Tuesday, March 23, 2021

Duas da Manhã

How I Met Your Mother; Imagem DR

Não é raro encontrarmos vídeos, memes ou artigos com uma lista das principais lições que a série How I Met Your Mother nos deu. Uma espécie de 10 mandamentos para os jovens adultos que cresceram com as aventuras de Ted, Marshall, Lily, Barney e Robin como a sua principal sitcom de referência.

Estas publicações são normalmente acompanhadas por um comentário que já virou lugar-comum. Algo como, ‘concordo com quase tudo, excepto com a ideia de que nada de bom acontece depois das duas da manhã’, seguido de um emoticon a indicar que o autor conta no seu repertório com uma série de conquistas que tiveram lugar para lá das duas da manhã.

Parabéns, não só não aprendeste nada com a série como perdeste por completo o ponto desta lição.

Neste episódio Ted, que na altura namorava com Victoria, decide mentir e dizer que eles tinham terminado para justificar passar a noite com Robin. A mentira vem ao de cima quando Robin atende o telemóvel de Ted por engano e do outro lado está Victoria que nada sabe sobre o assunto. Robin confronta Ted e este acaba por confessar o erro.

O ponto mais relevante desta lição não é a hora a que isto ocorre mas sim a mensagem de que não devemos tomar decisões importantes quando estamos cansados e com sono. Para Ted esse momento tem lugar às duas da manhã, para uns será mais cedo, para outros será mais tarde.

Isto é válido para algo tão simples como uma compra por impulso, como para decisões de maior peso sobre a vossa vida pessoal, ou profissional.

Uma ideia que parece ser boa a meio da noite, nem sempre o é na manhã seguinte. Se, depois de um longo dia, estamos exaustos e com sono devemos apenas ir dormir, deixando para amanhã seja qual for a decisão que devemos tomar.

Chama-se “dormir sobre o assunto”, pois após uma boa noite de descanso e com uma mente mais fresca e clara somos mais capazes de tomar a decisão certa.

Se Ted tivesse ido para casa, não só teria terminado com Victoria de uma forma mais justa para ambos, como a sua relação com Robin teria começado mais cedo.

Acredito que muitas pessoas já tenham vivido episódios memoráveis para lá das duas da manhã, mas esse não é o foco desta ideia. O importante a reter é que nunca devemos tomar decisões precipitadas quando não estamos em condições físicas e mentais para o fazer.

Seja meia-noite, duas, quatro ou oito da manhã, quando atinges o teu limite, desliga o computador, guarda o telemóvel, vai para casa e diz ‘até amanhã’. Acredita, não te vais arrepender.

Wednesday, December 02, 2015

The Man in the High Castle

Imagem DR
A weird time in which we are alive. We can travel anywhere we want, even to other planets. And for what? To sit day after day, declining in morale and hope.

Philip K. Dick, The Man in the High Castle

Sou um ávido consumidor de séries. Durante anos a minha lista de episódios semanal, entre sitcoms, séries e anime ultrapassava confortavelmente os dois dígitos. Encontrava tempo em todos os intervalos que tinha. Quando chegava a casa, depois do jantar e, se necessário, sacrificava uma ou duas horas de sono para me manter a par dos mais recentes desenvolvimentos.

Hoje, o meu tempo é muito mais escasso, e esses intervalos são bem mais curtos. Ainda tento manter-me a par das poucas séries que sobreviveram ao passar dos anos, mas à medida que estas são canceladas ou que simplesmente chegam ao fim, em vez de as substituir por algo novo, deixo um espaço vazio, preenchido por algo mais urgente.

Por este motivo, são raras as séries novas que consigo acompanhar. Por vezes, durante as férias, num fim-de-semana mais livre, ou numa noite mais longa, consigo recuperar algum do tempo perdido e dar uma olhadela nas sugestões mais recentes. Foi isso que aconteceu este fim-de-semana.

Pela primeira vez em algum tempo senti a necessidade de ver uma série inteira de uma só vez. Simplesmente não consegui parar. Embora a primeira temporada tenha apenas dez episódios, cada um tem a duração de uma hora. Dez horas. Foram dez horas partilhadas entre sábado e domingo, dedicadas apenas a esta série. Dedicadas à história de Frank e Juliana, de Joe e Smith, num Universo paralelo onde as forças do eixo saíram vitoriosas da Segunda Guerra Mundial. É esta a premissa de The Man in the High Castle.

Inspirada no livro homónimo do autor norte-americano Philip K. Dick, The Man in the High Castle é um olhar alternativo da História Mundial, através de um paralelismo ideologicamente inverso de uma Terra dividida ao meio entre duas superpotências, a Alemanha Nazi, genocida e tecnologicamente evoluída, e o Império Japonês, a desfolhar um leve princípio liberal mas tradicionalmente opressor.

Embora nos sejam oferecidos alguns aperitivos sobre como este novo Mundo é desenhado para lá das fronteiras dos EUA, a história desenrola-se quase inteiramente em três cidades norte-americanas, Nova Iorque, São Francisco e Canon City. Neste Universo os EUA foram divididos em três, o Grande Reich Nazi no lado este, os Estados Pacíficos Japoneses no lado oeste, e uma zona neutra conhecida como a União dos Estados Americanos Livres. Este terceiro não é mais que um país fantoche do Governo Nazi, uma “buffer zone” entre os dois impérios, uma zona sem lei, patrulhada por Marshalls, muito ao estilo do Velho Oeste.

Um Mundo alternativo, envolto por uma profunda carga negativa, expressa numa bela cinematografia, fria, carregada, enfim, adequada ao pesar que duas forças governadas por ideais malignos impõe sobre a pouca população que resta após vagas constantes de opressão, genocídio e lavagem cerebral.

The Man in the High Castle segue a história de um grupo de pessoas presas neste Universo. Uma série de películas começam a surgir com imagens da nossa História, dos eventos que não aconteceram neste Mundo. A vitória dos Aliados, a capitulação da Alemanha Nazi e do Império Japonês, a divisão da Alemanha, e o crescimento da União Soviética. Um grupo de resistentes tenta juntar estas películas com o objectivo de retaliarem contra as forças opressoras e, assim, recuperarem um Mundo que nunca viveram mas que é seu por direito.

Algumas componentes de Fringe, uma das minhas séries preferidas, surgem pontualmente, à medida que a narrativa se desenrola. Mas quem está à espera de ver o Peter e a Olivia a entrarem em acção para salvar o dia, ou o Walter a comer alcaçuz, desenganem-se. Não há espaço para comédia, luz, ou esperança neste Universo sombrio. Esta é uma série profunda, pesada. Uma história que durante os próximos dias vai ocupar os teus pensamentos, os teus sonhos. Uma série que te faz pensar. Uma série que tão cedo não vais esquecer.

O clima cinzento e deprimente põe em alerta os teus mecanismos de defesa. Por momentos podes sentir-te tentado em imaginar o Marty McFly e o Doc a aterrarem o seu DeLorean no meio de Times Square para reporem a linha do tempo original. Mas esse pensamento fugaz será efémero, pois durante os sessenta minutos de cada episódio, nada mais será capaz de prender a tua atenção. Não há como fugir ao Universo de The Man in the High Castle.

Aguardo ansiosamente pela segunda temporada desta série. Algo que pode nunca chegar a ver a luz do dia devido à polémica campanha de marketing desempenhada pelo estúdio produtor da série. Talvez colocar símbolos Nazis e do velho Império Japonês em metros e paragens de autocarro norte-americanos não sejam a melhor estratégia para publicitar o vosso produto. Especialmente quando o público ainda desconhece o conteúdo da série.

Polémicas à parte, The Man in the High Castle vale cada segundo das dez horas que compõe a primeira temporada. Desde a terrorífica música de abertura, aos pins da lapela dos oficiais das forças do eixo. É nos pormenores que esta série constrói a sua história. Na grandiosidade de um Universo Alternativo, de uma América dividida, de um Mundo em chamas, de um futuro sem esperança.

The Man in the High Castle merece todos os elogios. Uma narrativa cuja profunda qualidade tão cedo não sairá da nossa memória colectiva.

Thursday, March 26, 2015

Adeus Glee

Imagem DR
Workin' hard to get my fill, everybody wants a thrill. Payin' anything to roll the dice just one more time. Some will win, some will lose. Some were born to sing the blues. Oh, the movie never ends. It goes on, and on, and on, and on.
Don’t Stop Believing, Journey

Há cerca de um ano regressava de comboio para casa. Ao meu lado, sentava-se uma rapariga com um tablet. Não o usava para trabalhar, ler, ou navegar pela Internet. Estava a ver séries. Desviei o olhar para não me imergir num qualquer acto de falta de educação. Contudo, a curiosidade, e o tédio da longa viagem, faziam com que os meus olhos acabassem, volta e meia, colados naquele ecrã.

A meio da viagem, reparei que ela estava a ver How I Met Your Mother. Não era um episódio qualquer. Não. Era o episódio daquela semana que ainda não tinha visto. Ou pelo menos assim parecia. Confirmei com ela e pedi-lhe se não se importava que o visse com ela. Assim aconteceu. Vi sem som, mas graças às legendas pude acompanhá-lo sem problemas. Era o penúltimo episódio da série.

Dias mais tarde, já de regresso à Covilhã, após um fim-de-semana atípico, sentei-me para ver o último episódio de How I Met Your Mother. Um episódio duplo, como é hoje tão habitual acontecer. Logo pela manhã a Teresa já quase me tinha estragado o final, com uma mensagem de incredulidade, mas que felizmente não continha qualquer spoiler. Decidi passar esse dia fora das redes sociais. Fui trabalhar, passei os olhos pelo twitter, sempre atento ao mínimo sinal de uma qualquer informação que não quisesse conhecer. E esperei. Esperei pelas seis da tarde. Pela hora de saída.

Cheguei a casa, e mal lanchei. Quando finalmente estava disponível sentei-me no meu quarto, sem distracções, pronto para o final de How I Met Your Mother. Não foi assim que aconteceu com Glee. Na verdade, não sabia que estava marcado para este sábado o último episódio. Embora já o tivesse confirmado há alguns meses, esqueci-me que o final de Glee seria também exibido como um episódio duplo.

Era um sábado como outro qualquer. Acordei cedo, almocei, e preparei-me para ir jogar basket com o pessoal. Voltei por volta das cinco e meia e, depois do banho, sentei-me para ver Glee. Um hábito que já tinha perdido há muito. Embora as primeiras duas temporadas me tivessem entusiasmado, o nível de absurdo e a aleatoriedade do argumento das seguintes fizeram-me quase desistir da série. Era a última que eu via e, por vezes, passava semanas sem sequer me lembrar de ver os episódios. Contudo, isto não aconteceu com a última temporada. A qualidade dos episódios subiu e a nostalgia, assim como a inevitável antecipação da despedida, tomaram lugar de destaque.

Pela primeira vez em meses, se não mesmo em anos, Glee foi a série principal daquele dia. O primeiro episódio, repleto de referências ao início, àquilo que fez com que os fãs ficassem colados à série, foi uma apologia do percurso de cada um dos actores, e um elogio ao Cory Monteith, actor que faleceu por overdose em 2013.

Já o segundo foi aquilo que o final de uma série precisa de ser. Uma resolução. Uma despedida. Uma conclusão. Embora nem tudo aquilo que fizeram com este episódio tenha sido bem feito, no geral, funcionou bem. Foi a despedida perfeita. O fim ideal para seis anos de uma série que, embora num papel secundário, foi uma constante no meu repertório semanal.

São incontáveis as músicas que Glee me deu a conhecer. Algumas, inclusive, com qualidade suficiente para ainda hoje integrarem a minha playlist. Glee foi aquela série que usava para desanuviar. Uma série onde os riscos eram baixos e onde a comédia e a música eram as verdadeiras estrelas. Era uma escapatória da dura realidade do dia-a-dia, e do soturno ambience de outras histórias que se perpetuam ao longo dos anos. De Stargate Universe a Spartacus, de Game of Thrones a Arrow.

“These walls and all these picture frames. Every name they show. These halls I've walked a thousand times. Heartbreaks and valentines, friends of mine all know, I look at everything I was and everything I ever loved. And I can see how much I've grown. And though the mirror doesn't see it, it's clear to me, I feel it. I can make it on my own”, Lea Michele, na sua performance da música original ‘This Time’.

Até sempre Glee. Obrigado por entreteres as minhas tardes de sábado. Obrigado pela perfeição da tua despedida.

Wednesday, April 02, 2014

Até sempre Ted, até já Covilhã

How I Met Your Mother
Faz hoje um ano que me mudei para a Covilhã. Um dia para recordar, mas também ele, um dia de recordes. Esta não é só a cidade em que mais tempo vivi fora daquela a que gosto de chamar de casa, é também o emprego mais longo que já tive na minha curta carreira.

O dia 2 de Abril marca, para mim, o início de uma nova era. A era pós-How I Met Your Mother. Ao fim de nove temporadas, seis das quais como espectador assíduo, vejo-me enfim privado daqueles vinte e três minutos de humor que ocuparam as minhas noites de terça-feira ao longo dos últimos seis anos.

Foi em Setembro de 2008 que tive pela primeira vez contacto com a série. Já tinha ouvido comentários por alto, em conversas entre o Paulo e o Luís. Durante esse Verão foram incontáveis as vezes que ouvi o Luís dizer, It’s gonna be Legen... Wait for it. Dary! Legendary, sem saber a origem dessa expressão.

Lembro-me de me contarem a premissa da série, já de noite, quando regressávamos do Furadouro depois da nossa habitual corrida. Pela sua descrição pareceu-me ser um drama idêntico a One Tree Hill, mas mais adulto. Não foram capazes de suscitar o meu interesse, mas mantive alguma curiosidade.

Numa tarde em Setembro, encontrava-me aborrecido e decidi pesquisar alguma informação sobre a série. Quando vi que o elenco incluía a Cobie Smulders, que conhecia como Juliet na série Veritas: The Quest, decidi ver o primeiro episódio.

Os vinte e três minutos de duração, o tom da cinematografia, e os cenários fixos, revelaram de imediato que estava perante uma sitcom, e não um drama como me fizeram entender. Esse episódio prendeu-me de imediato. Revia-me tanto no Ted que chegava a ser assustador.

Nas semanas seguintes nada mais fiz que ver os episódios das primeiras três temporadas. Deitava-me a pensar na série. Acordava com vontade de correr para o computador para ver mais um episódio. Ficava acordado, madrugada a dentro, a ver as peripécias do Barney, a admirar a forte ligação entre o Marshall e a Lily, e a torcer para que o Ted fosse capaz de reconquistar a Robin, secretamente sonhando que fosse ela a Mãe.

Consegui recuperar as três primeiras temporadas da série antes que a nova começasse. Foi uma sensação estranha ter que esperar uma semana por um novo episódio, quando estava habituado a vê-los de seguida até me cansar. Custou, mas consegui adaptar-me.

Ao longo dos anos a série perdeu alguma da sua qualidade. As últimas temporadas tinham um sentimento de repetição, e de humor forçado que quase me fez deixar de a seguir. Felizmente, sempre que How I Met Your Mother atingia um ponto baixo, surpreendia-me com um daqueles episódios que me fazia relembrar o sentimento que me prendeu às peripécias deste grupo de amigos, naquelas noites de fim de Verão, em 2008.

É estranho imaginar uma semana sem esta minha companhia das terças à noite. Contudo, uma boa história é aquela que sabe quando deve terminar, sem se alongar mais tempo que o necessário.

Hoje despeço-me de How I Met Your Mother, e agradeço aos seus criadores Carter Bays e Craig Thomas, por nos deliciarem com esta bela história, e com um elenco fantástico que fez dela o sucesso que sempre foi.

Despeço-me desta série, mas não da Covilhã. Se não houver nenhum imprevisto, por cá continuarei por mais um ano. Um ano para continuar a crescer. Para desenvolver os meus conhecimentos, e as minhas capacidades. Um ano para investir naquilo que me faz feliz. Um ano para seguir em frente. Um ano para começar a construir o meu sonho.

Até sempre Ted, até já Covilhã.

Tuesday, January 13, 2009

Fim de uma Era

Stargate SG-1, Imagem DR
Enemy at the Gate, marcou o fim de uma longa saga de doze anos. O último episódio da quinta e última temporada de Stargate Atlantis, é um autêntico épico à longa demanda da série de ficção científica, podendo ele próprio ser classificado entre os melhores episódios dos cinco anos de Stargate Atlantis.

2007 viu Stargate SG-1 chegar ao fim após dez anos seguidos no ar, tornando-a na mais longa série de ficção científica da história da televisão. SG-1 não ficou por aí, ainda foram lançados dois telefilmes – The Ark of Truth e Continuum – e o spin-off da Galáxia de Pegasus ainda perdurou durante mais duas temporadas.

Foi com grande tristeza que os fãs souberam no Verão passado que a quinta temporada de Stargate Atlantis era também a última. Contudo, a boa nova chegou em forma de projecto renascido. Há uns anos tinha sido planeado o segundo spin-off de Stargate SG-1, o Stargate Universe, o enredo ainda estava algo verde e rude, com muitas arestas por limar. A crise nos estúdios do SciFi e a greve dos guionistas obrigaram este projecto a ser posto de lado. Com o anunciar do regresso da Atlântida aos mares profundos, Universe veio ao de cima para aclamar o seu lugar no panorama Stargate.

A Saga chegou ao fim, tão cedo não voltaremos a ver O'Neill (com dois Ls), Daniel Jackson, Teal'c e Samantha Carter, atravessarem o wormhole na descoberta de novos mundos, novos amigos, e de perigos que o universo desconhecido nos traz. Nem tão pouco veremos John Sheppard a chatear Rodney McKay, para se apressar a descobrir uma forma de os salvar dos Wraith, que ao fim de cinco temporadas continuam a constituir uma ameaça, se bem que cada vez menor. Agora resta-nos esperar pela mais recente adição à família Stargate.

No ciclo natural da vida, tudo tem um princípio, um meio e um fim. Foram uns bons anos de ansiedade à espera do fim-de-semana para ver o próximo episódio, ou a aguentar os meses de Verão, para que a série retornasse. Esperemos que a mesma emoção, e que a mesma tradição, se mantenha com Universe.

No Verão, teremos a resposta. Até lá, Chevron 7 locked.