Friday, October 04, 2019

Twitter à distância de onze anos

Aniversário do Twitter

Foi numa aula de Novos Media já no meu terceiro ano de faculdade que me foi dada a conhecer uma nova rede social que, na altura, estava ainda longe de alcançar o impacto mediático que hoje tem. Estou a falar, obviamente, do twitter.

De microblogue, a sala de chat, de um espaço para criar e contar histórias, a uma caixa-de-ressonância de opiniões, ao longo dos últimos anos vi esta rede social evoluir e transformar-se. Muitos daqueles que conheci nesses primeiros tempos há muito que deixaram de participar no dia-a-dia desta rede. Alguns porque já não se identificam naquilo que ela se tornou, outros porque encontraram noutro espaço algo mais aliciante com o qual perder o seu tempo.

Quando comecei a usar esta rede usava-a essencialmente como uma plataforma para partilhar ideias e pensamentos. Era um microblogue usado para partilhar todas aquelas frases soltas demasiado pequenas para justificaram o espaço e a energia que uma publicação em um dos meus blogues exigia.

Cedo comecei a observar que nem todas as pessoas usavam o twitter da mesma forma. Algumas limitavam-se a partilhar ligações de notícias, vídeos ou outro tipo de conteúdo que achavam interessante, enquanto outras tinham transplantado a essência do mIRC para esta plataforma, e usavam-na como uma simples sala de chat para conhecer e interagir com novas pessoas.

Demorei algum tempo, confesso, mas eventualmente aprendi a responder, a fazer retuítes e a interagir com os diferentes utilizadores que povoavam esta rede. Ainda sou do tempo, sim, neste caso terei mesmo que usar esta expressão, mas de facto, ainda sou do tempo em que era possível ver as interacções de um utilizador com contas que nós não seguíamos. Foi, aliás, desta forma que conheci muitas das pessoas com quem interagi nos meus primeiros anos de twitter.

Um dos episódios mais caricatos foi quando aprendi a utilizar hashtags. Já tinha visto pessoas a colocar cardinais antes de uma palavra mas nunca percebi ao certo porque o faziam. Um dia, a acompanhar um evento, perguntei a várias pessoas o que era uma hashtag e qual a ligação que deveria colocar no meu navegador para acompanhar esse evento.

Após algumas tentativas frustradas acabei por recorrer ao Google, onde aprendi que uma hashtag era uma etiqueta precedida de um cardinal usada para ligar uma série de tuítes a um único evento.

Hoje em dia, basta carregar em uma dessas etiquetas para ver todos os tuítes em que elas são incluídas. Naquela altura não. Se queríamos seguir uma determinada hashtag era necessário ainda pesquisar por ela. Felizmente, esta alteração, ao contrário de muitas outras, acabou por ser positiva. Tanto que rapidamente redes como o facebook e mais tarde o instagram também adoptaram esta técnica, ignorando onde a mesma tinha sido originada.

Durante estes onze anos, confesso mais uma vez que nem sempre fui um utilizador assíduo. Por volta de 2012, já muitas das pessoas com quem convivia e falava numa base diária tinham saído desta rede. A partir daí comecei apenas a usar o twitter para divulgar artigos do meu blogue, notícias de ciência, música, vídeos e um ocasional pensamento solto.

Foi em 2015 que decidi voltar a usar esta rede de forma habitual. Comecei a seguir novas contas, a responder e a interagir com novas pessoas e, eventualmente, comecei a criar conteúdo que ia muito além da divulgação de projectos pessoais ou de pensamentos soltos.

Ao fim destes onze anos testemunhei como o twitter, os seus utilizadores, e o universo das redes sociais se alteraram em consonância com as vontades e com as necessidades das pessoas e do mercado digital.

Com esta riqueza de utilizadores com conceitos, ideias, percursos e histórias de vida distintas, o twitter transformou-se naquilo que é hoje. Para o bem, e para o mal.

Ao longo deste processo de transformação aprendi a identificar os diferentes tipos de utilizadores que coabitam nesta rede social. Podemos encontrar onze géneros claros de utilizadores que, primeiro em 140, e hoje em 280 caracteres, usam esta rede com os seus próprios propósitos e objectivos.

Algumas pessoas reflectem um pouco de cada um, mas é ainda possível encontrar exemplos de contas dedicadas apenas a um único foco.

O Ideólogo

Foi uma das primeiras espécies a habitar o twitter. São pessoas que publicam pensamentos e conversas internas sem nunca interagir com ninguém. Se em tempos eram a forma mais popular de usar este rede, hoje são vistos como párias, ignorando por completo um dos principais pilares de qualquer rede social, a interacção.

As Câmaras de Eco

Utilizadores que usam a sua conta para partilhar notícias, vídeos ou ligações sem nunca produzirem conteúdo próprio. Se têm alguma espécie de interacção com outras contas ou utilizadores, fazem-no apenas à base de retuítes.

Os Workaholics

Contas ‘profissionais’ usadas apenas para partilhar eventos relacionados com trabalho, ou com projectos desenvolvidos pelo seu utilizador. A interacção é mínima, usando a rede social como uma montra para eventuais empregadores. São pessoas para quem as redes sociais são uma ferramenta que usam para construir a sua própria personagem. O objectivo final é retirar os proveitos da sua popularidade online para fazer crescer a sua carreira profissional.

Os "papa conferências"

Estas contas limitam-se a fazer o acompanhamento de conferências. A opinião é dada através da selecção das citações dos oradores acompanhadas das hashtags do evento. A maioria apenas funciona uma vez por ano mas alguns parecem fazer vida disto.

Os storytellers

Uma espécie ameaçada que chegou até a ser alvo de notícias há cerca de oito anos. Foram um dos primeiros fenómenos associados a esta rede. Estas contas usam o twitter para contar pequenas histórias. Aspirantes a escritores que encontraram nos 140 caracteres, que agora são 280, o desafio ideal para a sua procrastinação.

Os endoutrinadores

Espécie que apareceu por volta de 2016. Políticos ou aspirantes a tal, que usam o twitter para criar bolhas de opinião onde o debate tem sempre um único sentido. Rodeiam-se de Yes Men que controlam para tentar humilhar e calar quem tem uma opinião diferente.

Os produtores de conteúdo

Especialistas e pessoas comuns que usam esta rede para partilhar e esclarecer temas que podem ou não estar na berra da agenda mediática. Conhecidos por construir longas threads, disponibilizam sempre fontes e ligações para quem quer saber mais.

Os facebookers

Pessoas que cresceram com o facebook e que tentam replicar a experiência que lá tiveram nas restantes redes sociais. Usam o twitter para partilhar fotos e acontecimentos do seu dia-a-dia na esperança de receberem gostos e interacções.

Os perfis ligados

Contas que apenas existem porque ‘temos que estar em todo o lado’. Os seus tweets são apenas links de publicações feitas no facebook ou no instagram. A interacção é rara e muitas vezes inexistente.

Os sociais

Malta que está aqui desde o início e que ainda usa o twitter como uma sala de chat. Dizem ‘bom dia’ e passam o tempo a interagir com outras pessoas, seja através de respostas ou por mensagem privada.

Os trolls

Utilizadores que apenas existem para ver o Mundo a arder. Nunca dizem nada sério. Insultam tudo e mais alguma coisa. Os perfis são falsos e devem ser sempre evitados. Alimentam-se de atenção. Sem atenção acabam por definhar.

Cada um de nós já passou por um destes diferentes estágios num certo momento. Alguns ficaram presos a uma destas identidades, outros fluem entre aquelas que mais se adequam à sua personalidade. É esta riqueza que torna o twitter um espaço tão interessante e, ao mesmo tempo, tão perigoso.

Para mim? Para mim continua a ser aquela casa onde os meus pensamentos, as minhas ideias, as minhas notas soltas sobre um determinado tema, habitam, coabitam e viajam para lá das páginas da minha mente, e para lá da projecção da minha voz, ou da minha escrita.

Não é um espaço que me define, mas é um espaço onde sei que tenho, e onde sempre irei ter, a minha voz.

Wednesday, November 28, 2018

Toxicidade

Imagem DR

Há cerca de três anos decidi deixar o facebook. Esta decisão não foi assim tão simples pois, para mal dos meus pecados, uma das minhas funções na empresa onde trabalhava então era a de gestor de redes sociais.

Tive assim que chegar a um compromisso. Tinha que arranjar uma forma de continuar a usar o facebook sem me ausentar desta plataforma. A solução mais simples passaria por criar um perfil anónimo para gerir a página. Contudo, isto entra em conflito com a minha necessidade de usar o seu sistema de mensagens.

Na verdade queria deixar de usar a timeline do meu facebook, mantendo todos os restantes benefícios que esta plataforma proporciona.

Optei enfim por uma opção de compromisso. Mantive a minha conta activa mas, em vez de abrir esta rede social na sua página inicial, comecei a abri-la na página da empresa. Deixei de fazer novas publicações. Deixei de responder a comentários. Reduzi a minha interacção ao mínimo necessário para não perder o contacto com as pessoas que me são mais próximas.

Para não dar a impressão que tinha de facto deixado o facebook mantive a minha conta de twitter ligada ao meu perfil. Os meus tweets continuavam a ser publicados no facebook sem que alguém notasse alguma diferença. Mas, a seu tempo, também isto deixei de fazer.

Para todos os efeitos, deixei de usar o facebook. Este deixou de ser uma plataforma pessoal e passou a ser apenas uma ferramenta de trabalho. Continuei a alimentar e a gerir a página da empresa, e não deixei de publicitar os meus feitos profissionais, assim como o meu blogue e portefólio, na minha página pessoal.

Contudo, através desta simples acção, consegui libertar-me de uma das minhas principais fontes de ansiedade.

Deixar o facebook foi uma decisão que tomei para o meu próprio bem-estar e para o meu equilíbrio mental. Fora isso, não retirei grandes benefícios palpáveis deste acto. A minha produtividade continuou igual. Sempre soube gerir bem o meu tempo, mantendo-me activo nas redes sociais sem alguma vez falhar qualquer prazo. E, no fim de contas, apenas troquei o meu tempo no facebook por uma mais intensa participação no twitter.

Durante pouco mais de dois anos, a única vez que me atrevia a ir além das páginas que geria era para felicitar alguém pelo seu aniversário.

Usei este tempo para pensar sobre o que me movia contra esta rede. Por que me custava tanto visitar a minha timeline?

A resposta era simples. Por medo. Medo do que podia lá encontrar. Medo do conteúdo tóxico. Medo do sentimento que uma foto, uma notícia, ou um comentário, pudesse despertar em mim.

Uma noite, respirei fundo e decidi limpar a minha timeline de tudo aquilo que era tóxico. De tudo aquilo que era negativo. De todas as pessoas, páginas e eventos que transmitissem qualquer tipo de sentimento destrutivo ou derrotista.

Deixei de seguir todas as pessoas tóxicas. Todos aqueles contactos que dia sim, dia sim, têm algo de frustrante ou derrotista para partilhar. Deixei de seguir todas as pessoas incapazes de ter uma base de diálogo com alguém com ideologias diferentes das suas. Fossem essas políticas, filosóficas, religiosas ou desportivas.

Deixei de seguir todos aqueles que associava a más memórias, momentos, ou recordações. Excepção feita apenas a quem estava lá para mim nesses momentos.

Mas também deixei de seguir algumas pessoas cujo perfil não encaixa nas mais comuns definições de toxicidade. Deixei também de seguir pessoas excessivamente felizes.

Lamento, mas não quero saber dos vossos amores, e desamores, das vossas vitórias, e conquistas, dos vossos sucessos, e carreiras, das vossas viagens, e passeios.

No fim, mantive apenas o meu núcleo de amigos, alguns contactos profissionais, pessoas neutras com vidas normais, e personagens intelectualmente estimulantes, fossem elas académicas, ou simples contemporâneos que, independentemente das suas filosofias colidirem ou não com as minhas, sabiam estabelecer um diálogo digno com a sua oposição.

Não analisei cada contacto individualmente. Avaliei-os consoante o impacto emocional de cada publicação que aos poucos aparecia na minha timeline.

Timeline essa que passou a estar muito vazia. Dominada quase inteiramente por páginas, por notícias, e por artigos de opinião.

Virei-me então para os grupos. Para pessoas com interesses similares aos meus. Fossem estes profissionais, desportivos, ou de entretenimento. Neste momento são eles que dominam a minha timeline. Uns mais que outros é certo, mas todos os dias mantenho-me a par das mais diversas novidades sobre os principais temas que me interessam.

Os restantes contactos não passam agora disso. São apenas uma bola verde no Messenger, de nenhuma forma diferentes de um qualquer número numa lista telefónica. Um pequeno preço a pagar por uma lufada de ar fresco no meu constante combate contra a ansiedade.

Consegui fazer isto sem me fechar numa bolha. Sem me recolher em um círculo de opiniões em comum. Todos os dias participo em conversas interessantes com pessoas que pensam diferente de mim. A maioria delas no twitter, claro, a discussão intelectual há muito que abandonou o facebook.

Os temas hoje em dia são as notícias falsas, a desinformação, a fraca qualidade dos media, e as típicas polémicas do dia-a-dia que tão depressa surgem, como desaparecem.

Continuo a usar o facebook esporadicamente. Já não estou na mesma empresa mas continuo a gerir redes sociais. Evito comentar qualquer publicação fora dos grupos onde sou membro activo. Limito-me a dar os parabéns a alguns contactos e a usar o Messenger para falar com os meus amigos.

O resto? O resto deixou de estar à distância de um clique.

Sunday, November 27, 2016

Terapia facebookiana

Imagem DR
O sucesso na vida poderia ser definido como a expansão contínua da felicidade e a realização progressiva de metas dignas.
Deepak Chopra

Depressão é um termo que não gosto de usar de forma leve. Ao contrário do que tantos costumam partilhar dia sim, dia não, nas etéreas redes de informação, esta doença não é algo que se resolva com uma mudança de ares, com um passeio pela praia, com exercício, com um bom livro, com uma viagem, ou com saídas com amigos. É algo bem mais profundo que exige uma observação séria e o tratamento adequado por parte de um profissional.

Ficar em baixo pelas mudanças de estação, sentirmo-nos frustrados, aborrecidos ou tristes porque algo não correu como queríamos, porque alguém nos magoou, porque fomos enganados, ou porque cometemos a opção errada, não é o mesmo que sofrer de depressão. São apenas sentimentos comuns, pelos quais todos passamos e que podem ser facilmente resolvidos com alguma introspecção, honestidade e capacidade de comunicação e resolução de problemas com quem nos rodeia. E quando essas opções não são suficientes, então aí sim, devemos mudar de ares, viajar, fazer exercício, sair com os nossos amigos, ou distrairmo-nos com um livro, um filme, um concerto ou uma série.

Todas estas distracções não passam disso mesmo se não formos capazes de compreender o que nos levou a sentir assim. Se foi algo que fizemos, devemos assumir a culpa, se foi uma circunstância alheia e fora do nosso controlo, nada podemos fazer se não esperar que tudo se resolva. No fundo, se formos capazes de racionalizar tudo aquilo que nos acontece, o sofrimento não passa de um sentimento fugaz. Obviamente, não somos seres inteiramente racionais e, muitas vezes, usamos o intelecto e a nossa capacidade argumentativa como máscara para esconder sentimentos de culpa ou de desespero para com a nossa incapacidade de controlar os eventos que movem a nossa vida.

As redes sociais, além de servirem de veículo para a partilha de desinformação, são objectos de distracção enganadores. Há cerca de dois anos decidi deixar de usar o facebook. Entretanto regressei, contudo poucos foram os que notaram a minha ausência. Mantive o meu feed do twitter ligado ao meu perfil do facebook e, como gestor de redes sociais, estava diariamente ligado à rede durante o trabalho. Contudo, deixei de usar a minha timeline. Sempre que ligava o facebook entrava directamente na página da empresa que geria, e assim que saía do trabalho, não me voltava a ligar. Aos fins-de-semana usava o Messenger para combinar saídas com o meu grupo de amigos, mas não mais que isso. 

Assim fiz durante um ano. Voltei a usar o twitter com mais frequência. Durante quatro anos apenas o usava para partilhar notícias e ideias soltas. Perdi o contacto com todos os meus seguidores e, sempre que me lembrava de lá ir, sentia-me excluído das conversas. Comecei do zero e, ainda hoje, é a minha rede social de eleição. Uso o twitter para ver as notícias mais recentes, para comentar eventos com os meus seguidores e para partilhar em comunidade as coisas que mais me interessam. Continuo a partilhar notícias e ideias soltas, como sempre fiz, mas volta e meia também me deixo envolver em conversas sobre os mais diversos assuntos. Desde os jogos do Sporting CP, às eleições americanas, a coisas igualmente importantes como a mais recente colecção de minifiguras LEGO, ou o novo filme dos Power Rangers.

Quando enfim regressei ao facebook, estava na hora de fazer uma limpeza na minha timeline. A melhor opção que o facebook alguma vez criou foi a capacidade de deixar de seguir alguém sem termos que a desamigar e sem esta o saber. Comecei por deixar de seguir todas as pessoas cujas publicações tinham fortes possibilidades de me magoar, ou de me deixar mais em baixo. Pessoas negativas, falsas, com constantes argumentos e publicações destrutivas. Pseudo-intelectuais, e pessoas simplesmente chatas. Também deixei de seguir páginas e pessoas cuja partilha de momentos das suas vidas não me faziam sentir bem. Ora por estarem constantemente em baixo, ora por a sua felicidade em vez de contagiante, ser servida como um veneno muito tenebroso para uma alma frágil como a minha se sentia naquele momento.

Confesso que também deixei de seguir algumas pessoas por terem opções políticas diferentes das minhas, ou por serem adeptas de determinados clubes, não por preferir fechar-me numa bolha de opiniões iguais à minha, mas sim por esses exemplares não passarem de cegos incapazes de verem o outro lado da sua argumentação.

Desde então comecei a usar o facebook como nunca. Participo activamente em pelo menos quatro grupos, conheci pessoas, franchises, sites e eventos, muito interessantes e hoje consigo estar atento a promoções que de outra forma não teria conhecimento. Hoje, a minha timeline é uma amálgama de publicações sobre LEGO, Power Rangers, Jurassic Park, material de fotografia e vídeo, e mobília do IKEA, com a ocasional partilha das pessoas que mantive, ora por ter uma boa relação com elas, por serem pessoas que admiro, ou por serem elementos por quem nutro um sentimento neutro, mas cujas opiniões são sólidas e bem construídas, mesmo quando discordam da minha posição.

As redes sociais são uma faca de dois gumes. Podem enriquecer-nos, ou deitar-nos a baixo, e fazer-nos sentir insignificantes. É preciso termos um filtro muito forte para compreender que ninguém é tão feliz como as suas partilhas demonstram, e que ninguém tem uma vida perfeita. O teu amigo que está sempre a viajar, tem saudades de casa e passa mais noites a sentir-se só que a divertir-se. Aquele casal acabou de discutir antes de publicar aquela foto sorridente. Aquela francesinha tinha bom aspecto, mas o pão já estava em papa e o molho não era grande coisa.

Esta é uma visão um pouco cínica. Mas no fundo sabemos que embora haja quem seja sempre sincero naquilo que publica, muitos de nós tentamos passar uma imagem que não corresponde inteiramente à realidade. Eu próprio sou culpado disso, a minha foto de perfil já tem cinco anos, e as fotos que coloco no meu instagram são apenas as melhores seleccionadas de entre centenas. 

A verdade é que nada disto importa. Não devemos comparar a nossa vida com a de ninguém. Devemos seguir o nosso caminho, traçar os nossos próprios objectivos e apreciar as coisas de que verdadeiramente gostamos por mais bizarras, obscuras ou infantis que estas possam parecer. Devemos ser honestos connosco próprios, e devemos usar as redes sociais apenas como um veículo de distracção. O facebook é apenas uma ferramenta que é hoje parte do nosso dia-a-dia. Não é algo que nos define. Não é algo que merece deixar-nos em baixo.

És o dono da tua própria realidade. O resto não passa de mais uma obra de ficção fabricada por autores sem uma gota de imaginação. 

Tuesday, April 12, 2016

Liberdade de Debate e Contra-argumentação

Imagem DR
Show me one piece of evidence and I would change my mind immediately

Bill Nye

Há certas coisas que não compreendo. Na base de todos os debates e discussões existem sempre, pelo menos, duas visões opostas sobre um determinado tema. O segredo para uma boa contra-argumentação passa pela capacidade de calçarmos os sapatos do nosso opositor, de compreender a origem das suas opiniões, e de desconstruir eventuais erros de lógica, de pesquisa de conteúdo, e de buracos nos seus argumentos. Contudo, este processo torna-se impossível quando nos encontramos frente a um discurso ilógico, sem nexo e sem sentido.

A acção mais simples, quando nos deparamos com este género de situações, é simplesmente ignorar. Deixar um qualquer energúmeno a falar sozinho com as suas paredes é um mecanismo muito eficaz. A sua mensagem não é replicada, e as eventuais vozes de apoio mantêm-se silenciosas por falta da tão desejada publicidade, que assim é negada a esse sujeito.

Mas, hoje em dia, a ubiquidade da nossa presença online torna difícil que alguém, por mais ilógico e irracional que seja, se mantenha incógnito e ignorado. Na maioria das vezes são as próprias pessoas que se opõe às suas ideias e que as acham ofensivas, quem mais contribui para a divulgação das mesmas. Ao partilharmos visões profundamente deturpadas, estamos a dar-lhes a voz e o meio que estas tanto desejam para se propagar. 

No entanto, ao ignorarmos essa pessoa perdemos também a oportunidade de a educar e de partilhar uma visão do Mundo, diferente daquela que ele tenta propagar. O problema é que a natureza da nossa presença online, dita que o nosso tempo seja demasiado valioso e escasso para o gastarmos a contra-argumentar contra alguém que, na maioria das situações, vai continuar a bater o pé, incapaz de compreender as tuas intenções, ou até mesmo de perceber o porquê da tua vontade em debater esse tema. 

Encontramo-nos assim numa encruzilhada onde nenhuma das opções parece ser minimamente atraente. Entre ignorar e dar início a um debate, com o tempo descobrimos que ambas as opções são as correctas. O segredo está em saber escolher as nossas batalhas. Em perceber quando devemos defender aquilo em que acreditamos, ou que vemos como correcto, e quando devemos apenas seguir em frente com as tarefas do nosso dia-a-dia. Existe ainda uma terceira opção, direccionar o argumento para alguém com melhores capacidades de contra-argumentação, ou com maior conhecimento sobre o tema, e que esteja disponível para o desenvolver em teu lugar, naquele determinado momento.

É difícil para mim compreender como ainda hoje existem pessoas intolerantes, misóginas, racistas, homofóbicas, enfim, pessoas que dedicam a sua vida a tentar assegurar que os restantes não têm direito a serem iguais as si próprios de uma forma livre, sem serem constantemente sujeitos a qualquer tipo de julgamento ou de privação dos seus direitos mais básicos.

Existem diversas situações divergentes que, de um ponto de vista ideológico, tenho muita dificuldade em compreender, mas que, contudo, sou capaz de perceber o que poderia levar alguém a pensar dessa forma. 

Não compreendo porque certas pessoas não conseguem ver a Humanidade como uma sociedade heterogénea mas merecedora de igualdade no que diz respeito aos direitos mais básicos. Não compreendo como um jovem pode defender um ensino superior com propinas. Não compreendo como alguém possa não querer que o nosso sistema de saúde seja universal e gratuito. Não compreendo como existem pessoas que acham que nem todos temos o direito a uma habituação e ao livre acesso a alimentos e refeições. Compreendo muito menos aqueles que se opõem a uma sociedade baseada no mérito de cada um, independente do estrato social de origem, do género, da raça ou do credo.

Não compreendo quem prefere a ignorância à educação. A pobreza de espírito à riqueza de conhecimento. O ódio ao amor. A guerra à paz. A morte à vida. 

Estamos mais ligados do que nunca, mas nunca foi tão fácil isolarmo-nos do resto do Mundo. Um estudo recente demonstrou que as pessoas de pensamentos extremos, sejam elas mais liberais ou mais conservadoras, têm uma tendência para delinear nas suas redes sociais um único consumo de ideias que se enquadrem nas suas. Isto significa que alguém que seja muito conservador, tem uma maior tendência para consumir medias conservadores e para excluir todas as pessoas liberais que existem nas suas redes. Este efeito faz com que o extremismo aumente, tornando cada vez mais difícil para estas pessoas compreenderem a origem dos argumentos daqueles que lhes opõem.

Isto é algo que precisamos de combater o quanto antes. A ignorância e o ódio apenas alimentam mais ódio e ignorância. A situação actual, com atentados terroristas na Europa Central, Ásia e Médio Oriente, o número crescente de refugiados, e de conflitos que os provocam, foi toda catalisada pelo medo, pela ignorância, e pela intolerância. Pela incapacidade dos povos ocidentais de compreenderem o sofrimento que a guerra e a desigualdade social causa em cada país que atropelámos e deixámos ao abandono. 

O cidadão comum pouco pode fazer para mudar esta situação. Mas uma pequena parte da solução está na nossa capacidade de educar as vozes de medo e de discórdia que todos os dias vemos partilhadas nas redes sociais. 

Hoje, apenas temos tempo para ler um título. Poucos são aqueles que lêem o lead, muito menos aqueles que consomem toda a notícia, e ainda menos aqueles que vão pesquisar informação complementar para saberem mais sobre o que se está a passar, como chegou a acontecer, e porque está a acontecer. 

Há certas coisas que não compreendo. Pessoas, ideias e acções que nunca serei capaz de perceber o porquê da sua origem. Contudo, defendo a liberdade de cada um em expressar a sua opinião. E se querem provar-me errado, apresentem-me as provas e os factos, e aceitarei com bom grado a vossa argumentação. Se não forem capazes de o fazer, talvez esteja na hora de repensarem os vossos argumentos. 

Tens o direito de te expressar. Temos o direito de não te ouvir. 

Thursday, March 12, 2015

Nova Mensagem

Imagem DR
If I like a moment, for me, personally, I don't like to have the distraction of the camera. I just want to stay in it.
The Secret Life of Walter Mitty

Olham para baixo, presos a um ecrã de cinco polegadas, enquanto o dia corre para mais uma conclusão, e o resto do Mundo é ignorado na sua perpétua e invisível rotina. Ao longo do ano, mas em especial em Dezembro, as nossas páginas e linhas do tempo, são inundadas por fotos de jantares. Sejam eles entre amigos, ou colegas de trabalho, não é difícil encontrar algo de errado com essas fotos. Há sempre alguém constantemente agarrado ao telemóvel. A olhar para baixo. A escrever. A fotografar alguma coisa.

Embora isto nem sempre aconteça, não é invulgar encontrar fotos onde a grande maioria das pessoas não é capaz de gastar um segundo do seu tempo para largar o telemóvel. E quando este, de alguma forma, deixa escapar o seu encanto sobre o seu dono, em vez de acabar no bolso, mantém-se ali, em cima da mesa, qual guardanapo, à espera de ser usado.

O simples facto de um jantar entre conhecidos, ser alvo de mil e uma fotos partilháveis, já diz muito do seu baixo valor como espaço de convívio. Embora certos momentos valham a pena ser imortalizados, é desnecessário documentar cada segundo de um qualquer jantar, com constantes cliques, flashes, falsos sorrisos, e tempo perdido a olhar para um vazio de uma objectiva digital, com ligação directa a um qualquer mural.

Que memórias retemos dos jantares que partilhamos? Somos capazes de enumerar cada uma das pessoas que nos acompanhou? E as expressões daqueles com quem falamos?

Nunca fui adepto da ideia de estar sempre online. De estar disponível para ser contactado a qualquer hora. Ou de perpetuar conversas banais ao longo do tempo. Gosto de falar apenas quando há algo para dizer. De partilhar momentos e conversas especiais com alguém, quando estas podem acontecer, e não de dar seguimento a rotineiras trocas de Olás, sem quaisquer propósitos por trás das mesmas.

Não nego a importância das tecnologias de informação. Hoje é tão simples manter o contacto, reduzir distâncias, partilhar notícias, expressar a nossa criatividade, conhecer pessoas, aprender algo novo, e consumir entretenimento gratuito. Mas o preço que pagamos por este comodismo é alto se cairmos numa espiral de comportamentos anti-sociais e de asfixia inter-relacional.

Já houve tempos em que viajar, para mim, significava estar fora de contacto durante a grande maioria da sua duração. Passar uma semana, ou até mesmo um mês, sem falar com alguém próximo com quem não possa conviver pessoalmente de forma regular, era algo natural. Contudo, isto já não acontece.

Embora a minha opinião não tenha mudado, vejo-me hoje forçado a adequar-me às vontades, e às expectativas de comunicação que os outros exigem. Esta realização chocou-me há dias quando, num café entre amigos, um deles chamou-me à atenção por estar a trocar mensagens de cinco em cinco minutos.

Sempre me insurgi contra aquelas pessoas que prestam mais atenção aos seus gadgets do que ao Mundo, ou às pessoas, que os rodeiam. Contudo, de há um ano para cá, que este tornou-se num hábito no qual eu próprio acabo por mergulhar. Há uma profunda hipocrisia que cresce em conflito com os meus ideais e que, para já, me forçou a moderar o meu discurso contra a troca constante de mensagens.

Continuo a valorizar o convívio pessoal, em detrimento do digital, fora nos casos em que, por um motivo, ou outro, o primeiro não é possível. Não perco os momentos ao tentar capturá-los num rectângulo de zeros e uns. Prefiro vivê-los, e apreciar a beleza do que vejo, guardando para alguma pausa a necessidade de os imortalizar.

Tenho saudades de escrever uma carta e de aguardar ansiosamente pela resposta. De acordar com um e-mail e de responder, sabendo que o próximo apenas seguirá amanhã. De perder tempo com uma mensagem. De um longo telefonema. Este é o tipo de comunicação que mais me agrada. Aquela com a qual me identifico, e a que desejava poder praticar mais vezes.

Lembro-me de quando era comum perdermos tempo a ler conversas antigas. A reler mensagens. A rever fotografias. Hoje, é raro isto acontecer.

Momentos que nos passam ao lado, enquanto os nossos olhos se perdem em outra qualquer banalidade. Numa nova mensagem que nos afasta da vida que continua à nossa volta. Longe dos nossos olhos. Longe da nossa atenção.

Tuesday, July 08, 2014

Máscaras Virtuais

Imagem DR
Máscaras, todos as usamos.
Faces feridas encobertas,
Desgostos, disfarçados de sorrisos.
Mentiras, perdidas em desenhos.

Carnavais das nossas vidas,
Dias extras que não vivemos,
Tudo escondido por detrás,
De todo um emaranhado que se desfaz.

XIV, Adriano Cerqueira

Todos usamos máscaras. Escudos que nos protegem das adversidades do dia-a-dia. Do chefe inconsequente que não valoriza a nossa opinião, do cliente mal educado que pensa ter sempre razão. Do empregado que se engana no nosso pedido, da vizinha pronta a encontrar o mínimo motivo de coscuvilhice. Daqueles que nos magoam, que nos irritam, ou que nos maltratam. Todos usamos máscaras.

Mecanismos de defesa que, com alguma astúcia podem jogar a nosso favor. Usamos máscaras para esconder a dor, a indignação, o ódio, o irracional. Mas também as usamos para reconstruir quem somos para os outros. Para conquistar a confiança de alguém, para esconder os nossos defeitos, para ganhar respeito entre os nossos pares, para seduzir quem desejamos. Todos usamos máscaras.

A ascensão das redes sociais, a ténue linha dúbia que mistura o público com o privado, veio acentuar esta necessidade de alimentação das diversas máscaras que possuímos. Recentemente encontrei o vídeo What’s on your mind?, realizado por Shaun Higton. Durante dois minutos e meio somos transportados para a dicotomia real/virtual de Scott Thomson, alguém não muito diferente de cada um de nós. Neste vídeo vemos o contraste da sua vida real, com a máscara de positivismo que ele alimenta no seu perfil do facebook.

Da comida pré-congelada, a uma relação fria condenada ao fracasso, ao emprego cinzento que o faz ser despedido. Da depressão que o assola, até à sua profunda solidão. Scott usa as redes sociais para transmitir a imagem oposta, em busca da aprovação dos seus amigos virtuais. Contudo, por mais likes que as suas publicações recebam, a realidade mantém-se inalterada, ele está, e assim continua, só.

Os últimos tempos têm sido férteis em campanhas com um simples objectivo: desligar. Desliguem o telemóvel. Desliguem o facebook. Olhem à vossa volta. Falem com um estranho. Não percam as oportunidades que desvanecem sempre que o nosso olhar fica colocado a um pequeno, ou a um grande ecrã. Mensagens fortes. Mensagens úteis. Mensagens necessárias. Ignoradas tão rapidamente como qualquer outro vídeo viral.

A cada dia que passa cresce o culto da aprovação virtual. Tudo o que fazemos é exposto, partilhado, identificado, visto e gostado. Procuramos chegar ao máximo de pessoas possíveis, com o prato acabado de cozinhar, a tarde passada na praia, a festa que visitámos, a viagem que fizemos. Fazemo-lo para nós, para os outros, para registo, para reconhecimento. Fazemo-lo porque sim. Porque o botão “finalizar”, confunde-se com o botão “partilhar”. Fazemo-lo porque já não sabemos ter experiências que não possamos partilhar com a nossa rede de contactos. Contactos que muitas vezes não passam de desconhecidos com quem nunca trocámos uma única palavra. E mesmo assim continuamos a fazê-lo. Não porque nos satisfaz, mas sim por não querermos ser ignorados, por não querermos ser apenas mais um numa longa linha do tempo repleta de futilidade.

Queremos ser a excepção. Queremos ser o destaque. Queremos a popularidade, a fama. Queremos ser diferentes. Mas também não queremos ficar para trás. Queremos visitar, fazer, e ter tudo aquilo que é cool, tudo aquilo que é moda, tudo aquilo que é partilhável. Tudo aquilo que os outros partilham virtualmente.

Queremos viver nesse Universo, onde todas as pessoas estão a sorrir nas fotos, onde todas as refeições parecem pratos gourmet, onde a vida de todos é alegre, sem discussões, sem dificuldades, e onde todos os seus sonhos lhes são oferecidos de bandeja. Queremos viver nesse mundo de ilusões e de máscaras. Construímos a nossa própria máscara para nos sentirmos integrados, para fazermos parte do grupo. Para que “gostem” de nós.

Contudo, nós não somos essa máscara. Nós somos o Scott. Temos momentos altos, e baixos. Dias alegres, e tristes. Somos felizes, discutimos. Sofremos de depressão, e euforia. Temos amigos, estamos sós. Somos únicos, temos defeitos. Somos iguais a nós próprios, e não às máscaras que nos tentam impingir.

Desliguem. Encerrem a sessão. Desliguem. Bloqueiem a vossa conta. Desliguem. Sejam livres. Desliguem. Sejam únicos. Desliguem. Não há foto mais bela, que aquela tirada sem intenção. Não há momento mais belo, que aquele que não precisamos de partilhar. Não há pessoa mais bela, que aquela que não tem medo de ser igual a si mesma.

Não há máscara mais bela, que aquela que não precisamos usar.

Wednesday, June 11, 2014

O Legado de uma Linguagem Extinta

Imagem DR
Há uma linguagem em extinção. Uma série de códigos, abstracta e autónoma que, tão depressa como surgiu, enfim desvanece para o esquecimento. Uma morte tão silenciosa como a sua própria origem. 

A ascensão das redes sociais ditou o fim do anonimato, das chat rooms, do IRC, da linguagem SMS e dos códigos que a acompanhavam. Há quanto tempo não vêem a expressão “de onde teclas”? Questionar a idade, a localização ou a aparência de alguém, deixou de ser rotina, para passar a mera redundância. 

Não nos escondemos por trás de alcunhas, de tipos de letra arcaicos, ou de avatares. Estamos ali, sempre presentes, iguais a nós próprios, sem segredos, ou privacidade, sem mistério. Eternas vítimas das primeiras impressões que uma foto, ou um perfil, criam na outra pessoa. Condenados a batalhar contra os preconceitos que daí advém, para podermos quebrar essa barreira invisível que nos separa daqueles que queremos conhecer.

Antes era mais simples. Apenas falávamos. Nada sabíamos sobre a outra pessoa. Podíamos ser quem quiséssemos. Podíamos ser completos estranhos, opostos de quem realmente somos. Podíamos ser aquilo que desejávamos ser. O culminar dos nossos sonhos ainda por realizar. Ou, podíamos apenas ser iguais a nós próprios.

Ninguém consegue manter uma máscara de forma permanente. Aos poucos revelamos quem somos, mesmo para aquele estranho escondido por trás de um ecrã. Despimo-nos de preconceitos, largamos a nossa bagagem, e qualquer espécie de ansiedade que pudéssemos sentir, e começamos a escrever. A contar estórias, a partilhar momentos, música, livros, filmes, e experiências. 

Apaixonamo-nos pela alma da pessoa, pelas longas conversas, pelo seu sentido de humor, e por aquela vontade que nos impele a regressar. A aguardar por aquele ícone verde, por aquele aviso, por aquela luz, por aquele som que faz o nosso coração dar um salto e que preenche a nossa a face com um sorriso parvo.

Tudo isto apenas possível, porque não julgamos a pessoa pela sua aparência, porque não fomos assolados por uma onda de informação perfilada aleatoriamente numa simples pesquisa pelas suas redes sociais. 

Não foi só uma linguagem que se extinguiu com o desaparecimento do IRC, foi também uma filosofia de vida. A liberdade do desconhecido. A ausência de preconceitos, de psicanálise de antecipação, e de prospecção de mercado – termo que pessoalmente abomino. 

Hoje não faz sentido perguntar de onde alguém tecla. A sua localização aparece na base do chat. As videochamadas permitem vislumbrar o local onde esta se encontra. Uma janela directa para o seu mundo privado. A idade, as fotos, os seus gostos pessoais, aquilo que ela leu, viu, onde esteve, com quem, onde trabalha, onde estudou, tudo à distância de um clique, sem sequer precisarmos de lhe dirigir uma única palavra que seja.

Este facilitismo, esta apologia do imediato, fez com que deixássemos de ter tempo para verdadeiramente conhecer alguém. Descartamos incontáveis conversas à partida com base em noções pré-estabelecidas, que podem até não corresponder à realidade.

Estamos expostos e vulneráveis. Somos julgados a cada pedido de amizade, não por aquilo que dissemos, mas por uma análise superficial e fútil daquilo que partilhamos. Somos vítimas da revolução social da internet, e somos hoje tão inseguros atrás de um ecrã como qualquer pessoa num bar, ou em um outro qualquer evento social. Perdemos a liberdade de sermos julgados com uma mente aberta, apenas pelas nossas palavras, pelos nossos conceitos, pelas nossas experiências, e pelas nossas ideias. Somos hoje ignorados por aqueles que nos descartam antes do primeiro Olá. Mas será isso assim tão mau?

Se alguém nos julga pela aparência, pelos nossos gostos, ou por um outro elemento superficial. Se essa pessoa nos bloqueia, ou ignora os nossos contactos, será alguém que mereça a nossa atenção? Não. E o que nos moveu a dar o primeiro passo? Uma foto? Uma partilha de um gosto em comum? Uma convergência de ideologias? A sua popularidade? Ou apenas, simples curiosidade? 

Quando nós próprios também nos deixamos emergir por esse jogo da Internet social, não somos diferentes daqueles que nos julgam. O anonimato é hoje um encanto perdido, relíquia dos tempos do IRC. Contudo, agora é mais simples descobrir as intenções de quem nos procura, e filtrar aqueles que não merecem o nosso reconhecimento.

Aquilo que perdemos em experiências, ganhamos em tempo. Resta-nos saber como, e com quem, o partilhar. 

Thursday, September 12, 2013

Demasiada Informação

Imagem DR
Alterar as regras de privacidade de uma rede social é o suficiente para mobilizar uma interminável onda de criticismo, direccionado contra a invasão das nossas fronteiras do universo privado. Declaramo-nos solidários para com esses movimentos. Subscrevemos as suas petições. E relatamos a notícia com indignação dentro do nosso círculo de contactos.

Gritamos. Protestamos. Exigimos. Mas quantos de nós põe efectivamente em prática qualquer medida de segurança? Basta observar com alguma atenção o feed de notícias de uma rede social, para percebermos que esse número deve ser muito baixo, para não dizer nulo.

Partilhamos fotos das nossas férias, dos nossos familiares, dos nossos filhos. Partilhamos a nossa casa, a nossa intimidade. Os sítios que visitamos, os restaurantes onde comemos, e a própria comida que cozinhamos. Nada é privado, tudo é público.

Instalamos aplicações para organizar o nosso dia. Todos os eventos, calendarizados, e minuciosamente descritos. Um simples click, e cada um deles é dado a conhecer ao Mundo. Qualquer pessoa passa assim a saber o que fazemos. Onde estamos. Com quem. Conhecemos pormenores íntimos de perfeitos estranhos que, de outra forma, não nos seriam revelados.

Se saber o que alguém tomou ao pequeno-almoço, ou onde passou as suas férias, pouca importância tem, já a informação sobre a sua rotina diária é uma arma poderosa nas mãos de quem a souber manejar. 

Não é difícil perseguir alguém. Delinear a sua rotina. Encontrá-la inesperadamente. Ou até mesmo manipulá-la, subtilmente, através dos seus gostos e desejos. Somos tão vulneráveis, como nos permitimos ser. Embora subtis alterações às regras de privacidade possam expor alguém contra a sua vontade, temos que admitir, que não existe melhor filtro do que o bom senso. 

Devemos ter mais atenção com aquilo que partilhamos. Não custa nada pensar duas vezes antes de publicarmos uma foto reveladora, um pensamento, ou uma informação pessoal. Alimentamos as novelas dos nossos observadores sempre que o fazemos. Mas não somos actrizes, nem actores, de um espectáculo privado, criado apenas para os entreter. 

Somos livres. Temos liberdade para nos recolhermos na nossa bolha pessoal. Para guardarmos os nossos momentos mais íntimos dos olhares alheios. Que importa quantas calorias queimamos na última corrida? Temos hábitos saudáveis. Fazemos exercício. É importante para nós, não para os outros. Que importa onde fomos almoçar? Saímos. Divertimo-nos. Conhecemos alguém. Foi bom para nós. Os outros não estavam lá.

Viajámos. Ampliámos o nosso horizonte. Abrimos a nossa mente. Vivemos outra realidade. Absorvemos outra cultura. Crescemos. Sós. Ou acompanhados. É algo nosso. Indiscritível. Ninguém mais poderá compreender. 

Apaixonamo-nos. Amamos. Discutimos. Resolvemos. Seguimos em frente. Construímos uma relação. Somos dois. A sós. Os sentimentos são nossos. As experiências são nossas. Partilhamos um segredo. Um discreto reflexo, no olhar de cada um. Algo que mais ninguém consegue compreender.

Todas as acções têm consequências. Vivemos num ciclo vicioso, excessivamente povoado por notificações inúteis. Por dados privados, que não pertencem aos olhos de mais ninguém. Nós somos o primeiro, e o mais importante, filtro de informação. Pensar duas vezes antes de partilhar, é a melhor defesa contra qualquer ataque, seja ele real ou virtual, contra a nossa privacidade. 

A bolha apenas rebenta quando delegamos o controlo para uma força exterior. Não perca o domínio sobre a sua informação. A vida privada de cada um é tão frágil, e tão próxima, como um botão de partilha.

Monday, May 06, 2013

A Hipérbole das Redes Sociais

Imagem DR
Uma hipérbole não é apenas uma figura de estilo. Aqueles que prosseguiram os seus estudos em matemática até ao final do secundário devem-se lembrar que uma hipérbole pode ser definida como um lugar geométrico de pontos para os quais a razão das distâncias a um foco e a uma recta (chamada de directriz) é uma constante maior ou igual a 1. 

Contudo, não me parece que esta definição seja capaz de vos reavivar a memória. Uma hipérbole compreende duas curvas sem intercepção, chamadas de "braços", que separam os focos. Conforme a distância dos pontos da hipérbole aos focos aumenta, a hipérbole começa a aproximar-se de duas linhas, conhecidas como assimptotas. Este termo já vos diz alguma coisa, certo? Mas ainda não estão bem a ver o que é? 

Bom, a equação mais simples para definir uma hipérbole é y = 1/x. Façamos assim, dou-vos um minuto para irem buscar a vossa velhinha máquina gráfica da gaveta onde a esconderam na esperança de não mais a terem que usar. 

Já a têm? Aposto que perderam uma boa meia hora a jogar puzzle bubble ou um dos outros jogos que todos programámos na máquina para nos entretermos durante as aulas mais entediantes. Experimentem colocar a função y = 1/x. Vêem as duas curvas a aproximarem-se dos eixos do x e do y sem nunca os tocarem? Isso é uma hipérbole. Precisei de 228 palavras só para chegar a um ponto que pouco tem a ver com aquilo que eu queria realmente abordar. Vamos lá tentar outra vez.

Uma hipérbole não é apenas uma figura de estilo. Hipérbole é também o nome de uma função matemática que representa uma curva que se aproxima constantemente de um ponto sem nunca o alcançar. A nível pessoal é aquilo que acontece com a minha capacidade de captação de seguidores nas redes sociais. 

Quando iniciei a minha actividade no twitter recebia diariamente diversas notificações sobre os novos seguidores que por um motivo ou outro lá se lembravam de me adicionar. Muitos apareciam através dos contactos com quem eu falava, isto ainda antes do twitter bloquear a visibilidade dos replies, outros por se interessarem por aquilo que eu tinha para dizer. Chegava a fazer mais de cem tweets por dia entre notícias partilhadas, pensamentos e conversas com os restantes utilizadores.

Sentia-me como se tivesse regressado aos tempos do mIRC. Conhecia pessoas novas todos os dias, comecei a estabelecer uma base de contactos e passei a usar o twitter mais pela componente social do que pela partilha de conteúdos. Com o tempo esta euforia foi diminuindo. Não apenas por causa do bloqueio das conversas alheias, mas também pela minha indisponibilidade para perder tempo com esta rede social. 

Apesar disso, raro é o dia que eu não partilhe uma notícia ou um pensamento no twitter. Já não o encaro como uma versão microblogue do mIRC, mas continuo a preferi-lo ao facebook. Raramente opto pelo share em detrimento do tweetar sempre que leio uma notícia ou outro conteúdo qualquer que me pareça digno de ser partilhado. 

Nos últimos dias ao olhar para o meu número de seguidores no twitter e de amigos no facebook, cheguei à conclusão que não sou capaz de captar mais do que 500 pessoas a aderirem à minha rede. Há já vários meses que o meu número de seguidores no twitter não passa dos 490. No momento em que escrevo este artigo são apenas 487. Lembro-me de um dia ter chegado aos 496. Muito perto do limite psicológico de 500 utilizadores, contudo, falta-me algo para lá chegar. 

Já no facebook, a marca dos 500 amigos foi ultrapassada de forma quase banal há alguns meses atrás. São neste momento 523. Este número é preenchido na sua maioria por colegas do meu curso e dos diversos empregos que tive nos últimos anos. Também lá estão os meus amigos, amigos de amigos e uma ou outra pessoa que conheci num evento, fosse ele social ou não, e que por lá ficaram. 

Já fiz uma análise aprofundada sobre a origem dos meus contactos do facebook. Podem relembrá-la aqui, ou simplesmente ignorar esta frase e continuar a ler esta minha epifania. Ainda estão a jogar puzzle bubble? Tenham cuidado, não gastem as pilhas da máquina antes de experimentarem a equação que eu referi lá em cima. 

O que me tem perturbado nos últimos dias é precisamente o facto desta minha bolha social não se conseguir expandir além dos 500 contactos. Valor esse que já por si é bastante inflacionado. Basta olhar para a minha página profissional do facebook que ao fim de três meses tem apenas 68 likes, sendo que apenas 58 dos quais pertencem aos meus contactos. Isto significa que pouco mais de 10% dos meus amigos do facebook querem realmente saber sobre aquilo que eu faço.

O que posso então fazer para atrair mais pessoas a verem aquilo que eu tenho para dizer? Acusaram-me uma vez de ser demasiado consensual. Dificilmente conseguiria fazer com que mais pessoas lessem o meu blogue se não começasse a ser mais parcial e controverso. Por mais bem escrito que seja, um artigo apenas suscita interesse se conseguir apelar às emoções mais cruas da alma daqueles que o lêem. A verdade é que embora continue a investir na imparcialidade das minhas observações, ao longo dos anos os textos que conquistaram um maior número de visualizações foram precisamente aqueles que apelavam às minhas emoções. 

Encontro-me assim preso a um limite psicológico de contactos e visualizações que, de certa forma, vejo como um forte elemento desmotivador. Esta baixa rede de alcance não reflecte a qualidade e o interesse dos meus conteúdos. Mesmo nos momentos em que me aventurei no comentário político e nos manifestos activistas pouca visibilidade alcancei além de uma partilha ou outra no Google Plus e de um ou dois likes no facebook. Alcance que seria bastante maior se tivesse sido escrito por outra pessoa que não eu. 

Não seria necessário ser alguém famoso ou uma rapariga atraente a fazê-lo. Diariamente vejo textos e artigos de pessoas anónimas e com pouca qualidade de escrita a serem partilhados e difundidos pelas redes sociais. Sejam eles relatos de injustiças ou simples apelos emocionais. Independentemente da sua natureza, posso sempre dar um ou mais exemplos de artigos similares que eu próprio escrevi em tempos mas que não mais de 100 pessoas os leram. 

O que posso então fazer para contrariar esta tendência? Qual a fórmula mágica para rebentar com esta hipérbole e transformá-la numa recta crescente e constante? 

Como já referi diversas vezes, não estou disposto a diminuir a qualidade dos meus artigos. Isto implica uma redução da periodicidade do meu blogue. Um mal necessário, embora compreenda que seja esse o principal factor que me impede de alcançar uma audiência constante e fiel. Mas como posso rentabilizar algo que não me oferece qualquer rendimento além da satisfação pessoal? Com tão pouco tempo livre para usufruir no meu dia-a-dia torna-se complicado, se não mesmo impossível, repetir feitos como os 14 artigos publicados em Dezembro de 2012. Feito esse que motivou a histórica marca de 1135 visualizações num único mês. 

É esta a minha voz e não tenciono mudá-la em favor da fama fácil, apelando ao mínimo denominador comum. 

O importante não é a quantidade das visualizações mas a qualidade das mesmas. Mas se com tão poucas já tive crónicas e contos publicados em revistas o que poderia acontecer se o meu alcance fosse maior? Um contrato com uma editora para escrever um livro? 

Conheço pessoalmente casos em que isso aconteceu. E embora reconheça a qualidade da escrita e da imaginação dessas pessoas, acredito que sou melhor, acredito que a minha voz, que as minhas histórias têm valor e que merecem ser ouvidas.

Divago. A minha máquina gráfica há muito que ficou sem bateria. Para já, sucumbo perante a inevitabilidade matemática da hipérbole das minhas redes sociais. Sucumbo na esperança de um dia ser capaz de forçar o meu caminho para lá da fatalidade desta equação e de alcançar o reconhecimento que a minha voz tanto merece. Irei ultrapassar a barreira dos quinhentos, dos mil. 

A minha onda será imparável.
  

Saturday, March 16, 2013

Good Night, Sleep Tight, Old Friend

Imagem: DR
Dezasseis de Março de 2013. Uma data que facilmente será esquecida pela maioria das pessoas, mas não por mim. Hoje, o MSN Messenger fica online pela última vez. Embora a migração dos contactos para o Skype possa ser feita até 30 de Abril, foi esta a data escolhida pela Microsoft para pôr um fim ao Windows Live Messenger.

Enquanto escrevia este artigo decidi ligar o meu Messenger por mera curiosidade. Já há algum tempo que fiz a migração dos meus contactos para o Skype e a minha conta de Hotmail já se encontra sobre a alçada do Outlook há alguns meses. Não me lembro da última vez que liguei o meu Messenger, certamente já deve ter passado quase um ano desde a última vez que fiquei online, isto sem contar as ocasionais visitas à minha caixa de entrada do Hotmail. 

Neste preciso momento tenho apenas dezasseis pessoas online, a maioria das quais são contactos do facebook que apenas aparecem aqui por ter as duas contas ligadas. Não esperava ser capaz de sequer conseguir aceder ao Messenger mas visto que o prazo de migração de contactos foi alargado até 30 de Abril, possivelmente terei ainda algumas semanas para visitar este velho amigo que há muito tenho negligenciado.

Nunca pensei que eu próprio seria capaz de me desligar do Messenger e trocá-lo de forma tão ligeira pelo chat do facebook e pelo Gtalk. Embora o Messenger não fosse, no sentido mais lato da palavra, uma rede social, nem tão pouco proporcionasse o anonimato ou a casualidade de encontros do IRC, foi durante anos um local predilecto para aprofundar uma relação entre duas pessoas ou para simplesmente ter uma boa conversa. São incontáveis os casos de amigos e colegas que conheci através da vida real, do IRC ou das redes sociais, que fiquei a conhecer melhor por causa da particularidade intimista de interacção um para um que o Messenger possibilitava. 

Foi com alguma relutância que em 2003 migrei do IRC para o Messenger. Na altura via o Messenger como uma sala fechada. Um espaço que não permitia que conhecesses outras pessoas além da tua lista de contactos e que, ao contrário do IRC, tornava mais difícil esconderes-te por trás de um nick. Hesitei bastante. Durante muito tempo mantive os dois programas ligados. Fui gradualmente perdendo interesse pelo IRC até ao ponto em que simplesmente já não tinha motivos para o visitar. Assim que todas as pessoas que me eram próximas passaram a figurar nos contactos do Messenger, fechei as portas do IRC de igual forma como nos últimos anos troquei o Messenger pelo facebook. 

Nunca fui grande fã dos extras que este programa nos fornecia. Raramente tive uma conversa através da webcam. Partilhei pontualmente documentos e ficheiros com colegas do liceu ou da faculdade ou com amigos que queriam dar-me a conhecer novas músicas ou ouvir algumas das bandas que eu gostava na altura. Conto pelos dedos as vezes que joguei algum jogo e na maioria dos casos foi mais por insistência da outra pessoa do que por vontade minha. Para mim o Messenger sempre foi um espaço de chat. Uma plataforma que me permitia ter uma boa conversa com alguém ao fim de um longo dia de aulas ou de trabalho.

Lembro-me das horas que passava impaciente à espera que uma certa pessoa ficasse online. Da frustração de deixar uma conversa a meio sempre que a Internet ia abaixo. E do desespero que sentia quando o Messenger passava horas ou até mesmo dias em manutenção sem permitir o acesso dos seus utilizadores. Tudo isto já faz parte do passado.

As redes sociais e as plataformas de comunicação são feitas de pessoas. Por mais que alguém queira resistir acabamos sempre por ser forçados a seguir a vontade da maioria dos nossos contactos. Quando estes optaram por trocar o Messenger pelo facebook, por mais relutante que eu fosse em aceitar a mudança e por mais incómodo que seja falar com alguém através de um browser, no fim não me restou alternativa que não desviar a minha atenção deste programa e focá-la inteiramente no facebook. 

Sim, há já algum tempo que existem diversos programas que possibilitam unir várias contas de chat e o próprio Messenger também isso permite. Contudo, sou avesso a esse género de conglomerações. Torna-se confuso ver a mesma pessoa ligada em três ou mais locais distintos, tornando assim complexo todo o processo de falar com alguém. Processo esse que deve ser sempre simples. 

O Messenger caiu vítima daquilo que eu próprio receava na altura da transição do IRC. Uma sala fechada apenas te permite ver aquilo que colocas lá dentro. O facebook e o twitter abriram de novo as portas à possibilidade de conheceres pessoas novas. Pessoas que agora já não se escondiam por trás de nicks, mas que publicitavam todos os pormenores mais ínfimos da sua vida pessoal diariamente e para que todos os pudessem ver. 

O Messenger derrubou o IRC, sobreviveu ao MySpace e ao hi5, apenas para sucumbir perante o facebook. Resistiu enquanto pôde mas a partir do momento em que o Skype deixou de ser um rival e passou a figurar dentro da própria Microsoft o seu fim deixou de ser uma suposição para passar a ser uma garantia. Hoje, confrontado com a realidade desse fim apenas me resta dizer adeus.

Até sempre velho amigo, guardo eternamente todas as recordações dos vários momentos que passei contigo ligado. Horas de conversa, de alegria e de desgosto, de bom humor e de seriedade, de aproximação e de discussão, de aprendizagem e de galhofa. Hoje fico offline pela última vez. Hoje despeço-me pela última vez.

*Adriano Cerqueira está offline