Thursday, August 08, 2013

Vem Sentar-te Comigo, Maria, à Beira do Rio

Imagem DR

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Ricardo Reis

Incontáveis. Inúmeras. Perdemos a conta às pessoas que passam pela nossa vida. Desconhecidos que nos acompanham por breves instantes. Amigos que caminham ao nosso lado. Cada um, uma personagem, uma vida, um destino. 

Hoje, sento-me na beira da estrada. Por entre a multidão, alguém se destaca. Chamo-a e ouço a sua história. 

Maria. Longe de ser a primeira candidata para rainha do baile, raro era o rapaz que não reparava nela. Sempre presente nas festas e nos eventos mais importantes, Maria possui uma aura única que atrai as pessoas para ela. Convicta e determinada, nenhum obstáculo a impede de lutar pelos seus objectivos. Maria constrói o seu destino com as suas próprias mãos.

Nos tempos do liceu, era comum encontrá-la na biblioteca durante os intervalos. Com um livro de arquitectura nas mãos, e um brilho nos olhos. A sua paixão por esta arte era algo que a acompanhava desde muito cedo. Passear por uma cidade com ela, abria os olhos de quem a acompanhava, para os mais ínfimos pormenores de beleza de todos aqueles edifícios históricos, que apenas Maria conseguia encontrar.

A cidade ganhava vida. Como se uma doce música entoasse em perfeita sintonia, a cada esquina que ela passava, a cada sílaba que ela dizia, a cada peça de arte que ela revelava. 

Maria seguiu o seu sonho. Viajou. Acabou o curso. E acordou para a realidade. Mas não deixou o desespero apoderar-se do seu espírito. Maria bateu a todas as portas. Quando nenhuma se abriu, voltou a viajar. Inglaterra, Dinamarca, Suécia e Estados Unidos. Uma cidade nova a cada ano que passava. Uma nova porta que se abria. Uma carreira construída a custo, com um elevado nível de satisfação.

Não teve medo. Arriscou. Construiu a sua própria escadaria de sucesso. Cada degrau trabalhado por lágrimas de esforço. Por boas e por más recordações. Por erros e por rasgos de génio. Por competência e desleixo. Por ensino e experiência.

Maria chegou mesmo a conhecer alguns dos seus ídolos. Seguiu os seus passos, e hoje trabalha em proximidade com alguns deles. O sonho de Maria, virou paixão e desejo. A cada dia que passa, aquela rapariga de uma pequena cidade portuguesa, torna-se num exemplo de perseverança. 

O seu sonho é hoje realidade pois Maria não teve medo de partir. Não teve medo de olhar a adversidade nos olhos, e de sorrir perante o desafio. 

É difícil deixarmos a nossa casa. A nossa família. Os nossos amigos. Mas por vezes, é necessário. Maria não se conformou. Não aceitou algo abaixo da sua ambição. Tudo que ficasse aquém daquilo que desejava, não era suficiente. 

Maria é hoje uma cidadã do Mundo. Uma arquitecta de renome. Estável e concretizada. Feliz por ver o seu sonho realizado. E por saber que aquela adolescente que passava os intervalos na biblioteca, olha hoje para ela com orgulho e admiração.

Comovido pela sua história, despeço-me de Maria. Tal como o resto da multidão, também ela segue o seu caminho, levando consigo apenas a certeza de que nada a irá impedir de alcançar o seu destino.

É difícil sairmos da nossa zona de conforto. É difícil arriscar. Deixar tudo para trás. É difícil, mas a perda é passageira, quando o ganho é tão elevado. Tristeza apenas sente quem abdica do seu destino. Quem se conforma. Quem desiste.

Levanto-me. É hora de me fazer à estrada. Longe da multidão, levo comigo a história de Maria. Inspiração para o caminho que se segue. Motivação para o desconhecido que o amanhã reserva para todos nós.

Monday, February 23, 2009

Tuesday, July 11, 2006

Out on the Edge

Escadaria em Espiral do Museu do Vaticano
Nos últimos tempos tenho reparado na maneira como as coisas estão interligadas, e como interagem entre si. Ao abrir os olhos somos capazes de reparar em todo o tipo de coincidências. Como naquela noite em que estava a fazer zapping e acabei por ver três filmes onde, por meros segundos, o mesmo tema surgia, inclusive quando este pouco ou nada tinha a ver com a história.

Qualquer um podia interpretar isto como algum tipo de sinal, mas a verdade é que não me lembro de que tema se tratava, logo, a importância dessa situação acaba por aqui.

Há uns anos atrás, estava aborrecido a ver TV e decidi mudar para o MGM. Estava a dar um filme que achei bastante interessante e que, apesar do meu cansaço, decidi ver até ao fim. Alguns meses depois, repetiram esse filme e também o vi até ao fim. No final, tocavam uma música que, tal como o filme, agradou-me bastante.

Da última vez que vi o filme, decidi pesquisar pela música para fazer o download da mesma. O único problema foi que voltei a não apanhar o nome do filme, nem o nome da música, e, apenas conseguia lembrar-me de parte da letra. Com isto tentei procurar a música mas os meus esforços foram em vão.

De vez em quando lá tentava outra vez, mas nem o Google parecia ser capaz de me ajudar. Estava prestes a desistir quando, recentemente, lembrei-me de procurar por fóruns sobre filmes e perguntar por lá se alguém era capaz de me dizer o nome do filme.

Podia não me lembrar do seu nome mas lembrava-me de todos os detalhes mais importantes. Felizmente, consegui a minha resposta. O nome do filme era "The Heavenly Kid" de 1985. Coloquei este nome no eMule e lá encontrei a banda sonora com a música que eu queria.

Ao carregar no play deixei-me assolar por um profundo sentimento de concretização por finalmente ter encontrado a música. Mas esse sentimento foi breve, pois quando a música chegou a meio, apercebi-me que esta era muito repetitiva e pouco interessante.

Depois de tanto tempo de pesquisa, sinto que o meu esforço foi em vão, pois não gosto da música. Mas na verdade não foi totalmente em vão. Descobri o nome do filme, e agora posso vê-lo sempre que quiser.

Com esta história tento chegar a uma analogia. Uma certa teoria diz que nós só queremos aquilo que não temos. O que até faz sentido, se o temos não o devíamos querer, pois já o temos.

Da mesma forma, aquilo que queremos é aquilo que desejamos, e ao termos algo deixamos de o desejar. Segundo esta lógica corremos o risco de nos sentirmos constantemente frustrados.

Onde quero chegar é que não importa o quanto queremos algo, se algum dia o chegarmos a ter, vamos deixar de o desejar. Tendo em conta o que se sucedeu com a música, com muito esforço somos capazes de atingir os nossos objectivos, e deles até somos capazes de obter algo interessante. Contudo, na maioria das vezes, acabamos por sentir que todo aquele esforço foi em vão, e que não valeu a pena.

Mas como tudo está interligado, e esta metáfora de vida não é nenhuma verdade absoluta, acabo por retomar um raciocínio anterior, que também pode ser retirado desta história. Sim, pois em verdade vos digo, como já dizia o poeta, "Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena."