção a um espaço. A um blogue. A um diário. A uma eterna constante inspirada nas letras de uma música desconhecida.

Foram anos de inspiração e de desespero. Dez anos a olhar para uma página em branco. A correr para o teclado sempre que aquela ideia surgia. A gatafunhar no meu bloco, ou numa nota do telemóvel, cada pensamento solto que pontualmente me assolava. Foram meses de revisão. De parágrafos apagados. De ideias deitadas fora. De projectos por concretizar. De artigos por escrever.

Dez anos cumpridos com falhas, sob um auto-imposto ritmo de trinta publicações por ano, e pelo menos uma por mês. Incontáveis Dezembros passados a espremer cada letra até à exaustão, esperando pelo confortável descanso de sentido e razão que aguarda o eterno 23.

Foram noites perdidas a editar o podcast d’A Rádio da Rádio. E a escrever. Sempre a escrever. É impossível olhar para trás e não ver tudo aquilo que mudou nos últimos dez anos. Pois tudo mudou. Mas este espaço, este blogue, sempre se manteve constante. Com novos layouts, diferentes designs, novos estilos e nova imagem. Mas sempre único. Sempre aberto. Sempre presente. Sempre meu.

Dez anos volvidos desde a criação deste blogue, e há doze anos como blogger, continuo sem um propósito, sem um motivo, sem um público e sem um tema. Escrevo porque sim. Apenas porque sim. Escrevo como um exercício. Escrevo porque tenho algo para dizer. Escrevo para que me leiam. Escrevo para mim. Para todos. Para alguém e para ninguém. Escrevo porque gosto. Porque o preciso de fazer. Porque o tenho que fazer. Escrevo porque sim. Apenas porque sim.

Viajo entre linhas de mundos e opiniões. Atravesso caracteres ilimitados. Exploro a lírica da minha língua. Vou além dos limites da minha criatividade. Descanso nos confins da minha imaginação. Luto pelas ínfimas ideias de uma musa eternamente adormecida. Escrevo. Falo. Filmo. Desenho. Fotografo. Viajo. Faço algo acontecer e guardo-o aqui. Uma pequena oferta para aqueles capazes de me oferecer algum do seu tempo.

Obrigado a cada pessoa que por aqui passou. A cada leitor, seja ele anónimo ou conhecido. A cada visualização. A cada subscritor. A cada seguidor. A cada amigo. A cada ligação. Obrigado por cada comentário. Por cada crítica. Pelo vosso apoio. Pela vossa presença. Pela vossa perseverança. Obrigado a todos aqueles que ajudaram a manter-me motivado. A todos aqueles que acompanharam este blogue ao longo dos últimos dez anos. Obrigado.

Nesta aventura o importante foi partir, pois o destino deste espaço constrói-se a cada nova publicação. Em cada frase. Em cada imagem. Em cada comentário. Online desde a distante tarde de 17 de Janeiro de 2006. São já dez anos de No Sense of Reason. Os primeiros dez anos do meu projecto mais antigo. Do meu projecto mais fiel. Da principal constante da última década que hoje celebro.

Os primeiros dez anos de No Sense of Reason.

Wednesday, October 21, 2015

October 21st 2015

Imagem DR
Of course it's erased! (…) It means your future hasn't been written yet. No one's has. Your future is whatever you make it, so make it a good one.

Dr. Emmett "Doc" Brown, Back to the Future III

Trinta anos após a estreia do primeiro filme, enfim chegou a icónica data do Regresso ao Futuro II, que marca a chegada de Marty McFly ao futuro. Esse longínquo futuro de 1985, imaginado com carros voadores, fusão a frio movida a lixo doméstico, filmes 3D, hoverboards, roupa ajustável ao corpo e faxes. Uma mescla de ficção científica ainda distante da realidade da versão actual de 2015, com algum saudosismo típico da década de 1980.

Olhando à distância de uma das mais aclamadas trilogias da História do Cinema, por vezes pensamos que pouco, ou quase nada, mudou nos últimos trinta, vinte e seis, ou vinte e cinco anos. Não temos carros voadores, ainda não somos capazes de viajar no tempo, existem filmes 3D e nunca foram tão populares, os videojogos são cada vez mais imersivos, têm melhores gráficos, mas ainda nos “obrigam” a usar as mãos. Não temos hoverboards, pelo menos, não como as do filme, e quanto a roupa ajustável, espero que não a tardem a inventar. Ser uma daquelas pessoas que está sempre algures perdida entre um M e um L, não é nada agradável, especialmente quando a disparidade entre tamanhos é tão vincada de loja para loja.

Back to the Future é uma das minhas trilogias preferidas. Daria prioridade a uma maratona de Back to the Future contra uma de Star Wars, Lord of the Rings, e até mesmo de Jurassic Park. Talvez apenas o Em Busca do Vale Encantado, mesmo com as suas doze, e em breve, treze sequelas, fosse capaz de tirar o lugar às aventuras de Doc e Marty McFly na minha lista de preferência para umas boas horas passadas em frente à TV.

Sou um fã incondicional de Regresso ao Futuro. Lembro-me de o ver na televisão quando era pequeno, de sonhar com carros voadores e com viagens no tempo. Não cheguei a apanhar muitos episódios da série de animação, e tenho apenas uma vaga ideia de como era. Desenhada ao estilo de Denver, the Last Dinosaur, Widget, the World Watcher e Captain Planet and the Planeteers, a série animada de Back to the Future também se centrava em temas que ainda hoje são actuais. Era uma série com um profundo aspecto vocacional e educativo, ao ensinar as crianças sobre Ciência e História, e ao preocupar-se com assuntos que ainda hoje preocupam a humanidade, como a poluição, as alterações climáticas e a protecção do planeta, assim como o nosso futuro como espécie e como habitantes da Terra.

Contudo, precisei ainda de esperar mais alguns anos para voltar a entrar em contacto com esta trilogia. Já estava na faculdade quando a TVI começou a passar os filmes ao sábado. Durante três semanas acompanhei-os como se os visse pela primeira vez. Nesse mesmo mês encontrei a caixa em DVD da trilogia na Fnac e comprei-a. Na altura custou-me cerca de 30 euros, um pequeno investimento para um incontável número de tardes passadas a ver cada pormenor e cada especial que esta colecção trazia.

Além da edição em DVD, possuo também o set da Lego Ideas com o famoso DeLorean, e as minifiguras de Doc Brown e Marty McFly, e as edições especiais Funko POP! de ambas as personagens, com o Marty acompanhado pela máquina do tempo, e a sua inesquecível matrícula “Out of Time”.

Talvez hoje numa linha do tempo alternativa, Marty já esteja em Hill Valley a tentar salvar o seu filho, mas, este 2015, não é o mesmo 2015 que a mente de Robert Zemeckis nos deu a conhecer. Para os verdadeiros fãs é uma data que merece ser celebrada, para os restantes é um dia como qualquer outro com uma pequena curiosidade partilhada nas redes sociais e na comunicação social. Para mim, é o dia que marca a publicação número 300, dos quase 10 anos de vida deste blogue.

E que melhor tema para a celebrar que a chegada de Marty McFly ao futuro?

Foram trezentos artigos entre crónicas, contos, poemas, citações, fotos, vídeos, e uma boa dose de nonsense constante. Quando comecei a escrever para este blogue, pouco mais de um ano depois de me aventurar pela blogosfera, não tinha nenhum plano em mente. Apenas queria escrever e ter um espaço onde pudesse publicar aquilo que tinha para dizer.

Quase dez anos depois, salvo raras excepções, continuo a escrever apenas para mim próprio. Este é um espaço onde a minha voz é ouvida, onde os meus pensamentos são livres para correr sem restrições, onde o mais íntimo dos meus momentos de introspecção tem o seu tempo de antena.

O No Sense of Reason é o projecto ao qual mais tempo dediquei em toda a minha vida. Sempre tentei publicar pelo menos um artigo por mês e escrever cerca de trinta artigos por ano. É pouco para um blogue que queira ser popular e lido por milhares de pessoas. Mas não escrevo para que me leiam, ou para fazer algum dinheiro com isto. Escrevo apenas porque sim. Porque tenho uma voz, e porque quero que ela seja ouvida. Mesmo que o único ouvinte seja um futuro Eu em busca de respostas nas entrelinhas dos seus pensamentos passados.

Estes foram apenas os primeiros trezentos capítulos de uma longa história ainda por escrever. Pois tal como Doc Brown diz na conclusão da saga de Back to the Future, o futuro ainda não foi escrito. Está apenas ao alcance da nossa imaginação, do nosso esforço, e da nossa ambição.

“Where we’re going, we don’t need roads.”

Wednesday, October 07, 2015

Desnecessárias Edições Limitadas

Jurassic World Edição Limitada
“Ó não! A minha vida não vai ficar completa enquanto eu não tiver isso.” Já por diversas vezes sugeri que o Paulo criasse um canal, ou uma espécie de podcast, para que ele pudesse partilhar com o Mundo a sua inigualável forma de narrar eventos da sua vida, e de sumarizar filmes, séries, livros ou jogos. Ele consegue explicar uma receita, ou comentar um evento qualquer de uma forma cómica e exageradamente expressiva, capazes de tornar o episódio mais banal num momento deveras hilariante. Por mais que tente descrever este seu talento, ele é algo que precisa de ser vivido e presenciado em primeira-mão.

Na última sexta-feira, estávamos no Sal & Pimenta, como de costume – este ano ainda não saímos uma única vez no Furadouro, o Verão já passou e as noites já se sentem frias, parece-me que o Paralelo é cada vez mais apenas um velho pedaço de memorabilia de um passado distante dos nossos encontros – e entre uma conversa sobre filmes, perguntei ao Luís se ele já tinha visto a edição especial em Blu-ray do Jurassic World com duas miniaturas do T-Rex e do Indominus Rex em pose de combate. A resposta do Paulo foi imediata, aliás, quase nem me deixou acabar de falar, como sempre, nem deu tempo para o Luís me responder. “Ó não! A minha vida não vai ficar completa enquanto eu não tiver isso” – isto dito naquele seu jeito particular, e num profundo tom de sarcasmo que rivaliza com qualquer sketch dos Monty Python.

Ontem, enquanto explorava a minha necessidade de controlo, encontrei-me a pensar nesse momento. Na verdade, raro é o dia em que não me questiono sobre esta sua exaltação momentânea, desde que ela aconteceu. Tentei arranjar forma de a incluir na minha última crónica, mas simplesmente não era o espaço adequado. “Ó não! A minha vida não vai ficar completa enquanto eu não tiver isso”, é uma expressão que quando lida fora do contexto, pode dar aso a duas possibilidades. A primeira, ou melhor, aquela que é mais natural para mim, pois não só presenciei o momento, como este foi dirigido directamente à minha pessoa, é a mesma que o Paulo quis expressar. Ironia, sarcasmo, chamem-lhe o que quiserem, é uma frase que desvaloriza o objecto e o remete para o profundo abismo das coisas que ignoramos à primeira vista.

A segunda possibilidade é uma interpretação mais literal, de desejo imediato por esse mesmo objecto. Que, confesso, foi a minha reacção quando descobri que este Blu-ray existia. Desde pequeno que sou fã de Jurassic Park. Ainda antes do Em Busca do Vale Encantado me ter desperto a paixão por Dinossauros, e o meu sonho de ser Paleontólogo, já o Jurassic Park ocupava um lugar especial na minha infância e no meu imaginário. Sonhava com Dinossauros, em viajar no tempo, em poder tocá-los e viver entre eles. Em tê-los como animais de estimação, em dar o nome a uma nova espécie, ou em simplesmente admirar a sua beleza e a sua capacidade de nos espantarem com o seu Universo alienígena de um Mundo Perdido na História da Terra.

Ao longo da minha infância coleccionei diversas réplicas de Dinossauros. Tenho o Jurassic Park, o Mundo Perdido e o terceiro filme em DVD e em Blu-ray. Guardo e exponho religiosamente os meus brinquedos do Mundo Perdido, ora no sótão, ora no meu quarto. Mesmo hoje, mal saiu o Jurassic World, comecei a colecionar os seus respectivos sets da Lego, que agora ocupam o espaço dedicado aos meus velhos sets que tantos anos aguardaram por uma nova oportunidade de serem recuperados.

Portanto, não seria de admirar que mal descobri essa edição especial, o meu primeiro pensamento foi, “tenho que ter isto”. O preço é muito pouco convidativo, 80 dólares na Amazon. É uma edição limitada que ainda não está disponível em Portugal, se é que alguma vez chegará a estar. Para já, no site da Fnac não existe qualquer informação sobre esta edição especial, e mesmo o Play.com não a tem à venda.

Posso simplesmente esperar que esta tenha um preço mais aliciante, que surja alguma promoção, ou então aguardar por alguma pechincha de última hora no eBay. Posso até mesmo ignorá-la e comprar apenas o Blu-ray normal, cujo preço não tardará a rondar os dez euros, mais coisa, menos coisa.

Posso fazer isto, e normalmente sempre o faço. Mesmo com o último álbum dos New Order, a minha banda preferida, decidi aguardar para que este tenha um preço mais acessível antes de o comprar. Sei ser paciente, e sei aguardar pelo momento certo para fazer uma compra. Embora hajam algumas excepções a esta regra, não me considero um comprador compulsivo. Contudo, são incontáveis as coisas “desnecessárias” que comprei ao longo dos anos.

Uso a palavra “desnecessárias” entre aspas, pois quando gostamos de algo e podemos tê-lo, seja ele um livro, um CD, um vinil, um DVD, um brinquedo, um pedaço de memorabilia de um filme, ou de uma série, uma peça de roupa que raramente iremos usar, ou outro objecto qualquer, não há mal nenhum em considerar esse investimento como um bem necessário. Construímos pequenos pedaços da nossa identidade com aquilo que compramos, e com aquilo que decidimos mostrar ao Mundo, por mais infantil, abstracto, ou inútil que esse objecto seja.

Sou um coleccionador nato. Não colecciono apenas uma coisa, nem tenho uma obsessão por algo como postais, moedas, selos ou pacotes de açúcar. Colecciono recordações, pedaços da minha infância, da minha vida, das coisas que gosto e que me fazem feliz. Por isso tenho ainda bem estimados todos os meus Power Rangers, Dinossauros, Legos, Cartas Pokémon, Fósseis, Minerais, T-Shirts de Concertos, CDs, DVDs, Vinis, Livros, Cromos, Brinquedos de Caixas de Cereais, Carros de Colecção, Jogos de Tabuleiro, Puzzles, Canecas, Bilhetes de Cinema, Postais, Fotografias, enfim, uma longa lista tão extensa, como interminável.

Algumas destas coisas estão melhor organizadas que outras. Algumas tiveram direito a expositores ou a lugares privilegiados em estantes e outros móveis da minha casa, outros estão guardados em gavetas e caixas, mas todos eles estão ao alcance da minha memória, e facilmente consigo localizá-los sem perder muito tempo.

Não são bens de primeira necessidade. Não. Consigo viver sem eles. A minha vida não seria menos completa se não os tivesse, e a minha carteira estaria bem mais cheia. Mas cada um deles é um momento material das minhas recordações. Cada objecto conta uma história. Cada objecto é único. Uma parte de um todo bem maior que compõe quem eu sou.

Uma vez, em casa do Luís, ele contou-me que gostava muito do seu quarto e que às vezes ficava apenas deitado a olhar para as suas coisas e a pensar como estas diziam tanto sobre ele. O mesmo acontece comigo, não tanto no meu quarto, por falta de espaço, mas no salão do meu sótão. Em poucos minutos, uma pessoa que observe esses dois espaços com o mínimo de atenção é capaz de ficar a conhecer mais sobre mim do que se passasse longas horas em conversa comigo. Especialmente se o Paulo estivesse lá para me interromper constantemente.

A minha vida é bastante completa sem a edição limitada em Blu-ray do Jurassic World. E nada mudará em mim se algum dia a vier a comprar. Contudo, confesso que a quero ter. Apenas porque sim. Porque o T-Rex está bem desenhado, porque a caixa é bonita, e porque o Indominus Rex, embora não me agrade, também se conjuga muito bem com todo o ensemble desta edição limitada.

Todas as coisas que tenho comprei-as porque podia. Não passei fome para as ter. Não deixei de viajar para as ter. Não aceitei um emprego fora da minha área para as ter. E fora aquelas que recebi quando ainda era criança, ou como prenda de aniversário, comprei-as todas com o meu dinheiro. Hoje podia ter um pé-de-meia interessante, talvez, mas não me arrependo do dinheiro que gastei em nenhuma delas. E também, sejamos sinceros, tudo aquilo junto não representa sequer metade daquilo que gasto num ano em renda ou em comida.

No Mundo do Digital eu gosto de ter os meus Livros, os meus CDs, os meus Vinis, os meus DVDs e os meus Blu-rays. Quero ter essa colecção física para um dia a poder partilhar com quem me é próximo e até mesmo, quem sabe, com os meus filhos. Da mesma forma que hoje ouço os vinis do meu pai, e leio os seus livros, um dia quero que os meus filhos façam o mesmo. E ao contrário de tantas histórias de adultos saudosistas pelos seus há muito perdidos brinquedos de infância, desejo preservar os meus para a posteridade, apenas porque sim. O meu pequeno museu pessoal das coisas que mais prazer me deram ao longo da minha vida.

A minha vida é completa não pelas coisas que tenho, mas sim pelas pessoas que amo e que me amam de volta. Tudo o resto são apenas recordações, diários físicos de uma linguagem universal, fácil de decifrar pelo mais atento dos observadores.

Quero muito ter essa edição especial. Mesmo sem ela, a minha vida já é completa. Mas quero muito tê-la. Apenas porque sim.

Tuesday, October 06, 2015

Os Legos da Minha Infância, ou Como Preciso de Perder o Controlo

Imagem DR
I could live a little better with the myths and the lies, when the darkness broke in, I just broke down and cried. I could live a little in a wider line, when the change is gone, when the urge is gone. To lose control. When here we come.

She’s Lost Control, Joy Division

Em Janeiro de 2013 estava desempregado. O meu contrato com a RTP tinha terminado a 4 de Dezembro, e as duas entrevistas de emprego a que tinha ido nesse mesmo mês resultaram em duas respostas negativas. Estava em casa em pleno Inverno, no hiato natural das séries que na altura seguia, já com pouco ou nada para fazer. Rapidamente gastei os poucos livros que ainda tinha para ler. Entretinha-me a escrever no meu blogue, e a pesquisar por novas oportunidades de emprego, às quais me candidatava religiosamente todas as semanas.

A minha semana era monótona, passada em frente ao PC em busca de alguma inspiração. Apenas as saídas ao fim-de-semana, o ocasional Quiz em Oliveira de Azeméis e as aulas semanais de Russo interrompiam essa minha rotina de tédio. Foi então que, ao fim de mais de dez anos, decidi arrumar os meus brinquedos velhos que se encontravam dispersos pelo coberto que habita a ponta do meu quintal. Anos de exposição a humidade, mudanças de temperatura, pó, insectos, e o ocasional gato vadio, deixaram as suas marcas em alguns deles, especialmente nos meus carros telecomandados que, após tanto tempo dificilmente algum dia voltariam a funcionar.

Tudo isto começou porque, uma noite, lembrei-me de ir salvar o meu velho jogo de tabuleiro do Space Jam, que lá se encontrava, por algum milagre, ainda intacto. Talvez não se lembrem mas este jogo foi uma oferta do Jornal de Notícias nos anos 90. Continha miniaturas das personagens do filme, e cartões de dominó com ilustrações dessas mesmas personagens. Após o recuperar, decidi usar o meu tempo livre para arrumar os restantes brinquedos. Os carros telecomandados foram limpos e guardados numa mala antiga que ainda hoje lá se encontra, assim como os meus velhos brinquedos de bebé, e inúmeras pás, raquetes, baldes e formas de plástico com as quais brincava na praia.

Entre esta variedade de velhas recordações, encontravam-se os meus legos, desde os Duplo, a pequenos sets que colecionei nos finais dos anos 90, a meros blocos coloridos que faziam ainda parte do único balde vermelho da Lego que tive na minha infância. Os blocos e os Duplo guardei-os nos respectivos baldes, cujas tampas já há muito desapareceram. Muitos deles tinham marcas de pó e de humidade, e alguns até guardavam algumas teias de aranha, entranhadas por entre os seus orifícios, que muito me custaram a limpar.

Voltei a minha atenção para os sets. Diversas minifiguras e peças customizadas, mas nenhuma caixa, nem tão pouco um único livro de instruções. Depois de ter terminado a reorganização, limpeza e arrumação dos restantes brinquedos, ataquei o Google em busca de uma base de dados que incluísse as instruções para os sets que se encontravam ali, unidos, mas sem qualquer coesão entre as diversas peças. Felizmente não tive que pesquisar muito até encontrar o Brick Factory. Um site que mais parece um fóssil vivo dos primórdios da internet. Um design adequado tendo em conta a nostalgia inerente à minha pesquisa. Este site inclui as instruções para a grande maioria dos sets da Lego, e permite que os utilizadores não só pesquisem pelo nome, ou pelo número de série, mas também pela data em que o set foi lançado.

Como não me recordava do nome de nenhum dos meus sets, e como o número de série há muito se tinha perdido quando as respectivas caixas foram deitadas fora, comecei a pesquisar por ano, desde os meados dos anos 80 até aos finais da década de 90. Foi uma tarefa árdua que me custou algumas horas e umas boas tardes de frustração mediada por pequenos momentos de sucesso. Numa semana encontrei as instruções para todos os sets que tinha.

Desses 36 sets, para minha grande surpresa, a maioria deles estavam ainda completos. Fora uma ou outra mazela, facilmente corrigida com um pano húmido, consegui recuperá-los e expô-los no meu quarto com o orgulho de um artefacto arqueológico descoberto num canto do meu quintal. Contudo, ainda havia uma questão que me mantinha acordado durante a noite. O que fazer com os sets incompletos? Podia simplesmente guardá-los numa caixa e ignorá-los. Lamentar a minha negligência para com a minha memorabilia de infância e seguir em frente. Mas assim não o fiz. Não faz parte da minha natureza.

Durante as semanas seguintes procurar as peças que faltavam transformou-se numa espécie de obsessão. Revirei a minha casa de pernas para o ar, abri cada caixa de brinquedos, daqueles que tiveram a sorte de se resguardarem nos arrumos do sótão da casa dos meus pais e que não sofreram o mesmo destino dos restantes que ficaram no quintal à mercê da misericórdia dos elementos. Essa tarefa, até um certo ponto hercúlea e desgastante, teve os seus frutos. Consegui completar alguns dos sets e arrumei de uma forma mais organizada os meus jogos de tabuleiro, carros de colecção, e outros brinquedos que se amontoavam pelos arrumos do sótão.

Mas ainda havia alguns que teimavam em permanecer incompletos. Estes eram os sets mais antigos, aqueles que me ofereceram quando ainda não tinha idade para me lembrar deles, quanto mais para ter o cuidado necessário para os preservar. Procurei em várias lojas, no site da Lego, em fóruns, até que enfim descobri o Bricklink. Uma hub de lojas e utilizadores especializada na venda de legos por set ou à peça. Neste site através do número de série de um set, é possível ver o seu inventário e procurar por utilizadores que vendam a peça específica que desejas. Rapidamente descobri as peças que precisava e, embora estivesse desempregado, não tivesse qualquer proposta de emprego, e já contasse com alguns meses sem vencimento, comprei-as. Gastei cerca de cinquenta euros nesses meses para completar os sets que durante anos ficaram esquecidos num coberto ao fundo do meu quintal.

Podia ter esperado para arranjar emprego, podia simplesmente tê-los ignorado, mas assim não o fiz. Sim, cinquenta euros é pouco, facilmente gastas mais numa ida ao supermercado, em roupa, num concerto, ou num jantar ao nível de um Oxalá, mas para um desempregado, mesmo alguém com a cultura de poupar o máximo que podia, cinquenta euros é dinheiro a mais para gastar em algo tão banal como velhas peças de Lego. Mas assim fiz. Completei-os, não os conseguia ver assim, como já disse, não faz parte da minha natureza.

Assim que os completei, expu-los junto dos restantes no meu quarto e esqueci-me deles. A aventura tinha terminado. Os meus Legos estavam completos e os meus brinquedos estavam arrumados. A ansiedade de controlo sobre um pequeno pedaço da minha esquecida infância, estava enfim saciada.

Ontem, enquanto fazia Insanity e me questionava sobre a possibilidade de me ver forçado a prolongar o meu dia de descanso por causa dos compromissos que vou ter nos próximos fins-de-semana, encontrei-me a pensar sobre esta minha necessidade de controlo e rapidamente associei-a a este episódio com os meus velhos Legos.

Este pequeno período de redescoberta da minha paixão por estes blocos de plástico é a analogia perfeita para a minha necessidade de controlo em todos os aspectos da minha vida. E pela ansiedade que me assola sempre que esse controlo está fora das minhas mãos e longe do meu alcance.

Se uma colecção está incompleta, se um brinquedo está partido, ou se um Lego está perdido, posso sempre comprá-lo. Procurar no eBay, na Amazon, no OLX, em feiras de antiguidades, em fóruns, e em conversa com outros aficionados. Se um livro ficar por ler, encontro tempo para o terminar. Se hoje não posso fazer Insanity, acordo mais cedo, deito-me mais tarde, salto o próximo dia de descanso, ou simplesmente continuo amanhã no mesmo ponto como se hoje não tivesse acontecido. Se preciso de ter uma boa nota num teste, estudo. Se preciso de emprego, preparo bem a entrevista. Se quero impressionar o meu chefe, chego mais cedo, trabalho o dobro, mostro proatividade, e dou o meu máximo. Contudo, esta fórmula não funciona em todos os aspectos da tua vida.

No amor, na amizade, e até mesmo com a tua família, não dependes apenas de ti. Podes ser simpático, podes saber ouvir, podes ser prestável e estar sempre lá quando alguém precisa de ti. Mas isto pode não ser suficiente. Mesmo que não tomes alguém por garantido, que te esforces por ser bom para alguém, que procures surpreender quem te rodeia com grandes acções, ou com pequenos gestos. No fim do dia, nunca estás dependente de ti próprio. Duas pessoas que no papel são perfeitas uma para outra, podem nunca se apaixonar, podem não conseguir manter uma conversa, ou até mesmo dispensar a companhia uma da outra.

Não existe uma fórmula matemática para o amor ou para a amizade. São eventos aleatórios que aproximam as pessoas, desejos incontroláveis que as mantêm juntas, e que podem tão facilmente também as separar. São dados lançados com um resultado incerto, uma aposta, um risco, um desafio com o qual temos que saber lidar, independentemente das suas consequências.

O mesmo acontece com a nossa família, uma lotaria genética e de circunstância que pode ou não ser algo com o qual nos identificamos. Tudo isto elementos completamente fora do nosso controlo. Não existem fóruns com as soluções para um coração partido, não existem sites com instruções para completar uma amizade, e não podes comprar uma nova infância no eBay.

Sou vítima de mim próprio. Da minha fértil imaginação. Da minha necessidade de controlo. Da ansiedade por um futuro inexistente, e da frustração por um passado presente. Não é fácil aceitar a perda de controlo. Não é fácil ignorar um Lego incompleto. Não para mim, não faz parte da minha natureza.

O controlo é uma obsessão. Um mal, por vezes útil, por vezes necessário, mas, na maior parte das vezes, não passa de um mal doentio. Um mal que te consome aos poucos. Uma chama que queima lentamente. Um travão incapacitante.

Jamais ignoraria os meus Legos, quer os velhos, quer aqueles que hoje colecciono, mas preciso de perder o controlo. Preciso de saber aceitar que quando perco uma peça, não preciso de a substituir, quer no imediato, ou até mesmo nunca. Alguns brinquedos ficam melhor guardados nas suas caixas, outros nas recordações que tão saudosamente guardamos. Nenhum Lego vale uma noite perdida. Nenhum Lego precisa do teu controlo. Nenhum Eu precisa do meu controlo.

Preciso de perder o controlo. Preciso de ignorar aquela peça incompleta. Preciso de perder o controlo. Preciso de esquecer o brinquedo partido. Preciso de perder o controlo. Preciso de perder o controlo.

Tuesday, September 22, 2015

A Minha Infinita Playlist

The Tunnel, The Perks of Being a Wallflower
Suddenly it was as if the roar of the crowd, and the cheers of my team mates were all sounding from a thousand miles away, and what remained in that bizzare muffled silence was only Peyton, the girl whose art and passion and beauty had changed my life. In that moment, my triumph was not a state championship but simple clarity, the realization that we'd always been meant for each other and every instinct to the contrary had simply been a denial of the following truth: I was now and always would be in love with Peyton Sawyer.
An Unkindness of Ravens, Lucas Scott

A minha playlist do Spotify é muito variada. Tal como em muitos aspectos da minha vida, tenho um elevado nível de fidelidade para com as bandas e as músicas que gosto. Sejam estas recém-descobertas ou arquivos longínquos do meu despertar musical em 2003. As dezanove horas de duração da minha playlist não reflectem sequer uma pequena parte do meu repertório real, pois este teria uma duração quase infindável, e incomportável para qualquer servidor, por mais variado que este seja.

Apenas uso o Spotify no trabalho. Em viagem recorro ao meu leitor de mp3, e em casa, quando estou longe do PC e da minha longa biblioteca de música, gosto de parar para ouvir os meus álbuns no gira-discos, na aparelhagem, no leitor de CDs, ou até mesmo no meu sistema de home cinema. Hoje, a introdução de uma música fez-me lembrar outra que costumava ouvir nos meus tempos do secundário. Procurei por ela e acabei por ouvir dois álbuns inteiros desta artista.

Embora conheça quem me conteste em relação a isto, pelo menos para mim, é impossível não associar uma música a um momento, a uma história, a um episódio da tua vida, ou a uma época em particular. Seja pela letra, por quem ta deu a conhecer, ou pelo preciso instante em que a ouviste pela primeira vez. Por vezes são coisas profundas, outras nem por isso. Há uma música, Nobody to Love de Sigma, que sempre que a ouço, lembro-me de andar no banco de trás do carro da Mafalda enquanto o Ricardo o conduzia com o seu chapéu de palha.

A música tem este poder. De nos transportar no espaço e no tempo para coisas cujo espectro se estende desde a mais comum das banalidades até ao mais profundo dos sentimentos. Enquanto esta música leva-me para Ervedal da Beira, para o Verão de 2014, e para o chapéu do Ricardo, outras têm um efeito muito diferente. Fight Against the Hours, de Lene Marlin, lembra-me uma noite na minha adolescência em que não conseguia dormir. Peguei no meu leitor de CDs e sentei-me no canto do meu quarto a espreitar pelos buracos da preciana para o escuro da penumbra nocturna da minha rua, pontuada por uma ou outra estrela. Lembro-me de chorar, e do conforto que sentia ali sentado naquele canto, onde ninguém me via, e onde mais nada se passava que não o silêncio e a doce voz da Lene Marlin.

A música de hoje guardo algures no meio deste espectro. Levou-me para uma tarde de Inverno no nono ano. Uma visita de estudo a Serralves e à Biblioteca Almeida Garrett, com o inevitável passeio pelos jardins do Palácio de Cristal. Não me lembro das exposições que vi, de um único quadro, nem tão pouco do motivo que nos levou até lá. Lembro-me de levar comigo este álbum, de o ouvir a meias com o Tiago, e de como a Sara disse que já o conhecia e que já o tinha ouvido incontáveis vezes.

Nunca gostei muito de visitas de estudo. Não que a pausa das aulas não fosse boa, mas a viagem de autocarro era sempre algo tenebrosa. Acabava quase sempre por ficar sozinho, ou sentado ao lado de alguém com quem não me dava bem o suficiente para ter um qualquer tipo de entretenimento que fizesse o tempo voar, e o desconforto da situação esvanecer. Embora isto fosse regra comum ao longo do liceu, não esperava que o mesmo sentimento me perseguisse até à faculdade.

No segundo ano da minha licenciatura tivemos uma “visita de estudo” à ZON em Lisboa. Passei grande parte da viagem de ida a dormir após a Graça me abandonar mais uma vez num assento vazio. No regresso, o Nuno acompanhou-me, mas como sempre, pouco tínhamos para dizer um ao outro. Felizmente estava a dar um filme na TV do autocarro, Wild Hogs. Uma comédia sobre um grupo de motoqueiros a sofrer de uma crise de meia-idade que decidem abandonar os subúrbios durante alguns dias para se aventurarem na América profunda. O filme em si, hoje, não é nada de especial, mas talvez por cansaço, por não ter mais nada que fazer, ou por me deixar contagiar pelos risos que me rodeavam, eu e o Nuno passámos a viagem a rirmo-nos bem alto de cada uma das peripécias daquele grupo de amigos, inadaptados ao Mundo dos gangues de motoqueiros.

A semelhança entre estes dois momentos, entre uma longa série de episódios incapazes de encaixar numa única música, fez-me pensar que por vezes, parece que nunca conseguimos verdadeiramente deixar o liceu. Na Universidade, no emprego, no convívio com um qualquer grupo de pessoas, encontramos sempre os mesmos rostos. Aqueles que ainda não se conhecem, os que sentem a necessidade de se afirmar, os populares, os aborrecidos, os que gravitam à volta de outros e os que fazem os outros gravitar. Os crânios, as princesas, os desportistas, os incorrigíveis, e os criminosos. Um Breakfast Club perpétuo, espalhado pelos escritórios, pelas bibliotecas, pelas cantinas, pelos bares, pelos cafés, pelos clubes, enfim, em qualquer lugar onde um grupo de pessoas se pode reunir.

Contam velhas histórias, anedotas e disparates, falam das suas vidas, das de quem gostam e de quem desgostam. Uns mentem, outros são honestos. Uns resguardam-se, outros abrem-se. Na verdade, talvez a única coisa que muda do Liceu para a vida adulta sejam os temas que partilhamos, os pretextos que usamos para nos reunir, e as pessoas que esvanecem e que se deixam alienar por outros compromissos das suas vidas.

Já não falamos do último episódio do Dragon Ball, não trocamos cartas Pokémon, não experimentamos bebidas, não combinamos festas clandestinas, não planeamos partidas aos Professores, nem entramos à socapa na escola, ou num outro sítio qualquer onde não devíamos estar. Hoje falamos de filosofia, de política, de crenças, de espiritualidade, de sexo, de desporto, de viagens, de séries, de filmes, de música, enfim, de tudo aquilo que nos inspira. De tudo aquilo que nos interessa ou que achamos importante o suficiente para partilhar com alguém.

Sim, talvez nunca deixemos verdadeiramente o liceu. Este faz parte de nós, não apenas de um passado que desejamos reviver, ou que desesperamos por esquecer, mas também de um presente que é hoje real pelas bases que criámos nessa altura, por quem conhecemos, por aquilo que fizemos, e por aquilo que aprendemos. Nesses longínquos seis anos que, em retrospectiva, não foram assim tão diferentes de todos os restantes que se seguiram.

A escola ficou lá. Com ela, as pessoas. Momentos que não passam de velhas fotografias, nomes que apenas ecoam em memórias há muito esquecidas. Já nós, nós crescemos, mudámos, criámos o nosso próprio liceu. Construímos a cada dia o nosso micro universo de uma vida de partilha de conhecimento, e de experiências, sem os limites de um recreio, sem os limites de uma turma, ou de um “concurso” de popularidade. Escolhemos as pessoas que dele fazem parte e reservamos para esse grupo todas as nossas alegrias, tristezas, e momentos banais que dão cor a cada dia que vivemos. A cada momento nosso, gravado nas letras de uma qualquer música que ainda aguardamos por um dia ouvir.

Monday, September 14, 2015

Insanity, the Devil You Know

Foto DR
Algumas mais válidas que outras, mas é sempre fácil encontrar desculpas. Não tenho tempo, não tenho espaço, não tenho energia, estou cansado, está frio, estou doente, tenho a perna ferida. Embora as últimas sejam aceitáveis, não passam disso, desculpas.

No ano passado, após duas tentativas falhadas e uma primeira semana atribulada, consegui encontrar a força de vontade necessária para completar os 60 dias do meu programa de Insanity. Sem interrupções, entre festivais, férias e uma dor de dentes terrível na última semana, consegui chegar ao último fit test, na melhor forma da minha vida, e pronto para continuar. Tinha inicialmente comprometido comigo próprio a iniciar o Focus T25 pouco tempo depois do Insanity para não perder a forma e para continuar a melhorar a minha resistência e a tonificar o meu corpo. Contudo, após a operação para retirar o siso, e as duas semanas de recuperação que se seguiram, chegou o Inverno.

O frio, a desmotivação, a falta de energia e a ansiedade que assolou os meses que se seguiram, e que ainda hoje estou a tratar, fizeram-me adiar continuamente esta ideia. A mudança para Coimbra também não ajudou. Embora estivesse mais perto de casa e as viagens ao fim-de-semana fossem mais curtas, a carga horária do meu novo trabalho e a adaptação a uma nova cidade, não ajudaram a encontrar a motivação necessária para dar aquele importante passo na recuperação da minha actividade física.

Engordei bem mais do que aquilo a que estava habituado e atingi um ponto em que a única alternativa viável era parar com as desculpas e começar de novo. Comecei por correr à noite num circuito de manutenção perto de minha casa, entre dois a quatro quilómetros por noite. Notei alguma diferença, mas estava longe de ser suficiente. Pelo meio tive um pequeno acidente nas escadas que resultou numa grande ferida na minha perna direita, e num longo período de recuperação.

Tentei recomeçar o Insanity, mas faltava-me energia, motivação e espaço. O meu quarto no meu anterior apartamento tinha pouco espaço e mal conseguia fazer os exercícios sem bater contra alguma mesa ou contra a própria cama. Experimentei o Focus T25, mas a curta duração dos vídeos e os exercícios estranhos que não conseguia dominar desmotivaram-me ainda mais. Foi aí que decidi regressar ao denominador mais básico, ao demónio que já conhecia, à montanha que já tinha escalado e que reconhecia em mim o potencial necessário para a voltar a escalar. Essa montanha tem o nome de Insanity, e ontem concluí o seu primeiro mês.

Ao entrar agora na semana de recuperação, sei que ainda me restam mais trinta dias de esforço pela frente. Defini para mim próprio um novo plano de treino que vou tentar adoptar quando terminar o segundo mês de Insanity. E desta vez tenciono levá-lo até ao fim. Vivo agora num novo apartamento. O meu quarto tem espaço mais do que suficiente para fazer os exercícios necessários, e não quero voltar a perder toda esta energia que o treino do Shaun T me oferece. Não tenho desculpas, e fora algum imprevisto vou levar este plano até ao fim.

Descrevo-o hoje como uma espécie de motivação extra para mim. Um manifesto que me faça recordar constantemente o compromisso que hoje faço. Após terminar o Insanity vou repetir a primeira semana. Em parte para reduzir a carga de esforço sem ter que parar logo, mas também para ver o quão diferente consigo fazer os exercícios do primeiro mês após as longas cargas do segundo. Depois de uma semana de descanso, vou retomar as corridas no circuito de manutenção durante duas a três semanas. Intercaladas com exercícios de Pure Cardio e Cardio Abs sempre que chover, com Cardio Abs e Insane Cardio Abs todas as terças e quintas-feiras. Por fim, vou experimentar o novo programa Insanity Max 30. Se, tal como aconteceu com o Focus T25, vir que isto não serve para mim, reinicio o meu programa de Insanity até atingir um estado físico capaz de satisfazer os meus objectivos.

Não quero voltar ao meu estilo de vida sedentário. Não quero voltar a adiar velhos projectos, assim como alguns dos compromissos que fiz ao longo do último ano. Talvez no futuro me inscreva num ginásio, talvez uma rotina regular de treino seja suficiente. Não sei. Apenas sei que, neste momento, não vai ser por falta de força de vontade que não vou conseguir terminar o segundo mês de Insanity. Um passo de cada vez. Um plano traçado. Uma aventura pessoal na qual já parti, e onde o importante não é chegar mas sim, continuar caminhando.

Dig deeper!

Thursday, August 13, 2015

The Perks of Being a Wallflower

The Perks of Being a Wallflower, Imagem DR
I know there are people who say all these things don’t happen. And there are people who forget what it’s like to be sixteen when they turn seventeen. I know these will all be stories some day, and our pictures will become old photographs. We all become somebody’s mom or dad. But right now, these moments are not stories. This is happening. I am here, and I am looking at her. And she is so beautiful. I can see it. This one moment when you know you’re not a sad story. You are alive. And you stand up and see the lights on the buildings and everything that makes you wonder. And you’re listening to that song, and that drive with the people who you love most in this world. And in this moment, I swear, we are infinite.
Charlie, The Perks of Being a Wallflower

Passeava pela Feira de Lisboa, após almoçar no Great American Disaster. Chovia no início daquela tarde. Chuva miudinha. Aquela que é quase tolerável ao ponto de não te fazer procurar abrigo, mesmo na ausência de um guarda-chuva. Estava já quase a sair quando passei pelo pavilhão da Fnac. Tinham livros originais com 20% de desconto. Entre eles estava o The Perks of Being a Wallflower. Embora o filme seja um dos meus preferidos, ainda não tinha lido o livro, nem tão pouco este constava na minha lista de futuros livros a comprar. Um pouco por impulso, trouxe-o juntamente com o Looking for Alaska de John Green.

Este ano, por um ou outro motivo, foram escaços os momentos em que simplesmente parei para ler um livro. Embora as viagens de comboio tenham regressado à minha rotina semanal, entro nas carruagens tão cansado, que ler é a última coisa na minha mente. No passado dia 7, tirei férias para ir a Vagos ver Within Temptation. Infelizmente, como nem o Luís, nem o Paulo podiam ir, acabei por decidir ficar por casa. Dias antes tinha terminado de ler o An Abundance of Katherines, também escrito pelo John Green, após uns longos meses de tentativas falhadas de ler mais que umas dez ou vinte páginas por semana. No meu quarto estava The Perks of Being a Wallflower, do Stephen Chbosky, separado dos restantes livros para não me esquecer de o trazer de volta para Coimbra.

Depois do almoço, já aborrecido sem algum plano para o que restava do meu dia de férias, passei pelo meu quarto e olhei para o livro. Pensei por alguns instantes e decidi começar a lê-lo. Já sabia que a sua história era contada através de cartas escritas para uma personagem externa e com pouca ou nenhuma descrição, com quem o leitor podia associar-se e ler o livro como se estas cartas tivessem sido endereçadas para si próprio.

Não estava à espera que este método de escrita fosse tão eficaz. O livrou colou-me logo na primeira página e não consegui parar de o ler. Terminei-o pouco depois do jantar. Duzentas e trinta páginas lidas num único dia, com pausas apenas para ir ao Continente com os meus pais, e para comer alguma coisa quando a fome apertava.

Como fã do filme, não esperava que o livro fosse capaz de expandir tanto o pequeno Universo de Charlie, e de acrescentar uma incrível onda de pormenores e de riqueza de storytelling, numa obra tão breve.

O livro em si é bem mais intenso. É impossível ficarmos indiferentes ao sofrimento de Charlie, mesmo que não tenhamos passado pelo mesmo, ou conhecido alguém que viveu algo parecido. Esta história não é uma história de amor. É uma história sobre depressão, sobre as pressões sociais de crescer nos 90s, sobre solidão, sobre família, sobre a introspecção das nossas próprias mentes, sobre a amizade, e sim, também sobre amor.

Há três coisas neste livro que me tocaram e nas quais ainda penso, embora já tenha digerido a sua história há alguns dias. É verdadeiramente diferente ler um livro num único dia e absorver tão intensamente cada sentimento dos seus personagens, em vez de o repartir por várias porções, e suavemente alimentarmos-nos com cada pedaço da história depois de saborearmos cada momento das páginas que terminámos de ler. E talvez seja por essa inesperada intensidade que este livro me tocou tão profundamente.

Mas antes de partir para uma deliberação caótica sobre o efeito que este livro teve em mim, regresso àquilo que estava prestes a enumerar. Digo três coisas, e não três momentos, ou três frases, pois não sei que outro nome lhes dar. São sentimentos, experiências, episódios, palavras, enfim, coisas que me tocaram e que me fizeram pensar na minha adolescência, na minha infância, na minha vida, e no meu momento actual.

A primeira foi algo que nunca me disseram, pelo menos, não quando mais precisava de o ouvir. Faz bem chorar. O Charlie chora em diversos momentos ao longo do livro, bem mais que no filme, e talvez de forma um pouco exagerada. Quer por tristeza, quer por felicidade. O Charlie chora e sempre que o faz, alguém o encoraja a não esconder o que sente. Ninguém lhe diz para parar. Ninguém trata as suas lágrimas como um sinal de fraqueza, mas sim como algo natural e necessário, como parte de quem ele é, e como um alívio para o sofrimento constante que ele não consegue compreender.

A segunda surge logo nas primeiras páginas, quando ele descreve a pessoa para quem está a escrever estas cartas. Quem eu fui no liceu, reflectia-se de forma quase perfeita nessa descrição. Por mais breve que seja, conseguia reconhecer-me naquelas palavras. Não só no liceu, mas nos meus anos de faculdade, e até muito recentemente, revia-me naquelas palavras. Contudo, já não me sinto como essa pessoa que fui em tempos. Não me sinto merecedor da atenção revelada pelas cartas que o Charlie endereçou a alguém. Esse alguém, em tempos, podia ter sido eu, mas não hoje, não quem eu sou hoje. Esta revelação entristece-me. Esta revelação dá-me vontade de chorar. Algo que não consigo fazer.

Por fim, a última coisa que me tocou foram as palavras da Sam para o Charlie. Mesmo no fim, antes de se despedirem. O motivo pelo qual essas palavras ainda hoje ecoam na minha mente vou guardá-lo apenas para mim. Não por ser demasiado pessoal, mas sim por ser algo diferente para cada pessoa que as ler. Não quero de qualquer forma tentar influenciar aqueles que ainda não leram este livro, e que o desejam fazer. Nem tão pouco estragar a surpresa de o descobrirem pelas vossas próprias mãos, como eu fiz naquela tarde chuvosa em Lisboa.

The Perks of Being a Wallflower é mais que um livro, mais que um filme, mais que uma história. É algo único. É uma das minhas histórias preferidas. Sempre o foi, apenas ainda não tinha sido escrita, e eu ainda não a tinha descoberto.

Thursday, June 25, 2015

Até Sempre, Alicarius

Foto DR
A recordação é o perfume da alma. É a parte mais delicada e mais suave do coração, que se desprende para abraçar outro coração e segui-lo por toda a parte.
George Sand

Ano e meio depois, voltei à Casa da Pedra. Retenho de lá mais memórias da minha passagem pelo INESC Porto, agora INESC TEC, do que de qualquer outra coisa. Ultimamente deixei de pedir queijo sempre que como uma francesinha. Este é normalmente substituído por uma camada extra de fiambre. Não é a mesma coisa, mas, infelizmente, não posso continuar a brincar com a minha intolerância.

Embora o regresso à Casa da Pedra esteja, desta vez, ligado ao aniversário de um amigo, e à minha estreia do Jurassic World em IMAX, aquele espaço, e as suas francesinhas, sempre estiveram, de certa forma, ligadas à minha passagem pelo INESC Porto. Era 16 de Janeiro de 2011, tinha-me despedido de Coimbra há dois dias. Era domingo e amanhã regressava ao Porto para começar a trabalhar no INESC Porto. Eu, e alguns amigos, decidimos celebrar o meu regresso a “casa” com uma francesinha no L’Auberge no Furadouro. Não sei se foi pelo momento que esta representava, ou pela qualidade do cozinheiro que entretanto se mudou para outras paragens, mas aquela foi, naquele dia, a melhor francesinha que alguma vez tinha comido fora do Porto. E assim se manteve até ao momento que lá regressámos.

Desde que o L’Auberge trocou de cozinheiro, as suas francesinhas, não mais voltaram a ser tão boas como antes. Apesar de ainda manterem algum nível de qualidade, não chegam sequer a rivalizar com as do Alicarius em Aveiro. O actual número um na nossa lista da melhor francesinha fora do Porto. Infelizmente, também eles mudaram recentemente de gerência e de cozinheira. Mal soubemos desta inevitável mudança, combinámos um regresso ao preciso local onde tudo começou.

Curiosamente, as mesmas pessoas com quem partilhei essa última noite no Alicarius, foram aquelas que me acompanharam nesta recente visita à Casa da Pedra. O Paulo, o Luís, o João, e a Fabiana. Os últimos quatro que, comigo, provaram a última infame francesinha com pão da avó, do Alicarius. Desde essa noite que lá não regressei. Talvez a qualidade da francesinha se mantenha igual, talvez esteja melhor, ou, talvez tenha piorado. Para já, esse é um mistério que não anseio por resolver.

A minha passagem pelo INESC Porto não foi mais longa que um ano. Contudo, foi tempo suficiente para criar amizades que ainda hoje mantenho, para conhecer novos locais, para ganhar experiência e para visitar restaurantes como a Real Churrasqueira e a Casa da Pedra, um dos meus locais preferidos para comer francesinhas no Porto.

Tudo muda com o tempo. O emprego, as pessoas, as cidades, os gostos, e até mesmo o paladar. Este ano, num curto espaço de tempo, já me despedi de algumas coisas que tomava como garantidas. Coisas que faziam parte da minha rotina, e que, nem sempre, as pude aproveitar da melhor forma possível. O Alicarius é apenas mais uma numa longa lista de despedidas que jamais terminará de crescer. É assim que a vida funciona. Um breve momento que sobrevive apenas na memória daqueles que o partilharam.

Ainda me lembro da primeira vez que visitei o Alicarius. Eu, o Paulo e o Luís. Estávamos lá não apenas para provar a francesinha, mas também para debater ideias para um novo projecto que queríamos fazer em conjunto, o Rarely Interesting. Um site sobre tudo, com críticas a jogos, livros, música e filmes. Um site que morreu à nascença, mais pela minha falta de empenho, que a deles. Um projecto que, infelizmente, não foi para a frente, e que volta e meia, penso tentar ressuscitar. Apenas mais uma numa longa lista de ideias que acabam por nunca sair do papel.

Foi esse o pretexto que me deu a conhecer aquela que é, ainda hoje, a melhor francesinha fora do Porto. Por enquanto, não posso aconselhar ninguém a lá regressar, pois ainda não provei os produtos da nova gerência, nem tão pouco conheço quem o tenha feito.

Talvez um dia lá regresse. Talvez um dia essas memórias voltem a solidificar-se num local que é muito mais para mim, para nós, que um mero restaurante. Tenho saudades desta constante.

Anseio por constantes, nas quais ainda me possa rever. São cada vez menos, e cada vez mais escassas. Para já, resta-me a Casa da Pedra e o Verso em Pedra. Talvez por terem pedra no nome, movem-se lentamente pelo tempo com a confiança de um continente granítico, e a estabilidade de uma rocha resguardada dos efeitos da erosão.

Mas por agora, apenas me resta dizer três simples palavras. Até sempre, Alicarius. Até ao meu regresso. Até uma próxima recordação.

Monday, December 15, 2014

Dez Anos de Bloguer

Coelho Amarelo
Como uma Fénix que não renasce das cinzas

Azul, cor da água, do céu, do calmo e da esperança. Água de onde a vida se proliferou, vinda do azul celestial depois de uma viagem longa, mais longa que qualquer viagem alguma vez feita. Vida que das chamas se ergueu para nelas voltar como uma Fénix que não renasce das cinzas. Não, não é aí que chegámos, nem iremos chegar. A Pomba Azul, a esperança, o futuro, a paz. Aquela luz que brilha no horizonte, tal como a estrela Polar guiou as velhas Naus dos descobrimentos, como coelhos na toca, nós agora ascendemos a uma nova realidade de um azul vivo e pacífico que nos guia eternamente, até á ultima chama se apagar, e a Fénix voar o seu último voo.
Manifesto Blue Dove

Dez anos. Faz hoje dez anos que publiquei o meu primeiro artigo na blogosfera. Era 15 de Dezembro de 2004, uma noite de quarta-feira não muito diferente de uma outra qualquer. A minha presença online resumia-se a dois sites, o Coelho Amarelo e o Paleo World, o primeiro criado como página pessoal dedicada à minha turma do Secundário, e o segundo como um projecto de uma base de dados sobre as diversas espécies de Therizinosaurus até então descobertas.

Dias antes tinha criado o Blue Dove na plataforma de blogues do Sapo. A ideia, e o nome, surgiram de uma breve prosa incoerente que escrevi para o Coelho Amarelo. Por entre essas linhas nasceu a ideia de criar um blogue, um conceito que na altura ainda não compreendia por inteiro. Dei-lhe o nome de Blue Dove, procurei online por um logótipo que se adequasse a ele, e escolhi um layout azul com aspectos marítimos, entre os templates do Sapo.

O Blue Dove durou pouco mais de um ano, com mais de cinquenta artigos publicados. Este blogue foi, ao longo de 2005, o meu diário pessoal, o meu porto de abrigo onde escrevia sobre tudo e mais alguma coisa. Foi lá que escrevi os meus primeiros contos, as minhas primeiras histórias, os meus primeiros poemas. Foi lá que nasceram rubricas como O 23 e Querido Diário, que ainda hoje se mantêm vivas neste espaço.

Foram dez anos e Quatrocentos e Quarenta e Quatro posts, divididos por sete blogues. O Blue Dove, o Story Writer, a Antologia do Eu, e o 25 de Julho, há muito já extintos, sobrevivem hoje no arquivo do A Flock of Blue Doves. O único, além deste, e do Mercúrio do Porto, que ainda mantenho activo, embora sem a periodicidade que, apesar de errática, o No Sense of Reason continua a praticar.

O meu primeiro artigo na blogosfera não foi um extenso ensaio filosófico, nem tão pouco uma crónica do dia-a-dia. Não foi um poema, ou um conto. Não foi uma entrada de diário, nem tão pouco possuía algo de intimamente pessoal. Não. O primeiro texto que alguma vez publiquei era sim, sobre o Sporting CP. Um breve esclarecimento sobre como funcionava a classificação da Liga que, à data, não estava a ser respeitada pelos jornais desportivos.

Na altura não havia facebook, nem twitter, não havia outra forma de publicar um pensamento maior que uma simples frase. E o IRC ou o MSN Messenger não eram os locais ideais para o fazer. Entrei na blogosfera por sentir falta de espaço. Pela necessidade de dizer algo mais, de projectar uma ideia e concretizá-la. Sem qualquer limite de caracteres ou espaço, e eventualmente, com a possibilidade de a alimentar com imagens, som e até mesmo vídeo.

O Blue Dove nasceu de uma necessidade, mas mantém-se ainda hoje vivo por algo bem mais profundo. Não é um simples blogue extinto, é uma Fénix renascida. Com uma nova vida, um novo design, um novo conceito. Hoje não é uma Dove solitária, mas sim uma Flock of Blue Doves.

Dez anos passaram e continuo a escrever. Para mim, para outros. Para quem quiser e gostar de me ler. Escrevo porque sim. Porque gosto. Porque não há sentido, ou razão. Apenas porque escrevo.

Quatrocentos e Quarenta e Quatro posts, entre Crónicas, Introspecção, Contos, Poemas, Momentos, Notícias, Reportagens, Vídeos e Imagens. Foram projectos que ficaram pelo caminho. Foram textos que ficaram por escrever. Foram datas que ficaram por assinalar. Foram dez anos. Vão ser muitos mais.

Hoje é dia 15 de Dezembro de 2014. Há dez anos publiquei o meu primeiro artigo no meu primeiro blogue. Hoje, escrevo mais uma página num livro sem sentido. Perpétuo, infinito, eterno. Tão contínuo e constante como qualquer linha sem senso, nem razão. Pois faço hoje dez anos, mas serão ainda muitos mais.

Believe in me, and I’ll believe in you!