Monday, December 28, 2015

As Passas da Meia-noite

Imagem DR
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
O Andaime, Fernando Pessoa

Meia-noite. Ano Novo. Champagne. Doze passas. Doze desejos. Faz parte da nossa natureza. Todos desejamos algo, ou alguém. Todos queremos obter o inalcançável. Melhorar as nossas condições. Todos queremos ser melhores do que somos, de quem fomos, do que a vida reservou para nós. Procuramos por uma estrela-cadente sob o céu nocturno. Deixamos uma moeda descansar no fundo de uma gruta ou de uma fonte. Sopramos as velas dos nossos bolos, e as pestanas dos nossos olhos. Enfeitamos as portas com Maias. Comemos doze passas.

No fundo, sabemos que uma simples uva secada e conservada para nosso consumo, nenhum poder tem para nos conceder algum desejo, além do saciar de um particular apetite por uvas passas. Pois não é essa a sua função. Da mesma forma que o meteoro que rasga a atmosfera durante a noite nada mais pretende que não desintegrar-se na sua abrupta queda até ao nosso Planeta. Tal como a moeda apenas quer cumprir o seu desígnio e circular entre estranhos até ao dia em que for guardada num qualquer álbum de um coleccionador, ou reciclada para formar novas moedas, quiçá de um valor superior.

Sabemos isto, contudo, a tradição persiste. O sonho continua vivo e os nossos desejos dele se alimentam. Pois muito daquilo que desejamos não passa disso, sonhos. Alguns impossíveis, outros improváveis, outros apenas à distância da nossa própria determinação. Olhemos para as zero horas do novo ano, não como uma altura para desejar algo em vão, mas como uma altura para redistribuir as nossas prioridades e para preparar os passos que desejamos seguir.

Nem todos os sonhos são fáceis de se concretizar. Alguns dependem apenas da sorte e estão fora do nosso controlo. Se o teu desejo é ganhar o Euromilhões, bem podes apostar todas as fichas nas doze passas, em trevos de quatro folhas ou em ferraduras de cavalo. Existe sempre a possibilidade de o venceres, sim, mas esta é tão pequena, que apenas um acto de pura sorte pode ajudar-te a concretizar esse desejo. É algo que está fora do teu controlo e que, sobre o qual nada podes fazer, além de registar o teu boletim e esperar pelo resultado.

O mesmo se aplica àqueles que desejam que a sua equipa seja campeã ou que vença uma competição europeia. Tal como tu, os adeptos dos teus rivais também desejam o mesmo. Se isso bastasse, uma tecnicalidade qualquer faria com que todos fossem co-campeões, ano sim, ano sim. Aqui, novamente, nada podes fazer além de a apoiares em todos os momentos. Podes fazer-te sócio, ir ao estádio ou ao pavilhão, bater palmas enquanto eles passam pela estrada, ou correm pelo tartan. Mas o resto depende inteiramente dos atletas, dos treinadores e das direcções. A tua camisola da sorte não impediu que eles perdessem aquele jogo. A tua presença no estádio não garante vitórias. Os teus cânticos oferecem uma ajuda anímica e empurram a equipa para a vitória, mas, no fundo, nada podes fazer para mudar o destino de uma época. A uva passa que comeste em nada afecta o que lhes vai acontecer ao longo do ano. Mas não a deixaste de comer.

Se há sonhos que estão fora do teu alcance, outros há que dependem apenas de ti. Se o teu desejo é arranjar um emprego, mudar, encontrar algo melhor, ou algo que te faça sentir mais realizado, apenas tens que te mexer. Esforça-te. Investe no teu currículo. Sai da tua zona de conforto. Regressa aos estudos se assim for necessário. Não tenhas medo de lutar por aquilo que queres. Emigra. Muda de cidade. Cria a tua empresa. Abre uma actividade. Profissionaliza o teu passatempo. Nenhuma uva passa pode fazer isto por ti. E cada moeda é uma ajuda na concretização deste sonho. Não a desperdices numa qualquer fonte. Não contamines mais as águas dessa gruta.

Já outros desejos não dependem apenas de ti. Se te queres apaixonar, não vais encontrar a resposta no fogo de uma estrela-cadente. Sai com os teus amigos. Fala com quem encontras pelo caminho. Conhece pessoas novas. Explora o teu Mundo e todos aqueles que te rodeiam. Viaja. Abre os teus horizontes. Visita os sítios que te apaixonam. Faz aquilo que amas. Alguém que deseja partilhar esses mesmos momentos contigo, acaba sempre por esbarrar no teu caminho. Apenas tens que estar de olhos bem abertos, e pronto para dar esse passo.

Não receies a rejeição. Cresce com cada não, em cada encontro, em cada beijo, em cada batida do teu coração. Melhora os aspectos que menos agradam em ti, mas mantém-te fiel a ti próprio. Não tentes ser alguém diferente de quem és, e lembra-te que são também os teus defeitos que te fazem único para a pessoa que te ama.

Podemos desejar a perfeição, mas não a podemos alcançar. Esquece as resoluções de ano novo. Nunca vais deixar de fumar, ou de beber. Nunca te vais inscrever num ginásio. Nem tão pouco vais começar a comer de forma mais saudável.

Não se apenas deixares tudo isto nas mãos de uma uva passa. Se desejas mesmo mudar um certo hábito em ti. Se desejas melhorar o teu corpo e a tua saúde, age. Levanta-te. Esforça-te. Motiva-te. Faz algo para que essas resoluções deixem de se repetir, ano após ano, sem qualquer efeito visível.

Se nada desejas mudar em ti mesmo, aceita quem és. Aprende a viver contigo próprio e a ser feliz com tudo aquilo que faz de ti quem tu és. A felicidade está ao alcance da tua determinação, e não nas folhas de uma rara erva daninha.

Meia-noite. Ano Novo. Champagne. Doze passas. Um momento para pensares em ti. No que desejas. No que queres. No que tencionas fazer agora que deixaste mais um ano para trás. As doze passas que hoje comes nada têm de mágico. Mas há magia neste momento. Há magia em ti. Há magia em quem não deixa o seu fado nas mãos do destino. Uma, duas, três. Doze passas já passaram. E tu? Como vais passar mais um ano?

Thursday, November 20, 2014

A Arte de Sonhar

La persistència de la memòria, Salvador Dalí 
Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Alimentamos pensamentos e desejos como sonhos por realizar. Deixamo-los crescer, por vezes esquecidos, por vezes silenciados, enquanto seguimos com o nosso dia-a-dia. Aquele instrumento que queres aprender a tocar, a língua impraticável em que queres ser fluente, os projectos que guardaste na gaveta, as viagens que ficaram por planear, o curso que ficou por tirar. As palavras que ficaram por dizer.

Todos guardamos os nossos sonhos. Esforçamo-nos para os concretizar. Lutamos por aquilo que desejemos. Dedicamos uma vida para os concretizar. Crescemos. Descobrimos os nossos limites. Adaptamo-nos, e colhemos os frutos do nosso esforço.

Os sonhos, esses, não só vivem de devoção e dedicação. Por vezes consomem-nos. Desistimos. Ignoramo-los. Fugimos antes mesmo que estes nos possam destruir. Damos ouvidos ao impossível, aos Velhos do Restelo, aos hiper realistas, criamos obstáculos que nós próprios somos incapazes de escalar. Deixamos que o vento os leve. Adormecemos. Esquecemo-nos. Guardamo-los em caixas, e engolimos as chaves.

É ténue a linha entra a acção e a inércia. O deixar para amanhã e o agir. Há alguns meses atrás, sentei-me para escrever. Não muito diferente de como estou a fazer agora. Não muito distante do local onde hoje me encontro. Não esteja a minha memória a trair-me e talvez estivesse eu neste mesmo sítio enquanto o fazia. Perco-me. Distraio-me. E desvio-me do assunto.

Há alguns meses atrás, sentei-me para escrever. Por entre as linhas, memórias e divagações, retomei um exercício já diversas vezes praticado desde que me recordo de escrever: fiz uma lista. Não uma lista de compras, ou de tarefas. Mas sim uma lista de sonhos, de objectivos e de desejos. Omiti apenas aqueles cuja clareza é tão transparente para mim como para qualquer pessoa cujo caminho se tenha cruzado com o meu. Omiti aqueles cujo controlo não me pertence. Concentrei-me naqueles que não dependem de mais nada que não de mim próprio, e da minha força de vontade.

Alguns são projectos a longo prazo que ainda não iniciei por falta de tempo ou de oportunidade, outros são actividades mais simples que, embora as circunstâncias do dia-a-dia por vezes mas roubem, têm permanecido constantes desde que essa lista ganhou forma. Encontro-me ainda longe de a completar. Ainda mais se contar com os desejos que guardo apenas para mim. Contudo, como em qualquer aventura, o que importa é partir. O primeiro passo. A vontade que ganha força para te mover.

Olho hoje para a minha lista e orgulho-me daquilo que já concretizei. Anseio pelos passos que ainda tenho por percorrer. E sonho com o futuro que estes me irão reservar.

Sugiro que façam o mesmo. Parem de me ler durante um ou dois minutos. Talvez mais se acharem necessário. Eu espero. Afinal, não vou a lado nenhum. Levantem-se das vossas cadeiras, camas, ou sofás. Procurem por um papel ou uma caneta. Se tiverem um caderno à mão, melhor. Um bloco também serve, embora nem todos o possam ver como o ideal. Afinal, não se sentiriam apertados se toda a vossa existência se resumisse a um pequeno bloco?

Nada de telemóveis, smartphones, computadores ou tablets. Esta tarefa exige um papel e uma caneta, mesmo que mais tarde optem por a digitalizar ou até mesmo por a transcrever. Voltem a sentar-se. Abram a janela, ou apenas as persianas, como anda o tempo, nunca se sabe o que nos reservam os ares do exterior.

Olhem para o vosso papel e escrevam. Façam a vossa lista. Escrevam uma carta para vós próprios, ou para alguém que desejam que a leia. Falem dos vossos sonhos, dos vossos desejos, dos vossos projectos. Escrevam sobre o emprego que gostariam de ter, o país que querem visitar, a língua que querem aprender, o instrumento que querem saber tocar, aquele objecto que querem muito comprar, o curso que ambicionam tirar. Os sentimentos que desejam partilhar. A vida que sonham ter.

Escrevam-na e guardem-na convosco. Hajam, mexam-se, façam algo pelos vossos sonhos. Cresçam. Realizem-se. Um passo de cada vez. Do mais simples e imediato, ao mais complexo e demorado. Pé ante pé. Até ao vosso destino.

Partam nesta aventura e, seja qual for o resultado, sorriam, pois pelo menos o fizeram. Tentaram. Falharam. Conseguiram. Por momentos foram felizes. Por momentos nada mais importou.

E isso, esses sonhos, são algo pelo qual vale a pena lutar.

Tuesday, July 11, 2006

Out on the Edge

Escadaria em Espiral do Museu do Vaticano
Nos últimos tempos tenho reparado na maneira como as coisas estão interligadas, e como interagem entre si. Ao abrir os olhos somos capazes de reparar em todo o tipo de coincidências. Como naquela noite em que estava a fazer zapping e acabei por ver três filmes onde, por meros segundos, o mesmo tema surgia, inclusive quando este pouco ou nada tinha a ver com a história.

Qualquer um podia interpretar isto como algum tipo de sinal, mas a verdade é que não me lembro de que tema se tratava, logo, a importância dessa situação acaba por aqui.

Há uns anos atrás, estava aborrecido a ver TV e decidi mudar para o MGM. Estava a dar um filme que achei bastante interessante e que, apesar do meu cansaço, decidi ver até ao fim. Alguns meses depois, repetiram esse filme e também o vi até ao fim. No final, tocavam uma música que, tal como o filme, agradou-me bastante.

Da última vez que vi o filme, decidi pesquisar pela música para fazer o download da mesma. O único problema foi que voltei a não apanhar o nome do filme, nem o nome da música, e, apenas conseguia lembrar-me de parte da letra. Com isto tentei procurar a música mas os meus esforços foram em vão.

De vez em quando lá tentava outra vez, mas nem o Google parecia ser capaz de me ajudar. Estava prestes a desistir quando, recentemente, lembrei-me de procurar por fóruns sobre filmes e perguntar por lá se alguém era capaz de me dizer o nome do filme.

Podia não me lembrar do seu nome mas lembrava-me de todos os detalhes mais importantes. Felizmente, consegui a minha resposta. O nome do filme era "The Heavenly Kid" de 1985. Coloquei este nome no eMule e lá encontrei a banda sonora com a música que eu queria.

Ao carregar no play deixei-me assolar por um profundo sentimento de concretização por finalmente ter encontrado a música. Mas esse sentimento foi breve, pois quando a música chegou a meio, apercebi-me que esta era muito repetitiva e pouco interessante.

Depois de tanto tempo de pesquisa, sinto que o meu esforço foi em vão, pois não gosto da música. Mas na verdade não foi totalmente em vão. Descobri o nome do filme, e agora posso vê-lo sempre que quiser.

Com esta história tento chegar a uma analogia. Uma certa teoria diz que nós só queremos aquilo que não temos. O que até faz sentido, se o temos não o devíamos querer, pois já o temos.

Da mesma forma, aquilo que queremos é aquilo que desejamos, e ao termos algo deixamos de o desejar. Segundo esta lógica corremos o risco de nos sentirmos constantemente frustrados.

Onde quero chegar é que não importa o quanto queremos algo, se algum dia o chegarmos a ter, vamos deixar de o desejar. Tendo em conta o que se sucedeu com a música, com muito esforço somos capazes de atingir os nossos objectivos, e deles até somos capazes de obter algo interessante. Contudo, na maioria das vezes, acabamos por sentir que todo aquele esforço foi em vão, e que não valeu a pena.

Mas como tudo está interligado, e esta metáfora de vida não é nenhuma verdade absoluta, acabo por retomar um raciocínio anterior, que também pode ser retirado desta história. Sim, pois em verdade vos digo, como já dizia o poeta, "Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena."