Tuesday, January 04, 2022

Janela de Overton e Efeito Ratchet

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Existem dois termos que todos os eleitores deviam conhecer antes de exercer o seu direito de voto, a janela de Overton e o efeito Ratchet (Overton Window e Ratchet Effect em inglês).

A janela de Overton é um conceito que se refere a um conjunto de temas que são, na sua maioria, aceites pela generalidade da população. Os temas que estão dentro da janela de Overton representam aquilo que é aceite como o status quo da sociedade, ou seja, os direitos e os deveres básicos que tomamos como garantido no nosso dia-a-dia.

Por exemplo, em Portugal podemos encontrar dentro da janela de Overton temas como a escola pública, o serviço nacional de saúde, o direito à vida, ou a liberdade de expressão e de associação. Contudo, a janela de Overton não é um espaço estanque. Ela pode ser movida ou ampliada para a esquerda ou para a direita do espectro político através da educação, da propaganda ou, até mesmo, da manipulação da opinião pública.

Nos anos 90 temas como o aborto, a eutanásia, o casamento homossexual, ou até mesmo a liberalização do consumo de drogas eram temas tabu, radicais e firmemente fora da janela de Overton. Felizmente, através da educação da população foi possível nas últimas décadas reverter esta situação e permitir que a opinião pública, na sua generalidade, aceitasse a inclusão destes temas na janela de Overton.

Hoje em dia seria impensável um partido dito moderado posicionar-se contra o aborto ou contra os direitos da comunidade LGBTQIA+. Temas que há trinta anos estavam fora do debate político hoje são direitos garantidos a todos os cidadãos.

Actualmente fora da janela de Overton podemos encontrar assuntos como a legalização das drogas leves e da prostituição, o rendimento básico incondicional, e o investimento em energia nuclear, à esquerda, e a liberalização do mercado e o corte de impostos, à direita.

Os partidos fora do bloco central têm como missão fazer lobby, propaganda e educar a população para que estes ou outros temas de seu interesse possam ser incluídos na janela de Overton.

Nos EUA, por exemplo, hoje em dia há um esforço enorme do partido democrata para incluir temas como o acesso universal a cuidados de saúde, o aumento do salário mínimo e a melhoria dos direitos dos trabalhadores na janela de Overton da opinião pública norte-americana. Enquanto o partido republicano esforça-se para remover da janela de Overton temas como o aborto ou os direitos das pessoas transgénero.

A janela de Overton é no fundo um conceito que retrata a fluidez da opinião pública e como esta pode ser alterada, para o bem e para o mal, através da acção dos diferentes actores políticos.

O efeito ratchet é um conceito um pouco mais complexo que procura explicar a dificuldade que certos países têm em mover a sua janela de Overton.

Imaginemos uma engrenagem que roda numa única direcção. Esta engrenagem tem uma peça que a impede de rodar na direcção oposta.

Voltando ao exemplo dos EUA. Durante a presidência de Donald Trump duas posições do Supremo Tribunal norte-americano ficaram disponíveis. Neste país estas posições são vitalícias e os juízes do supremo apenas abandonam o cargo após morte ou doença severa.

Donald Trump e o partido republicano aproveitaram esta oportunidade para colocar dois juízes conservadores com visões anti-aborto, anti-sindicais, anti-feministas e anti-LGBTQIA+ no lugar. Com a agravante de se tratarem de duas pessoas jovens que dificilmente sairão do lugar nos próximos vinte a trinta anos.

Isto significa que um executivo que apenas durou quatro anos conseguiu em tão pouco tempo ditar o futuro das principais decisões políticas do país para as próximas décadas, travando qualquer hipótese de reverter a engrenagem numa direcção progressista e favorável aos direitos das mulheres, dos trabalhadores e da comunidade LGBTQIA+.

Em Portugal o efeito ratchet é visível por exemplo nas políticas da troika impostas pelo governo de Passos Coelho que mesmo após seis anos de governo de António Costa ainda não foram revertidas, como o congelamento das carreiras dos funcionários públicos, o pagamento de horas extra, e a contratação colectiva.

O efeito ratchet é visível, em particular, nos partidos ao centro, pois estes sentem-se confortáveis em manter o status quo. Ao fazerem-no promovem a sua própria estabilidade governativa e garantem o apoio dos parceiros sociais mesmo que isso não seja do interesse da população em geral.

O bloco central promove assim o reforço da peça que impede a engrenagem de rodar no sentido oposto.

Com estes dois conceitos em mente torna-se mais fácil perceber os movimentos políticos de ambos os lados do espectro, permitindo uma escolha mais acertada do eleitor no momento do voto.

Quando somos convidados a votar devemos olhar para o estado do país e questionar que rumo queremos para o mesmo. Será que o meu voto vai puxar a janela de Overton na direcção correcta? Ou será que estarei apenas a promover um efeito ratchet que irá impedir o progresso e as reformas necessárias?

Friday, May 13, 2016

Privilégio

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Porque eu sou do tamanho do que vejo 
E não, do tamanho da minha altura...
Fernando Pessoa

O paradigma da relação empresa/trabalhador no mercado português encontra-se estagnado. Está fora-de-moda, bolorento, decadente e a apodrecer. Caiu em desuso há mais de quarenta anos, mas, contudo, ainda ninguém foi capaz de despertar os empregadores para a realidade das dinâmicas do mercado internacional. 

Num país que se orgulha de ser bastante conservador, ao mesmo tempo que tenta promover lá fora uma imagem de bastião das políticas de mercado livre globais, não deixa de ser estranha a forma como o capitalismo continua a ser visto internamente como um mero desígnio teórico. Apenas aplicável às relações entre chefias, e ao consumismo esforçado do proletariado comum.

Quantas vezes não ouvimos alguém falar no privilégio que é certas e determinadas pessoas terem a oportunidade de trabalharem para uma empresa em particular. Esta é uma ideia deturpada, retrógrada, gasta e ilusória. Privilégio é apenas uma palavra que fica bem numa carta de apresentação ou numa entrevista. Nada mais. Todo este conceito está virado do avesso. Não é um privilégio trabalhar para uma certa empresa, mas sim, o facto de essa empresa nos poder ter a nós como trabalhadores. 

Reconheço que para muitos o seu emprego de sonho passa pela oportunidade de trabalhar para uma entidade em específico, ou com uma pessoa em particular, seja ela um ídolo, ou apenas alguém que admiram e que sonham ter como par. Contudo, para a grande maioria, um emprego é apenas uma forma de fazer aquilo que gostamos em troca de uma remuneração adequada às nossas funções e ao nosso desempenho como trabalhadores. 

É fácil e tentador para um empregador ter uma classe verdadeiramente subordinada sob o seu controlo. Empregados que apenas marcam o ponto, fazem o que têm a fazer, com medo ou desinteresse em levantar uma questão que seja sobre as diversas situações que diariamente assolam a empresa que o emprega. 

A crise económica dos últimos anos podia ter sido vista como uma oportunidade para alterar este paradigma. Para criar um mercado de trabalho aberto e livre. Onde cada possível trabalhador entraria em competição entre várias empresas, cada uma há procura daquele com as melhores credenciais para suprir as suas necessidades, aliciando-os com salários e extras bem mais atraentes que os dos restantes competidores. 

Em vez disso, as empresas fecharam-se. Reduziram as despesas. Investiram na mediocridade, ameaçaram os seus trabalhadores com desemprego, e alimentaram a ideia de que é preferível ter um emprego cinzento, desgastante e opressivo, a nos aventurarmos pelas imprevisibilidades do mercado.

Essas empresas, aquelas que ainda não faliram, estão a perder o comboio da modernização para as suas congéneres estrangeiras, e para inovadoras startups que não recearam quebrar este paradigma há muito estabelecido como regra de péssimos costumes. A sua força laboral é fraca e doente. Apenas faz o mínimo possível, sem qualquer paixão pelo seu trabalho, pois assim ditaram as chefias através do seu constante ambiente de ameaças infundadas e de cortes salariais constantes. 

Parte da natureza humana grita por almejar a felicidade. Não fomos feitos para ser gado. Não fomos feitos para aceitar incólumes as constantes injustiças que mentalidades retrógradas insistem em impor à classe trabalhadora.

Pois no que a isto diz respeito, os empregadores que ainda assim pensam, estão condenados ao fracasso. Empresas como a Google, o facebook, a Apple e a Microsoft, cresceram e construíram os seus impérios, não à base da opressão, mas sim através da criação de oportunidades, de condições e de ambientes, aliciantes e capazes de atrair as melhores mentes das suas respectivas áreas. São vistas como empresas de sonho não pelos salários, ou pela sua visibilidade, mas sim pela forma como tratam os seus trabalhadores, pelos extras que lhes oferecem e pelo ambiente de abertura, liberdade e competição saudável dentro e fora da própria empresa. 

Mas isto não é algo apenas aplicável às grandes tecnológicas. Qualquer empresa pode-o fazer. Independentemente do seu tamanho. Está apenas à distância da imaginação e da capacidade de inovar de cada um dos seus empregadores.

Não é por nada que hoje vemos tanta gente a preferir emigrar, ou a investir nas suas próprias ideias, ao invés de se sujeitarem à banalidade de trabalharem para um energúmeno qualquer sem capacidade de compreender o quão diferente é o Mundo e o mercado actual. 

Durante meses perdemos horas a analisar as diversas transferências nos mais variados mercados desportivos. O mundo do trabalho real não devia ser diferente deste. Os melhores deviam sempre ser aliciados com novos contratos, e cada empresa devia ter o seu próprio departamento de scouting. É assim que funciona lá fora, mas, por cá, ainda tarda a chegar.

Os tempos de ficarmos ligados a uma só empresa durante vinte, trinte ou quarenta anos, há muito que já lá vão. Não nos devemos contentar apenas com aquilo que temos, mas sim, ter sempre a ambição de almejar a algo melhor. E se essas condições não existem internamente, não devemos ter medo de procurar outra empresa, outra cidade, ou outro país, capaz de nos dar aquilo que verdadeiramente merecemos. 

O verdadeiro privilégio é a empresa que reconhece e valoriza os trabalhadores que tem e que tudo faz para não os perder. Está na hora de mudar a retórica. O privilégio é todo vosso. Nós apenas estamos cá de passagem. Parem de nos tomar como garantidos, pois à mínima oportunidade estaremos sempre prontos para dar o salto e voar para novas e melhores paragens. 

Tuesday, July 21, 2015

A Hora de dizer Basta já passou há muito

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The children now love luxury; they have bad manners, contempt for authority; they show disrespect for elders and love chatter in place of exercise. Children are now tyrants, not the servants of their households. They no longer rise when elders enter the room. They contradict their parents, chatter before company, gobble up dainties at the table, cross their legs, and tyrannize their teachers.

Autor Desconhecido, Comummente atribuído a Sócrates, Platão ou Aristóteles

Há uma ténue resistência sobre aquilo que é perceptível como necessário, e aquilo que não passa de nada mais que um excessivo acumular de subtis abusos. Em Portugal é aplaudido o trabalhador que fica para lá da hora, o workaholic, aquele que chega antes de toda a gente e que sai o mais tarde possível, mesmo que estas horas extra não impliquem a devida compensação salarial, que nos últimos anos, aceitámos que deixasse de ser um direito, para passar a uma luxúria compensação raramente prevista em qualquer contrato.

Enquanto por cá abominamos a austeridade e permitimos que abusos semelhantes a este nos sejam impostos, ano após ano, nos mais ínfimos detalhes da nossa vida laboral, nos países que hoje governam aquela que devia ser uma União Europeia, e não uma Regência Económica, nada disto acontece. Tomemos a Alemanha como exemplo. Lá, um trabalhador que fique para lá do horário de trabalho é visto como incompetente. Alguém que não foi capaz de terminar as suas tarefas dentro do horário que a ele lhe foi concedido. Contudo, se por um motivo de força maior, este mesmo trabalhador tiver que forçosamente ficar para lá da hora de saída, é compensado devidamente pelas horas extra que lhe foram adjudicadas.

Cá, quem consegue um contrato de trabalho, algo que além de estágio profissional ou bolsa, seja ela de Gestão de Ciência e Tecnologia, ou de Investigação, nunca tive o “privilégio” de assinar, tem direito a alguns benefícios que embora sejam diferentes de empresa para empresa, assentam numa base comum. Descontos para o IRS e Segurança Social, Seguro de Acidentes de Trabalho, Seguro de Saúde, Subsídio de Alimentação, Subsídio de Férias e 13.º mês. Ao contrário do que a propaganda capitalista europeia tenta transmitir o 13.º mês não é um extra desnecessário, mas sim uma compensação pelos meses com cinco semanas que todos os anos criam disparidades entre quem recebe à semana e quem recebe de mês a mês.

Alguns ainda têm a sorte de ver as horas extras compensadas, seja com folgas, ou de forma remuneratória. Existem outros subsídios, tais como os subsídios de deslocação e incentivos para a habitação caso um novo empregado se veja forçado a sair da sua terra de origem. Claro que estes extras são muito raros de encontrar, e eu pessoalmente não creio conhecer alguém que os tenha, embora saiba que estes são aplicados por algumas empresas.

Com o passar do tempo, permitimos que estes direitos nos fossem retirados, pouco-a-pouco, de uma forma natural, aceitando de olhos vendados a necessidade dos mesmos, e que estes seriam apenas temporários. Contudo, o que vemos hoje são estágios não pagos, recibos verdes, trabalho precário, trabalhadores full-time com salários abaixo do salário mínimo, salários em atraso, cortes inesperados, e condições abaixo do mínimo recomendável.

Deixámos que isto acontecesse porque não soubemos dizer não, porque não nos impusemos contra estes roubos constantes, porque ignorámos a situação, porque isto só acontece aos outros, porque cedemos às necessidades em vez de nos impormos contra um dos maiores golpes laborais que esta geração alguma vez sofreu. Pois “se tu não aceitas, há sempre alguém para ocupar o teu lugar”. Este é o pior argumento que alguma vez alguém podia dar, mas a verdade é que esse “alguém” imaginário existe, e vai sempre sujeitar-se, seja por ingenuidade, seja por falta de soluções. Algo que não pode acontecer, algo que nunca devia ter acontecido.

Infelizmente, parece-me que já é tarde para mudar grande parte do mal que já está feito. Contudo, isto não significa que este caminho se torne irreversível. Emigremos se assim for, pois merecemos viver e não apenas sobreviver. Que se inicie o movimento do “Não”, e que aqueles que insistem em dizer “Sim”, sejam ajudados e instruídos para não ajudarem a alimentar um golpe que apenas alimenta os bolsos de alguns e que nos mantêm como meros instrumentos numa engrenagem neo-liberal de perpétua precariedade.

Não é difícil descortinar as soluções para este problema de fuga de cérebros e baixa empregabilidade. O caminho passa pela fiscalização das empresas com funcionários em situações irregulares e incumbir fortes coimas por cada caso de incumprimento. É necessário investir no emprego, através de incentivos às empresas, públicas e privadas, aumentar o salário mínimo, os subsídios e os direitos dos trabalhadores. Criar investimento de fundo perdido para empreendedores com projectos estratégicos, ou com potencial para singrarem no mercado nacional e internacional. Promover incentivos à natalidade. Subir os valores das bolsas de Investigação e de Gestão de Ciência e Tecnologia para valores adequados à realidade actual, impor-lhes o mesmo regime de IRS e de Segurança Social que os restantes trabalhadores, e tratar os bolseiros com os mesmos direitos e deveres que outro qualquer funcionário público.

Para que estas medidas tenham efeito é necessário investir. Ignorar o défice durante um período suficiente para que os níveis de desemprego desçam e o poder de compra aumente. Tornar Portugal num país atractivo não apenas para os nossos jovens, mas também para outros europeus que vejam o potencial que temos para oferecer. Criar uma política de solidariedade fiscal europeia, com Segurança Social Comum, Serviços Universais de Saúde Comuns, Salários Mínimos Comuns e Subsídios de Desemprego Comuns. Partilhar a dívida entre os estados, enquanto aqueles que como Portugal, desenvolvem as suas estruturas e criam o caminho necessário para manter um mercado de trabalho móvel, inovador e atraente.

É uma ideia difícil de vender para quem já vive em países onde tudo isto não passa do mínimo exigível no seu dia-a-dia, para os políticos de extrema-direita, e para os capitalistas neo-liberais que apenas vêem cifrões à frente dos olhos. Contudo, convido todos os europeus a virem cá, a visitarem a Grécia, a Irlanda, Espanha, Itália e Islândia. Mas não nos visitem como meros turistas. Falem com o povo, conheçam a realidade do interior, das cidades pequenas, das famílias de classe média que mal conseguem manter as prestações do empréstimo à habitação, das famílias numerosas com agregados que não chegam sequer aos mil euros mensais. Analisem todos os casos, não como números, mas como pessoas reais, e olhem com atenção para a austeridade que defendem. Depois de tudo isto vão continuar a defendê-la?

Olhemos para a Grécia como um exemplo da insurgência e da necessidade revolucionária contra uma União Europeia regida apenas por interesses monetários. Portugueses, unam-se como um povo, como europeus, deixem os vossos confortáveis sofás, e saiam à rua, não para passear, mas sim em protesto real. Exijam aquilo que é vosso por direito, e batam o pé a estas políticas de espezinhamento que tão ao de leve deixámos entrar nas nossas vidas, sem sequer questionarmos o mal que isto nos podia trazer.

Somos Portugueses. Somos Europeus. Somos Jovens. Queremos a oportunidade de nos afirmarmos no mercado de trabalho. A oportunidade de mostrarmos aquilo que valemos. E a oportunidade de o fazermos dentro ou fora de portas. Queremos ser nós próprios. Deixem-nos mostrar-vos o quão melhor podemos fazer este Mundo. Não nos cortem as asas à nascença.

Eu irei voar. E tu?

Thursday, October 13, 2011

O Meu Manifesto

Uma vez disseram-me que eu devia escolher as minhas batalhas, que é preciso separar as coisas pelas quais vale a pena lutar, das outras que não passam de desconfortos de conveniência. Nos últimos tempos tem surgido um crescente descrédito das manifestações dos “ocupas” e “desenrascados” que se fazem ouvir por todo o mundo, e embora me insira dentro desta geração, não deixo de concordar com a maioria das críticas a eles dirigidas.

Vale a pena lutar por mais oportunidades de emprego, vale a pena lutar contra o trabalho precário, vale a pena lutar por um futuro mais seguro, por melhores salários, por melhores regalias e por um tratamento mais humano com respeito pelo trabalhador. São ideais nobres defendidos pelos nossos antepassados ao longo dos séculos, algo com o qual me posso identificar. Contudo, embora estas manifestações se tenham erguido sob a bandeira desta ideologia, algumas questões radicais e impensadas têm ganho um relevo que não mereciam.

Em tempos de contenção financeira há certas medidas que devem ser debatidas e questionadas, mas não todas. O aumento de impostos coloca pressão sobre as famílias, mas tal é necessário para manter os sistemas educacional e de saúde a funcionar. Podemos questionar os restantes gastos, os investimentos mal feitos, mas os erros do passado existem para aprendermos com eles.

Não digo que as medidas actuais são as correctas, pois não o são. Não estamos a cometer os mesmos erros, mas continuaremos a errar enquanto não percebermos que a solução passa por um maior investimento na criação de emprego e de soluções estratégicas para relançar a economia. Isto são pontos aos quais os nossos líderes têm que dar resposta, mas onde podemos ajudar?

O nosso contributo como cidadãos comuns é simples, basta não vivermos acima das nossas possibilidades, não contrair créditos atrás de créditos, investir na educação, de preferência em cursos com um índice alto de empregabilidade e com um posicionamento económico estratégico, e combater o desemprego de longa duração com o risco do empreendedorismo. Mas podemos também ajudar através de medidas simples como comprar produtos nacionais, recorrer ao pequeno comércio e, sempre que possível, andar de transportes públicos.

Num mundo utópico um licenciado sairia da universidade directamente para o mercado de trabalho com o salário adequado à sua formação, contudo, tal não acontece. Embora esteja escrito em decreto-lei que o salário mínimo de um licenciado nunca deve ser inferior a mil e duzentos euros brutos mensais, o grande crescimento do número de licenciados, mais concretamente em áreas com um baixo índice de absorção e mobilidade no mercado de trabalho, torna isto impraticável.

Ao contrário do que muitos dos manifestantes reivindicam não podemos limitar-nos a esperar que nos ofereçam um emprego de mãos beijadas. Temos que construir currículo, temos que nos esforçar para dar o nosso melhor e, acima de tudo, temos que continuar a lutar pelo nosso lugar, sem nunca perder a esperança.

Após ter terminado a licenciatura estive quinze meses desempregado. Iniciei um mestrado numa área com maior empregabilidade que aquela em que me tinha licenciado. e continuei a construir currículo através de projectos não remunerados, de projectos pessoais, e de formação profissional.

Mas já tinha iniciado todo este processo ainda como estudante. Enviei currículos, fui a diversas entrevistas, mas apenas consegui emprego através de um programa do anterior governo. Essa primeira experiência deu-me alento e capacidade para enfrentar um potencial empregador com outras armas que aquelas que tinha até à altura.

Não me conformei com o meu contrato e continuei a procurar algo melhor, com um pouco de sorte encontrei um novo emprego e agarrei essa oportunidade. Todos os meses deixo algum dinheiro de lado, não pedi crédito para comprar carro, tenho um usado com dezassete anos que comprei com as minhas poupanças ainda quando era estudante. Não quero ser um exemplo para ninguém, mas pelo menos não tenho dívidas, trabalho na minha área e consegui tudo isto sem qualquer tipo de ajuda externa, ou plano de resgate.

A luta tão aclamada nas chamadas músicas de intervenção, não é um combate contra um sistema abstracto, mas uma luta pessoal para mostrarmos o nosso melhor, e fazer todos os possíveis para atingirmos os nossos objectivos.

Sim, há injustiças e devemos insurgir-nos contra elas. Temos que nos unir contra aquilo que é incorrecto, contra as medidas erradas, a nossa voz tem que ser ouvida, mas quando ela se elevar acima de toda a contestação não nos podemos engasgar, não podemos limitar-nos a fazer birras e exigências irrealistas, temos que saber argumentar a nossa posição, e reivindicar os nossos direitos.

Temos que nos mostrar solidários com a situação do país, e com as vidas dos nossos compatriotas. Temos que mostrar que somos uma geração capaz de pensar por si, de tomar as decisões acertadas, de lutar por aquilo em que acredita, mas que também é capaz de se conter, e de dar a mão a quem lhe pede ajuda.

Basta de conformismo, já chega de desabafos que terminem com “tem que ser”. Não podemos passar a vida à espera de dias melhores, está na hora de nos desenrascarmos, está na hora de sairmos à rua. Não para protestar, não para exigir mais que aquilo que é dado aos outros, mas sim para nos fazermos ouvir e para conquistarmos o nosso lugar de direito.

Está na hora de dizermos sim ao nosso futuro!

Thursday, March 24, 2011

O Meu Voto

Desde o nascimento deste blogue que sempre me demarquei de qualquer comentário político ou de análise da actualidade por achar que este espaço vale pela sua “inocência”, e pela divulgação de temas e pormenores que passam ao lado do comum dia-a-dia de qualquer outra pessoa. Contudo, dado os eventos que se passaram ontem, vejo-me forçado a violar esta promessa que fiz a mim próprio de forma a que a minha opinião possa ser lida e partilhada por todos aqueles que assim o desejem.

Nunca pensei algum dia votar ao centro, mas hoje não vejo outra alternativa que não votar PS. O Governo caiu ontem não por haver alguma alternativa viável ao Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) ontem proposto, nem por as medidas já implementadas serem demasiado severas, mas sim porque o Passos Coelho e o próprio PSD souberam analisar a actualidade política e tomaram a decisão de aproveitar este momento de fragilidade para assumir o poder, ou pelo menos tentar.

Se as medidas implementadas pelo PS fossem aprovadas, e se os resultados de diminuição do défice previstos no PEC fossem comprovados, o país ver-se-ia obrigado a dar o crédito onde é devido, e o PS não só quase certamente venceria as próximas legislativas com maioria absoluta, como o PSD seria relegado para um segundo plano da política nacional, mantendo-se afastado do poder durante vários anos.

O PEC ontem não foi discutido. Foram sim discutidas as ditas resoluções que ao serem todas chumbadas, determinaram que ao não haver uma alternativa viável o PEC proposto pelo actual Governo demissionário não poderia ser aprovado. José Sócrates ficou sem alternativa, restando-lhe apenas apresentar a sua demissão como tinha prometido. A verdade é que no debate de ontem à tarde na Assembleia da República, muito foi falado, muito foi criticado, mas poucas ou nenhumas soluções ou sugestões para a resolução da crise foram apresentadas. É fácil criticar, qualquer um o pode fazer, mas até ao momento, apenas o PS apresentou soluções e teve coragem para as implementar.

No rescaldo da noite de ontem, a primeira proposta de que o PSD se lembra, já em jeito de preparar a próxima campanha eleitoral, é de aumentar o IVA para 24 ou 25% de forma a salvaguardar as reformas e pensões. Ora, uma pessoa idosa a receber pouco mais que o rendimento mínimo já agora mal tem dinheiro para pagar os medicamentos e a alimentação, imaginem se o preço destes aumentar.

O problema, como sempre, está na desinformação do povo que acabará por naturalmente votar PSD só para experimentar algo diferente, sem se preocuparem em conhecer quais as suas políticas, e muito menos de as comparar com o actual PEC proposto pelo PS. Menos hipóteses terão os socialistas se José Sócrates se voltar a recandidatar. O povo vê em Sócrates a face da actual crise. E se o faz é por um bom motivo, porque de todos, ele foi o único que se sujeitou a dar a cara para implementar os passos necessários para a resolução da actual situação do país.

As políticas são severas? Paciência, a situação também o é. Se não estamos tão mal como a Grécia é porque Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças, agiu atempadamente aquando da crise imobiliária nos EUA. Por mais incompetente que José Sócrates possa ser, a verdade é que há gente competente no seio do seu Governo e é nessas pessoas em quem devemos acreditar.

Em vez de se queixarem continuamente da situação e de esperarem que tudo se resolva, mexam-se. Ajam! Não sejam meros reaccionários, aceitem as medidas que o vosso país vos pede e ajudem Portugal a sair da crise, mas não o façam de ânimo leve. Informem-se, procurem melhores condições se não estiverem satisfeitos com as que têm. Protestem quando o motivo para o fazerem tem valor e é fundamentado, não façam parte de uma oposição só porque sim.

A entrada do Fundo Monetário Internacional (FMI) é ainda evitável e não é algo que se deva desejar. Se aceitarmos ajuda do FMI teremos algum tempo para respirar um pouco melhor, mas mais cedo ou mais tarde a tremenda dívida externa que daí resultará, irá forçar-nos a maiores cortes, a subidas de preços exorbitantes, a racionamento dos bens essenciais, e a despedimentos em massa. É esse o futuro que o PSD propõe. É esse um futuro com o qual são capazes de viver?

Nas próximas legislativas votarei PS. Não me importo de remar contra a corrente de forma a defender aquilo que acho melhor para o país neste momento, mesmo que não concorde por completo com as suas políticas ou ideologias. Este é o meu sacrifício.