Friday, September 02, 2011

O Primeiro Dia do Resto da Minha Vida

Ontem o meu avião despenhou-se e fui o único a não sobreviver. Há momentos que nos marcam, alguns por não acontecerem, outros pela simbologia que atribuímos a certas datas e ao significado que esses dias têm para nós.

O primeiro dia de Setembro de 2011 podia ser mais um desses dias, o meu primeiro dia de liberdade após um longo ano de pressões e assédio moral, dentro de um emprego desprezível e de uma cidade que nunca me soube acolher. Felizmente, não me limitei à conformidade de um contrato relativamente seguro e procurei por algo melhor que acabei por encontrar logo em Janeiro. Regressei a uma cidade que posso chamar de casa e iniciei um novo emprego onde conheci um ambiente agradável de camaradagem e de entreajuda, onde os nossos esforços não são apenas encorajados mas também bastante elogiados.

O dia 1 de Setembro foi um dia como outro qualquer, não fosse por ser o primeiro dia de trabalho depois das férias, nada de notável se passaria naquele dia. Mas ontem o meu avião despenhou-se, aterrou de lado e a asa raspou pela pista. A porta de emergência do lado do meu assento não resistiu ao choque e abriu-se desamparadamente, deixando o calor e os fumos do combustível da asa entrarem para dentro da cabine. Todos se salvaram menos eu, e o dia de hoje não é nada mais que uma sombra daquilo que podia ter sido.

Ontem foi dia 1 de Setembro, um dia em que nada aconteceu. Ontem não andei de avião, e este não se despenhou, ontem não estive em casa durante o dia. Ontem, esqueci-me das chaves e tive que pedir à minha vizinha para entrar em casa. Ontem, adormeci e cheguei um pouco tarde, troquei os horários e demorei-me a arranjar. Ontem, o meu pequeno-almoço foi uma caneca de cevada e torradas e não um panike, um croissant, um café e um sumo de laranja. Ontem, passei a manhã maldisposto, senti frio e apanhei chuva ao sair de casa. Ontem, foi dia 1 de Setembro.

No dia 31 de Agosto, aterrei no Porto. Adormeci, e perdi o autocarro para o aeroporto, demorei-me na estação de comboios para encontrar a paragem de autocarros e cheguei em cima da hora. O avião atrasou-se e apanhámos turbulência, tivemos uma aterragem atribulada e a porta de emergência estava a deixar entrar água. Sobrevivi a um trem de aterragem defeituoso, e cheguei a casa por volta das seis da tarde.

Ontem foi um dia como outro qualquer, e ainda bem que assim foi.

Monday, December 22, 2008

O Lançar da Moeda

Ao lançarmos uma moeda sabemos à partida que o resultado pode apenas ser um de dois. Há sempre a possibilidade da moeda cair em pé, mas a mínima vibração acaba por a tombar, fazendo prevalecer um dos lados.

Podemos tentar adivinhar o lado que sai, ou desenvolver técnicas para desvendar a resposta mesmo antes da moeda partir da nossa mão. Mas no fim, o mínimo pormenor pode desviá-la do seu objectivo e o resultado torna-se, assim, incerto.

Cara ou coroa. 50% é a probabilidade de acertar, mas por vezes surgem séries raras, em que por mais que lancemos a moeda, o resultado acaba por ser o mesmo. E por mais que acreditemos que no próximo lançamento será diferente, a crença dissipa-se mal levantamos a mão.

Para evitar esta constante desilusão lançamos a moeda para longe dos nossos olhos, para as profundezas de uma fonte, ou para a escuridão dos nossos bolsos. Tentamos com outras moedas, iguais, diferentes, de outro valor, de outro país, de outra cifra, de outro tamanho, de outra cor. Mas no fim, a sequência mantém-se, e o resultado não se altera.

Para um bom apostador, esse azar seria a sua sorte. Como oráculo, poder adivinhar cada resultado seria um pequeno passo para a eterna vitória. Não tarda outros viriam o jogo como viciado, e largariam a aposta. De qualquer forma, tal jogo apenas funcionaria se no ditar do resultado fosse ele quem decidisse a fatalidade da partida. Caso contrário, a regra da incerteza voltaria a ser aplicada, e na voz do oponente estaria a decisão do resultado. Já o não apostador, vê-se como vencido logo à partida, condenado a acreditar na resposta que nunca irá receber.

"Há sempre o outro lado da moeda." Às vezes também gostaria de o ver.