Tuesday, October 14, 2014

Mais Uma Vez, Anathema

Anathema, Hard Club (Porto); Foto: Adriano Cerqueira
In a lifetime there's a moment to awaken to the sound of your heartbeat unbroken. 

The Lost Song (Part 2), Anathema

Hoje compreendo porque precisava de lá estar. De os rever. De os ouvir. Ao longo dos últimos anos os Anathema têm sido a minha constante. A cada dois anos eles visitam o Porto, e eu estou lá, nas primeiras filas, a sonhar.

Desta vez fiquei à frente, junto às grades, quase que lhes podia tocar. Eram enormes. Gigantes. Eu era apenas um rapaz com uma t-shirt do Unknown Pleasures, já sem voz ao fim das primeiras músicas. Que saltou mais que em qualquer sessão de Insanity.

Danny Cavanagh
But we laughed, and we cried. And we fought, and we tried. And we failed. But I loved you.
Anathema, Anathema

Mais uma vez, Anathema. Há alguns meses que não os ouvia. Não como antes. Desliguei-me. Rara era a música que não me contaminava com um profundo sentimento de desolação. Nada neles tinha mudado, mas sim em mim. As músicas eram as mesmas, a melodia, o ritmo, os acordes, as letras. Mas eu não as ouvia, não da mesma forma.

Há um ano ansiava por um concerto. Uma necessidade tão forte, como a primeira lufada de ar após um longo mergulho. A promessa de um novo álbum adivinhava um regresso à Invicta, confirmação que não tardou a ser anunciada. 11 de Outubro. Ainda a meses de distância, desmarquei a minha agenda para essa data. Fiz planos. Imaginei o concerto ideal. Sonhei com uma história que não cheguei a escrever.

Mas a abrupta travagem da realidade despertou-me. Ignorei o novo álbum durante semanas e, quando finalmente o ouvi, distraí-me, incapaz de perceber, de sentir, de me deixar envolver em qualquer uma das músicas. Percebi as letras que pensava ouvir, e não aquelas que cantavam. Atirei-o para um virtual esquecimento e desliguei-me.

Por meses, desliguei-me. A data permanecia marcada mas distante. Intocável. Inexistente. Era Outubro. Acordei. Não queria ir. Não fazia sentido ir. Nem o próprio Luís que desde 2008 sempre me acompanhou neste concerto, tinha vontade para ir. Contudo, havia uma voz que me movia. Uma voz que dizia que eu precisava de estar naquela sala. As semanas passam como dias. Deixas algo para amanhã, o tempo passa, os anos também, e esse algo fica por se concretizar.

Vincent Cavanagh
And you're free now and I will remain still dreaming. Alive and aware of the love that I once believed in.
The Lost Song (Part 2), Anathema

Não podia deixar que isso voltasse a acontecer. Cheguei ao Hard Club e uma longa fila aguardava. Teria chegado tarde demais? Faltavam ainda alguns minutos para as nove da noite. Seria possível que já não houvesse bilhetes?

A longa fila era composta na sua maioria por adolescentes, sem qualquer semelhança com os fãs de Anathema a quem já me tinha habituado. Fui para o fim da fila e perguntei a um rapaz se esta era a fila para a bilheteira, o seu não deixou-me algo confuso. Nos últimos dois anos mudaram o local da bilheteira para uma pequena montra na sala dois do Hard Club. Tapada pela longa fila de adolescentes era fácil passar despercebida. Além do concerto, reservado para a sala um, estava também marcado um encontro de Youtubers, que explicava a presença daquela multidão invulgar. Comprei o meu bilhete e dirigi-me para a sala do concerto.

Antes de entrar dei uma olhadela pela habitual tenda de merchandise. Vendiam alguns álbuns autografados. O Distant Satellites já tinha esgotado, e a ideia de comprar o CD já autografado retirava a magia de conseguir os autógrafos por mim e de conhecer a banda pessoalmente.

Quando entrei na sala os Mother’s Cake já se preparavam para actuar. A banda de abertura tinha uma energia positiva e interagia bem com o público. As vocals deixavam algo a desejar, mas mostravam ter algum talento. Isso e o cabelo do baterista, a lembrar o Sr. Coisa da Família Addams, deram para uma primeira hora agradável em antecipação do prato principal.

Esmiuçava por entre a multidão à procura de alguém conhecido. Na viagem de comboio para lá encontrei uma amiga do secundário emigrada no Luxemburgo que, embora já os tivesse visto lá há duas semanas, quis rever os Anathema, agora com um público mais animado. Apesar da sua companhia, não era raro encontrar alguém conhecido por entre a multidão, por vezes, até mesmo pessoas que desconhecia serem fãs da banda. Contudo, confesso que não era por esses inesperados conhecidos que os meus olhos procuravam.

Fomos para a frente, junto à grade. A meros centímetros do palco. Sentia-me capaz de o tocar. Foi breve a espera. Quando eles entraram, um a um em palco, foi como se tivesse enfim despertado de um sono profundo que há muito se alongava. Vivi cada música como se fosse a primeira vez que a ouvia.

Lee Douglas
I feel you outside at the edge of my life. I see you walk by at the edge of my sight. I had to let you go to the setting Sun. I had to let you go and find a way back home.

Untouchable (Part 2), Anathema

Deixei-me encantar pelas duas primeiras partes de The Lost Song. Seguidas pela Untouchable, numa dança perfeita entre duas almas que se completavam. Apaixonei-me pela Anathema, a faixa homónima da própria banda. E finalmente descobri, pela boca do próprio Vincent, como é pronunciada esta palavra.

O público pedia por músicas antigas. O homem que se encontrava ao meu lado com o filho, desejava por um concerto de seis horas. A este pedido o Danny engasgou-se na sua cerveja e apontou para o Vincent dizendo, “You know he’d have to sing that shit?”. “Maybe next time we’ll just give you some drugs and play a regular concert and you’ll think it was six hours long.”

A interacção com o público foi constante e energética. Como uma reunião entre velhos amigos que mesmo após dois anos de ausência, continuam a tratar-se como se ainda ontem se tivessem encontrado.

Após o inevitável encore, chegaram algumas das velhas músicas que os fãs há muito desejavam. A Natural Disaster encantou-me como sempre, mas mesmo uma música ouvida incontáveis vezes pode surpreender-nos. A Lee. Sempre a Lee. A forma como prolongou o final da Natural Disaster ainda hoje me dá arrepios. Fiquei colado à sua voz até ao fim. Queria fotografar, guardar o momento de alguma forma, mas fazê-lo apenas iria impedir-me de viver intensamente cada segundo de algo tão raro, e tão belo.

A Fragile Dreams. Acordei como uma incomum vontade de a ouvir. Quando a começaram a tocar, cada fibra do meu corpo ganhou uma nova energia. Senti-me tão vivo. Envolto por um profundo sentimento de felicidade, e uma renovada confiança na minha relação com os Anathema.

Quando terminaram, era hora da habitual troca de memorabilia. A Lee tentou lançar uma das set lists para o público mas falhou. O Jamie dobrou-a num avião e atirou-a na minha direcção, apanhei-a e fui envolto por mãos desejosas, mas incapazes de a agarrar. Cá fora encontrei o baterista, Daniel Cardoso, cumprimentei-o por mais um grande concerto e pedi-lhe que me assinasse a set list.

Anathema
And one day you'll feel me. A whisper upon the breeze. And I'll watch you stand there unafraid. And I'll speak to you silently, and know that you'll hear me. The feeling is more than I've ever known.
The Lost Song (Part 2), Anathema

Antes de correr para apanhar o comboio ainda estive alguns momentos à conversa com o Vicent. Fiquei preso às suas palavras enquanto ele descrevia o processo criativo do grupo. Como cada um pode trabalhar numa música em separado e sair algo diferente, e como a banda, embora não se esqueça dos primeiros álbuns, tem evoluído para um caminho que os agrada ainda mais.

Por fim, conheci a Lee, tirei duas fotos com ela e trocámos uma breve impressão sobre a qualidade da Super Bock que ela trazia. Na viagem de regresso a minha face foi sequestrada por um sorriso de orelha a orelha. Já não me recordo da última vez que fui tão feliz.

Passaram-se horas até me aperceber que não tocaram a One Last Goodbye. Não foi necessário. Esta set list era perfeita no seu conjunto, na forma como cada faixa se completava. Não senti a sua falta, nem a de outra música qualquer.

Fiz as pazes com uma banda da qual nunca me distanciei. A cada concerto que vou sinto o quanto eles evoluíram, e como eu evoluo com eles.

Mais uma vez, Anathema. Sempre Anathema.

Friday, December 21, 2012

Two fries short of a Happy Meal

Foto: Adriano Cerqueira
Duzentos e setenta e cinco. Sim, duzentos e setenta e cinco. Não acredito que acabei na página duzentos e setenta e cinco. 

Todos temos uma lista de objectivos que um dia esperamos concretizar. Escalar uma montanha, fazer bungee jumping, skydiving, rafting, ou outro tipo de desporto radical, visitar um país longínquo, comer algo exótico, ir ao Espaço, ou algo mais simples como encontrar a melhor francesinha fora do Porto, actualizar o teu blogue todos os dias durante uma semana, escrever um livro, plantar uma árvore, passar um dia sem misturar termos ingleses na tua conversa, aprender a falar Russo fluentemente, e até mesmo ler um livro inteiro num único dia. Ontem estive perto de alcançar este último.

Dividi o meu dia entre Porto e Lisboa. Sabendo à partida que ia passar pelo menos seis horas dentro de um comboio, mais umas cinco horas de espera em Lisboa com muito pouco para fazer, decidi levar um livro comigo para me acompanhar durante a viagem. Como apenas me restavam cerca de cem páginas para terminar de ler A Dança dos Dragões, de George R. R. Martin, achei que não o devia trazer comigo, pois acabaria por o terminar antes sequer de embarcar no Intercidades.

Decidi então pegar num dos livros que guardo num montinho ao qual gosto de chamar, “lista de espera”. Já planeava lê-lo após terminar A Dança dos Dragões, por adivinhar que a minha encomenda do décimo livro da versão portuguesa de A Song of Ice and Fire não deve chegar ainda este mês. O meu companheiro de viagem intitula-se Evolução e Criacionismo: Uma Relação Impossível da autoria de Augusta Gaspar com a intervenção de outros colaboradores como a Teresa Avelar e o Octávio Mateus.

Escolhi este livro maioritariamente porque após estes longos meses de constante convivência com o mundo de fantasia da mente de George R. R. Martin, estou a precisar de uma séria dose de realidade e de conhecimento. Já no intervalo entre O Mar de Ferro e A Dança dos Dragões, quebrei o jejum com o The Greatest Show on Earth de Richard Dawkins, também este um livro sobre Evolução.

Só na viagem para o Porto, à qual terei que juntar as duas horas de espera que dividi entre o Campus São João e a Estação de Campanhã, consegui chegar à página noventa sem grandes problemas. Sem querer iniciar uma crítica exaustiva ao livro, embora não o considere uma grande obra literária, está escrito com uma boa fluidez e com uma simplicidade de argumentação capaz de cativar qualquer interessado na matéria, ao mesmo tempo que procura ensinar os leigos sobre o que é a Evolução e sobre os problemas que os fanáticos do Criacionismo estão a causar à investigação científica séria que é feita nesta área.

Quando cheguei a Lisboa já tinha chegado à página cento e setenta e sete. Após algumas horas de “descanso” e de outros afazeres, retornei a leitura pouco depois do jantar. Quando o comboio de regresso a Ovar finalmente chegou, tinha acabado de ultrapassar a página duzentos. “Duas horas e meia de viagem, há vinda tinha conseguido ler cerca de cem, isto vai ser canja”, assim pensei. Mas o dia já ia longo e subestimava o meu real nível de cansaço. Ainda assim, aguentei-me firme até ao último instante. Quando o comboio parou em Aveiro, já sabia que não seria capaz de chegar ao fim, mas não desisti de ler. Quase que me senti tentado a saltar alguns parágrafos, mas não existe qualquer mérito em fazer batota.

Tinha acabado de passar o apeadeiro de Válega quando finalmente desisti. Estava na página duzentos e setenta e cinco. Tão perto e, contudo, tão longe. Sim, podia ter continuado a ler em casa, mas mal entrei, corri logo para a cama.

Não foi desta que li um livro inteiro em um dia. Não sou “papa-livros” como já ouvi alguém dizer. No máximo sou capaz de ler cem páginas em um dia, e apenas se o livro me cativar. Mas sempre admirei aqueles que são capazes de “engolir” um livro de quinhentas páginas em menos de vinte e quatro horas seguidas. Já eu contentava-me com um de duzentas e noventa, mas agora vejo que escolhi mal o dia e o local para o fazer. Pelo menos fico com a consolação de poder juntar mais uma obra para os Cantos da Minha Estante de 2012, além do prémio que é todo o conhecimento que um livro como este me fornece.

Confesso que hoje ainda não peguei nessas quinze páginas que me restam, nem tão pouco nas cem de A Dança dos Dragões. Talvez o faça amanhã, talvez noutro dia. O mais importante é que não sinto que tenha “morrido na praia” mas sim, que descobri quais os meus limites e que com mais um pequeno esforço sou bem capaz de os ultrapassar.

Além disso, hoje posso orgulhosamente afirmar que com esta crónica, posso agora riscar da minha lista a tarefa de “actualizar o meu blogue todos os dias durante uma semana”.

Monday, December 10, 2012

Natal menos iluminado

Foto: Adriano Cerqueira
Uma das minhas preferidas tradições natalícias sempre foi passear pelas ruas do Porto em Dezembro para ver as luzes de Natal. Já muito antes de escolherem os Aliados como o local predilecto para erguer a maior Árvore de Natal da Europa, várias famílias aproveitavam os feriados e os fins-de-semana de Dezembro para passear pela Invicta e admirar as montras e as ruas enfeitadas com um caloroso espírito natalício.

Esta é uma tradição que mantenho ainda hoje. Contudo, desde o ano passado que denoto um menor investimento da Câmara Municipal na iluminação de Natal. Nos últimos dois dias passeei pelas ruas do Porto ao final da tarde, já com o céu escuro como breu, e as únicas luzes que vi acesas foram as da Árvore de Natal em frente à Câmara e algumas luzes pontuais numa ou outra rua. Embora quer os Clérigos, quer Cedofeita tivessem os enfeites montados, estes permaneceram apagados. De que vale ter luzes de Natal se não têm qualquer intenção de as ligar?

Eu compreendo que os tempos sejam de poupança e que as luzes de Natal não figurem no orçamento da Câmara como algo prioritário, contudo, é bem possível fazer algo belo e digno de personificar o espírito natalício com um baixo orçamento. Já vi uma tentativa de originalidade criativa ao colocarem nos Aliados baloiços com as palavras Porto, Natal, Amor, Sonho, Abraço, Festa, Paz, Magia e Família, onde casais, famílias e grupos de amigos se podem sentar e tirar uma foto com o edifício da Câmara como pano de fundo. Mas porquê ficarem-se apenas por aí? Não exijo que todos os anos se construa a maior Árvore de Natal da Europa nos Aliados, uma árvore como a actual árvore dourada serve, mas porquê manter as restantes ruas às escuras?

Ontem vi algumas fotografias do festival das luzes em Lyon. A fachada de alguns edifícios emblemáticos da cidade tinha-se transformado numa tela de luz para a imaginação de um qualquer artista. Um belo espectáculo que atraiu milhares de turistas à cidade apenas para o presenciar. As luzes de Natal eram em tempos um dos principais postais de visita da cidade do Porto. As pessoas não se deslocavam lá apenas por causa das montras ou das promoções. Famílias inteiras faziam uma verdadeira peregrinação apenas para ver as luzes.

Na semana passada fui a Aveiro e, ao passar pelo centro de Estarreja, vi uma praça iluminada e com uma Árvore de Natal melhor decorada que a de Ovar e até mesmo que a do Porto. Como pode um município tão pequeno quando comparado com a Invicta ter melhores decorações natalícias?

A Madeira foi muito criticada pelo dinheiro gasto no fogo-de-artifício na passagem de ano quando semanas antes se tinha descoberto um buraco de 6 mil milhões de euros no seu défice. Contudo, não reduziram um cêntimo sequer do seu investimento no espectáculo de Ano Novo. Sim, investimento. As Câmaras Municipais não podem olhar para as decorações, para os espectáculos e, já agora, para a cultura como gastos, mas sim como investimentos. Investimentos que atraem turismo e turismo que atrai comércio e compradores.

Não acabem com esta tradição. Não a deixem morrer. O Porto é mais belo no Natal que em qualquer outra altura do ano, não deixem as suas luzes se apagarem. Mantenham-nas acesas e relembrem a cada ano que passa com orgulho o quanto a Invicta contribui para manter acesa a chama do espírito natalício.

Wednesday, April 06, 2011

Episódios Atrás do Volante

Era Quarta-feira. É sempre Quarta-feira. Embora tivessem passado nove meses de ter tirado a carta, ainda contava pelos dedos as vezes que tinha conduzido um carro ao Porto. Digo um carro, pois em nenhuma das vezes tinha levado o meu. Seria a primeira vez.

À parte de algum nervosismo, nada indicava que a viagem pudesse correr mal. Havia sempre a questão do estacionamento, mas atravessaria essa ponte assim que a encontrasse. O meu carro tem GPL, e ao contrário dos carros a gasolina ou a diesel, não há maneira de saber o estado do depósito, o que me obriga a ter apenas como referência os quilómetros já percorridos para determinar quando é necessário abastecer.

Na altura pareceu-me ainda ter alguma margem de manobra para ir confortavelmente ao Porto e vir sem precisar de reabastecer, mesmo o indicador do tanque de gasolina mostrava-se confortavelmente longe da reserva. Ou assim pensava.

Saí de casa por volta das oito e meia para ir à aula de Economia que começava às dez. Tempo mais do que suficiente em qualquer outro dia, mas aquele não era um dia qualquer, era Quarta-feira. Chegado à A44, próximo da saída para a Arrábida encontrei a já habitual fila de trânsito matinal. Logo aí começaram os problemas. No constante pára/arranca reparei numa luzinha cor-de-laranja que se tinha começado a acender. Era o indicador do depósito a avisar que a gasolina estava na reserva.

Não fiquei muito preocupado visto que, com o GPL como tanque principal, mal saísse do trânsito tudo voltaria à normalidade pois o carro apenas recorre à gasolina para arrancar. E assim teria acontecido não tivesse o próprio GPL decidido falhar naquele dia.

Na descida para o Campo Alegre o motor falhou. Deixei de conseguir acelerar e fiquei parado no meio do trânsito sem forma de o reiniciar. Aguardei um pouco e continuei a tentar. Ao fim de diversas tentativas, quando os restantes carros já tinham começado a apitar e a passar à minha volta, ele finalmente arrancou.

Aguentei-o até à bomba da Repsol perto do Palácio de Cristal. Deixei o carro numa praça de Táxis e fui lá comprar gasolina. Não tinham bidões por isso tive que comprar um garrafão de água, deitar a água fora e enchê-lo de gasolina. Emprestaram-me um funil que uma senhora ali tinha deixado – até hoje ainda não o devolvi – e fui para junto do meu carro. Pedi a uma senhora da limpeza que estava por ali, para me ajudar a segurar no funil enquanto colocava a gasolina no depósito. A senhora mostrou-se algo relutante mas acabou por me ajudar.

Cheguei ao meu curso já passava das dez e meia. A aula ia a meio, portanto decidi aguardar pelo intervalo para entrar. Passei o dia com um único pensamento: preciso de encontrar outra bomba de gasolina para encher o depósito, aquele garrafão não era suficiente para a viagem de regresso.

Optei por levar o carro naquele dia pois ia começar as aulas de Russo e como estas terminavam às nove e meia da noite, não queria chegar muito tarde a casa. Ao final do dia tinha que levar o carro à Faculdade de Letras para a aula de Russo e aproveitei para dar boleia a um colega meu que também ia ter aulas de Japonês à mesma hora.

Ele supostamente conhecia uma bomba de gasolina para aqueles lados, mas não a conseguíamos encontrar. Demos algumas voltas pelo Campo Alegre até que me lembrei que havia uma bomba de gasolina próxima da saída em direcção a Gaia. Atravessei a rua do Hotel Tuela e finalmente encontrei-a!

Enchi vinte euros de gasolina e depois fomos procurar um lugar para deixar o carro. Ele sugeriu-me estacionar por trás do Mercado da Boavista. Graças a estes contratempos este passou a ser o meu lugar de estacionamento habitual sempre que vou de carro para essa zona.

O regresso a casa foi feito sem qualquer percalço. Para a História ficou esta Quarta-feira de Outubro para sempre relembrada como o dia em que ambos os tanques se esgotaram.

Monday, January 31, 2011

Quem Vem e Atravessa o Rio

Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
Miguel Torga

Há meses perdidos. Sombras de tempos mal aproveitados. Dias desperdiçados. Momentos não vividos. Este não foi um mês perdido, mas sim, um mês de transição. Não esquecido, mas ainda por escrever, como mil viagens que ficaram por relatar. Memórias apagadas de uma Coimbra infiel dão lugar a um novo Porto, à mesma ponte, aos velhos trilhos, a novos dias.

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
dirigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa
Porto Sentido de Rui Veloso

Tuesday, April 08, 2008

Porto, Uma Ponte para um Passado Presente



Sinopse: Porto, uma ponte entre o Passado e o Presente de uma das cidades mais icónicas de Portugal.

Autores: Adriano Cerqueira, Ana Margarida Pinto, Andreia Magalhães, Cláudia Magalhães, Graça Salgueiro e Sara Azevedo. 

Duração: 3 minutos.

Género: Anúncio.

Exibições: I Mostra de Semiótica da Comunicação em 2008. 

Thursday, March 01, 2007

Era uma vez no Porto

Ponte Luís I, Foto DR
Porto, cidade Invicta, cidade de muitos encantos. Muitos foram aqueles que a tentaram conquistar, contudo, os seus esforços sempre foram em vão. Mas que dizer dos seus habitantes?

Sou apenas um mero Vareiro a vaguear pelas ruas da Invicta, em busca de conhecimento. Quando descia uma das suas ruas, acompanhado por alguns amigos, a Catarina avisou-me que tinha a mochila aberta. Ao olhar, descubro que o meu telemóvel e a minha carteira, tinham desaparecido. A minha mochila tinha sido violada.

Procurei pela rua a cima. Fui até ao café de onde vínhamos para ver se estavam por lá. Nada. Calmamente, fomos à procura de uma esquadra. Acabámos por ir encontrá-la perto do Mercado Ferreira Borges, onde um agente, a início antipático, chamado Francisco Silva, me atendeu e registou a minha participação.

Nunca antes tinha sido roubado. A sensação de perda é muito estranha e difícil de descrever. Ainda me lembro, tinha acabado de fazer 16 anos, e passeava calmamente por Aveiro numa tarde primaveril. Passei pela Sport Zone do Fórum Aveiro, onde vi a minha carteira à venda.

Durante todos estes anos, esta acompanhou-me nas várias viagens que fiz, e nos vários momentos que vivi. E agora nunca mais a verei. Meses antes, tinha estado na Worten do Gaiashopping a questionar uma assistente bastante atraente, sobre os benefícios de um Motorola v300, que desde esse momento passou a ser o meu companheiro diário. O meu Nokia 6210 já tinha passado os seus dias de glória e era hora de mudar.

Agora é novamente hora de mudar. De forma imprevista, e completamente estúpida. Nunca irei esquecer aqueles dias em Coimbra. As vários fotos que tirei, e outros momentos simbólicos em que este pequeno bloco azul tinha servido de álbum para mais tarde recordar.

A quem teve a audácia de cometer tal acto, apenas lhe reservo um sentimento de pena. Espero que se faça justiça e que acabem por se arrepender por este acto malicioso. Parte de mim quer vê-los a morrer afogados debaixo de um comboio, mas como isso não é correcto, vê-los na choça já era muito bom.

Para terminar, queria apenas deixar uma nota de agradecimento aos meus amigos que me acompanharam, e que me ajudaram neste momento: Obrigado Catarina, Né e David.