Wednesday, June 11, 2014

O Legado de uma Linguagem Extinta

Imagem DR
Há uma linguagem em extinção. Uma série de códigos, abstracta e autónoma que, tão depressa como surgiu, enfim desvanece para o esquecimento. Uma morte tão silenciosa como a sua própria origem. 

A ascensão das redes sociais ditou o fim do anonimato, das chat rooms, do IRC, da linguagem SMS e dos códigos que a acompanhavam. Há quanto tempo não vêem a expressão “de onde teclas”? Questionar a idade, a localização ou a aparência de alguém, deixou de ser rotina, para passar a mera redundância. 

Não nos escondemos por trás de alcunhas, de tipos de letra arcaicos, ou de avatares. Estamos ali, sempre presentes, iguais a nós próprios, sem segredos, ou privacidade, sem mistério. Eternas vítimas das primeiras impressões que uma foto, ou um perfil, criam na outra pessoa. Condenados a batalhar contra os preconceitos que daí advém, para podermos quebrar essa barreira invisível que nos separa daqueles que queremos conhecer.

Antes era mais simples. Apenas falávamos. Nada sabíamos sobre a outra pessoa. Podíamos ser quem quiséssemos. Podíamos ser completos estranhos, opostos de quem realmente somos. Podíamos ser aquilo que desejávamos ser. O culminar dos nossos sonhos ainda por realizar. Ou, podíamos apenas ser iguais a nós próprios.

Ninguém consegue manter uma máscara de forma permanente. Aos poucos revelamos quem somos, mesmo para aquele estranho escondido por trás de um ecrã. Despimo-nos de preconceitos, largamos a nossa bagagem, e qualquer espécie de ansiedade que pudéssemos sentir, e começamos a escrever. A contar estórias, a partilhar momentos, música, livros, filmes, e experiências. 

Apaixonamo-nos pela alma da pessoa, pelas longas conversas, pelo seu sentido de humor, e por aquela vontade que nos impele a regressar. A aguardar por aquele ícone verde, por aquele aviso, por aquela luz, por aquele som que faz o nosso coração dar um salto e que preenche a nossa a face com um sorriso parvo.

Tudo isto apenas possível, porque não julgamos a pessoa pela sua aparência, porque não fomos assolados por uma onda de informação perfilada aleatoriamente numa simples pesquisa pelas suas redes sociais. 

Não foi só uma linguagem que se extinguiu com o desaparecimento do IRC, foi também uma filosofia de vida. A liberdade do desconhecido. A ausência de preconceitos, de psicanálise de antecipação, e de prospecção de mercado – termo que pessoalmente abomino. 

Hoje não faz sentido perguntar de onde alguém tecla. A sua localização aparece na base do chat. As videochamadas permitem vislumbrar o local onde esta se encontra. Uma janela directa para o seu mundo privado. A idade, as fotos, os seus gostos pessoais, aquilo que ela leu, viu, onde esteve, com quem, onde trabalha, onde estudou, tudo à distância de um clique, sem sequer precisarmos de lhe dirigir uma única palavra que seja.

Este facilitismo, esta apologia do imediato, fez com que deixássemos de ter tempo para verdadeiramente conhecer alguém. Descartamos incontáveis conversas à partida com base em noções pré-estabelecidas, que podem até não corresponder à realidade.

Estamos expostos e vulneráveis. Somos julgados a cada pedido de amizade, não por aquilo que dissemos, mas por uma análise superficial e fútil daquilo que partilhamos. Somos vítimas da revolução social da internet, e somos hoje tão inseguros atrás de um ecrã como qualquer pessoa num bar, ou em um outro qualquer evento social. Perdemos a liberdade de sermos julgados com uma mente aberta, apenas pelas nossas palavras, pelos nossos conceitos, pelas nossas experiências, e pelas nossas ideias. Somos hoje ignorados por aqueles que nos descartam antes do primeiro Olá. Mas será isso assim tão mau?

Se alguém nos julga pela aparência, pelos nossos gostos, ou por um outro elemento superficial. Se essa pessoa nos bloqueia, ou ignora os nossos contactos, será alguém que mereça a nossa atenção? Não. E o que nos moveu a dar o primeiro passo? Uma foto? Uma partilha de um gosto em comum? Uma convergência de ideologias? A sua popularidade? Ou apenas, simples curiosidade? 

Quando nós próprios também nos deixamos emergir por esse jogo da Internet social, não somos diferentes daqueles que nos julgam. O anonimato é hoje um encanto perdido, relíquia dos tempos do IRC. Contudo, agora é mais simples descobrir as intenções de quem nos procura, e filtrar aqueles que não merecem o nosso reconhecimento.

Aquilo que perdemos em experiências, ganhamos em tempo. Resta-nos saber como, e com quem, o partilhar. 

Saturday, March 16, 2013

Good Night, Sleep Tight, Old Friend

Imagem: DR
Dezasseis de Março de 2013. Uma data que facilmente será esquecida pela maioria das pessoas, mas não por mim. Hoje, o MSN Messenger fica online pela última vez. Embora a migração dos contactos para o Skype possa ser feita até 30 de Abril, foi esta a data escolhida pela Microsoft para pôr um fim ao Windows Live Messenger.

Enquanto escrevia este artigo decidi ligar o meu Messenger por mera curiosidade. Já há algum tempo que fiz a migração dos meus contactos para o Skype e a minha conta de Hotmail já se encontra sobre a alçada do Outlook há alguns meses. Não me lembro da última vez que liguei o meu Messenger, certamente já deve ter passado quase um ano desde a última vez que fiquei online, isto sem contar as ocasionais visitas à minha caixa de entrada do Hotmail. 

Neste preciso momento tenho apenas dezasseis pessoas online, a maioria das quais são contactos do facebook que apenas aparecem aqui por ter as duas contas ligadas. Não esperava ser capaz de sequer conseguir aceder ao Messenger mas visto que o prazo de migração de contactos foi alargado até 30 de Abril, possivelmente terei ainda algumas semanas para visitar este velho amigo que há muito tenho negligenciado.

Nunca pensei que eu próprio seria capaz de me desligar do Messenger e trocá-lo de forma tão ligeira pelo chat do facebook e pelo Gtalk. Embora o Messenger não fosse, no sentido mais lato da palavra, uma rede social, nem tão pouco proporcionasse o anonimato ou a casualidade de encontros do IRC, foi durante anos um local predilecto para aprofundar uma relação entre duas pessoas ou para simplesmente ter uma boa conversa. São incontáveis os casos de amigos e colegas que conheci através da vida real, do IRC ou das redes sociais, que fiquei a conhecer melhor por causa da particularidade intimista de interacção um para um que o Messenger possibilitava. 

Foi com alguma relutância que em 2003 migrei do IRC para o Messenger. Na altura via o Messenger como uma sala fechada. Um espaço que não permitia que conhecesses outras pessoas além da tua lista de contactos e que, ao contrário do IRC, tornava mais difícil esconderes-te por trás de um nick. Hesitei bastante. Durante muito tempo mantive os dois programas ligados. Fui gradualmente perdendo interesse pelo IRC até ao ponto em que simplesmente já não tinha motivos para o visitar. Assim que todas as pessoas que me eram próximas passaram a figurar nos contactos do Messenger, fechei as portas do IRC de igual forma como nos últimos anos troquei o Messenger pelo facebook. 

Nunca fui grande fã dos extras que este programa nos fornecia. Raramente tive uma conversa através da webcam. Partilhei pontualmente documentos e ficheiros com colegas do liceu ou da faculdade ou com amigos que queriam dar-me a conhecer novas músicas ou ouvir algumas das bandas que eu gostava na altura. Conto pelos dedos as vezes que joguei algum jogo e na maioria dos casos foi mais por insistência da outra pessoa do que por vontade minha. Para mim o Messenger sempre foi um espaço de chat. Uma plataforma que me permitia ter uma boa conversa com alguém ao fim de um longo dia de aulas ou de trabalho.

Lembro-me das horas que passava impaciente à espera que uma certa pessoa ficasse online. Da frustração de deixar uma conversa a meio sempre que a Internet ia abaixo. E do desespero que sentia quando o Messenger passava horas ou até mesmo dias em manutenção sem permitir o acesso dos seus utilizadores. Tudo isto já faz parte do passado.

As redes sociais e as plataformas de comunicação são feitas de pessoas. Por mais que alguém queira resistir acabamos sempre por ser forçados a seguir a vontade da maioria dos nossos contactos. Quando estes optaram por trocar o Messenger pelo facebook, por mais relutante que eu fosse em aceitar a mudança e por mais incómodo que seja falar com alguém através de um browser, no fim não me restou alternativa que não desviar a minha atenção deste programa e focá-la inteiramente no facebook. 

Sim, há já algum tempo que existem diversos programas que possibilitam unir várias contas de chat e o próprio Messenger também isso permite. Contudo, sou avesso a esse género de conglomerações. Torna-se confuso ver a mesma pessoa ligada em três ou mais locais distintos, tornando assim complexo todo o processo de falar com alguém. Processo esse que deve ser sempre simples. 

O Messenger caiu vítima daquilo que eu próprio receava na altura da transição do IRC. Uma sala fechada apenas te permite ver aquilo que colocas lá dentro. O facebook e o twitter abriram de novo as portas à possibilidade de conheceres pessoas novas. Pessoas que agora já não se escondiam por trás de nicks, mas que publicitavam todos os pormenores mais ínfimos da sua vida pessoal diariamente e para que todos os pudessem ver. 

O Messenger derrubou o IRC, sobreviveu ao MySpace e ao hi5, apenas para sucumbir perante o facebook. Resistiu enquanto pôde mas a partir do momento em que o Skype deixou de ser um rival e passou a figurar dentro da própria Microsoft o seu fim deixou de ser uma suposição para passar a ser uma garantia. Hoje, confrontado com a realidade desse fim apenas me resta dizer adeus.

Até sempre velho amigo, guardo eternamente todas as recordações dos vários momentos que passei contigo ligado. Horas de conversa, de alegria e de desgosto, de bom humor e de seriedade, de aproximação e de discussão, de aprendizagem e de galhofa. Hoje fico offline pela última vez. Hoje despeço-me pela última vez.

*Adriano Cerqueira está offline