Friday, March 05, 2021

The Real Story of Sur le Pont d’Avignon

The Real Story of Sur le Pont d'Avignon, Jerome na Ponte

Crescer nos anos 90 significava que os sábados de manhã eram sinónimo de desenhos-animados. Era uma tradição profundamente embrenhada no nosso consciente colectivo. Mais do que ansiar pelo fim-de-semana para não ter que ir à escola, queríamos sim saber em que novas aventuras os nossos heróis se tinham metido.

Após terminar o meu prato de estrelitas, a minha companhia para aquelas manhãs eram animes como Sailor Moon, Dragon Ball ou Pokémon, séries live action como Power Rangers, Beetleborgs ou VR Troopers, e séries de animação icónicas como Denver, the Last Dinosaur, Widget, the World Watcher, Captain Planet ou A Carrinha Mágica.

Com modelos como estes é assim tão impressionante que toda uma geração tenha crescido com uma vontade inabalável de proteger o ambiente?

Infelizmente, nem todos os desenhos-animados daquele tempo sobreviveram até aos dias de hoje. Alguns transformaram-se em séries de culto, alimentando grupos de fãs que procuram algo fora da norma, enquanto outros simplesmente se perderam, sobrevivendo apenas na memória de quem os viu.

Em 1992 o estúdio de animação franco-canadiano Cinar produziu um desenho-animado com o nome de ‘The Real Story of’. Entre 1991 e 1994 foram produzidos 13 episódios, cada um com cerca de 23 minutos de duração. Cada episódio tinha como premissa mostrar a “verdadeira” história de uma popular música infantil.

Em Portugal este desenho-animado foi emitido pela RTP com repetições regulares durante a década de 90 nos dias próximos ao Natal. Havia um em particular, sobre a música francesa Sur le Pont d’Avignon, que dava todos os anos na manhã da véspera de Natal. Raro foi o ano que não o apanhava a dar, sem fazer qualquer esforço para o ver. Talvez por isso, acabou por se tornar para mim numa pequena tradição natalícia.

Numa estranha tradição natalícia. Afinal, este episódio nada tem a ver com o Natal. E, como se isso não bastasse, a sua história estava longe de ter um final feliz.

Este episódio começa numa noite há mais de duzentos anos atrás, durante uma festa sobre a ponte de Avignon. Esta festa conta com a presença do Rei e de vários artistas de circo, incluindo o habitual bobo da corte. Na entrada da ponte estava um órgão enorme que, ao dar à manivela, conseguia ler e tocar uma partitura de música similar aos cartões furados que eram lidos por aqueles gigantes computadores dos anos 60. A música era, sem grande espanto, Sur le Pont d’Avignon.

Durante a festa, o bobo da corte decide roubar um saco de ouro que o Rei tinha no seu trono e escondê-lo no interior do órgão. O Rei apercebe-se da ausência do seu saco e trava as festividades para que o mesmo possa ser encontrado.

Para se safar, o bobo da corte acusa o dono do órgão de ter roubado o saco de ouro do Rei. O Rei, sem hesitação, ordena que o senhor seja executado no local. O velhote, que pelos vistos tinha poderes mágicos, amaldiçoa o Rei e faz com que a ponte caia levando com ela todos os feirantes, incluindo o bobo da corte, forçando as suas almas a dançarem naquela ponte ao ritmo da canção Sur le Pont d’Avignon para toda a eternidade.

A maldição só será levantada quando ao balar da meia-noite, o órgão tocar aquela música até ao fim. Para evitar que isto aconteça, o dono do órgão rasga a partitura ao meio e deixa que o vento leve uma das metades para longe.

O Rei vê incrédulo a sua ponte cair e nada faz para salvar as pessoas que nela estavam.

Avançamos de seguida para a actualidade, ou pelo menos para a actualidade de 1992, onde uma criança chamada Jerome visita o seu avô, uma figura muito semelhante ao dono do órgão, que tem uma loja de antiguidades. O Jerome tem um esquilo de estimação por algum motivo. Isto é pouco relevante para a história mas achei que deviam saber.

Enquanto Jerome fala com o seu avô na sua loja de antiguidades um polícia entra pela porta a dentro com um decreto a exigir que o avô de Jerome pague uma dívida que tem em falta ou então será forçado a fechar a loja.

Jerome e o seu avô procuram por algo valioso para pagar a dívida no interior da loja e encontram na sua cave o órgão. Jerome roda à manivela, a música começa a tocar e, lá fora, vemos a parte da ponte que caiu a reaparecer com umas figuras encapuçadas a dançar ao som da música. Entre estas figuras fantasmagóricas está o bobo da corte que, de alguma forma, consegue se libertar do feitiço e atravessar a ponte para o Mundo real.

Jerome descobre que falta metade da partitura do órgão e, na manhã seguinte, vai com o seu avô ao arquivo municipal procurar pela outra metade. O bobo segue-os e, por acidente, acaba por encontrar a outra metade da partitura numa sala do arquivo.

Segue-se uma perseguição de Jerome e do seu esquilo ao bobo pelos telhados de Avignon. Perseguição essa que desafia as leis da física de forma mais descarada que qualquer filme de Velocidade Furiosa.

No fim Jerome consegue apanhar a segunda metade da partitura e colá-la à metade que estava no órgão. O bobo tenta travá-lo, sem sucesso, acabando por desistir de tentar viver no Mundo actual, regressando por fim à ponte para se juntar aos restantes feirantes.

Quando bate a meia-noite o avô de Jerome faz o órgão tocar. A ponte volta a aparecer com as mesmas figuras encapuçadas a dançar. Quando a música chega ao fim, as figuras libertam as suas mantas e revelam os feirantes que tinham caído com a ponte. Estes juntam-se numa nuvem e sobem aos céus, as suas almas enfim livres da maldição.

A nuvem é uma amálgama da cara dos diferentes feirantes que, ao subir, cantam a música Sur le Pont d’Avignon.

Jerome encontra o saco de ouro no órgão e oferece-o ao avô para pagar a dívida e manter a sua loja aberta.

The Real Story of Sur le Pont d'Avignon, A Núvem

Como podem perceber, este episódio ficou gravado na minha memória não por ser uma recordação feliz, mas por ser bastante perturbador. Não admira que seja praticamente impossível encontrá-lo online. Este desenho-animado é capaz de dar pesadelos até mesmo a adultos.

Por onde começar. Se foi o Rei quem acusou erradamente o dono do órgão, por que decidiu ele matar todos os feirantes e não o Rei? Por serem meros servos? Pessoalmente não sou favorável a chacinar inocentes pela acção de um único ladrão, muito menos a condená-los a passar a eternidade a dançar numa ponte caída.

Compreendo que estes feirantes teriam dificuldades em adaptar-se ao Mundo actual, no entanto este final é bastante anticlimático. Após séculos a dançar numa ponte a sua recompensa é transformarem-se numa nuvem e subir aos céus a cantar a mesma música que os atormentou?

Não me recordo de ver uma tortura tão penosa nem sequer n’A Divina Comédia. E isto era um desenho-animado dirigido para crianças de tenra idade.

Compreensivelmente, este episódio não está disponível na sua versão original online. No entanto, existe uma versão deste episódio com uma voz polaca a falar por cima das falas das personagens no Youtube. Não chamaria a isto uma dobragem visto que é sempre a mesma voz a falar e, quem tem bom ouvido, consegue ainda perceber as falas originais em inglês.

Podem ver o episódio nas seguintes ligações: Parte 1 | Parte2

Friday, November 13, 2015

Em Busca do Vale Encantado

The Land Before Time
Some things you see with your eyes, others, you see with your heart.

Littlefoot’s Mother, The Land Before Time

São raros os filmes que podemos ter a sorte de ver pela primeira vez em mais que uma única ocasião. Foi assim que começou a minha história com o Em Busca do Vale Encantado. O filme estreou em 1988 nos EUA, o mesmo ano em que nasci, mas apenas chegou a Portugal a 28 de Julho de 1989, mesmo assim, ainda era demasiado cedo para eu ter qualquer ideia ou vontade de o querer ver no cinema.

Tive que esperar mais sete anos por um dia de aulas especial. A minha professora da primária trouxe o filme em VHS para vermos naquela tarde. Não me recordo bem do ano, mas creio que foi em 96. Lembro-me que era uma tarde primaveril, não muito quente, nem muito fria. A minha escola não tinha os melhores meios, a única televisão que tínhamos já era velha, mesmo na altura, e bem pequena. Sentámo-nos todos em U nas cadeiras ou no chão a ver o filme, ou pelo menos a tentar. Na altura não o consegui ver bem. As outras crianças estavam impacientes, queriam brincar ou apenas estar na conversa. Lembro-me de algumas cenas do filme, meros flashes de recordações. Lembro-me do tom sombrio do ataque do Sharptooth, e da mãe do Littlefoot a defender o seu filho. Mas pouco mais.

A verdade é que na primeira vez que vi o Em Busca do Vale Encantado, não lhe prestei qualquer atenção. Meses mais tarde, o filme passou na RTP. Vi-o com a mesma atenção que dava a qualquer desenho-animado que encontrava na televisão, era já a segunda oportunidade que este filme tentava apelar à minha imaginação, mas por um motivo ou outro eu teimava em não ceder.

Foi apenas em Dezembro de 1997 que o vi pela primeira vez, que o vi verdadeiramente pela primeira vez. Nesse mês a RTP preparava-se para estrear na televisão nacional o Jurassic Park. Para comemorar essa data, esse Dezembro foi o mês dos Dinossauros. As semanas que antecederam a estreia do Jurassic Park ficaram marcadas por três filmes do Em Busca do Vale Encantado, todos eles dobrados em Português Europeu. Três versões únicas que nunca foram comercializadas em VHS ou DVD. Na primeira semana mostraram o filme original.

Embora já o tivesse visto duas vezes antes, desta vez fiquei agarrado. Lembro-me de chorar quando a mãe do Littlefoot morreu, da sensação de espanto e de felicidade que me assolou quando o Vale Encantado é revelado para o Littlefoot entre as nuvens no topo da cascata. Lembro-me da montanha russa de sensações que este pequeno filme me fez sentir. Quando terminou estava tão feliz. Sentia-me tão parvo por o não ter conseguido ver nas outras oportunidades que tive. Foi aí que a minha paixão por esta série de filmes começou.

Na semana seguinte mostraram o Em Busca do Vale Encantado III, O Tempo da Grande Partilha. Por algum motivo saltaram o segundo filme. Só o descobri meses mais tarde na biblioteca municipal. O terceiro filme foi durante muitos anos a minha sequela menos preferida. Passava bem sem o ver, muito por causa do primeiro e do segundo, mas mais ainda por causa do IV.

Dias antes da estreia de Jurassic Park, a RTP mostrou o Em Busca do Vale Encantado IV, Viagem através da Neblina. Nessa tarde tive que ir a um evento religioso numa terra longe de Ovar com os meus pais e a minha avó. Deixei então o vídeo a gravar para o poder ver mais tarde, e foi a melhor coisa que podia ter acontecido.

Quando alguém me pergunta qual é o meu filme preferido, a minha resposta é sempre a mesma, o Em Busca do Vale Encantado. Sem hesitações. Contudo, foi o quarto filme, a Viagem através da Neblina que me manteve colado a este franchise. É, até este dia, a minha sequela preferida e rivaliza com o filme original por um lugar especial no meu coração. A versão em Português Europeu é tão perfeita, das melhores dobragens que alguma vez vi. Tenho pena que a nunca tenham comercializado, contudo, graças a esse feliz infortúnio de a ter gravado, ainda hoje tenho comigo, agora em DVD, uma das poucas cópias alguma vez gravadas desta versão.

Não consigo sequer ver a versão em Português do Brasil, e mesmo a original em Inglês fica em segundo plano quando comparada com esta minha cópia do Em Busca do Vale Encantado IV. No ano seguinte consegui gravar também o filme original, já o III não mais voltou a ir para o ar.

A Viagem através pela Neblina é a sequela perfeita. Apresentam Ali, uma Long Neck como o Littlefoot, e a personagem que mistificou a série com a promessa do seu regresso. A cada nova sequela que saía aguardava impacientemente por algum sinal do seu retorno. Contudo, este apenas aconteceu na série de TV que já chegou tarde em 2007. Tarde e de uma forma desapontante, num episódio onde pouca ou nenhuma atenção é dada à personagem.

A minha paixão pelo Em Busca do Vale Encantado tardou a chegar, mas quando finalmente o senti, não mais o larguei.

Este Verão recebi a melhor notícia que nem em sonhos acreditava alguma vez chegar a ouvir. O Em Busca do Vale Encantado XIV estava em produção com estreia marcada para Fevereiro/Março de 2016.

Nove anos depois da última sequela e da série que acabaram com o franchise, o Em Busca do Vale Encantado está de regresso. Littlefoot, Cera, Ducky, Petrie e Spike estão de volta em mais uma nova aventura, após um longo período de ausência.

Voltei a escrever em fóruns e todos os dias procuro por novas informações sobre a data de lançamento do novo filme. O trailer deixou-me ansioso por este reencontro com as personagens que durante tantos anos ocuparam as minhas tardes. Dos meus mais velhos amigos ficcionais, da série de filmes que faz mais parte de mim do que qualquer outra coisa na minha vida.

Sinto-me como quando era criança e via os anúncios do lançamento das novas sequelas no Cartoon Network, e calculava pacientemente o número de meses que estas iriam demorar a chegar a Portugal.

Após tantos anos de ausência o Em Busca do Vale Encantado está de volta e não podia estar mais feliz.