Tuesday, January 04, 2022

Janela de Overton e Efeito Ratchet

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Existem dois termos que todos os eleitores deviam conhecer antes de exercer o seu direito de voto, a janela de Overton e o efeito Ratchet (Overton Window e Ratchet Effect em inglês).

A janela de Overton é um conceito que se refere a um conjunto de temas que são, na sua maioria, aceites pela generalidade da população. Os temas que estão dentro da janela de Overton representam aquilo que é aceite como o status quo da sociedade, ou seja, os direitos e os deveres básicos que tomamos como garantido no nosso dia-a-dia.

Por exemplo, em Portugal podemos encontrar dentro da janela de Overton temas como a escola pública, o serviço nacional de saúde, o direito à vida, ou a liberdade de expressão e de associação. Contudo, a janela de Overton não é um espaço estanque. Ela pode ser movida ou ampliada para a esquerda ou para a direita do espectro político através da educação, da propaganda ou, até mesmo, da manipulação da opinião pública.

Nos anos 90 temas como o aborto, a eutanásia, o casamento homossexual, ou até mesmo a liberalização do consumo de drogas eram temas tabu, radicais e firmemente fora da janela de Overton. Felizmente, através da educação da população foi possível nas últimas décadas reverter esta situação e permitir que a opinião pública, na sua generalidade, aceitasse a inclusão destes temas na janela de Overton.

Hoje em dia seria impensável um partido dito moderado posicionar-se contra o aborto ou contra os direitos da comunidade LGBTQIA+. Temas que há trinta anos estavam fora do debate político hoje são direitos garantidos a todos os cidadãos.

Actualmente fora da janela de Overton podemos encontrar assuntos como a legalização das drogas leves e da prostituição, o rendimento básico incondicional, e o investimento em energia nuclear, à esquerda, e a liberalização do mercado e o corte de impostos, à direita.

Os partidos fora do bloco central têm como missão fazer lobby, propaganda e educar a população para que estes ou outros temas de seu interesse possam ser incluídos na janela de Overton.

Nos EUA, por exemplo, hoje em dia há um esforço enorme do partido democrata para incluir temas como o acesso universal a cuidados de saúde, o aumento do salário mínimo e a melhoria dos direitos dos trabalhadores na janela de Overton da opinião pública norte-americana. Enquanto o partido republicano esforça-se para remover da janela de Overton temas como o aborto ou os direitos das pessoas transgénero.

A janela de Overton é no fundo um conceito que retrata a fluidez da opinião pública e como esta pode ser alterada, para o bem e para o mal, através da acção dos diferentes actores políticos.

O efeito ratchet é um conceito um pouco mais complexo que procura explicar a dificuldade que certos países têm em mover a sua janela de Overton.

Imaginemos uma engrenagem que roda numa única direcção. Esta engrenagem tem uma peça que a impede de rodar na direcção oposta.

Voltando ao exemplo dos EUA. Durante a presidência de Donald Trump duas posições do Supremo Tribunal norte-americano ficaram disponíveis. Neste país estas posições são vitalícias e os juízes do supremo apenas abandonam o cargo após morte ou doença severa.

Donald Trump e o partido republicano aproveitaram esta oportunidade para colocar dois juízes conservadores com visões anti-aborto, anti-sindicais, anti-feministas e anti-LGBTQIA+ no lugar. Com a agravante de se tratarem de duas pessoas jovens que dificilmente sairão do lugar nos próximos vinte a trinta anos.

Isto significa que um executivo que apenas durou quatro anos conseguiu em tão pouco tempo ditar o futuro das principais decisões políticas do país para as próximas décadas, travando qualquer hipótese de reverter a engrenagem numa direcção progressista e favorável aos direitos das mulheres, dos trabalhadores e da comunidade LGBTQIA+.

Em Portugal o efeito ratchet é visível por exemplo nas políticas da troika impostas pelo governo de Passos Coelho que mesmo após seis anos de governo de António Costa ainda não foram revertidas, como o congelamento das carreiras dos funcionários públicos, o pagamento de horas extra, e a contratação colectiva.

O efeito ratchet é visível, em particular, nos partidos ao centro, pois estes sentem-se confortáveis em manter o status quo. Ao fazerem-no promovem a sua própria estabilidade governativa e garantem o apoio dos parceiros sociais mesmo que isso não seja do interesse da população em geral.

O bloco central promove assim o reforço da peça que impede a engrenagem de rodar no sentido oposto.

Com estes dois conceitos em mente torna-se mais fácil perceber os movimentos políticos de ambos os lados do espectro, permitindo uma escolha mais acertada do eleitor no momento do voto.

Quando somos convidados a votar devemos olhar para o estado do país e questionar que rumo queremos para o mesmo. Será que o meu voto vai puxar a janela de Overton na direcção correcta? Ou será que estarei apenas a promover um efeito ratchet que irá impedir o progresso e as reformas necessárias?

Tuesday, March 23, 2021

Duas da Manhã

How I Met Your Mother; Imagem DR

Não é raro encontrarmos vídeos, memes ou artigos com uma lista das principais lições que a série How I Met Your Mother nos deu. Uma espécie de 10 mandamentos para os jovens adultos que cresceram com as aventuras de Ted, Marshall, Lily, Barney e Robin como a sua principal sitcom de referência.

Estas publicações são normalmente acompanhadas por um comentário que já virou lugar-comum. Algo como, ‘concordo com quase tudo, excepto com a ideia de que nada de bom acontece depois das duas da manhã’, seguido de um emoticon a indicar que o autor conta no seu repertório com uma série de conquistas que tiveram lugar para lá das duas da manhã.

Parabéns, não só não aprendeste nada com a série como perdeste por completo o ponto desta lição.

Neste episódio Ted, que na altura namorava com Victoria, decide mentir e dizer que eles tinham terminado para justificar passar a noite com Robin. A mentira vem ao de cima quando Robin atende o telemóvel de Ted por engano e do outro lado está Victoria que nada sabe sobre o assunto. Robin confronta Ted e este acaba por confessar o erro.

O ponto mais relevante desta lição não é a hora a que isto ocorre mas sim a mensagem de que não devemos tomar decisões importantes quando estamos cansados e com sono. Para Ted esse momento tem lugar às duas da manhã, para uns será mais cedo, para outros será mais tarde.

Isto é válido para algo tão simples como uma compra por impulso, como para decisões de maior peso sobre a vossa vida pessoal, ou profissional.

Uma ideia que parece ser boa a meio da noite, nem sempre o é na manhã seguinte. Se, depois de um longo dia, estamos exaustos e com sono devemos apenas ir dormir, deixando para amanhã seja qual for a decisão que devemos tomar.

Chama-se “dormir sobre o assunto”, pois após uma boa noite de descanso e com uma mente mais fresca e clara somos mais capazes de tomar a decisão certa.

Se Ted tivesse ido para casa, não só teria terminado com Victoria de uma forma mais justa para ambos, como a sua relação com Robin teria começado mais cedo.

Acredito que muitas pessoas já tenham vivido episódios memoráveis para lá das duas da manhã, mas esse não é o foco desta ideia. O importante a reter é que nunca devemos tomar decisões precipitadas quando não estamos em condições físicas e mentais para o fazer.

Seja meia-noite, duas, quatro ou oito da manhã, quando atinges o teu limite, desliga o computador, guarda o telemóvel, vai para casa e diz ‘até amanhã’. Acredita, não te vais arrepender.

Friday, March 05, 2021

The Real Story of Sur le Pont d’Avignon

The Real Story of Sur le Pont d'Avignon, Jerome na Ponte

Crescer nos anos 90 significava que os sábados de manhã eram sinónimo de desenhos-animados. Era uma tradição profundamente embrenhada no nosso consciente colectivo. Mais do que ansiar pelo fim-de-semana para não ter que ir à escola, queríamos sim saber em que novas aventuras os nossos heróis se tinham metido.

Após terminar o meu prato de estrelitas, a minha companhia para aquelas manhãs eram animes como Sailor Moon, Dragon Ball ou Pokémon, séries live action como Power Rangers, Beetleborgs ou VR Troopers, e séries de animação icónicas como Denver, the Last Dinosaur, Widget, the World Watcher, Captain Planet ou A Carrinha Mágica.

Com modelos como estes é assim tão impressionante que toda uma geração tenha crescido com uma vontade inabalável de proteger o ambiente?

Infelizmente, nem todos os desenhos-animados daquele tempo sobreviveram até aos dias de hoje. Alguns transformaram-se em séries de culto, alimentando grupos de fãs que procuram algo fora da norma, enquanto outros simplesmente se perderam, sobrevivendo apenas na memória de quem os viu.

Em 1992 o estúdio de animação franco-canadiano Cinar produziu um desenho-animado com o nome de ‘The Real Story of’. Entre 1991 e 1994 foram produzidos 13 episódios, cada um com cerca de 23 minutos de duração. Cada episódio tinha como premissa mostrar a “verdadeira” história de uma popular música infantil.

Em Portugal este desenho-animado foi emitido pela RTP com repetições regulares durante a década de 90 nos dias próximos ao Natal. Havia um em particular, sobre a música francesa Sur le Pont d’Avignon, que dava todos os anos na manhã da véspera de Natal. Raro foi o ano que não o apanhava a dar, sem fazer qualquer esforço para o ver. Talvez por isso, acabou por se tornar para mim numa pequena tradição natalícia.

Numa estranha tradição natalícia. Afinal, este episódio nada tem a ver com o Natal. E, como se isso não bastasse, a sua história estava longe de ter um final feliz.

Este episódio começa numa noite há mais de duzentos anos atrás, durante uma festa sobre a ponte de Avignon. Esta festa conta com a presença do Rei e de vários artistas de circo, incluindo o habitual bobo da corte. Na entrada da ponte estava um órgão enorme que, ao dar à manivela, conseguia ler e tocar uma partitura de música similar aos cartões furados que eram lidos por aqueles gigantes computadores dos anos 60. A música era, sem grande espanto, Sur le Pont d’Avignon.

Durante a festa, o bobo da corte decide roubar um saco de ouro que o Rei tinha no seu trono e escondê-lo no interior do órgão. O Rei apercebe-se da ausência do seu saco e trava as festividades para que o mesmo possa ser encontrado.

Para se safar, o bobo da corte acusa o dono do órgão de ter roubado o saco de ouro do Rei. O Rei, sem hesitação, ordena que o senhor seja executado no local. O velhote, que pelos vistos tinha poderes mágicos, amaldiçoa o Rei e faz com que a ponte caia levando com ela todos os feirantes, incluindo o bobo da corte, forçando as suas almas a dançarem naquela ponte ao ritmo da canção Sur le Pont d’Avignon para toda a eternidade.

A maldição só será levantada quando ao balar da meia-noite, o órgão tocar aquela música até ao fim. Para evitar que isto aconteça, o dono do órgão rasga a partitura ao meio e deixa que o vento leve uma das metades para longe.

O Rei vê incrédulo a sua ponte cair e nada faz para salvar as pessoas que nela estavam.

Avançamos de seguida para a actualidade, ou pelo menos para a actualidade de 1992, onde uma criança chamada Jerome visita o seu avô, uma figura muito semelhante ao dono do órgão, que tem uma loja de antiguidades. O Jerome tem um esquilo de estimação por algum motivo. Isto é pouco relevante para a história mas achei que deviam saber.

Enquanto Jerome fala com o seu avô na sua loja de antiguidades um polícia entra pela porta a dentro com um decreto a exigir que o avô de Jerome pague uma dívida que tem em falta ou então será forçado a fechar a loja.

Jerome e o seu avô procuram por algo valioso para pagar a dívida no interior da loja e encontram na sua cave o órgão. Jerome roda à manivela, a música começa a tocar e, lá fora, vemos a parte da ponte que caiu a reaparecer com umas figuras encapuçadas a dançar ao som da música. Entre estas figuras fantasmagóricas está o bobo da corte que, de alguma forma, consegue se libertar do feitiço e atravessar a ponte para o Mundo real.

Jerome descobre que falta metade da partitura do órgão e, na manhã seguinte, vai com o seu avô ao arquivo municipal procurar pela outra metade. O bobo segue-os e, por acidente, acaba por encontrar a outra metade da partitura numa sala do arquivo.

Segue-se uma perseguição de Jerome e do seu esquilo ao bobo pelos telhados de Avignon. Perseguição essa que desafia as leis da física de forma mais descarada que qualquer filme de Velocidade Furiosa.

No fim Jerome consegue apanhar a segunda metade da partitura e colá-la à metade que estava no órgão. O bobo tenta travá-lo, sem sucesso, acabando por desistir de tentar viver no Mundo actual, regressando por fim à ponte para se juntar aos restantes feirantes.

Quando bate a meia-noite o avô de Jerome faz o órgão tocar. A ponte volta a aparecer com as mesmas figuras encapuçadas a dançar. Quando a música chega ao fim, as figuras libertam as suas mantas e revelam os feirantes que tinham caído com a ponte. Estes juntam-se numa nuvem e sobem aos céus, as suas almas enfim livres da maldição.

A nuvem é uma amálgama da cara dos diferentes feirantes que, ao subir, cantam a música Sur le Pont d’Avignon.

Jerome encontra o saco de ouro no órgão e oferece-o ao avô para pagar a dívida e manter a sua loja aberta.

The Real Story of Sur le Pont d'Avignon, A Núvem

Como podem perceber, este episódio ficou gravado na minha memória não por ser uma recordação feliz, mas por ser bastante perturbador. Não admira que seja praticamente impossível encontrá-lo online. Este desenho-animado é capaz de dar pesadelos até mesmo a adultos.

Por onde começar. Se foi o Rei quem acusou erradamente o dono do órgão, por que decidiu ele matar todos os feirantes e não o Rei? Por serem meros servos? Pessoalmente não sou favorável a chacinar inocentes pela acção de um único ladrão, muito menos a condená-los a passar a eternidade a dançar numa ponte caída.

Compreendo que estes feirantes teriam dificuldades em adaptar-se ao Mundo actual, no entanto este final é bastante anticlimático. Após séculos a dançar numa ponte a sua recompensa é transformarem-se numa nuvem e subir aos céus a cantar a mesma música que os atormentou?

Não me recordo de ver uma tortura tão penosa nem sequer n’A Divina Comédia. E isto era um desenho-animado dirigido para crianças de tenra idade.

Compreensivelmente, este episódio não está disponível na sua versão original online. No entanto, existe uma versão deste episódio com uma voz polaca a falar por cima das falas das personagens no Youtube. Não chamaria a isto uma dobragem visto que é sempre a mesma voz a falar e, quem tem bom ouvido, consegue ainda perceber as falas originais em inglês.

Podem ver o episódio nas seguintes ligações: Parte 1 | Parte2

Thursday, August 06, 2020

Como emitir um acto isolado?

Se ao longo da vossa carreira profissional já emitiram um recibo verde, este processo é em tudo similar. Qual é então a vantagem de emitir um acto isolado, também conhecido como acto único, em vez de um recibo verde?

Os actos isolados são usados para tarefas ou projectos pontuais com uma única entidade e, ao contrário dos recibos verdes, não exigem que a pessoa tenha actividade aberta no portal das finanças.

Algumas fontes indicam que é possível emitir mais que um acto isolado por ano, desde que estes sejam realizados com empresas diferentes. No entanto, o mais seguro é recorrer a este recurso apenas uma vez durante o vosso ano fiscal.

Se tiverem mais que uma actividade extra prevista para trabalhos complementares ao vosso emprego oficial durante um determinado ano, o melhor será recorrer aos recebidos verdes.

O processo de emissão de um acto isolado é relativamente simples, sendo hoje possível realizá-lo online através do portal das finanças.

Antes de iniciarem o processo, devem primeiro negociar com a empresa o valor a ser pago. Os actos isolados carecem de pagamento do IVA à taxa normal, mediante algumas excepções. Por isso, devem incluir sempre na vossa proposta de orçamento o valor total com o IVA discriminado.

Por exemplo, se fizerem um orçamento para €500 devem multiplicar este valor por 1,23, (considerando o IVA à taxa máxima de 23%) o que dá um valor de total de €615, com o IVA a custar €115.

Depois de negociado o valor, está na hora de emitir a factura. Para tal, devem deslocar-se ao portal das finanças, fazer login, entrar em ‘Facturas e Recibos Verdes’ e escolher a opção ‘emitir’.

Devem então seleccionar ‘Factura’, preencher a data e escolher a opção ‘Factura Acto Isolado’.

Depois, na secção ‘Adquirente de Bens ou Serviços’ é necessário preencher o nome, o país, a morada e o número de contribuinte da empresa.

Por baixo, na secção ‘Transmissão de Bens ou da Prestação de Serviços’, devem seleccionar a opção que melhor se adequa ao vosso caso, escrever uma breve descrição, colocar o valor base do serviço, e seleccionar a taxa de IVA.

O valor total da factura é imediatamente calculado após a taxa ser seleccionada. Depois, basta carregar em ‘emitir’ no topo da página e terão acesso à factura. Esta deverá ser então enviada para a empresa.

Antes de receberem o pagamento a empresa deverá pedir-vos alguma informação como o número de contribuinte, o IBAN ou a vossa morada.

Embora a forma de pagamento dependa de empresa para empresa, o ideal é esperarem pelo pagamento antes de emitirem o recibo final.

Assim que o dinheiro entrar na vossa conta, devem dirigir-se ao portal das finanças, carregar em ‘Facturas e Recibos Verdes’ e novamente seleccionar a opção emitir.

Desta vez terão que carregar na opção que diz ‘Recibo’. Aqui o sistema vai pedir-vos para seleccionar a factura à qual este recibo diz respeito. Como este se trata de um acto único, só vos deve aparecer uma única opção.

Seleccionada a factura, o portal vai preencher de forma automática a informação sobre a empresa, sendo novamente necessário acrescentar o valor do orçamento e seleccionar a taxa de IVA. Nesta secção terão também que seleccionar qual o regime de IRS a aplicar nesta transacção.

Se o valor do acto isolado for inferior a €10 mil, estão isentos de pagamento de IRS. Se for o caso devem então seleccionar a opção ‘Dispensa de retenção - art. 101.º-B, n.º1, al. a) e b), do CIRS’ antes de finalizarem a emissão do recibo. Para mais informação sobre a isenção de retenção em fonte de IRS sugiro que consultem esta página.

Depois de emitirem o recibo é necessário proceder ao pagamento do IVA. Usando o exemplo anterior, para um serviço com um custo base de €500, têm a receber da empresa um total de €615. Deste valor, €115 correspondem à taxa de IVA que terá que ser paga.

Para tal não é necessário sair do portal das finanças. Na barra de pesquisa procurem por ‘modelo P2’. Deverá então aparecer a opção ‘Guias de Pagamento Modelo P2’.

Seleccionada esta opção devem carregar em ‘Pagamentos de IVA’ e em ‘Submeter Novo Documento’.

Aqui terão que colocar o valor do IVA, que neste caso são €115, e seleccionar a opção ‘Acto Isolado’ onde diz ‘Tipo de Pagamento’.

Ao carregarem em ‘Submeter’ será emitida de forma automática a entidade e a referência de pagamento. O pagamento pode ser feito numa caixa de multibanco ou através de homebanking, num computador, ou na aplicação do vosso banco.

O pagamento do IVA terá que ser feito até ao final do mês seguinte à emissão do recibo do acto isolado. É por este motivo que devem sempre esperar pelo pagamento da empresa antes de emitirem o recibo.

Existem, contudo, algumas actividades que estão isentas do pagamento de IVA. Para saberem se o vosso serviço está ou não isento de IVA podem consultar o artigo 9º do CIVA (Código do Imposto sobre o Valor Acrescentado).

Friday, October 04, 2019

Twitter à distância de onze anos

Aniversário do Twitter

Foi numa aula de Novos Media já no meu terceiro ano de faculdade que me foi dada a conhecer uma nova rede social que, na altura, estava ainda longe de alcançar o impacto mediático que hoje tem. Estou a falar, obviamente, do twitter.

De microblogue, a sala de chat, de um espaço para criar e contar histórias, a uma caixa-de-ressonância de opiniões, ao longo dos últimos anos vi esta rede social evoluir e transformar-se. Muitos daqueles que conheci nesses primeiros tempos há muito que deixaram de participar no dia-a-dia desta rede. Alguns porque já não se identificam naquilo que ela se tornou, outros porque encontraram noutro espaço algo mais aliciante com o qual perder o seu tempo.

Quando comecei a usar esta rede usava-a essencialmente como uma plataforma para partilhar ideias e pensamentos. Era um microblogue usado para partilhar todas aquelas frases soltas demasiado pequenas para justificaram o espaço e a energia que uma publicação em um dos meus blogues exigia.

Cedo comecei a observar que nem todas as pessoas usavam o twitter da mesma forma. Algumas limitavam-se a partilhar ligações de notícias, vídeos ou outro tipo de conteúdo que achavam interessante, enquanto outras tinham transplantado a essência do mIRC para esta plataforma, e usavam-na como uma simples sala de chat para conhecer e interagir com novas pessoas.

Demorei algum tempo, confesso, mas eventualmente aprendi a responder, a fazer retuítes e a interagir com os diferentes utilizadores que povoavam esta rede. Ainda sou do tempo, sim, neste caso terei mesmo que usar esta expressão, mas de facto, ainda sou do tempo em que era possível ver as interacções de um utilizador com contas que nós não seguíamos. Foi, aliás, desta forma que conheci muitas das pessoas com quem interagi nos meus primeiros anos de twitter.

Um dos episódios mais caricatos foi quando aprendi a utilizar hashtags. Já tinha visto pessoas a colocar cardinais antes de uma palavra mas nunca percebi ao certo porque o faziam. Um dia, a acompanhar um evento, perguntei a várias pessoas o que era uma hashtag e qual a ligação que deveria colocar no meu navegador para acompanhar esse evento.

Após algumas tentativas frustradas acabei por recorrer ao Google, onde aprendi que uma hashtag era uma etiqueta precedida de um cardinal usada para ligar uma série de tuítes a um único evento.

Hoje em dia, basta carregar em uma dessas etiquetas para ver todos os tuítes em que elas são incluídas. Naquela altura não. Se queríamos seguir uma determinada hashtag era necessário ainda pesquisar por ela. Felizmente, esta alteração, ao contrário de muitas outras, acabou por ser positiva. Tanto que rapidamente redes como o facebook e mais tarde o instagram também adoptaram esta técnica, ignorando onde a mesma tinha sido originada.

Durante estes onze anos, confesso mais uma vez que nem sempre fui um utilizador assíduo. Por volta de 2012, já muitas das pessoas com quem convivia e falava numa base diária tinham saído desta rede. A partir daí comecei apenas a usar o twitter para divulgar artigos do meu blogue, notícias de ciência, música, vídeos e um ocasional pensamento solto.

Foi em 2015 que decidi voltar a usar esta rede de forma habitual. Comecei a seguir novas contas, a responder e a interagir com novas pessoas e, eventualmente, comecei a criar conteúdo que ia muito além da divulgação de projectos pessoais ou de pensamentos soltos.

Ao fim destes onze anos testemunhei como o twitter, os seus utilizadores, e o universo das redes sociais se alteraram em consonância com as vontades e com as necessidades das pessoas e do mercado digital.

Com esta riqueza de utilizadores com conceitos, ideias, percursos e histórias de vida distintas, o twitter transformou-se naquilo que é hoje. Para o bem, e para o mal.

Ao longo deste processo de transformação aprendi a identificar os diferentes tipos de utilizadores que coabitam nesta rede social. Podemos encontrar onze géneros claros de utilizadores que, primeiro em 140, e hoje em 280 caracteres, usam esta rede com os seus próprios propósitos e objectivos.

Algumas pessoas reflectem um pouco de cada um, mas é ainda possível encontrar exemplos de contas dedicadas apenas a um único foco.

O Ideólogo

Foi uma das primeiras espécies a habitar o twitter. São pessoas que publicam pensamentos e conversas internas sem nunca interagir com ninguém. Se em tempos eram a forma mais popular de usar este rede, hoje são vistos como párias, ignorando por completo um dos principais pilares de qualquer rede social, a interacção.

As Câmaras de Eco

Utilizadores que usam a sua conta para partilhar notícias, vídeos ou ligações sem nunca produzirem conteúdo próprio. Se têm alguma espécie de interacção com outras contas ou utilizadores, fazem-no apenas à base de retuítes.

Os Workaholics

Contas ‘profissionais’ usadas apenas para partilhar eventos relacionados com trabalho, ou com projectos desenvolvidos pelo seu utilizador. A interacção é mínima, usando a rede social como uma montra para eventuais empregadores. São pessoas para quem as redes sociais são uma ferramenta que usam para construir a sua própria personagem. O objectivo final é retirar os proveitos da sua popularidade online para fazer crescer a sua carreira profissional.

Os "papa conferências"

Estas contas limitam-se a fazer o acompanhamento de conferências. A opinião é dada através da selecção das citações dos oradores acompanhadas das hashtags do evento. A maioria apenas funciona uma vez por ano mas alguns parecem fazer vida disto.

Os storytellers

Uma espécie ameaçada que chegou até a ser alvo de notícias há cerca de oito anos. Foram um dos primeiros fenómenos associados a esta rede. Estas contas usam o twitter para contar pequenas histórias. Aspirantes a escritores que encontraram nos 140 caracteres, que agora são 280, o desafio ideal para a sua procrastinação.

Os endoutrinadores

Espécie que apareceu por volta de 2016. Políticos ou aspirantes a tal, que usam o twitter para criar bolhas de opinião onde o debate tem sempre um único sentido. Rodeiam-se de Yes Men que controlam para tentar humilhar e calar quem tem uma opinião diferente.

Os produtores de conteúdo

Especialistas e pessoas comuns que usam esta rede para partilhar e esclarecer temas que podem ou não estar na berra da agenda mediática. Conhecidos por construir longas threads, disponibilizam sempre fontes e ligações para quem quer saber mais.

Os facebookers

Pessoas que cresceram com o facebook e que tentam replicar a experiência que lá tiveram nas restantes redes sociais. Usam o twitter para partilhar fotos e acontecimentos do seu dia-a-dia na esperança de receberem gostos e interacções.

Os perfis ligados

Contas que apenas existem porque ‘temos que estar em todo o lado’. Os seus tweets são apenas links de publicações feitas no facebook ou no instagram. A interacção é rara e muitas vezes inexistente.

Os sociais

Malta que está aqui desde o início e que ainda usa o twitter como uma sala de chat. Dizem ‘bom dia’ e passam o tempo a interagir com outras pessoas, seja através de respostas ou por mensagem privada.

Os trolls

Utilizadores que apenas existem para ver o Mundo a arder. Nunca dizem nada sério. Insultam tudo e mais alguma coisa. Os perfis são falsos e devem ser sempre evitados. Alimentam-se de atenção. Sem atenção acabam por definhar.

Cada um de nós já passou por um destes diferentes estágios num certo momento. Alguns ficaram presos a uma destas identidades, outros fluem entre aquelas que mais se adequam à sua personalidade. É esta riqueza que torna o twitter um espaço tão interessante e, ao mesmo tempo, tão perigoso.

Para mim? Para mim continua a ser aquela casa onde os meus pensamentos, as minhas ideias, as minhas notas soltas sobre um determinado tema, habitam, coabitam e viajam para lá das páginas da minha mente, e para lá da projecção da minha voz, ou da minha escrita.

Não é um espaço que me define, mas é um espaço onde sei que tenho, e onde sempre irei ter, a minha voz.

Wednesday, November 28, 2018

Toxicidade

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Há cerca de três anos decidi deixar o facebook. Esta decisão não foi assim tão simples pois, para mal dos meus pecados, uma das minhas funções na empresa onde trabalhava então era a de gestor de redes sociais.

Tive assim que chegar a um compromisso. Tinha que arranjar uma forma de continuar a usar o facebook sem me ausentar desta plataforma. A solução mais simples passaria por criar um perfil anónimo para gerir a página. Contudo, isto entra em conflito com a minha necessidade de usar o seu sistema de mensagens.

Na verdade queria deixar de usar a timeline do meu facebook, mantendo todos os restantes benefícios que esta plataforma proporciona.

Optei enfim por uma opção de compromisso. Mantive a minha conta activa mas, em vez de abrir esta rede social na sua página inicial, comecei a abri-la na página da empresa. Deixei de fazer novas publicações. Deixei de responder a comentários. Reduzi a minha interacção ao mínimo necessário para não perder o contacto com as pessoas que me são mais próximas.

Para não dar a impressão que tinha de facto deixado o facebook mantive a minha conta de twitter ligada ao meu perfil. Os meus tweets continuavam a ser publicados no facebook sem que alguém notasse alguma diferença. Mas, a seu tempo, também isto deixei de fazer.

Para todos os efeitos, deixei de usar o facebook. Este deixou de ser uma plataforma pessoal e passou a ser apenas uma ferramenta de trabalho. Continuei a alimentar e a gerir a página da empresa, e não deixei de publicitar os meus feitos profissionais, assim como o meu blogue e portefólio, na minha página pessoal.

Contudo, através desta simples acção, consegui libertar-me de uma das minhas principais fontes de ansiedade.

Deixar o facebook foi uma decisão que tomei para o meu próprio bem-estar e para o meu equilíbrio mental. Fora isso, não retirei grandes benefícios palpáveis deste acto. A minha produtividade continuou igual. Sempre soube gerir bem o meu tempo, mantendo-me activo nas redes sociais sem alguma vez falhar qualquer prazo. E, no fim de contas, apenas troquei o meu tempo no facebook por uma mais intensa participação no twitter.

Durante pouco mais de dois anos, a única vez que me atrevia a ir além das páginas que geria era para felicitar alguém pelo seu aniversário.

Usei este tempo para pensar sobre o que me movia contra esta rede. Por que me custava tanto visitar a minha timeline?

A resposta era simples. Por medo. Medo do que podia lá encontrar. Medo do conteúdo tóxico. Medo do sentimento que uma foto, uma notícia, ou um comentário, pudesse despertar em mim.

Uma noite, respirei fundo e decidi limpar a minha timeline de tudo aquilo que era tóxico. De tudo aquilo que era negativo. De todas as pessoas, páginas e eventos que transmitissem qualquer tipo de sentimento destrutivo ou derrotista.

Deixei de seguir todas as pessoas tóxicas. Todos aqueles contactos que dia sim, dia sim, têm algo de frustrante ou derrotista para partilhar. Deixei de seguir todas as pessoas incapazes de ter uma base de diálogo com alguém com ideologias diferentes das suas. Fossem essas políticas, filosóficas, religiosas ou desportivas.

Deixei de seguir todos aqueles que associava a más memórias, momentos, ou recordações. Excepção feita apenas a quem estava lá para mim nesses momentos.

Mas também deixei de seguir algumas pessoas cujo perfil não encaixa nas mais comuns definições de toxicidade. Deixei também de seguir pessoas excessivamente felizes.

Lamento, mas não quero saber dos vossos amores, e desamores, das vossas vitórias, e conquistas, dos vossos sucessos, e carreiras, das vossas viagens, e passeios.

No fim, mantive apenas o meu núcleo de amigos, alguns contactos profissionais, pessoas neutras com vidas normais, e personagens intelectualmente estimulantes, fossem elas académicas, ou simples contemporâneos que, independentemente das suas filosofias colidirem ou não com as minhas, sabiam estabelecer um diálogo digno com a sua oposição.

Não analisei cada contacto individualmente. Avaliei-os consoante o impacto emocional de cada publicação que aos poucos aparecia na minha timeline.

Timeline essa que passou a estar muito vazia. Dominada quase inteiramente por páginas, por notícias, e por artigos de opinião.

Virei-me então para os grupos. Para pessoas com interesses similares aos meus. Fossem estes profissionais, desportivos, ou de entretenimento. Neste momento são eles que dominam a minha timeline. Uns mais que outros é certo, mas todos os dias mantenho-me a par das mais diversas novidades sobre os principais temas que me interessam.

Os restantes contactos não passam agora disso. São apenas uma bola verde no Messenger, de nenhuma forma diferentes de um qualquer número numa lista telefónica. Um pequeno preço a pagar por uma lufada de ar fresco no meu constante combate contra a ansiedade.

Consegui fazer isto sem me fechar numa bolha. Sem me recolher em um círculo de opiniões em comum. Todos os dias participo em conversas interessantes com pessoas que pensam diferente de mim. A maioria delas no twitter, claro, a discussão intelectual há muito que abandonou o facebook.

Os temas hoje em dia são as notícias falsas, a desinformação, a fraca qualidade dos media, e as típicas polémicas do dia-a-dia que tão depressa surgem, como desaparecem.

Continuo a usar o facebook esporadicamente. Já não estou na mesma empresa mas continuo a gerir redes sociais. Evito comentar qualquer publicação fora dos grupos onde sou membro activo. Limito-me a dar os parabéns a alguns contactos e a usar o Messenger para falar com os meus amigos.

O resto? O resto deixou de estar à distância de um clique.

Monday, November 19, 2018

Sem tempo, Sem dinheiro, Sem princípios: O jornalismo em Portugal

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Nunca os níveis de desconfiança nos media estiveram tão altos em Portugal e no Mundo, e nunca a qualidade do jornalismo foi tão baixa como é hoje. Os jornalistas são hoje um alvo constante de críticas e de audíveis protestos nas redes sociais, nas caixas de comentários dos seus próprios sites, em fóruns públicos e privados, junto das mais diversas instituições, e até mesmo pelos seus próprios colegas.

Nunca o seu trabalho foi tão esmiuçado, avaliado e exposto. Nunca estiveram estes tão pressionados pelo escrutínio da opinião pública. Nunca esta opinião pública reagiu tão a quente. Nunca esta opinião pública foi tão pouco exigente com a qualidade dos factos que partilha entre si.

Ser jornalista significa viver entre uma dicotomia constante de um público que exige qualidade de informação, ao mesmo tempo que a protesta quando a mesma não se insere na sua própria narrativa.

Ser um profissional da comunicação perante um cliente tão bipolar, acrítico e reactivo, nunca foi tão difícil. Nunca foi tão complexo. Nunca foi tão exigente.

Nunca foi tão preciso, tão necessário, que os media respondessem a isto com mais e melhor conteúdo. Com reportagens profundas e imparciais. Com recurso a especialistas conceituados. Com um cortar de relações com os poderes instalados, com os charlatões e com os vendedores de banha da cobra.

No entanto, o caminho escolhido foi o oposto. O do imediatismo. Da notícia de última hora. Do exclusivo. Do sensacionalismo. Do click bait.

Ao vivermos de perto a realidade das redações, ao conhecer os interesses que movem os seus editoriais e as suas direcções nada disto é surpreendente. É surpreendente sim o silêncio. O silêncio ensurdecedor de uma classe que não se manifesta. Que não se opõe. Que não critica. Que não procura cortar com o marasmo do ciclo noticioso. Que não pára para respirar.

E, apesar de tudo isto, muitas vezes a culpa é mal dirigida. É impossível pedir mais a um jornalista que vive com pouco mais de setecentos euros por mês. Que chega a trabalhar turnos de dez a doze horas seguidas sem direito a horas extra. Que está sujeito à pressão do tempo. À pressão dos editoriais. À pressão da viralidade do seu próprio conteúdo.

É difícil pedir mais a alguém que vive uma situação precária. Que está há anos a recibos verdes. Que todos os dias chega à redacção sabendo que este pode ser o seu último.

Não é justo pedir a um jornalista para pensar quando a sua mente está ocupada com as contas que tem para pagar, com o stress que tudo isto causa na sua família e nas suas relações.

Quando não basta seres bom, quando não tens tempo para escrever, quanto menos para pensar, quem sofre é o conteúdo. Conteúdo esse que muitas vezes não passa de uma nota de imprensa replicada. Do relato unilateral de uma única fonte. De pouco mais que frases feitas que alguém disse para fazer passar a sua mensagem.

Não, não culpo o jornalista comum. O jornalista comum não tem tempo. Não lho dão. O jornalista comum não tem voz. Não o deixam falar. O jornalista comum não tem segurança. O salário dele quer-se baixo. Ele tem que sobreviver, não que viver. O jornalista comum não tem saúde. Sem dormir, sem parar, sem respirar. O jornalista comum não tem tempo para a família. Sempre em piquete. Sem férias. Sem descanso.

É esta a realidade de uma classe que vê os seus melhores profissionais a mudarem de carreira mal saem da universidade. É esta a realidade de uma classe cujo trabalho é julgado em praça pública onde todos somos júri, juiz e executor, sem direito de resposta.

Os poucos que ainda conseguem viver desta profissão. Aqueles que têm tempo para pensar, para pesquisar, para encontrar as fontes, para ouvir os intervenientes. Esses são cada vez menos. Cada vez mais raros e cada vez mais cansados para se preocuparem com as questões mais estruturantes da sociedade actual.

Os restantes estão limitados pelas próprias direcções. Onde antes apenas se respeitava o estilo editorial imposto pela filosofia do próprio meio, hoje temos o bloqueio do capital. Um jornal não pode ousar publicar uma notícia negativa sobre a sua empresa mãe ou sobre um patrocinador. Não sem arriscar fechar portas ou despedir pessoal.

Se for possível, tal notícia será abafada por tempo indeterminado, ou remetida a um canto obscuro de uma secção que ninguém lê. Se a concorrência decidir publicá-la, terão que esperar por ordens dos intervenientes antes de seguirem com a sua divulgação.

Em tempos os jornalistas trabalhavam com gabinetes jurídicos do próprio jornal. Se uma notícia era efectivamente complexa, pediam conselhos, recolhiam todas as fontes, e só depois a publicavam. Hoje, é tudo para ontem. Os factos são alternativos. E o que não interessa, não aparece.

Por vezes, nem sequer há uma real malícia por parte da direcção, mas uma simples protecção da sua fonte. Sem entrar em clubismos, basta olhar para como os jornais desportivos cobriram a investigação do fisco espanhol às contas de Jorge Mendes.

Jornais que vêem neste empresário uma fonte importante de furos e de notícias de última hora, corriam o risco de perder o exclusivo se tentassem publicar algo sobre o tema. Questionados sobre o seu silêncio por jornalistas espanhóis, alguns editores apenas responderam “não nos arranjem problemas”.

É esta permissividade entre os poderes instalados, as grandes instituições e os testas-de-ferro do grande capital, que polui e destrói a credibilidade editorial dos principais meios da nossa praça.

É por isso que cada vez mais nos voltamos para blogues, para projectos independentes como o Fumaça, e para barómetros de coerência e acuidade como o polígrafo e Os Truques da Imprensa Portuguesa.

Estes espaços são neste momento os principais instrumentos de democratização da informação em Portugal. Estes espaços têm tempo. Espaço para respirar. Segurança. Qualidade. E, acima de tudo, procuram apenas informar, corrigir, alertar, ou até, só dar a conhecer.

Não dão tantos cliques. Não são tão virais. Os títulos não são tão chamativos. Mas a informação é real. É cuidada. É, apenas e só, baseada em factos. Em trabalho de investigação.

Deem tempo ao jornalista comum. Deixem-no respirar. Deixem-no trabalhar numa única peça por dia, se esta o justificar. Deem-lhe um salário digno. Tempo para si, para a sua saúde, e para a sua família.

Procurem por outras fontes de publicidade. Não tenham medo de cortar com um investidor se este vos forçar a impor a sua própria agenda.

Acima de tudo, sejam fiéis aos princípios que movem a nossa profissão.

Quando o jornalismo é livre, quando o jornalismo tem em si a voz dos factos e nada mais, somos todos vencedores.

Quando assim não é, a própria democracia e os direitos mais básicos são postos em causa.

O estado actual dos media não é surpreendente, mas é, e sempre foi, evitável. Basta aprender a dizer não.

Tuesday, September 04, 2018

A Anunciada Extinção da Estranha Espécie Conhecida por Avec

Sistela, Foto: Adriano Cerqueira
Todos os Verões há um fenómeno migratório que transforma o Norte e o Interior do país em uma amálgama de matrículas amarelas, memorabilia da selecção nacional de futebol, e trajes de um estilo que, no mínimo, podemos pensar como arrojado. Este fenómeno está tão enraizado na cultura destas regiões que as diversas vilas e aldeias que as povoam lhe dedicam extensos arraiais e romarias, sempre antecipando uma farta participação daqueles que trocam os seus habitats naturais nas planícies francesas, belgas e suíças, pela sua casa de Verão algures guardada em um canto de Portugal

Não é, inclusive, incomum que os dialectos próprios destas regiões sejam substituídos por um primo esquecido das línguas românticas que algures entre o português e o francês ficou perdido na tradução.

Há já quarenta anos que os locais se habituaram a receber estes migrantes, reservando assim, integralmente e sem marcação, o seu querido mês de Agosto para os deixar o mais confortáveis possível e para garantir que os seus carros alugados sejam exibidos dentro da sua comunidade como se fossem eles os seus donos.

Contudo, esta tradição tem os seus dias marcados. O prognóstico não é favorável e, sem qualquer dado empírico que o suporte, não acredito que a mesma sobreviva aos próximos vinte anos.

O tempo será o culpado por esta esperada extinção. O tempo e o próprio mote que motiva a periodicidade desta migração.

A geração que em tempos partiu para fugir à ditadura em busca de um novo emprego algures no centro da Europa há muito que deixou para trás a vivacidade da sua juventude. As novas gerações que entretanto nasceram já se encontram tão embrenhadas no tecido multicultural dos países que habitam que qualquer traço de portugalidade apenas ainda resiste na sua genética.

Poucos falam português, pelo menos não de forma fluente. As recordações que trazem dos seus Verões passados com os pais são de um Portugal de interior, pobre, aborrecido e parado no tempo.

Não exploraram o país que havia para lá das suas vilas. Não conheceram as pessoas que viviam fora dos muros construídos pelos seus vizinhos e pelos seus parentes. Vinham de carro e entravam em Portugal ora por Vilar Formoso, ora por Viana do Castelo. 

Não conhecem Lisboa, não conhecem o Porto. Das restantes capitais de distrito, pouco ou nada sabem. Aqueles que visitaram o litoral fizeram-no fechados em tendas com churrascos à beira-mar, e pouco, ou nenhum, contacto com os locais. 

O Portugal que eles conheceram é hoje apenas uma caricatura, uma imagem transmitida através das salas e dos quintais dos familiares que cá ficaram.

Podem até manter uma ou outra recordação de infância mas, para eles, a ideia de passar um Verão inteiro a visitar familiares e a saltar entre arraiais está muito longe de ser uma opção viável para as suas férias.

As novas gerações não têm uma língua quebrada entre fragmentos de outras duas. As novas gerações falam francês, alemão ou inglês. São gerações qualificadas. Integradas na sua comunidade. Gerações com vontade de viajar.

As suas férias não são passadas em Portugal, mas sim em Itália, na Grécia, no Vietname, na Tailândia, no Japão, na Austrália, nos EUA ou no México. Os seus fins-de-semana prolongados são divididos entre Paris, Berlim, Viena ou Amesterdão.

O quão mais integrados estiverem, menos verão esta migração a Portugal como um mal necessário. Enquanto os seus pais insistirem, vão continuar a regressar. Primeiro durante um mês, depois por duas semanas, uma semana, e enfim, talvez apenas um fim-de-semana lá para o Natal.

De anual, para de ano a ano, de quatro em quatro, para nunca. Talvez ouçam alguns amigos franceses a elogiar o país. A mostrar as fotos que tiraram no Porto, em Lisboa, no Algarve, nos Açores ou na Madeira. E talvez aí pensem em regressar. Não à terra. Não. Os familiares que aí habitam já não os conhecem, e os vizinhos há muito que se mudaram. 

Quando regressarem vão chegar por um dos aeroportos. Vão visitar as nossas cidades, as nossas praias e um ou outro destino turístico. Vão ser turistas indistintos de outros quaisquer. 

As vilas do nosso interior vão enfim ver-se livres das infindáveis matrículas amarelas e os seus arraiais vão ter que se reinventar para garantir a sua sobrevivência.

Esta tradição está condenada e a poucos anos de se consumar como uma breve nota de rodapé na história de Portugal.

Não vale a pena esperar uma nova vaga desta tradição através dos mais recentes emigrantes. 

Ao contrário dos primeiros, estes, quando saíram, já eram fluentes em ambas as línguas. Não foram para França ou para a Suíça, mas sim para o Reino Unido, para a Alemanha, para a Dinamarca e para os EUA. São novos migrantes. Migrantes qualificados. Ambiciosos. Migrantes que, em muitos casos, nem sequer procuraram emprego em Portugal.

Muitos optaram logo por uma posição lá fora que lhes garante um salário mais alto e melhores condições que aquelas que alguma vez as nossas empresas lhes seriam capazes de oferecer.

As suas férias são passadas a viajar pelo Mundo fora. São uma geração europeia, cosmopolita e multicultural. Uma geração Erasmus, com vontade de atravessar novos horizontes. Uma geração que quando emigra não o faz para juntar dinheiro para um dia regressar, mas sim para construir a sua carreira e, talvez, uma família lá fora.

Vão sempre voltar para visitar os seus familiares mas, não no Verão, não durante um mês. O Natal, a Páscoa e outras datas importantes serão as escolhidas. Também estes vão regressar de avião e não de carro. Não vêm para impressionar ou meter inveja a ninguém, mas sim para matar saudades da família e daqueles que ficaram e para, em breve, regressarem à vida que lá fora constroem em permanência.

O destino está traçado e o alarme está prestes a tocar. Em breve o único motivo de reportagem na fronteira de Vilar Formoso será a ausência de tráfego onde antes muitos faziam fila. De carro cheio, sorridentes, e com novas matrículas amarelas para passear pela sua aldeia.

Um postal que, não tarda, passará a ficar guardado numa qualquer gaveta da memória colectiva da nossa história contemporânea.

Wednesday, August 08, 2018

Um Verão a Sós

Imagem DR

Os Verões da minha adolescência eram passados em casa, ora a ler, ora a ouvir a música, ora online no mIRC ou no MSN. Durante oito anos fui apenas uma vez à praia com colegas de escola. Não tinha amigos, pelo menos não daqueles que me convidassem para fazer algo fora do liceu.

A primeira, e única, vez que fui à praia com colegas do liceu foi já no nono ano. A minha mãe lá me convenceu a ir com um grupo de pessoal popular com quem me dava mais ou menos bem, mas a quem não podia verdadeiramente chamar de amigos.

Foi uma tarde algo embaraçosa. Com a pressa de sair de casa levei um tapete em vez de uma toalha de praia e passei a tarde com a t-shirt vestida. Dizia como desculpa que estava com algum frio, mas na verdade não tinha confiança o suficiente no meu corpo para o mostrar desta forma. Eventualmente acabei por tirar a t-shirt mas, no geral, não parei de me sentir desconfortável. Foi uma tarde muito longa e uma experiência que tão cedo não queria repetir.

Passar férias fora de Ovar também não era uma opção. Os meus pais decidiram construir a nossa casa no virar do milénio, quando ainda tinha 12 anos. Sem dinheiro para mais nada não viajávamos. Fomos uma semana para o Algarve em 2001 e em 2005 e passámos um fim-de-semana em Évora em 2003.

Ia à praia com eles na Torreira de vez em quando ao fim-de-semana. Por vezes pegava na minha bicicleta e ia até à praia ler, mas se o fizesse mais que duas vezes no mesmo Verão já era muito. Lembro-me de passar os dias a adiar esta minha viagem até ao Furadouro. Eram apenas cerca de sete quilómetros a pedalar, mas sozinho parecia ser uma distância interminável.

As desculpas eram muitas e variadas. Ora estava mau tempo, ora estava muito calor. A minha constante preguiça e as longas noites passadas no mIRC, faziam com que raro fosse o dia em que saísse da cama antes das duas da tarde. Nas raras vezes que lá conseguia levantar-me cedo, aproveitava as manhãs para ler ou para arrumar o meu quarto.

Chegava a perder dias inteiros na arrecadação à procura de algo em específico. Um velho brinquedo, uma peça de roupa ou algum velho pedaço de lixo tecnológico que pudesse, talvez, ainda funcionar.

Tudo servia como desculpa para não pegar na minha bicicleta. Na verdade só não o fazia por receio de encontrar alguém conhecido. Talvez esteja a exagerar quando o digo, mas durante anos a ansiedade que sentia sempre que era forçado a sair de casa, fez-me acreditar que sofria de agorafobia. Hoje compreendo que o que sentia era apenas medo. Medo de interagir com alguém conhecido fora do habitat natural que era a escola.

Apesar disto, ia ao Porto com alguma frequência. O meu pai deixava-me no Gaiashopping ou no Arrábida. Passeava pelas lojas e ia ver um filme, fim-de-semana sim, fim-de-semana não.

Volta e meia ia também a Aveiro, ou a Coimbra, ter com pessoal com quem falava no mIRC. Eram tardes muito fixes que me davam algum alento para aguentar o resto do ano mas, infelizmente, muito fugazes. Tão fugazes como essas amizades que, hoje, não passam de memórias ou de meros conhecidos que há muito deixei de seguir no facebook.

Sentia-me um verdadeiro outsider, sempre à espera que surgisse alguém capaz de dar um novo rumo à minha vida.

Durante esses anos perdi muitos dos meus interesses. Gradualmente deixei de ver o Em Busca do Vale Encantado todas as semanas. Deixei de coleccionar/jogar cartas Pokémon. Deixei de ver Power Rangers e de brincar com os meus LEGO.

Uma das frases que mais vezes usava no meu perfil do MSN era algo sintomática deste sentimento de perda: “Já ninguém ouve New Order, já ninguém vê o Em Busca do Vale Encantado, já ninguém gosta da Primavera.”

Com três simples traços desenhava a minha solidão.

Virei-me então para a música. Passava os dias entre a MTV e o SOL Música à procura de novas bandas. Por vezes chegava a mandar mensagens para o rodapé do SOL Música. A maioria delas a pedir para passarem New Order ou t.A.T.u.

Cheguei inclusive a ir a alguns festivais de Verão. Era assíduo no SBSR e fui aos dois primeiros Rock in Rio. Sempre com o meu pai, pois nunca encontrava alguém interessado em acompanhar-me.

Eram Verões muito aborrecidos. Passava-os a contar os dias até ao regresso às aulas. Não por gostar particularmente do meu liceu, mas para poder ter algo para fazer além do constante marasmo do meu dia-a-dia.

Passava-os também na esperança que a pessoa de quem gostava na altura não tivesse arranjado namorado e que, de alguma forma, ela se lembra-se que eu existia.

Sempre que, por alguma brecha, a minha realidade se cruza com estas memórias, sinto alguns destes sentimentos a vir ao de cima. Uma profunda tristeza por tempos que perdi, por momentos que não vivi, pela solidão e pela frustração que assolavam os meus dias.

Tive que esperar até 2010 para a minha vida começar a ficar mais interessante e para, de facto, começar a vivê-la.

Ao meu Eu adolescente apenas tenho isto a dizer: Levanta-te desse canto e volta para a cama. Não te preocupes, o futuro será muito melhor.