Tuesday, May 28, 2013

A última vez que bebi Ucal

Campanha publicitária da Parmalat
4 de Julho de 2007. Era de madrugada e estava a recuperar de uma noite dividida entre o recinto do festival Super Bock Super Rock e o chão da Gare do Oriente. Ainda faltava algum tempo para o comboio mas a fome já apertava. Devia passar pouco das sete da manhã. A única coisa que estava aberta era o Modelo 24 no ventoso andar de baixo. Alguns jornais já tinham chegado, mas fora isso a prateleira de imprensa estava praticamente vazia.

Fui a Lisboa com um grupo de colegas da faculdade para ver os concertos do dia anterior. O cartaz era um dos melhores que já tinha visto. O dia 3 de Julho completava-se com Arcade Fire, Bloc Party , The Magic Numbers, Klaxons, The Gift, Bunnyranch e Y?. Passámos grande parte da tarde e a noite inteira na primeira fila, apenas com pausa para jantar durante o concerto dos The Gift. Após tantas horas de pé só queria poder deitar-me numa cama confortável repleta de quentes cobertores.

Tal ainda estava a algumas horas de distância quando decidimos entrar no Modelo 24 para tomar o pequeno-almoço. Não me lembro do que comi, talvez um donut, um lanche, ou um outro bolo qualquer. Mas lembro-me que bebi um Ucal. Talvez essa memória também se teria perdido não fosse esse o último Ucal que eu voltaria alguma vez a beber.

Nunca tive o hábito de beber leite com chocolate. Todas as manhãs, quase como ritual, comia um prato de cereais ao pequeno-almoço. Na maioria das vezes as minhas escolhas recaíam sobre Chocapic, Nesquik ou Crunch. Daí não ter necessidade de acompanhar com leite achocolatado o leite que, pelos cereais que o acompanhavam, já por si o era.

Raras foram as vezes em que bebi Ucal. Aquecido, natural ou fresco. Adorava esse pedaço de céu engarrafado. Contudo, tal como a Nutella, apenas o bebia em certas e determinadas situações. Como quem diz, sempre que uma oportunidade surgia, mas, infelizmente, era difícil tal acontecer.

Passados três anos, em Março de 2010, descobri que era intolerante à lactose. Uma condição muitas vezes alvo de gozo pelos comediantes devido a algumas das suas consequências fisiológicas. 

Ao contrário das alergias, embora as intolerâncias impliquem uma forte má disposição do meu sistema digestivo, podendo resultar em irritações ou até mesmo em úlceras, posso continuar a consumir alguns produtos lácteos desde que o faça pontualmente e com extrema moderação.

Infelizmente esta minha descoberta não se deu por acaso. Esta condição aliada ao stress, maus hábitos alimentares e horários desregulados, obrigou-me a passar umas duas semanas de cama e a tomar uns quantos comprimidos durante pelo menos dois meses. Perdi sete quilos e passei por um dos períodos de maiores dores que alguma vez tive.

Desde então, deixei de consumir produtos fortes em lactose. Leite, manteiga, iogurtes, queijo e natas. É espantosa a quantidade de produtos que contém derivados de leite. Não são apenas os bolos e as bolachas mas também os gelados, os pudins e as gomas. Até mesmo a Nutella tem vestígios de lactose.

Motivado pela minha paixão por francesinhas e pela minha missão de encontrar a melhor francesinha fora do Porto, a cada dois ou três meses arrisco-me a comer uma. Evito comer o queijo, embora lá dê uma trinca ou outra.

Também não deixei de comer bolos, se bem que, sempre que possível, tento evitar usar leite ou manteiga na sua confecção. Substituí a manteiga pela planta e o leite pelo leite de soja, ou, como já me corrigiram, pela bebida de soja. Pelo menos assim terei que dizer até ao dia em que descubra um método de ordenhar a soja.

Costumava beber um iogurte todos os dias depois do almoço. Agora já não o faço. Como sempre um kiwi, uma tangerina ou uma maçã. Gelados, de longe a longe e apenas no Verão. Até o Bacalhau com Natas já não faz parte da minha ementa. A menos que estejamos a falar do famoso Bacalhau com Natas do Paulo cujo ingrediente secreto é o facto deste se esquecer das natas.

Já a Nutella não consigo deixar, ou não fosse eu doido por ela. Mas apenas a como na Primavera ou no Verão. A minha casa não tem aquecimento central portanto, durante o Inverno, é impossível manter a Nutella no seu estado cremoso. Podia comer Nutella dura? Podia, mas não é a mesma coisa.

Sou intolerante à lactose e não toco num copo de Ucal há quase seis anos.

Após o pequeno-almoço apanhámos o inter-cidades para o Porto. Saí em Espinho enquanto os meus colegas seguiram viagem. Até nisso tive o azar deste comboio não parar em Ovar. Do resto do dia, de pouco ou nada me lembro. Cheguei a casa, deitei-me, adormeci e eventualmente acordei.

Uma viagem de regresso como qualquer outra, num dia que, para além das memórias da grande noite de concertos, ficou para a História como a última vez que bebi Ucal.

Monday, February 23, 2009

Doido Por Nutella

Foto DR
É deveras triste, se não mesmo frustrante, sermos privados das coisas que mais gostamos, mesmo que estas sejam prazeres recentemente descobertos. É raro da minha parte invejar algo que outros possam ter e eu não, mas neste caso não me posso conter. O sentimento de injustiça fala mais alto do que a razão, e quando o paladar teima em entrar ao barulho, nada posso fazer se não ceder aos seus desejos. Bom, na verdade não é bem assim, já que por mais forte que seja a sua vontade, não há forma alguma de eu lhe concretizar este desejo, pelo menos, não por enquanto.

Foi apenas no Verão passado que devido à minha velha curiosidade em provar manteiga de amendoim, trouxe do Continente um jarro de Nutella. Certamente, sentem-se agora algo confusos, a pensar se me terei enganado ou se de facto a Nutella é manteiga de amendoim e não uma mistura de avelãs com chocolate. Tudo ficará claro a seu tempo.

Na minha visita anterior ao já referido hipermercado, trouxe um jarro de manteiga de amendoim e pão fatiado para ter algo no qual a barrar. Mal cheguei a casa, nem dei tempo para arrumar as coisas, abri o jarro e barrei manteiga de amendoim em duas fatias de pão, as quais uni numa sandes, que comi dolorosamente.

Dolorosamente, pois a manteiga de amendoim acabou por ser uma verdadeira desilusão. Esperava algo mais doce e não tão salgado. Mas, sendo salgado, que o fosse mesmo e não tão doce como é. Recorri à Internet e a pessoas já experientes na arte de comer manteiga de amendoim para descobrir alguma forma de a tornar numa experiência agradável, e de justificar os dois euros mais alguns trocos investidos no dito jarro.

Rapidamente descobri os erros presentes no meu processo de barrar a manteiga de amendoim no pão. Erro número 1: nunca usar demasiada manteiga de amendoim, pois esta em grandes quantidades pode ser enjoativa. Erro número 2: barrar algum tipo de geleia juntamente com a manteiga de amendoim. Talvez agora comecem a perceber onde eu queria chegar com a afirmação inicial que me obrigou a desviar tanto do tema que neste momento terei deixado o caro leitor com mais dúvidas do que propriamente respostas. Boas coisas vêm a quem espera.

Na já referida ida ao Continente, fui novamente à zona das compotas e geleias procurar alguma que pudesse dar outro sabor à manteiga de amendoim que ainda hoje descansa num armário da cozinha a definhar sem qualquer uso. Apesar da já habitual compota de amoras silvestres me piscar o olho, desmotivado por a ter que partilhar com aquela coisa salgada que não é salgada de tão doce que é, desviei o olhar da prateleira das compotas e observei o corredor que me rodeava.

Os meus olhos cansavam-me de tanto verde e preto, intercalados pelo ocasional cor de laranja, numa exposição de cores monótonas. Mas tal sensação não durou muito tempo. Os meus olhos acabaram por repousar sobre uma jarra de Nutella. Nunca tinha provado, mas tinha bom aspecto. Na minha infância era grande fã de Tulicreme, mas mesmo isso era raro provar. Na onda de experimentar coisas novas que assolava as já habituais idas às compras, decidi experimentar a Nutella, em vez da compota.

Quem sabe, talvez Nutella seja bom com manteiga de amendoim. Ainda não fiz tal experiência, mas também de momento não me é possível fazê-lo. Com ou sem manteiga de amendoim a verdade é que adorei Nutella e não mais fui capaz de esquecer aquele sabor que não desvanece do meu paladar desde o momento que comecei a escrever este texto.

A verdade é que invejo aqueles que podem hoje saborear Nutella, pois eu não posso. Há algo que pouca gente sabe sobre a Nutella, e que nem sequer vem como aviso na embalagem. A Nutella não se aguenta no estado líquido durante o Inverno. Sim, é verdade, se a temperatura é menor que dez graus a Nutella solidifica e fica impossível de barrar, já para não falar que o próprio sabor deixa de ser o mesmo.

É da minha opinião que tal como o Ferrero Rocher, que deixa de ser vendido no Verão pois o calor estraga o seu chocolate, a Nutella devia ter pelo menos um aviso de que não se conserva no estado líquido durante o Inverno. Também é verdade que este problema não acontece com todos aqueles que a compram durante o Inverno, daí a inveja que não consigo dissipar.

Pessoas com aquecimento central ou algum método de manter as casas quentes durante o Inverno, sem ser através de aquecedores que pouco mais aquecem que uma pequena área ao seu redor, podem usufruir do sabor da Nutella durante esta altura.

Como em minha casa não há nenhuma dessas acomodações, tenho que esperar até à Primavera para poder, de novo, saborear a doce Nutella. Não me preocupo com as frieiras, não quero saber da dura batalha que é deitar-me sempre que alguém se esquece de ligar o aquecedor do meu quarto, ou de enrolar o pijama nele como deve ser.

Nada disso importa. Apenas quero voltar a sentir o prazer de duas fatias de pão recheadas com aquele creme sedoso de avelãs e chocolate. Perdoem-me, mas até o tempo aquecer o suficiente, irei odiar todos aqueles que a podem ter nestes meses em que nada mais posso fazer, que sonhar com o dia em que haverá Nutella para barrar.