Thursday, March 12, 2015

Nova Mensagem

Imagem DR
If I like a moment, for me, personally, I don't like to have the distraction of the camera. I just want to stay in it.
The Secret Life of Walter Mitty

Olham para baixo, presos a um ecrã de cinco polegadas, enquanto o dia corre para mais uma conclusão, e o resto do Mundo é ignorado na sua perpétua e invisível rotina. Ao longo do ano, mas em especial em Dezembro, as nossas páginas e linhas do tempo, são inundadas por fotos de jantares. Sejam eles entre amigos, ou colegas de trabalho, não é difícil encontrar algo de errado com essas fotos. Há sempre alguém constantemente agarrado ao telemóvel. A olhar para baixo. A escrever. A fotografar alguma coisa.

Embora isto nem sempre aconteça, não é invulgar encontrar fotos onde a grande maioria das pessoas não é capaz de gastar um segundo do seu tempo para largar o telemóvel. E quando este, de alguma forma, deixa escapar o seu encanto sobre o seu dono, em vez de acabar no bolso, mantém-se ali, em cima da mesa, qual guardanapo, à espera de ser usado.

O simples facto de um jantar entre conhecidos, ser alvo de mil e uma fotos partilháveis, já diz muito do seu baixo valor como espaço de convívio. Embora certos momentos valham a pena ser imortalizados, é desnecessário documentar cada segundo de um qualquer jantar, com constantes cliques, flashes, falsos sorrisos, e tempo perdido a olhar para um vazio de uma objectiva digital, com ligação directa a um qualquer mural.

Que memórias retemos dos jantares que partilhamos? Somos capazes de enumerar cada uma das pessoas que nos acompanhou? E as expressões daqueles com quem falamos?

Nunca fui adepto da ideia de estar sempre online. De estar disponível para ser contactado a qualquer hora. Ou de perpetuar conversas banais ao longo do tempo. Gosto de falar apenas quando há algo para dizer. De partilhar momentos e conversas especiais com alguém, quando estas podem acontecer, e não de dar seguimento a rotineiras trocas de Olás, sem quaisquer propósitos por trás das mesmas.

Não nego a importância das tecnologias de informação. Hoje é tão simples manter o contacto, reduzir distâncias, partilhar notícias, expressar a nossa criatividade, conhecer pessoas, aprender algo novo, e consumir entretenimento gratuito. Mas o preço que pagamos por este comodismo é alto se cairmos numa espiral de comportamentos anti-sociais e de asfixia inter-relacional.

Já houve tempos em que viajar, para mim, significava estar fora de contacto durante a grande maioria da sua duração. Passar uma semana, ou até mesmo um mês, sem falar com alguém próximo com quem não possa conviver pessoalmente de forma regular, era algo natural. Contudo, isto já não acontece.

Embora a minha opinião não tenha mudado, vejo-me hoje forçado a adequar-me às vontades, e às expectativas de comunicação que os outros exigem. Esta realização chocou-me há dias quando, num café entre amigos, um deles chamou-me à atenção por estar a trocar mensagens de cinco em cinco minutos.

Sempre me insurgi contra aquelas pessoas que prestam mais atenção aos seus gadgets do que ao Mundo, ou às pessoas, que os rodeiam. Contudo, de há um ano para cá, que este tornou-se num hábito no qual eu próprio acabo por mergulhar. Há uma profunda hipocrisia que cresce em conflito com os meus ideais e que, para já, me forçou a moderar o meu discurso contra a troca constante de mensagens.

Continuo a valorizar o convívio pessoal, em detrimento do digital, fora nos casos em que, por um motivo, ou outro, o primeiro não é possível. Não perco os momentos ao tentar capturá-los num rectângulo de zeros e uns. Prefiro vivê-los, e apreciar a beleza do que vejo, guardando para alguma pausa a necessidade de os imortalizar.

Tenho saudades de escrever uma carta e de aguardar ansiosamente pela resposta. De acordar com um e-mail e de responder, sabendo que o próximo apenas seguirá amanhã. De perder tempo com uma mensagem. De um longo telefonema. Este é o tipo de comunicação que mais me agrada. Aquela com a qual me identifico, e a que desejava poder praticar mais vezes.

Lembro-me de quando era comum perdermos tempo a ler conversas antigas. A reler mensagens. A rever fotografias. Hoje, é raro isto acontecer.

Momentos que nos passam ao lado, enquanto os nossos olhos se perdem em outra qualquer banalidade. Numa nova mensagem que nos afasta da vida que continua à nossa volta. Longe dos nossos olhos. Longe da nossa atenção.

Tuesday, June 14, 2011

A Rede Desligada

Nos últimos anos raras foram as vezes que, por um motivo ou outro, estive sem acesso à internet por um longo período de tempo. Há cerca de um ano o meu portátil avariou, como na altura não tinha outro computador em casa, nem sequer um smartphone, não tive remédio se não resignar-me ao período de espera para reparação que durou à volta de um mês.

Infelizmente, limitar-me a ficar desligado não é um luxo com o qual me possa deleitar. Era Março e o segundo semestre tinha apenas começado. Não fosse por algumas propostas de projectos e pouco ou nada havia para fazer. Pedi ajuda a um amigo para me deixar ir a sua casa usar a internet para responder a alguns e-mails, e para enviar as propostas. Como fazia isto cerca de duas vezes por semana não posso dizer que estive completamente “desligado” durante esse tempo.

Na ausência de um computador, agravando a isto o facto de estar doente, encontrei algum reconforto na televisão. Descobri algumas séries novas e revi outras que há muito tinha deixado de ver. Permaneci atento ao telejornal, praticamente o único programa televisivo que acompanho diariamente quando não tenho qualquer problema em aceder à internet, portanto, não estava mesmo nada desligado, talvez apenas um pouco fora do alcance daqueles que não tivessem o meu número de telefone.

Em 2013, talvez não seja assim. Segundo este artigo, a frequência de explosões solares vai aumentar a um nível que já não é visto desde 1859. Na altura as comunicações por via de telégrafo foram gravemente afectadas ao ponto de serem necessários longos meses até estas voltarem a funcionar.

Isto foi no século XIX onde, em comparação com a tecnologia de hoje em dia, éramos bem mais primitivos. Em 2013, se o pior cenário se vier a realizar, podemos estar perante um verdadeiro “switch off” à escala global. Não ficaremos apenas sem internet, mas os computadores, telemóveis, televisores, electrodomésticos e carros podem irremediavelmente deixar de funcionar.

Todo e qualquer aparelho maioritariamente electrónico corre sérios riscos de ficar inutilizado devido à alta intensidade de radiação solar que vai passar pelo nosso planeta, aliada aos eventuais pulsos electromagnéticos, conhecidos por serem capazes de deixar uma grande cidade às escuras em meros segundos.

Sem querer soar como um profeta do apocalipse, a verdade é que a possibilidade deste evento acontecer é algo que nos devia preocupar. Nos cenários mais optimistas, talvez apenas acabemos por sofrer algumas quebras de energia sem que delas surjam grandes complicações. Contudo, é importante olhar para nós próprios e reflectir sobre como seremos capazes de “sobreviver” sem estarmos constantemente ligados à rede.

O Mundo iria literalmente parar e, durante alguns meses, teríamos que nos reabituar a viver sem o auxílio da tecnologia. Os contactos teriam que ser feitos pessoalmente, por escrito, ou através de telefones fixos, a rádio iria substituir a internet como a principal fonte de informação imediata, a televisão teria que regressar ao analógico, os pagamentos teriam que ser sempre feitos em dinheiro e muitos carros e transportes públicos deixariam de funcionar. Outros problemas a nível do funcionamento dos serviços de saúde, registos bancários, e de comunicação com os serviços de segurança e de emergência, também marcariam esta nova sociedade inadaptada a uma vida mais “real”.

Estaremos assim tão dependentes da tecnologia que o único resultado de um switch off não programado seria o pânico geral? Gostava de acreditar que não, mas a verdade é que tudo aponta em contrário. Mas talvez nem tudo seja negativo. A falta de internet e televisão poderá incentivar as pessoas a ler e a sair de casa, a enriquecerem-se cultural e intelectualmente após se verem livres da constante amálgama de informação indecifrável que a cada segundo estes meios lhes tentam impingir.

A verdadeira ameaça, contudo, não se prende pela falta de comunicação, mas sim no risco de perdermos a nossa memória digital. Ficheiros, documentos, blogues e sites, todos arriscam-se a ser apagados se os discos e servidores onde se encontram sofrerem mazelas irreparáveis.

Todo o arquivo deste blogue encontra-se em formato digital, assim como a maioria do meu portfólio académico e profissional. Todo o conteúdo ao qual nos últimos anos dedicámos horas, dias e meses para criar poderá desaparecer em meros segundos com pouca ou nenhuma prova da sua existência. Torna-se assim importante proteger o nosso arquivo digital e, quiçá, manter algumas cópias analógicas desse mesmo arquivo.

O tempo dirá até que ponto estamos prontos para retroceder no nosso avanço digital. Até lá, como já diziam os antigos “desligados”, a prudência é mãe da segurança.

Thursday, September 16, 2010

À Margem da Tecnologia

Por vezes pareço ter um dom especial para tomar as decisões erradas nos piores momentos. Pelo menos no que toca ao investimento tecnológico, esse dom tem sido bastante evidente. Cépticos? Bom, nesse caso resta-me apenas enumerar os argumentos que fazem disto regra, e nada melhor do que começar pelo início.

Em meados da década de 90 – diria 1996, mas não tenho a certeza do ano exacto – comprei o meu primeiro computador, um Pentium 100. Na altura optei por não apostar na internet, por ainda ser pouco usada e não ter uma distribuição significativa em Portugal. Talvez esta decisão não tivesse sido assim tão disparatada, apesar de hoje em dia ser impensável adquirir um computador sem ligação à net, na altura a realidade era bem diferente. Contudo, passei ao lado de um bom investimento que me colocaria à frente do meu tempo e acabei por optar pela escolha mais segura.

Poucos anos passaram até que o meu velho Pentium 100 ficasse obsoleto. Ter um computador incapaz de ligar à afamada auto-estrada da informação era a mesma coisa que ter um enorme pisa-papéis que nem sequer era bonito o suficiente para servir de adorno. É em meados de 2000 que passo ao lado de mais um grande investimento. O meu segundo computador, um Pentium 4 com 10 gigabytes de Memória e 128 Mb de RAM, já veio equipado com um modem e portas USB, também elas novidade na altura, mas quando questionado se queria incluir um leitor de DVD, decidi que não valia o esforço extra, visto que os DVDs ainda não eram muito usados e “apenas serviam para ver filmes”. Sim, foram estas as palavras exactas do rapaz que me atendeu na loja onde fui encomendar o meu PC.

Os anos passaram, no entretanto investi num gravador de CDs, num modem externo de banda larga – na verdade foram dois, mas isso agora também não interessa –, aumentei a RAM para 256 Mb e instalei um segundo disco interno de 20 Gb. Ainda comprei uma placa de rede mas nunca fui a tempo de a pôr a funcionar visto que o sistema de alimentação avariou e um familiar que se dispôs a repará-lo, limitou-se a deitá-lo para o lixo, tornando o CPU completamente inútil. Não fosse por isso e ainda hoje estaria a funcionar.

Na altura já tinha comprado o meu terceiro computador, que ainda hoje uso. Setembro de 2006 foi o mês em que ele chegou. Tinha acabado de entrar na Universidade e como acontece com a grande maioria dos estudantes os meus pais ofereceram-me um portátil. Um Asus com 120 Gb de memória, 1024 Mb de RAM e um processador Intel Centrino Duo com 1,73 GHz. Veio equipado com placa Wireless, placa de vídeo com ligações Firewire e S-Video que até hoje não tive necessidade de utilizar – ou melhor, quando tive necessidade, acabaram por se mostrar inúteis para a tarefa em questão – , até veio com um microfone incorporado que também nunca usei por ser perfeitamente inútil visto que só capta bem a voz se falarmos directamente para ele.

“Mas então onde está o problema? Parece-me bem equipado mesmo para os requisitos de hoje”, dizem vós. De certa forma o vosso raciocínio não está errado, mas o meu portátil falha em dois aspectos que são hoje tomados como garantidos, não possui ligação por bluetooth, o que me forçou a comprar uma drive de bluetooth de forma a poder transferir as fotografias do meu telemóvel para o portátil, e veio sem uma webcam incorporada, não que eu tivesse grande interesse em usá-la, até porque o portátil já veio com uma webcam externa que serviu bem nas situações em que a tive de usar, mas é uma componente presente em praticamente todos os portáteis vendidos hoje em dia.

Desta vez a culpa recai totalmente sobre a minha simples ignorância. Na altura ainda não compreendia o que o bluetooth realmente significava e pensava veemente que o meu portátil já vinha com ele incorporado na altura em que o comprei. Para a próxima é melhor prestar mais atenção às especificações.

É mesmo esse o motivo que dá hoje origem a este artigo. Após quatro anos de desempenho razoável, em que posso apenas apontar dois momentos de falha épica – a primeira no ano passado quando me vi forçado a formatar o portátil após um ataque de vírus massivo, e a segunda no início deste ano em que o ecrã deixou de funcionar e optei por o trocar por um novo, investimento esse que me custou quase 350 euros –, está na altura de trocar de computador. Até porque a minha formação académica e profissional implicam a necessidade de uma máquina bem mais actual e potente.

Mais uma vez vejo-me com um dilema. Apostar num bom computador um pouco acima da média daqueles hoje disponíveis para venda, ou então fazer um esforço extra para adquirir um portátil com leitor de Blu-ray e um ecrã 3D – de salientar que a tecnologia 3D em portáteis ainda está numa fase experimental e as opiniões que encontro online dizem que por enquanto não vale a pena o investimento (talvez um dia me venha a rir disto).

A questão é simples, estarei novamente a investir num computador no momento precisamente anterior a uma nova evolução das tecnologias informáticas, ou será que à quarta é que é de vez e este acabe por ser o timing exacto para esta aquisição.

Até Janeiro manter-me-ei atento ao mercado e daqui a quatro ou cinco anos, quando voltar a trocar de equipamento, serei então capaz de confirmar ou de desmentir aquilo que até hoje tem sido regra.