Thursday, December 11, 2014

Adeus, Meu Doce Novembro

Sweet November, Imagem DR
November is all I know, and all I ever wanna know.
Nelson Moss

Novembro guarda em si algo de mágico. Uma doce energia que transcende qualquer poder de descrição. Novembro é, para mim, um mês especial, um mês diferente. Não há quintas-feiras em Novembro. Apenas felicidade. O potencial de sonhar. A promessa de um novo dia. Esperança. Paz. Uma recordação. Um recomeço.

Todos os meses são Novembro. Recordo-me da primeira vez que vi o Sweet November. Era mais uma noite de Verão, como outra qualquer. A falta de sono, ou de vontade para adormecer, impedia-me de contemplar o infinito pelos interstícios da janela do meu quarto. O zapping habitual tomou lugar. Talvez procurasse um episódio perdido de Everwood, ou uma retransmissão do The Good, the Bad and the Ugly. Em vez disso encontrei o Sweet November.

Uma história de amor. Um romance trágico entre um empresário preso ao seu sucesso, sem espaço para algo que não fosse previsível ou palpável, e sem um rumo para a sua vida, e uma rapariga excêntrica que passeava cães. Uma espécie de Dharma e Greg, tivesse esta sido escrito ainda no crepúsculo do século XIX.

Nelson e Sara, protagonizados por Keanu Reeves e Charlize Theron, conhecem-se numa aula para renovarem a carta de condução. Depois de uma troca de palavras atribulada, que faz com que Sara falhe a sua possibilidade de renovar a carta, esta procura Nelson para lhe fazer uma proposta que vai mudar a vida de ambos.

Ao longo de duas horas acompanhamos o romance entre duas pessoas, opostos aparentes, mas complementares. Assistimos à história de um amor em perpétuo crescimento. À evolução de Nelson, que deixa de viver para a sua carreira para se concentrar no agora. E a Novembro. O mês que os une e cujos dias limitam a sua relação.

Um mês, apenas um mês. Eram estes os termos de Sara. Regras incompreensíveis que Nelson procurou contornar. A beleza do agora. O momento imprevisível. Derrubado pela frieza da vida, e pela incerteza de um futuro planeado por outras mãos que não as deles.

Sempre serás o meu Novembro. Uma história simples, mas profunda. Um mês partilhado por duas pessoas que nos desafiam a reavaliar o nosso próprio caminho. A mensagem é simples, dar valor ao agora, ser feliz com as pequenas coisas, amar o dia, a simplicidade do dia-a-dia, a quebrável rotina, a memória de um amor, eterno na felicidade do último instante de incrível beleza, de uma inevitável despedida.

Sweet November é o amor entre Nelson e Sara. É a história de uma cidade. É a história de um momento. É a história de um mês.

Questionado sobre qual o meu filme romântico preferido, sinto-me tentado em responder Sweet November. Uma decisão sempre difícil entre este e o Before Sunrise, mas que mantenho constante, não seja por um qualquer lapso de memória. Pois, para mim, Sweet November, não é apenas um filme, ou uma breve história. É um hino, a homenagem a um mês que me é tão próximo. Um mês que recordo com felicidade. Um mês que, se pudesse, não mais teria um fim.

Não há quintas-feiras em Novembro. O meu aniversário não é em Novembro. Por mais que goste das cores do Outono, a minha estação é a Primavera. Mas há algo em Novembro. Algo mágico que talvez apenas eu consiga ver. Se alguma vez fizesse a lista dos meus melhores dias, aqueles em que fui mais feliz, este seria o mês mais representado. Em Novembro brilho. Em Novembro volto a ser Eu. Em Novembro sei ser feliz.

De Novembro nada peço. De Novembro nada espero. Guardo apenas recordações. Deixo-me envolver pelas energias positivas com que este mês me alimenta. São trinta dias como quaisquer outros. São trinta dias especiais, diferentes, intocáveis. São trinta dias de felicidade em potencial.

Despeço-me mais uma vez de ti velho amigo. Serás sempre o meu Novembro, o meu Doce Novembro.

Thursday, November 27, 2014

Romance do Dia-a-dia

Imagem DR
In this world there are only two tragedies. One is not getting what one wants, and the other is getting it.
Oscar Wilde

São as pequenas coisas. São elas que me movem. São elas que mais desejo. Todas as histórias começam com breves momentos de exposição. Informação prévia sobre a vida e o universo das personagens, oferecida pelas subtilezas da narrativa, ou forçada pela garganta abaixo quando a criatividade é escassa.

Nas comédias românticas essa exposição é muitas vezes conhecida por “meet cute”. Aquele momento absurdo e hilariante que junta ambos os protagonistas. O rapaz que vai contra uma rapariga e a ajuda a apanhar os livros. O herói que salva a donzela em perigo. A rapariga que te encontra no elevador e que também gosta de The Smiths.

Aquela primeira troca de olhares. O sorriso embaraçoso. O ódio incompreensível que impede aquela pessoa de sair dos teus pensamentos. Uma longa lista de clichés e lugares-comuns, com presença obrigatória em qualquer comédia romântica. O resto da história é contada nas estrelinhas de encontros e desencontros. Entre coincidências e acasos. Falhas de comunicação. Dramas, separações e reencontros. Um grande gesto romântico no final que ata todos os nós, e que conclui a história como um belo laço de seda, arrumado no topo de uma surpresa ainda por abrir.

Essa surpresa são todas as pequenas coisas que ficam por contar. Os actos mundanos filtrados pelo guião. As rotinas diárias que, fora algum diálogo, montagem, ou encontro inesperado, raramente fazem parte do produto final. As idas ao supermercado. Os passeios de mãos dadas. Brincar com os pratos que queremos comprar quando passamos por uma montra de cerâmica. As manhãs de Sábado passadas na cama. Deixá-la adormecer no teu colo enquanto vêem televisão. As longas viagens de carro e a habitual discussão sobre que música ouvir. Os silenciosos passeios à beira-mar. As brincadeiras com o gato, ou o cão, ou ambos. A partilha de tarefas. E todos os outros pormenores que dizem presente numa vida a dois.

São as pequenas coisas. São elas que me movem. São elas que mais desejo. Pormenores do quotidiano que, talvez por passarem despercebidos, vêem a sua magia ignorada pelo mais comum dos observadores. Contudo, é nestas coisas que penso quando penso em romance. Não. Não ignoro a paixão, o desejo, a química, o momento. Também sonho com inesquecíveis primeiros encontros em que todas as fichas caem no seu lugar. Com a ansiedade do primeiro beijo. Com a possibilidade do não. Com as noites eternas de partilha entre dois corpos apaixonados. Com os pequenos e grandes gestos que um romance nos apresenta.

Mas são as pequenas coisas o que mais desejo. Assim o é, pois tão raras foram as vezes que as tive. O desejo não é permanente, mas sim uma constante que se apaga assim que o seu objecto é alcançado. Com isto não afirmo desejar uma vida de monótona rotina. Não. Desejo sim essa rotina, não pela sua natureza previsível, mas pela magia dos pequenos detalhes, que apenas surge quando a partilhamos com alguém.

O consolo de descobrir uma caixa de Petit Gâteaus entre os congelados quando ela já tinha desistido de procurar. Juntar os pontos para lhe oferecer aquele peluche, desistir da ideia e tentar sequestrá-lo sem ninguém ver. O bolo que fazes antes dela chegar a casa, e que acabas por deixar queimar porque não atinas com aquele forno. Aquela série que vêem ao telefone quando estão distantes. Momentos para muitos banais. Para mim, únicos. Reais. Mágicos.

É a magia do dia-a-dia. É ela que me move. É ela que mais desejo. O Amor é descoberto entre os detalhes. Nas rotinas que partilham. Nos tempos mortos. Nas conversas. No silêncio. No trabalho. Na diversão. Nos sonhos. No presente. Nas tardes aborrecidas de Domingo. No fim-de-semana prolongado em viagem. No adeus no aeroporto. No até já do pequeno-almoço. A dois. A sós. Nas palavras. No pensamento. O Amor está lá. Dia após dia. No romance da rotina.

A paixão do dia-a-dia. É ela que me move. É ela que mais desejo.