Wednesday, August 08, 2018

Um Verão a Sós

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Os Verões da minha adolescência eram passados em casa, ora a ler, ora a ouvir a música, ora online no mIRC ou no MSN. Durante oito anos fui apenas uma vez à praia com colegas de escola. Não tinha amigos, pelo menos não daqueles que me convidassem para fazer algo fora do liceu.

A primeira, e única, vez que fui à praia com colegas do liceu foi já no nono ano. A minha mãe lá me convenceu a ir com um grupo de pessoal popular com quem me dava mais ou menos bem, mas a quem não podia verdadeiramente chamar de amigos.

Foi uma tarde algo embaraçosa. Com a pressa de sair de casa levei um tapete em vez de uma toalha de praia e passei a tarde com a t-shirt vestida. Dizia como desculpa que estava com algum frio, mas na verdade não tinha confiança o suficiente no meu corpo para o mostrar desta forma. Eventualmente acabei por tirar a t-shirt mas, no geral, não parei de me sentir desconfortável. Foi uma tarde muito longa e uma experiência que tão cedo não queria repetir.

Passar férias fora de Ovar também não era uma opção. Os meus pais decidiram construir a nossa casa no virar do milénio, quando ainda tinha 12 anos. Sem dinheiro para mais nada não viajávamos. Fomos uma semana para o Algarve em 2001 e em 2005 e passámos um fim-de-semana em Évora em 2003.

Ia à praia com eles na Torreira de vez em quando ao fim-de-semana. Por vezes pegava na minha bicicleta e ia até à praia ler, mas se o fizesse mais que duas vezes no mesmo Verão já era muito. Lembro-me de passar os dias a adiar esta minha viagem até ao Furadouro. Eram apenas cerca de sete quilómetros a pedalar, mas sozinho parecia ser uma distância interminável.

As desculpas eram muitas e variadas. Ora estava mau tempo, ora estava muito calor. A minha constante preguiça e as longas noites passadas no mIRC, faziam com que raro fosse o dia em que saísse da cama antes das duas da tarde. Nas raras vezes que lá conseguia levantar-me cedo, aproveitava as manhãs para ler ou para arrumar o meu quarto.

Chegava a perder dias inteiros na arrecadação à procura de algo em específico. Um velho brinquedo, uma peça de roupa ou algum velho pedaço de lixo tecnológico que pudesse, talvez, ainda funcionar.

Tudo servia como desculpa para não pegar na minha bicicleta. Na verdade só não o fazia por receio de encontrar alguém conhecido. Talvez esteja a exagerar quando o digo, mas durante anos a ansiedade que sentia sempre que era forçado a sair de casa, fez-me acreditar que sofria de agorafobia. Hoje compreendo que o que sentia era apenas medo. Medo de interagir com alguém conhecido fora do habitat natural que era a escola.

Apesar disto, ia ao Porto com alguma frequência. O meu pai deixava-me no Gaiashopping ou no Arrábida. Passeava pelas lojas e ia ver um filme, fim-de-semana sim, fim-de-semana não.

Volta e meia ia também a Aveiro, ou a Coimbra, ter com pessoal com quem falava no mIRC. Eram tardes muito fixes que me davam algum alento para aguentar o resto do ano mas, infelizmente, muito fugazes. Tão fugazes como essas amizades que, hoje, não passam de memórias ou de meros conhecidos que há muito deixei de seguir no facebook.

Sentia-me um verdadeiro outsider, sempre à espera que surgisse alguém capaz de dar um novo rumo à minha vida.

Durante esses anos perdi muitos dos meus interesses. Gradualmente deixei de ver o Em Busca do Vale Encantado todas as semanas. Deixei de coleccionar/jogar cartas Pokémon. Deixei de ver Power Rangers e de brincar com os meus LEGO.

Uma das frases que mais vezes usava no meu perfil do MSN era algo sintomática deste sentimento de perda: “Já ninguém ouve New Order, já ninguém vê o Em Busca do Vale Encantado, já ninguém gosta da Primavera.”

Com três simples traços desenhava a minha solidão.

Virei-me então para a música. Passava os dias entre a MTV e o SOL Música à procura de novas bandas. Por vezes chegava a mandar mensagens para o rodapé do SOL Música. A maioria delas a pedir para passarem New Order ou t.A.T.u.

Cheguei inclusive a ir a alguns festivais de Verão. Era assíduo no SBSR e fui aos dois primeiros Rock in Rio. Sempre com o meu pai, pois nunca encontrava alguém interessado em acompanhar-me.

Eram Verões muito aborrecidos. Passava-os a contar os dias até ao regresso às aulas. Não por gostar particularmente do meu liceu, mas para poder ter algo para fazer além do constante marasmo do meu dia-a-dia.

Passava-os também na esperança que a pessoa de quem gostava na altura não tivesse arranjado namorado e que, de alguma forma, ela se lembra-se que eu existia.

Sempre que, por alguma brecha, a minha realidade se cruza com estas memórias, sinto alguns destes sentimentos a vir ao de cima. Uma profunda tristeza por tempos que perdi, por momentos que não vivi, pela solidão e pela frustração que assolavam os meus dias.

Tive que esperar até 2010 para a minha vida começar a ficar mais interessante e para, de facto, começar a vivê-la.

Ao meu Eu adolescente apenas tenho isto a dizer: Levanta-te desse canto e volta para a cama. Não te preocupes, o futuro será muito melhor.

Thursday, February 12, 2015

O Apego da Solidão

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O tempo passa e com ele passa a dor. Pois tudo passa, até o amor. Na companhia de um bom livro e um violão, vou vivendo com a minha solidão.

Tudo Passa, Marjorie Estiano

Abres os olhos e acabaste de acordar. O sol não acaricia a tua face. O despertador ainda não tocou. Pela janela apenas vês nuvens. Mais um dia cinzento. Mais um dia, como outro qualquer. Por que acordaste tão cedo? Nem mesmo a preguiça te mantém desperto. Estás preso à cama. Sem vontade. Sem cansaço. Sem frio. Sem nada.

São mais os dias que acordamos assim. Sós. Isolados apenas entre os nossos botões. Os nossos pensamentos como única companhia. Sem um corpo quente ao nosso lado. Sem entusiasmo. Sem um motivo. São dias normais. Dias como outro qualquer. São estes os dias que precisas de começar a mudar. Os dias que precisas de começar a viver.

Aprender a viver com nós próprios. A gostar de nós. A ouvir o silêncio. A calar as vozes. Lições importantes e tão fáceis de negligenciar. É fácil depender de alguém. De nos agarrarmos ao apego, à rotina, aos lugares comuns, às nossas redes de segurança. É fácil, sim. Mas é também desprovido de qualquer sentido. É a apologia da preguiça intelectual. Do desafio do crescimento. O adiar do inevitável.

Lidar com a solidão começa por uma reviravolta de conceitos. Não devemos lidar ou combatê-la, mas sim refletir, compreender, aceitar e não deixar que esta nos consuma. O segredo está em sermos felizes connosco próprios. Em encontrar algo agradável nos pequenos pormenores do dia-a-dia. Nos momentos isolados. Nas horas apagadas que devemos ocupar.

Começa por refletir. Um caderno, uma caneta, um chá, ou um café. Um jardim, uma praia, ou um quarto. Um espaço confortável. Escreve se sentires essa necessidade. Desenha. Expressa-te. Pensa naquilo que gostas de fazer. Naquilo que queres fazer. Aquilo que queres melhorar em ti. Quem tu és. Quem podes ser.

Faz esse exercício as vezes que precisares. Interioriza esses desejos. Projecta o teu desafio. E age. Inscreve-te no ginásio. Nas aulas que tens andado a adiar. Cria a tua arte. Expressa-te. Investe em ti. Substitui algumas rotinas por algo mais imprevisível. Se trazes o teu almoço, experimenta comer noutro local. Sai do refeitório e procura um banco de jardim. Faz o caminho mais longo em vez de correres para casa. Desliga a televisão e lê. Levanta-te do sofá e vai conhecer a tua cidade. Troca aquela noite passada online por uma peça de teatro, uma ida ao cinema, ou um concerto. Torna os teus fins-de-semana especiais com aquilo que o Universo deixa ao teu dispor.

Em tempos disseram-me para ir aos locais que mais amo. Aos espaços com que mais me identifico. É lá que te irás encontrar. É lá onde se encontra a resposta.

É fácil confundir amor com apego. Mas são duas coisas bem diferentes. Recentemente vi uma entrevista de Jetsunma Tenzin Palmo, uma monja budista, e um ser-humano extraordinário, em todos os sentidos desta palavra. Nela Jetsunma expõe a sua visão sobre a vida. Mas o vídeo que mais me chamou à atenção foi aquele que diferencia o amor romântico, o apego, do amor genuíno.

Deixarmo-nos consumir pelo apego é um passo na direcção errada. É a negação da individualidade. O forçar de um sentimento que não é real. Um sentimento que não é genuíno. Jetsunma, apesar do seu impronunciável nome, é bastante clara na distinção entre amor e apego. Apego exige a presença constante de alguém. É intenso. E desaparece com a velocidade com que surge. Já o Amor aceita a individualidade de alguém. Admira a sua pessoa. A beleza do seu ser, e do sentimento que ambos partilham. Amar é compreender. Amar é ser feliz com a felicidade do outro. Amar é deixá-la partir. Amar é deixá-la voar.

Para aprendermos a viver com a solidão, devemos amar-nos a nós próprios. Um velho cliché. Uma frase feita. Uma afirmação verdadeira. Uma necessidade primordial. Para amar, devemos desligar-nos do simples apego, compreendê-lo e saber distinguir um sentimento do outro. Para amar, devemos estar dispostos a libertar. Não apenas aquela a quem nos entregamos, mas também as amarras que prendem o nosso coração. Que bloqueiam a nossa felicidade. Que nos impedem de agir.

Não é fácil estar só. Não é fácil viver apenas das conversas que partilhamos entre o silêncio da nossa mente. Não é fácil. Mas é necessário. É necessário aprendermos a viver connosco próprios. A gostar de nós. A combater a inércia. A perturbar a rotina. Só assim podemos crescer. Só assim nos podemos conhecer. Só assim podemos ser alguém que não nos desilude. Alguém capaz de amar. Alguém capaz de ser amado.

A confiança, a vontade, o desejo de nos expressarmos, esconde-se por entre os degraus de um longo caminho de autodescoberta. De crescimento constante. De amor por aquilo que faz de ti quem tu és. Quem tu podes ser. Aquilo que te torna único. A beleza do silêncio interrompido pela tua própria determinação.

Abres os olhos e acabaste de acordar. O sol não acaricia a tua face. O despertador ainda não tocou. Pela janela apenas vês nuvens. Mais um dia cinzento. Já estás a pé. Pronto para agarrar os inesperados encantos que este dia tem para oferecer.