Tuesday, April 12, 2016

Liberdade de Debate e Contra-argumentação

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Show me one piece of evidence and I would change my mind immediately

Bill Nye

Há certas coisas que não compreendo. Na base de todos os debates e discussões existem sempre, pelo menos, duas visões opostas sobre um determinado tema. O segredo para uma boa contra-argumentação passa pela capacidade de calçarmos os sapatos do nosso opositor, de compreender a origem das suas opiniões, e de desconstruir eventuais erros de lógica, de pesquisa de conteúdo, e de buracos nos seus argumentos. Contudo, este processo torna-se impossível quando nos encontramos frente a um discurso ilógico, sem nexo e sem sentido.

A acção mais simples, quando nos deparamos com este género de situações, é simplesmente ignorar. Deixar um qualquer energúmeno a falar sozinho com as suas paredes é um mecanismo muito eficaz. A sua mensagem não é replicada, e as eventuais vozes de apoio mantêm-se silenciosas por falta da tão desejada publicidade, que assim é negada a esse sujeito.

Mas, hoje em dia, a ubiquidade da nossa presença online torna difícil que alguém, por mais ilógico e irracional que seja, se mantenha incógnito e ignorado. Na maioria das vezes são as próprias pessoas que se opõe às suas ideias e que as acham ofensivas, quem mais contribui para a divulgação das mesmas. Ao partilharmos visões profundamente deturpadas, estamos a dar-lhes a voz e o meio que estas tanto desejam para se propagar. 

No entanto, ao ignorarmos essa pessoa perdemos também a oportunidade de a educar e de partilhar uma visão do Mundo, diferente daquela que ele tenta propagar. O problema é que a natureza da nossa presença online, dita que o nosso tempo seja demasiado valioso e escasso para o gastarmos a contra-argumentar contra alguém que, na maioria das situações, vai continuar a bater o pé, incapaz de compreender as tuas intenções, ou até mesmo de perceber o porquê da tua vontade em debater esse tema. 

Encontramo-nos assim numa encruzilhada onde nenhuma das opções parece ser minimamente atraente. Entre ignorar e dar início a um debate, com o tempo descobrimos que ambas as opções são as correctas. O segredo está em saber escolher as nossas batalhas. Em perceber quando devemos defender aquilo em que acreditamos, ou que vemos como correcto, e quando devemos apenas seguir em frente com as tarefas do nosso dia-a-dia. Existe ainda uma terceira opção, direccionar o argumento para alguém com melhores capacidades de contra-argumentação, ou com maior conhecimento sobre o tema, e que esteja disponível para o desenvolver em teu lugar, naquele determinado momento.

É difícil para mim compreender como ainda hoje existem pessoas intolerantes, misóginas, racistas, homofóbicas, enfim, pessoas que dedicam a sua vida a tentar assegurar que os restantes não têm direito a serem iguais as si próprios de uma forma livre, sem serem constantemente sujeitos a qualquer tipo de julgamento ou de privação dos seus direitos mais básicos.

Existem diversas situações divergentes que, de um ponto de vista ideológico, tenho muita dificuldade em compreender, mas que, contudo, sou capaz de perceber o que poderia levar alguém a pensar dessa forma. 

Não compreendo porque certas pessoas não conseguem ver a Humanidade como uma sociedade heterogénea mas merecedora de igualdade no que diz respeito aos direitos mais básicos. Não compreendo como um jovem pode defender um ensino superior com propinas. Não compreendo como alguém possa não querer que o nosso sistema de saúde seja universal e gratuito. Não compreendo como existem pessoas que acham que nem todos temos o direito a uma habituação e ao livre acesso a alimentos e refeições. Compreendo muito menos aqueles que se opõem a uma sociedade baseada no mérito de cada um, independente do estrato social de origem, do género, da raça ou do credo.

Não compreendo quem prefere a ignorância à educação. A pobreza de espírito à riqueza de conhecimento. O ódio ao amor. A guerra à paz. A morte à vida. 

Estamos mais ligados do que nunca, mas nunca foi tão fácil isolarmo-nos do resto do Mundo. Um estudo recente demonstrou que as pessoas de pensamentos extremos, sejam elas mais liberais ou mais conservadoras, têm uma tendência para delinear nas suas redes sociais um único consumo de ideias que se enquadrem nas suas. Isto significa que alguém que seja muito conservador, tem uma maior tendência para consumir medias conservadores e para excluir todas as pessoas liberais que existem nas suas redes. Este efeito faz com que o extremismo aumente, tornando cada vez mais difícil para estas pessoas compreenderem a origem dos argumentos daqueles que lhes opõem.

Isto é algo que precisamos de combater o quanto antes. A ignorância e o ódio apenas alimentam mais ódio e ignorância. A situação actual, com atentados terroristas na Europa Central, Ásia e Médio Oriente, o número crescente de refugiados, e de conflitos que os provocam, foi toda catalisada pelo medo, pela ignorância, e pela intolerância. Pela incapacidade dos povos ocidentais de compreenderem o sofrimento que a guerra e a desigualdade social causa em cada país que atropelámos e deixámos ao abandono. 

O cidadão comum pouco pode fazer para mudar esta situação. Mas uma pequena parte da solução está na nossa capacidade de educar as vozes de medo e de discórdia que todos os dias vemos partilhadas nas redes sociais. 

Hoje, apenas temos tempo para ler um título. Poucos são aqueles que lêem o lead, muito menos aqueles que consomem toda a notícia, e ainda menos aqueles que vão pesquisar informação complementar para saberem mais sobre o que se está a passar, como chegou a acontecer, e porque está a acontecer. 

Há certas coisas que não compreendo. Pessoas, ideias e acções que nunca serei capaz de perceber o porquê da sua origem. Contudo, defendo a liberdade de cada um em expressar a sua opinião. E se querem provar-me errado, apresentem-me as provas e os factos, e aceitarei com bom grado a vossa argumentação. Se não forem capazes de o fazer, talvez esteja na hora de repensarem os vossos argumentos. 

Tens o direito de te expressar. Temos o direito de não te ouvir. 

Friday, March 29, 2013

A propósito de José Sócrates, da liberdade de expressão e do Angry Mob Syndrome

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I may disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it
Evelyn Beatrice Hall

Ao longo do meu percurso académico foi muitas vezes levantada a problemática sobre a necessidade de investimento em educação para os Media. Não apenas no sentido de alertar as pessoas contra os perigos de um aproveitamento negligente dos conteúdos mediáticos mas também para criar um núcleo de espectadores, leitores, ouvintes e utilizadores crítico, com capacidade de seleccionar conteúdos de qualidade e de compreender todos os processos existentes desde a ideia inicial até à publicação do conteúdo.

Por diversas vezes deparei-me com situações aberrantes, e até mesmo cómicas, de pessoas que acreditavam que não existia diferença entre um jornalista e um apresentador, um guionista e um realizador ou um animador e um locutor. Sem querer entrar no domínio do controlo dos Media por grandes poderes económicos e políticos, ou pela visão Orwelliana tão bem retratada pelos Green Day na sua música American Idiot com a frase “uma nação controlada pelos media”, senti a necessidade de esclarecer certos processos relativos ao jornalismo televisivo que, infelizmente, a generalidade do público desconhece.

Ao contrário daquilo que é referido em algumas das petições e comentários que têm surgido contra a presença de José Sócrates na RTP, um comentador político, ou qualquer outro tipo de comentador não é pago pela estação para exercer esse papel. Um comentador, de forma semelhante a um entrevistado, é alguém que é convidado pelo canal para esclarecer um determinado assunto devido à sua experiência e às suas capacidades comprovadas numa área em particular. Existem pontuais excepções, principalmente a nível do comentário desportivo, quando essas pessoas passam a ter uma presença regular num espaço informativo específico. 

A própria competição entre os diversos canais motiva que por vezes seja oferecido um salário para conseguirem conquistar a vontade desse comentador. Contudo, como já foi esclarecido, a norma é que o comentário noticioso seja uma tarefa pro bono realizada mediante a disponibilidade da personalidade em questão.

Esclarecido este ponto, preocupa-me também o escrupuloso ataque à liberdade de expressão. A liberdade de expressão é uma faca de dois gumes. Se por um lado esta defende que José Sócrates deve ser livre de dizer o que bem lhe apetecer e de comentar a actualidade política numa televisão pública, por outro lado os peticionários também são livres de protestarem contra isso. Embora não concorde com o que eles dizem e apesar de achar a sua causa infundada e uma completa perda de tempo, defendo a sua liberdade para o fazer. Por vezes esquecemo-nos que vivemos num estado democrático onde todas as pessoas têm o direito de ser ouvidas e de se pronunciarem como bem lhes aprouver sobre todo e qualquer assunto. 

Contudo, questiono os reais motivos por detrás deste movimento anti-José Sócrates. Tudo bem que o nosso antigo Primeiro-Ministro está longe de ser uma figura que tenha gerado consensualidade. Tal como a Marmite, José Sócrates é aquele tipo de figura pública que ou adoramos ou detestamos sem deixar margem para qualquer meio-termo. 

Embora considere que ele cometeu alguns erros durante o seu mandato, também reconheço que fez muitas coisas boas. Considero-me uma pessoa bem informada com uma visão abrangente sobre os comportamentos dos mercados internacionais, das agências de rating, da dívida externa e das minúcias da estratégia política, e por isso compreendo que a culpa sobre o agravamento do défice e sobre a entrada da ajuda financeira externa em Portugal não recai sobre o governo de José Sócrates, mas sim sobre a crise económico-financeira mundial e sobre a instabilidade política que levou à queda do anterior governo, motivada pela ambição desmedida do PSD e de Passos Coelho. Factos esses que o actual governo tem constantemente ignorado e que, infelizmente, a generalidade do público, perpétuo sofredor do síndrome de memória curta, já se esqueceu.

Levanto assim a seguinte questão: Não terá esta petição uma mãozinha do actual governo? Quererão eles atirar areia para os olhos do público, aproveitando-se de um ódio irracional contra o anterior Primeiro-Ministro? Por incrível que pareça, até o Miguel de Sousa Tavares concorda comigo neste ponto, tendo levantado estas mesmas questões há dias na TVI. 

Não deixa de ser coincidência que todo este alarido em volta de José Sócrates surja na mesma altura em que se discute a constitucionalidade do actual Orçamento de Estado. Altura em que o PS lançou uma Moção de Censura com o objectivo de derrubar o actual governo. E altura em que o próprio Passos Coelho foi alegadamente ouvido a afirmar que se demitia se o actual orçamento não fosse aprovado pelo Tribunal Constitucional. Um jogo de bastidores típico de manobras de diversão à la Hollywood. 

Porquê levantar tanta contestação contra o comentário político de José Sócrates quando temos o Pacheco Pereira na SIC Notícias com um programa próprio em que ele fala sozinho para a câmara durante meia hora. Ou quando o Marcelo Rebelo de Sousa, que chegou a ser falado como candidato a primeiro-ministro, anda a saltar de canal em canal a comentar a actualidade, alimentando os seus bolsos com a sua carreira televisiva, praticamente pondo de parte a sua faceta política. Tudo bem que nenhum destes senhores se encontra actualmente numa estação pública de televisão, nem tão pouco tiveram eles a influência ou o poder de decisão de José Sócrates no passado recente da vida política portuguesa. Mas precisamente por isso, porque devemos então sentirmo-nos ameaçados por ele ir para a RTP comentar a actualidade política? Se existe alguém que tem capacidade para isso é um antigo Primeiro-Ministro.

Deixemo-nos de demagogias, afinal, não é a RTP o canal que ninguém vê e que apenas existe para saquear os bolsos dos contribuintes? Porque se preocupam tanto com os seus conteúdos? Não gostam de José Sócrates? Sabem que existem mais três canais por onde escolher? As pessoas que têm um serviço de televisão por cabo até têm mais de cem. E quem vê televisão hoje em dia, quando há tão pouco tempo para navegar na internet e conviver com os amigos do facebook?

Há assuntos mais importantes com os quais se preocuparem que não o comentário de José Sócrates. Se não gostam dele, não vejam. Se têm medo que ele traga à tona alguns factos que o actual governo tem andado a esconder, deixem-no ser ouvido. 

No dia em que permitirmos que alguém seja calado pela mera vontade de um grupo irracional e desinformado, ou que esse mesmo grupo seja impedido de se pronunciar, é o dia em que a democracia morre.

Friday, July 18, 2008

Liberdade de Expressão?

Não pude deixar de ficar algo surpreendido com os recentes processos judiciais impostas a dois blogues por difamação. Embora compreenda que se deva procurar salvaguardar o bom nome de cada um, e evitar ao máximo fazer acusações sem provas e fundamentos legítimos, a verdade é que em ambos os casos tratavam-se de dois blogues criados por cidadãos anónimos que se limitavam a prestar as suas opiniões.

Se alguém quisesse acreditar nas suas alegações estaria livre de o fazer, já que até prova em contrário, a liberdade de expressão, e de criação de convicções próprias, são direitos fundamentais da sociedade em que vivemos.

Será que perdemos o direito a expressar o nosso desagrado sobre certas situações com as quais nos deparamos no dia-a-dia? Sou Vareiro desde pequeno, e há muita coisa que gosto na minha cidade. Contudo, existem algumas situações com as quais não concordo e, até ao dia de hoje, ainda não compreendo o porquê de as terem feito.

Os leitores assíduos deste blogue sabem bem que fora uma eventual crónica satírica, até ao dia de hoje não critiquei qualquer decisão relativa à minha cidade. No entanto, agora começo a levantar a questão: Se tal dia chegar, poderei fazê-lo? Depois de ver o que se sucedeu com o blogue Póveiro receio pela manutenção da liberdade de expressão dos bloguers e pela integridade do meu próprio blogue.

Estará alguém a investigar todas as minhas acções online? Se deslizar um pouco e me apetecer dizer umas verdades, que precisarem de ser ditas, vou acabar por ser forçado a renunciar este sítio, e a comparecer em tribunal por simplesmente dizer o que me vai na cabeça?

Posso não ter vivido o 25 de Abril de 74, mas situações como esta fazem-me questionar se quem está no poder já se esqueceu do significado desse dia. É muito fácil ficar quieto e não fazer nada, e deixar as coisas tomarem o seu rumo. Mas é preciso coragem para vir cá para fora denunciar aquilo que está errado com o nosso próprio microcosmos.

Aplaudo as iniciativas dos blogues da Póvoa do Varzim, e espero que o juiz que os vai julgar tenha o bom senso de se apoiar nos direitos fundamentais, e que permita que um dia esses colegas da blogosfera voltem ao activo, e continuem a denunciar o que está incorrecto. Como diria o antigo cântico revolucionário: o Povo Unido jamais será vencido!