Thursday, April 02, 2015

Adeus Covilhã

Paredes da Covilhã, Foto: Adriano Cerqueira
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Ricardo Reis

Há algum tempo que não leio. Não como naquele dia. Não esperava terminar o livro tão depressa. Não esperava devorá-lo em menos de um dia. Afinal, escolhi-o para descansar. Para me livrar por momentos daquele Universo. Passavam dez meses desde que tinha começado a ler A Song of Ice and Fire, livro após livro, sem descanso. As viagens de comboio ajudavam. Se ajudavam!

Evolução e Criacionismo: Uma Relação Impossível”, uma obra teórica. Uma colaboração entre vários autores, entre os quais, Octávio Mateus, O paleontólogo português, e alguém cujo trabalho admiro. Era um dia atípico. Finalizado o meu contrato com a RTP poucos dias antes, tinha então duas entrevistas de emprego. Uma no Porto pelas nove e meia, e outra em Lisboa às seis da tarde. A de Lisboa era a que mais me atraía, não só pela posição em si – estava a candidatar-me para o lugar de designer numa exposição temporária sobre borboletas – mas também pelo local, o Museu de História Natural. A do Porto era mais apelativa, sim, trabalhar como editor de vídeo para um projecto educativo sobre Engenharia encaixava-se mais dentro das minhas aptidões, contudo, o desafio era pequeno, e a temática menos apelativa.

20 de Dezembro de 2012. Parti em viagem. De Ovar para o Porto, do Porto para Lisboa, de Lisboa para Ovar. Fiz nesse dia cerca de sete horas de viagem, sem contar com algumas horas mortas de espera entre comboios e entrevistas. A única constante era o livro que trazia comigo. Página após página. Capítulo após capítulo, quando enfim cheguei a casa, umas meras dez páginas me separavam da sua conclusão. Foi a primeira vez que li um livro em menos de vinte e quatro horas. Foi a primeira vez que quebrei verazmente a minha regra de saborear cada página com o devido tempo que esta merece.

Semanas mais tarde recebi as respostas. Com poucos dias de diferença. Segundo lugar em Lisboa, quinto no Porto. Não fiquei colocado. Não me deixei surpreender pelo resultado, apesar da frustração que é ficar tão perto do primeiro, e tão desejado, lugar. Enfim, não estava escrito.

Foi numa tarde não muito diferente daquela que fiquei a conhecer o meu próximo destino: Covilhã. Fiquei na Covilhã. A entrevista tinha corrido muito bem e estava confiante num bom resultado. A vontade de me mudar para tão longe, para lá da Serra da Estrela, era pouca, se não mesmo nenhuma. As oportunidades escasseavam, e o projecto não parecia mau de todo. Desta vez não havia mais comboios ou metros. Apenas um Expresso. Companheiro semanal durante vinte e dois meses. Vinte e dois meses que não foram mais, pois hoje faço dois anos da minha mudança para a Covilhã, e já lá não resido.

Vinte e dois meses guardam em si mais histórias que aquelas que quero, ou que posso, contar num espaço tão reduzido como este. Vinte e dois meses de saudades por um local que todas as semanas ansiava por abandonar. Vinte e dois meses de convívio, de amizade. Vinte e dois meses de muito mais do que podia esperar.

Tivesse seguido à risca o plano que me tinham delineado e ainda teria mais dois meses de Covilhã, de Comunicar Ciência, de Beira Interior, pela frente. Mas era hora de partir. Na verdade, essa hora já tinha passado há muito. Talvez em Outubro, talvez em Maio. Mas de algo estou certo. Não havia outro sítio, outro local, outra casa, ou outra cidade que não a Covilhã. Ao longo destes vinte e dois meses era lá que eu tinha que estar. Era lá onde eu tinha que viver. Já era tarde para Ovar, e ainda muito cedo para Coimbra. Porto e Faro eram boas recordações. E Lisboa. Lisboa era tudo isto. Tudo isto e algo mais que ainda não sou capaz de compreender.

Hoje sei que tenho saudades da Covilhã. Saudades de entrar no LabCom. De ouvir o Sousa a perguntar se era feliz, ou se me encontrava bem. Dos almoços com a Sara e o Rodolfo, e das sessões de terapia que lhe oferecíamos entre um prato qualquer e umas Papas de Carolo. De coleccionar Legos com a Ana e a Cristina. Das sessões de cinema do Fernando. Das noites divididas entre o Japonês e a Taberna. Das particularidades de cada pessoa que conheci. Enfim, da Covilhã.

Nunca te vi como mais que um degrau na longa escada que ainda tinha por percorrer. Assim foste, e assim serás relembrada. Foste aquilo que precisava, quando precisava. Uma solução, uma oportunidade. Um retiro, uma viagem. Uma experiência, uma necessidade. A única constante. A minha casa fora de casa.

Faz hoje dois anos que me mudei para a Covilhã. Faz hoje dois meses que de lá me despedi. Obrigado Covilhã. Obrigado pela dureza do teu Inverno. Obrigado pelo acutilante calor do teu Verão. Obrigado por seres igual a ti própria. Pela frieza do teu raciocínio. Pelo realismo do teu sentimento. Enfim, obrigado e adeus. Adeus, Covilhã. Até sempre.

Thursday, March 26, 2015

Adeus Glee

Imagem DR
Workin' hard to get my fill, everybody wants a thrill. Payin' anything to roll the dice just one more time. Some will win, some will lose. Some were born to sing the blues. Oh, the movie never ends. It goes on, and on, and on, and on.
Don’t Stop Believing, Journey

Há cerca de um ano regressava de comboio para casa. Ao meu lado, sentava-se uma rapariga com um tablet. Não o usava para trabalhar, ler, ou navegar pela Internet. Estava a ver séries. Desviei o olhar para não me imergir num qualquer acto de falta de educação. Contudo, a curiosidade, e o tédio da longa viagem, faziam com que os meus olhos acabassem, volta e meia, colados naquele ecrã.

A meio da viagem, reparei que ela estava a ver How I Met Your Mother. Não era um episódio qualquer. Não. Era o episódio daquela semana que ainda não tinha visto. Ou pelo menos assim parecia. Confirmei com ela e pedi-lhe se não se importava que o visse com ela. Assim aconteceu. Vi sem som, mas graças às legendas pude acompanhá-lo sem problemas. Era o penúltimo episódio da série.

Dias mais tarde, já de regresso à Covilhã, após um fim-de-semana atípico, sentei-me para ver o último episódio de How I Met Your Mother. Um episódio duplo, como é hoje tão habitual acontecer. Logo pela manhã a Teresa já quase me tinha estragado o final, com uma mensagem de incredulidade, mas que felizmente não continha qualquer spoiler. Decidi passar esse dia fora das redes sociais. Fui trabalhar, passei os olhos pelo twitter, sempre atento ao mínimo sinal de uma qualquer informação que não quisesse conhecer. E esperei. Esperei pelas seis da tarde. Pela hora de saída.

Cheguei a casa, e mal lanchei. Quando finalmente estava disponível sentei-me no meu quarto, sem distracções, pronto para o final de How I Met Your Mother. Não foi assim que aconteceu com Glee. Na verdade, não sabia que estava marcado para este sábado o último episódio. Embora já o tivesse confirmado há alguns meses, esqueci-me que o final de Glee seria também exibido como um episódio duplo.

Era um sábado como outro qualquer. Acordei cedo, almocei, e preparei-me para ir jogar basket com o pessoal. Voltei por volta das cinco e meia e, depois do banho, sentei-me para ver Glee. Um hábito que já tinha perdido há muito. Embora as primeiras duas temporadas me tivessem entusiasmado, o nível de absurdo e a aleatoriedade do argumento das seguintes fizeram-me quase desistir da série. Era a última que eu via e, por vezes, passava semanas sem sequer me lembrar de ver os episódios. Contudo, isto não aconteceu com a última temporada. A qualidade dos episódios subiu e a nostalgia, assim como a inevitável antecipação da despedida, tomaram lugar de destaque.

Pela primeira vez em meses, se não mesmo em anos, Glee foi a série principal daquele dia. O primeiro episódio, repleto de referências ao início, àquilo que fez com que os fãs ficassem colados à série, foi uma apologia do percurso de cada um dos actores, e um elogio ao Cory Monteith, actor que faleceu por overdose em 2013.

Já o segundo foi aquilo que o final de uma série precisa de ser. Uma resolução. Uma despedida. Uma conclusão. Embora nem tudo aquilo que fizeram com este episódio tenha sido bem feito, no geral, funcionou bem. Foi a despedida perfeita. O fim ideal para seis anos de uma série que, embora num papel secundário, foi uma constante no meu repertório semanal.

São incontáveis as músicas que Glee me deu a conhecer. Algumas, inclusive, com qualidade suficiente para ainda hoje integrarem a minha playlist. Glee foi aquela série que usava para desanuviar. Uma série onde os riscos eram baixos e onde a comédia e a música eram as verdadeiras estrelas. Era uma escapatória da dura realidade do dia-a-dia, e do soturno ambience de outras histórias que se perpetuam ao longo dos anos. De Stargate Universe a Spartacus, de Game of Thrones a Arrow.

“These walls and all these picture frames. Every name they show. These halls I've walked a thousand times. Heartbreaks and valentines, friends of mine all know, I look at everything I was and everything I ever loved. And I can see how much I've grown. And though the mirror doesn't see it, it's clear to me, I feel it. I can make it on my own”, Lea Michele, na sua performance da música original ‘This Time’.

Até sempre Glee. Obrigado por entreteres as minhas tardes de sábado. Obrigado pela perfeição da tua despedida.

Tuesday, April 01, 2014

Quarenta e Dois

Imagem DR
Quarenta e dois minutos. É o tempo que demora o comboio Intercidades a completar o percurso entre Coimbra e Ovar. Quarenta e dois é também a resposta para o sentido da vida, e para os mistérios do Universo. Isto, se confiarmos no Hitchhiker’s Guide to the Galaxy.

Durante a breve temporada que vivi em Coimbra, fiz esta viagem quase todas as semanas. Quarenta e dois minutos passados a ler, a ouvir música, ou em profunda introspecção.

Coimbra sempre esteve a quarenta e dois minutos de distância, mas, para mim, pareciam ser muitos mais. Aquela cidade foi uma constante ao longo da minha adolescência. Cheguei mesmo a achar-me uma espécie de antípoda de Cesário Verde. Enquanto este ia ao campo para renovar as suas energias, eu usava a cidade de Coimbra com o mesmo propósito.

Foi lá onde vivi a minha primeira paixão, tão fugaz como o pôr-do-sol sob o Mondego. Foi lá também onde construi uma das poucas amizades que tive ao longo daqueles terríveis anos. Amizade essa, também ela efémera, mas que em muito ajudou a definir aquilo que eu queria para a minha vida.

Via Coimbra como uma cidade banhada pelo Sol. Repleta de esperança e de velhos prenúncios de romance. Apesar dos constantes agoiros, sempre a vi como um local optimista. Um ponto de partida para algo.

Em 2009, era lá que sonhava encontrar-me com aquela que até há bem pouco tempo ocupava o meu coração. Era o meio caminho entre Porto e Lisboa. O local certo para o nosso primeiro encontro. Mas assim não aconteceu.

Foi com alguma surpresa, e um leve sentido de ironia, que descobri que esta seria também a minha primeira paragem no mercado de emprego. A minha primeira experiência a viver sozinho, longe de casa.

A perspectiva de ocupar o meu tempo com algo mais que o Mestrado, ganhar experiência, e um salário fixo no fim do mês, calaram o receio que assolava a minha mente. Talvez devesse ter prestado atenção aos meus instintos, mas estava destinado a aprender com os meus próprios erros.

Cedo senti os anticorpos da cidade a expulsar-me. Numa noite de Setembro, tinha regressado do trabalho. Sem nada para comer, decidi ir ao Continente que ficava no fim da rua. Ameaçava chover, mas não tinha guarda-chuva e não havia nada mais perto. Apanhei aquela que apenas posso descrever como a maior molha da minha vida. As pessoas olhavam para mim, completamente ensopado, com estranheza, alguma pena, e uma certa quantidade de gozo.

Esta foi apenas a entrada para uma refeição repleta de intempéries. Da falta de organização da empresa onde trabalhava, a uma chefia incompetente e com falta de visão, sofria de uma pressão constante e sem fundamento. Fazia o melhor que podia, mas o mérito era sempre desprezado.

Um quarto minúsculo e húmido, num apartamento apertado e sem qualquer tipo de convívio com os restantes colegas, não ajudaram à equação. O sistema imunitário da cidade era forte. Eu era um ser estranho e nada bem-vindo.

Fui resiliente e não me conformei. Dei o meu máximo para me valorizar e procurei avidamente por uma oportunidade para sair dali. Demorou algum tempo, mas essa oportunidade acabou por surgir. O Porto voltou a chamar por mim, e acolheu-me de braços abertos.

Saí à pressa de Coimbra. Não olhei para trás. Não dei espaço para despedidas. Nunca fui tão feliz como naquele momento. Coimbra tem mesmo mais encanto na hora da despedida.

Nos últimos anos, lá regressei apenas uma vez para preparar uma entrevista para um episódio do Reacção Espontânea. Foi uma visita breve, com poucos percalços. Infelizmente, não posso dizer o mesmo dos dois dias que lá passei na semana passada.

A chuva, o frio, e o cinzento da nebulosidade, adivinhavam um mau presságio. Aquela Coimbra ensolarada que em tempos me fazia sonhar, já não existia. Hoje, não passa de uma sombra daquilo que em tempos foi.

Essa predisposição negativa, aliada ao cansaço e a algumas expectativas desmedidas que criei sob mim próprio, toldam as memórias dos bons momentos que vivi nestes dias. Acelerei um processo que precisava de calma, de estabilidade, e de um optimismo energético que me esqueci de alimentar. Sufoquei-me sob pressão, e esqueci-me de mim próprio.

A culpa não é da cidade, mas sim das circunstâncias. Estou hoje coberto por uma aura negativa da qual tenho que me livrar. Não culpo Coimbra, mas questiono-me se algum dia voltarei a vê-la com aqueles olhos de esperança e felicidade, que em tempos ajudaram-me a confiar em mim próprio, e a erguer-me das sucessivas quedas que animam o meu caminho.

No livro, seis vezes nove é a pergunta cuja resposta é quarenta e dois. Mas seis vezes nove são cinquenta e quatro, e não quarenta e dois. O verdadeiro sentido da vida, é que esta não faz sentido. O Universo tem erros, buracos, tropeções. Cada um deles uma imperfeição que lhe dá personalidade. Imperfeições que tornam belo o percurso que hoje caminhamos.

Quarenta e dois minutos entre Ovar e Coimbra. Apenas quarenta e dois minutos de uma longa viagem.