Wednesday, December 09, 2015

A Minha Árvore de Natal

Christmas Lights; Foto: Adriano Cerqueira
O Christmas Tree, O Christmas tree,
How lovely are your branches!
In beauty green will always grow
Through summer sun and winter snow.

Desde que me conheço, e desde que tenho capacidade para o fazer, que sou eu quem monta e enfeita a Árvore de Natal em minha casa. É assim há anos, e ontem não foi excepção. Normalmente aproveito a ocasião para encher a casa com músicas de Natal enquanto enfeito a árvore, o presépio, e os restantes motivos que tradicionalmente se espalham pela sala, da entrada até à cozinha.

Talvez por causa do tempo cinzento que ontem se fazia sentir, ou por há três semanas atrás ainda andar de manga curta, desta vez, enfeitar a Árvore de Natal não passou de um acto mecânico. Como se não passasse de uma vulgar tarefa doméstica. Ou outra qualquer obrigação, feita com pouco, ou mesmo nenhum prazer.

Este ano não se fez ouvir nenhuma melodia natalícia. Nem sequer tirei uma única foto à árvore depois de enfeitada e apropriadamente iluminada. O único acto que ainda me fez sorrir foi a já habitual oferta de uma laranja ao Menino Jesus.

A verdade é que já há alguns anos que pouco ou nada muda nos nossos enfeites de Natal. Há alguns objectos que são já tradicionais e não podem ser evitados. As imagens do presépio, as três casas cobertas de neve, alguns enfeites da Árvore de Natal mais velhos que eu, as duas velas em forma de Pai Natal, os dois anjos, e a habitual estrela que descansa no topo. Nos últimos anos, a única coisa que mudou foram as luzes, isto porque as anteriores acabam sempre for falhar mais ano, menos ano, e alguns motivos novos que foram surgindo, ora por oferta, ora apenas porque sim.

A nossa colecção de postais também tem vindo a crescer. O topo do móvel da televisão está a ficar mais pequeno a cada ano que passa. Pela primeira vez, tive mesmo que deixar alguns postais de fora, ora por falta de espaço, ora porque não tinham valor suficiente para ficarem assim expostos.

Contudo, embora cada ornamento, cada postal, e cada figura conte uma história, a verdade é que fora estes pequenos pormenores, já não me revejo nesta Árvore de Natal. Sempre sonhei com uma árvore grande, daquelas que chegam quase até ao tecto. Em ambas as casas em que já vivi com os meus pais, não havia espaço para uma árvore dessas, e isto continua sem mudar. Se a primeira casa era muito pequena, nesta, a culpa recai na escolha de mobiliário feita pelos meus pais.

Ontem, enquanto preparava os enfeites e procurava desesperadamente em, literalmente, todas as gavetas pelos postais, apenas para os encontrar por baixo da cabana do presépio, pensava para mim próprio que precisávamos de novos ornamentos. Comecei a imaginar uma árvore feita do zero, com novas luzes, novas bolas, novas fitas, e uma nova estrela. Um sonho, para já, improvável.

Há já algum tempo que sinto que os anos passam como meses, os meses como semanas, e as semanas como dias. Talvez por isso, ainda não me sinta em Dezembro. Esta estranha onda de calor, que embora ténue, ainda hoje persiste, também não ajuda. Faltam cerca de duas semanas para o Natal, mas assim não parece. As noites são frias, os dias são amenos. As folhas ainda caem das árvores, coloridas em tons outonais como se ainda agora estivéssemos a entrar em Novembro.

Sim, já há pelo menos dois meses que é impossível entrar num centro comercial, ou ligar a televisão sem ouvir uma música de Natal, ver um enfeite, ou uma qualquer promoção natalícia, incentivando a onda de consumo já típica desta época do ano. Mas mesmo assim, questiono-me, onde está o espírito natalício?

Com o fim provisório do feriado de 1 de Dezembro, muitas famílias adiaram para ontem a preparação dos seus enfeites natalícios. Também eu aproveitei este feriado para alimentar uma tradição que durante anos, em minha casa, nunca teve uma data definida. Contudo, não o fiz com o habitual espírito que habitualmente cresce em mim ao longo desta época.

Talvez porque apenas lá passo os meus fins-de-semana. Talvez por não olhar para o apartamento que divido durante a semana como uma casa, mas sim como nada mais que um ponto de passagem. Talvez por ainda não sentir que hoje é Dezembro, e que 2015 está quase a terminar. Não consigo encontrar um motivo preciso, mas este ano ainda não encontrei o meu espírito de Natal.

A duas semanas da Véspera de Natal, ainda vou a tempo de o encontrar. Não fosse esta a minha época preferida. O dia por que mais espero ao longo de todo o ano. O dia mais quente. O dia mais feliz. O dia em que a minha árvore fica ainda mais bela. O dia de Natal.

Friday, October 09, 2015

Esquecidos Costumes

Imagem DR
Para ser grande, sê inteiro: nada 
       Teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. 
       Põe quanto és 
No mínimo que fazes. 
       Assim em cada lago a lua toda 
Brilha, porque alta
Ricardo Reis, in “Odes”

Na Primavera de 2013 estava ainda a habituar-me ao clima e às particularidades da Covilhã. Sendo esta uma terra de extremos, de graus negativos e neve no Inverno, a calor sufocante no Verão, a Primavera e o Outono são duas estações negligenciáveis, que duram pouco mais de uma ou duas semanas. Depois de um Abril especialmente chuvoso, chegou um Maio seco e bipolar, com temperaturas altas e muito Sol durante o dia, e um frio de gelar os ossos durante a noite.

Nunca me dei bem com estas diferenças de temperatura, especialmente em ambientes mais secos. Um dia, enquanto estava a trabalhar, comecei a sangrar pelo nariz. Embora isto não tenha voltado a acontecer desde então, na altura o episódio forçou-me a cortar com uma das minhas mais velhas tradições. Substituí o meu lenço característico por lenços de papel. Esta medida devia apenas ser temporária enquanto me habituava ao clima seco da Covilhã.

Os meses foram passando, e continuei a usar lenços de papel. Até então apenas os usava quando me encontrava constipado, tendo o meu lenço de pano um papel preponderante na minha rotina de objectos que acompanham as minhas viagens ao longo dos dias.

Há uns meses atrás, durante uma ligeira crise de identidade tentei voltar a usar os meus lenços. Este curto regresso não durou mais que algumas semanas. Entretanto constipei-me e não voltei a usá-los desde então. Confesso que durante o curto período em que os voltei a usar senti-me mais confortável, e deixei-me envolver por um velho sentimento de segurança. De algo que tão bem conhecia e que durante tanto tempo fez parte de mim.

Certas tradições, rotinas, ou costumes que guardamos em nós, ajudam a construir a nossa identidade, e transformam-se, aos poucos, em âncoras que ajudam a nos manter firmes na realidade do momento, e que nos relembram quem somos e de onde viemos.

Tal como os lenços, existem outros aspectos da minha personalidade que mudei ao longo dos anos, ora forçado pelas circunstâncias de certos episódios, ora apenas porque sim. Em tempos não conseguia sair de casa sem o meu relógio, e embora tivesse também recentemente voltado a usar um, tal tentativa durou pouco tempo. Já não como com os talheres nas mãos opostas, nem ponho açúcar nos iogurtes. Há pouco tempo voltei a fazer sandes com o meu almoço da cantina, mas durante vários meses deixei de o fazer.

Algumas coisas vão e vêm, outras desaparecem para sempre, ou por tempo indeterminado. São estas pequenas coisas, estes pequenos costumes, que fazem de mim quem eu sou. São coisas que me distinguem dos outros, não de forma propositada, mas sim vítimas da minha educação, ou por mero capricho.

No outro dia, enquanto assistia à estreia da segunda temporada da série The Flash, vi um dos personagens oferecer um lenço a uma amiga dele que estava a chorar. A reacção dela foi um breve sorriso seguido de, “andas com um lenço? Tens o quê, 80 anos?” Não tenho 80 anos, e já não ando com um lenço. Não tenho nenhum motivo que me faça não andar com um lenço. Mesmo hoje guardo alguns no meu novo apartamento, embora já não os use há meses.

Talvez seja a preguiça a falar, talvez já não faça sentido usá-los. Não sei. Apenas sei que, por vezes, sinto que parte de mim está em falta. Que não estou completo. Contudo, seja o que for essa parte que agora encontro ausente, sinto-a ao meu alcance, longe, mas sempre disponível a reagrupar-se com os restantes pormenores que fazem de mim quem eu sou.

A nossa personalidade é definida pela soma de todas as pequenas partes que fazem de nós um todo, único, especial, inimitável, ímpar e singular.

Por enquanto continuo a usar lenços de papel. Talvez um dia assim não seja. Talvez. Um dia.

Thursday, January 15, 2015

Quase Literatura

Imagem DR
Essa [literatura] simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Por que escrevo? Por uma inata necessidade de me expressar? Para me fazer ouvir? Para partilhar os meus pensamentos? Para contar as minhas histórias? Apenas porque sim, ou porque é esta a minha arte?

Não sei porque escrevo. Não sou capaz de encontrar por entre palavras forma alguma de descrever o que me motiva. A força, a energia, a vontade de transformar uma página em branco num pensamento, numa ideia, num manifesto, numa história, ou num exercício lírico. Talvez seja por isso que não sou um bom escritor. Pelo menos, não um capaz de satisfazer a minha perpétua exigência. Não, não sou um bom escritor. Ou escritor sequer. Não vivo disto. Apenas escrevo. Apenas escrevo...

Lembro-me de quando comecei a escrever para mim. Não porque fazia parte de algum trabalho da escola, ou de um imperativo de comunicar textualmente com alguém. Apenas porque sim. Queria partilhar uma ideia. Contá-la não apenas a mim, nem tão pouco àqueles que me rodeavam, mas sim partilhá-la com o Mundo. Com todos aqueles que pudessem encontrar em mim alguma espécie de reconhecimento e compreensão.

De algumas incoerentes linhas de palavras sem nexo, para indignados protestos, crónicas do dia-a-dia, manifestos activistas, contos, romances, comédias, poemas, e frases atrás de frases de ideias, pensamentos, e acções que, ano após ano, sempre mantiveram algum daquele estilo incoerente e desafiador de uma norma que nunca foi verdadeiramente aprendida.

Não é o blogue que me move. Não é uma coluna, uma nota ou um artigo. Nem tão pouco um jornal. Escrevo apenas porque sim. Porque há um ano encontrei uma peça de lego amarela no chão e quis partilhar esta história. Porque a equipa que apoio foi injustiçada e sinto a necessidade de o expor. Porque a história das personagens que criei num pensamento, num sonho, ou num qualquer momento do meu dia, merece, aliás, não, precisa de ser contada.

Escrevo porque há sentimentos que não consigo guardar. Porque há desejos que quero partilhar. Pessoas que quero ajudar. Almas gémeas que quero conhecer. Escrevo porque é parte de mim. É parte de quem eu sou. Naquela linha ténue que nos separa do resto do Mundo, são as minhas palavras, os meus pensamentos, verbais ou literários, que me mantêm constante. São elas quem me guarda, quem me indica o caminho.

São recados. Cartas. De mim para mim. De mim para quem as quiser ler. Para quem me quiser ouvir. Para quem me compreende. Para quem me deseja entender. São vozes amigas. Recordações. Histórias para desanuviar. Personagens com quem chorar, sorrir, amar. Amizades eternas. Saudades curadas ao virar de uma página. Ao suspirar de um sonho. Ao despertar de mais um dia.

Sei quem sou por aquilo que escrevo. Aquilo que escrevo é parte de quem eu sou. Com o silêncio digo muito. Com uma folha silencio o vento. Afasto-me para um local só meu onde, uma boa conversa, dá lugar a uma frase. E a outra. A outra. E a ainda mais uma. Estas dão lugar a ideias. A realidades. A Universos inteiros. A vidas que apenas tu conheces se estas não forem contadas.

Podes nunca vir a ser um Tolkien, um Martin, um Saramago, um Pessoa, um Queirós, nem tão pouco um King, ou um Sparks. Mas escreves. Expressas-te. Dás-te a conhecer. A ti e a quem te lê. Deixas de ser apenas mais uma voz, tímida por entre a multidão. És algo mais. Algo que te ultrapassa. És a tua arte. Tu és arte.

Não sei escrever. Não sou escritor. Apenas escrevo. Apenas sigo aquilo que não sei pôr por palavras. Aquilo que me move. Aquilo que me fez encher esta, e tantas outras páginas. Desde que me conheço. Desde que penso. Desde que sei. Desde que escrevo.

Não sou um bom escritor. Mas é esta a minha arte.

Monday, December 15, 2014

Dez Anos de Bloguer

Coelho Amarelo
Como uma Fénix que não renasce das cinzas

Azul, cor da água, do céu, do calmo e da esperança. Água de onde a vida se proliferou, vinda do azul celestial depois de uma viagem longa, mais longa que qualquer viagem alguma vez feita. Vida que das chamas se ergueu para nelas voltar como uma Fénix que não renasce das cinzas. Não, não é aí que chegámos, nem iremos chegar. A Pomba Azul, a esperança, o futuro, a paz. Aquela luz que brilha no horizonte, tal como a estrela Polar guiou as velhas Naus dos descobrimentos, como coelhos na toca, nós agora ascendemos a uma nova realidade de um azul vivo e pacífico que nos guia eternamente, até á ultima chama se apagar, e a Fénix voar o seu último voo.
Manifesto Blue Dove

Dez anos. Faz hoje dez anos que publiquei o meu primeiro artigo na blogosfera. Era 15 de Dezembro de 2004, uma noite de quarta-feira não muito diferente de uma outra qualquer. A minha presença online resumia-se a dois sites, o Coelho Amarelo e o Paleo World, o primeiro criado como página pessoal dedicada à minha turma do Secundário, e o segundo como um projecto de uma base de dados sobre as diversas espécies de Therizinosaurus até então descobertas.

Dias antes tinha criado o Blue Dove na plataforma de blogues do Sapo. A ideia, e o nome, surgiram de uma breve prosa incoerente que escrevi para o Coelho Amarelo. Por entre essas linhas nasceu a ideia de criar um blogue, um conceito que na altura ainda não compreendia por inteiro. Dei-lhe o nome de Blue Dove, procurei online por um logótipo que se adequasse a ele, e escolhi um layout azul com aspectos marítimos, entre os templates do Sapo.

O Blue Dove durou pouco mais de um ano, com mais de cinquenta artigos publicados. Este blogue foi, ao longo de 2005, o meu diário pessoal, o meu porto de abrigo onde escrevia sobre tudo e mais alguma coisa. Foi lá que escrevi os meus primeiros contos, as minhas primeiras histórias, os meus primeiros poemas. Foi lá que nasceram rubricas como O 23 e Querido Diário, que ainda hoje se mantêm vivas neste espaço.

Foram dez anos e Quatrocentos e Quarenta e Quatro posts, divididos por sete blogues. O Blue Dove, o Story Writer, a Antologia do Eu, e o 25 de Julho, há muito já extintos, sobrevivem hoje no arquivo do A Flock of Blue Doves. O único, além deste, e do Mercúrio do Porto, que ainda mantenho activo, embora sem a periodicidade que, apesar de errática, o No Sense of Reason continua a praticar.

O meu primeiro artigo na blogosfera não foi um extenso ensaio filosófico, nem tão pouco uma crónica do dia-a-dia. Não foi um poema, ou um conto. Não foi uma entrada de diário, nem tão pouco possuía algo de intimamente pessoal. Não. O primeiro texto que alguma vez publiquei era sim, sobre o Sporting CP. Um breve esclarecimento sobre como funcionava a classificação da Liga que, à data, não estava a ser respeitada pelos jornais desportivos.

Na altura não havia facebook, nem twitter, não havia outra forma de publicar um pensamento maior que uma simples frase. E o IRC ou o MSN Messenger não eram os locais ideais para o fazer. Entrei na blogosfera por sentir falta de espaço. Pela necessidade de dizer algo mais, de projectar uma ideia e concretizá-la. Sem qualquer limite de caracteres ou espaço, e eventualmente, com a possibilidade de a alimentar com imagens, som e até mesmo vídeo.

O Blue Dove nasceu de uma necessidade, mas mantém-se ainda hoje vivo por algo bem mais profundo. Não é um simples blogue extinto, é uma Fénix renascida. Com uma nova vida, um novo design, um novo conceito. Hoje não é uma Dove solitária, mas sim uma Flock of Blue Doves.

Dez anos passaram e continuo a escrever. Para mim, para outros. Para quem quiser e gostar de me ler. Escrevo porque sim. Porque gosto. Porque não há sentido, ou razão. Apenas porque escrevo.

Quatrocentos e Quarenta e Quatro posts, entre Crónicas, Introspecção, Contos, Poemas, Momentos, Notícias, Reportagens, Vídeos e Imagens. Foram projectos que ficaram pelo caminho. Foram textos que ficaram por escrever. Foram datas que ficaram por assinalar. Foram dez anos. Vão ser muitos mais.

Hoje é dia 15 de Dezembro de 2014. Há dez anos publiquei o meu primeiro artigo no meu primeiro blogue. Hoje, escrevo mais uma página num livro sem sentido. Perpétuo, infinito, eterno. Tão contínuo e constante como qualquer linha sem senso, nem razão. Pois faço hoje dez anos, mas serão ainda muitos mais.

Believe in me, and I’ll believe in you!

Thursday, December 11, 2014

Adeus, Meu Doce Novembro

Sweet November, Imagem DR
November is all I know, and all I ever wanna know.
Nelson Moss

Novembro guarda em si algo de mágico. Uma doce energia que transcende qualquer poder de descrição. Novembro é, para mim, um mês especial, um mês diferente. Não há quintas-feiras em Novembro. Apenas felicidade. O potencial de sonhar. A promessa de um novo dia. Esperança. Paz. Uma recordação. Um recomeço.

Todos os meses são Novembro. Recordo-me da primeira vez que vi o Sweet November. Era mais uma noite de Verão, como outra qualquer. A falta de sono, ou de vontade para adormecer, impedia-me de contemplar o infinito pelos interstícios da janela do meu quarto. O zapping habitual tomou lugar. Talvez procurasse um episódio perdido de Everwood, ou uma retransmissão do The Good, the Bad and the Ugly. Em vez disso encontrei o Sweet November.

Uma história de amor. Um romance trágico entre um empresário preso ao seu sucesso, sem espaço para algo que não fosse previsível ou palpável, e sem um rumo para a sua vida, e uma rapariga excêntrica que passeava cães. Uma espécie de Dharma e Greg, tivesse esta sido escrito ainda no crepúsculo do século XIX.

Nelson e Sara, protagonizados por Keanu Reeves e Charlize Theron, conhecem-se numa aula para renovarem a carta de condução. Depois de uma troca de palavras atribulada, que faz com que Sara falhe a sua possibilidade de renovar a carta, esta procura Nelson para lhe fazer uma proposta que vai mudar a vida de ambos.

Ao longo de duas horas acompanhamos o romance entre duas pessoas, opostos aparentes, mas complementares. Assistimos à história de um amor em perpétuo crescimento. À evolução de Nelson, que deixa de viver para a sua carreira para se concentrar no agora. E a Novembro. O mês que os une e cujos dias limitam a sua relação.

Um mês, apenas um mês. Eram estes os termos de Sara. Regras incompreensíveis que Nelson procurou contornar. A beleza do agora. O momento imprevisível. Derrubado pela frieza da vida, e pela incerteza de um futuro planeado por outras mãos que não as deles.

Sempre serás o meu Novembro. Uma história simples, mas profunda. Um mês partilhado por duas pessoas que nos desafiam a reavaliar o nosso próprio caminho. A mensagem é simples, dar valor ao agora, ser feliz com as pequenas coisas, amar o dia, a simplicidade do dia-a-dia, a quebrável rotina, a memória de um amor, eterno na felicidade do último instante de incrível beleza, de uma inevitável despedida.

Sweet November é o amor entre Nelson e Sara. É a história de uma cidade. É a história de um momento. É a história de um mês.

Questionado sobre qual o meu filme romântico preferido, sinto-me tentado em responder Sweet November. Uma decisão sempre difícil entre este e o Before Sunrise, mas que mantenho constante, não seja por um qualquer lapso de memória. Pois, para mim, Sweet November, não é apenas um filme, ou uma breve história. É um hino, a homenagem a um mês que me é tão próximo. Um mês que recordo com felicidade. Um mês que, se pudesse, não mais teria um fim.

Não há quintas-feiras em Novembro. O meu aniversário não é em Novembro. Por mais que goste das cores do Outono, a minha estação é a Primavera. Mas há algo em Novembro. Algo mágico que talvez apenas eu consiga ver. Se alguma vez fizesse a lista dos meus melhores dias, aqueles em que fui mais feliz, este seria o mês mais representado. Em Novembro brilho. Em Novembro volto a ser Eu. Em Novembro sei ser feliz.

De Novembro nada peço. De Novembro nada espero. Guardo apenas recordações. Deixo-me envolver pelas energias positivas com que este mês me alimenta. São trinta dias como quaisquer outros. São trinta dias especiais, diferentes, intocáveis. São trinta dias de felicidade em potencial.

Despeço-me mais uma vez de ti velho amigo. Serás sempre o meu Novembro, o meu Doce Novembro.

Wednesday, May 14, 2014

O Amor não é um jogo, apenas é

Design: Adriano Cerqueira
O Amor não é um jogo, apenas é. Se querem fazer do amor um jogo, então atiro as minhas cartas para cima da mesa, e dou-me como vencido. A minha baliza está aberta, o caminho para o cesto está livre, a minha raquete está no chão. 

Numa relação não existe um vencedor e um vencido. Não existe um resultado em constante renovação. Ou ganham os dois, ou são ambos perdedores. Apenas, e só. 

Se o Amor é um jogo, assumo-me como perdedor. Deito a toalha ao chão, e continuo a jogar. Para sempre perder. Pois este é o único jogo que vale a pena. O único de que nada vale sair como único vencedor. 

Amar é um risco. Um risco que nada me trouxe além de dor, desilusões, e longas noites de reflexão. Um risco que continua a valer a pena. Por mais dúvidas que tenha. Por mais vezes que veja as minhas esperanças serem abaladas. Por mais que a minha fé seja testada. O Amor é a única constante pela qual vale a pena viver. O objectivo mais nobre. O propósito que nos move. A esperança que nos faz levantar todas as manhãs. 

Quando uma relação termina é simples seguir o caminho mais fácil. Atirar as culpas à outra pessoa. Ignorar. Apagar todas as memórias e recordações. Fazermo-nos de fortes. Passar a imagem de que seguimos em frente e de que somos felizes. Mentiras que contamos a nós próprios, para vencer. Para envergonhar a outra pessoa. Para a magoarmos. Para nos vingarmos. Mas este é o caminho errado. 

O caminho certo é bem mais longo e coberto de obstáculos. É dar espaço. Chorar. Guardar as recordações e relembrar os bons momentos. É saber perdoar. Manter o contacto. Valorizar aquilo que ambos partilharam. Aceitar. Seguir em frente, e construir algo novo. 

Pois, quando uma relação termina não há um vencedor e um vencido. Ambos perdem. Perdem as futuras viagens que ficaram por planear. Cada beijo que ficou por roubar. Cada momento para sempre perdido. Cada abraço. Cada história. Cada riso. Cada consolo. Cada dia rotineiro. Quando uma relação termina ambos perdem o futuro que ainda não eram capazes de sonhar. 

O Amor não é um jogo, apenas é. Não dá para fazer pausa. Não dá para desligar. Para guardar, ou para começar de novo. Mas o Amor tem vários obstáculos. A bagagem emocional que todos carregamos. As barreiras que levantamos. O orgulho e a vergonha, com que muitos não sabem lidar. 

O Amor não precisa de uma tabela classificativa. Nem tão pouco de um mercado de transferências, onde a experiência, o prestígio, ou qualquer outro valor arbitrário, dita a viabilidade de uma pessoa. O Amor apenas é. 

E nada me vai fazer deixar de acreditar. Por mais que me sinta a remar contra a maré. Por mais feridas que tenha de sofrer. Por maior que seja o obstáculo. Vou sempre lutar contra a frieza e o cinismo da indiferença. Vou sempre acreditar. 

Quando paramos de lutar. Quando desistimos na primeira curva. Quando não nos damos ao trabalho de sequer abrir a nossa mente à possibilidade de amar abertamente. O Amor deixa de o ser, e passa a ser mais um sentimento descartável que não merece qualquer tipo de atenção. 

Eu sou um perdedor. Dou-me como vencido. Vou cair e levantar-me as vezes que forem necessárias. Mas não vou parar. Não vou hesitar. Vou continuar a perder. Pois o dia em que ambos seremos vencedores, está algures no horizonte. E por mais longo e doloroso que seja o caminho, eu nunca o vou deixar de percorrer. 

Porque Amar é um risco. O único que vale a pena tomar.

Wednesday, April 02, 2014

Até sempre Ted, até já Covilhã

How I Met Your Mother
Faz hoje um ano que me mudei para a Covilhã. Um dia para recordar, mas também ele, um dia de recordes. Esta não é só a cidade em que mais tempo vivi fora daquela a que gosto de chamar de casa, é também o emprego mais longo que já tive na minha curta carreira.

O dia 2 de Abril marca, para mim, o início de uma nova era. A era pós-How I Met Your Mother. Ao fim de nove temporadas, seis das quais como espectador assíduo, vejo-me enfim privado daqueles vinte e três minutos de humor que ocuparam as minhas noites de terça-feira ao longo dos últimos seis anos.

Foi em Setembro de 2008 que tive pela primeira vez contacto com a série. Já tinha ouvido comentários por alto, em conversas entre o Paulo e o Luís. Durante esse Verão foram incontáveis as vezes que ouvi o Luís dizer, It’s gonna be Legen... Wait for it. Dary! Legendary, sem saber a origem dessa expressão.

Lembro-me de me contarem a premissa da série, já de noite, quando regressávamos do Furadouro depois da nossa habitual corrida. Pela sua descrição pareceu-me ser um drama idêntico a One Tree Hill, mas mais adulto. Não foram capazes de suscitar o meu interesse, mas mantive alguma curiosidade.

Numa tarde em Setembro, encontrava-me aborrecido e decidi pesquisar alguma informação sobre a série. Quando vi que o elenco incluía a Cobie Smulders, que conhecia como Juliet na série Veritas: The Quest, decidi ver o primeiro episódio.

Os vinte e três minutos de duração, o tom da cinematografia, e os cenários fixos, revelaram de imediato que estava perante uma sitcom, e não um drama como me fizeram entender. Esse episódio prendeu-me de imediato. Revia-me tanto no Ted que chegava a ser assustador.

Nas semanas seguintes nada mais fiz que ver os episódios das primeiras três temporadas. Deitava-me a pensar na série. Acordava com vontade de correr para o computador para ver mais um episódio. Ficava acordado, madrugada a dentro, a ver as peripécias do Barney, a admirar a forte ligação entre o Marshall e a Lily, e a torcer para que o Ted fosse capaz de reconquistar a Robin, secretamente sonhando que fosse ela a Mãe.

Consegui recuperar as três primeiras temporadas da série antes que a nova começasse. Foi uma sensação estranha ter que esperar uma semana por um novo episódio, quando estava habituado a vê-los de seguida até me cansar. Custou, mas consegui adaptar-me.

Ao longo dos anos a série perdeu alguma da sua qualidade. As últimas temporadas tinham um sentimento de repetição, e de humor forçado que quase me fez deixar de a seguir. Felizmente, sempre que How I Met Your Mother atingia um ponto baixo, surpreendia-me com um daqueles episódios que me fazia relembrar o sentimento que me prendeu às peripécias deste grupo de amigos, naquelas noites de fim de Verão, em 2008.

É estranho imaginar uma semana sem esta minha companhia das terças à noite. Contudo, uma boa história é aquela que sabe quando deve terminar, sem se alongar mais tempo que o necessário.

Hoje despeço-me de How I Met Your Mother, e agradeço aos seus criadores Carter Bays e Craig Thomas, por nos deliciarem com esta bela história, e com um elenco fantástico que fez dela o sucesso que sempre foi.

Despeço-me desta série, mas não da Covilhã. Se não houver nenhum imprevisto, por cá continuarei por mais um ano. Um ano para continuar a crescer. Para desenvolver os meus conhecimentos, e as minhas capacidades. Um ano para investir naquilo que me faz feliz. Um ano para seguir em frente. Um ano para começar a construir o meu sonho.

Até sempre Ted, até já Covilhã.

Tuesday, April 01, 2014

Quarenta e Dois

Imagem DR
Quarenta e dois minutos. É o tempo que demora o comboio Intercidades a completar o percurso entre Coimbra e Ovar. Quarenta e dois é também a resposta para o sentido da vida, e para os mistérios do Universo. Isto, se confiarmos no Hitchhiker’s Guide to the Galaxy.

Durante a breve temporada que vivi em Coimbra, fiz esta viagem quase todas as semanas. Quarenta e dois minutos passados a ler, a ouvir música, ou em profunda introspecção.

Coimbra sempre esteve a quarenta e dois minutos de distância, mas, para mim, pareciam ser muitos mais. Aquela cidade foi uma constante ao longo da minha adolescência. Cheguei mesmo a achar-me uma espécie de antípoda de Cesário Verde. Enquanto este ia ao campo para renovar as suas energias, eu usava a cidade de Coimbra com o mesmo propósito.

Foi lá onde vivi a minha primeira paixão, tão fugaz como o pôr-do-sol sob o Mondego. Foi lá também onde construi uma das poucas amizades que tive ao longo daqueles terríveis anos. Amizade essa, também ela efémera, mas que em muito ajudou a definir aquilo que eu queria para a minha vida.

Via Coimbra como uma cidade banhada pelo Sol. Repleta de esperança e de velhos prenúncios de romance. Apesar dos constantes agoiros, sempre a vi como um local optimista. Um ponto de partida para algo.

Em 2009, era lá que sonhava encontrar-me com aquela que até há bem pouco tempo ocupava o meu coração. Era o meio caminho entre Porto e Lisboa. O local certo para o nosso primeiro encontro. Mas assim não aconteceu.

Foi com alguma surpresa, e um leve sentido de ironia, que descobri que esta seria também a minha primeira paragem no mercado de emprego. A minha primeira experiência a viver sozinho, longe de casa.

A perspectiva de ocupar o meu tempo com algo mais que o Mestrado, ganhar experiência, e um salário fixo no fim do mês, calaram o receio que assolava a minha mente. Talvez devesse ter prestado atenção aos meus instintos, mas estava destinado a aprender com os meus próprios erros.

Cedo senti os anticorpos da cidade a expulsar-me. Numa noite de Setembro, tinha regressado do trabalho. Sem nada para comer, decidi ir ao Continente que ficava no fim da rua. Ameaçava chover, mas não tinha guarda-chuva e não havia nada mais perto. Apanhei aquela que apenas posso descrever como a maior molha da minha vida. As pessoas olhavam para mim, completamente ensopado, com estranheza, alguma pena, e uma certa quantidade de gozo.

Esta foi apenas a entrada para uma refeição repleta de intempéries. Da falta de organização da empresa onde trabalhava, a uma chefia incompetente e com falta de visão, sofria de uma pressão constante e sem fundamento. Fazia o melhor que podia, mas o mérito era sempre desprezado.

Um quarto minúsculo e húmido, num apartamento apertado e sem qualquer tipo de convívio com os restantes colegas, não ajudaram à equação. O sistema imunitário da cidade era forte. Eu era um ser estranho e nada bem-vindo.

Fui resiliente e não me conformei. Dei o meu máximo para me valorizar e procurei avidamente por uma oportunidade para sair dali. Demorou algum tempo, mas essa oportunidade acabou por surgir. O Porto voltou a chamar por mim, e acolheu-me de braços abertos.

Saí à pressa de Coimbra. Não olhei para trás. Não dei espaço para despedidas. Nunca fui tão feliz como naquele momento. Coimbra tem mesmo mais encanto na hora da despedida.

Nos últimos anos, lá regressei apenas uma vez para preparar uma entrevista para um episódio do Reacção Espontânea. Foi uma visita breve, com poucos percalços. Infelizmente, não posso dizer o mesmo dos dois dias que lá passei na semana passada.

A chuva, o frio, e o cinzento da nebulosidade, adivinhavam um mau presságio. Aquela Coimbra ensolarada que em tempos me fazia sonhar, já não existia. Hoje, não passa de uma sombra daquilo que em tempos foi.

Essa predisposição negativa, aliada ao cansaço e a algumas expectativas desmedidas que criei sob mim próprio, toldam as memórias dos bons momentos que vivi nestes dias. Acelerei um processo que precisava de calma, de estabilidade, e de um optimismo energético que me esqueci de alimentar. Sufoquei-me sob pressão, e esqueci-me de mim próprio.

A culpa não é da cidade, mas sim das circunstâncias. Estou hoje coberto por uma aura negativa da qual tenho que me livrar. Não culpo Coimbra, mas questiono-me se algum dia voltarei a vê-la com aqueles olhos de esperança e felicidade, que em tempos ajudaram-me a confiar em mim próprio, e a erguer-me das sucessivas quedas que animam o meu caminho.

No livro, seis vezes nove é a pergunta cuja resposta é quarenta e dois. Mas seis vezes nove são cinquenta e quatro, e não quarenta e dois. O verdadeiro sentido da vida, é que esta não faz sentido. O Universo tem erros, buracos, tropeções. Cada um deles uma imperfeição que lhe dá personalidade. Imperfeições que tornam belo o percurso que hoje caminhamos.

Quarenta e dois minutos entre Ovar e Coimbra. Apenas quarenta e dois minutos de uma longa viagem.

Monday, February 03, 2014

Os Gastos Possíveis de 2013

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Embora útil, uma das piores decisões que alguém com tendências de controlo obsessivo e compulsivo pode alguma vez tomar, é criar uma folha de Excel para registar os seus gastos ao longo do ano.

2013 foi para mim, o pior ano, no que diz respeito à minha capacidade de poupar. São vários os motivos que me levaram a este ponto, todos eles, ou melhor, quase todos, fora do meu controlo. Ter passado os três primeiros meses do ano desempregado, e sem qualquer fonte de rendimento, contribuíram em muito para um resultado menos positivo no fim.

A necessidade de migrar para outro distrito. A renda, e o custo elevado dos transportes, também não ajudaram. Se aliar a isto multas, gastos administrativos, e as avarias inesperadas do meu computador e do meu velho telemóvel, que ditaram a reparação de um e a substituição do outro, encontro em 2013, um ano pintado por momentos de pouca sorte.

Uma avalanche de inevitabilidades aleatórias que, inesperadamente, agravaram uma balança que, à partida, adivinhava ser algo desnivelada em relação àquilo que estava habituado.

Podia também argumentar que não fui propriamente comedido com os meus gastos. Mas esta afirmação não é inteiramente verdadeira. Viajei mais do que em outros anos, é certo, mas também comprei menos livros, filmes e álbuns. Fui menos vezes ao cinema. Não gastei mais saldo no telemóvel que aquele necessário para pagar a mensalidade. Posso ter exagerado numa ou outra prenda, mas também comprei menos roupa para mim. Enfim, fui estratégico nas minhas aquisições. Aquilo em que investi, investi por necessidade, e não por simples ócio.

Não posso assim escrever sobre as minhas compras inúteis, ou menos certas de 2013, pois estas simplesmente não existiram. Tive alguns gastos inesperados. Houve um ou outra pedaço de comida que foi desperdiçado. Mas nenhum caso que se assemelhe ao desastre da Marmite em 2011.

Não posso enfim dizer que tive gastos desnecessários, ou que estes fossem capazes de significativamente alterar o meu saldo final, que, apesar deste meu desabafo, não deixou de ser positivo. Não. Não tive gastos inúteis. Tive aqueles que quis, e aqueles que precisei.

A minha lógica para 2014 não vai ser muito diferente. Talvez até chegue a gastar um pouco mais, visto que os meus planos não passam por perder o meu tempo em casa a olhar para as paredes. Mas, se por mero acaso, ou simples impulso, me deixe tentar por uma compra menos certa, cá estarei de regresso para presentear todos aqueles que estiverem dispostos a ler, com os mais básicos exemplos da minha falta de engenho, no que a gastar dinheiro diz respeito.

Como diz o sábio povo, grão a grão...

Tuesday, August 20, 2013

Vazio de Ideias

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No outro dia estava a tentar escrever a minha habitual crónica para a Her Ideal. O primeiro parágrafo até estava aceitável, mas não posso dizer o mesmo do resto. Notas soltas, desligadas umas das outras. Cada frase que escrevia, parecia-se com o início de uma história diferente, ligada à anterior, apenas e só pelo tema em geral que tentava abordar.

Tardei em chegar aos três mil caracteres. Alonguei-me. Resisti até ao último segundo. Insisti em algo que não me agradava. Em algo desconexo. Sem sentido. Algo que não merecia ser assinado por mim. Não naquele estado. Desisti. 

Queria apagá-lo. Rasgá-lo. Queimá-lo. Observar de perto a envolvência das chamas no papel. Até que a última letra se transformasse num negrume carbonizado de algo que, em tempos, se assemelhava a uma folha de papel. 

Não o fiz. Guardei-o para nunca mais recordar. Algumas tiradas tinham o seu quê de qualidade. Podem um dia vir a ser úteis. Afinal, em três mil caracteres alguma coisa se há de aproveitar. Quem sabe, um dia. Não hoje, mas um dia. 

Em conversa, surgiu-me outro tema. Mais aborrecido. Um pouco desinteressante. Longe de se identificar com o estilo que venho a construir ao longo dos últimos meses. Afinal, todos nós temos os nossos momentos de falta de inspiração. De desenrascanço face à triste meretriz do tempo, e dos prazos de entrega. 

Escrevi a nova crónica em três tempos. As palavras fluíam com maior facilidade. Conexas, emocionais. Mas aborrecidas. Excessivamente aborrecidas. Ontem dei por mim a suspirar “ennui” enquanto preparava o jantar. Isto talvez faça de mim um promíscuo presunçoso. Quem de seu perfeito juízo, suspira em voz alta “ennui” para uma cozinha vazia? 

Este sentimento assolou-me nas últimas semanas. Culpo-o pelo desastre que foi aquela tentativa de artigo que nunca o será. Culpo-o pela alternativa aborrecida que dali saiu. 

Não espero, nem tão pouco desejo, que tudo aquilo que eu escreva seja bom, inspirador, ou até mesmo capaz de apelar à mais íntima profundidade das emoções dos meus leitores. Reservo isso para alguns rasgos de genialidade que povoam a minha escrita, sempre que as Musas, e a minha barreira de procrastinação o permitem. 

Culpo o meu aborrecimento, assim como culpo o meu espírito de laissez-faire. Preguiçoso procrastinador, que nem sempre se safa sob a pressão do deadline. Infelizmente não consegui fazer melhor desta vez. Cheguei mesmo a sentir alguma desilusão em resposta ao meu novo artigo. Paciência. Não sou perfeito. Nem tão pouco organizado. Não desejo a perfeição, mas procuro-a no caótico limiar arquivista do meu pensamento. 

Peço. Não. Imploro, o perdão dos meus fieis leitores que, por antecipação, sofrem agora de um profundo desapontamento por aquilo que eu escrevi, mesmo antes de o terem lido. Farei melhor. Um dia. Farei melhor.

Thursday, August 01, 2013

A bifurcação na estrada da Serra

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Existem escolhas que nos definem. Algumas mais importantes que outras, mas todas elas são reflexos das nossas acções, e do carácter que revelamos no momento em que somos obrigados a decidir. As grandes decisões, embora exijam maior concentração e empenho, não são tão reveladoras como as pequenas resoluções rotineiras que fazemos em milésimos de segundo. Por instinto. Espelhos transparentes do nosso ego. Construídas pela nossa experiência, e sustentadas na mais pura base do nosso ser.

No Domingo passado, regressei à Covilhã no Expresso do costume. Devido à menor procura nos meses de Verão, o número de autocarros da Rede Expresso entre Albergaria e Covilhã é reduzido. Isto força uma viagem de duas horas e meia com paragem na Guarda, a atrasar-se mais vinte minutos, obrigando os passageiros a pararem também em Viseu. 

Embora esses vinte minutos não sejam uma diferença significativa, causam um transtorno extra, pelo menos para mim. As noites de fim-de-semana na Covilhã são parcas em transportes públicos. Facto que piora bastante durante os meses de Verão. Normalmente, chego à Covilhã por volta das onze e vinte da noite, hora ideal para apanhar o autocarro que pára mesmo em frente ao meu apartamento.

Durante o resto do ano, mesmo se o Expresso se atrasar, consigo sempre apanhar um ou outro autocarro que, não sendo o que pára em frente à minha porta, pára suficientemente perto para compensar o gasto na viagem. Já no Verão, isto não acontece. Se perder o autocarro das onze e vinte, apenas tenho outro à meia-noite e seis. Normalmente, o Expresso chega depois das onze e quarenta, deixando-me, no máximo, com uma espera de vinte minutos. Contudo, este fim-de-semana não tive igual sorte. O Expresso adiantou-se e chegou por volta das onze e meia. 

Estava frio. A mala estava pesada, mas não trazia comigo roupa quente. As possíveis soluções seriam esperar lá fora durante mais de meia hora, gastar dinheiro num Táxi, que mesmo numa cidade pequena como esta, são ridiculamente caros, ou ir a pé. Não hesitei, fui a pé. Para memória futura, o meu apartamento fica no alto. O espaço que o separa da Central de Camionagem, corresponde a uma caminhada de mais de quarenta minutos, sempre em escada, com um, ou outro, ponto de descanso. 

Apenas tinha feito este caminho a pé uma vez. Na primeira noite, não sabia que autocarro devia apanhar, nem tão pouco qual o preço do bilhete. O caminho parecia-me fácil e aventurei-me. Uma parva decisão, da qual ainda hoje me arrependo. 

Na noite de Domingo, a ideia de voltar a subir aquilo tudo com a mala à mão, tão pouco me agradava. Mas estava frio. Não queria arriscar uma constipação. Queria chegar a casa, comer alguma coisa e deitar-me.

Pelo caminho, apenas pensava em como este episódio era um excelente momento de auto psicanálise. Se esquecer a hipótese de viajar de Táxi, podia ter optado por dois caminhos. O primeiro implicava bastante esforço e sofrimento. Um percurso árduo, amplificado por um fardo pesado, sem nenhuma ajuda para o carregar. O segundo, uma longa espera, solitária e fria. Uma espera de sofrimento e introspecção, que tardaria a levar-me até ao meu destino.

Perante esta decisão, escolhi fazer o meu próprio caminho. Por mais árduo que este fosse, e por mais pesado que o fardo de carregar a mala parecesse, não hesitei ao dar o primeiro passo. Fi-lo consciente da difícil tarefa que tinha pela frente, e da recompensa que me aguardava após a sua conclusão.

Cheguei a casa mais cedo do que previa. Fiz o caminho por etapas. Parei para descansar e beber água sempre que sentia necessidade. Degrau a degrau, subida a subida, cheguei ao meu destino. Cansado, sim. Exausto, mas vivo. Venci a subida da Serra, e o frio da noite. 

São estas pequenas rotineiras decisões que nos definem. São elas que nos moldam e que revelam a nossa verdadeira natureza. Hoje, não me arrependo do cansaço que senti, ou da energia que gastei. Hoje, escolhia o mesmo caminho. Hoje, conheço-me um pouco melhor.

Monday, May 06, 2013

A Hipérbole das Redes Sociais

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Uma hipérbole não é apenas uma figura de estilo. Aqueles que prosseguiram os seus estudos em matemática até ao final do secundário devem-se lembrar que uma hipérbole pode ser definida como um lugar geométrico de pontos para os quais a razão das distâncias a um foco e a uma recta (chamada de directriz) é uma constante maior ou igual a 1. 

Contudo, não me parece que esta definição seja capaz de vos reavivar a memória. Uma hipérbole compreende duas curvas sem intercepção, chamadas de "braços", que separam os focos. Conforme a distância dos pontos da hipérbole aos focos aumenta, a hipérbole começa a aproximar-se de duas linhas, conhecidas como assimptotas. Este termo já vos diz alguma coisa, certo? Mas ainda não estão bem a ver o que é? 

Bom, a equação mais simples para definir uma hipérbole é y = 1/x. Façamos assim, dou-vos um minuto para irem buscar a vossa velhinha máquina gráfica da gaveta onde a esconderam na esperança de não mais a terem que usar. 

Já a têm? Aposto que perderam uma boa meia hora a jogar puzzle bubble ou um dos outros jogos que todos programámos na máquina para nos entretermos durante as aulas mais entediantes. Experimentem colocar a função y = 1/x. Vêem as duas curvas a aproximarem-se dos eixos do x e do y sem nunca os tocarem? Isso é uma hipérbole. Precisei de 228 palavras só para chegar a um ponto que pouco tem a ver com aquilo que eu queria realmente abordar. Vamos lá tentar outra vez.

Uma hipérbole não é apenas uma figura de estilo. Hipérbole é também o nome de uma função matemática que representa uma curva que se aproxima constantemente de um ponto sem nunca o alcançar. A nível pessoal é aquilo que acontece com a minha capacidade de captação de seguidores nas redes sociais. 

Quando iniciei a minha actividade no twitter recebia diariamente diversas notificações sobre os novos seguidores que por um motivo ou outro lá se lembravam de me adicionar. Muitos apareciam através dos contactos com quem eu falava, isto ainda antes do twitter bloquear a visibilidade dos replies, outros por se interessarem por aquilo que eu tinha para dizer. Chegava a fazer mais de cem tweets por dia entre notícias partilhadas, pensamentos e conversas com os restantes utilizadores.

Sentia-me como se tivesse regressado aos tempos do mIRC. Conhecia pessoas novas todos os dias, comecei a estabelecer uma base de contactos e passei a usar o twitter mais pela componente social do que pela partilha de conteúdos. Com o tempo esta euforia foi diminuindo. Não apenas por causa do bloqueio das conversas alheias, mas também pela minha indisponibilidade para perder tempo com esta rede social. 

Apesar disso, raro é o dia que eu não partilhe uma notícia ou um pensamento no twitter. Já não o encaro como uma versão microblogue do mIRC, mas continuo a preferi-lo ao facebook. Raramente opto pelo share em detrimento do tweetar sempre que leio uma notícia ou outro conteúdo qualquer que me pareça digno de ser partilhado. 

Nos últimos dias ao olhar para o meu número de seguidores no twitter e de amigos no facebook, cheguei à conclusão que não sou capaz de captar mais do que 500 pessoas a aderirem à minha rede. Há já vários meses que o meu número de seguidores no twitter não passa dos 490. No momento em que escrevo este artigo são apenas 487. Lembro-me de um dia ter chegado aos 496. Muito perto do limite psicológico de 500 utilizadores, contudo, falta-me algo para lá chegar. 

Já no facebook, a marca dos 500 amigos foi ultrapassada de forma quase banal há alguns meses atrás. São neste momento 523. Este número é preenchido na sua maioria por colegas do meu curso e dos diversos empregos que tive nos últimos anos. Também lá estão os meus amigos, amigos de amigos e uma ou outra pessoa que conheci num evento, fosse ele social ou não, e que por lá ficaram. 

Já fiz uma análise aprofundada sobre a origem dos meus contactos do facebook. Podem relembrá-la aqui, ou simplesmente ignorar esta frase e continuar a ler esta minha epifania. Ainda estão a jogar puzzle bubble? Tenham cuidado, não gastem as pilhas da máquina antes de experimentarem a equação que eu referi lá em cima. 

O que me tem perturbado nos últimos dias é precisamente o facto desta minha bolha social não se conseguir expandir além dos 500 contactos. Valor esse que já por si é bastante inflacionado. Basta olhar para a minha página profissional do facebook que ao fim de três meses tem apenas 68 likes, sendo que apenas 58 dos quais pertencem aos meus contactos. Isto significa que pouco mais de 10% dos meus amigos do facebook querem realmente saber sobre aquilo que eu faço.

O que posso então fazer para atrair mais pessoas a verem aquilo que eu tenho para dizer? Acusaram-me uma vez de ser demasiado consensual. Dificilmente conseguiria fazer com que mais pessoas lessem o meu blogue se não começasse a ser mais parcial e controverso. Por mais bem escrito que seja, um artigo apenas suscita interesse se conseguir apelar às emoções mais cruas da alma daqueles que o lêem. A verdade é que embora continue a investir na imparcialidade das minhas observações, ao longo dos anos os textos que conquistaram um maior número de visualizações foram precisamente aqueles que apelavam às minhas emoções. 

Encontro-me assim preso a um limite psicológico de contactos e visualizações que, de certa forma, vejo como um forte elemento desmotivador. Esta baixa rede de alcance não reflecte a qualidade e o interesse dos meus conteúdos. Mesmo nos momentos em que me aventurei no comentário político e nos manifestos activistas pouca visibilidade alcancei além de uma partilha ou outra no Google Plus e de um ou dois likes no facebook. Alcance que seria bastante maior se tivesse sido escrito por outra pessoa que não eu. 

Não seria necessário ser alguém famoso ou uma rapariga atraente a fazê-lo. Diariamente vejo textos e artigos de pessoas anónimas e com pouca qualidade de escrita a serem partilhados e difundidos pelas redes sociais. Sejam eles relatos de injustiças ou simples apelos emocionais. Independentemente da sua natureza, posso sempre dar um ou mais exemplos de artigos similares que eu próprio escrevi em tempos mas que não mais de 100 pessoas os leram. 

O que posso então fazer para contrariar esta tendência? Qual a fórmula mágica para rebentar com esta hipérbole e transformá-la numa recta crescente e constante? 

Como já referi diversas vezes, não estou disposto a diminuir a qualidade dos meus artigos. Isto implica uma redução da periodicidade do meu blogue. Um mal necessário, embora compreenda que seja esse o principal factor que me impede de alcançar uma audiência constante e fiel. Mas como posso rentabilizar algo que não me oferece qualquer rendimento além da satisfação pessoal? Com tão pouco tempo livre para usufruir no meu dia-a-dia torna-se complicado, se não mesmo impossível, repetir feitos como os 14 artigos publicados em Dezembro de 2012. Feito esse que motivou a histórica marca de 1135 visualizações num único mês. 

É esta a minha voz e não tenciono mudá-la em favor da fama fácil, apelando ao mínimo denominador comum. 

O importante não é a quantidade das visualizações mas a qualidade das mesmas. Mas se com tão poucas já tive crónicas e contos publicados em revistas o que poderia acontecer se o meu alcance fosse maior? Um contrato com uma editora para escrever um livro? 

Conheço pessoalmente casos em que isso aconteceu. E embora reconheça a qualidade da escrita e da imaginação dessas pessoas, acredito que sou melhor, acredito que a minha voz, que as minhas histórias têm valor e que merecem ser ouvidas.

Divago. A minha máquina gráfica há muito que ficou sem bateria. Para já, sucumbo perante a inevitabilidade matemática da hipérbole das minhas redes sociais. Sucumbo na esperança de um dia ser capaz de forçar o meu caminho para lá da fatalidade desta equação e de alcançar o reconhecimento que a minha voz tanto merece. Irei ultrapassar a barreira dos quinhentos, dos mil. 

A minha onda será imparável.
  

Saturday, February 16, 2013

O Ideal em Conflito

Foto: Adriano Cerqueira
Sonhar. Ao longo dos anos conheci várias pessoas que íntima ou, até mesmo, publicamente me confidenciaram os seus sonhos de carreira profissional. Enquanto muitas não passavam de meros clichés entediantes, algumas destas histórias tocaram-me, quer pela paixão, quer pela motivação que as suas palavras transpareciam.

Fizeram-me acreditar que elas seriam capazes de tornar os seus sonhos em realidade e por momentos, eu próprio senti-me parte das suas soberbas missões. Mas quando a conversa caía inevitavelmente sobre mim, nada tinha para lhes dizer. Cheguei muitas vezes mesmo a inventar alguma coisa em cima do joelho só para não sentirem pena por mim ou para não pensarem que sou demasiado reservado. A cruel verdade é que não tenho nenhum sonho a nível profissional, nem tão pouco sou capaz de dizer qual a área em que gosto mais de trabalhar, ou quais as funções que mais gosto de exercer.

Lembro-me de uma aula de apresentação de uma cadeira na faculdade. Num anfiteatro cheio, a professora perguntou a cada um de nós qual o seu sonho, ou, mais concretamente, onde gostavam de trabalhar. Imprensa, Televisão, Rádio, Assessoria, Cinema, Fotografia, foram as respostas mais comuns, cada uma parecia mais assertiva que a anterior. Estava sentado numa das filas do meio, portanto a minha vez demorou a chegar. Entrei em pânico quando me apercebi que ia ser o próximo. A pressão e a necessidade de responder forçaram-me a ser honesto. “Quero ser paleontólogo”, disse. Muitos se riram a pensar que eu estava a brincar com a situação. Mas a professora levou a resposta a sério e eu contei a velha história que sempre conto: “Desde pequeno que quero ser paleontólogo, mas gosto muito de escrever e de contar estórias, por isso decidi tirar comunicação. Sempre vi essa área mais como uma carreira para levar a sério, enquanto a paleontologia não passava de um hobby”.

Durante anos afirmei que quando acabasse a licenciatura iria voltar a estudar. Ia-me inscrever em Geologia e ao fim de três anos, tirar doutoramento em Paleontologia. Quiçá talvez não precisasse sequer de voltar a tirar uma nova licenciatura e pudesse ir logo para doutoramento. Mas quando a altura chegou, inscrevi-me num Mestrado em Multimédia, arranjei emprego e assim fiquei. Adiei o meu plano e hoje acho muito pouco provável que algum dia o venha a concretizar.

Quando ainda estava no meu primeiro ano de mestrado, cheguei mesmo a inscrever-me nos exames nacionais. Paguei cinco euros para fazer o exame de Biologia/Geologia que dava acesso ao curso que queria. Mas quando chegou a altura não o fiz. Disse a mim próprio que faltei porque tinha uma aula marcada para a hora do exame. Era uma aula de Gestão de Projecto. Essa cadeira apenas tinha três aulas temáticas e um plano de negócios. Faltei às primeiras duas aulas por serem à mesma hora das minhas aulas de Russo, mas fui à última sobre Marketing, no dia em que podia ter feito esse tal exame de acesso à faculdade.

Se olhar para trás estou perdido. Ainda me lembro como se fosse hoje. O momento em que preenchi a folha de candidatura para o ensino superior. Estava com a folha à minha frente, sozinho, num café em Aveiro. Tinha terminado de preencher a maior parte do documento, mas ainda me faltava completar duas opções. As únicas que importavam. Geologia ou Ciências da Comunicação? Não conseguia decidir. Liguei ao meu pai, ele aconselhou-me a optar por CC e assim o fiz.

Naquele momento podia ter escolhido o meu sonho, ou pelo menos aquilo que eu desejava desde criança, mas não o fiz. Não o quis fazer. No dia em que saíram os resultados das candidaturas sonhei que tinha entrado em Geologia. Lembro-me de acordar e de ficar feliz por esse sonho não se ter tornado realidade. Seria isto prova de que no fundo o meu sonho nunca foi verdadeiramente ser paleontólogo? A verdade é que deitei por terra todas as oportunidades que tive de seguir paleontologia. Mas se isto é verdade, porque estudei geologia ao longo do 12.º? Porque me esforcei tanto a fazer resumos e a estudar semanalmente para uma disciplina que não fazia parte do meu plano curricular? Como justifico o 18 que tirei confortavelmente no exame? E o facto de que se tivesse entrado teria a maior média de acesso daquele curso? Porque sabotei a única coisa para a qual me esforcei verdadeiramente em toda a minha vida? Não sei. Não sei. Não sei.

Preciso de um sonho. Preciso de algo no qual acreditar. A falta disso materializou-se numa profunda desmotivação, para a qual vários empregadores já me chamaram à atenção. Embora sempre tenha feito um bom trabalho em todas as empresas que representei. Sempre senti que faltava alguma coisa. Por mais elogiado que fosse, faltava sempre um brilho, uma chama, algo mais. Podia apenas ser por eu ser demasiado perfeccionista, mas nunca senti que se tratasse disso.

Tive alguns momentos em que me senti satisfeito com o resultado final. Momentos esses que me deram confiança e que me fizeram ir dormir com um sorriso na cara. Mas nunca senti que fossem suficientes. Talvez exija demasiado de mim próprio ou talvez procure uma satisfação utópica que o mundo real é simplesmente incapaz de me oferecer. Honestamente, não acho que seja isso. A resposta parece-me ser bastante mais simples: Estou insatisfeito com a minha vida profissional e sinto a necessidade de ter um sonho, de ter um objectivo. De acreditar em algo maior do que mim próprio e de lutar por isso, olhando para cada obstáculo como mais uma barreira a derrubar e não como algo finito e intransponível.

Ontem questionava-me sobre qual seria o emprego ideal. Um salário a rondar os três mil euros dentro da actual realidade económica portuguesa, um horário flexível – no sentido em que eu pudesse fazer as horas que me apetecessem, desde que os projectos estivessem prontos e entregues dentro do prazo, e não no sentido de fazer horas extra e trabalhar aos fins-de-semana como já me chegaram a propor –, e a possibilidade de viajar. Características utópicas, mas que são apenas isso, características. Podia estar a falar de um fotógrafo, de um realizador, de um camionista ou de um padeiro. Desejo características confortáveis e irreais, mas não uma função, não uma área. Há pessoas que aceitariam exercer o seu emprego de sonho por menos que o salário mínimo e com horários miseráveis e sobre-humanos. Já eu, não consigo escolher uma área, uma profissão, nem tão pouco uma actividade da qual possa dizer: “É este o meu sonho, é isto que me fará feliz para o resto da vida e que me fará sentir-me motivado ao acordar pela manhã”.  

Não vivo desprovido de sonhos. Tenho sonhos pessoais pelos quais luto e que estou a caminho de concretizar. Mas sinto-me incompleto. Desequilibrado. Sinto a necessidade de ter uma carreira, um objectivo, uma profissão que me satisfaça. Preciso de sonhar e de descobrir aquilo que quero. Até ao dia em que o encontre, o mundo será sempre um lugar cinzento das nove às cinco com um cheque no final do mês. Sem brilho e sem chama, apenas dinheiro e privilégios. Preciso de uma vitória, não de pequenas conquistas. Preciso de acreditar, de algo que me dê confiança. Mais do que qualquer emprego, preciso desta resposta.