Friday, January 06, 2012

1979

Certas músicas contam uma história para cada um de nós. Uma história que vai muito além da sua letra ou da sua melodia. Associamos músicas a momentos, seja pelas memórias que nos trazem quando as ouvimos, seja por terem começado a tocar naquele preciso instante. Faixas aleatórias passam a ser inesquecíveis, tornando-se parte da nossa própria história, acompanhando-nos de perto para o resto das nossas vidas.

Verão de 2003, na altura tinha quinze anos e não estava com muito sono. Já passava da meia-noite quando, após ter desligado o PC, decidi ficar pela sala a ver televisão. Os meus pais já estavam a dormir portanto mantive o volume baixo. Vi um filme qualquer que terminou por volta das duas da manhã e comecei a fazer zapping pelo Discovery Channel e o Odisseia, parando por vezes no Sol Música quando não encontrava nada de jeito para ver.

As horas iam passando e pouca ou nenhuma vontade tinha de me deitar. Fui buscar a minha cassete do Em Busca do Vale Encantado e comecei a ver. Terminou pouco antes das cinco da manhã. O Canal Panda ainda não tinha dado início à edição do dia seguinte.

Por volta das seis da manhã já conseguia ver um simples vislumbre da aurora pela janela da sala. Nunca tinha visto o dia nascer, pelo menos não desta forma. Continuei a fazer zapping e parei na MTV, após alguns videoclips, começou a tocar a 1979 dos Smashing Pumpkins, nunca a tinha ouvido antes mas conseguiu captar a minha atenção no imediato. Não consegui apanhar o nome da música nas legendas por isso tentei decorar alguma parte da letra para poder procurá-la na manhã seguinte. Os esforços foram em vão. Quando a manhã enfim chegou já me tinha esquecido por completo da letra. Tinha apenas a melodia para me guiar.

Fiquei à janela a ver o sol nascer com a MTV ou o VH1 a tocarem no fundo. A minha mãe acordou por volta das sete da manhã para ir trabalhar. Quando me viu na sala a ver televisão perguntou-me porque tinha acordado tão cedo. Embora tivesse levado alto raspanete por ainda não ter ido para a cama, deixei-me ficar por ali. Não me lembro o que fiz durante o dia, apenas me lembro de ter perdido a consciência por volta das seis da tarde depois de me sentar no sofá por alguns segundos. Quando acordei eram quase sete, cheguei a estar perto de 36 horas acordado. Até hoje, não sei bem porque o fiz, talvez quisesse testar os meus limites, talvez estivesse apenas aborrecido.

Dessa noite o único episódio memorável acabou por ser o videoclip da 1979. Foram precisos cinco anos para encontrar a música, quando, por mero acaso, ouvi-a a tocar na rádio. Desta vez anotei algumas frases numa mensagem do meu velho telemóvel e encontrei-a com alguma facilidade após uma pesquisa pela letra no Google.

As memórias daquele nascer do sol vão para sempre ficar ligadas a esta música e ao videoclip que a acompanha. Momentos improváveis de pouco significado que permanecem assim guardados nos nossos pensamentos, apenas porque numa simples noite de Verão não me apeteceu ir dormir.

Tuesday, July 22, 2008

Insónias

Há alguns verões atrás – era eu muito novo para me lembrar da data ao certo – sem motivo aparente, comecei a ver televisão por volta das dez da noite, e só me levantei para ir dormir já o dia tinha nascido, e os meus pais acordado para ir trabalhar.

Não tinha insónias. Não estava cansado. Até tinha um pouco de sono, mas a verdade, e por razões que até hoje me escapam, é que mantive-me acordado até de manhã a ver televisão sem qualquer vontade de desligar e ir para a cama.

Lembro-me de poucas coisas dessa noite. Lembro-me que na RTP 2 estava a dar o The Good, the Bad and the Ugly. Lembro-me que acabou por volta das duas, e que a uma certa hora todos os canais do meu zapping regular estavam ou sem emissão, ou a dar televendas. Mas mesmo nessa hora não desisti. Fui buscar uma cassete e pus o vídeo a dar – meu Deus, devia ter sido mesmo há muito tempo, não tenho memória do velho vídeo funcionar.

A memória mais nítida, e que até hoje me atormentou, foi já depois do nascer do Sol – evento que presenciei pela primeira vez nessa manhã. Eram cinco da manhã e alguns canais já começavam a emitir. Liguei o VH1 para ouvir alguma música.

Não me lembro dos videoclips que passaram, excepto um que só voltei a rever hoje. Era um vídeo dos Smashing Pumpkins, a música era minha conhecida, mas no dia seguinte já não me lembrava nem da letra, nem da sonoridade, apenas me lembrava de ver o vocalista a cantar, sentado no assento traseiro de um carro.

Os anos passaram. Pesquisei várias vezes na internet, sempre que me lembrava do ocorrido. Até falei com alguns amigos fãs da banda, mas ninguém me foi capaz de dizer qual era a música. Hoje, já vários anos depois de ver o vídeo pela primeira vez, estava a fazer zapping quando passei pela SIC Radical, e lá estava ele. O mesmo que tinha visto na sala da casa da minha avó há tanto tempo atrás.

Fiquei perplexo pela música que era. Não podia acreditar que era esta, logo uma das mais famosas deles. Reconheci de imediato a melodia de tanto a ouvir naquelas viagens de carro sintonizadas na RFM. Esperei até ao fim do vídeo, e lá surgiu a resposta que há muito esperava, a música era a 1979. Se já forem cinco da manhã quando lerem esta entrada, deixem-se vislumbrar pelo nascer do Sol e quando ele já estiver lá no alto, vejam este videoclip.