Tuesday, September 04, 2018

A Anunciada Extinção da Estranha Espécie Conhecida por Avec

Sistela, Foto: Adriano Cerqueira
Todos os Verões há um fenómeno migratório que transforma o Norte e o Interior do país em uma amálgama de matrículas amarelas, memorabilia da selecção nacional de futebol, e trajes de um estilo que, no mínimo, podemos pensar como arrojado. Este fenómeno está tão enraizado na cultura destas regiões que as diversas vilas e aldeias que as povoam lhe dedicam extensos arraiais e romarias, sempre antecipando uma farta participação daqueles que trocam os seus habitats naturais nas planícies francesas, belgas e suíças, pela sua casa de Verão algures guardada em um canto de Portugal

Não é, inclusive, incomum que os dialectos próprios destas regiões sejam substituídos por um primo esquecido das línguas românticas que algures entre o português e o francês ficou perdido na tradução.

Há já quarenta anos que os locais se habituaram a receber estes migrantes, reservando assim, integralmente e sem marcação, o seu querido mês de Agosto para os deixar o mais confortáveis possível e para garantir que os seus carros alugados sejam exibidos dentro da sua comunidade como se fossem eles os seus donos.

Contudo, esta tradição tem os seus dias marcados. O prognóstico não é favorável e, sem qualquer dado empírico que o suporte, não acredito que a mesma sobreviva aos próximos vinte anos.

O tempo será o culpado por esta esperada extinção. O tempo e o próprio mote que motiva a periodicidade desta migração.

A geração que em tempos partiu para fugir à ditadura em busca de um novo emprego algures no centro da Europa há muito que deixou para trás a vivacidade da sua juventude. As novas gerações que entretanto nasceram já se encontram tão embrenhadas no tecido multicultural dos países que habitam que qualquer traço de portugalidade apenas ainda resiste na sua genética.

Poucos falam português, pelo menos não de forma fluente. As recordações que trazem dos seus Verões passados com os pais são de um Portugal de interior, pobre, aborrecido e parado no tempo.

Não exploraram o país que havia para lá das suas vilas. Não conheceram as pessoas que viviam fora dos muros construídos pelos seus vizinhos e pelos seus parentes. Vinham de carro e entravam em Portugal ora por Vilar Formoso, ora por Viana do Castelo. 

Não conhecem Lisboa, não conhecem o Porto. Das restantes capitais de distrito, pouco ou nada sabem. Aqueles que visitaram o litoral fizeram-no fechados em tendas com churrascos à beira-mar, e pouco, ou nenhum, contacto com os locais. 

O Portugal que eles conheceram é hoje apenas uma caricatura, uma imagem transmitida através das salas e dos quintais dos familiares que cá ficaram.

Podem até manter uma ou outra recordação de infância mas, para eles, a ideia de passar um Verão inteiro a visitar familiares e a saltar entre arraiais está muito longe de ser uma opção viável para as suas férias.

As novas gerações não têm uma língua quebrada entre fragmentos de outras duas. As novas gerações falam francês, alemão ou inglês. São gerações qualificadas. Integradas na sua comunidade. Gerações com vontade de viajar.

As suas férias não são passadas em Portugal, mas sim em Itália, na Grécia, no Vietname, na Tailândia, no Japão, na Austrália, nos EUA ou no México. Os seus fins-de-semana prolongados são divididos entre Paris, Berlim, Viena ou Amesterdão.

O quão mais integrados estiverem, menos verão esta migração a Portugal como um mal necessário. Enquanto os seus pais insistirem, vão continuar a regressar. Primeiro durante um mês, depois por duas semanas, uma semana, e enfim, talvez apenas um fim-de-semana lá para o Natal.

De anual, para de ano a ano, de quatro em quatro, para nunca. Talvez ouçam alguns amigos franceses a elogiar o país. A mostrar as fotos que tiraram no Porto, em Lisboa, no Algarve, nos Açores ou na Madeira. E talvez aí pensem em regressar. Não à terra. Não. Os familiares que aí habitam já não os conhecem, e os vizinhos há muito que se mudaram. 

Quando regressarem vão chegar por um dos aeroportos. Vão visitar as nossas cidades, as nossas praias e um ou outro destino turístico. Vão ser turistas indistintos de outros quaisquer. 

As vilas do nosso interior vão enfim ver-se livres das infindáveis matrículas amarelas e os seus arraiais vão ter que se reinventar para garantir a sua sobrevivência.

Esta tradição está condenada e a poucos anos de se consumar como uma breve nota de rodapé na história de Portugal.

Não vale a pena esperar uma nova vaga desta tradição através dos mais recentes emigrantes. 

Ao contrário dos primeiros, estes, quando saíram, já eram fluentes em ambas as línguas. Não foram para França ou para a Suíça, mas sim para o Reino Unido, para a Alemanha, para a Dinamarca e para os EUA. São novos migrantes. Migrantes qualificados. Ambiciosos. Migrantes que, em muitos casos, nem sequer procuraram emprego em Portugal.

Muitos optaram logo por uma posição lá fora que lhes garante um salário mais alto e melhores condições que aquelas que alguma vez as nossas empresas lhes seriam capazes de oferecer.

As suas férias são passadas a viajar pelo Mundo fora. São uma geração europeia, cosmopolita e multicultural. Uma geração Erasmus, com vontade de atravessar novos horizontes. Uma geração que quando emigra não o faz para juntar dinheiro para um dia regressar, mas sim para construir a sua carreira e, talvez, uma família lá fora.

Vão sempre voltar para visitar os seus familiares mas, não no Verão, não durante um mês. O Natal, a Páscoa e outras datas importantes serão as escolhidas. Também estes vão regressar de avião e não de carro. Não vêm para impressionar ou meter inveja a ninguém, mas sim para matar saudades da família e daqueles que ficaram e para, em breve, regressarem à vida que lá fora constroem em permanência.

O destino está traçado e o alarme está prestes a tocar. Em breve o único motivo de reportagem na fronteira de Vilar Formoso será a ausência de tráfego onde antes muitos faziam fila. De carro cheio, sorridentes, e com novas matrículas amarelas para passear pela sua aldeia.

Um postal que, não tarda, passará a ficar guardado numa qualquer gaveta da memória colectiva da nossa história contemporânea.

Thursday, August 08, 2013

Vem Sentar-te Comigo, Maria, à Beira do Rio

Imagem DR

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Ricardo Reis

Incontáveis. Inúmeras. Perdemos a conta às pessoas que passam pela nossa vida. Desconhecidos que nos acompanham por breves instantes. Amigos que caminham ao nosso lado. Cada um, uma personagem, uma vida, um destino. 

Hoje, sento-me na beira da estrada. Por entre a multidão, alguém se destaca. Chamo-a e ouço a sua história. 

Maria. Longe de ser a primeira candidata para rainha do baile, raro era o rapaz que não reparava nela. Sempre presente nas festas e nos eventos mais importantes, Maria possui uma aura única que atrai as pessoas para ela. Convicta e determinada, nenhum obstáculo a impede de lutar pelos seus objectivos. Maria constrói o seu destino com as suas próprias mãos.

Nos tempos do liceu, era comum encontrá-la na biblioteca durante os intervalos. Com um livro de arquitectura nas mãos, e um brilho nos olhos. A sua paixão por esta arte era algo que a acompanhava desde muito cedo. Passear por uma cidade com ela, abria os olhos de quem a acompanhava, para os mais ínfimos pormenores de beleza de todos aqueles edifícios históricos, que apenas Maria conseguia encontrar.

A cidade ganhava vida. Como se uma doce música entoasse em perfeita sintonia, a cada esquina que ela passava, a cada sílaba que ela dizia, a cada peça de arte que ela revelava. 

Maria seguiu o seu sonho. Viajou. Acabou o curso. E acordou para a realidade. Mas não deixou o desespero apoderar-se do seu espírito. Maria bateu a todas as portas. Quando nenhuma se abriu, voltou a viajar. Inglaterra, Dinamarca, Suécia e Estados Unidos. Uma cidade nova a cada ano que passava. Uma nova porta que se abria. Uma carreira construída a custo, com um elevado nível de satisfação.

Não teve medo. Arriscou. Construiu a sua própria escadaria de sucesso. Cada degrau trabalhado por lágrimas de esforço. Por boas e por más recordações. Por erros e por rasgos de génio. Por competência e desleixo. Por ensino e experiência.

Maria chegou mesmo a conhecer alguns dos seus ídolos. Seguiu os seus passos, e hoje trabalha em proximidade com alguns deles. O sonho de Maria, virou paixão e desejo. A cada dia que passa, aquela rapariga de uma pequena cidade portuguesa, torna-se num exemplo de perseverança. 

O seu sonho é hoje realidade pois Maria não teve medo de partir. Não teve medo de olhar a adversidade nos olhos, e de sorrir perante o desafio. 

É difícil deixarmos a nossa casa. A nossa família. Os nossos amigos. Mas por vezes, é necessário. Maria não se conformou. Não aceitou algo abaixo da sua ambição. Tudo que ficasse aquém daquilo que desejava, não era suficiente. 

Maria é hoje uma cidadã do Mundo. Uma arquitecta de renome. Estável e concretizada. Feliz por ver o seu sonho realizado. E por saber que aquela adolescente que passava os intervalos na biblioteca, olha hoje para ela com orgulho e admiração.

Comovido pela sua história, despeço-me de Maria. Tal como o resto da multidão, também ela segue o seu caminho, levando consigo apenas a certeza de que nada a irá impedir de alcançar o seu destino.

É difícil sairmos da nossa zona de conforto. É difícil arriscar. Deixar tudo para trás. É difícil, mas a perda é passageira, quando o ganho é tão elevado. Tristeza apenas sente quem abdica do seu destino. Quem se conforma. Quem desiste.

Levanto-me. É hora de me fazer à estrada. Longe da multidão, levo comigo a história de Maria. Inspiração para o caminho que se segue. Motivação para o desconhecido que o amanhã reserva para todos nós.

Tuesday, August 15, 2006

Matrículas Amarelas

Imagem DR
Agosto é o mês predilecto para o típico Português tirar uns dias de férias. Consequências disto são as praias atoladas, e os parques de estacionamento completamente cheios. O que por vezes obriga as pessoas ou a deixar o carro em casa ou a estacionar em sítios menos próprios, como vias sem saída, rotundas, ou até mesmo na própria areia.

Além destes comportamentos de mau condutor, ou de desesperado ignorante das normas da estrada, é fácil reparar nos vários carros com matrículas amarelas com caixas azuis que exibem as estrelas da União Europeia (UE), e as letras F, L, D, ou até mesmo em algumas matrículas brancas com um autocolante com as iniciais CH. Como já devem ter reparado, estas siglas fora do comum são sinónimo de estrangeiros, ou de estrangeirados.

A primeira ideia que vem à mente de uma pessoa é que estes carros pertencem a emigrantes, filhos que deixaram a sua terra, e que agora retornam por alguns dias para ocupar os parques de estacionamento. Porém, a grande questão que perturbou os Deuses ao longo dos milénios é esta: Por que são as suas matrículas amarelas?

A acompanhar, e a conduzir estes veículos, vêm pessoas que parecem saber falar Português mas que se trocam entre línguas tão variadas como o Francês, o Alemão, e o ocasional Inglês. Mas este filho prodigamente regressado, não traz o carro às costas. Em vez disso, opta por vir de avião e recorrer a uma agência de rent-a-car. Aí, as matrículas amarelas até se justificam, sendo facilmente reconhecidas como carros de aluguer pelo já habitual P por debaixo das estrelas da UE.

É possível então supor que, se por cá é costume alugar um carro e este ter uma matrícula amarela, os carros que os emigrantes usam para se deslocar são também eles alugados?

Nem todos estes carros são carros, muitos deles vêm em caravanas. Assim, não só poupam em alojamento, como irritam aquele comum veraneante que apenas queria estacionar naquele lugar mas que acaba por desistir, visto o seu carro não caber no pequeno espaço, que até seria maior se não estivessem ali as ditas caravanas – ditas ou malditas, fica ao critério do leitor.

Retornando ao tema principal, sim, é lógico alugar uma caravana para uma viagem superior a mil quilómetros. Fica mais barato que o alojamento, e não vale a pena comprar uma caravana se só a usamos uma vês por ano, ou uma vês de ano a ano, ou seja lá como for.

Salva a excepção de sermos postos fora de casa, e esta acabar por ser o nosso único refúgio, para quê sermos donos de uma caravana? Tal emergência é demasiado rara, e insuficiente para justificar tamanho investimento. Logo, nas caravanas até aceito a existência de matrículas amarelas, mas o que têm então os carros ligeiros a dizer em sua defesa?

Será que os emigrantes alugam carros de maior cilindrada, e mais vistosos, apenas para impressionar os familiares lá da terra? Estarão eles simplesmente a poupar a quilometragem dos seus carros pessoais? Ou será que não possuem carros particulares devido à "excelente" qualidade dos transportes públicos dos seus países de acolhimento?

A terceira é pouco provável, a primeira deve ser verdade em muitos casos, mas partindo da ideia tão Portuguesa, de que no poupar é que está o ganho, então vemos que os emigrantes até sabem cuidar das suas coisas. Isto, como tudo, levanta outra questão: Não vos ficaria mais barato virem de avião e alugarem um carro cá?

Para alimentar o mistério, e chatear os Deuses ao ponto de quererem mesmo fazer alguma coisa acerca disto, andam por aí alguns com matrículas brancas. Talvez um dia alguém seja capaz de desvendar este mistério. Até lá, fica por aqui um dos grandes enigmas esquecidos do nosso Verão.