Friday, November 13, 2015

Em Busca do Vale Encantado

The Land Before Time
Some things you see with your eyes, others, you see with your heart.

Littlefoot’s Mother, The Land Before Time

São raros os filmes que podemos ter a sorte de ver pela primeira vez em mais que uma única ocasião. Foi assim que começou a minha história com o Em Busca do Vale Encantado. O filme estreou em 1988 nos EUA, o mesmo ano em que nasci, mas apenas chegou a Portugal a 28 de Julho de 1989, mesmo assim, ainda era demasiado cedo para eu ter qualquer ideia ou vontade de o querer ver no cinema.

Tive que esperar mais sete anos por um dia de aulas especial. A minha professora da primária trouxe o filme em VHS para vermos naquela tarde. Não me recordo bem do ano, mas creio que foi em 96. Lembro-me que era uma tarde primaveril, não muito quente, nem muito fria. A minha escola não tinha os melhores meios, a única televisão que tínhamos já era velha, mesmo na altura, e bem pequena. Sentámo-nos todos em U nas cadeiras ou no chão a ver o filme, ou pelo menos a tentar. Na altura não o consegui ver bem. As outras crianças estavam impacientes, queriam brincar ou apenas estar na conversa. Lembro-me de algumas cenas do filme, meros flashes de recordações. Lembro-me do tom sombrio do ataque do Sharptooth, e da mãe do Littlefoot a defender o seu filho. Mas pouco mais.

A verdade é que na primeira vez que vi o Em Busca do Vale Encantado, não lhe prestei qualquer atenção. Meses mais tarde, o filme passou na RTP. Vi-o com a mesma atenção que dava a qualquer desenho-animado que encontrava na televisão, era já a segunda oportunidade que este filme tentava apelar à minha imaginação, mas por um motivo ou outro eu teimava em não ceder.

Foi apenas em Dezembro de 1997 que o vi pela primeira vez, que o vi verdadeiramente pela primeira vez. Nesse mês a RTP preparava-se para estrear na televisão nacional o Jurassic Park. Para comemorar essa data, esse Dezembro foi o mês dos Dinossauros. As semanas que antecederam a estreia do Jurassic Park ficaram marcadas por três filmes do Em Busca do Vale Encantado, todos eles dobrados em Português Europeu. Três versões únicas que nunca foram comercializadas em VHS ou DVD. Na primeira semana mostraram o filme original.

Embora já o tivesse visto duas vezes antes, desta vez fiquei agarrado. Lembro-me de chorar quando a mãe do Littlefoot morreu, da sensação de espanto e de felicidade que me assolou quando o Vale Encantado é revelado para o Littlefoot entre as nuvens no topo da cascata. Lembro-me da montanha russa de sensações que este pequeno filme me fez sentir. Quando terminou estava tão feliz. Sentia-me tão parvo por o não ter conseguido ver nas outras oportunidades que tive. Foi aí que a minha paixão por esta série de filmes começou.

Na semana seguinte mostraram o Em Busca do Vale Encantado III, O Tempo da Grande Partilha. Por algum motivo saltaram o segundo filme. Só o descobri meses mais tarde na biblioteca municipal. O terceiro filme foi durante muitos anos a minha sequela menos preferida. Passava bem sem o ver, muito por causa do primeiro e do segundo, mas mais ainda por causa do IV.

Dias antes da estreia de Jurassic Park, a RTP mostrou o Em Busca do Vale Encantado IV, Viagem através da Neblina. Nessa tarde tive que ir a um evento religioso numa terra longe de Ovar com os meus pais e a minha avó. Deixei então o vídeo a gravar para o poder ver mais tarde, e foi a melhor coisa que podia ter acontecido.

Quando alguém me pergunta qual é o meu filme preferido, a minha resposta é sempre a mesma, o Em Busca do Vale Encantado. Sem hesitações. Contudo, foi o quarto filme, a Viagem através da Neblina que me manteve colado a este franchise. É, até este dia, a minha sequela preferida e rivaliza com o filme original por um lugar especial no meu coração. A versão em Português Europeu é tão perfeita, das melhores dobragens que alguma vez vi. Tenho pena que a nunca tenham comercializado, contudo, graças a esse feliz infortúnio de a ter gravado, ainda hoje tenho comigo, agora em DVD, uma das poucas cópias alguma vez gravadas desta versão.

Não consigo sequer ver a versão em Português do Brasil, e mesmo a original em Inglês fica em segundo plano quando comparada com esta minha cópia do Em Busca do Vale Encantado IV. No ano seguinte consegui gravar também o filme original, já o III não mais voltou a ir para o ar.

A Viagem através pela Neblina é a sequela perfeita. Apresentam Ali, uma Long Neck como o Littlefoot, e a personagem que mistificou a série com a promessa do seu regresso. A cada nova sequela que saía aguardava impacientemente por algum sinal do seu retorno. Contudo, este apenas aconteceu na série de TV que já chegou tarde em 2007. Tarde e de uma forma desapontante, num episódio onde pouca ou nenhuma atenção é dada à personagem.

A minha paixão pelo Em Busca do Vale Encantado tardou a chegar, mas quando finalmente o senti, não mais o larguei.

Este Verão recebi a melhor notícia que nem em sonhos acreditava alguma vez chegar a ouvir. O Em Busca do Vale Encantado XIV estava em produção com estreia marcada para Fevereiro/Março de 2016.

Nove anos depois da última sequela e da série que acabaram com o franchise, o Em Busca do Vale Encantado está de regresso. Littlefoot, Cera, Ducky, Petrie e Spike estão de volta em mais uma nova aventura, após um longo período de ausência.

Voltei a escrever em fóruns e todos os dias procuro por novas informações sobre a data de lançamento do novo filme. O trailer deixou-me ansioso por este reencontro com as personagens que durante tantos anos ocuparam as minhas tardes. Dos meus mais velhos amigos ficcionais, da série de filmes que faz mais parte de mim do que qualquer outra coisa na minha vida.

Sinto-me como quando era criança e via os anúncios do lançamento das novas sequelas no Cartoon Network, e calculava pacientemente o número de meses que estas iriam demorar a chegar a Portugal.

Após tantos anos de ausência o Em Busca do Vale Encantado está de volta e não podia estar mais feliz.

Wednesday, October 07, 2015

Desnecessárias Edições Limitadas

Jurassic World Edição Limitada
“Ó não! A minha vida não vai ficar completa enquanto eu não tiver isso.” Já por diversas vezes sugeri que o Paulo criasse um canal, ou uma espécie de podcast, para que ele pudesse partilhar com o Mundo a sua inigualável forma de narrar eventos da sua vida, e de sumarizar filmes, séries, livros ou jogos. Ele consegue explicar uma receita, ou comentar um evento qualquer de uma forma cómica e exageradamente expressiva, capazes de tornar o episódio mais banal num momento deveras hilariante. Por mais que tente descrever este seu talento, ele é algo que precisa de ser vivido e presenciado em primeira-mão.

Na última sexta-feira, estávamos no Sal & Pimenta, como de costume – este ano ainda não saímos uma única vez no Furadouro, o Verão já passou e as noites já se sentem frias, parece-me que o Paralelo é cada vez mais apenas um velho pedaço de memorabilia de um passado distante dos nossos encontros – e entre uma conversa sobre filmes, perguntei ao Luís se ele já tinha visto a edição especial em Blu-ray do Jurassic World com duas miniaturas do T-Rex e do Indominus Rex em pose de combate. A resposta do Paulo foi imediata, aliás, quase nem me deixou acabar de falar, como sempre, nem deu tempo para o Luís me responder. “Ó não! A minha vida não vai ficar completa enquanto eu não tiver isso” – isto dito naquele seu jeito particular, e num profundo tom de sarcasmo que rivaliza com qualquer sketch dos Monty Python.

Ontem, enquanto explorava a minha necessidade de controlo, encontrei-me a pensar nesse momento. Na verdade, raro é o dia em que não me questiono sobre esta sua exaltação momentânea, desde que ela aconteceu. Tentei arranjar forma de a incluir na minha última crónica, mas simplesmente não era o espaço adequado. “Ó não! A minha vida não vai ficar completa enquanto eu não tiver isso”, é uma expressão que quando lida fora do contexto, pode dar aso a duas possibilidades. A primeira, ou melhor, aquela que é mais natural para mim, pois não só presenciei o momento, como este foi dirigido directamente à minha pessoa, é a mesma que o Paulo quis expressar. Ironia, sarcasmo, chamem-lhe o que quiserem, é uma frase que desvaloriza o objecto e o remete para o profundo abismo das coisas que ignoramos à primeira vista.

A segunda possibilidade é uma interpretação mais literal, de desejo imediato por esse mesmo objecto. Que, confesso, foi a minha reacção quando descobri que este Blu-ray existia. Desde pequeno que sou fã de Jurassic Park. Ainda antes do Em Busca do Vale Encantado me ter desperto a paixão por Dinossauros, e o meu sonho de ser Paleontólogo, já o Jurassic Park ocupava um lugar especial na minha infância e no meu imaginário. Sonhava com Dinossauros, em viajar no tempo, em poder tocá-los e viver entre eles. Em tê-los como animais de estimação, em dar o nome a uma nova espécie, ou em simplesmente admirar a sua beleza e a sua capacidade de nos espantarem com o seu Universo alienígena de um Mundo Perdido na História da Terra.

Ao longo da minha infância coleccionei diversas réplicas de Dinossauros. Tenho o Jurassic Park, o Mundo Perdido e o terceiro filme em DVD e em Blu-ray. Guardo e exponho religiosamente os meus brinquedos do Mundo Perdido, ora no sótão, ora no meu quarto. Mesmo hoje, mal saiu o Jurassic World, comecei a colecionar os seus respectivos sets da Lego, que agora ocupam o espaço dedicado aos meus velhos sets que tantos anos aguardaram por uma nova oportunidade de serem recuperados.

Portanto, não seria de admirar que mal descobri essa edição especial, o meu primeiro pensamento foi, “tenho que ter isto”. O preço é muito pouco convidativo, 80 dólares na Amazon. É uma edição limitada que ainda não está disponível em Portugal, se é que alguma vez chegará a estar. Para já, no site da Fnac não existe qualquer informação sobre esta edição especial, e mesmo o Play.com não a tem à venda.

Posso simplesmente esperar que esta tenha um preço mais aliciante, que surja alguma promoção, ou então aguardar por alguma pechincha de última hora no eBay. Posso até mesmo ignorá-la e comprar apenas o Blu-ray normal, cujo preço não tardará a rondar os dez euros, mais coisa, menos coisa.

Posso fazer isto, e normalmente sempre o faço. Mesmo com o último álbum dos New Order, a minha banda preferida, decidi aguardar para que este tenha um preço mais acessível antes de o comprar. Sei ser paciente, e sei aguardar pelo momento certo para fazer uma compra. Embora hajam algumas excepções a esta regra, não me considero um comprador compulsivo. Contudo, são incontáveis as coisas “desnecessárias” que comprei ao longo dos anos.

Uso a palavra “desnecessárias” entre aspas, pois quando gostamos de algo e podemos tê-lo, seja ele um livro, um CD, um vinil, um DVD, um brinquedo, um pedaço de memorabilia de um filme, ou de uma série, uma peça de roupa que raramente iremos usar, ou outro objecto qualquer, não há mal nenhum em considerar esse investimento como um bem necessário. Construímos pequenos pedaços da nossa identidade com aquilo que compramos, e com aquilo que decidimos mostrar ao Mundo, por mais infantil, abstracto, ou inútil que esse objecto seja.

Sou um coleccionador nato. Não colecciono apenas uma coisa, nem tenho uma obsessão por algo como postais, moedas, selos ou pacotes de açúcar. Colecciono recordações, pedaços da minha infância, da minha vida, das coisas que gosto e que me fazem feliz. Por isso tenho ainda bem estimados todos os meus Power Rangers, Dinossauros, Legos, Cartas Pokémon, Fósseis, Minerais, T-Shirts de Concertos, CDs, DVDs, Vinis, Livros, Cromos, Brinquedos de Caixas de Cereais, Carros de Colecção, Jogos de Tabuleiro, Puzzles, Canecas, Bilhetes de Cinema, Postais, Fotografias, enfim, uma longa lista tão extensa, como interminável.

Algumas destas coisas estão melhor organizadas que outras. Algumas tiveram direito a expositores ou a lugares privilegiados em estantes e outros móveis da minha casa, outros estão guardados em gavetas e caixas, mas todos eles estão ao alcance da minha memória, e facilmente consigo localizá-los sem perder muito tempo.

Não são bens de primeira necessidade. Não. Consigo viver sem eles. A minha vida não seria menos completa se não os tivesse, e a minha carteira estaria bem mais cheia. Mas cada um deles é um momento material das minhas recordações. Cada objecto conta uma história. Cada objecto é único. Uma parte de um todo bem maior que compõe quem eu sou.

Uma vez, em casa do Luís, ele contou-me que gostava muito do seu quarto e que às vezes ficava apenas deitado a olhar para as suas coisas e a pensar como estas diziam tanto sobre ele. O mesmo acontece comigo, não tanto no meu quarto, por falta de espaço, mas no salão do meu sótão. Em poucos minutos, uma pessoa que observe esses dois espaços com o mínimo de atenção é capaz de ficar a conhecer mais sobre mim do que se passasse longas horas em conversa comigo. Especialmente se o Paulo estivesse lá para me interromper constantemente.

A minha vida é bastante completa sem a edição limitada em Blu-ray do Jurassic World. E nada mudará em mim se algum dia a vier a comprar. Contudo, confesso que a quero ter. Apenas porque sim. Porque o T-Rex está bem desenhado, porque a caixa é bonita, e porque o Indominus Rex, embora não me agrade, também se conjuga muito bem com todo o ensemble desta edição limitada.

Todas as coisas que tenho comprei-as porque podia. Não passei fome para as ter. Não deixei de viajar para as ter. Não aceitei um emprego fora da minha área para as ter. E fora aquelas que recebi quando ainda era criança, ou como prenda de aniversário, comprei-as todas com o meu dinheiro. Hoje podia ter um pé-de-meia interessante, talvez, mas não me arrependo do dinheiro que gastei em nenhuma delas. E também, sejamos sinceros, tudo aquilo junto não representa sequer metade daquilo que gasto num ano em renda ou em comida.

No Mundo do Digital eu gosto de ter os meus Livros, os meus CDs, os meus Vinis, os meus DVDs e os meus Blu-rays. Quero ter essa colecção física para um dia a poder partilhar com quem me é próximo e até mesmo, quem sabe, com os meus filhos. Da mesma forma que hoje ouço os vinis do meu pai, e leio os seus livros, um dia quero que os meus filhos façam o mesmo. E ao contrário de tantas histórias de adultos saudosistas pelos seus há muito perdidos brinquedos de infância, desejo preservar os meus para a posteridade, apenas porque sim. O meu pequeno museu pessoal das coisas que mais prazer me deram ao longo da minha vida.

A minha vida é completa não pelas coisas que tenho, mas sim pelas pessoas que amo e que me amam de volta. Tudo o resto são apenas recordações, diários físicos de uma linguagem universal, fácil de decifrar pelo mais atento dos observadores.

Quero muito ter essa edição especial. Mesmo sem ela, a minha vida já é completa. Mas quero muito tê-la. Apenas porque sim.

Thursday, July 16, 2015

Curta Diferença Geracional

Foto DR
A criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os Portugueses, só começamos a ser idiotas - quando chegamos à idade da razão. Em pequenos temos todos uma pontinha de génio.
Eça de Queiroz, Cartas de Inglaterra

Quando pensamos nos velhos tempos da escola primária, lembramo-nos dos tempos passados no recreio. Das amizades que se perderam. Das brincadeiras, das correrias para casa para ver os desenhos-animados, das idas à praia, das visitas de estudo, e da falta de preocupações. De um tempo em que o mais importante era brincar, crescer, e encontrar felicidade nas pequenas coisas do dia-a-dia. No doce que a tua avó te oferecia, no novo brinquedo que recebias, ou na lata que servia de bola nos intervalos.

As calorosas recordações que guardo destes tempos, preenchem o meu coração com um profundo saudosismo e fazem-me sorrir. Lembro-me de ir de comboio à feira de Espinho com a minha avó, e de ela me oferecer um guarda-chuva de chocolate naquela pastelaria da esquina da Rua 19. Dos carrinhos que a minha mãe me trazia do Porto quando chegava tarde do trabalho. De desfilar vestido de Computador de cartão no Carnaval das escolas, de ir à catequese na minha bicicleta verde. De fazer sopas com ervas colhidas na casa da minha tia-avó. De brincar aos Power Rangers com os meus amigos, e ser sempre o azul. Da exposição sobre Dinossauros que ajudei a organizar na minha escola em que todos os meus colegas participaram ao desenhar cada um, um dinossauro diferente. Lembro-me de ver o Dragon Ball, os Popples, os Ursinhos Carinhosos, o Em Busca do Vale Encantado. De não deixar passar um sábado sem gastar as quatro cassetes do Vale Encantado, desde o original até ao quarto. De brincar com dinossauros, legos, carrinhos. De aprender a jogar xadrez. De jogar monopólio com os meus pais. E daquela garagem que recebi no Natal e que parti quando tropecei em cima dela. Enfim, dos momentos felizes que marcaram a minha infância.

Lembro-me que a ideia de crescer sempre foi algo que não me agradou, queria continuar a ser criança, a usar a minha imaginação, e a brincar. Não queria parar de brincar só porque tinha de crescer. No fundo do meu coração desejava ser uma espécie de Peter Pan. Eternamente jovem. Eternamente feliz.

Há uns anos tive uma discussão com uma colega de curso sobre a diferença geracional que existia entre a minha geração, e a das pessoas dois anos mais novas que eu. O argumento dela era que uma diferença geracional não podia ser definida dentro de um espaço de tempo tão curto. Embora de um ponto de vista sociológico me veja forçado a concordar com ela, a verdade é que houve muitas, talvez pequenas, mas muitas diferenças entre as pessoas que nasceram no mesmo ano que eu, e as gerações que se seguiram.

Na minha escola primária nós não frequentávamos o 1.º Ciclo, nem o primeiro, segundo, terceiro ou quartos anos tinham esse nome. Eramos alunos da escola primária, da primeira à quarta classe. Tínhamos um crucifixo por cima do quadro de ardósia, e todas as manhãs, mal a Professora chegava, levantávamo-nos das secretárias e rezávamos uma Avé Maria antes de a aula começar. Quem não fazia o trabalho de casa, ou quem fosse mal comportado, levava uma reguada e ficava sem recreio. Prática que se extinguiu pouco tempo depois de eu ter avançado para o 5.º ano, mas que ainda hoje defendo. Apesar de tudo, quando bem aplicada, um pouco de disciplina apenas ajuda uma criança a crescer, e não o contrário. Nós respeitávamos a nossa Professora, não pelo medo da dor de levar uma reguada, mas pela pessoa em si, e pela forma como nos ensinava as bases responsáveis por sustentar o nosso conhecimento, e o nosso crescimento, como estudantes e como pessoas.

Já nos tempos do liceu, actual secundário, enquanto eu era uma espécie de proto-hipster que gostava de bandas pouco populares e que tiveram o seu auge nos anos 70/80 ou inícios da década de 90, como New Order, Joy Division, Happy Mondays, Sex Pistols, The Doors, The Smiths, Pink Floyd, The Cranberries e Nirvana, a maioria dos meus colegas limitavam-se a seguir a música pop da altura e o hip-hop banal sem qualquer mensagem ou sentido profundo.

Enquanto eu lia Stephen King, Saramago, Pessoa, Arthur Conan Doyle e Oscar Wilde, eles deixavam-se adormecer nas aulas de Português e mostravam pouco interesse pelas experiências literárias que lhes eram ali apresentadas.

Tive o meu primeiro computador aos oito anos, um Pentium 100 sem ligação à Internet. Apenas o usava para brincar com o paint, escrever algumas coisas em Word, e jogar alguns jogos. Nunca fui grande fã de jogos de vídeo. Tive uma Sega Master System II e uma Playstation, mas raramente as usava, sempre preferi jogos de tabuleiro e desportos. Gostava de nadar e de fazer bodyboard, e cheguei mesmo a tentar implementar uma rotina semanal para jogar jogos de tabuleiro com a minha família, mas não pegou. Neste aspecto faltou-me sempre ter amigos mais próximos que pudesse convidar para irem lá a casa, ou um irmão/irmã, que se interessasse por este tipo de coisas.

Tinha 15 anos quando recebi o meu primeiro telemóvel, e mesmo nisso fui algo precoce. Tive que esperar por 2004 para enfim ter ligação à Internet de banda larga. Passei pelos chats do aeiou, pelo mIRC, pelo MSN Messenger, pelo hi5 e pelo MySpace. Aprendi a fazer contas aos escudos e não aos euros, fui à Expo 98, e fiquei admirado como uma exposição em Lisboa podia rivalizar com o tamanho da minha própria cidade.

Enfim, tudo isto, coisas que evoluíram a um ritmo alucinante nas últimas duas décadas e que para quem nasceu dois, três, ou quatro anos mais tarde, já faziam parte da História quando começaram a reconhecer o Mundo que as rodeava. Por não terem passado por isto, por não terem vivido estes momentos, ou por estes não passarem de vagas recordações na mente de uma criança de oito ou seis anos, por tudo isto, é que, para mim, existe uma grande diferença geracional, visivelmente vincada nos comportamentos e na forma de pensar daqueles que nasceram poucos anos depois de mim, mas que não passaram por o mesmo que eu.

Hoje, ser fã de Joy Division é quase um lugar-comum, contudo, no meu tempo era apenas e aqueles que tinham efectivamente vivido a Madchester e a era dourada da Factory Records enquanto esta estava a ocorrer. Para mim, foi preciso esperar pela faculdade para encontrar alguém com gostos musicais, literários e artísticos semelhantes aos meus. Pessoas com uma cultura musical muito mais avançada do que eu podia imaginar para alguém da minha idade, e outros exemplos que facilmente se difundiram nos anos que se seguiram, muito graças à crescente facilidade no acesso à Internet.

Com isto não quero afirmar que a minha geração é melhor que aquelas que se seguiram. Só pretendo vincar esta clara diferença geracional que talvez apenas aqueles que estão do meu lado conseguem ver de forma clara. A verdade é que quem nasceu depois de nós, quem não viveu as mesmas experiências, quem não presenciou a evolução da sociedade e da tecnologia, que nós presenciámos, toma hoje como garantido muitas coisas que nós sempre valorizámos. E isto reflecte-se na forma como encaram a vida, e aqueles que os rodeiam.

Não somos melhores, ou piores. Não existe certo, ou errado. Apenas duas gerações diferentes, semelhantes em certos aspectos, e muito próximas nas idades, mas distintas nos pormenores. Distintas naquilo que, por mais pequeno que seja, faz muita diferença.

Wednesday, September 24, 2014

A Bicicleta Cinzenta

Foto DR
Ainda sinto nas minhas costas o calor daquela tarde de Julho. Era 2005 e estava ansioso para estrear a minha nova bicicleta. Saí de casa pouco depois das duas da tarde. Partia em direcção à Torreira com pouca, para não dizer nenhuma, noção da distância que me separava do meu destino. Lancei-me à estrada com alguma água, mas sem protecção do Sol, e com uma roupa inadequada para este trajecto.

Comprei a minha bicicleta numa superfície comercial que entretanto fechou e voltou a abrir. Na altura, em vez de uma livraria, o espaço era ocupado por uma loja de electrodomésticos. Tinha um pequeno orçamento e estava disposto a poupar o máximo possível. Tinha apenas duas opções, uma bicicleta de montanha básica, cinzenta, e outra em tons de vermelho com suspensões nas rodas da frente e ligeiramente mais cara. Nenhuma das duas era adequada para andar na estrada, mas estava longe de poder investir numa que o fosse.

Acabei por escolher a cinzenta, e usei o dinheiro que me restou para comprar um DVD, uma edição especial de um dos meus filmes preferidos. Aguardei alguns dias antes de fazer a sua viagem inaugural. Podia ter escolhido um trajecto mais simples, e mais curto, mas não o fiz. Podia ter ido à praia, ou apenas passeado pelo centro. Não. Escolhi fazer um percurso de vinte quilómetros, sem qualquer preparação, e durante as horas de pior calor. Era, claramente, um adolescente imprudente.

Até à rotunda que ligava à estrada da Ria, o meu percurso apresentou-se banal e sem qualquer incidente. Ou não o tivesse já feito incontáveis vezes ao longo da minha vida. Mas os cerca de cinco quilómetros que separam aquela rotunda da minha casa, em nada faziam adivinhar o que viria a seguir. Três quartos de um caminho ainda por percorrer, repletos de longas rectas infinitas, com pouca ou nenhuma sombra onde me abrigar, acolhidas por um calor infernal, apenas apaziguado pela ligeira brisa que atravessava as calmas águas da Ria.

A cada pedal que dava, parecia estar mais longe do meu destino. O cansaço não tardou a tomar conta de mim. Foram incontáveis as paragens que fiz, ora para beber água, ora para me abrigar do Sol e do calor que queimava as minhas costas. Lembro-me das dores. Lembro-me do meu respirar ofegante, lembro-me da motivação que me fez continuar até à Torreira, apenas para voltar e repetir de novo, todo o mesmo caminho.

Foi um erro que não voltei a cometer. E uma bicicleta que durante muito tempo permaneceu parada. Nos tempos que se seguiram apenas a usava para me levar até ao liceu, ou para dar alguns passeios, acompanhado por um novo velho CD que ansiava por ouvir. Da garagem, passou para os arrumos abertos do quintal. Durante mais um Inverno húmido e rigoroso, nada a protegeu das intempéries, além do pequeno telhado que a cobria. Reencontrei-a no Verão de 2007, enferrujada e com um pedal que cedo não tardou em se partir. Nada fiz para me livrar da ferrugem, mas troquei a corrente, arranjei o pedal e enchi os pneus.

Nesse, e nos Verões que se seguiram, comecei a viajar de bicicleta com alguns amigos. Saímos cedo de casa, enquanto ainda não estava um calor impeditivo. Escolhíamos um destino e íamos até lá. Fosse pelos lamaçais da Marinha, pelas subidas e matas de São João, ou pela Ria, na mesma estrada onde em 2005 me aventurei. Uma tradição que permaneceu intacta até 2010. Até à nossa última longa viagem entre Ovar e São Jacinto.

Não foi o calor, nem as suas queimaduras. Não foi o pedal partido do Luís, nem a ferida na perna do Paulo depois de eu ter chocado com ele. Não foi o cansaço, nem aquela terrível subida do Calvário que, no regresso, parecia mais alta que a Serra da Estrela. Nem tão pouco foi a falta de vontade, ou de tempo. Simplesmente deixou de acontecer.

Não mais voltei a pegar na minha bicicleta. Com os pneus furados, uma nova camada de ferrugem, e a impossibilidade de trocar de mudanças, ela é hoje nada mais que uma velha recordação, ainda guardada à espera de um local onde possa descansar eternamente.

Há quatro anos que sonho em comprar uma nova. Estando mesmo disposto a investir mais um pouco, para ter uma bicicleta adequada ao uso que lhe quero dar. Contudo, ainda não aconteceu, nem tão pouco o farei durante este Verão. Uma velha tradição que, para já, continua o seu interregno, com data ainda por definir.

Hoje, mais do que nunca, quero muito andar na minha bicicleta.

Monday, July 14, 2014

O Lego Amarelo

Foto DR
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…

Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”

Há dias que acordamos com um profundo sorriso a iluminar a nossa manhã. O sol brilha através da janela, deixamo-nos envolver pelo seu calor, e por uma energia indescritível que nos move para sair da cama. Dias em tudo idênticos a um outro qualquer, mas que nos abraçam por uma onda imparável de optimismo.

O nosso andar ganha um ligeiro toque de dança, a nossa face transpira confiança, e as pessoas com quem nos cruzamos não conseguem deixar de esboçar um sorriso, ou de nos abordar com um alegre “bom dia”.

Para mim, um desses dias aconteceu a nove de Janeiro. Uma quinta-feira como qualquer outra. Talvez movido pelo entusiasmo e pela ansiedade da viagem que ia fazer no dia seguinte. Talvez apenas por se tratar de uma manhã calma banhada por um morno Sol de Inverno. Acordei envolvido por uma forte e constante brisa de energias positivas. Um sentimento reflexo na minha face, e na de todos aqueles que se cruzaram no meu caminho.

Todas as manhãs desloco-me a pé para o trabalho. Um percurso que me demora entre quinze a vinte minutos. Há já alguns meses que comecei a ir pelo caminho mais directo, em constante descida, evitando assim a preguiça de aguardar pelo elevador de Santo André.

Embora o elevador me permita vislumbrar parte da paisagem da Serra, prefiro fazer o outro caminho. Escondido por entre algumas vielas em paralelo, esta rua pouco conhecida e quase inacessível para os carros, é um atalho que me oferece um ligeiro conforto no meu rotineiro destino matinal.

Guardado por um mural pintado com uma representação da cidade, envolto por umas esguias escadas que contornam uma capela em granito, este caminho leva-me pelas traseiras de uma despida Galeria Comercial. Ao lado da mesma, quase no fim da rua, encontro uma escola.

Pelas vozes agudas, pelos cânticos e risos de crianças, que nunca vejo, presumo que se trate de uma Escola Primária, algo camuflada por entre os edifícios desta escarpa. Nessa manhã, não me recordo de ouvir o típico alvoroço das brincadeiras de recreio, nem tão pouco dos alegres desconhecidos que se cruzaram comigo. Mas houve um pequeno pormenor que chamou a minha atenção.

Por entre a rua de paralelos, a brilhar através dos interstícios do granito, estava uma peça de Lego. Um pequeno tijolo amarelo de quatro encaixes. Uma das peças mais comuns que podemos encontrar. Parei para o observar. Estava sujo e um pouco gasto numa das faces, mas fora isso, era perfeito.

Olhei em volta para ver se encontrava a criança a quem aquela peça pertencia, mas estava só naquela viela. Pelo acumular de detritos à sua volta, fiquei com a sensação que este Lego já ali se encontrava há alguns dias. Limpei-o e trouxe-o comigo.

Não me lembro de mais nada sobre o resto do dia. Apenas aquele momento guardo com o máximo de pormenor. Esta quinta-feira, pela simples onda de optimismo que me despertou, tinha já para si reservado um espaço nas minhas memórias. Mas este pequeno pormenor. Este momento que quase me passou ao lado, tivesse eu escolhido ir pelo elevador, fez com que lhe desse o nome do “dia em que encontrei um Lego amarelo”.

Hoje guardo-o no meu quarto, juntamente com outros objectos recheados de simbolismo. São curiosas as coisas que se cruzam no nosso caminho. De tão efémeras passagens, que o mais minúsculo pormenor nos pode desviar do seu encontro.

O anúncio de emprego que encontramos no twitter. As pessoas que conhecemos quando não queríamos sair de casa. Um “olá” dividido por entre umas escadas passageiras. O avião perdido. O encontro adiado. A peça de Lego que encontramos no chão.

Coincidências. Destino. Caos. A beleza do acaso que aprendemos a apreciar quando olhamos à nossa volta, e encaramos o imprevisto que o dia nos tem para oferecer.

Thursday, June 05, 2014

O Quiosque da minha Praça

Quiosque Santa Camarão, Ovar
O que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância.
Eça de Queirós

As cidades são ecossistemas vivos em constante mutação. Evoluem, adaptam-se, crescem, e transformam-se. Adequam-se às necessidades da sua população, e da tecnologia que a sustenta. Moldam a geografia dos seus arredores, e convivem em simbiose com a caótica azáfama do dia-a-dia.

Contudo, este desenvolvimento nem sempre é sinónimo de melhoria. Como acontece com a própria Natureza, também a evolução urbana está repleta de exemplos de tentativas falhadas, de projectos inacabados, de ramos extintos, e de mutações erráticas que provaram ser fatais.

Ao longo da nossa vida, assistimos a diversas mudanças em edifícios e locais que, em tempos, nos pareciam constantes, imutáveis, e eternos. A escola que fechou, o parque infantil que deu lugar a um grupo de condomínios, ou a praça que em tempos verdejante, agora não passa de um largo cinzento.

Para mim, um desses locais é um velho quiosque de madeira que há muito deixou de existir. Lembro-me dos finais de tarde de Primavera com o Sol a brilhar nos raios das rodas da minha bicicleta. Rasgos de calor que envolviam os nossos pés, cansados de um longo dia passado na escola.

Passava por aquele quiosque todos os dias. Sempre à distância, fora o ocasional impulso de comprar cromos, guloseimas, ou se alguma colecção me aliciasse a curiosidade. Mesmo assim, ainda era um dos seus clientes mais assíduos.

As suas janelas não precisavam de estar abertas, o simples facto da sua fundação permanecer ali, dava outra alma àquela praça. Era também ele parte da personalidade daquele local. Um ícone constante do caminho que todos os dias fazia entre a minha casa e a escola.

Infelizmente, também ele foi vítima do tempo. A desculpa podia ser a do costume. Ter um quiosque é um negócio arriscado e muito pouco lucrativo, não seria estranho para ninguém que este acabasse por fechar. Contudo, não foi este o motivo que ditou a sua extinção, mas sim a construção de uma estátua.

Diz-se que é uma espécie de estátua. Na verdade, não passa de um mural dedicado a um pugilista em tempos com fama mundial, que, por acaso, vivia naquela mesma praça. O quiosque foi demolido para dar lugar a essa obra, que peca por ser feia, pela sua degradação, e por não se enquadrar com o espaço que a envolve.

Aquela praça que em tempos era visitada por pessoas desejosas de comprar o seu jornal, é agora um espaço esquecido. Uma cápsula do tempo, em perpétua deterioração. Do quiosque apenas restam algumas marcas na calçada. Fora a dita estátua, apenas um velho crucifixo e o esqueleto de uma cabine telefónica decoram o local, rodeado por árvores e alguns lugares de estacionamento.

Sempre que por lá passo, deixo-me envolver por um profundo sentimento de saudade, e de raiva pela falta de visão que tiveram. Ainda havia espaço para manterem lá o quiosque. Este podia ter sido transformado numa esplanada. A praça podia ainda hoje respirar com vida.

Em vez disso, ela é agora um espaço desolado, esquecido, uma sombra daquilo que já foi.

A evolução das cidades traz com ela muitas coisas positivas. Escolas, hospitais, parques urbanos, centros culturais, melhores acessos, e novos espaços de convívio, e de recriação. Contudo, o crescimento urbano não pode esquecer a identidade dos locais. Deve sim, ser feito com estratégias de reabilitação e com objectivos que possibilitem dar uma nova vida ao local.

Como esta, há muitas praças iguais. Não deixem que estas se percam nas memórias dos seus habitantes, dêem-lhe cor, animem-nas, inovem e enriqueçam-nas. Nas ruínas de um quiosque perdido, construam novas recordações.

Thursday, May 08, 2014

Coleccionar Recordações

Nautilus, Foto DR
He was still too young to know that the heart's memory eliminates the bad and magnifies the good, and that thanks to this artifice we manage to endure the burden of the past.

Gabriel García Márquez

Cada objecto conta uma história. Do processo de fabrico, à origem do material, das mãos que por ele passam, até ao momento em que é comprado. Cada objecto tem a sua história, mas é também ele uma personagem nas vidas dos seus donos. Um narrador omnisciente de breves instantes. Um ícone de um certo local. Uma recordação de um momento.

Objectos que povoam as nossas casas, os nossos quartos, os nossos bolsos, e os nossos corpos. Que retemos, guardamos, exibimos e partilhamos. Há sempre um espaço reservado apenas para eles.

Quando desenhamos o interior da nossa casa, temos uma certa tendência para seguir os padrões que os nossos gostos pessoais, e as modas do momento definem como paradigma. Há certas regras de design de interior que até o mais comum dos leigos procura manter. Jogar bem com as cores, deixar espaço para os objectos e a própria sala respirarem, controlar as entradas de luz, e investir no mais simples dos confortos.

Ir mais além destas bases, já depende da imaginação, e da visão de cada um. Cada casa é diferente. Mesmo entre duas casas idênticas, a decoração interior pode espelhar duas realidades opostas. Por mais regras que existam, não seguimos nenhum padrão, pois, tal como nós, o nosso lar tem também ele personalidade.

A série How I Met Your Mother faz uso de objectos mundanos, aparentemente aleatórios, como instrumentos narrativos que impulsionam a história para seguir em frente. Um episódio gira em volta de uma miniatura de um autocarro amarelo que pertencia à misteriosa mãe, cuja identidade ainda estava para ser revelada.

Esse autocarro, à primeira vista, não passa de um objecto decorativo, que algumas pessoas seriam até capazes de deitar fora em um piscar de olhos. Contudo, para os personagens desta série, as histórias que ele transporta consigo oferecem-lhe um valor incalculável. Para a mãe era uma recordação carinhosa, para o Ted, relembra-lhe o momento em que esteve mais próximo de conhecer a sua futura esposa.

Os nossos quartos estão cheios de objectos de igual valor. Aquela caneca que compraste em Amesterdão, o peluche oferecido por aquela pessoa, o poema que encontraste na praia, o fóssil que te ofereceram quando visitaste aquele cabo, o último livro que leste no comboio, ou aquela moeda de duzentos escudos que encontraste numa velha carteira.

Cada um deles banal. Cada um deles de valor incalculável. Pedaços de ti. Pedaços da tua, e de incontáveis histórias que, em silêncio, as imortalizam, sem prazo de validade.

São esses objectos que, embora pareçam fora de sítio, dão personalidade às nossas casas. São eles que tornam o nosso ambiente único e inimitável. São eles que dão cor aos padrões cinzentos. São eles que fazem de uma casa, um lar.

Cada objecto conta uma história. A sua, e a do seu dono. Cada objecto tem um valor. O material, e o que cada um lhe dá. Cada objecto é único. Quando é nosso. Quando vive. Quando fala. Quando nos faz recordar.

Desliguem a Televisão, fechem os vossos computadores, telemóveis e tablets. Dêem uma volta pelo vosso quarto. Olhem ao vosso redor. Que histórias conta aquele quadro? E aquela fotografia? Conseguem ouvir aquele boneco? Fechem os olhos. Toquem. Sintam-nos. Ouçam o que eles têm para dizer.

Cada objecto conta uma história. Partilhem aquela que acabaram de ouvir.

Monday, March 31, 2014

Brinquedo Partido

Imagem DR
Quando era pequeno recebi uma garagem pelo Natal. Tinha cerca de quatro andares e uma pista em espiral. Passava horas a montá-la e a desmontá-la, fazendo corridas imaginárias com os meus carrinhos. A garagem era composta por peças de plástico. Pistas cinzentas com autocolantes, vigas vermelhas e pequenas molas para unir as pistas uma à outra.

Era possível montá-la de diversas formas, e assim me entretinha, a experimentar um novo design a cada dia que passava. Mas esta minha felicidade estava destinada a ser fugaz.

Numa tarde de Inverno, estava a brincar com a garagem na sala da minha avó. Levantei-me para mudar o canal na velha televisão Philips, idêntica àquela que ainda hoje deve ocupar o seu espaço no bar do meu liceu. Ao mudar de canal tropecei e caí sobre a garagem. A dor que senti naquele momento em nada se comparava com a mágoa que me envolveu, ao ver o meu brinquedo preferido ali, partido, sem remédio.

As pistas mantinham-se intactas, mas muitas das vigas estavam partidas. Tentei colá-las, mas sem efeito. Nada havia a fazer. Arrumei a garagem junto dos outros brinquedos, e ali ficou. Esquecida para sempre numa caixa de cartão.

Com o passar dos anos, vítima de incontáveis arrumações e desarrumações, e perdida por entre as mudanças, as peças que em tempos compunham a garagem, espalhavam-se agora por sacos, caixas, e gavetas. Perdidas entre brinquedos e outras efemeridades da minha casa.

Há pouco mais de um ano, tirei alguns dias para organizar os meus velhos brinquedos. O meu objectivo era recuperar aqueles que ainda retinham algum valor sentimental, organizá-los e dar-lhes um descanso mais digno do que ficarem apenas amontoados num canto do sótão, ou do coberto do meu quintal. Coberto esse, onde eram vítimas constantes de humidade, gatos passageiros e outras intempéries que os assolavam ao longo dos anos.

Por entre os sacos e caixas velhas, encontrei vários brinquedos partidos, ou avariados. De carros auto comandados, a formas de praia, e figuras partidas. Alguns, como a minha colecção de Legos ainda tiveram salvação. Outros, foram remetidos para uma caixa de objectos perdidos, ou até mesmo para o inevitável lixo.

Contudo, enquanto mergulhava por aquele mar de peças, ia encontrando alguns pedaços dessa velha garagem. Uma viga. Um parafuso. Um pedaço de pista. Todos juntos talvez dessem para compor um terço da garagem original. Ali continuavam, dispersos, partidos, inúteis. Mas ali continuavam.

Tivesse eu mais cuidado, e talvez hoje fosse capaz de a recuperar. Tivesse eu mais atenção ao levantar-me naquele fatídico dia, e talvez hoje ainda a pudesse montar, e reviver um pequeno pedaço desse sentimento de infância que há muito perdi.

Uma memória destacou-se das outras quando encontrei a primeira peça. Já na minha adolescência, estava a fazer compras no velho Modelo de Ovar e vi lá a garagem em destaque. Todas as lembranças daquelas tardes a brincar com ela, na casa da minha avó, vieram ao de cima. Queria levá-la comigo. Voltar a montá-la, e substituir o brinquedo partido por um novo. Quis fazê-lo, mas não o fiz.

Parte de mim ainda se arrepende de não o ter feito. Era adolescente e não fazia sentido gastar dinheiro com brinquedos, ou assim pensava. Se hoje a voltasse a encontrar à venda, consoante o preço, era capaz de a comprar. Mas tal acto não passaria de um mero descargo de consciência.

Aquela não seria a minha garagem, apenas uma réplica. Um simples substituto que chegara tarde demais. A minha garagem, hoje, não passa de uma amálgama de peças soltas e desunidas. Uma sombra daquilo que em tempos foi. Um brinquedo partido. Apenas um brinquedo partido.

Saturday, January 16, 2010

Há 3 Anos Atrás do Volante

Do pequeno Yaris vermelho que me acompanhou ao longo das aulas de condução – e que se manteve fiel à minha causa até ao exame, que há precisamente três anos atrás ditou a minha entrada no mundo da condução – passando pela velha carrinha Ford Escort de 95 – que ao longo de mais de uma década sob a égide do meu pai, levou a minha família de Bragança ao Algarve, de Santiago de Compostela a Sanabria, e que nos acompanhou da Expo 98, ao Euro 2004, sem esquecer eventos como o Super Bock Super Rock de 2005, o Rock in Rio 2004, ou o concerto dos The Doors no Pavilhão Atlântico em 2003 – eventos que embora de menor dimensão ocupam um importante lugar na minha curta lista de dias a recordar – até ao meu actual Toyota Corolla de 94 – que desde o verão de 2007 me acompanha nos pequenos e grandes momentos que marcaram os últimos dois anos e meio – já são mais de dez mil quilómetros de estrada, espalhados entre Aveiro e Porto que, não fosse por um dia tão trivial como este, nunca teriam acontecido.

Chovia durante o exame, durante aquela meia hora que iria ditar a passagem ou não de mais um degrau na longa escada do crescimento. O nervosismo e a ansiedade, eram os sentimentos dominantes dos quatro que naquele dia se tinham deslocado a Aveiro para tentar a sua sorte. Duas já tinham sido reprovadas apenas momentos antes da minha vez. Era o segundo a ser examinado. A minha colega cumprira todas as manobras e merecia os devidos parabéns.

Ela parara o carro próximo do Glicínias. Era a minha vez de tomar o volante. O seu sucesso deu-me alguma confiança mas não a suficiente. Embora tenha por costume acelerar até à quarta, nem que apenas me deixem dez metros livres, naquele momento tal proeza estava longe das minhas capacidades.

Isto não era apenas um exame de condução, era a maneira de provar a mim próprio, e ao Mundo, que era capaz de ter sucesso em algo que não envolvesse exclusivamente o raciocínio lógico.

Tudo corria bem até à entrada na auto-estrada. Por um breve excesso de confiança esqueci-me de dar o pisca. Como já estávamos a voltar para o centro de exames, e como ainda tinha feito apenas uma das três manobras, pensei que já estava reprovado por causa de um acto tão insignificante, que hoje em dia tomo como garantido.

Felizmente, estava errado. Fomos para uma pequena zona industrial que nunca tinha visitado durante as aulas. Cumpri as manobras e regressámos ao centro. Ao estacionar levei um raspanete da examinadora que me avisou para ter mais calma. Por desespero fechei a porta com força e aguardei.

Os minutos passavam, já começara a fazer as contas, ponderando sobre quanto teria que pagar para repetir o exame, quando o meu instrutor, Apresentação Fernando Fernandes, foi chamado para ir buscar os papéis com a licença de carta. Ao contrário do que esperava, ele não trouxe apenas um, mas sim dois. Com grande alegria aceitei o comprovativo de mais uma sólida conquista contra todas as probabilidades. Passei no exame à primeira, e isso, ninguém mo poderá tirar.

Tuesday, December 23, 2008

Querido Pai Natal

Este ano decidi inverter a tendência e voltar a pedir-te um bem material, algo que já não fazia há bastantes anos. Este ano quero o Magalhães. A sério, não estou a brincar. Não é por ser o primeiro computador ibero-americano, por ser resistente à fúria – entenda-se estupidez – de ditadores, ou por todos os assessores do Sócrates terem um. Não. Quero o Magalhães, simplesmente porque sim.

Como bom português, mantive-me fiel à tradição e apenas no domingo dia 21 de Dezembro fui tratar das compras de Natal. No meio de um Gaiashopping a abarrotar pelas costuras, após longas filas para fazer aquele pequeno quilómetro que separa o fim da A44, da zona industrial repleta de centros comerciais. E de longas horas dentro de Zaras, C&As e afins, dei por mim dentro da Fnac, à procura do Brisingr, e de algo mais.

Por entre essa busca, deparei-me com um pequeno computador. "Mais um daqueles mini portáteis que toda a gente adora, mas que para os quais não vejo qualquer utilidade", pensei. Mas não, não era mais um desses, era o Magalhães. Estava aberto e nada denunciaria a verdadeira natureza do PC que se encontrava à minha frente.

O meu primeiro instinto foi fechá-lo para ter a certeza que era de facto o aclamado messias do Sócrates. A princípio achei que era cinzento, uma nova estilização, afinal nem todas as crianças gostam de azul claro e os assessores do Primeiro-Ministro precisam de algo mais sóbrio para levar aos congressos. Mas não, era tal e qual tem vindo a ser anunciado nos órgãos de comunicação social, azul claro, leve, e com o ar de malinha do lanche.

Quando era criança, das poucas memórias que ainda reservo dessa altura, lembro-me de um pequeno brinquedo, ao qual chamava computador, mas que de computador tinha ele muito pouco. Quanto mais não fosse apenas pelo aspecto que imitava o design de um portátil. Era pequeno e azul com aspecto de lancheira. Abria-o e ligava-se uma luz. Colocava um cartão na ranhura da luz, e surgia a imagem de um objecto com o respectivo nome iluminado.

Não deixo de pensar nas semelhanças desse brinquedo de plástico com o infame Magalhães. Se calhar, é por isso que este ano apenas te peço o Magalhães. De certa forma, a coqueluche do Engenheiro Sócrates simboliza um passado que não consigo evitar de relembrar numa época como esta.

Aguardo assim pela tua vinda, como sempre aguardei, e espero que desta vez, pela mera simplicidade do pedido, consigas realizar a pequena vontade do teu eterno crente.

Feliz Natal.

Tuesday, July 22, 2008

Insónias

Há alguns verões atrás – era eu muito novo para me lembrar da data ao certo – sem motivo aparente, comecei a ver televisão por volta das dez da noite, e só me levantei para ir dormir já o dia tinha nascido, e os meus pais acordado para ir trabalhar.

Não tinha insónias. Não estava cansado. Até tinha um pouco de sono, mas a verdade, e por razões que até hoje me escapam, é que mantive-me acordado até de manhã a ver televisão sem qualquer vontade de desligar e ir para a cama.

Lembro-me de poucas coisas dessa noite. Lembro-me que na RTP 2 estava a dar o The Good, the Bad and the Ugly. Lembro-me que acabou por volta das duas, e que a uma certa hora todos os canais do meu zapping regular estavam ou sem emissão, ou a dar televendas. Mas mesmo nessa hora não desisti. Fui buscar uma cassete e pus o vídeo a dar – meu Deus, devia ter sido mesmo há muito tempo, não tenho memória do velho vídeo funcionar.

A memória mais nítida, e que até hoje me atormentou, foi já depois do nascer do Sol – evento que presenciei pela primeira vez nessa manhã. Eram cinco da manhã e alguns canais já começavam a emitir. Liguei o VH1 para ouvir alguma música.

Não me lembro dos videoclips que passaram, excepto um que só voltei a rever hoje. Era um vídeo dos Smashing Pumpkins, a música era minha conhecida, mas no dia seguinte já não me lembrava nem da letra, nem da sonoridade, apenas me lembrava de ver o vocalista a cantar, sentado no assento traseiro de um carro.

Os anos passaram. Pesquisei várias vezes na internet, sempre que me lembrava do ocorrido. Até falei com alguns amigos fãs da banda, mas ninguém me foi capaz de dizer qual era a música. Hoje, já vários anos depois de ver o vídeo pela primeira vez, estava a fazer zapping quando passei pela SIC Radical, e lá estava ele. O mesmo que tinha visto na sala da casa da minha avó há tanto tempo atrás.

Fiquei perplexo pela música que era. Não podia acreditar que era esta, logo uma das mais famosas deles. Reconheci de imediato a melodia de tanto a ouvir naquelas viagens de carro sintonizadas na RFM. Esperei até ao fim do vídeo, e lá surgiu a resposta que há muito esperava, a música era a 1979. Se já forem cinco da manhã quando lerem esta entrada, deixem-se vislumbrar pelo nascer do Sol e quando ele já estiver lá no alto, vejam este videoclip.