Wednesday, November 28, 2018

Toxicidade

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Há cerca de três anos decidi deixar o facebook. Esta decisão não foi assim tão simples pois, para mal dos meus pecados, uma das minhas funções na empresa onde trabalhava então era a de gestor de redes sociais.

Tive assim que chegar a um compromisso. Tinha que arranjar uma forma de continuar a usar o facebook sem me ausentar desta plataforma. A solução mais simples passaria por criar um perfil anónimo para gerir a página. Contudo, isto entra em conflito com a minha necessidade de usar o seu sistema de mensagens.

Na verdade queria deixar de usar a timeline do meu facebook, mantendo todos os restantes benefícios que esta plataforma proporciona.

Optei enfim por uma opção de compromisso. Mantive a minha conta activa mas, em vez de abrir esta rede social na sua página inicial, comecei a abri-la na página da empresa. Deixei de fazer novas publicações. Deixei de responder a comentários. Reduzi a minha interacção ao mínimo necessário para não perder o contacto com as pessoas que me são mais próximas.

Para não dar a impressão que tinha de facto deixado o facebook mantive a minha conta de twitter ligada ao meu perfil. Os meus tweets continuavam a ser publicados no facebook sem que alguém notasse alguma diferença. Mas, a seu tempo, também isto deixei de fazer.

Para todos os efeitos, deixei de usar o facebook. Este deixou de ser uma plataforma pessoal e passou a ser apenas uma ferramenta de trabalho. Continuei a alimentar e a gerir a página da empresa, e não deixei de publicitar os meus feitos profissionais, assim como o meu blogue e portefólio, na minha página pessoal.

Contudo, através desta simples acção, consegui libertar-me de uma das minhas principais fontes de ansiedade.

Deixar o facebook foi uma decisão que tomei para o meu próprio bem-estar e para o meu equilíbrio mental. Fora isso, não retirei grandes benefícios palpáveis deste acto. A minha produtividade continuou igual. Sempre soube gerir bem o meu tempo, mantendo-me activo nas redes sociais sem alguma vez falhar qualquer prazo. E, no fim de contas, apenas troquei o meu tempo no facebook por uma mais intensa participação no twitter.

Durante pouco mais de dois anos, a única vez que me atrevia a ir além das páginas que geria era para felicitar alguém pelo seu aniversário.

Usei este tempo para pensar sobre o que me movia contra esta rede. Por que me custava tanto visitar a minha timeline?

A resposta era simples. Por medo. Medo do que podia lá encontrar. Medo do conteúdo tóxico. Medo do sentimento que uma foto, uma notícia, ou um comentário, pudesse despertar em mim.

Uma noite, respirei fundo e decidi limpar a minha timeline de tudo aquilo que era tóxico. De tudo aquilo que era negativo. De todas as pessoas, páginas e eventos que transmitissem qualquer tipo de sentimento destrutivo ou derrotista.

Deixei de seguir todas as pessoas tóxicas. Todos aqueles contactos que dia sim, dia sim, têm algo de frustrante ou derrotista para partilhar. Deixei de seguir todas as pessoas incapazes de ter uma base de diálogo com alguém com ideologias diferentes das suas. Fossem essas políticas, filosóficas, religiosas ou desportivas.

Deixei de seguir todos aqueles que associava a más memórias, momentos, ou recordações. Excepção feita apenas a quem estava lá para mim nesses momentos.

Mas também deixei de seguir algumas pessoas cujo perfil não encaixa nas mais comuns definições de toxicidade. Deixei também de seguir pessoas excessivamente felizes.

Lamento, mas não quero saber dos vossos amores, e desamores, das vossas vitórias, e conquistas, dos vossos sucessos, e carreiras, das vossas viagens, e passeios.

No fim, mantive apenas o meu núcleo de amigos, alguns contactos profissionais, pessoas neutras com vidas normais, e personagens intelectualmente estimulantes, fossem elas académicas, ou simples contemporâneos que, independentemente das suas filosofias colidirem ou não com as minhas, sabiam estabelecer um diálogo digno com a sua oposição.

Não analisei cada contacto individualmente. Avaliei-os consoante o impacto emocional de cada publicação que aos poucos aparecia na minha timeline.

Timeline essa que passou a estar muito vazia. Dominada quase inteiramente por páginas, por notícias, e por artigos de opinião.

Virei-me então para os grupos. Para pessoas com interesses similares aos meus. Fossem estes profissionais, desportivos, ou de entretenimento. Neste momento são eles que dominam a minha timeline. Uns mais que outros é certo, mas todos os dias mantenho-me a par das mais diversas novidades sobre os principais temas que me interessam.

Os restantes contactos não passam agora disso. São apenas uma bola verde no Messenger, de nenhuma forma diferentes de um qualquer número numa lista telefónica. Um pequeno preço a pagar por uma lufada de ar fresco no meu constante combate contra a ansiedade.

Consegui fazer isto sem me fechar numa bolha. Sem me recolher em um círculo de opiniões em comum. Todos os dias participo em conversas interessantes com pessoas que pensam diferente de mim. A maioria delas no twitter, claro, a discussão intelectual há muito que abandonou o facebook.

Os temas hoje em dia são as notícias falsas, a desinformação, a fraca qualidade dos media, e as típicas polémicas do dia-a-dia que tão depressa surgem, como desaparecem.

Continuo a usar o facebook esporadicamente. Já não estou na mesma empresa mas continuo a gerir redes sociais. Evito comentar qualquer publicação fora dos grupos onde sou membro activo. Limito-me a dar os parabéns a alguns contactos e a usar o Messenger para falar com os meus amigos.

O resto? O resto deixou de estar à distância de um clique.

Sunday, November 27, 2016

Terapia facebookiana

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O sucesso na vida poderia ser definido como a expansão contínua da felicidade e a realização progressiva de metas dignas.
Deepak Chopra

Depressão é um termo que não gosto de usar de forma leve. Ao contrário do que tantos costumam partilhar dia sim, dia não, nas etéreas redes de informação, esta doença não é algo que se resolva com uma mudança de ares, com um passeio pela praia, com exercício, com um bom livro, com uma viagem, ou com saídas com amigos. É algo bem mais profundo que exige uma observação séria e o tratamento adequado por parte de um profissional.

Ficar em baixo pelas mudanças de estação, sentirmo-nos frustrados, aborrecidos ou tristes porque algo não correu como queríamos, porque alguém nos magoou, porque fomos enganados, ou porque cometemos a opção errada, não é o mesmo que sofrer de depressão. São apenas sentimentos comuns, pelos quais todos passamos e que podem ser facilmente resolvidos com alguma introspecção, honestidade e capacidade de comunicação e resolução de problemas com quem nos rodeia. E quando essas opções não são suficientes, então aí sim, devemos mudar de ares, viajar, fazer exercício, sair com os nossos amigos, ou distrairmo-nos com um livro, um filme, um concerto ou uma série.

Todas estas distracções não passam disso mesmo se não formos capazes de compreender o que nos levou a sentir assim. Se foi algo que fizemos, devemos assumir a culpa, se foi uma circunstância alheia e fora do nosso controlo, nada podemos fazer se não esperar que tudo se resolva. No fundo, se formos capazes de racionalizar tudo aquilo que nos acontece, o sofrimento não passa de um sentimento fugaz. Obviamente, não somos seres inteiramente racionais e, muitas vezes, usamos o intelecto e a nossa capacidade argumentativa como máscara para esconder sentimentos de culpa ou de desespero para com a nossa incapacidade de controlar os eventos que movem a nossa vida.

As redes sociais, além de servirem de veículo para a partilha de desinformação, são objectos de distracção enganadores. Há cerca de dois anos decidi deixar de usar o facebook. Entretanto regressei, contudo poucos foram os que notaram a minha ausência. Mantive o meu feed do twitter ligado ao meu perfil do facebook e, como gestor de redes sociais, estava diariamente ligado à rede durante o trabalho. Contudo, deixei de usar a minha timeline. Sempre que ligava o facebook entrava directamente na página da empresa que geria, e assim que saía do trabalho, não me voltava a ligar. Aos fins-de-semana usava o Messenger para combinar saídas com o meu grupo de amigos, mas não mais que isso. 

Assim fiz durante um ano. Voltei a usar o twitter com mais frequência. Durante quatro anos apenas o usava para partilhar notícias e ideias soltas. Perdi o contacto com todos os meus seguidores e, sempre que me lembrava de lá ir, sentia-me excluído das conversas. Comecei do zero e, ainda hoje, é a minha rede social de eleição. Uso o twitter para ver as notícias mais recentes, para comentar eventos com os meus seguidores e para partilhar em comunidade as coisas que mais me interessam. Continuo a partilhar notícias e ideias soltas, como sempre fiz, mas volta e meia também me deixo envolver em conversas sobre os mais diversos assuntos. Desde os jogos do Sporting CP, às eleições americanas, a coisas igualmente importantes como a mais recente colecção de minifiguras LEGO, ou o novo filme dos Power Rangers.

Quando enfim regressei ao facebook, estava na hora de fazer uma limpeza na minha timeline. A melhor opção que o facebook alguma vez criou foi a capacidade de deixar de seguir alguém sem termos que a desamigar e sem esta o saber. Comecei por deixar de seguir todas as pessoas cujas publicações tinham fortes possibilidades de me magoar, ou de me deixar mais em baixo. Pessoas negativas, falsas, com constantes argumentos e publicações destrutivas. Pseudo-intelectuais, e pessoas simplesmente chatas. Também deixei de seguir páginas e pessoas cuja partilha de momentos das suas vidas não me faziam sentir bem. Ora por estarem constantemente em baixo, ora por a sua felicidade em vez de contagiante, ser servida como um veneno muito tenebroso para uma alma frágil como a minha se sentia naquele momento.

Confesso que também deixei de seguir algumas pessoas por terem opções políticas diferentes das minhas, ou por serem adeptas de determinados clubes, não por preferir fechar-me numa bolha de opiniões iguais à minha, mas sim por esses exemplares não passarem de cegos incapazes de verem o outro lado da sua argumentação.

Desde então comecei a usar o facebook como nunca. Participo activamente em pelo menos quatro grupos, conheci pessoas, franchises, sites e eventos, muito interessantes e hoje consigo estar atento a promoções que de outra forma não teria conhecimento. Hoje, a minha timeline é uma amálgama de publicações sobre LEGO, Power Rangers, Jurassic Park, material de fotografia e vídeo, e mobília do IKEA, com a ocasional partilha das pessoas que mantive, ora por ter uma boa relação com elas, por serem pessoas que admiro, ou por serem elementos por quem nutro um sentimento neutro, mas cujas opiniões são sólidas e bem construídas, mesmo quando discordam da minha posição.

As redes sociais são uma faca de dois gumes. Podem enriquecer-nos, ou deitar-nos a baixo, e fazer-nos sentir insignificantes. É preciso termos um filtro muito forte para compreender que ninguém é tão feliz como as suas partilhas demonstram, e que ninguém tem uma vida perfeita. O teu amigo que está sempre a viajar, tem saudades de casa e passa mais noites a sentir-se só que a divertir-se. Aquele casal acabou de discutir antes de publicar aquela foto sorridente. Aquela francesinha tinha bom aspecto, mas o pão já estava em papa e o molho não era grande coisa.

Esta é uma visão um pouco cínica. Mas no fundo sabemos que embora haja quem seja sempre sincero naquilo que publica, muitos de nós tentamos passar uma imagem que não corresponde inteiramente à realidade. Eu próprio sou culpado disso, a minha foto de perfil já tem cinco anos, e as fotos que coloco no meu instagram são apenas as melhores seleccionadas de entre centenas. 

A verdade é que nada disto importa. Não devemos comparar a nossa vida com a de ninguém. Devemos seguir o nosso caminho, traçar os nossos próprios objectivos e apreciar as coisas de que verdadeiramente gostamos por mais bizarras, obscuras ou infantis que estas possam parecer. Devemos ser honestos connosco próprios, e devemos usar as redes sociais apenas como um veículo de distracção. O facebook é apenas uma ferramenta que é hoje parte do nosso dia-a-dia. Não é algo que nos define. Não é algo que merece deixar-nos em baixo.

És o dono da tua própria realidade. O resto não passa de mais uma obra de ficção fabricada por autores sem uma gota de imaginação. 

Thursday, February 06, 2014

A Sabedoria do Café

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“Não temos Wi-fi. Conversem entre vocês”. Começa a ser lugar-comum encontrar esta frase em alguns bares e cafés. Se para o mais céptico dos fregueses este pode parecer um tiro no proverbial “pé” do respectivo estabelecimento, para mim, isto não é nada menos do que uma excelente iniciativa de marketing.

Vamos por partes. Uma simples pesquisa no Google por esta frase e somos logo assolados por uma avalanche de fotos de placas escritas a giz com esta ou outra variante da mesma. Criada com modestos princípios, ela reflectia a necessidade que o dono de um determinado café, sentia em informar os seus lamuriosos clientes da inexistência de uma ligação sem fios à global rede das coisas. Não fossem estes insistir, e persistir, em perguntar, dia após dia, pela afamada palavra-chave que nunca existiu, e que dificilmente irá existir.

A paciência desse patrono, lá terá os seus limites, e, graças a eles, e a uma boa dose de criatividade e sarcasmo, surgiu este “aviso”, “placa”, ou como a queiram chamar, que tanta popularidade tem ganho nos últimos tempos.

O Google oferece-nos a foto. Foto essa que foi partilhada no Facebook, difundida pelo Twitter e filtrada pelo Instagram. O estabelecimento ganha alguns check-ins no foursquare. E um qualquer tasco perdido por entre as ruelas de uma simples e ignorada cidade, entra em força pelas bocas do povo, e torna-se num fenómeno regional, com fortes possibilidades de se expandir além-fronteiras.

Como tudo na Internet, também este fenómeno terá a sua dose de efemeridade até que a fraca atenção dos seus utilizadores, os faça seguir em direcção ao próximo faits divers, que as restantes massas vão tratar de divulgar. Até lá o café vai ser falado. O dono vai sentir-se como o maior do seu quintal, e os fregueses vão ser mais generosos no consumo e, quiçá, nas gorjetas.

O verdadeiro problema vem a seguir: Como rentabilizar a fama após o populismo de uma qualquer efeméride? Talvez seja um bom momento para se reinventar. Experimentar novas ementas. Apelar a um público mais jovem. Encontrar outras observações do quotidiano, e criticá-las de igual forma. Tudo, menos pôr Wi-fi.

Há alguns dias vagueava pelo Facebook sem nenhum propósito e deparei-me com uma colecção de fotos de um certo jantar de Natal. A maioria dos seus intervenientes são-me inteiramente desconhecidos. Facto que agradeço após aquilo que vi. Mas adianto-me. Não sei se por falha do fotógrafo, ou por alguma espécie de piada privada que nenhuma pessoa externa seria capaz de compreender, em todas as fotos as pessoas encontravam-se cabisbaixas e atentas aos seus telefones. Um ou outro lá tinha sido apanhado em pleno acto de ingestão da sua comida, mas fora isso, ninguém – e, enfatizo, ninguém – estava a manter uma conversa com o vizinho do lado, ou mesmo com o da frente.

Phubbing. Sim, existe um termo para designar este tipo de comportamentos. Phubbers são pessoas que num qualquer convívio social não conseguem largar as mãos dos seus smartphones, tablets, ou outros quaisquer dispositivos que usem para aceder à Internet. Todos temos aqueles amigos com quem tentamos manter uma conversa, mas eles lá acabam por se distrair a ver as suas redes sociais, a enviar mensagens, a tirar fotos daquilo que estão a comer, ou a jogar Candy Crush, ou outro qualquer jogo desse género.

Duvido que aquele jantar fosse uma concentração de Phubbers que deliberadamente se juntam para “partilhar” as suas experiências como párias sociais. Tivesse sido convidado para esse jantar, e ter-me-ia sentido a mais naquele local. Mal este terminasse, questionar-me-ia se valia a pena voltarmo-nos a reunir apenas para que cada um continuasse isolado no seu próprio micro universo.

É por isto que aplaudo a iniciativa do tal Senhor do Café que em toda a sua sabedoria, foi capaz de fazer um retracto social em meia dúzia de palavras. O movimento anti-phubber é já bastante popular, com alguns bares e restaurantes em outras paragens deste Mundo, a bloquearam todas e quaisquer comunicações móveis mal o potencial cliente atravessa a porta de entrada.

Num espaço assim, sentir-me-ia em casa. Afinal, sem Wi-fi, não há outro remédio se não falarmos entre nós. Conversarmos. Convivermos. Partilharmos ideias, histórias, e emoções. A Sabedoria do Café é encontrada na interacção que temos com aqueles que nos acompanham, caso contrário, a placa um dia poderá dizer: “Não temos conversa, usem o Wi-fi”.

Thursday, January 09, 2014

Descartáveis Cápsulas do Tempo

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Everywhere I travel, tiny life. Single-serving sugar, single-serving cream, single pat of butter. The microwave Cordon Bleu hobby kit. Shampoo-conditioner combos, sample-packaged mouthwash, tiny bars of soap. The people I meet on each flight? They're single-serving friends.

Fight Club (1999) 

Esvaziar a reciclagem. Tem a certeza? Sim. Ok. Delete. Um clique. Feito. Nunca foi tão fácil apagar alguém da nossa vida. Fotos, vídeos, e-mails, mensagens. Simples zeros e uns, efémeros e descartáveis como a própria tecnologia que os sustém. Qualquer contacto, qualquer perfil, é facilmente bloqueado, “desamigado”, “apagado” para sempre. Como se nunca tivesse existido. 

Em tempos, guardávamos cartas, postais, álbuns, cassetes e fotografias soltas em caixas de sapatos, baús, ou envelopes. Escondidos para nunca serem abertos, salvo aquele rasgo de nostalgia que inevitavelmente nos assolava. Algumas cartas podiam ser queimadas, algumas fotos também, caso a superstição não falasse mais alto. Mas era mais fácil guardá-las num canto do armário, ou numa prateleira do sótão. 

Hoje não. Ninguém escreve cartas. Ninguém revela fotografias. Os próprios álbuns já são digitais. Apagá-los é, para uns, uma obrigação, um mal necessário, exigido pelas novas personagens na história da sua vida. Para mim, é impossível. As memórias estão lá. Os momentos aconteceram. Não vale a pena pensar o contrário. Negá-lo é mentir a nós próprios e não aceitar seguir em frente. Embora para alguns, o acto de apagar seja visto como uma forma de catarse, para mim não passa da cobarde opção de fugir pelo caminho mais fácil. 

Digitais ou analógicos, guardo os meus mementos. As velhas caixas de sapatos, hoje substituídas por pastas, as cartas por e-mails e mensagens, as fotografias por JPEGs. Saíram do sótão para um canto remoto do meu disco rígido. Naturalmente guardadas entre pastas de memórias, documentos de trabalho, jogos, e outros que tais. Permanentes. Facilmente acessíveis. Recuperadas, se necessário, mas nunca apagadas. 

Mantenho-as por perto, a aguardar pelo dia em que as possa rever, com saudade, mas sem mágoa, com nostalgia, mas sem dor. 

Mais difícil, talvez, seja apagar os seus contactos. Seja o número de telefone, ou a amizade virtual, fechar eternamente uma porta exige muito mais de nós do que o acto de apagar as lembranças físicas, ou a memorabilia, que alguém nos deixou. Difícil mas, infelizmente, comum. 

Fora um ou outro caso pontual, de contactos que se perderam na transição entre o MSN Messenger e o facebook, ou que relutantemente permanecem distantes desses mundos virtuais, posso afirmar que ainda hoje mantenho os contactos de todas as pessoas que tiveram algum papel na História da minha vida. 

Devemos sempre fazê-lo. Não sabemos quando esse contacto pode vir a ser útil. Seja por motivos profissionais, ou pessoais. Não sabemos quando alguém pode mudar. Não sabemos quando nós próprios podemos ser a pessoa indicada para as ajudar. Não sabemos. Nada sabemos. 

É uma visão pragmática, mas necessária. Ninguém consegue alimentar trezentos, quinhentos, ou mil amigos. O normal é mantermos um núcleo duro entre cinco e dez amizades, mais uns quantos conhecidos e colegas de trabalho. O resto não passa de conveniência. Amizades momentâneas, que ocupam o teu tempo naquela longa viagem. Pessoas que te ajudam quando estás em apuros numa tarefa que não dominas. Amigos de amigos, que os entretêm, e a ti também. Pessoas que alimentam o teu portefólio de contactos. Pessoas que existem para aquele momento, e nada mais. 

Todos os contactos são importantes. Ou pelo menos têm potencial para um dia o serem. Todas as memórias são necessárias. Ajudam-nos a definirmos quem verdadeiramente somos. Apagá-las é um desperdício de energia, e a negação de tudo aquilo que aprendemos com elas. 

Lembrem-se que quando apagam alguém, uma foto, uma carta, ou um e-mail, estão também a apagar um pedaço de vós. Construam a vossa cápsula do tempo, contacto a contacto, objecto a objecto. E guardem-na. Mesmo que nunca tenham intenção de a abrir, encontram conforto em saber que o podem fazer. 

O tempo cura todas as feridas, mas as memórias não são infalíveis. É bom ter algo que nos ajude a recordar quem fomos em tempos. Pequenos pedaços com o poder de nos salvarem se algum dia nos encontrarmos perdidos, nas encruzilhadas do nosso caminho.

Thursday, September 12, 2013

Demasiada Informação

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Alterar as regras de privacidade de uma rede social é o suficiente para mobilizar uma interminável onda de criticismo, direccionado contra a invasão das nossas fronteiras do universo privado. Declaramo-nos solidários para com esses movimentos. Subscrevemos as suas petições. E relatamos a notícia com indignação dentro do nosso círculo de contactos.

Gritamos. Protestamos. Exigimos. Mas quantos de nós põe efectivamente em prática qualquer medida de segurança? Basta observar com alguma atenção o feed de notícias de uma rede social, para percebermos que esse número deve ser muito baixo, para não dizer nulo.

Partilhamos fotos das nossas férias, dos nossos familiares, dos nossos filhos. Partilhamos a nossa casa, a nossa intimidade. Os sítios que visitamos, os restaurantes onde comemos, e a própria comida que cozinhamos. Nada é privado, tudo é público.

Instalamos aplicações para organizar o nosso dia. Todos os eventos, calendarizados, e minuciosamente descritos. Um simples click, e cada um deles é dado a conhecer ao Mundo. Qualquer pessoa passa assim a saber o que fazemos. Onde estamos. Com quem. Conhecemos pormenores íntimos de perfeitos estranhos que, de outra forma, não nos seriam revelados.

Se saber o que alguém tomou ao pequeno-almoço, ou onde passou as suas férias, pouca importância tem, já a informação sobre a sua rotina diária é uma arma poderosa nas mãos de quem a souber manejar. 

Não é difícil perseguir alguém. Delinear a sua rotina. Encontrá-la inesperadamente. Ou até mesmo manipulá-la, subtilmente, através dos seus gostos e desejos. Somos tão vulneráveis, como nos permitimos ser. Embora subtis alterações às regras de privacidade possam expor alguém contra a sua vontade, temos que admitir, que não existe melhor filtro do que o bom senso. 

Devemos ter mais atenção com aquilo que partilhamos. Não custa nada pensar duas vezes antes de publicarmos uma foto reveladora, um pensamento, ou uma informação pessoal. Alimentamos as novelas dos nossos observadores sempre que o fazemos. Mas não somos actrizes, nem actores, de um espectáculo privado, criado apenas para os entreter. 

Somos livres. Temos liberdade para nos recolhermos na nossa bolha pessoal. Para guardarmos os nossos momentos mais íntimos dos olhares alheios. Que importa quantas calorias queimamos na última corrida? Temos hábitos saudáveis. Fazemos exercício. É importante para nós, não para os outros. Que importa onde fomos almoçar? Saímos. Divertimo-nos. Conhecemos alguém. Foi bom para nós. Os outros não estavam lá.

Viajámos. Ampliámos o nosso horizonte. Abrimos a nossa mente. Vivemos outra realidade. Absorvemos outra cultura. Crescemos. Sós. Ou acompanhados. É algo nosso. Indiscritível. Ninguém mais poderá compreender. 

Apaixonamo-nos. Amamos. Discutimos. Resolvemos. Seguimos em frente. Construímos uma relação. Somos dois. A sós. Os sentimentos são nossos. As experiências são nossas. Partilhamos um segredo. Um discreto reflexo, no olhar de cada um. Algo que mais ninguém consegue compreender.

Todas as acções têm consequências. Vivemos num ciclo vicioso, excessivamente povoado por notificações inúteis. Por dados privados, que não pertencem aos olhos de mais ninguém. Nós somos o primeiro, e o mais importante, filtro de informação. Pensar duas vezes antes de partilhar, é a melhor defesa contra qualquer ataque, seja ele real ou virtual, contra a nossa privacidade. 

A bolha apenas rebenta quando delegamos o controlo para uma força exterior. Não perca o domínio sobre a sua informação. A vida privada de cada um é tão frágil, e tão próxima, como um botão de partilha.

Monday, May 06, 2013

A Hipérbole das Redes Sociais

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Uma hipérbole não é apenas uma figura de estilo. Aqueles que prosseguiram os seus estudos em matemática até ao final do secundário devem-se lembrar que uma hipérbole pode ser definida como um lugar geométrico de pontos para os quais a razão das distâncias a um foco e a uma recta (chamada de directriz) é uma constante maior ou igual a 1. 

Contudo, não me parece que esta definição seja capaz de vos reavivar a memória. Uma hipérbole compreende duas curvas sem intercepção, chamadas de "braços", que separam os focos. Conforme a distância dos pontos da hipérbole aos focos aumenta, a hipérbole começa a aproximar-se de duas linhas, conhecidas como assimptotas. Este termo já vos diz alguma coisa, certo? Mas ainda não estão bem a ver o que é? 

Bom, a equação mais simples para definir uma hipérbole é y = 1/x. Façamos assim, dou-vos um minuto para irem buscar a vossa velhinha máquina gráfica da gaveta onde a esconderam na esperança de não mais a terem que usar. 

Já a têm? Aposto que perderam uma boa meia hora a jogar puzzle bubble ou um dos outros jogos que todos programámos na máquina para nos entretermos durante as aulas mais entediantes. Experimentem colocar a função y = 1/x. Vêem as duas curvas a aproximarem-se dos eixos do x e do y sem nunca os tocarem? Isso é uma hipérbole. Precisei de 228 palavras só para chegar a um ponto que pouco tem a ver com aquilo que eu queria realmente abordar. Vamos lá tentar outra vez.

Uma hipérbole não é apenas uma figura de estilo. Hipérbole é também o nome de uma função matemática que representa uma curva que se aproxima constantemente de um ponto sem nunca o alcançar. A nível pessoal é aquilo que acontece com a minha capacidade de captação de seguidores nas redes sociais. 

Quando iniciei a minha actividade no twitter recebia diariamente diversas notificações sobre os novos seguidores que por um motivo ou outro lá se lembravam de me adicionar. Muitos apareciam através dos contactos com quem eu falava, isto ainda antes do twitter bloquear a visibilidade dos replies, outros por se interessarem por aquilo que eu tinha para dizer. Chegava a fazer mais de cem tweets por dia entre notícias partilhadas, pensamentos e conversas com os restantes utilizadores.

Sentia-me como se tivesse regressado aos tempos do mIRC. Conhecia pessoas novas todos os dias, comecei a estabelecer uma base de contactos e passei a usar o twitter mais pela componente social do que pela partilha de conteúdos. Com o tempo esta euforia foi diminuindo. Não apenas por causa do bloqueio das conversas alheias, mas também pela minha indisponibilidade para perder tempo com esta rede social. 

Apesar disso, raro é o dia que eu não partilhe uma notícia ou um pensamento no twitter. Já não o encaro como uma versão microblogue do mIRC, mas continuo a preferi-lo ao facebook. Raramente opto pelo share em detrimento do tweetar sempre que leio uma notícia ou outro conteúdo qualquer que me pareça digno de ser partilhado. 

Nos últimos dias ao olhar para o meu número de seguidores no twitter e de amigos no facebook, cheguei à conclusão que não sou capaz de captar mais do que 500 pessoas a aderirem à minha rede. Há já vários meses que o meu número de seguidores no twitter não passa dos 490. No momento em que escrevo este artigo são apenas 487. Lembro-me de um dia ter chegado aos 496. Muito perto do limite psicológico de 500 utilizadores, contudo, falta-me algo para lá chegar. 

Já no facebook, a marca dos 500 amigos foi ultrapassada de forma quase banal há alguns meses atrás. São neste momento 523. Este número é preenchido na sua maioria por colegas do meu curso e dos diversos empregos que tive nos últimos anos. Também lá estão os meus amigos, amigos de amigos e uma ou outra pessoa que conheci num evento, fosse ele social ou não, e que por lá ficaram. 

Já fiz uma análise aprofundada sobre a origem dos meus contactos do facebook. Podem relembrá-la aqui, ou simplesmente ignorar esta frase e continuar a ler esta minha epifania. Ainda estão a jogar puzzle bubble? Tenham cuidado, não gastem as pilhas da máquina antes de experimentarem a equação que eu referi lá em cima. 

O que me tem perturbado nos últimos dias é precisamente o facto desta minha bolha social não se conseguir expandir além dos 500 contactos. Valor esse que já por si é bastante inflacionado. Basta olhar para a minha página profissional do facebook que ao fim de três meses tem apenas 68 likes, sendo que apenas 58 dos quais pertencem aos meus contactos. Isto significa que pouco mais de 10% dos meus amigos do facebook querem realmente saber sobre aquilo que eu faço.

O que posso então fazer para atrair mais pessoas a verem aquilo que eu tenho para dizer? Acusaram-me uma vez de ser demasiado consensual. Dificilmente conseguiria fazer com que mais pessoas lessem o meu blogue se não começasse a ser mais parcial e controverso. Por mais bem escrito que seja, um artigo apenas suscita interesse se conseguir apelar às emoções mais cruas da alma daqueles que o lêem. A verdade é que embora continue a investir na imparcialidade das minhas observações, ao longo dos anos os textos que conquistaram um maior número de visualizações foram precisamente aqueles que apelavam às minhas emoções. 

Encontro-me assim preso a um limite psicológico de contactos e visualizações que, de certa forma, vejo como um forte elemento desmotivador. Esta baixa rede de alcance não reflecte a qualidade e o interesse dos meus conteúdos. Mesmo nos momentos em que me aventurei no comentário político e nos manifestos activistas pouca visibilidade alcancei além de uma partilha ou outra no Google Plus e de um ou dois likes no facebook. Alcance que seria bastante maior se tivesse sido escrito por outra pessoa que não eu. 

Não seria necessário ser alguém famoso ou uma rapariga atraente a fazê-lo. Diariamente vejo textos e artigos de pessoas anónimas e com pouca qualidade de escrita a serem partilhados e difundidos pelas redes sociais. Sejam eles relatos de injustiças ou simples apelos emocionais. Independentemente da sua natureza, posso sempre dar um ou mais exemplos de artigos similares que eu próprio escrevi em tempos mas que não mais de 100 pessoas os leram. 

O que posso então fazer para contrariar esta tendência? Qual a fórmula mágica para rebentar com esta hipérbole e transformá-la numa recta crescente e constante? 

Como já referi diversas vezes, não estou disposto a diminuir a qualidade dos meus artigos. Isto implica uma redução da periodicidade do meu blogue. Um mal necessário, embora compreenda que seja esse o principal factor que me impede de alcançar uma audiência constante e fiel. Mas como posso rentabilizar algo que não me oferece qualquer rendimento além da satisfação pessoal? Com tão pouco tempo livre para usufruir no meu dia-a-dia torna-se complicado, se não mesmo impossível, repetir feitos como os 14 artigos publicados em Dezembro de 2012. Feito esse que motivou a histórica marca de 1135 visualizações num único mês. 

É esta a minha voz e não tenciono mudá-la em favor da fama fácil, apelando ao mínimo denominador comum. 

O importante não é a quantidade das visualizações mas a qualidade das mesmas. Mas se com tão poucas já tive crónicas e contos publicados em revistas o que poderia acontecer se o meu alcance fosse maior? Um contrato com uma editora para escrever um livro? 

Conheço pessoalmente casos em que isso aconteceu. E embora reconheça a qualidade da escrita e da imaginação dessas pessoas, acredito que sou melhor, acredito que a minha voz, que as minhas histórias têm valor e que merecem ser ouvidas.

Divago. A minha máquina gráfica há muito que ficou sem bateria. Para já, sucumbo perante a inevitabilidade matemática da hipérbole das minhas redes sociais. Sucumbo na esperança de um dia ser capaz de forçar o meu caminho para lá da fatalidade desta equação e de alcançar o reconhecimento que a minha voz tanto merece. Irei ultrapassar a barreira dos quinhentos, dos mil. 

A minha onda será imparável.
  

Saturday, March 16, 2013

Good Night, Sleep Tight, Old Friend

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Dezasseis de Março de 2013. Uma data que facilmente será esquecida pela maioria das pessoas, mas não por mim. Hoje, o MSN Messenger fica online pela última vez. Embora a migração dos contactos para o Skype possa ser feita até 30 de Abril, foi esta a data escolhida pela Microsoft para pôr um fim ao Windows Live Messenger.

Enquanto escrevia este artigo decidi ligar o meu Messenger por mera curiosidade. Já há algum tempo que fiz a migração dos meus contactos para o Skype e a minha conta de Hotmail já se encontra sobre a alçada do Outlook há alguns meses. Não me lembro da última vez que liguei o meu Messenger, certamente já deve ter passado quase um ano desde a última vez que fiquei online, isto sem contar as ocasionais visitas à minha caixa de entrada do Hotmail. 

Neste preciso momento tenho apenas dezasseis pessoas online, a maioria das quais são contactos do facebook que apenas aparecem aqui por ter as duas contas ligadas. Não esperava ser capaz de sequer conseguir aceder ao Messenger mas visto que o prazo de migração de contactos foi alargado até 30 de Abril, possivelmente terei ainda algumas semanas para visitar este velho amigo que há muito tenho negligenciado.

Nunca pensei que eu próprio seria capaz de me desligar do Messenger e trocá-lo de forma tão ligeira pelo chat do facebook e pelo Gtalk. Embora o Messenger não fosse, no sentido mais lato da palavra, uma rede social, nem tão pouco proporcionasse o anonimato ou a casualidade de encontros do IRC, foi durante anos um local predilecto para aprofundar uma relação entre duas pessoas ou para simplesmente ter uma boa conversa. São incontáveis os casos de amigos e colegas que conheci através da vida real, do IRC ou das redes sociais, que fiquei a conhecer melhor por causa da particularidade intimista de interacção um para um que o Messenger possibilitava. 

Foi com alguma relutância que em 2003 migrei do IRC para o Messenger. Na altura via o Messenger como uma sala fechada. Um espaço que não permitia que conhecesses outras pessoas além da tua lista de contactos e que, ao contrário do IRC, tornava mais difícil esconderes-te por trás de um nick. Hesitei bastante. Durante muito tempo mantive os dois programas ligados. Fui gradualmente perdendo interesse pelo IRC até ao ponto em que simplesmente já não tinha motivos para o visitar. Assim que todas as pessoas que me eram próximas passaram a figurar nos contactos do Messenger, fechei as portas do IRC de igual forma como nos últimos anos troquei o Messenger pelo facebook. 

Nunca fui grande fã dos extras que este programa nos fornecia. Raramente tive uma conversa através da webcam. Partilhei pontualmente documentos e ficheiros com colegas do liceu ou da faculdade ou com amigos que queriam dar-me a conhecer novas músicas ou ouvir algumas das bandas que eu gostava na altura. Conto pelos dedos as vezes que joguei algum jogo e na maioria dos casos foi mais por insistência da outra pessoa do que por vontade minha. Para mim o Messenger sempre foi um espaço de chat. Uma plataforma que me permitia ter uma boa conversa com alguém ao fim de um longo dia de aulas ou de trabalho.

Lembro-me das horas que passava impaciente à espera que uma certa pessoa ficasse online. Da frustração de deixar uma conversa a meio sempre que a Internet ia abaixo. E do desespero que sentia quando o Messenger passava horas ou até mesmo dias em manutenção sem permitir o acesso dos seus utilizadores. Tudo isto já faz parte do passado.

As redes sociais e as plataformas de comunicação são feitas de pessoas. Por mais que alguém queira resistir acabamos sempre por ser forçados a seguir a vontade da maioria dos nossos contactos. Quando estes optaram por trocar o Messenger pelo facebook, por mais relutante que eu fosse em aceitar a mudança e por mais incómodo que seja falar com alguém através de um browser, no fim não me restou alternativa que não desviar a minha atenção deste programa e focá-la inteiramente no facebook. 

Sim, há já algum tempo que existem diversos programas que possibilitam unir várias contas de chat e o próprio Messenger também isso permite. Contudo, sou avesso a esse género de conglomerações. Torna-se confuso ver a mesma pessoa ligada em três ou mais locais distintos, tornando assim complexo todo o processo de falar com alguém. Processo esse que deve ser sempre simples. 

O Messenger caiu vítima daquilo que eu próprio receava na altura da transição do IRC. Uma sala fechada apenas te permite ver aquilo que colocas lá dentro. O facebook e o twitter abriram de novo as portas à possibilidade de conheceres pessoas novas. Pessoas que agora já não se escondiam por trás de nicks, mas que publicitavam todos os pormenores mais ínfimos da sua vida pessoal diariamente e para que todos os pudessem ver. 

O Messenger derrubou o IRC, sobreviveu ao MySpace e ao hi5, apenas para sucumbir perante o facebook. Resistiu enquanto pôde mas a partir do momento em que o Skype deixou de ser um rival e passou a figurar dentro da própria Microsoft o seu fim deixou de ser uma suposição para passar a ser uma garantia. Hoje, confrontado com a realidade desse fim apenas me resta dizer adeus.

Até sempre velho amigo, guardo eternamente todas as recordações dos vários momentos que passei contigo ligado. Horas de conversa, de alegria e de desgosto, de bom humor e de seriedade, de aproximação e de discussão, de aprendizagem e de galhofa. Hoje fico offline pela última vez. Hoje despeço-me pela última vez.

*Adriano Cerqueira está offline

Sunday, February 17, 2013

Aniversários e facebook

Imagem: YourVectors
Tal como a maioria das funcionalidades do facebook, a notificação dos aniversários dos utilizadores que fazem parte da tua rede não é nenhuma novidade. Ainda hoje recebo semanalmente um e-mail do hi5 (sim, um dia terei que cancelar a minha conta, mas só a chatice de iniciar esse processo dá-me preguiça para o fazer) com as datas dos próximos aniversariantes. Desejar um feliz aniversário a alguém através do seu mural no facebook tornou-se num paradigma social tão estabelecido que chegou mesmo a tornar obsoleto o envio de mensagens por telemóvel.

Hoje em dia são raras as pessoas que mantém uma agenda com as datas de aniversário dos familiares e amigos, e mesmo aquelas que guardam essas datas no telemóvel são um número que apenas não diminui pois as aplicações de calendários dos smartphones têm ligação com os contactos do facebook e mantém as datas actualizadas sem haver qualquer necessidade de as programar manualmente. Tornámo-nos dependentes desta rede social para nos lembrarmos dos aniversários das pessoas que nos são próximas. Eu próprio confesso já ter sucumbido a este trágico facilitismo.

No ano passado, esqueci-me do aniversário de um amigo meu, chegando mesmo a deixar passar várias semanas antes de finalmente me lembrar dele, simplesmente porque ele não possui essa notificação visível no seu perfil. Eu costumava não precisar de nenhum auxiliar de memória pois simplesmente decorava os aniversários daqueles que me eram próximos, mas hoje o meu cérebro elimina essa informação pois a vê como desnecessária visto que o facebook tratará de me avisar quando a data se aproximar. Como é óbvio, ainda existem algumas pessoas das quais posso dizer a data com precisão sem ter que recorrer a nenhuma cábula, mas elas são hoje em dia um grupo muito restrito.

A massificação do facebook ajuda-nos a lembrar com maior facilidade dos aniversários da nossa rede de contactos, mas também criou uma face bem mais sinistra na espada de dois gumes que é o acto social de dar os parabéns a alguém. Se é fácil e gratuito felicitar alguém através do facebook, também é mais inaceitável e difícil de justificar quando nos esquecemos de o fazer. Visto que ao contrário do hi5, o facebook não envia e-mails a notificar sobre quem vai fazer anos nessa semana, podemos sempre afirmar que não estávamos online nesse dia, contudo, o facto desta rede social estar interligada com a agenda do nosso smartphone, deita essa justificação por terra abaixo, além de que, raro é o utilizador que não visita o facebook pelo menos uma vez por dia.

Se, de certa forma, o acto de nos lembrarmos do aniversário de alguém é agora pouco valorizado, ao optarmos por não o fazer, corremos o risco de que a outra pessoa veja isto como um insulto ou como uma falta de consideração. Eu não ligo muito às mensagens de parabéns, gosto de as receber, mas compreendo que a maioria não foram dadas porque se lembraram de mim, mas simplesmente porque foram notificados de tal. Tudo bem, não espero que os meus 500 contactos saibam de cor a data do meu aniversário. Contudo, quando alguém, principalmente alguém que me é próximo, se esquece ou não o faz, interpreto que tal aconteceu ou por motivos de força maior, caso eu e a pessoa estejamos em bons termos, ou então porque optaram deliberadamente por se “esquecerem” de mim. Já tive pessoas que chegaram mesmo a afirmar que não me deram os parabéns porque “não ligam a essas coisas”. Bom, visto que eu é que faço anos, a única coisa que importa é que eu “ligo a essas coisas” e por uma questão de respeito deviam lamentar-se por se terem esquecido em vez de encontrarem desculpas esfarrapadas sob perspectivas tão egocêntricas.

Eu gosto de ser prático nestas situações. Apenas felicito aqueles que me são próximos e aqueles que, embora não passem de conhecidos ou colegas, se lembraram do meu aniversário. Com todos aqueles que se esqueceram e não o justificaram, retribuo de igual modo, sendo que até hoje, ainda ninguém se deve ter apercebido disso, ou então simplesmente não sentem necessidade de que me lembre deles nos seus dias de aniversário.

Pondo de lado a minha visão pessoal, felicitar alguém pelo facebook não só é gratuito, como demora apenas pouco mais de dez segundos e permite aos utilizadores serem criativos, recorrendo aos infinitos recursos que a internet lhes proporciona. Desde cartões personalizados, a músicas, vídeos, fotos, memes ou simples frases inspiradores, existem imensas opções e métodos personalizados para dar os parabéns a alguém. Algo que nenhuma mensagem ou MMS consegue igualar, com a vantagem de que se a pessoa não for da vossa rede, não gastam dinheiro nenhum.

Deixem-se de desculpas esfarrapadas e gastem dez segundos do vosso dia para dar os parabéns a alguém. Ignorem os desconhecidos se assim quiserem, mas depois como se vão sentir quando eles próprios se lembrarem de vocês quando o vosso dia chegar? Não é tão rápido como um like, mas agora nem sequer precisam de sair da Home page para escreverem nos murais dos aniversariantes. Pode ser um gesto comum, ou até mesmo vazio, mas é capaz de alegrar um pouco o dia a alguém e, por vezes, até ajuda a resolver conflitos e a fazer as pazes com velhos inimigos.

Sunday, June 10, 2012

Análise aos meus “amigos” do facebook

O primeiro pensamento que vai passar pela cabeça de todos aqueles que lerem isto é: este tipo tem demasiado tempo livre. Neste caso, mais do que não ter nada que fazer, foi a vontade de procrastinar as minhas tarefas com algo que me entretivesse durante um bom bocado, que falou mais alto.

É raro conhecermos alguém que não tenha conta no facebook. De todas as pessoas com quem convivi ao longo dos últimos anos, apenas consigo nomear quatro que continuam a resistir a esta rede social. Algumas chegaram mesmo a cancelar as suas contas, voltando mais tarde a criá-las novamente.

Seja por motivos profissionais, ou apenas para manter um certo estatuto de acompanhamento continuado da actualidade social, mantemo-nos ligados ao facebook. Esta rede social passou de um dia para o outro a ser um espelho da nossa vida, um diário aberto ao mundo, um ponto de encontro para amigos e colegas e uma forma de reencontrar pessoas e de reatar laços há muito desenleados.

Decidi então analisar o meu facebook e descobrir quem são os meus “amigos” nesta rede social. Actualmente tenho 469 “amigos”. Para alguns, um número exagerado, para outros apenas uma fracção insignificante quando comparado com perfis que chegam aos cinco mil seguidores. Para mim é um número simpático que podia ser bem menor, fosse eu um dia lembrar-me de separar o trigo do joio.

Mas vamos lá aos números. Como podem ver pelo gráfico, dividi os meus seguidores pela forma ou pelo local onde os conheci. Os 31 perfis catalogados como “Organizações” referem-se a perfis de pessoas que não são pessoas, mas sim organizações, associações e empresas que ainda não aprenderam a criar páginas no facebook. Algumas são relativamente antigas, outras apenas adicionei por cortesia para com os seus membros. 

Gráfico: Análise Facebook Friends
A categoria “N/a” representando 17,7% (ou 83 perfis) dos meus seguidores, agrega todos aqueles que embora sejam meus “amigos” no facebook, nunca os conheci pessoalmente, nem tão pouco falei com eles. Oitenta e três pessoas que por um motivo ou outro me enviaram convite de amizade e eu aceitei, mas que não mais voltaram a interagir comigo.

A ocupar cerca de 7% dos meus seguidores, com 33 membros, a categoria “Internet” identifica as pessoas que conheci pela net, fosse através de fóruns, chats ou redes sociais e que posteriormente acabei mesmo por conhecer pessoalmente.

Local N.º %
Licenciatura 145 30,92
Experiência Profissional 70 14,93
Mestrado 33 7,04
Internet 33 7,04
Liceu 30 6,40
Amigos de Amigos 23 4,90
Formação 17 3,62
Família 2 0,43
Viagem 2 0,43
Organizações 31 6,61
N/a 83 17,70

As restantes categorias falam por si. Em destaque está a categoria “Licenciatura”, com 145 membros, a representar quase um terço do meu total de “amigos” no facebook. No lado oposto da tabela estão as categorias “Família” e “Viagem” – que representa as pessoas que conheci em viagem –, com dois membros cada. Não é que eu tenha uma família pequena, mas a maioria deles não se aventura muito pela Internet.  

Além destes 469, tenho mais 48 convites pendentes. A maioria são de pessoas que não conheço, sem amigos em comum, e de organizações que ainda não descobriram as facebook pages. Ouvi há meses um rumor de que o facebook ia terminar com os perfis que não fossem de pessoas reais. Mas pelos vistos, não passou de um rumor.

A título de curiosidade os meus “amigos” no facebook são compostos por 323 (68,87%) mulheres, 115 (24,52%) homens e 31 (6,61%) empresas e organizações.

Se retirar as empresas e as pessoas com quem nunca falei da equação, o meu facebook passaria a ter apenas 355 seguidores. Óbvio que destes todos apenas posso chamar verdadeiramente de amigos a uma pequena percentagem. Contudo, não deixa de ser engraçado ver a quantidade de pessoas que passaram pela minha vida, por mais breve que tenha sido o meu contacto com elas. Claro que ainda há inúmeras pessoas que por um motivo ou outro não pertencem aos meus “amigos” do facebook. Ora por não terem perfil nesta rede social, ora por terem escolhido não aceitar os meus pedidos ou por terem posto fim à nossa amizade facebookiana.

No fim de contas, como se costuma dizer em futebolês, só faz falta quem cá está. E isto das redes sociais não é mais do que uma brincadeira com a qual ocupamos o nosso tempo livre ou a quem recorremos quando nos apetece deixar para amanhã o que podíamos ter feito hoje.          

Tuesday, October 19, 2010

Distracções

Tenho dificuldade em estar atento, em concentrar-me apenas numa única tarefa. Talvez seja culpa da cultura de multitasking constantemente incutida ao longo da minha formação, talvez seja culpa de mim próprio por insistir em manter o twitter, o facebook e o gtalk ligados ao mesmo tempo que procuro pela vontade de fazer alguma coisa. Estou mais inclinado para apostar na segunda hipótese.

Há uma verdadeira auto-estrada de informação que continuamente submerge-me num oceano de dados inúteis e desnecessários para a eficiente progressão do meu dia-a-dia. Tive um professor que dizia: “Ao aprenderem algo novo guardem-no no vosso disco rígido, não na memória RAM”. Pois bem, embora ele tenha razão, suspeito que o buffer do meu cérebro já ultrapassou a sua capacidade máxima e agora não tem remédio se não armazenar toda a informação no disco. Isto deixa-me sem espaço para assimilar a totalidade das novidades mais pertinentes, para não falar que por vezes sinto como que a entrada de nova informação forçasse alguns ficheiros a serem eliminados.

Mas hoje o problema não é a minha capacidade de retenção de dados mas sim o foco dado às tarefas que tenho em mão. Mesmo a simples escrita destas linhas afasta-me de exercícios mais urgentes e, consequentemente, mais importantes. Contudo, vejo-me mais motivado para o desperdício do meu tempo em textos de auto-reflexão, do que para o dispêndio do mesmo em algo mais produtivo.

Talvez um dia devesse tentar simplesmente não ligar o twitter, o facebook e o gtalk, ou pelo menos um deles. Confesso que são estas coisas que mantêm a minha mente sã, mas são elas também as principais responsáveis pela minha constante distracção. Ver o número de tweets por actualizar na minha timeline obriga-me a parar seja o que for que esteja a fazer. Isto pode então levar a que eu me disperse por um link curioso ou que perca alguns segundos a responder a alguém. O mesmo acontece com o facebook. Quem de vocês nunca se apercebeu que tinha passado os últimos minutos a actualizar a página principal na expectativa de alguma reposta, ou comentário, a algo que lá publicaram?

O gtalk é outra história. Os chats, como qualquer conversa, distraem e obrigam-nos a alguma dedicação, visto ser socialmente incorrecto deixar alguém à espera de uma resposta durante um longo período de tempo. Contudo, este não é um verdadeiro problema, visto que por dia apenas falo com cerca de quatro pessoas, e apenas mantenho uma conversa prolongada com uma ou duas. Como se costuma dizer, “não é por aí”.

A conjugação de todas estas distracções fazem-me questionar da minha real capacidade como multitasker. Talvez seja a minha recém-descoberta dificuldade em assimilar novas ondas de informação, talvez seja este um mero sintoma de uma profunda desmotivação psicológica por falta de um sentimento de realização naquilo que faço. Talvez sejam todos estes motivos, e nenhum deles.

Há meses li um artigo que citava um estudo onde indicavam que fazer uma pausa para consultar o e-mail, ou para aceder às redes sociais, ajudava a aumentar a produtividade no local de trabalho. Hoje em dia é comum ver normas contra o uso das redes sociais, empresas com sites como o twitter ou o facebook bloqueados, e estudos atrás de estudos, feitos apenas para demonstrar o quanto perder tempo a navegar pela Web seja a socializar ou não, acaba por resultar apenas numa quebra de produtividade.

Ontem encontrei uma citação que dizia algo do género “só porque muita gente está no lado oposto, não significa que tu não estejas no lado certo”. Contudo, estou mais inclinado para acreditar que aquele estudo inicial precipitou-se no momento de tirar as reais ilações. Sim, fazer uma pausa de tempos a tempos ajuda a manter alguma da sanidade que, caso contrário, se esvaneceria com a imersão constante na mesma tarefa. Mas uma simples pausa não é o mesmo que várias horas de contínua tentação por parte de redes sociais em perpétua actualização.

A solução é simples, parar de queixar-me, desligar as redes sociais e pôr as mãos ao trabalho.