Friday, February 26, 2021

As Melhores Compras de 2020

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Fechados em casa e com demasiado tempo livre entre mãos não seria de estranhar que, à semelhança de 2013, tivesse já preparada uma longa lista de objectos inúteis comprados por impulso na ânsia de satisfazer alguma espécie de vazio provocado por simples aborrecimento.

Acreditem, 2020 esteve longe de ser um ano perfeito no que diz respeito ao controlo das minhas finanças pessoais. No entanto, com a excepção de um ou outro erro de cálculo, confesso que não me posso verdadeiramente queixar.

Decidi assim abordar este tema através de um ângulo mais positivo. Escolhi três objectos que, apesar de banais e pouco dispendiosos, contribuíram para melhorar o meu dia-a-dia.



1. Comando Universal LG (Amazon ES – €7,44)

Desde 2013, quando saí de casa dos meus pais, que perdi o hábito de ver televisão. Continuei a seguir as minhas séries e a acompanhar as notícias através do meu portátil e, mais tarde, do meu telemóvel. Mas nunca senti a necessidade de comprar uma televisão.

Em 2018, já depois de me ter mudado para a Amadora, herdei um televisor LG de 32 polegadas de 2009. Não é um televisor inteligente, mas a qualidade de imagem e de som é bastante razoável. No entanto, o comando que veio com esta TV não funcionava.

Não. O problema não eram as pilhas.

Nada de grave. Se precisasse de mudar de canal simplesmente recorria ao comando da box. Contudo, sempre que o tivesse de ligar ou de mudar de porta HDMI, tinha que o fazer através dos botões do próprio televisor. Uma tarefa morosa e que nem sempre corria bem.

Se já experimentaram usar os botões da vossa TV sabem do que estou a falar.

Após uns meses a procurar por comandos universais enfim encontrei um que tinha comentários bastante positivos, apesar de em lado algum dizer ser compatível com o modelo da minha TV.

Decidi arriscar, motivado por um comentário de um utilizador que se dizia agradado com o facto deste comando funcionar numa TV de 2007.

O preço era baixo e como já ia fazer uma compra naquele site – a Amazon Espanha oferece portes de envio gratuitos para compras superiores a €29 – adicionei-o ao carrinho.

Cinco dias depois recebi-o em casa. Desde então não mais tive problemas em ligar a TV, e o tempo que demorava a trocar de entrada HDMI reduziu de alguns minutos para poucos segundos.



2. Xiaomi Mi Stick TV (Worten – €29,99)

Sabem quando alguém nos alerta para uma promoção de algo sobre o qual nunca ouvimos falar e no minuto seguinte já estamos a colocar no carrinho com receio de perder a oportunidade? Tem tudo para correr bem, certo?

Desta vez, posso dizer que sim.

Normalmente ignoro as promoções realizadas pelas lojas de electrónica, especialmente quando estas acontecem durante a época natalícia. Os descontos nem sempre são tão bons como parecem e, se não estivermos atentos, somos facilmente ludibriados.

Já tinha ouvido falar na existência de dispositivos Android que transformavam televisores comuns em televisores inteligentes, mas nunca perdi tempo a pesquisar sobre isso. Mas naquele dia esta promoção em particular chamou-me a atenção.

A Xiaomi Mi Stick TV estava com um desconto a rondar os €20 na Worten. Este dispositivo pode ser ligado à TV através de uma porta HDMI e funciona como uma box Android. É pequena, passa despercebida e consome pouca energia.

Esta versão apenas permite qualidade de imagem HD. Existem outros dispositivos semelhantes, um pouco mais caros, que conseguem funcionar em monitores com qualidade 4K. Mas, visto que o meu televisor não tem pixéis suficientes para essas andanças, não justificava o investimento.

Até então tinha que ligar o meu portátil à TV sempre que quisesse usar um serviço de streaming. Desde que comprei a Xiaomi Mi Stick que deixei de o fazer.

É, aliás, raro o dia que não a uso. 



3. Sandwicheira Qilive 3 em 1 (Auchan – €18,99)

Nem todas as escolhas desta lista nasceram de um recém-descoberto interesse pela minha televisão. Este nasceu por um recém, bom, não é assim tão recente. Digamos, por um antigo interesse por panquecas, waffles e simples tostas.

Esta sandwicheira não tem ligação wifi mas vem com três pares de grelhas substituíveis que permitem grelhar, torrar e fazer waffles. E, apesar do preço, os waffles saem com um aspecto bastante profissional.

Infelizmente, só descobri depois de a comprar que o ponto três do ‘3 em 1’ não significa ‘panquecas’ mas sim ‘grelhador’. Mas, se formos sinceros, a única diferença entre uma panqueca e um waffle é a forma (sim, eu uso a mesma receita).

Tuesday, December 22, 2015

Kung Fury

Kung Fury
A mixture of very broad and very sly that's quite simply a whole lot of fun.

Review on Rotten Tomatoes

Kung Fury is possibly the best thing ever. Wait, don’t leave. Stick around for a bit and let me explain why.

Let’s crunch the numbers. David Sandberg’s thirty one minute short is one of 2015’s biggest internet hits. Released on May 28th, it has, as of today, over twenty two million views on YouTube. This crowdfunding success, with a total budget of 630 thousand dollars, actually managed to place second in this year’s Directors' Fortnight section at the Cannes Film Festival. Seriously, if you haven’t seen it, what are you waiting for?

But what makes Kung Fury such a big success? Well, the Internet, of course. It all began when David Sandberg, a Swedish filmmaker, quit the commercial directing business, back in 2012, and focused on writing a script for an action comedy film set in the 1980s, inspired by action films of that era. He initially spent five thousand dollars on producing and shooting footage with his friends, which resulted in a trailer that swept the web by surprise.

The trailer was used for a Kickstarter campaign to produce a full feature film based on his script. With an initial bid of 200 thousand dollars, the trailer’s overnight success allowed them to raise over triple that amount and set them off on a journey through time back to the old days of NES Games and VHS players.

Kung Fury has the perfect recipe for timeless nostalgia. For those of us who grew up in the 80s and the 90s, this short film offers us what is probably the most action packed acid trip down memory lane that we could’ve ever wished for. Just have a look at the film’s synopsis.

During an unfortunate series of events a friend of Kung Fury is assassinated by the most dangerous Kung Fu master criminal of all time; Adolf Hitler, a.k.a Kung Führer. Kung Fury decides to travel back in time, to Nazi Germany, in order to kill Hitler and end the Nazi empire once and for all.

Oh, and it has Vikings and Laser Raptors too. What on Earth is a Laser Raptor? Just go watch the movie and find out. Seriously, just go. It’s free. And on YouTube. You can’t ask for a better bargain.

Kung Fury has just the right dose of nostalgia all mixed together in one great short film that will keep your eyes glued to the screen. It has a Van Damme cosplaying renegade cop, fighting pinball machines, muscle cars, NES Power Gloves, time-travel, old school 80s-style hacking, MS-DOS, VHS Tracking, Vikings, Dinosaurs, Kung Fu, Thor, Hitler, Nazis and David Hasselhof. Freaking David Hasselhof rekindled his music career with Kung Fury’s hit song “True Survivor”. You think you can hassle the Hof9000?

Nostalgia has grounded itself as one of our generation’s greatest trends. But why are we so pumped up over the 80s and the 90s? Well, because those are the decades where most of us who are now in charge of the production and development of online and creative content, grew up in.

We are the kids who grew up watching old VHS tapes to the point that they were simply unusable anymore. Who walked around with our Walkmen and our backpacks filled with cassette tapes. Who hanged out at old arcades to play 8-bit games. Who listened to The Doors and Pink Floyd albums on our dad’s record players. We are the ones who grew up without the internet or cellphones. The ones who couldn’t wait for the latest action figure from our favorite movie or TV show. The ones who woke up early every morning to watch cartoons. Where 3D was wearing red and green glasses to look at some cool images in a book, or at a poorly made animation on TV.

We grew up with silly action packed blockbuster movies, filled with ridiculously awesome one liners and buffed up dudes who couldn’t actually act but who were awesome at kicking some random bad guy's ass. Movies built upon foundations of unbelievable premises and seizure inducing unrealistic plots that never made any sense.

Kung Fury is a representation of all of this and so much more. It’s not afraid to present itself as what it is. A silly action packed sci-fi parody comedy of mid-80s action films. You can even purchase an actual VHS copy of this short film in their online store. Kung Fury speaks to its audience and gives them exactly what they’re longing to see. And it just doesn’t stop.

80s and 90s nostalgia is the bread and butter of the entertainment industry and it has been for a few years now. Although this trend will most likely eventually come to an end, for now, we are still fueling it with our unquenchable thirst for the good old days of our childhood. And even though we are perfectly aware that those days are never coming back, we can still find some comfort in well done throw backs and parodies just like Kung Fury.

Haven’t seen it, yet? What are you waiting for?

Wednesday, December 02, 2015

The Man in the High Castle

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A weird time in which we are alive. We can travel anywhere we want, even to other planets. And for what? To sit day after day, declining in morale and hope.

Philip K. Dick, The Man in the High Castle

Sou um ávido consumidor de séries. Durante anos a minha lista de episódios semanal, entre sitcoms, séries e anime ultrapassava confortavelmente os dois dígitos. Encontrava tempo em todos os intervalos que tinha. Quando chegava a casa, depois do jantar e, se necessário, sacrificava uma ou duas horas de sono para me manter a par dos mais recentes desenvolvimentos.

Hoje, o meu tempo é muito mais escasso, e esses intervalos são bem mais curtos. Ainda tento manter-me a par das poucas séries que sobreviveram ao passar dos anos, mas à medida que estas são canceladas ou que simplesmente chegam ao fim, em vez de as substituir por algo novo, deixo um espaço vazio, preenchido por algo mais urgente.

Por este motivo, são raras as séries novas que consigo acompanhar. Por vezes, durante as férias, num fim-de-semana mais livre, ou numa noite mais longa, consigo recuperar algum do tempo perdido e dar uma olhadela nas sugestões mais recentes. Foi isso que aconteceu este fim-de-semana.

Pela primeira vez em algum tempo senti a necessidade de ver uma série inteira de uma só vez. Simplesmente não consegui parar. Embora a primeira temporada tenha apenas dez episódios, cada um tem a duração de uma hora. Dez horas. Foram dez horas partilhadas entre sábado e domingo, dedicadas apenas a esta série. Dedicadas à história de Frank e Juliana, de Joe e Smith, num Universo paralelo onde as forças do eixo saíram vitoriosas da Segunda Guerra Mundial. É esta a premissa de The Man in the High Castle.

Inspirada no livro homónimo do autor norte-americano Philip K. Dick, The Man in the High Castle é um olhar alternativo da História Mundial, através de um paralelismo ideologicamente inverso de uma Terra dividida ao meio entre duas superpotências, a Alemanha Nazi, genocida e tecnologicamente evoluída, e o Império Japonês, a desfolhar um leve princípio liberal mas tradicionalmente opressor.

Embora nos sejam oferecidos alguns aperitivos sobre como este novo Mundo é desenhado para lá das fronteiras dos EUA, a história desenrola-se quase inteiramente em três cidades norte-americanas, Nova Iorque, São Francisco e Canon City. Neste Universo os EUA foram divididos em três, o Grande Reich Nazi no lado este, os Estados Pacíficos Japoneses no lado oeste, e uma zona neutra conhecida como a União dos Estados Americanos Livres. Este terceiro não é mais que um país fantoche do Governo Nazi, uma “buffer zone” entre os dois impérios, uma zona sem lei, patrulhada por Marshalls, muito ao estilo do Velho Oeste.

Um Mundo alternativo, envolto por uma profunda carga negativa, expressa numa bela cinematografia, fria, carregada, enfim, adequada ao pesar que duas forças governadas por ideais malignos impõe sobre a pouca população que resta após vagas constantes de opressão, genocídio e lavagem cerebral.

The Man in the High Castle segue a história de um grupo de pessoas presas neste Universo. Uma série de películas começam a surgir com imagens da nossa História, dos eventos que não aconteceram neste Mundo. A vitória dos Aliados, a capitulação da Alemanha Nazi e do Império Japonês, a divisão da Alemanha, e o crescimento da União Soviética. Um grupo de resistentes tenta juntar estas películas com o objectivo de retaliarem contra as forças opressoras e, assim, recuperarem um Mundo que nunca viveram mas que é seu por direito.

Algumas componentes de Fringe, uma das minhas séries preferidas, surgem pontualmente, à medida que a narrativa se desenrola. Mas quem está à espera de ver o Peter e a Olivia a entrarem em acção para salvar o dia, ou o Walter a comer alcaçuz, desenganem-se. Não há espaço para comédia, luz, ou esperança neste Universo sombrio. Esta é uma série profunda, pesada. Uma história que durante os próximos dias vai ocupar os teus pensamentos, os teus sonhos. Uma série que te faz pensar. Uma série que tão cedo não vais esquecer.

O clima cinzento e deprimente põe em alerta os teus mecanismos de defesa. Por momentos podes sentir-te tentado em imaginar o Marty McFly e o Doc a aterrarem o seu DeLorean no meio de Times Square para reporem a linha do tempo original. Mas esse pensamento fugaz será efémero, pois durante os sessenta minutos de cada episódio, nada mais será capaz de prender a tua atenção. Não há como fugir ao Universo de The Man in the High Castle.

Aguardo ansiosamente pela segunda temporada desta série. Algo que pode nunca chegar a ver a luz do dia devido à polémica campanha de marketing desempenhada pelo estúdio produtor da série. Talvez colocar símbolos Nazis e do velho Império Japonês em metros e paragens de autocarro norte-americanos não sejam a melhor estratégia para publicitar o vosso produto. Especialmente quando o público ainda desconhece o conteúdo da série.

Polémicas à parte, The Man in the High Castle vale cada segundo das dez horas que compõe a primeira temporada. Desde a terrorífica música de abertura, aos pins da lapela dos oficiais das forças do eixo. É nos pormenores que esta série constrói a sua história. Na grandiosidade de um Universo Alternativo, de uma América dividida, de um Mundo em chamas, de um futuro sem esperança.

The Man in the High Castle merece todos os elogios. Uma narrativa cuja profunda qualidade tão cedo não sairá da nossa memória colectiva.

Thursday, August 13, 2015

The Perks of Being a Wallflower

The Perks of Being a Wallflower, Imagem DR
I know there are people who say all these things don’t happen. And there are people who forget what it’s like to be sixteen when they turn seventeen. I know these will all be stories some day, and our pictures will become old photographs. We all become somebody’s mom or dad. But right now, these moments are not stories. This is happening. I am here, and I am looking at her. And she is so beautiful. I can see it. This one moment when you know you’re not a sad story. You are alive. And you stand up and see the lights on the buildings and everything that makes you wonder. And you’re listening to that song, and that drive with the people who you love most in this world. And in this moment, I swear, we are infinite.
Charlie, The Perks of Being a Wallflower

Passeava pela Feira de Lisboa, após almoçar no Great American Disaster. Chovia no início daquela tarde. Chuva miudinha. Aquela que é quase tolerável ao ponto de não te fazer procurar abrigo, mesmo na ausência de um guarda-chuva. Estava já quase a sair quando passei pelo pavilhão da Fnac. Tinham livros originais com 20% de desconto. Entre eles estava o The Perks of Being a Wallflower. Embora o filme seja um dos meus preferidos, ainda não tinha lido o livro, nem tão pouco este constava na minha lista de futuros livros a comprar. Um pouco por impulso, trouxe-o juntamente com o Looking for Alaska de John Green.

Este ano, por um ou outro motivo, foram escaços os momentos em que simplesmente parei para ler um livro. Embora as viagens de comboio tenham regressado à minha rotina semanal, entro nas carruagens tão cansado, que ler é a última coisa na minha mente. No passado dia 7, tirei férias para ir a Vagos ver Within Temptation. Infelizmente, como nem o Luís, nem o Paulo podiam ir, acabei por decidir ficar por casa. Dias antes tinha terminado de ler o An Abundance of Katherines, também escrito pelo John Green, após uns longos meses de tentativas falhadas de ler mais que umas dez ou vinte páginas por semana. No meu quarto estava The Perks of Being a Wallflower, do Stephen Chbosky, separado dos restantes livros para não me esquecer de o trazer de volta para Coimbra.

Depois do almoço, já aborrecido sem algum plano para o que restava do meu dia de férias, passei pelo meu quarto e olhei para o livro. Pensei por alguns instantes e decidi começar a lê-lo. Já sabia que a sua história era contada através de cartas escritas para uma personagem externa e com pouca ou nenhuma descrição, com quem o leitor podia associar-se e ler o livro como se estas cartas tivessem sido endereçadas para si próprio.

Não estava à espera que este método de escrita fosse tão eficaz. O livrou colou-me logo na primeira página e não consegui parar de o ler. Terminei-o pouco depois do jantar. Duzentas e trinta páginas lidas num único dia, com pausas apenas para ir ao Continente com os meus pais, e para comer alguma coisa quando a fome apertava.

Como fã do filme, não esperava que o livro fosse capaz de expandir tanto o pequeno Universo de Charlie, e de acrescentar uma incrível onda de pormenores e de riqueza de storytelling, numa obra tão breve.

O livro em si é bem mais intenso. É impossível ficarmos indiferentes ao sofrimento de Charlie, mesmo que não tenhamos passado pelo mesmo, ou conhecido alguém que viveu algo parecido. Esta história não é uma história de amor. É uma história sobre depressão, sobre as pressões sociais de crescer nos 90s, sobre solidão, sobre família, sobre a introspecção das nossas próprias mentes, sobre a amizade, e sim, também sobre amor.

Há três coisas neste livro que me tocaram e nas quais ainda penso, embora já tenha digerido a sua história há alguns dias. É verdadeiramente diferente ler um livro num único dia e absorver tão intensamente cada sentimento dos seus personagens, em vez de o repartir por várias porções, e suavemente alimentarmos-nos com cada pedaço da história depois de saborearmos cada momento das páginas que terminámos de ler. E talvez seja por essa inesperada intensidade que este livro me tocou tão profundamente.

Mas antes de partir para uma deliberação caótica sobre o efeito que este livro teve em mim, regresso àquilo que estava prestes a enumerar. Digo três coisas, e não três momentos, ou três frases, pois não sei que outro nome lhes dar. São sentimentos, experiências, episódios, palavras, enfim, coisas que me tocaram e que me fizeram pensar na minha adolescência, na minha infância, na minha vida, e no meu momento actual.

A primeira foi algo que nunca me disseram, pelo menos, não quando mais precisava de o ouvir. Faz bem chorar. O Charlie chora em diversos momentos ao longo do livro, bem mais que no filme, e talvez de forma um pouco exagerada. Quer por tristeza, quer por felicidade. O Charlie chora e sempre que o faz, alguém o encoraja a não esconder o que sente. Ninguém lhe diz para parar. Ninguém trata as suas lágrimas como um sinal de fraqueza, mas sim como algo natural e necessário, como parte de quem ele é, e como um alívio para o sofrimento constante que ele não consegue compreender.

A segunda surge logo nas primeiras páginas, quando ele descreve a pessoa para quem está a escrever estas cartas. Quem eu fui no liceu, reflectia-se de forma quase perfeita nessa descrição. Por mais breve que seja, conseguia reconhecer-me naquelas palavras. Não só no liceu, mas nos meus anos de faculdade, e até muito recentemente, revia-me naquelas palavras. Contudo, já não me sinto como essa pessoa que fui em tempos. Não me sinto merecedor da atenção revelada pelas cartas que o Charlie endereçou a alguém. Esse alguém, em tempos, podia ter sido eu, mas não hoje, não quem eu sou hoje. Esta revelação entristece-me. Esta revelação dá-me vontade de chorar. Algo que não consigo fazer.

Por fim, a última coisa que me tocou foram as palavras da Sam para o Charlie. Mesmo no fim, antes de se despedirem. O motivo pelo qual essas palavras ainda hoje ecoam na minha mente vou guardá-lo apenas para mim. Não por ser demasiado pessoal, mas sim por ser algo diferente para cada pessoa que as ler. Não quero de qualquer forma tentar influenciar aqueles que ainda não leram este livro, e que o desejam fazer. Nem tão pouco estragar a surpresa de o descobrirem pelas vossas próprias mãos, como eu fiz naquela tarde chuvosa em Lisboa.

The Perks of Being a Wallflower é mais que um livro, mais que um filme, mais que uma história. É algo único. É uma das minhas histórias preferidas. Sempre o foi, apenas ainda não tinha sido escrita, e eu ainda não a tinha descoberto.

Thursday, January 22, 2015

Boyhood

Boyhood
You know how everyone's always saying seize the moment? I don't know, I'm kind of thinking it's the other way around, you know, like the moment seizes us. 
Nicole, Boyhood

Boyhood é uma história simples, mas assim é a vida. Assim é crescer. Boyhood não é apenas um filme. É uma experiência. Um retrato de uma geração. São doze anos de investimento. É o trabalho de uma vida. É o sonho de Richard Linklater.

Filmado ao longo de doze anos, Boyhood segue a vida do jovem Mason, protagonizado por Ellar Coltrane, uma criança de seis anos, um adolescente de catorze anos, um jovem adulto acabado de entrar na universidade. A infância e a adolescência de Mason confundem-se com a de Ellar, pois também ele cresce, também ele vive com este projecto, com este filme, sempre guardado nos momentos especiais de cada ano de produção. De cada ano de crescimento.

Foi uma aposta de risco de Linklater, uma tarefa com tudo para correr mal. Um desafio que, mesmo que não tivesse chegado ao fim, seria honrado pela tentativa de criar algo único, algo histórico. Felizmente, o filme foi um sucesso, a experiência foi um sucesso. Ellar não comprometeu, assim como Lorelei Linklater, a filha do próprio realizador, que fez de irmã de Mason, também ela seguindo de perto o crescimento desta história, desta personagem, e deste actor.

Boyhood conta uma história simples. Uma história comum, já muitas vezes partilhada. Mas agora sobre uma perspectiva única, através dos olhos de uma criança. De uma criança que cresce. De um país que se desenvolve, que lida com as desavenças de um futuro incerto, e de uma economia descontrolada e imprevisível.

Mason, e a sua irmã Samantha são filhos de pais divorciados. Dois pais que se casaram demasiado novos. Dois pais com um rumo ainda por descobrir. Em Ethan Hawke e Patricia Arquette vemos dois caminhos paralelos, dois caminhos inversos. Um músico sem qualquer plano que viaja para se encontrar. Uma mãe divorciada com aspirações e com um doutoramento em psicologia no seu horizonte.

Ambos encontram-se algures pelo meio, sempre com Mason como pretexto para uma breve partilha de novidades e pontos de situação. Os maridos alcoólicos e possessivos de Patricia, a mulher que finalmente faz Ethan assentar e tentar novamente construir uma família. Um novo começo para Ele. Um destino ainda por descobrir para Ela.

Mason vive tudo aquilo que um qualquer rapaz experiencia nos breves e curtos momentos que a vida nos permite crescer. Apaixona-se. Testa os seus limites. Cria e destrói amizades. Recria momentos. Fortalece laços. Expressa-se. Viaja. Segue em frente. Percorre todos os caminhos possíveis. Todos os caminhos que o levam até à sua arte.

Mason não é uma criança especial. Não é um jovem especial. Mason é como nós. Apenas mais um rapaz americano do Texas que acompanha os incidentes de uma sociedade que se transforma, que cresce, que se diferencia. Um rapaz que gosta do Dragon Ball. Que bebe com os amigos. Que faz planos com a sua namorada. Que se dedica à sua paixão pela fotografia. Um rapaz talentoso, culto e preguiçoso. Não é o típico adolescente americano, mas também não é alguém que se destaque numa multidão. Mason é apenas igual a si próprio.

Alguém que cresceu. Alguém que vimos crescer. Alguém que aprendemos a compreender ao longo de doze anos, reduzidos a pouco mais de duas horas. Doze anos que passaram rápido. Um piscar de olhos para alguns de nós. Uma vida inteira para Mason.

Boyhood é uma história breve, mas assim é a vida. Assim é crescer.

Thursday, March 06, 2014

Her

Her, Spike Jonze
Falling in love is a crazy thing to do. It's like a socially acceptable form of insanity.

Amy, Her (Spike Jonze, 2013)

“Uma história de amor”. Um título adequado para um filme que é, na sua mais pura simplicidade, e antes de qualquer outra designação, um filme sobre Amor. Um amor impossível, talvez, mas real naquele singular universo, retratado sob a visão de Spike Jonze.

Her conta a história de Theodore Twombly, um escritor de cartas, um intermediário de emoções reais entre pessoas fictícias. Um instrumento de contacto, uma ferramenta de proximidade, para quem há muito desistiu de procurar em si próprio algo real para partilhar com a pessoa que ama. Cartas reais, escritas à mão por computadores. Fictícios pedaços de papel. Objectos da imaginação, da inspiração, das emoções de um intermediário escritor. Só, entre uma multidão de fictícias personagens, desligadas entre si. Mas Her não é uma crítica social.

Her conta a história de Theodore Twombly, um divorciado, desligado do resto do Mundo. Vítima das suas falhas de comunicação, da sua incapacidade de encarar os problemas. Da profunda depressão do seu dia-a-dia, e de uma relação que há muito não partilha qualquer sentimento de paixão, de desejo, ou de amor. Mas Her não é o percurso de um Homem pelos diversos estágios de luto, e de aceitação.

Her conta a história de Theodore Twombly, um Homem que compra o primeiro Sistema Operativo regido por uma Inteligência Artificial. Uma existência que questiona o que faz de alguém, ou de algo, Humano. Uma existência que redesenha a definição de alma. De vida. De consciência. De existir. Da essência do próprio ser. Mas Her não é um filme de ficção científica, nem tão pouco um ensaio filosófico.

Her conta a história de Theodore Twombly, um escritor de cartas divorciado, e de Samantha, um Sistema Operativo com Inteligência Artificial. Uma história de amizade, de descoberta. A história de um amor improvável. Um amor impensável. Um amor tão puro e honesto como qualquer outra história alguma vez contada, e ainda por contar. Uma história de paixão, de desejo. De encontros. De namoro. De descoberta. Uma história de amor.

Um guião construído sob as subtilezas do percurso natural, que orienta o romancismo de uma relação. Uma cenografia bela na sua simplicidade. Futurista, mas próxima. Tão real como o menos distante dos amanhãs.

Um design de produção discreto e inteligente. Tão sólido como a transição das cores da roupa de Theodore ao longo das estações. Do salmão da Primavera da sua relação com Samantha, ao amarelo do Verão do amor que ambos partilham. Do castanho, e promíscuo Outono, até ao branco Inverno deste seu novo mundo.

Uma interpretação a rasar o perfeito. Um elenco de luxo, protagonizado por um Joaquin Phoenix, sem medo de sentir. Sem medo de chorar. Sem medo de amar.

Um mundo tão próximo de nós. Um mundo que é já nosso, sem nos apercebermos. Um mundo interligado na sua solidão. Sempre em contacto, mas eternamente sós. Sempre próximos, mas a uma distância constante. Um mundo onde é mais simples criar emoções, do que senti-las. Isolar-nos em nós próprios, em vez de enfrentar os nosso problemas. Fugir, em vez de falar.

Mas Her também é um mundo de possibilidades. De novas formas de amar. De estar presente, mas ausente. De dar valor ao sentimento, ao diálogo. À profundidade do coração, e da alma de cada um. À essência. Ao doce sabor de partilhar a tua vida com alguém. De sentir uma ligação mais forte do que os limites do real, e do imaginário. De sermos um, sem as barreiras do preconceito, do fútil, do físico, do visual.

Um mundo onde é possível apaixonarmo-nos tão completamente, que até o mais céptico dos cínicos não consegue ficar indiferente.

Her é um filme sobre Amor. Não sobre a relação Homem/Máquina. Não sobre a falsa sociedade em rede. Não sobre a depressão, ou o isolamento. Mas sim, sobre um Amor à distância. Um Amor real. Um Amor completo.

Her é uma história de amor.

Wednesday, March 27, 2013

Os Oceanos Astrais de Eureka SeveN: AO

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Concluída a história de Renton e Eureka, não esperava alguma vez ver nascer uma sequela ou tão pouco um spin-off do anime. As notícias que davam como inevitável a descontinuação da Manga por parte da Bandai também não ajudaram a alimentar qualquer sonho de voltar a ver o Nirvash a surfar pelos céus. Mas, felizmente, todas as previsões provaram estar erradas com o lançamento de Eureka SeveN: AO (Astral Oceans). 

Mais do que uma sequela de Eureka SeveN, Astral Oceans segue a história de Ao Fukai, filho de Eureka e Renton que após um acidente encontra-se “naufragado” com a mãe no século XXI no estado independente de Okinawa. Num mundo divido pelo controlo dos Scub Corals e pela energia que estes produzem, Ao vive nas sombras de uma complexa guerra geopolítica entre os E.U.A., o Japão, Okinawa e uma organização independente sediada na Suíça sob o nome de Generation Bleu

A infância de Ao é manchada pelo desaparecimento de Eureka e do seu Nirvash durante um Scub Burst quando ele tinha apenas três anos. Ao permanece na ilha de Iwato Jima sob os cuidados do Dr. Toshio Fukai, amigo de Eureka, que acaba por o criar como se fosse o seu próprio filho. Aos 13 anos, Ao descobre uma nova versão do Nirvash capaz de operar sem a Compac Drive que serviu de motivo para a apresentação de Renton na história original de Eureka SeveN. Este novo LFO foi criado por Renton num futuro longínquo e responde apenas aos comandos de Eureka e de Ao. 

Com o seu recém-descoberto Nirvash Ao junta-se à Generation Bleu no combate aos Secrets, robots parasitas que atacam os Scub Corals e que são capazes de causar Scub Bursts ao entrarem em contacto com os mesmos. Ao abandona a ilha de Iwato Jima e junta-se à equipa Pied Piper, a principal linha de defesa da Generation Bleu contra os Scub Corals. 

Eureka SeveN: AO apresenta-se como uma sequela que desde o início se desmarca da história original. As alterações constantes à linha do tempo e a indefinição sobre a real natureza de muitos personagens tornam Astral Oceans numa versão muito confusa e atrapalhada de Eureka SeveN. Os argumentos paralelos e as histórias secundárias afastam em demasia a atenção dos espectadores. Personagens com fortes características de anti-heróis são desaproveitadas episódio atrás de episódio apenas para culminarem num final que, de certa forma, desapontou aqueles que seguiram afincadamente a série desde o início. 

Astral Oceans deixa a ideia de que foi criada à pressa e com episódios a menos para a história que tinham planeado contar. Embora os primeiros episódios apresentem um enorme potencial, a partir do momento em que a linha do tempo é alterada, a história torna-se confusa e difícil de seguir. Na segunda metade da temporada o ritmo frenético com que os episódios são contados faz crer que os guionistas só se aperceberam que apenas tinham 24 episódios para contar esta história quando a produção já ia a meio. 

Embora Eureka SeveN: AO se apresente como uma sequela de Psalms of Planets, a história em si é na verdade um spin-off. Temas como a relação entre Ao e Renton, a sua paixão por Naru, e o discreto triângulo amoro entre Fleur, Elena e Ao, são abordados de uma forma displicente e superficial. Os fãs que esperavam mais informação sobre o futuro do mundo de Eureka SeveN, vão ter que esperar por uma nova temporada, pois Astral Oceans apresentou esse assunto com demasiados buracos para ser capaz de contentar a curiosidade do fanático mais modesto.

Apesar dos diversos defeitos de Astral Oceans foi bom voltar a ver histórias ligadas ao Universo de Eureka SeveN, ao mesmo tempo que descobrimos novos pormenores sobre o futuro de Eureka e Renton. As novas personagens possuem um background e uma profundidade interessantes com bastante potencial para serem exploradas em futuros episódios.

Foi confirmado recentemente que Bones está a produzir uma nova temporada de Eureka SeveN com estreia marcada para este Verão. Até ao momento ainda são poucos os pormenores que se conhecem, tão pouco se pode afirmar que se trata de uma sequela de Astral Oceans ou de outra história paralela a Eureka SeveN. Até lá estarei atento às novidades, mantendo a esperança de que esta nova temporada corrija os erros da série inaugural de Ao.


Sunday, February 17, 2013

Moon Prism Power, Make-up!


Ao contrário da maioria dos desenhos-animados mais populares da minha infância, como Dragon Ball, Pokémon, Widget, The World Watcher ou Denver, The Last Dinosaur, Sailor Moon sempre ocupou um papel secundário. Talvez por ser um anime mais direccionado para o público feminino, contudo, sempre que possível não perdia um único episódio. Como todos os rapazes do meu tempo, dizia que via Sailor Moon por causa das transformações onde as navegantes (a partir deste ponto vou referir-me a elas por Sailor Senshi) apareciam completamente despidas. 

Por causa da sua posição secundária na minha programação de TV, nunca segui de forma aprofundada a sua história, nem tão pouco, prestei muita atenção às diferenças entre as temporadas. Era, na altura, mais um anime a seguir o formato dos Power Rangers, em que um monstro atacava uma cidade, elas transformavam-se para o derrotar e tudo acabava bem. 

Os anos foram-se passando, volta e meia apanhava um episódio no Canal Panda e perdia uma boa meia-hora a levar com a dobragem irritante da versão portuguesa. Inúmeros erros e falas sem sentido perdidas na tradução faziam-me desistir ao fim de um ou dois episódios. Decidi então pesquisar mais sobre esta série. Encontrei diversos blogues dedicados a este anime, e algumas wikis. Em quase todos, os seus autores queixavam-se da censura inquisitória imposta pela versão norte-americana de Sailor Moon. Estes retractavam uma visão muito mais negra e emocionalmente bem-desenvolvida presente na versão original que simplesmente tinha sido removida ou obscurecida da versão traduzida. Ao longo do tempo intriguei-me sobre como seria a versão original em japonês. Seria assim tão bem construída? Teria Sailor Moon sofrido de uma opressão ao estilo do Estado Novo tão grande que a sua mensagem tinha sido distorcida ao ponto de perder tudo aquilo que fazia deste anime uma obra que merecia a adoração de milhões de fãs a nível mundial? A única forma de responder a esta questão seria ver a versão original. 

Os 200 episódios que compunham as cinco temporadas de Sailor Moon foram, para mim, o principal obstáculo para sentar-me em frente da televisão e rever esta série. Mas um dia, há cerca de dois meses, decidi, finalmente, arranjar os episódios, incluindo a temporada que nunca foi transmitida nos E.U.A., e comecei a vê-los sempre que tinha algum tempo livre. Ontem acabei de ver o último episódio e posso afirmar que as minhas suspeitas se confirmaram. Sailor Moon sofreu tanto com a censura e erros de tradução que o Mundo perdeu uma das melhores histórias de amor e, até mesmo, um dos melhores animes dos últimos vinte anos. 

Serenity e Endymion: Um amor que atravessa os milénios


A primeira temporada apresenta-nos duas faces. Dividida em três momentos, repartidos por 46 episódios, a temporada inaugural começa por apresentar Usagi Tsukino, a protagonista da série. Uma jovem de 14 anos, que odeia estudar, passa a vida a comer doces e a chegar atrasada às aulas. Além de ser desastrada e de estar constantemente a chorar. Um dia uma gata, chamada Luna, aparece e transforma-a em Sailor Moon. Sim, um dos principais erros da versão portuguesa da série é tratar a Luna como um gato, em vez de uma gata, mas isto até é o menos. De seguida são apresentadas as restantes Sailor Senshi, numa primeira fase apenas a Sailor Mercury e a Sailor Mars, com uma misteriosa Sailor V a surgir constantemente no background da história. Após o primeiro inimigo ser derrotado, é apresentada a Sailor Jupiter e a Sailor V aparece para revelar a sua verdadeira identidade como Sailor Venus, trazendo consigo o gato (sim, gato e não gata como na versão portuguesa), Artemis. Pelo meio presenciamos um dos inimigos ter uma mudança de coração e apaixonar-se por uma amiga de Usagi, passando para o lado do bem, apenas para ser morto pelos seus antigos colegas. Sim, morto. Ao contrário da imagem que a versão traduzida tentava passar, há um lado realista e obscuro de Sailor Moon na versão original que nos foi negado pela censura. 

Uma das situações que achei mais bem-feita durante a primeira temporada é a relação entre Usagi e Mamoru Chiba (a identidade do Mascarado, ou Tuxedo Kamen na versão original). Uma relação de amor/ódio entre as suas personas reais e um profundo apreço e paixão entre os seus alter-egos. Durante a maior parte da primeira temporada a própria lealdade do Tuxedo Kamen é posta em causa, com a Luna a questionar constantemente se ele não seria apenas mais um inimigo.

A primeira temporada também nos apresenta uma justificação para tudo aquilo que se estava a passar. Desde o surgimento dos inimigos, até ao facto de serem estas pessoas a terem o fardo de carregar com estes poderes. Tudo isto se deveu a uma guerra milenar entre o Reino da Lua e o Dark Kingdom que resultou no sacrifício da Rainha Serenity, mãe de Sailor Moon, para pôr fim ao conflito e dar uma nova vida no futuro à sua filha, Sailor Moon, e aos restantes intervenientes, nomeadamente as Sailor Senshi, e o Príncipe do Reino Dourado da Terra, Endymion (incarnação de Mamoru Chiba). 

Lost in Translation


Um dos grandes problemas que a série sofreu através da censura foi a ambiguidade sexual de alguns personagens e a própria orientação sexual dos mesmos. Desde raparigas transformadas em rapazes, e vice-versa, para evitar que as crianças ocidentais tivessem que lidar com relações entre lésbicas e homossexuais, a erros de tradução que confundiram profundamente os fãs que ao serem apresentados com as transformações e com certas afirmações por parte de outros personagens, simplesmente ficavam com o cérebro a andar às voltas quanto à natureza de determinados personagens. 

O primeiro contacto com este nível de censura acontece no final da primeira temporada. A relação homossexual entre dois inimigos é ocultada ao simplesmente cortarem as cenas em que estes falavam mais intimamente. Numa cena, um desses inimigos sacrifica-se para estar junto do seu parceiro já morto, jurando o seu eterno amor pelo camarada caído. Contudo, tal deve ter surpreendido os espectadores ocidentais visto terem-lhes sido negados os principais momentos da relação entre estes dois.

Neste aspecto, Sailor Moon, apesar de ter estreado em 1992, mantém-se bastante actual. São retratadas todo o tipo de relações. Somos presenteados com personagens heterossexuais, homossexuais, bissexuais e transsexuais. E todos eles são aceites pela sociedade onde vivem. Contudo, a censura dos anos 90 achou que o mundo ocidental não estava preparado para lidar com isto e optou por ocultar a verdadeira natureza de alguns personagens. Natureza essa que deu uma muito maior profundidade à série e que infelizmente, mais uma vez, ficou perdida na tradução.

A morte das Sailor Senshi


No final desta primeira temporada, o Príncipe Endymion é manipulado de forma a passar-se para o lado do mal, mas mesmo assim continua a proteger a Sailor Moon e as restantes Sailor Senshi. Esta nunca deixa de acreditar nele e luta até ao fim para o fazer reverter à sua identidade original. 

Mesmo no final, que para mim está ao nível dos melhores momentos de Dragon Ball ou Naruto, quer no nível de acção, quer na profundidade emocional e moral apresentada, somos vítimas da censura. Na versão original, Usagi tem que lidar com a morte das suas amigas, uma por uma, todas as Sailor Senshi morrem para a proteger e para fazer com que ela chegue à base dos inimigos para os derrotar e repor a paz. Sozinha, magoada e psicologicamente abatida, Usagi consegue na mesma chegar à fortaleza do Dark Kingdom e enfrentar a Rainha Beryl. Pelo meio, o Príncipe Endymion tenta impedi-la, mas através do seu amor e de uma caixinha de música em formato de estrela que ela lhe tinha oferecido noutra vida, Usagi consegue reavivar a memória de Mamoru. Este vira-se contra a rainha e ele próprio acaba morto. 

No momento mais baixo de sempre para este personagem, Sailor Moon reúne todas as suas energias e com a ajuda das almas das suas amigas, consegue, por fim, derrotar a Rainha Beryl e trazer a paz para a Terra. No processo, Usagi Tsukino pede um desejo para que todos possam viver uma vida normal como se nada disto tivesse acontecido. Aqui, sinto que os fãs são de certa forma traídos, visto que toda a história regressa ao início como se nada se tivesse passado. As Sailor Senshi e Mamoru Chiba estão novamente vivos e apenas a Luna e o Artemis mantêm as memórias das verdadeiras identidades destes personagens.

Imagino que isto tenha acontecido para assegurar qualquer eventualidade da série ser ou não renovada para uma segunda temporada. O que acabou por acontecer pelo menos mais quatro vezes.

Neo Queen Serenity e o Século XXX 


Uma das coisas que mais gostei no início da segunda temporada foi como lidaram com a recuperação da memória da Sailor Moon. Usagi, depois de derrotar o novo inimigo, desespera e lamenta o facto de não poder continuar a ser uma rapariga normal. Evitando, durante o máximo de tempo possível recorrer às restantes Sailor Senshi para que pelo menos estas pudessem ter a vida que lhe foi negada. Infelizmente, nenhuma delas teve essa sorte, acabando todas por aceitar o seu destino e abraçarem o fardo de defender a Terra. 

Na segunda temporada somos apresentados com o início da relação entre Usagi Tsukino e Mamoru Chiba. Início e repentina separação, após o aparecimento de Chibiusa, uma rapariga do futuro que mais tarde se descobre ser a filha de Usagi e Mamoru no futuro. Futuro esse que estranhamente apenas se passa no século XXX. Pelos vistos estas personagens vão conseguir viver durante mais de mil anos mantendo a sua juventude. Chibiusa regressa ao passado para recuperar o Silver Crystal para salvar a sua mãe, Neo Queen Serenity, e a futura cidade de Crystal Tokyo dos inimigos, Black Moon. Estes acompanham-na até ao passado com o mesmo objectivo. No fim, com muito sacrifício e com Chibiusa a ser manipulada para o lado do mal, o bem acaba por prevalecer e quer a Tokyo do presente, quer a Crystal Tokyo do futuro são salvas.

Usagi e Mamoru reatam a sua relação e Chibiusa regressa ao futuro. Nesta temporada a primeira Outer Senshi é apresentada, Sailor Pluto (hoje em dia provavelmente teriam muita dificuldade em explicar porque é que Plutão, que já não é considerado um planeta, teve direito a uma Sailor Senshi, enquanto Ceres e outros planetas-anões foram ignorados, enfim, sinais dos tempos). Sailor Pluto é a responsável por guardar as portas do espaço e do tempo e, juntamente com os restantes navegantes dos planetas do Sistema Solar exterior, compõe as Outer Senshi, responsáveis por proteger a Terra contra ameaças extraterrestres. 

Monty Python, I mean, Sailor Moon and the Senshi of the Holy Grail


Na terceira temporada, as Sailor Senshi vão em busca do Santo Graal. Sim, até Sailor Moon cai neste cliché. As Sailor Uranus e Sailor Neptune são apresentadas. Inicialmente como inimigas, no fim, como aliados. As duas apresentam a primeira profunda relação lésbica da série que é mais uma vez posta de lado na tradução, visto que a Sailor Uranus é transformada em rapaz na versão ocidental. Algo muito mal feito, visto que quando “ele” se transforma apresenta corpo de mulher e veste-se com o uniforme colegial típico das Sailor Senshi.

Do sacrifício pessoal das Sailors Uranus e Neptune, dispostas a dar a sua vida para completar a sua missão, à exclusão da Sailor Saturn por esta representar o planeta do desespero e da destruição, esta temporada é de longe a melhor e aquela mais repleta de acção. Os últimos episódios são impossíveis de largar com toda a acção envolta na descoberta do Messias e da ameaça do Pharaoh 90, força maligna e destrutiva que tenta conquistar a Terra. Apenas o sacrifício da Sailor Saturn, que assume o lado do bem depois da Sailor Moon a convencer de que o seu coração estava a ser controlado por uma força maligna, consegue impedir que o nosso mundo seja destruído.

Sailor Moon salva a Sailor Saturn, mas esta reverte para a sua infância e transforma-se numa bebé, visto que toda a sua energia vital foi usada para destruir o Pharaoh 90. Sailor Uranus e Sailor Neptune juram proteger a nova vida da Sailor Saturn e abandonam as restantes Sailor Senshi com o sentido de dever cumprido.

Pegasus e o Dead Circus


Já a quarta temporada apresenta-nos novos inimigos e um novo aliado. Pegasus. O cavalo alado surge para dar novos poderes às Sailor Senshi, escondendo-se dentro do coração de Chibiusa. Pegasus era na verdade Helios, um sacerdote do antigo Reino Dourado da Terra responsável por proteger o Golden Crystal dos novos inimigos, Dead Circus, liderados pela rainha Nehellenia, antiga rival da Rainha Serenity, que invejava a felicidade do Reino da Lua. 

Esta temporada serviu de certa forma como uma temporada de transição, onde as Sailor Senshi ganharam novos poderes e a relação entre Usagi, Mamoru e Chibiusa foi-se solidificando. Sendo, provavelmente, a temporada com mais fillers, não deixou muitas saudades, mas vale pela acção dos últimos episódios, por alguns momentos chave ao longo do seu story arc e pelos momentos de descontracção de que esta série, ao fim de quatro anos, bem precisava. Para aqueles que quiserem ver esta temporada com maior pormenor, basta ligarem o Canal Panda a partir da meia-noite. 

Sailor Galaxia, Three Lights e a batalha final

A quinta e última temporada é a malfadada temporada que nunca foi transmitida nos E.U.A. É de longe uma das melhores temporadas desta série, pecando apenas pelos cerca de 15 episódios de fillers que ocupam quase metade dos 34 episódios que compõem o quinto e último capítulo deste anime. 

O início é simplesmente fantástico. Pegando no final da quarta temporada, Nehellenia regressa e desperta a Sailor Saturn. As nove Sailor Senshi, mais a Sailor Chibi Moon (transformação de Chibiusa), unem forças para a derrotar após esta capturar Mamoru Chiba e ameaçar matá-lo se a Sailor Moon não se render. Pelo caminho, as Sailor Senshi sofrem mas conseguem vencer. A própria Sailor Moon descobre um novo poder e uma nova transformação, surgindo assim a Eternal Sailor Moon. 

Derrotada Nehellenia, um novo inimigo surge, Sailor Galaxia. Uma antiga Sailor Senshi controlada por uma força maligna chamada Chaos que ambiciona coleccionar todas as Star Seeds da Via Láctea. Três novos aliados surgem, as Sailor Starlights, que estranhamente são rapazes antes de se transformarem. Vivendo sob a identidade de Three Lights, uma banda pop, e com o objectivo de encontrarem a sua princesa que fugiu para a Terra. As Starlights rapidamente fazem amizade com Usagi Tsukino, sendo que uma delas chega mesmo a apaixonar-se por ela. Seiya, identidade da Sailor Star Fighter, apaixona-se por Usagi que nesta temporada tem que lidar com a ida de Mamoru para os E.U.A., que nunca chega a ir, desaparecendo sem deixar rasto.

A relação entre Seiya e Usagi intensifica-se, sem nunca vermos o amor de Seiya ser correspondido. Embora a maioria dos fillers me terem custado bastante a ver, ontem à noite cometi o erro de ver o primeiro episódio do último acto. Sailor Moon tem destas coisas, por mais irritantes ou desinteressantes que os fillers possam parecer, chega a um ponto, quando a história começa a andar para a frente em que não conseguimos mais deixar de ver. Apenas me deitei já passava das três da manhã, quando finalmente acabei de ver o último episódio.

Neste arco final da série, Usagi descobre que Mamoru Chiba não a tinha abandonado, mas que na verdade tinha sido morto logo no início pela Sailor Galaxia para que esta pudesse roubar a sua Star Seed. Todas as Sailor Senshi, à excepção das Sailor Starlights, sacrificam-se e no final e apenas a perseverança e a vontade de Sailor Moon em acreditar que existe bem dentro do coração de todas as pessoas, conseguiu libertar a Sailor Galaxia do controlo de Chaos. Acabando assim por limpar todo o mal causado por este inimigo.

As Sailor Senshi e Mamoru Chiba regressam à vida, repostas as suas Star Seeds e Usagi volta a reunir-se com os seus amigos. A princesa das Sailor Starlights também regressa e estas decidem voltar ao seu planeta. No fim, somos presenteados com um momento romântico entre Usagi e Mamoru, sob o luar prateado da Lua Cheia a cobrir quase na totalidade o céu de Tokyo. Um final feliz, sem loose ends e com todas as histórias concluídas, deixando a possibilidade de uma continuação num futuro próximo.

Adeus Sailor Moon, até ao teu regresso!


Continuação essa que foi confirmada no ano passado. Este verão, vamos ser presenteados com uma nova temporada de Sailor Moon. Existem vários rumores sobre se esta nova temporada vai ser uma continuação da quinta, – o que em princípio tornaria difícil comercializá-la no ocidente, visto que a quinta temporada nunca foi transmitida em vários países – ou se vai ser um novo recomeço para a série, como fizeram com o Dragon Ball Kai. Existe ainda a possibilidade da nova série ser completamente diferente de Sailor Moon, pegando em novos personagens. É esperar para ver.

Podem estar a pensar sobre o porquê da quinta temporada de Sailor Moon nunca ter sido transmitida nos E.U.A. Não existe nenhuma versão oficial que justifique o sucedido. Apenas o rumor de que a autora da série, Naoko Takeushi, simplesmente “passou-se” com a censura e decidiu proibir que a série continuasse a ser transmitida internacionalmente. Já o facto de o sexo das Sailor Starlights ter sido alterado da Manga para o Anime, enfureceu-a ao ponto de praticamente desistir da série. Se bem que, a meu ver, esta alteração foi benéfica pois permitiu fortalecer a relação entre Usagi e Seiya.

Embora Sailor Moon tenha um número excessivo de fillers, os finais e os momentos chave de cada uma das temporadas fazem deste anime um dos melhores que alguma vez vi. Uma profunda história de amor, repleta de acção e de sacrifício pessoal com uma boa dose de comédia e entretenimento pelo meio. Aconselho a todos aqueles que gostam do género Magical Girl ou que acompanharam minimamente a série durante a sua infância, a reverem-na na sua versão original e a voltarem-se a apaixonar pelo mundo fantástico de Sailor Moon.


Deixo-vos com a cena final da quinta temporada de Sailor Moon:

Tuesday, December 18, 2012

Primeval: New World

Imagem DR
Os fãs da série britânica Primeval devem ter ficado exaltados quando foi anunciado que a estação canadiana Space ia produzir um spin-off para o mercado norte-americano. Eu reagi a esta notícia com algum entusiasmo, misturado com ansiedade para ver o resultado do produto final. Finalmente íamos ter uma temporada de Primeval com mais do que seis ou dez episódios por ano.

O resultado desta transferência transatlântica chama-se Primeval: New World, que estreou no passado dia 29 de Outubro. Com a emissão do oitavo episódio, a versão americana de Primeval entra agora em férias de Natal ainda sem data prevista para regressar. De uma encomenda original de 13 episódios – ainda não existem rumores sobre a possibilidade de mais episódios virem a ser produzidos – ainda teremos pelo menos mais cinco episódios para ver em 2013.

No final dos primeiros dois meses de emissão, tenho a dizer que a versão novo-mundana de Primeval deixa muito a desejar. New World, conta a história de Evan Cross, cientista e empresário, que ao investigar a origem de uma anomalia electromagnética é atacado por um Albertosaurus. Evan presencia então a morte da sua mulher sem ele poder fazer nada para a evitar. Como presidente da Crossphotonics, uma empresa de relevo na área do desenvolvimento de software e tecnologia, Cross decide dedicar a sua vida a estudar as anomalias e a tentar prevenir que outra tragédia como a que aconteceu à sua mulher se volte a repetir. Uma premissa bastante similar à da primeira temporada de Primeval, antes de ser criado o Anomaly Research Centre (ARC) e deles passarem a ter apoio governamental em larga escala para fechar as anomalias e proteger a população das criaturas que por elas atravessavam.

Visto New World tratar-se de um spin-off e não de uma série completamente nova, é natural que seja comparada à sua predecessora e que, consequentemente, seja vítima de escrutínio por parte dos seus fãs. Mas por mais objectivo que tente ser na análise a esta série, não a consigo deixar de ver sem um filtro condicionado pelo Primeval original.

O episódio piloto de New World prometeu bastante. Os actores ainda estavam um pouco em bruto, mas a acção e o ambiente de Primeval estava lá. Até o regresso de Connor Temple, a fazer a ligação com a linha narrativa da série britânica e a servir de instrumento de exposição para o Evan Cross, foi uma jogada de génio. Não há nada de pior do que quando um spin-off tenta desligar-se por completo da série que lhe deu origem como se esta nunca tivesse acontecido. Ou pelo menos parecia ser esse o caso.

Além desse primeiro aparecimento do Connor, não voltou a haver qualquer referência ao que se passa do outro lado do Atlântico, e o mistério sobre o ARC ainda se mantém. Compreendo que seja necessário tirar as rodinhas e deixar New World aprender a pedalar e a manter o equilíbrio sozinho. Contudo, o primeiro episódio deixou demasiadas questões em aberto que até agora têm simplesmente sido ignoradas.

Foi necessário esperar pelo último episódio antes do hiato de Natal para nos serem apresentadas algumas respostas, e para vermos um maior desenvolvimento da mitologia da série. A este ritmo, não estou a ver New World a conseguir sobreviver ao mercado norte-americano quando finalmente for emitida nos EUA. Embora ainda sem dados oficiais, esta série tem tido uma presença modesta na televisão canadiana. O episódio de estreia teve apenas 300 mil espectadores no Canadá, o que, quando comparado com os 7 milhões que assistiram à estreia do Primeval original no Reino Unido, deixa muito a desejar.

Os personagens até este ponto têm sido bastante superficiais e todas as tentativas de lhes dar alguma profundidade falharam redondamente até este último episódio. A própria acção também ficou aquém das expectativas. Embora esta série aposte fortemente em dinossauros – ao contrário da série britânica que recorreu muitas vezes a seres do cenozóico ou do paleozóico, e que chegou mesmo a inventar criaturas que não se encontram no registo fóssil ou que pertencem a épocas futuras – a forma como estes reagem quando são capturados, a sua estratégia de ataque e o seu comportamento no geral é muito pouco realista e demasiado óbvio.

Compreendo que para o mercado americano faça mais sentido usar dinossauros em vez de répteis, aves, insectos ou mamíferos extintos, visto que o seu público está mais familiarizado com as espécies, contudo, uma maior diversidade entre as criaturas que saem das anomalias também não faria mal. Pelo menos New World não classifica erradamente répteis do Pérmico como “dinossauros”, como chegou a acontecer com Primeval.

Não posso dizer que esteja inteiramente desapontado. Ao contrário do típico fanático impaciente, eu gosto de ver cuidadosamente uma série no seu todo antes de desistir por completo de a ver. Contudo, New World, até agora, tem estado bastante aquém das expectativas.

São necessárias mais referências a Primeval. Alguém do ARC tem que intervir e mostrar ao grupo de Evan Cross todo o mundo de pesquisa e protecção contra as anomalias que foi desenvolvido ao longo dos últimos anos. Os personagens têm que ser melhor desenvolvidos e tem que lhes ser dada uma maior profundida emocional. O último episódio demonstrou pelo menos uma intenção dos criadores em guiar a narrativa para esta direcção. Espero que aproveitem este impulso na história para entrarem com o pé direito em 2013.

Até lá, fico contente por voltar a haver uma série de ficção científica com dinossauros na TV. Guardo a esperança que um eventual sucesso de New World seja suficiente para fazer com que a ITV considere a possibilidade de fazer regressar Primeval.

Thursday, December 13, 2012

Arrow: O Herói que o Mundo Ocidental precisa

Imagem: DR
Arrow é a minha grande aposta para a temporada 2012/2013. Ontem foi emitido o nono e último episódio antes do hiato de Natal – Arrow regressa no dia 16 de Janeiro – e até ao momento esta série tem vindo a subir de forma constante na intensidade da narrativa, no desenvolvimento dos personagens e na cativação dos espectadores. É espantoso como Greg Berlanti, Marc Guggenheim e Andrew Kreisberg conseguiram pegar num dos super-heróis menos conhecidos do Universo DC Comics e torná-lo numa série que a meu ver tem tudo para se tornar numa referência dentro do género ao longo dos próximos anos.

Arrow é baseado na BD Green Arrow, pouco popular fora do mundo dos connoisseures de banda-desenhada, mas que nos últimos anos ganhou alguma popularidade através da série Smallville. Tendo seguido de perto Smallville, confesso que não tinha grandes expectativas para a estreia de Arrow. Na altura os rumores falavam de um reatamento da história do Green Arrow, talvez como uma prequela para os eventos que levaram Oliver Queen a Metropolis para se tornar no braço direito da jovem versão do Super-Homem. Não sendo grande fã de Justin Hartley (actor que protagonizava o papel de Green Arrow em Smallville), reagi com algum contentamento quando soube que tinham seleccionado outro actor para a série Arrow. Apesar disso, as minhas expectativas eram extremamente baixas. Felizmente, bastou ver o primeiro episódio para a minha opinião dar uma volta de 180 graus.

Arrow conta a história de Oliver Queen, um playboy nos seus vinte e poucos anos que regressa à sua cidade natal de Starling City após ter passado cinco anos como naufrago numa ilha perto da costa da China depois de ter sofrido um acidente de barco que vitimou o seu pai. A ilha mudou Oliver e moldou-o à imagem do herói que a sua cidade precisava. Antes de se sacrificar para que o filho tivesse uma hipótese de sobreviver, o pai de Oliver incutiu-o com uma missão de levar à justiça uma lista de nomes de homens poderosos que corromperam Starling City ao ponto do colapso social.

A série é contada a dois ritmos, dividida entre a vida dupla de Oliver Queen como The Hood (o nome dado na série ao mercenário que terroriza a vida dos ricos e poderosos de Starling City) e os flashbacks dos seus dias passados na ilha. Cada episódio é repleto de momentos de suspense e de alta tensão narrativa e emocional, o que mantém o espectador atento até ao último segundo. As introduções de cada episódio são tão épicas e tão bem construídas que às vezes chegam a um ponto de serem exageradas no nível de tensão criado nos primeiros minutos do episódio.

Apostar em Green Arrow foi uma jogada de génio. Numa sociedade assolada por casos de corrupção, desemprego e austeridade, quem melhor do que um herói cujo mote é levar os empresários multimilionários (ou os 1% como são comummente chamados) à justiça através do medo e da intimidação? Mesmo o mais pacato dos espectadores deve ferver de empatia para com a causa de Oliver Queen sempre que ele aponta a sua seta e afirma: You have failed this city! Quantos de nós já não sonharam em chegar à beira de Passos Coelho ou de Miguel Relvas e pô-los a chorar que nem bebés após afirmarmos em voz alta: You have failed this country!

Podem levantar a questão sobre um rapaz que pertence aos 1% atacar os seus pares quando ele próprio faz parte do problema. Aí, Arrow apresenta uma boa construção narrativa que transmite profundidade suficiente ao personagem para que ele sofra com estas questões e lide com os seus demónios interiores de uma forma resguardada mas facilmente identificável pelo mais desatento dos fãs.

Do guião à realização, apenas tenho coisas positivas a dizer sobre esta série. Com uma média de três milhões de espectadores por episódio não é tão popular como Revolution, mas esta devia dar melhor atenção a Arrow e apender como se constrói uma narrativa sólida e uma história cativante.

No dia 22 de Outubro o CW (canal responsável pela transmissão de Arrow) já deu o aval para a encomenda de uma temporada completa de episódios de Arrow. Até Maio podemos contar com a companhia deste super-herói que se continuar por este caminho, vai ser presença assídua nas nossas televisões durante os próximos anos.