Tuesday, December 15, 2015

Do Alto de São João

Mar da Cova da Beira, Foto: Adriano Cerqueira
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

Todas as manhãs atravesso uma pequena vila. Do Alto de São João vejo o quanto da cidade as suas escarpas me permitem. Da varanda da minha cozinha vejo, ao longe, as luzes do estádio invulgarmente acesas. O longínquo parece próximo, e o próximo, bom, o próximo resguarda-se por entre as brumas da noite. De manhã não é assim. Da janela do meu quarto vejo a ponte, as estradas e os carros que as alimentam. Vejo prédios e árvores. Vejo o quanto da cidade as suas paredes me permitem.

De manhã não vejo a cidade. Atravesso-a por momentos enquanto desço até à estrada, mas esta logo desaparece. Por entre vielas esquecidas e mal alcatroadas faço o meu caminho, a pé, sempre a pé. Atravesso uma pequena vila sem nome. Um oásis de pequenas casas e vivendas, com um ou outro apartamento a pontoar o meu caminho. Subo, desço, e volto a subir, por íngremes passeios com pouca ou nenhuma calçada. Dia sim, dia sim, atravesso esta vila. Sempre igual, inalterada pelos planos de uma urbe que a parece ter esquecido.

Achava-a assim, calma e constante, em todas as manhãs do meu caminho. Mero engano. Esta vila também começa, aos poucos, a sofrer alterações. Quando por ali passo não vejo Centros Comerciais, lojas, nem mesmo cafés. Não vejo Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, ou qualquer outro serviço. Conto pelos dedos os carros que se atravessam pelo caminho. E, a partir de um certo ponto, são mais as árvores que as casas que governam a paisagem.

Contudo, este pequeno pedaço de arredores limitados por uma placa quase imperceptível para quem ali passa, começa a sofrer algumas alterações. Assim é de há uns meses para cá. Com o passar dos meses assisti à conclusão de uma obra e ao nascer de outras duas. Uma casa, até então abandonada viu o seu quintal destruído, hoje ocupado por máquinas e cimento. Numa pequena ribanceira onde antes descansavam alguns pinheiros, está hoje a ser construído um prédio. Uma obra improvável para quem antes passava por ali.

Mas o pior estava reservado para esta semana. As árvores que em tempos guardavam a última descida que todas as manhãs faço, foram agora cortadas. Consigo ver para lá do prédio e da estrada que invariavelmente tenho que atravessar. O eucaliptal que se guardava do lado mais distante do caminho é agora visível a vários metros de distância. A terra está despida, o meu percurso é, agora, mais ventoso. A paisagem deixou de ser bela. Deixou de ser natural. O fim do meu passeio pela vila é agora apenas mais uma extensão da cidade que todas as manhãs ignorava.

Há um ano não era assim. Da minha janela via a escarpa da Serra. Uma queda de água. Velhos edifícios resgatados por uma natureza determinada em persistir às acções dos seus esquecidos habitantes. Uma ponte. Um mar de nuvens. O branco da neve, e as luzes nocturnas de uma cidade adormecida.

Todas as manhãs atravessava uma pequena cidade. Sempre com a vista dos extensos vales à minha esquerda. Passava por jardins, por lojas, igrejas, carros e pessoas. Passava pela Câmara, por bancos e outros serviços. Atravessava esta cidade de uma ponta à outra. Também então por subidas e descidas. Estas, bem diferentes daquelas por que hoje passo.

Pouco ou nada vi mudar nas incontáveis vezes que fiz este caminho. Uma ou outra loja abriu e pouco, muito pouco mais. A extensa paisagem manteve-se bela, inalterada, constante. Um fundo fácil de ser tomado como garantido. Fácil para alguns, difícil para mim.

Quão agradável é uma bela paisagem pela manhã. Hoje, o meu caminho apenas me desperta alguma curiosidade sobre a evolução das obras que crescem a cada dia que passa, e algum regozijo pelos carros que se enganam e seguem até uma rua sem saída apenas para voltarem para trás.

Erro induzido por mim, imagino, pois no fim dessa rua encontro uma escada e dois atalhos. Um alcatroado que me dá acesso à estrada e ao percurso mais longo para o meu destino, e outro, mais directo, por entre silvas e terra batida, impossível de atravessar à noite, e mais difícil ainda no Inverno.

Do Alto de São João vejo o quanto do meu caminho os prédios me permitem. Todas as manhãs atravesso uma pequena vila. Uma vila em constante mutação. Da pequena vila vejo quanto da Terra se pode ver no Universo. E, por enquanto, isso é suficiente.

Tuesday, April 01, 2014

Quarenta e Dois

Imagem DR
Quarenta e dois minutos. É o tempo que demora o comboio Intercidades a completar o percurso entre Coimbra e Ovar. Quarenta e dois é também a resposta para o sentido da vida, e para os mistérios do Universo. Isto, se confiarmos no Hitchhiker’s Guide to the Galaxy.

Durante a breve temporada que vivi em Coimbra, fiz esta viagem quase todas as semanas. Quarenta e dois minutos passados a ler, a ouvir música, ou em profunda introspecção.

Coimbra sempre esteve a quarenta e dois minutos de distância, mas, para mim, pareciam ser muitos mais. Aquela cidade foi uma constante ao longo da minha adolescência. Cheguei mesmo a achar-me uma espécie de antípoda de Cesário Verde. Enquanto este ia ao campo para renovar as suas energias, eu usava a cidade de Coimbra com o mesmo propósito.

Foi lá onde vivi a minha primeira paixão, tão fugaz como o pôr-do-sol sob o Mondego. Foi lá também onde construi uma das poucas amizades que tive ao longo daqueles terríveis anos. Amizade essa, também ela efémera, mas que em muito ajudou a definir aquilo que eu queria para a minha vida.

Via Coimbra como uma cidade banhada pelo Sol. Repleta de esperança e de velhos prenúncios de romance. Apesar dos constantes agoiros, sempre a vi como um local optimista. Um ponto de partida para algo.

Em 2009, era lá que sonhava encontrar-me com aquela que até há bem pouco tempo ocupava o meu coração. Era o meio caminho entre Porto e Lisboa. O local certo para o nosso primeiro encontro. Mas assim não aconteceu.

Foi com alguma surpresa, e um leve sentido de ironia, que descobri que esta seria também a minha primeira paragem no mercado de emprego. A minha primeira experiência a viver sozinho, longe de casa.

A perspectiva de ocupar o meu tempo com algo mais que o Mestrado, ganhar experiência, e um salário fixo no fim do mês, calaram o receio que assolava a minha mente. Talvez devesse ter prestado atenção aos meus instintos, mas estava destinado a aprender com os meus próprios erros.

Cedo senti os anticorpos da cidade a expulsar-me. Numa noite de Setembro, tinha regressado do trabalho. Sem nada para comer, decidi ir ao Continente que ficava no fim da rua. Ameaçava chover, mas não tinha guarda-chuva e não havia nada mais perto. Apanhei aquela que apenas posso descrever como a maior molha da minha vida. As pessoas olhavam para mim, completamente ensopado, com estranheza, alguma pena, e uma certa quantidade de gozo.

Esta foi apenas a entrada para uma refeição repleta de intempéries. Da falta de organização da empresa onde trabalhava, a uma chefia incompetente e com falta de visão, sofria de uma pressão constante e sem fundamento. Fazia o melhor que podia, mas o mérito era sempre desprezado.

Um quarto minúsculo e húmido, num apartamento apertado e sem qualquer tipo de convívio com os restantes colegas, não ajudaram à equação. O sistema imunitário da cidade era forte. Eu era um ser estranho e nada bem-vindo.

Fui resiliente e não me conformei. Dei o meu máximo para me valorizar e procurei avidamente por uma oportunidade para sair dali. Demorou algum tempo, mas essa oportunidade acabou por surgir. O Porto voltou a chamar por mim, e acolheu-me de braços abertos.

Saí à pressa de Coimbra. Não olhei para trás. Não dei espaço para despedidas. Nunca fui tão feliz como naquele momento. Coimbra tem mesmo mais encanto na hora da despedida.

Nos últimos anos, lá regressei apenas uma vez para preparar uma entrevista para um episódio do Reacção Espontânea. Foi uma visita breve, com poucos percalços. Infelizmente, não posso dizer o mesmo dos dois dias que lá passei na semana passada.

A chuva, o frio, e o cinzento da nebulosidade, adivinhavam um mau presságio. Aquela Coimbra ensolarada que em tempos me fazia sonhar, já não existia. Hoje, não passa de uma sombra daquilo que em tempos foi.

Essa predisposição negativa, aliada ao cansaço e a algumas expectativas desmedidas que criei sob mim próprio, toldam as memórias dos bons momentos que vivi nestes dias. Acelerei um processo que precisava de calma, de estabilidade, e de um optimismo energético que me esqueci de alimentar. Sufoquei-me sob pressão, e esqueci-me de mim próprio.

A culpa não é da cidade, mas sim das circunstâncias. Estou hoje coberto por uma aura negativa da qual tenho que me livrar. Não culpo Coimbra, mas questiono-me se algum dia voltarei a vê-la com aqueles olhos de esperança e felicidade, que em tempos ajudaram-me a confiar em mim próprio, e a erguer-me das sucessivas quedas que animam o meu caminho.

No livro, seis vezes nove é a pergunta cuja resposta é quarenta e dois. Mas seis vezes nove são cinquenta e quatro, e não quarenta e dois. O verdadeiro sentido da vida, é que esta não faz sentido. O Universo tem erros, buracos, tropeções. Cada um deles uma imperfeição que lhe dá personalidade. Imperfeições que tornam belo o percurso que hoje caminhamos.

Quarenta e dois minutos entre Ovar e Coimbra. Apenas quarenta e dois minutos de uma longa viagem.