Monday, January 16, 2017

Dez Anos

Foto: Rebocado em Março de 2014
É difícil não me recordar daquela fria manhã quando ambos os tanques do meu carro ficaram a zero. Dos longos minutos que estive parado no acesso à Ponte da Arrábida. Do funil que a funcionária da Repsol me emprestou e que não mais devolvi. E do garrafão de água que tive de esvaziar para o encher de gasolina. Um dia irei reconhecer a ironia deste momento, mas esse dia ainda não chegou.

Podia também relembrar os dois acidentes que tive. O primeiro por falha dos travões naquela chuvosa tarde de Janeiro. O segundo por distracção numa escura noite com pouca ou nenhuma História. Podia, mas não o vou fazer.

Todos os passeios até à Torreira, ou São Jacinto. A viagem até ao Aeroporto. As manhãs de quarta-feira. As aulas de Russo. Os regressos nocturnos do Porto. As incontáveis passagens por Aveiro, Santa Maria da Feira, Vale de Cambra, Albergaria, São João da Madeira e Oliveira de Azeméis. Aquele mês passado em Coimbra. As incontáveis idas ao Furadouro, ao Modelo e ao Continente. Os rotineiros percursos entre casa e a estação. Aquela noite que fui ver os The Kills na Casa da Música. Como chovia. Pouco ou nada conseguia ver à minha frente.

Seria fácil enumerar todos os sustos. Todos os momentos em que me deixaste ficar mal. Desde aquela Viagem Medieval que decidiste não arrancar. Até àquele jogo da selecção que nos obrigaste a regressar a pé. 

São já dez anos de histórias. Dez anos de riscos. De pancadas. De viagens. De música. De momentos. 

Há quatro que deixaste de ser meu. Passaste a ser um companheiro de fins-de-semana, de férias. De um Agosto sem cantina. Hoje raramente te vejo. Raramente te uso. Há muito que me deixaste de ser útil. Há muito que deixaste de partilhar os meus dias.

Temo que estes dez anos marquem o fim da nossa história. Temo não ser capaz de encontrar alguém que te revitalize. Alguém que te dê valor. Está na hora de seguir em frente. De te deixar para trás. De encontrar um carro novo e de escrever novas estórias atrás de um volante que não o teu.

Faz hoje dez anos que passei no exame de condução. Numa tarde em que me esqueci de dar o pisca no acesso à auto-estrada. Onde não me atrevi a ultrapassar os 80, e onde repeti todas as manobras pelo menos uma vez. 

Podia ter contado como nessa mesma noite levei a antiga carrinha do meu pai até à Júlio Dinis para treinar no ginásio com o pessoal. Podia ter falado das diversas viagens que fiz. Ora contigo, ora com substitutos por um dia, ora com outros carros que não tu. Não o fiz e não o vou fazer.

Estás longe de ser um investimento. Foste apenas uma contínua despesa. Um longo buraco destinado a sugar todos os fundos necessários para se manter à deriva.

Estou a ser duro contigo, tal como tu foste. Uma besta difícil de domar. Imprevisível. Infiel. Inconsistente. Por vezes até desconfortável. 

Nem sempre estiveste lá. Nem sempre foste uma opção. Afinal, eras apenas um carro. Velho, usado, longe dos seus tempos áureos. O que poupavas em combustível gastavas em reparações. 

Não sei se a culpa foi minha. Do teu anterior dono. De nunca teres tido uma garagem. Do tempo. Da conversão para GPL. De quem te reparou. Da sorte. Ou de alguma simples sina ainda por decifrar.

Há dez anos foste a minha opção. Hoje talvez tivesse sido diferente. Mas, quanto a isso, nada posso fazer.

Até à nossa despedida, velho amigo, guardo em mim as recordações dos episódios que partilhámos. Apenas te peço que aguentes mais alguns meses até que encontre uma solução que te permita enfim descansar. Até lá continua a rolar. De casa para o Furadouro. Do Modelo para a Estação. Do Continente até ao Sal. Pelas estradas que tão bem aprendeste a conhecer. Até lá, velho amigo, continua a rolar, até ao meu regresso.

Wednesday, April 06, 2011

Episódios Atrás do Volante

Era Quarta-feira. É sempre Quarta-feira. Embora tivessem passado nove meses de ter tirado a carta, ainda contava pelos dedos as vezes que tinha conduzido um carro ao Porto. Digo um carro, pois em nenhuma das vezes tinha levado o meu. Seria a primeira vez.

À parte de algum nervosismo, nada indicava que a viagem pudesse correr mal. Havia sempre a questão do estacionamento, mas atravessaria essa ponte assim que a encontrasse. O meu carro tem GPL, e ao contrário dos carros a gasolina ou a diesel, não há maneira de saber o estado do depósito, o que me obriga a ter apenas como referência os quilómetros já percorridos para determinar quando é necessário abastecer.

Na altura pareceu-me ainda ter alguma margem de manobra para ir confortavelmente ao Porto e vir sem precisar de reabastecer, mesmo o indicador do tanque de gasolina mostrava-se confortavelmente longe da reserva. Ou assim pensava.

Saí de casa por volta das oito e meia para ir à aula de Economia que começava às dez. Tempo mais do que suficiente em qualquer outro dia, mas aquele não era um dia qualquer, era Quarta-feira. Chegado à A44, próximo da saída para a Arrábida encontrei a já habitual fila de trânsito matinal. Logo aí começaram os problemas. No constante pára/arranca reparei numa luzinha cor-de-laranja que se tinha começado a acender. Era o indicador do depósito a avisar que a gasolina estava na reserva.

Não fiquei muito preocupado visto que, com o GPL como tanque principal, mal saísse do trânsito tudo voltaria à normalidade pois o carro apenas recorre à gasolina para arrancar. E assim teria acontecido não tivesse o próprio GPL decidido falhar naquele dia.

Na descida para o Campo Alegre o motor falhou. Deixei de conseguir acelerar e fiquei parado no meio do trânsito sem forma de o reiniciar. Aguardei um pouco e continuei a tentar. Ao fim de diversas tentativas, quando os restantes carros já tinham começado a apitar e a passar à minha volta, ele finalmente arrancou.

Aguentei-o até à bomba da Repsol perto do Palácio de Cristal. Deixei o carro numa praça de Táxis e fui lá comprar gasolina. Não tinham bidões por isso tive que comprar um garrafão de água, deitar a água fora e enchê-lo de gasolina. Emprestaram-me um funil que uma senhora ali tinha deixado – até hoje ainda não o devolvi – e fui para junto do meu carro. Pedi a uma senhora da limpeza que estava por ali, para me ajudar a segurar no funil enquanto colocava a gasolina no depósito. A senhora mostrou-se algo relutante mas acabou por me ajudar.

Cheguei ao meu curso já passava das dez e meia. A aula ia a meio, portanto decidi aguardar pelo intervalo para entrar. Passei o dia com um único pensamento: preciso de encontrar outra bomba de gasolina para encher o depósito, aquele garrafão não era suficiente para a viagem de regresso.

Optei por levar o carro naquele dia pois ia começar as aulas de Russo e como estas terminavam às nove e meia da noite, não queria chegar muito tarde a casa. Ao final do dia tinha que levar o carro à Faculdade de Letras para a aula de Russo e aproveitei para dar boleia a um colega meu que também ia ter aulas de Japonês à mesma hora.

Ele supostamente conhecia uma bomba de gasolina para aqueles lados, mas não a conseguíamos encontrar. Demos algumas voltas pelo Campo Alegre até que me lembrei que havia uma bomba de gasolina próxima da saída em direcção a Gaia. Atravessei a rua do Hotel Tuela e finalmente encontrei-a!

Enchi vinte euros de gasolina e depois fomos procurar um lugar para deixar o carro. Ele sugeriu-me estacionar por trás do Mercado da Boavista. Graças a estes contratempos este passou a ser o meu lugar de estacionamento habitual sempre que vou de carro para essa zona.

O regresso a casa foi feito sem qualquer percalço. Para a História ficou esta Quarta-feira de Outubro para sempre relembrada como o dia em que ambos os tanques se esgotaram.

Wednesday, March 23, 2011

A Manhã Que Eu Tive

Quarta-feira, tinha que ser quarta-feira. Há uns tempos, seja por destino ou por mero acaso, as quartas-feiras coincidiam com dias de azar. Fosse por ter que levar o carro ao Porto, por chegar tarde a casa, ou simplesmente por me sujeitar a confrontações menos pacíficas. A verdade é que cheguei a um ponto em que já me preparava na noite anterior para todas e quaisquer situações de má sorte que naquele dia podiam surgir.

Nos últimos meses não tem sido bem assim, as quartas-feiras passaram a ser um dia como qualquer outro, mas volta e meia surge a excepção que confirma a regra. Hoje foi um desses dias.

Já estava mais que avisado. Estive atento ao telejornal, consultei os avisos do site da CP e li inclusive o comunicado que indicava quais os comboios que não iam circular. Mesmo assim, fosse por teimosia ou por mero desleixamento, dirigi-me para a estação, há hora do costume, na esperança que houvesse pelo menos um comboio a circular. Sentei-me no muro, pois já não havia lugar nos bancos tamanha era a multidão que impacientemente aguardava por uma promessa de transporte que tardava em chegar, e esperei. Liguei o meu leitor de mp3 e pus-me a jogar Angry Birds. Quem espera, desespera. E assim foi.

Eram nove e um quarto e nem sinal de comboio. Nenhum “fura-greves” se atreveu a cumprir os serviços mínimos nesta manhã. Afinal está tão bom tempo por que não dar um salto à praia em vez de ir trabalhar? Os outros que se desenrasquem.

Não me sobrou então outro remédio que não desenrascar-me. Liguei ao meu pai para trocar o meu carro com o dele. Desta vez tive sorte, ele estava em Ovar e não em S. João da Madeira como no dia anterior. Não que eu tivesse algum problema em levar o meu carro até ao Porto, mas a verdade é que ele já vai nos seus 17 anos de existência e já não está aí para as curvas como quando o comecei a conduzir. Para não falar que o meu carro não tem Via Verde, ao contrário do do meu pai, que ainda tem inclusive algumas viagens gratuitas para gastar este mês. Além disto, não tinha trazido o rádio, e acreditem a última coisa que querem ouvir ao volante é o som que o meu carro faz quando passa os 100 km/h.

Encontrei-me com ele à porta do trabalho e levei-o até ao parque onde tinha deixado o seu carro. Com as chaves e o livrete na mão, troquei de lugar e fiz-me à estrada. De semáforo em semáforo demorei quase 16 minutos até chegar à auto-estrada. Daí para a frente correu tudo dentro da normalidade. Ou assim pensava que iria correr. Pouco depois de passar por Arcozelo o carro do meu pai começa a dar sinal que precisava de meter gasóleo. Ainda devia ter autonomia para uns bons cinquenta quilómetros, mas sem querer arriscar saí na estação de serviço da Repsol em Vilar Paraíso. Abasteci 10,72 € de gasóleo, que deu apenas para pouco mais de sete litros, e voltei a arrear caminho como se costuma dizer.

Ainda não eram dez da manhã quando cheguei à Ponte do Freixo. Trânsito nem vê-lo. Já era tão tarde que na estrada só restava eu e mais uns quantos retardatários, apanhados despercebidos pela greve, ou simples pessoas que adormeceram em vez de chegar ao trabalho a horas. Parecia que a minha sorte tinha começado a mudar. Mas chegado ao meu destino deparei-me com um problema já de si previsível: não tinha onde estacionar.

Era tarde demais, até às nove e meia ainda seria capaz de arranjar um bom lugar algo afastado do meu trabalho, mas não a esta hora. Procurei, procurei, procurei. Cheguei ao ponto de fazer inversão de marcha onde não devia para dar uma segunda olhadela na esperança de encontrar um espaço que pudesse ter passado despercebido. Vi uma rapariga a dirigir-se para um carro. Parei e aguardei um pouco para ver o que ia acontecer, ela viu-me e acenou que não ia sair. Frustrado, não tive outra hipótese se não deixar o carro num descampado manhoso com arrumadores de pouca confiança. Dei 50 cêntimos a um que se aproximou de mim, embora eu tenha encontrado o lugar sem qualquer ajuda deste indivíduo.

Lá deixei o carro e segui para o trabalho. Eram dez e dezanove quando cheguei. Depois de ter acordado às sete, e de ter chegado à estação por volta das oito e vinte. Resta-me agora a viagem de regresso. Sigo o meu dia com a eterna dúvida sobre o real estado do carro, veremos o que reserva a minha sorte para este final de tarde.

Sexta-feira haverá outra greve. Desta feita nem ponho os pés na estação.

Tuesday, September 28, 2010

O Preço de Andar em Quatro Rodas

Gasolina, GPL, seguro, manutenção, óleo, limpeza, estacionamento e, agora também, portagens. Um carro é já de si um investimento bastante dispendioso, mas aquilo que pagamos por ele é apenas a “entrada” para uma vida inteira de despesas.

O combustível é desde logo o gasto mais óbvio. Seja qual for aquele que escolherem, mesmo nos casos dos carros eléctricos, é necessário pagar pela energia que faz com que ele se mova. O seguro é outro acréscimo que mensalmente nos vemos forçados a inserir no carrinho de compras. Para aqueles que compraram o carro às prestações, além do preço de base inicial há que ter ainda em consideração os juros que, por mais baixos que sejam, a longo prazo acabam por ser bastante consideráveis.

A verdade é que um carro de 20 mil euros, com um tempo de vida útil até dez anos pode custar ao seu proprietário bem acima de 40 mil, mesmo que este seja bastante rigoroso com a sua manutenção e não tenha qualquer acidente. Não são estes gastos mais do que suficientes?

Parece que não. Não basta ser necessário pagar para ter carro, para que ele ande, para que ele ande com segurança, e para que em caso de algum imprevisto a assistência seja assegurada. Querem também que paguemos simplesmente por andar com ele.

Siglas. Durante o dia-a-dia é raro não recorrermos a elas. Seja em referência às instituições onde estudamos ou trabalhamos, ou no simples acto de nos referirmos a um determinado clube. As siglas são uma parte tão importante do nosso vocabulário que algumas delas já por si formam palavras capazes de serem vocalizadas, ao invés de meramente nos limitarmos a ditar letra por letra.

Há dias questionava-me sobre o significado de QREN. Quadro de fundos comunitários não parecia encaixar dentro destas quatro letras. Aliás, apenas refiro a ele como quadro devido ao proeminente Q no início desta “palavra”. De facto, QREN desdobra-se em Quadro de Referência Estratégico Nacional. Outra sigla, também ela comum na agenda mediática é SCUT. Esta é mais fácil de descortinar. Via Sem Custos para o Utilizador, ou SCUT. Talvez acharam que o V estava implícito, ou que VSCUT não seria tão “melódico”.

Pois bem, essa sigla encontra-se hoje ameaçada. Já quase tão raras como o Priolo açoriano, as SCUT estão prestes a extinguir-se e até têm data marcada: 15 de Abril de 2011. Contudo, essa data não é uniforme, para algumas é já dia 15 de Outubro que se vão ver forçadas a evoluir para uma aberração com portagens que ainda não se sabe bem como vão funcionar. Já agora, se alguém for capaz de me explicar esta obsessão com o 15, agradecia.

Até era capaz de compreender a necessidade da cobrança de portagens nestas auto-estradas. Afinal, o governo está endividado e alguém tem que pagar a sua manutenção – apesar de na maioria dos países europeus as auto-estradas serem gratuitas, mas isso já é outra história. Mas, se a ideia sempre foi cobrar portagens, porquê eliminar as vias alternativas? De uma perspectiva estratégica até foi inteligente da parte deles, ao eliminar as vias gratuitas alternativas, forçam os utentes a enveredar pelo percurso pago, o que, numa cidade como o Porto irá implicar um lucro de vários milhões de euros mensais, tendo em conta o número de veículos que por lá passam todos os dias.

Eu já não costumo levar o carro ao Porto. A viagem de ida e volta, que no meu caso ronda os 80 Km, implica um gasto de cerca de seis euros – equivalente a um consumo de dez litros a cada 100 Km e a um preço de 0,7 € do litro de GPL. Um bilhete de comboio, mesmo acrescido com uma viagem de metro fica por 5,7 € o que acaba por ir dar ao mesmo, mas sem o inconveniente de ter que o estacionar. Para aqueles não familiarizados com a invicta, ou se paga, ou deixa-se o carro num sítio manhoso em cima de um traço contínuo amarelo.

Mas eu não tenho muita necessidade de ir ao Porto, pelo menos, não agora. Imaginem alguém que viva nos arredores e que trabalha no Porto. Sem alternativas de transportes públicos, vê-se forçado a levar o carro por lá e como o único trajecto implica uma passagem pela A29, não tem remédio se não pagar os custos de portagem. Mesmo com o tal desconto de 100% nas primeiras dez viagens e 15% em cada viagem seguinte, no final do mês são cerca de 40 euros que este utente gasta apenas para poder ir trabalhar.

Infelizmente, cada um só se preocupa com a realidade que o afecta directamente. Parece que as regiões não afectadas pelas SCUT limitam-se a queixar dos gastos das suas contribuições fiscais que são assim direccionadas para a manutenção destas vias. O que acaba por ser uma mera redundância visto que os seus impostos não vão baixar mesmo que todas as SCUT deixassem de o ser neste preciso instante.

Parece algo inútil continuar a apelar à consciencialização contra algo que é inevitável. Mas mais inútil é o silêncio perante uma forte injustiça discriminatória. E sim, eu sei que a A29 não será paga entre Esmoriz e Vilar do Paraíso, mas basta alguém se enganar na saída e a portagem é logo cobrada. Já para não falar que quem vem do Freixo apanha ainda com as portagens da A44 e o sistema é assim, mais uma vez, deturpado contra o utente.

Ter carro é uma forte responsabilidade. É dispendioso, mas útil. É prático, mas incómodo. É caro, é cada vez mais caro.