Friday, May 13, 2016

Privilégio

Imagem DR
Porque eu sou do tamanho do que vejo 
E não, do tamanho da minha altura...
Fernando Pessoa

O paradigma da relação empresa/trabalhador no mercado português encontra-se estagnado. Está fora-de-moda, bolorento, decadente e a apodrecer. Caiu em desuso há mais de quarenta anos, mas, contudo, ainda ninguém foi capaz de despertar os empregadores para a realidade das dinâmicas do mercado internacional. 

Num país que se orgulha de ser bastante conservador, ao mesmo tempo que tenta promover lá fora uma imagem de bastião das políticas de mercado livre globais, não deixa de ser estranha a forma como o capitalismo continua a ser visto internamente como um mero desígnio teórico. Apenas aplicável às relações entre chefias, e ao consumismo esforçado do proletariado comum.

Quantas vezes não ouvimos alguém falar no privilégio que é certas e determinadas pessoas terem a oportunidade de trabalharem para uma empresa em particular. Esta é uma ideia deturpada, retrógrada, gasta e ilusória. Privilégio é apenas uma palavra que fica bem numa carta de apresentação ou numa entrevista. Nada mais. Todo este conceito está virado do avesso. Não é um privilégio trabalhar para uma certa empresa, mas sim, o facto de essa empresa nos poder ter a nós como trabalhadores. 

Reconheço que para muitos o seu emprego de sonho passa pela oportunidade de trabalhar para uma entidade em específico, ou com uma pessoa em particular, seja ela um ídolo, ou apenas alguém que admiram e que sonham ter como par. Contudo, para a grande maioria, um emprego é apenas uma forma de fazer aquilo que gostamos em troca de uma remuneração adequada às nossas funções e ao nosso desempenho como trabalhadores. 

É fácil e tentador para um empregador ter uma classe verdadeiramente subordinada sob o seu controlo. Empregados que apenas marcam o ponto, fazem o que têm a fazer, com medo ou desinteresse em levantar uma questão que seja sobre as diversas situações que diariamente assolam a empresa que o emprega. 

A crise económica dos últimos anos podia ter sido vista como uma oportunidade para alterar este paradigma. Para criar um mercado de trabalho aberto e livre. Onde cada possível trabalhador entraria em competição entre várias empresas, cada uma há procura daquele com as melhores credenciais para suprir as suas necessidades, aliciando-os com salários e extras bem mais atraentes que os dos restantes competidores. 

Em vez disso, as empresas fecharam-se. Reduziram as despesas. Investiram na mediocridade, ameaçaram os seus trabalhadores com desemprego, e alimentaram a ideia de que é preferível ter um emprego cinzento, desgastante e opressivo, a nos aventurarmos pelas imprevisibilidades do mercado.

Essas empresas, aquelas que ainda não faliram, estão a perder o comboio da modernização para as suas congéneres estrangeiras, e para inovadoras startups que não recearam quebrar este paradigma há muito estabelecido como regra de péssimos costumes. A sua força laboral é fraca e doente. Apenas faz o mínimo possível, sem qualquer paixão pelo seu trabalho, pois assim ditaram as chefias através do seu constante ambiente de ameaças infundadas e de cortes salariais constantes. 

Parte da natureza humana grita por almejar a felicidade. Não fomos feitos para ser gado. Não fomos feitos para aceitar incólumes as constantes injustiças que mentalidades retrógradas insistem em impor à classe trabalhadora.

Pois no que a isto diz respeito, os empregadores que ainda assim pensam, estão condenados ao fracasso. Empresas como a Google, o facebook, a Apple e a Microsoft, cresceram e construíram os seus impérios, não à base da opressão, mas sim através da criação de oportunidades, de condições e de ambientes, aliciantes e capazes de atrair as melhores mentes das suas respectivas áreas. São vistas como empresas de sonho não pelos salários, ou pela sua visibilidade, mas sim pela forma como tratam os seus trabalhadores, pelos extras que lhes oferecem e pelo ambiente de abertura, liberdade e competição saudável dentro e fora da própria empresa. 

Mas isto não é algo apenas aplicável às grandes tecnológicas. Qualquer empresa pode-o fazer. Independentemente do seu tamanho. Está apenas à distância da imaginação e da capacidade de inovar de cada um dos seus empregadores.

Não é por nada que hoje vemos tanta gente a preferir emigrar, ou a investir nas suas próprias ideias, ao invés de se sujeitarem à banalidade de trabalharem para um energúmeno qualquer sem capacidade de compreender o quão diferente é o Mundo e o mercado actual. 

Durante meses perdemos horas a analisar as diversas transferências nos mais variados mercados desportivos. O mundo do trabalho real não devia ser diferente deste. Os melhores deviam sempre ser aliciados com novos contratos, e cada empresa devia ter o seu próprio departamento de scouting. É assim que funciona lá fora, mas, por cá, ainda tarda a chegar.

Os tempos de ficarmos ligados a uma só empresa durante vinte, trinte ou quarenta anos, há muito que já lá vão. Não nos devemos contentar apenas com aquilo que temos, mas sim, ter sempre a ambição de almejar a algo melhor. E se essas condições não existem internamente, não devemos ter medo de procurar outra empresa, outra cidade, ou outro país, capaz de nos dar aquilo que verdadeiramente merecemos. 

O verdadeiro privilégio é a empresa que reconhece e valoriza os trabalhadores que tem e que tudo faz para não os perder. Está na hora de mudar a retórica. O privilégio é todo vosso. Nós apenas estamos cá de passagem. Parem de nos tomar como garantidos, pois à mínima oportunidade estaremos sempre prontos para dar o salto e voar para novas e melhores paragens. 

Thursday, April 02, 2015

Adeus Covilhã

Paredes da Covilhã, Foto: Adriano Cerqueira
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Ricardo Reis

Há algum tempo que não leio. Não como naquele dia. Não esperava terminar o livro tão depressa. Não esperava devorá-lo em menos de um dia. Afinal, escolhi-o para descansar. Para me livrar por momentos daquele Universo. Passavam dez meses desde que tinha começado a ler A Song of Ice and Fire, livro após livro, sem descanso. As viagens de comboio ajudavam. Se ajudavam!

Evolução e Criacionismo: Uma Relação Impossível”, uma obra teórica. Uma colaboração entre vários autores, entre os quais, Octávio Mateus, O paleontólogo português, e alguém cujo trabalho admiro. Era um dia atípico. Finalizado o meu contrato com a RTP poucos dias antes, tinha então duas entrevistas de emprego. Uma no Porto pelas nove e meia, e outra em Lisboa às seis da tarde. A de Lisboa era a que mais me atraía, não só pela posição em si – estava a candidatar-me para o lugar de designer numa exposição temporária sobre borboletas – mas também pelo local, o Museu de História Natural. A do Porto era mais apelativa, sim, trabalhar como editor de vídeo para um projecto educativo sobre Engenharia encaixava-se mais dentro das minhas aptidões, contudo, o desafio era pequeno, e a temática menos apelativa.

20 de Dezembro de 2012. Parti em viagem. De Ovar para o Porto, do Porto para Lisboa, de Lisboa para Ovar. Fiz nesse dia cerca de sete horas de viagem, sem contar com algumas horas mortas de espera entre comboios e entrevistas. A única constante era o livro que trazia comigo. Página após página. Capítulo após capítulo, quando enfim cheguei a casa, umas meras dez páginas me separavam da sua conclusão. Foi a primeira vez que li um livro em menos de vinte e quatro horas. Foi a primeira vez que quebrei verazmente a minha regra de saborear cada página com o devido tempo que esta merece.

Semanas mais tarde recebi as respostas. Com poucos dias de diferença. Segundo lugar em Lisboa, quinto no Porto. Não fiquei colocado. Não me deixei surpreender pelo resultado, apesar da frustração que é ficar tão perto do primeiro, e tão desejado, lugar. Enfim, não estava escrito.

Foi numa tarde não muito diferente daquela que fiquei a conhecer o meu próximo destino: Covilhã. Fiquei na Covilhã. A entrevista tinha corrido muito bem e estava confiante num bom resultado. A vontade de me mudar para tão longe, para lá da Serra da Estrela, era pouca, se não mesmo nenhuma. As oportunidades escasseavam, e o projecto não parecia mau de todo. Desta vez não havia mais comboios ou metros. Apenas um Expresso. Companheiro semanal durante vinte e dois meses. Vinte e dois meses que não foram mais, pois hoje faço dois anos da minha mudança para a Covilhã, e já lá não resido.

Vinte e dois meses guardam em si mais histórias que aquelas que quero, ou que posso, contar num espaço tão reduzido como este. Vinte e dois meses de saudades por um local que todas as semanas ansiava por abandonar. Vinte e dois meses de convívio, de amizade. Vinte e dois meses de muito mais do que podia esperar.

Tivesse seguido à risca o plano que me tinham delineado e ainda teria mais dois meses de Covilhã, de Comunicar Ciência, de Beira Interior, pela frente. Mas era hora de partir. Na verdade, essa hora já tinha passado há muito. Talvez em Outubro, talvez em Maio. Mas de algo estou certo. Não havia outro sítio, outro local, outra casa, ou outra cidade que não a Covilhã. Ao longo destes vinte e dois meses era lá que eu tinha que estar. Era lá onde eu tinha que viver. Já era tarde para Ovar, e ainda muito cedo para Coimbra. Porto e Faro eram boas recordações. E Lisboa. Lisboa era tudo isto. Tudo isto e algo mais que ainda não sou capaz de compreender.

Hoje sei que tenho saudades da Covilhã. Saudades de entrar no LabCom. De ouvir o Sousa a perguntar se era feliz, ou se me encontrava bem. Dos almoços com a Sara e o Rodolfo, e das sessões de terapia que lhe oferecíamos entre um prato qualquer e umas Papas de Carolo. De coleccionar Legos com a Ana e a Cristina. Das sessões de cinema do Fernando. Das noites divididas entre o Japonês e a Taberna. Das particularidades de cada pessoa que conheci. Enfim, da Covilhã.

Nunca te vi como mais que um degrau na longa escada que ainda tinha por percorrer. Assim foste, e assim serás relembrada. Foste aquilo que precisava, quando precisava. Uma solução, uma oportunidade. Um retiro, uma viagem. Uma experiência, uma necessidade. A única constante. A minha casa fora de casa.

Faz hoje dois anos que me mudei para a Covilhã. Faz hoje dois meses que de lá me despedi. Obrigado Covilhã. Obrigado pela dureza do teu Inverno. Obrigado pelo acutilante calor do teu Verão. Obrigado por seres igual a ti própria. Pela frieza do teu raciocínio. Pelo realismo do teu sentimento. Enfim, obrigado e adeus. Adeus, Covilhã. Até sempre.

Tuesday, April 02, 2013

Primeiras Impressões

Imagem: Cat Ghost Comics
“Não existem segundas oportunidades para criar uma boa primeira impressão”. Cliché. Lugar-comum. Frase feita. Ou outro qualquer sinónimo. É este o primeiro pensamento que ocorre sempre que nos deparamos com esta afirmação. Embora esta frase seja verdadeira na sua natureza mais simples, bastando para isso seguir a lógica ordinal da sua premissa, não passa de um desperdício de letras sempre que a encontramos num guia sobre entrevistas de emprego.

Já todos lemos inúmeros artigos sobre como preparar uma entrevista de emprego. Seguimos atentamente os cinco, dez, quinze ou infinitos passos necessários para impressionar um potencial empregador. Motivados por necessidade, inexperiência, ou simples curiosidade, lemos cada conselho até à última linha. Artigo, após artigo, chegamos à conclusão de que no fim dependemos sempre de nós próprios. Do nosso à vontade e da nossa capacidade de dar a volta às questões.

A gramática da imagem

Tenho a sorte de na minha área ser incentivado um dress code casual. Com a excepção de certos eventos formais, o dia-a-dia não exige a obrigatoriedade de usar um fato, embora, como seria de esperar, também não é aconselhado sermos desleixados ao ponto de aparecermos de pijama ou com algo que revele de forma óbvia a nossa posição perante uma certa subcultura. Entre um empresário e um metaleiro, algum meio-termo se há-de arranjar. 

Numa entrevista de emprego devemos ter uma noção realista das normas de visual aplicadas dentro da área à qual nos candidatámos. Se no meu caso apresentar-me de fato seria um erro, devendo assim optar por uma roupa simples, igual àquela que usaria num dia normal, tal pode não se aplicar em empregos que exijam uma apresentação mais formal. Contudo, aí levanta-se a questão: Como podemos ser nós próprios se somos forçados a vestir algo no qual nos sentimos desconfortáveis?

O simples facto de te sentires desconfortável com aquilo que trazes vestido já é um ponto negativo. Se a priori já sabes que vais ter que te apresentar de uma certa forma, deves habituar o teu corpo a sentir-se confortável dentro desse visual. 

Devem-se lembrar da velha superstição de que nunca se deve estrear roupa nova no dia de um exame. Tal como toda a sabedoria popular, mesmo a mais duvidosa, tem algo que se lhe diga. Ao estrearmos uma peça de roupa nova, principalmente se estivermos a falar de calçado, o nosso corpo vai estranhá-la ao início. Vamos sentir um ligeiro desconforto por este elemento novo ser diferente daquilo a que estamos habituados e esse mesmo desconforto vai criar uma situação de instabilidade emocional que, por mais ligeira que seja, vai sempre ter influência na nossa postura, na nossa concentração, mas, acima de tudo, no nosso à vontade.

Como no caso dos exames, também não devemos levar roupa por estrear para uma entrevista de emprego. Com isto não quero dizer que devemos usar roupa velha, mas se quiserem impressionar o vosso empregador com um vestido novo ou com um fato acabadinho de comprar, usem-no pelo menos uma vez antes da entrevista. Sem querer cair no lugar-comum de tornar este artigo em mais uma lista de conselhos para ter sucesso numa entrevista, a verdade é que este é um ponto importante que nem sempre é abordado. O potencial empregador vai-se aperceber imediatamente do vosso desconforto. Isto abre a porta para toda uma série de preconceitos que não irão abonar em vosso favor.

É de esperar algum nervosismo, principalmente para aqueles que acabaram de sair da faculdade e que se encontram pela primeira vez nestas andanças. Mas não há nada pior do que darem a entender que sofrem de alguma espécie de mal-estar e que não conseguem sentir-se à vontade com esta situação.

“Onde se vê daqui a cinco anos?”

Possivelmente a pergunta que mais vezes aparece nessas “receitas” de sucesso. Não sei se existe algum livro ou manual que todos os empregadores são obrigados a ler com uma lista de perguntas que devem ser feitas. No meu caso, apenas por uma vez me fizeram as habituais questões que todos conhecemos. “Quais são os seus passatempos?”; “Qual a sua principal qualidade? E defeito?”; “Se se pudesse descrever em uma palavra qual seria?”, etc. Infelizmente, foi na minha primeira entrevista. Dizer que correu de forma desastrosa é ser simpático comigo próprio. Não é que não estivesse preparado para este tipo de questões, mas cometi erros de principiante que no fim fizeram-me questionar se não era algum personagem estereotipado numa sitcom banal que não conseguiria ser renovada no final da primeira temporada. 

Mas essa experiência foi suficiente para melhorar a minha postura daí em diante. E a verdade é que fora um ou outro caso, não posso dizer que tenha voltado a ter uma entrevista que tivesse corrido mal. 

É certo que nunca mais me deparei com esse tipo de questões, mas mesmo assim não fui poupado a algumas inquisições difíceis. Na maioria dos casos, apenas me faziam perguntas sobre o meu background e sobre aquilo que me motivava a querer trabalhar naquele lugar e naquele emprego em específico. Mas alguns acrescentavam uma ou outra ratoeira. A última que foi capaz de me surpreender foi quando me perguntaram sobre como me sentiria se ficasse em segundo lugar. Suspeito que esta questão procurava perceber o quão motivado eu estaria para conseguir aquele emprego. Na altura optei por ser honesto e afirmar que apesar da frustração que mais do que provavelmente iria sentir, “a vida continua”. Sim, eu caio nestas frases feitas de vez em quando, principalmente se me colocarem sobre pressão criativa. 

Hoje penso que essa talvez não seria a resposta mais adequada, contudo, visto que se tratava de um emprego com algumas exigências técnicas acima daquelas que actualmente possuo, não creio que tivesse sido um factor determinante no facto de eu não ter ficado com o lugar. 

Heineken dá o exemplo

Por mais que nos tentemos preparar para uma entrevista a verdade é que no fim a única coisa que podemos esperar é o inesperado. Lá estou eu outra vez a cair em mais um cliché, mas devem concordar que com este tema é difícil não o fazer. 

A meu ver não há melhor exemplo disto que o mais recente método de recrutamento da Heineken. Método esse que acabou mesmo por se tornar num vídeo viral com algum sucesso nas redes sociais. 

O procedimento começa de uma forma aparentemente normal. O candidato chega, apresenta-se e aguarda pelo entrevistador. A partir do momento em que este se apresenta tudo deixa de ser previsível. Em um dos casos o entrevistador deu a mão ao candidato e levou-o pela mão, como se de um casal apaixonado se tratasse, até ao gabinete da entrevista. Lá, questionou-o sobre se aquele gesto o tinha feito sentir confortável. A seguir ao “sim” desonesto do perplexo candidato o entrevistador respondeu-lhe da seguinte forma: “A sério? Você é um tipo muito estranho”. 

Seguiram-se desmaios, birras e alertas de incêndio. Situações inesperadas de emergência que colocavam o candidato sob stress e forçado a agir por instinto. Como teste final, o candidato era convidado por um grupo de bombeiros a segurar numa rede para apanhar uma pessoa que se ia lançar de um prédio em chamas. Nem todos deram resposta ao apelo dos bombeiros, limitando-se apenas a observar e a esconderem-se no meio da multidão. 

Todas estas entrevistadas foram filmadas, editadas e colocadas no site interno da Heineken para que os próprios trabalhadores da empresa pudessem votar no melhor candidato. Uma espécie de reality show interno. O candidato mais votado foi o escolhido para o lugar.

O próprio anúncio de que este tinha sido aceite foi feito, como não podia deixar de ser, de uma forma completamente inesperada. Momentos antes de um jogo da Juventus para a Liga dos Campeões o candidato entrou no estádio juntamente com a equipa responsável por abanar a lona com o logótipo da Liga dos Campeões no centro do relvado. Agarrado à enorme lona da mesma forma que se tinha agarrado à rede dos bombeiros, o candidato viu o seu nome e uma mensagem de parabéns aparecerem no ecrã gigante do estádio. Imaginam-se a ser aplaudidos por 40 mil pessoas no meio de um campo de futebol enquanto vos é anunciado que conseguiram o emprego que desejavam? Duvido que nos seus sonhos mais íntimos aquele candidato alguma vez tivesse imaginado uma situação destas. 

Por mais que nos preparemos para uma entrevista de emprego a única forma de causarmos essa boa primeira impressão resume-se a sermos iguais a nós próprios e a sentirmo-nos confortáveis, não apenas connosco mas com o ambiente que nos rodeia. Esperar o inesperado. Visualizar-nos a ter o emprego. Frases feitas. Lugares-comuns. Clichés inúteis que de nada servem se apenas tentarmos mostrar algo que não somos.


Thursday, December 20, 2012

Seguro Social Voluntário

Imagem DR
A vida de um bolseiro não é tão glamorosa como muitos podem pensar. Para alguém com ensino superior, ainda é uma das poucas formas de conseguirem um emprego com um salário relativamente adequado às suas competências e formação. Contudo, se pusermos de lado o valor, tudo o resto é tão ou mais precário que qualquer outro pseudo-emprego.

Sim, os bolseiros não pagam impostos. O IRS é uma sombra de um futuro distante e os descontos para a Segurança Social, esses, apenas existem sob o regime do Seguro Social Voluntário. Mas já lá vamos. Vamos começar pelos subsídios. Sejam eles de Férias, de Natal ou até mesmo de refeição, a nenhum têm eles direito. Têm direito sim, a 22 “dias de descanso”. E chamam-se dias de “descanso”, pois se fossem de “férias” teriam que ser subsidiados. Impensável na mente de qualquer empregador.

Trabalham doze meses, alguns deles com cinco semanas, mas recebem sempre como se apenas tivessem quatro. Mas como “descansam” durante 22 dias, para quê receber o 13.º mês?

Seguro de saúde, pelo menos a esse, por enquanto, ainda têm direito. Por quanto tempo, não sabemos, mas até lá ainda vão poder curar-se de qualquer doença que os aflija. E por falar em seguro, retomemos então o Seguro Social Voluntário. Sim, porque ele apesar de se apresentar como uma necessidade básica e até mesmo obrigatória de qualquer emprego “a sério”, para estes é apenas voluntário. Podes escolher entre pagar e ter alguns direitos, ou não pagar e não teres nenhum.

Para que serve então este Seguro Social Voluntário? Visto que ele é equivalente aos descontos para a Segurança Social, devia servir para teres direito a Subsídio de Desemprego assim que a tua bolsa termine. Afinal um bolseiro trabalha tanto ou até mais que qualquer outro trabalhador. Devia servir, mas não serve.

O Seguro Social Voluntário serve apenas para descontar para a Caixa de Aposentação, ou para teres direito aos subsídios de parentalidade ou de doença. Se entretanto ficares desempregado, o estado dir-te-á “azar, e até uma próxima”. Vá, podes sempre tentar pedir o Subsídio Social de Desemprego. Mas antes é melhor esvaziares a tua conta do banco e ires viver sozinho. Afinal de contas és um bolseiro desempregado, deves ter dinheiro suficiente para sustentar uma casa. Caso não o faças, se eles encontrarem um cêntimo que seja escondido debaixo do teu colchão tiram-te o subsídio num abrir e piscar de olhos.

Mas não te preocupes. Tens direito a receber uma carta em português macarrónico com a palavra Indeferido a negrito algures lá pelo meio. Não, não te estão a convidar para veres um jogo da Liga dos Campeões na TVI depois deste já ter terminado. Eles apenas querem que vás bater a outra porta pois dali não vais ver um único tostão.

Vale então a pena descontar para o Seguro Social Voluntário? Se o teu Instituto te cobrir o custo (creio que apenas alguns o fazem), não tens nada a perder. Caso contrário, cabe a ti decidires se vale a pena pagar cento e poucos euros por mês para um dia, possivelmente, teres direito a uma reforma. Nunca se sabe, podes até querer ser pai ou ficar doente um dia destes, e aí o Estado terá que mexer mais cordelinhos para não te pagar aquilo que te é devido.

Mas quanto ao Subsídio de Desemprego. Esse, podes esquecer e depressa. Mas vá, poderás usar esses anos para te reformares mais cedo. Talvez aos 70, em vez dos 80 e poucos.

Para finalizar, e adoptando agora o tom sério que esta crónica merecia ter desde o início, os bolseiros são severamente mal tratados pelo Estado. O Estatuto do Bolseiro de Investigação deve ser revisto e adaptado à realidade do país. Se os Estágios Profissionais que actuam em regime de pseudo-aprendizagem têm direito a descontos para a Segurança Social e a pagar o IRS, porque devem as bolsas continuarem a ser postas de lado como se não passassem de investimentos luxuosos da FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia)?

As bolsas de investigação são hoje em dia a única alternativa viável de emprego para muitos recém-licenciados e mestres do ensino superior português. Se continuarem a tratar os bolseiros como trabalhadores de segunda e a negar-lhes o direito ao subsídio de desemprego e a outros descontos e regalias sociais, como esperam que a investigação científica cresça e evolua em Portugal? Já muito é feito hoje em dia com baixos recursos e à custa de parcerias europeias. Portugal tem que aumentar os esforços para manter os seus cientistas, os seus licenciados, os seus mestres e os seus doutorados, dentro das suas fronteiras de livre vontade e com as condições salariais e de trabalho adequadas às suas funções.

O segredo para o crescimento económico e para a inovação tecnológica está na massa cinzenta das nossas universidades, nos milhares de formandos que todos os anos investem na sua educação e em projectos de investigação. Dêem-lhes as condições necessárias para terem uma boa vida cá. Para que quando forem lá para fora saibam dizer bem de nós e que o façam sempre com o desejo de um dia regressarem para ocupar o lugar que é seu de direito.

Basta de ignorar as necessidades dos bolseiros. Basta de virar as costas aos seus pedidos. É necessário criar uma base de igualdade para todos os trabalhadores, sem excepção. Sejam eles estagiários, bolseiros, trabalhadores a recibos verdes, empregados com contracto a termo ou vitalício. Todos devem ser regidos por uma base social que salvaguarde os seus direitos, assim como os seus deveres, durante e após o período de emprego. Só assim seremos capazes de crescer, só assim seremos capazes de levantar a nossa economia e de fazer com que ela avance de cabeça erguida, reforçada por uma força laboral coesa e motivada. Só assim, e pegando nas palavras de Fernando Pessoa, só assim se fará Portugal!

Wednesday, December 12, 2012

Elogio da ineficiência

Todos reagimos com indignação perante as acusações da Finlândia e da Alemanha que retractavam o povo português como preguiçoso e inadequado para trabalhar. Preferíamos passar os dias a apanhar sol e a pensar em maneiras de fugir ao fisco do que a contribuir de forma directa para a produtividade do país. Embora ache que estes comentários são despropositados e exageradamente irrealistas, começo a pensar que eles são capazes de ter razão em certos pontos.

No Reino Unido, E.U.A., Alemanha e restantes países de origem germânica ou anglo-saxónica, é promovida a eficiência e o máximo de produtividade dentro do horário de trabalho. Os trabalhadores que conseguirem concluir as suas tarefas dentro do horário de expediente são elogiados, enquanto que aqueles que fazem mais horas que aquelas estipuladas no seu horário são postos de lado e ficam com o emprego em risco. Cá acontece precisamente o contrário. São mais bem vistos pelos empregadores os trabalhadores que fazem horas extra, mesmo quando estas não são pagas, em detrimento daqueles que saem todos os dias à hora certa com as suas tarefas completas. Isto acontece mesmo quando o empregado que fica mais tempo o gasta a ver e-mails e a navegar nas redes sociais. Promovemos assim uma baixa produtividade e uma ineficiência geral na gestão de horários que além de surreal é inteiramente incompreensível.
 
Todos nós já ouvimos falar dos famosos estágios de advocacia onde os estagiários são obrigados a ficar um bom tempo depois da hora de saída apenas para causarem uma boa impressão. Ao deixarmos um grupo de pessoas inutilmente paradas num local estamos a gastar o tempo delas, a cansá-las física e psicologicamente, além de gastarmos recursos da empresa como luz e água, e aumentarmos o desgaste no processamento dos computadores.

Contudo esta prática continua a ser considerada natural e imprescindível para a selecção dos trabalhadores. Como é possível que não consigam ver a enorme falha desta sua lógica dispendiosa?

Há uns tempos vi alguém a ser elogiado por não ter feito nenhuma directa ao longo de um ano em que fez uma tese de mestrado enquanto frequentava um estágio profissional sem obrigatoriedade de frequência de um horário restrito. Espantou-me que tal comportamento tivesse sido elogiado. Isto não devia ser a excepção mas sim a norma.

Nunca fiz uma directa. Após cinco anos de licenciatura e mestrado e mais três de experiência profissional nunca tive a necessidade de fazer uma directa sem dormir. No ano passado trabalhei numa empresa onde fazia um horário diário das nove da manhã às seis da tarde. Ao mesmo tempo escrevi a minha tese de mestrado e realizei um projecto de tese que consistiu na realização de duas curtas-metragens e da programação de um sistema de visionamento para as duas. Além disso ainda tive que realizar estudos de campo para visionamento e análise da plataforma. Para agravar a situação, todos os dias gastava duas horas em transportes entre a casa e o trabalho. Mesmo assim nunca tive que fazer uma única directa e continuei a sair com os meus familiares e amigos. Consegui entregar a tese a tempo sem a necessidade de pedir um adiamento, ao passo que muitas pessoas que estavam inclusive desempregadas não o conseguiram fazer. Fiz tudo isto sem perder um único episódio das 15 séries que seguia semanalmente. Como consegui fazer isto tudo sem perder uma única noite? A resposta é simples, organizei bem o meu tempo, dormia sempre oito horas por dia e parava sempre que sentia necessidade para o fazer. Basta ter disciplina e organização e tudo é possível.

Embora na minha área por vezes sejamos forçados a trabalhar de noite para cobrir, organizar ou documentar eventos, são excepções pontuais que justificam perfeitamente algumas horas extra de trabalho. Com isto não estou a afirmar que as pessoas que trabalham apenas de noite são desorganizadas. Cada um tem o seu ritmo e algumas pessoas trabalham melhor de dia do que de noite. Agora, nada justifica gastarem 24, 36 ou 48 horas seguidas sempre a trabalhar.
 
Eu trabalho melhor entre as 15 e as 18 horas. Nessas três horas consigo ser mais produtivo que a maioria das pessoas que conheço, contudo também consigo trabalhar bem de manhã, se bem que a um ritmo mais lento. Já de noite, esqueçam. Preciso do meu descanso e do meu tempo pessoal. É importante relaxarmos o nosso corpo e ocupar a nossa mente com algo sem ser o trabalho, se não o fizermos sobrecarregamos o nosso organismo com stress e acabamos por perder energia, vontade e resistência. Acabamos por adoecer sem conseguir ter nada pronto a tempo, nem com o mínimo de qualidade exigida.

É ridículo esta promoção do “fazer parecer que se faz mais”. O que importa são os resultados e quanto mais baixo for o custo para obter esses resultados melhor será a performance do trabalhador e da própria empresa. Compreender este princípio básico é a base do sucesso para qualquer empresa que se queira afirmar no mercado internacional.

Sunday, October 21, 2012

Basta de Apatia

Poucas coisas me entristecem mais do que ver jovens com o espírito quebrado a apaticamente aceitarem condições desumanas com um forte desrespeito pelos seus direitos como trabalhadores em troca de umas míseras ninharias.

Os tempos que vivemos levam as pessoas ao desespero. Fala-se de emigração forçada e de desempregados crónicos. Os mais velhos reivindicam os direitos que lhes foram retirados com protestos vazios e greves constantes. Mas enquanto tudo isto se espalha pela boca do povo, os poucos jovens que lá se conseguem safar no mercado de trabalho vêem-se resignados com condições precárias, direitos deturpados e sobrecarregados de deveres que atingem o limite do esclavagismo. E tudo isto com salários que na maioria dos casos não reflectem nem o seu valor como profissionais, nem a sua experiência profissional, nem tão pouco a sua formação académica.

Entristece-me ver pessoas que, ao final de um mês de trabalho, acumularam horas extra suficientes para merecem mais do dobro que aquilo que ganham, aceitarem com um encolher de ombros o ultraje natural que é não receberem um cêntimo sequer de compensações pela carga excessiva de horas. As empresas aproveitam-se da actual conjuntura para maltratar os seus trabalhadores. Negam-lhes subsídios de saúde e de alimentação, arranjam artimanhas para não formalizar os contratos, adiam os pagamentos sem quaisquer justificações e esperam que a pessoa, qual cãozinho obediente, apareça todos os dias à mesma hora e se sujeite a permanecer lá até à hora que lhes bem apetecer.

Basta desta apatia! Por maior que seja o desespero e por maiores que eles vos pareçam, nada merece tamanhos maus-tratos. O mais triste em tudo isto é que a culpa não é apenas da ganância das empresas, é de nós próprios e daqueles que vieram antes de nós e que se limitaram a sujeitar-se a estas condições, aceitando-as como norma, sem qualquer protesto, crítica ou reivindicação. As empresas esfregaram as mãos perante a nossa apatia e deixaram de ter limites para a precariedade. Limites esses que deviam ser impostos por nós e não apenas por eles.

Deitaram a ética laboral para o lixo, porque os deixaram fazê-lo. Tiveram a oportunidade de encarar a crise com uma moralidade superior de respeito pelos seus trabalhadores, mas em vez de o fazerem rebaixaram-se ao nível da escumalha mais baixa. Nivelaram por baixo e afastaram-nos da média europeia. Mesmo o sector público que devia primar pela qualidade e dar o exemplo das boas práticas, apresentou-se como a bandeira da precariedade e de como não se deve fazer. Alguns privados foram atrás, os mais pequenos, os que se acham maiores que as suas reais dimensões, os falidos e os gananciosos. Todos seguiram as passadas “anti-crise” do sector público. Todos olham hoje para o empregado, seja ele jovem ou velho, como meras formigas que podem ser espezinhadas ou afogadas a qualquer momento com pouca ou nenhuma consequência. Basta!

Não se deixem levar pela corrente, deixem de ser meras ovelhas obedientes. Imponham os vossos direitos, cumpram as vossas funções mas mantenham a vossa qualidade de vida. Não vale a pena deixar o vosso suor, sangue e lágrimas numa empresa que não vos respeita. Não vale a pena subir na carreira a todo o custo. Há uma diferença entre mostrar esforço e empenho, e dar a imagem de que não se importam de serem escravizados, que só estão ali para servir. Ergam-se, lutem. Escolham bem as vossas batalhas e não desistam delas assim que as encontrarem. Aprendam a argumentar, façam críticas construtivas e acima de tudo imponham os vossos direitos enquanto demonstram serem fortes cumpridores dos vossos deveres. Trabalhadores exemplares com um forte espírito crítico e reivindicativo não passam despercebidos aos empregadores. Sejam a mudança que querem ver no Mundo. O mercado está cheio de ovelhas bem comportadas, não se limitem a ser mais uma na fila para a tosquia.

Está na hora de nos organizarmos numa voz colectiva de individualismo e de exigirmos o regresso da ética laboral e de boas condições a nível salarial e humano. Quando eles disserem que isso é norma em todo o país, mostrem-lhes as excepções. Mostrem-lhes como se faz no resto da Europa e reafirmem a necessidade de nivelar por cima e não por baixo. As próprias empresas se quiserem sobreviver têm que aspirar a serem algo mais do que o seu actual potencial. Uma empresa é um organismo vivo e enquanto as células da sua base continuarem a ser maltratadas, o único futuro possível é o colapso da sua organização.

Levantem-se por vós próprios, por aqueles que vieram antes e por aqueles que ainda hão-de vir. O futuro depende de nós. As próximas gerações vão avaliar-nos pelas decisões que tomarmos agora. É este o legado que querem deixar? Que argumentos vão dar aos vossos netos quando vos perguntarem porque ficaram impávidos e serenos perante tamanhas abominações?

O caminho faz-se caminhando, não sentado atrás de uma secretária a agradecer ao vosso carrasco por cada uma das chicotadas como se de uma bênção se tratasse. Sejam livres, sejam criativos, sejam empreendedores, não tenham medo de sair da vossa zona de conforto, mas acima de tudo, não tenham medo. Arrisquem, reclamem, deixem-se ouvir. Reconstruam o vosso espírito e dêem-lhe asas para voar.

O futuro é nosso. Façamo-lo à nossa imagem.

Thursday, October 13, 2011

O Meu Manifesto

Uma vez disseram-me que eu devia escolher as minhas batalhas, que é preciso separar as coisas pelas quais vale a pena lutar, das outras que não passam de desconfortos de conveniência. Nos últimos tempos tem surgido um crescente descrédito das manifestações dos “ocupas” e “desenrascados” que se fazem ouvir por todo o mundo, e embora me insira dentro desta geração, não deixo de concordar com a maioria das críticas a eles dirigidas.

Vale a pena lutar por mais oportunidades de emprego, vale a pena lutar contra o trabalho precário, vale a pena lutar por um futuro mais seguro, por melhores salários, por melhores regalias e por um tratamento mais humano com respeito pelo trabalhador. São ideais nobres defendidos pelos nossos antepassados ao longo dos séculos, algo com o qual me posso identificar. Contudo, embora estas manifestações se tenham erguido sob a bandeira desta ideologia, algumas questões radicais e impensadas têm ganho um relevo que não mereciam.

Em tempos de contenção financeira há certas medidas que devem ser debatidas e questionadas, mas não todas. O aumento de impostos coloca pressão sobre as famílias, mas tal é necessário para manter os sistemas educacional e de saúde a funcionar. Podemos questionar os restantes gastos, os investimentos mal feitos, mas os erros do passado existem para aprendermos com eles.

Não digo que as medidas actuais são as correctas, pois não o são. Não estamos a cometer os mesmos erros, mas continuaremos a errar enquanto não percebermos que a solução passa por um maior investimento na criação de emprego e de soluções estratégicas para relançar a economia. Isto são pontos aos quais os nossos líderes têm que dar resposta, mas onde podemos ajudar?

O nosso contributo como cidadãos comuns é simples, basta não vivermos acima das nossas possibilidades, não contrair créditos atrás de créditos, investir na educação, de preferência em cursos com um índice alto de empregabilidade e com um posicionamento económico estratégico, e combater o desemprego de longa duração com o risco do empreendedorismo. Mas podemos também ajudar através de medidas simples como comprar produtos nacionais, recorrer ao pequeno comércio e, sempre que possível, andar de transportes públicos.

Num mundo utópico um licenciado sairia da universidade directamente para o mercado de trabalho com o salário adequado à sua formação, contudo, tal não acontece. Embora esteja escrito em decreto-lei que o salário mínimo de um licenciado nunca deve ser inferior a mil e duzentos euros brutos mensais, o grande crescimento do número de licenciados, mais concretamente em áreas com um baixo índice de absorção e mobilidade no mercado de trabalho, torna isto impraticável.

Ao contrário do que muitos dos manifestantes reivindicam não podemos limitar-nos a esperar que nos ofereçam um emprego de mãos beijadas. Temos que construir currículo, temos que nos esforçar para dar o nosso melhor e, acima de tudo, temos que continuar a lutar pelo nosso lugar, sem nunca perder a esperança.

Após ter terminado a licenciatura estive quinze meses desempregado. Iniciei um mestrado numa área com maior empregabilidade que aquela em que me tinha licenciado. e continuei a construir currículo através de projectos não remunerados, de projectos pessoais, e de formação profissional.

Mas já tinha iniciado todo este processo ainda como estudante. Enviei currículos, fui a diversas entrevistas, mas apenas consegui emprego através de um programa do anterior governo. Essa primeira experiência deu-me alento e capacidade para enfrentar um potencial empregador com outras armas que aquelas que tinha até à altura.

Não me conformei com o meu contrato e continuei a procurar algo melhor, com um pouco de sorte encontrei um novo emprego e agarrei essa oportunidade. Todos os meses deixo algum dinheiro de lado, não pedi crédito para comprar carro, tenho um usado com dezassete anos que comprei com as minhas poupanças ainda quando era estudante. Não quero ser um exemplo para ninguém, mas pelo menos não tenho dívidas, trabalho na minha área e consegui tudo isto sem qualquer tipo de ajuda externa, ou plano de resgate.

A luta tão aclamada nas chamadas músicas de intervenção, não é um combate contra um sistema abstracto, mas uma luta pessoal para mostrarmos o nosso melhor, e fazer todos os possíveis para atingirmos os nossos objectivos.

Sim, há injustiças e devemos insurgir-nos contra elas. Temos que nos unir contra aquilo que é incorrecto, contra as medidas erradas, a nossa voz tem que ser ouvida, mas quando ela se elevar acima de toda a contestação não nos podemos engasgar, não podemos limitar-nos a fazer birras e exigências irrealistas, temos que saber argumentar a nossa posição, e reivindicar os nossos direitos.

Temos que nos mostrar solidários com a situação do país, e com as vidas dos nossos compatriotas. Temos que mostrar que somos uma geração capaz de pensar por si, de tomar as decisões acertadas, de lutar por aquilo em que acredita, mas que também é capaz de se conter, e de dar a mão a quem lhe pede ajuda.

Basta de conformismo, já chega de desabafos que terminem com “tem que ser”. Não podemos passar a vida à espera de dias melhores, está na hora de nos desenrascarmos, está na hora de sairmos à rua. Não para protestar, não para exigir mais que aquilo que é dado aos outros, mas sim para nos fazermos ouvir e para conquistarmos o nosso lugar de direito.

Está na hora de dizermos sim ao nosso futuro!

Monday, July 27, 2009

O Próximo Passo

Para muitos, concluir o curso significa o fim da vida como estudante e o início de uma nova aventura no mercado de trabalho. Para mim, não.

A minha vida de estudante, de uma maneira ou de outra, continua agora no mestrado. Embora seja perfeitamente possível conciliar o mestrado com um emprego, e até mesmo aconselhável, a verdade é que eu não o quero fazer. Sempre que envio um currículo ou respondo a um anúncio, mais do que sentir ansiedade por uma possível rejeição, temo a possível resposta positiva que felizmente até agora ainda não recebi.

Porquê? A resposta é simples, porque não quero perder o controlo da minha vida. Não é que não me sinta pronto para enfrentar o mundo do trabalho, se assim fosse não teria passado o último ano a estagiar de graça, dedicando a totalidade do meu tempo livre para poder conciliar o trabalho com os estudos – pelo menos durante os primeiros nove meses, já que os restantes foram de estágio curricular –, mas sim porque ainda não sinto que seja a altura certa.

No outro dia respondi a um anúncio de uma empresa multimédia sediada em Lisboa. Apesar de o mestrado ser apenas dois dias por semana, não imagino como seria possível conciliar as duas coisas, vendo-me obrigado a deslocar-me semanalmente ao Porto, já para não dizer que não vejo com bons olhos uma mudança para a capital. Não que tenha alguma coisa contra a cidade, mas não sinto que seja a altura certa.

Felizmente, não me responderam. Decidi então procurar apenas ofertas de emprego próximas da minha área de residência, que é a mesma coisa que dizer: como os media de Ovar não estão disponíveis para me contratar, a melhor opção seria alguma empresa da Invicta. Volta e meia encontro um anúncio que corresponde a estas exigências, contudo não consigo deixar de me sentir algo relutante em responder.

Aceito que a independência financeira e a oportunidade de sair de casa são grandes aliciantes. Ter dinheiro para comprar um carro novo, poder finalmente fazer a minha transição de PC para Mac e comprar aquela Nikon D90 que tenho andado a namorar, são sonhos facilmente concretizáveis, à distância de um "sim" de uma qualquer empresa disposta a ter-me dentro dos seus quadros. Mas em termos de sonhos materialistas, confesso ter mais olhos que barriga. Pois aquilo que realmente quero é a verdadeira experiência universitária que até agora me foi negada.

O desemprego assusta-me, mais do que nunca sofro com a escassez do dinheiro que nos últimos três anos vi-me forçado a racionar para manter o mínimo nível de conforto e poder continuar a investir nos meus eventuais caprichos. Mas essa realidade só cairá em peso daqui a dois anos, se, concluído o mestrado, a situação se mantiver igual, pois aí não terei mais desculpas para ocupar o meu tempo. Há sempre a hipótese do doutoramento, mas não o quero fazer em comunicação, e se agora é complicado pagar um mestrado, ainda pior seria a transição para o terceiro ciclo.

Infelizmente, nem sempre temos aquilo que queremos. Talvez não esteja destinado a ter uma verdadeira experiência universitária, ou talvez a consiga conciliar com um emprego em part-time ou com uma possível colaboração. Apenas o tempo o dirá. Até lá, resta-me lidar com esta falta de vontade que, possivelmente, iria confundir muitos daqueles na minha posição, mas, também, nunca fui de me deixar ir com a corrente, ou de aceitar o curso natural das coisas.

"É tudo uma questão de vontade", e era tudo mais fácil se fosse capaz de a compreender.