Monday, January 29, 2024

Do Supercontinente Dominado por Dinossauros ao Movimento das Placas Tectónicas

Ilustração de Ricardo Galvão

Quando olhamos para um mapa, o nosso primeiro instinto passa por encontrar o nosso país ou a nossa cidade. Se estivermos com vontade de viajar, talvez paremos para traçar a distância entre a nossa casa e o próximo destino de férias. Mas, se nos afastarmos um pouco e começarmos a observar o traçado de cada continente, começamos a ver algumas semelhanças.

A mais óbvia é a forma como a costa da América do Sul parece encaixar perfeitamente com a costa africana. Como duas peças de um puzzle à escala continental.

Mais estranha esta coincidência fica quando descemos ao terreno e encontramos estruturas geológicas, como vales e montanhas, que parecem ter sido partidos ao meio pela separação destas duas massas continentais.

Para além disso, quando escavamos o solo, encontramos rochas e fósseis idênticos em ambas as margens dos continentes.

Atualmente, sabemos que isto acontece porque África e América do Sul fizeram parte de um supercontinente chamado Gondwana, juntamente com Madagáscar, com o subcontinente indiano, com a Austrália e com a Antártida.

Este supercontinente começou a separar‐se há cerca de 140 milhões de anos, num mundo ainda dominado por dinossauros. E, muito antes disso, a própria Gondwana tinha‐se já separado de outro supercontinente, conhecido por Pangeia que, para além da Gondwana, era composto também pelas massas continentais que um dia viríamos a chamar de Europa, Ásia e América do Norte.

O movimento dos continentes e das placas oceânicas é hoje conhecido por tectónica de placas. Um fenómeno que moldou a superfície da Terra desde há 3,4 mil milhões de anos e que continua ativo ainda hoje.

Placas Tectónicas

Se cortarem uma cebola ao meio, podem ver que esta é feita por camadas que se diferenciam a partir de um núcleo central. E, tal como acontece com a cebola, também o nosso planeta está dividido em camadas.

A camada que vai desde a superfície até uma profundidade entre os 40 e os 70 quilómetros é conhecida por crosta. A crosta é constituída maioritariamente por rocha sólida e tem uma espessura que pode variar entre os 5 e os 70 quilómetros.

A parte mais fina da crosta terrestre pode ser encontrada na bacia oceânica. Esta é composta essencialmente por basalto, uma rocha vulcânica, e tem uma espessura que varia entre os 5 e os 10 quilómetros.

Por baixo da crosta está o manto. O manto é a camada mais espessa da estrutura terrestre, atingindo uma profundidade de 2900 quilómetros. Esta camada está, na verdade, dividida em duas, o manto superior e o manto inferior, separados por uma zona de transição.

O manto é composto por minerais de silicatos ricos em ferro e magnésio que, por ação da pressão e das temperaturas elevadas, adquire uma viscosidade que lhe confere propriedades próximas às de um líquido.

A viscosidade destas rochas faz com que elas se movam em correntes de convecção entre o limite do núcleo e a crosta. O material mais quente sobe enquanto o material mais frio se afunda.

O movimento destas correntes tem um papel fundamental na tectónica de placas, permitindo que estas se movam.

A seguir ao manto encontramos o núcleo. Este está dividido em duas regiões, o núcleo externo e o núcleo interno. O núcleo externo é uma camada líquida composta essencialmente por ferro e níquel e situa‐se entre os 2900 e os 5150 quilómetros de profundidade.

O núcleo interno está a 6371 quilómetros de profundidade e é onde, por fim, chegamos ao centro da Terra. Mas, em vez de uma praia paradisíaca com dinossauros e homens primitivos, o núcleo interno da Terra é na verdade uma camada sólida com 70% do tamanho da Lua composta por uma liga de ferro e níquel. Esta camada tem uma temperatura média próxima da da superfície do Sol, atingindo os 5430 °C.

De regresso à superfície, para explicar a tectónica de placas primeiro precisamos de compreender a natureza da litosfera e da astenosfera.

A litosfera é a camada sólida mais exterior do nosso planeta e é composta pela crosta e pela parte superior do manto, podendo atingir os 100 quilómetros de profundidade. Já a astenosfera é a zona superior do manto terrestre, localizada entre os 80 e os 200 quilómetros de profundidade.

É na litosfera que encontramos as placas tectónicas que assentam e interagem diretamente com a astenosfera.

Como a astenosfera é uma camada menos rígida que a litosfera, esta permite que as placas tectónicas se movimentem sobre si. Isto faz da astenosfera uma camada fundamental para a movimentação horizontal e vertical das placas tectónicas.

Como se lembram, este movimento é alimentado pelas correntes de convecção entre o manto e a crosta terreste.


Friday, March 25, 2011

A Medicina e o Zé

Dizem que referirmo-nos a nós próprios na terceira pessoa é um sinal de esquizofrenia. Mas, neste caso, o título provém de uma já estabelecida paródia entre amigos que surgiu aquando da revelação das minhas opções de entrada na Universidade.

Apesar da minha licenciatura em Ciências da Comunicação fiz todo o secundário no antigo Agrupamento 1, mais conhecido como Científico/Natural. Fui o melhor aluno do Liceu no 12.º ano e acabei com média de 18. Toda a gente que não me conhecia esperava que eu me candidatasse a Medicina. Seria a opção natural, afinal, todos os bons alunos o fazem. Mas eu pensava de outra forma.

Nesse ano cheguei a publicar um artigo no jornal do meu Liceu, “A Melga”, em que falava sobre Cursos e Sonhos. A minha mensagem era simples: escolham um curso que vos traga felicidade e realização profissional, e não restrinjam as vossas opções apenas e só na empregabilidade que esse curso possa oferecer. Era jovem, ingénuo e idealista, mas apesar de hoje ver as coisas de maneira diferente continuo a achar que a minha ideia não era assim tão disparatada.

Disparatada foi talvez a forma como lidei com a minha escolha de curso. Os exames nacionais correram-me bem como seria de esperar. As específicas para Medicina, na altura, eram Biologia e Química. Biologia era também específica para a Licenciatura em Geologia, curso que ainda hoje espero um dia vir a tirar, e que desde criança tinha definido como a minha profissão de sonho. Mas, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e o bichinho da escrita falava mais alto.

Sempre quis ser escritor, tinha algumas ideias para livros, mas faltava-me uma coisa muito importante: experiência de vida. Achei que apenas uma profissão activa e dinâmica como o Jornalismo me permitiria alcançar essa experiência, ganhar calos e vontade para escrever. Algo que um mero Geólogo, ou Paleontólogo como eu desejava, dificilmente poderia alcançar.

Foi com este pensamento que no dia que me desloquei a Aveiro para fazer a candidatura, optei por escolher Ciências da Comunicação em detrimento de Geologia. Apesar de ter tomado esta decisão no último minuto, num café qualquer que encontrei próximo da Escola José Estêvão, onde me fui candidatar, após ter ligado ao meu pai para ouvir a sua opinião.

Contudo, apesar desta história toda, Ciências da Comunicação foi, oficialmente, a minha segunda opção. A primeira foi Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS). Escolhi assim para fazer a vontade aos meus pais, sabendo de antemão que não iria entrar. Como referi, os exames nacionais correram-me bem, mas não assim tão bem que me permitissem entrar neste curso. Tive 18,6 a Biologia e 14 a Química. Aliadas à minha média de 18, a minha nota de candidatura para Medicina era de 17,1. Naquele ano o último colocado no ICBAS tinha 18,1.

O que aconteceu no exame de Química? Nada, simplesmente não estudei. Ao longo do ano era normal oscilar entre o 16 e o 18 nos testes que ia fazendo. A professora dessa disciplina não tinha propriamente qualidades de ensino e acompanhamento dos alunos. Mas a verdade é que não vale a pena pegar por aí.

O exame em si não era complicado e, talvez se tivesse estudado, teria conseguido o tal 18 que me permitia entrar em Medicina. Talvez não no ICBAS que foi o curso desta área com a maior média a nível nacional nesse ano, mas noutro qualquer, certamente, teria as minhas hipóteses.

Mas assim não aconteceu, e não me arrependo de não ter acontecido. Não vejo qualquer apelo na área da saúde. Simplesmente, não é para mim. Não vejo qualquer satisfação em ajudar pessoas doentes, embora respeite e admire quem o faça. Não tenho qualquer necessidade ego maníaca de ser admirado por uma comunidade, nem tão pouco gostaria de ter nas minhas mãos a responsabilidade que uma profissão como essas acarreta. Podiam dizer que tinha sempre a hipótese de seguir o ramo da investigação. Mas a minha ciência é, e sempre será, a Paleontologia e não outra.

Por vezes, viro-me para um amigo meu e digo que um dia vou fazer os exames nacionais, candidatar-me a Medicina e entrar, só para que ele pare com as constantes piadas sobre o facto de eu ter ido contra os meus princípios e de ter passado uma imagem de hipocrisia após um ano inteiro a defender os ideais que referi em cima. Confesso que não foi um dos meus melhores momentos e, se pudesse voltar atrás, mudava as minhas opções.

A minha primeira opção seria Geologia e aceitaria tudo aquilo que daí viesse. Resta-me a consolação de saber que, tivesse escolhido Geologia em detrimento de Ciências da Comunicação, seria a segunda maior média a entrar e aí talvez o desafio competitivo pelas notas na faculdade não tivesse sido tão interessante como aquele que encontrei em CC. Soube bem poder passar os dois primeiros anos como apenas mais um na multidão, sem as constantes pressões de ter que ser o melhor, e de o ter que provar perante toda a gente, e perante mim próprio, como aconteceu ao longo do secundário.

Jornalista, Assessor de Imprensa, Multimédia, Escritor, ou até mesmo Paleontólogo, são as únicas “etiquetas” que alguma vez acompanharão o meu nome. São os momentos, as nossas escolhas, e a forma como as tomamos que nos definem, e é esta a minha maneira de viver.