Thursday, November 20, 2014

A Arte de Sonhar

La persistència de la memòria, Salvador Dalí 
Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Alimentamos pensamentos e desejos como sonhos por realizar. Deixamo-los crescer, por vezes esquecidos, por vezes silenciados, enquanto seguimos com o nosso dia-a-dia. Aquele instrumento que queres aprender a tocar, a língua impraticável em que queres ser fluente, os projectos que guardaste na gaveta, as viagens que ficaram por planear, o curso que ficou por tirar. As palavras que ficaram por dizer.

Todos guardamos os nossos sonhos. Esforçamo-nos para os concretizar. Lutamos por aquilo que desejemos. Dedicamos uma vida para os concretizar. Crescemos. Descobrimos os nossos limites. Adaptamo-nos, e colhemos os frutos do nosso esforço.

Os sonhos, esses, não só vivem de devoção e dedicação. Por vezes consomem-nos. Desistimos. Ignoramo-los. Fugimos antes mesmo que estes nos possam destruir. Damos ouvidos ao impossível, aos Velhos do Restelo, aos hiper realistas, criamos obstáculos que nós próprios somos incapazes de escalar. Deixamos que o vento os leve. Adormecemos. Esquecemo-nos. Guardamo-los em caixas, e engolimos as chaves.

É ténue a linha entra a acção e a inércia. O deixar para amanhã e o agir. Há alguns meses atrás, sentei-me para escrever. Não muito diferente de como estou a fazer agora. Não muito distante do local onde hoje me encontro. Não esteja a minha memória a trair-me e talvez estivesse eu neste mesmo sítio enquanto o fazia. Perco-me. Distraio-me. E desvio-me do assunto.

Há alguns meses atrás, sentei-me para escrever. Por entre as linhas, memórias e divagações, retomei um exercício já diversas vezes praticado desde que me recordo de escrever: fiz uma lista. Não uma lista de compras, ou de tarefas. Mas sim uma lista de sonhos, de objectivos e de desejos. Omiti apenas aqueles cuja clareza é tão transparente para mim como para qualquer pessoa cujo caminho se tenha cruzado com o meu. Omiti aqueles cujo controlo não me pertence. Concentrei-me naqueles que não dependem de mais nada que não de mim próprio, e da minha força de vontade.

Alguns são projectos a longo prazo que ainda não iniciei por falta de tempo ou de oportunidade, outros são actividades mais simples que, embora as circunstâncias do dia-a-dia por vezes mas roubem, têm permanecido constantes desde que essa lista ganhou forma. Encontro-me ainda longe de a completar. Ainda mais se contar com os desejos que guardo apenas para mim. Contudo, como em qualquer aventura, o que importa é partir. O primeiro passo. A vontade que ganha força para te mover.

Olho hoje para a minha lista e orgulho-me daquilo que já concretizei. Anseio pelos passos que ainda tenho por percorrer. E sonho com o futuro que estes me irão reservar.

Sugiro que façam o mesmo. Parem de me ler durante um ou dois minutos. Talvez mais se acharem necessário. Eu espero. Afinal, não vou a lado nenhum. Levantem-se das vossas cadeiras, camas, ou sofás. Procurem por um papel ou uma caneta. Se tiverem um caderno à mão, melhor. Um bloco também serve, embora nem todos o possam ver como o ideal. Afinal, não se sentiriam apertados se toda a vossa existência se resumisse a um pequeno bloco?

Nada de telemóveis, smartphones, computadores ou tablets. Esta tarefa exige um papel e uma caneta, mesmo que mais tarde optem por a digitalizar ou até mesmo por a transcrever. Voltem a sentar-se. Abram a janela, ou apenas as persianas, como anda o tempo, nunca se sabe o que nos reservam os ares do exterior.

Olhem para o vosso papel e escrevam. Façam a vossa lista. Escrevam uma carta para vós próprios, ou para alguém que desejam que a leia. Falem dos vossos sonhos, dos vossos desejos, dos vossos projectos. Escrevam sobre o emprego que gostariam de ter, o país que querem visitar, a língua que querem aprender, o instrumento que querem saber tocar, aquele objecto que querem muito comprar, o curso que ambicionam tirar. Os sentimentos que desejam partilhar. A vida que sonham ter.

Escrevam-na e guardem-na convosco. Hajam, mexam-se, façam algo pelos vossos sonhos. Cresçam. Realizem-se. Um passo de cada vez. Do mais simples e imediato, ao mais complexo e demorado. Pé ante pé. Até ao vosso destino.

Partam nesta aventura e, seja qual for o resultado, sorriam, pois pelo menos o fizeram. Tentaram. Falharam. Conseguiram. Por momentos foram felizes. Por momentos nada mais importou.

E isso, esses sonhos, são algo pelo qual vale a pena lutar.

Thursday, August 08, 2013

Vem Sentar-te Comigo, Maria, à Beira do Rio

Imagem DR

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Ricardo Reis

Incontáveis. Inúmeras. Perdemos a conta às pessoas que passam pela nossa vida. Desconhecidos que nos acompanham por breves instantes. Amigos que caminham ao nosso lado. Cada um, uma personagem, uma vida, um destino. 

Hoje, sento-me na beira da estrada. Por entre a multidão, alguém se destaca. Chamo-a e ouço a sua história. 

Maria. Longe de ser a primeira candidata para rainha do baile, raro era o rapaz que não reparava nela. Sempre presente nas festas e nos eventos mais importantes, Maria possui uma aura única que atrai as pessoas para ela. Convicta e determinada, nenhum obstáculo a impede de lutar pelos seus objectivos. Maria constrói o seu destino com as suas próprias mãos.

Nos tempos do liceu, era comum encontrá-la na biblioteca durante os intervalos. Com um livro de arquitectura nas mãos, e um brilho nos olhos. A sua paixão por esta arte era algo que a acompanhava desde muito cedo. Passear por uma cidade com ela, abria os olhos de quem a acompanhava, para os mais ínfimos pormenores de beleza de todos aqueles edifícios históricos, que apenas Maria conseguia encontrar.

A cidade ganhava vida. Como se uma doce música entoasse em perfeita sintonia, a cada esquina que ela passava, a cada sílaba que ela dizia, a cada peça de arte que ela revelava. 

Maria seguiu o seu sonho. Viajou. Acabou o curso. E acordou para a realidade. Mas não deixou o desespero apoderar-se do seu espírito. Maria bateu a todas as portas. Quando nenhuma se abriu, voltou a viajar. Inglaterra, Dinamarca, Suécia e Estados Unidos. Uma cidade nova a cada ano que passava. Uma nova porta que se abria. Uma carreira construída a custo, com um elevado nível de satisfação.

Não teve medo. Arriscou. Construiu a sua própria escadaria de sucesso. Cada degrau trabalhado por lágrimas de esforço. Por boas e por más recordações. Por erros e por rasgos de génio. Por competência e desleixo. Por ensino e experiência.

Maria chegou mesmo a conhecer alguns dos seus ídolos. Seguiu os seus passos, e hoje trabalha em proximidade com alguns deles. O sonho de Maria, virou paixão e desejo. A cada dia que passa, aquela rapariga de uma pequena cidade portuguesa, torna-se num exemplo de perseverança. 

O seu sonho é hoje realidade pois Maria não teve medo de partir. Não teve medo de olhar a adversidade nos olhos, e de sorrir perante o desafio. 

É difícil deixarmos a nossa casa. A nossa família. Os nossos amigos. Mas por vezes, é necessário. Maria não se conformou. Não aceitou algo abaixo da sua ambição. Tudo que ficasse aquém daquilo que desejava, não era suficiente. 

Maria é hoje uma cidadã do Mundo. Uma arquitecta de renome. Estável e concretizada. Feliz por ver o seu sonho realizado. E por saber que aquela adolescente que passava os intervalos na biblioteca, olha hoje para ela com orgulho e admiração.

Comovido pela sua história, despeço-me de Maria. Tal como o resto da multidão, também ela segue o seu caminho, levando consigo apenas a certeza de que nada a irá impedir de alcançar o seu destino.

É difícil sairmos da nossa zona de conforto. É difícil arriscar. Deixar tudo para trás. É difícil, mas a perda é passageira, quando o ganho é tão elevado. Tristeza apenas sente quem abdica do seu destino. Quem se conforma. Quem desiste.

Levanto-me. É hora de me fazer à estrada. Longe da multidão, levo comigo a história de Maria. Inspiração para o caminho que se segue. Motivação para o desconhecido que o amanhã reserva para todos nós.

Thursday, July 04, 2013

Ainda existem sonhadores?

Imagem DR
Todos somos irreverentes, cada um à sua maneira, especialmente durante a adolescência. Embirramos com coisas sem importância. Vivemos para o novo, para o desconhecido. Para o banal, para o profundo. Para as emoções fortes, e para as más decisões. Somos aquilo que queremos ser, e aquilo que queremos que os outros vejam. Mas, acima de tudo, somos sonhadores.

Ao crescer, os sonhos transformam-se. Perdemos alguns, substituímos outros. Desistimos dos desejos de infância, e construímos a realidade sobre os alicerces da nossa ambição. 

Em tempos escrevi sobre a necessidade de não pormos de lado os nossos objectivos. Não, em detrimento de um potencial desaconselhado pelos habituais Velhos do Restelo, que apenas desejam ver-nos falhar. Era irreverente. Argumentava que um trabalhador satisfeito por ver o seu sonho concretizado, era mais feliz, mais produtivo, mais capaz de exercer a sua profissão.

Hoje, ainda concordo com esta premissa, mas confronto-a com a realidade. Poucos sabemos aquilo que verdadeiramente queremos. Ainda adolescentes, sonhamos alto. Ambicionamos vitórias fáceis, e prémios avultados. Desconhecemos o potencial das nossas qualidades e das nossas aptidões. Confundimos desejo com vocação e, por vezes, perdemo-nos nas decisões mal tomadas. 

De que vale então sonhar, se não temos nenhuma garantia de ser esse o sonho, que nos irá fazer felizes? A magia constrói-se nessa mesma incerteza. Sonhos descartáveis, todos temos. Já sonhos verdadeiros, apenas os tem quem for capaz de enveredar pelo desconhecido. Quem não tem medo de enfrentar todo e qualquer obstáculo. Quem não desiste ao primeiro sinal de adversidades. Quem tem talento, e não o desperdiça. Quem tem vontade, e se esforça. Quem se adapta à realidade, em vez de sonhar de forma desmedida. Quem o faz por amor à camisola, e não por dinheiro.

Sonhar, não é um meio para atingir um fim. É uma lista de ambições e objectivos, adequada a tudo aquilo que nos faz feliz, às nossas qualidades, aos nossos conhecimentos, e às nossas capacidades.

Haverá sonho mais nobre que a busca pela felicidade? A própria declaração de Independência dos E.U.A. inclui este desejo na sua afirmação mais conhecida, ao definir os direitos básicos do Ser Humano como ,“a vida, a liberdade e a busca pela felicidade”.

“Eu sonho com um dia ser feliz com aquilo que faço”. Escrevi, em tempos. À partida, um objectivo simples, mas difícil de alcançar.  Contudo, esse deve ser o propósito principal quando nos deparamos com a possibilidade de melhorarmos a nossa vida, de mudar de emprego, de cidade e de país, ou até mesmo, de voltar a estudar. 

A criança sonha, o jovem constrói, e a obra nasce. Existe um sonhador em cada um de nós. Não o devemos calar. Não o devemos esquecer. Podemos adiá-lo, por força das circunstâncias e das nossas próprias prioridades, mas nunca o podemos esquecer. 

Todos somos sonhadores. Mas nem todos sabemos sonhar.

A ambição desmedida, e os sonhos irreais, são a receita para o insucesso. O segredo está em conhecermo-nos a nós próprios. Até ao mais ínfimo pormenor. Os nossos defeitos. As nossas mais-valias. Aquilo que nos dá prazer, e aquilo que sabemos fazer melhor que ninguém. 

Aquilo que sabemos. Que desconhecemos. Que queremos conhecer. Aquilo que nos torna únicos. Não a nossa vocação, mas sim a capacidade de adequar o nosso sonho à fatia da realidade, que nos fará mais felizes.

Ainda existem sonhadores? Sim. Cada um à sua maneira. Sonhamos com carreiras, com famílias, com amizade e com amor. Traçamos os nossos objectivos e procuramos alcançá-los. O dia em que deixamos de sonhar, é o dia em que deixamos de viver. 

Todos temos um sonho. De que espera para construir o seu?

Wednesday, September 29, 2010

Decisões

“Todos os dias somos confrontados com pequenas decisões, momentos que definem a direcção do nosso caminho.” Um telefonema, uma breve conversa e quatro anos volvidos, hoje é um dia diferente.

Os primeiros raios de sol abrem caminho pelas persianas, envolvendo o meu quarto aos poucos numa suava carícia de calor matinal. Acordo pouco antes da hora que programei no despertador. Enquanto aguardo que este desperte mergulho na fantasia de um dia diferente. Um dia como hoje.

A mesma hora, a mesma música. “Talvez esteja na hora de mudar a estação de rádio, já há uns tempos que não consigo apanhar o ‘Café da Manhã’”, penso. O mesmo banho, as mesmas roupas, o mesmo pequeno-almoço. As rotinas dão-me conforto, são seguras e estáveis. Aconteça o que acontecer posso sempre contar com elas.

Pego no meu telemóvel, nada de novo. Questiono-me se devia continuar a adiar a compra de um novo, ter a caixa de mensagens sempre cheia já começa a irritar. Saio de casa. A mesma porta, as mesmas chaves, o mesmo carro. Talvez não o mesmo, a cor é diferente. Mantém ainda o tom original, um verde-água sinónimo da sua experiência, marcado pelos longos quilómetros de estrada já percorridos. Hoje tem ainda mais alguns para fazer.

É bom estar de regresso a casa. Após estes últimos anos em constante viagem é bom ter um lugar para guardar as malas, dormir numa cama já bem familiar e fazer-me à estrada sem precisar de um mapa.

A viagem, essa, indispensável desde o meu regresso, é já ela mais um mero percurso rotineiro que, não fosse pela imprevisibilidade do trânsito, faria de olhos fechados.

Chego a Arouca pouco antes das nove e meia. Cidade diferente. Entro no café do costume onde a vejo a tomar o pequeno-almoço. Um croissant e uma meia de leite, também ela criatura de rotinas. “Se apenas esse leite fosse de soja podias ser perfeita”, digo-lhe com um sorriso. Ela limita-se a olhar-me de relance fingindo ignorar-me. Sento-me ao seu lado a aguardar a sua reacção. “De todos os cafés em todo o Mundo, tinhas que entrar no meu”, acaba por dizer. Beijamo-nos. Um beijo, também ele rotina, não fosse pela constante novidade de emoções que este momento desperta. Cada vez, único.

O seu nome é Sofia. Conheci-a há anos. Partilhávamos o mesmo sonho. Tomámos a mesma decisão, mas em cidades diferentes. Eu no Porto, ela em Lisboa. Lugar-comum nestas histórias. Nada de novo. Há dois anos, o destino, ou talvez uma mera coincidência entre duas pessoas que escolheram o mesmo ano para fazer Erasmus, ditou que nos encontrássemos em Madrid.

Conhecemo-nos quando já nos tínhamos esquecido um do outro. Conhecemo-nos no momento certo. “Assim estava escrito”, disse-lhe pouco após o nosso primeiro beijo. Ela sorriu. O mesmo sorriso.

“Vamos chegar atrasados”, disse. “Deixa-os esperar, a maioria deles prefere continuar na camioneta a dormir em vez de nos ouvir”, respondi. Ela concordou. Com alguma relutância deixámos aquele lugar.

Cabia a nós fazer a visita guiada ao Museu de Arouca. Uma breve lufada de ar fresco nos exaustivos dias de trabalho de campo. O grupo de hoje era uma turma de uma escola básica da região. A maioria das crianças distrai-se com facilidade e acaba por prestar pouca atenção às nossas apresentações. Acabamos por passar metade do tempo a avisar para não tocarem nas exibições. A minha única esperança é que, entre as poucas dezenas de alunos, haja pelo menos um interessado, sem medo de nos pôr à prova.

A turma de hoje parecia mais calma que as anteriores. Como era habitual gastámos algum tempo a explicar a origem das pedras parideiras e a mostrar-lhes alguns dos exemplares que pareciam maravilhar por breves instantes as suas jovens mentes. Enquanto ela os levava para a sala com os fósseis de trilobites, fui preparar o anfiteatro para a projecção de um pequeno documentário sobre os nossos estudos de campo.

Um rapaz franzino seguiu-me para colocar algumas questões. Já tinha reparado nele, era o que parecia mais atento do grupo. Perguntou-me sobre o que fazia, sobre o meu curso, também ele queria seguir as minhas pisadas. Sugeri alguns sites onde ele se podia informar e, antes de o levar para junto do resto da turma, disse: “Se o teu sonho for algo que te traga verdadeira felicidade, não desistas antes de o concretizares.”

Ao aperceber-me do forte impacto que teria na vida daquele rapaz, deixei-me envolver por um agradável sentimento de realização. São simples momentos como este que mudam o tom de qualquer dia.

Durante o filme, sentei-me ao lado da Sofia no fundo da sala. Contei-lhe a conversa que tive com aquele rapaz enquanto recordávamos alguns dos momentos passados durante as filmagens. “Não és um pouco novo para ser o mentor de alguém?” perguntou. “Talvez. Duvido que aquele rapaz se lembre de mim ou daquilo que lhe disse, mas quem sabe, talvez um dia ele nos venha a citar na sua tese de doutoramento.”

“A mim talvez, já tu, é outra história”, respondeu fixando o olhar na tela de projecção enquanto esboçava um expressivo gesto de contentamento. Fingi ignorá-la e imitei o seu recém-descoberto interesse pelo vídeo. Estava na parte em que explicava o processo da separação do fóssil da placa de xisto. Lembro-me bem daquela tarde. Cansados e cheios de pó após um longo dia de trabalho, acabámos por dar um mergulho numa das várias cataratas da Serra da Freita. Uma tarde diferente.

Passava pouco do meio-dia quando nos despedimos da turma. Almoçámos no centro, um pequeno restaurante com esplanada perto do convento. “Temos que aproveitar estes últimos dias de calor”, foi a desculpa que ela usou para me convencer a almoçar ali. Talvez um dia tenha que aprender a dizer não, mas hoje não é esse dia.

A mesma comida, o mesmo atendimento. “Estou a pensar levar umas fatias de pão-de-ló”, disse. “Prefiro o de Ovar”, respondeu. Diferente lugar, mas algumas coisas não mudam.

Chegámos ao centro museológico do Geoparque de Arouca pouco antes das duas da tarde. O resto da equipa já estava à nossa espera. A Sofia é do sul de Aveiro, desde pequena que teve uma forte paixão pela paleontologia. Terminada a licenciatura na Universidade de Lisboa, iniciou agora o doutoramento em parceria com a universidade de Madrid onde nos conhecemos. O estudo dela foca os vestígios paleozóicos do centro de Portugal.

É curioso como, embora tivéssemos passado grande parte das nossas vidas próximos um do outro, foi necessário ir para outro país de forma a, por fim, nos encontrarmos.

Passei as últimas semanas a ajudá-la com os trabalhos de campo. Já nos verões anteriores fizemos o mesmo em preparação das nossas teses. Daqui a um mês irei para a Lourinhã juntar-me ao Octávio Mateus e a mais um grupo de jovens investigadores. Também fui aceite no mesmo programa doutoral que ela, mas decidi seguir uma linha diferente de estudo. Durante os próximos meses irei assistir à recolha dos fósseis de uma nova espécie de saurópode similar ao Lourinhasaurus. Ela acabará por se juntar a mim, mas não podemos escapar a algumas semanas de separação. Dias como este são, assim, muito importantes.

Separámo-nos do resto do grupo em busca de novas áreas ainda por explorar. Recolhemos algumas amostras promissoras e preparávamo-nos já para regressar quando sugeri que fizéssemos uma pausa. Preparei um pequeno piquenique com alguns dos seus doces preferidos. Aguardámos durante horas, que na verdade não passaram de meros minutos, a fitar as belas paisagens da serra. Uma ligeira brisa acariciava o seu rosto. Com a sua face encostada sobre o meu peito, sentia as fortes batidas do meu coração, sinónimo de uma ligação mais profunda do que alguma vez podia ter imaginado.

Por um instante era como se o próprio tempo tivesse cedido à nossa vontade. O resto do mundo parecia não mais importar enquanto nos perdíamos um no outro.

Não tardou a regressarmos à realidade daquele dia. Regressámos para junto do grupo e continuámos o nosso trabalho. Ao fim do dia jantámos todos juntos novamente no centro da cidade. O mesmo jantar, pessoas diferentes.

Levei-a até casa. Pelo caminho mergulhámos num profundo oceano de milhares de conversas, todas elas a esconder simples palavras que ambos reconhecíamos no olhar um do outro. Ao despedir-me dela, fiquei para trás a observá-la enquanto se dirigia para a sua porta. Ela olhou para trás e sorriu. Senti uma forte necessidade de lhe dizer o que sentia, mas mesmo que as palavras ficassem por ser ditas, ela era capaz de as ler naquele simples gesto. Assim como eu as li no seu último relance antes de entrar.

Não era uma despedida. Amanhã voltaria a vê-la. Amanhã.

Regressei a casa. A mesma estrada, o mesmo carro, a mesma rotina. Deitei-me. A mesma noite, a mesma cama, um dia diferente, um pensamento diferente. Deixei-me adormecer, envolto na felicidade daquele dia, foi para ela o meu último pensamento. Mal podia esperar para acordar, para a ver, para voltar àquele lugar. Mal podia esperar para ver este sonho concretizado. Mal podia esperar.

O mesmo eu, um dia diferente, um mundo diferente, uma escolha diferente.

São simples os momentos que nos definem. Podem surgir por entre as linhas de um bom livro, na equação dos acordes de uma boa música, ou nas palavras de uma pessoa querida. Para mim foi um telefonema, dois minutos de conversa e um comum formulário.

Hoje, não é um dia diferente.

Saturday, July 22, 2006

Screaming into the Dark

Quantos dias teriam passado? Que luz era aquela que lhe encadeava os olhos? Alguém podia saber, mas ele já não tomava conta dos dias, nem tão pouco se importava com o que se passava à sua volta, mesmo que esta luz lhe doe-se como se as suas Íris estivessem a arder.

Hoje não seria um dia diferente, apenas mais um dia daqueles que vieram a seguir ao impensável. Mas ontem houve algo diferente, um simples telefonema, que não fosse pela persistência da chamada, nunca teria sido atendido. A voz do outro lado apanhou a sua atenção. Seria mais um palhaço a tentar enchê-lo de propaganda enganosa? 

Desta vez não. A voz era familiar, alguém do passado, alguém que tinha boas notícias, coisa rara por estas bandas. Apesar do cepticismo ele concordou em encontrar-se com a voz. Mal se apercebeu de que a luz era a de mais uma amanhã, a manhã do dia seguinte, do dia que tinha algo para fazer. Despertou, e preparou-se para ir ao seu encontro.

Ainda era de manhã quando se encontraram. Já tinha passado alguns anos desde a última vez que se viram, mas qualquer sentimentalismo, ou saudade, eram coisas que não podiam ser associadas a este momento. A voz pertencia ao seu filho.

“Vem. Descobri uma maneira de a salvar.”

“Foi para isso que me chamaste? Não tenho tempo para parvoíces.”

Virou as costas para se afastar, mas parou quando sentiu o seu braço a ser agarrado, puxando-o para trás.

“Se fossem parvoíces não te teria chamado!”

Ele viu nos seus olhos que ele dizia a verdade. 

Entraram ambos num armazém, ao fundo estava uma estrutura metalizada oval, com uma cadeira no centro, como uma espécie de cápsula.

“Entra lá dentro”, disse o seu filho.

“O que vai acontecer?”

“Consegui fazê-lo, posso levar-te ao momento antes...”

“‘Tás à espera que acredite que aquilo é capaz de contrariar as leis do tempo e do próprio destino?!”

“Do destino, só cabe a ti descobri-lo, mas do tempo sim. Agora, entras lá dentro ou vais continuar a desperdiçar o resto da tua vida?”

“Hmm... Sempre foste muito teimoso...”

Ele entrou na estranha cápsula, apesar de continuar céptico, uma pequena onda de esperança começava a formar-se dentro dele. Depois do seu filho accionar o mecanismo inicial, e de lhe explicar o que tinha de fazer, a cápsula fechou-se e ele adormeceu.

Alguém sabe o que é perder um verdadeiro amor? Talvez ninguém, mas ele sabia-o. Tudo aconteceu há uns meses atrás. Ou já seriam anos? Pouco importa, a data precisa perdeu-se nos fios do tempo. Numa fresca noite primaveril, passeavam pela floresta, nada havia a temer. Já o tinham feito muitas vezes, mas algo estava diferente, ele não se sentia ele, todo o seu poder tinha desaparecido. Sentia-se normal, mas estando ela ali, não havia tempo para pensar nisso. 

Aquela noite foi mesmo muito diferente. Da escuridão surgiram algumas sombras que sem aviso ou qualquer tipo de motivo decidiram atacar. Eles fugiram até onde puderam, mas as sombras encurralaram-nos. Ele tentou lutar, mas eram meras sombras, e ele sentia-se muito enfraquecido como nunca antes se tinha sentido. 

Três foram as flechas que trespassaram o peito da sua companheira, que ali jazia apenas com forças para um último olhar. Com isto o seu poder retornou, mil vezes aumentado pela raiva, e pela dor. Com facilidade derrotou as sombras, mas porque é que o seu poder se tinha dissipado? Porque tinha ela de morrer? Chegou o dia de obter a resposta a estas perguntas.

A cápsula finalmente chegou ao seu destino. Despertou, quando ela se abriu. Olhou para as horas, já faltava pouco tempo, tinha que se despachar. Estava na mesma floresta, exactamente como se lembrava. Decidiu antecipar-se e procurou o local onde eles tinham sido encurralados. Lá, esperou que eles chegassem. Um movimento chamou a sua atenção, pouco tempo depois. Lá estavam eles, e lá estavam as sombras. 

Concentrando todo o seu poder dirigiu um jacto de energia destruindo todas as sombras. Mas as flechas já tinham sido lançadas. Só havia uma coisa a fazer. O último sacrifício por quem ele amava. Colocou-se a si próprio em frente delas e assim foi ele atingido em vez dela. Logo ali desapareceu. O universo inteiro rodou na outra direcção. O destino e a vida de ambos voltou ao normal, como se o encontro das sombras nunca tivesse acontecido.

O sacrifício de alguém que morreu naquele dia, culminou na sua verdadeira morte. Era o que tinha a fazer. Ele podia já não existir, mas o seu outro Eu, que não passa dele mesmo, esse nunca terá que passar por aquilo. 

O seu filho talvez soubesse que era assim que as coisas se viriam a desenrolar, mas nem ele próprio guardou memórias do herói que o seu pai nunca foi. Esta amostra de verdadeiro amor ficou perdida no tempo. Esquecida para sempre, mas eternamente viva nas vidas que foram salvas naquele dia, e nos destinos que se alteraram.

Friday, January 20, 2006

Sonhos de Sofá

Foto DR
“Aconselho-te a apressares-te. Esta velocidade pode ser imprópria para cardíacos.” Ariel, não, não era este o seu nome, mas bem que podia ser. A tal senhora de branco ascendia no céu até pairar em pleno ar. Que movimento indescritível, e cheio de tão tremenda beleza. Beleza essa coberta por uma sombra.

Ele estava lá em baixo, controlava-a contra a sua vontade. Ela aponta a sua flecha para os inocentes. Eles nada lhe fizeram, nem a ela, nem a ele. Mas é a ele que Ariel obedece. "Tem que ser agora", diz-lhe sem mexer os lábios.

Ela está relutante, incapaz. Porque tem ela de dar tal destino aos inocentes? Porque deve tamanha pureza e serenidade, ser sujeita a esta opressão? A tamanha demanda pelo inaceitável? Pelo perverso?

Ariel, identifica o seu alvo e puxa a flecha para trás. "Isso. É agora!", grita ele. Sim, é agora, ela sabe que não é capaz. Não disto. Mas existe algo que ela ainda pode fazer: Pôr um fim à sua opressão.

Ela direcciona a sua mira para o coração daquele ser perverso. Com alvo no centro da sua perversidade, a traição abate-se sobre os céus, e a seta trespassa-o. Ariel nem pestaneja, há mais vidas a salvar.

O Eu que, de tantas adversidades, e problemas impossíveis, vê-se mais uma vez numa situação de perigo irrealista e surreal. "Porque raio estas coisas só acontecem a mim?! Que sonho tive eu tão desastroso que acabou com o universo de outrem?".

A caminho do calor reconfortante daquela que um dia o salvou de si mesmo, a sua bicicleta pára. Também os grandes heróis são amigos do ambiente. À sua frente, algo que desde criança ele aprendeu a familiarizar e a conhecer melhor que ninguém.

Este não tem quaisquer exageros cinematográficos. Doze metros da cabeça à ponta da cauda. Dentes e mais dentes. Braços curtinhos com apenas dois dedos, mas de cor negra. Muito negra.

O T-Rex olhava-o. Nada havia a fazer. Não era capaz de pedalar mais depressa. Este seria o fim. Não existiam realidades generosas, ou salvamentos de última hora. Não desta vez. Desta vez, era o fim.

Mas Ariel não podia deixar que assim fosse. Afinal tudo isto era obra do seu mestre que agora jaz morto numa poça da sua própria malvadez. Do céu deixa cair o salvador. Não aquele que se esperava, mas outro da mesma espécie. Mais pequeno, decerto. As apostas não estão do seu lado.

A clareza do bem é translúcida na sua pele, e na sua leve penugem branca. O T-Rex maior recupera os sentidos. Atordoado após testemunhar um da sua espécie a cair dos céus. Ignorando Ariel, e o nosso herói, ele olha nos olhos do recém-chegado.

Antes de fugir desenfreadamente estrada fora. Este Eu seria capaz de jurar que o tinha visto a sorrir.

A luta começou. Ariel é incapaz de a ver. O seu tempo não pode ser preenchido por estas coisas mundanas. Ela cometeu o único acto imperdoável, mesmo que apenas o bem possa surgir da sua traição.

Terá agora que responder perante um poder maior. Um poder que transcende qualquer um, até inclusive, os poderes do Eu que morreu em seu desespero.

A luta interminável entre dois membros de uma espécie extinta continua a ser disputada por baixo do olhar de Ariel. Ao nosso Eu apenas resta o reconforto de algo a que pode chamar de casa.

Este é o seu mundo. Este é o seu dom. Esta é a sua maldição.