Thursday, July 16, 2015

Curta Diferença Geracional

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A criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os Portugueses, só começamos a ser idiotas - quando chegamos à idade da razão. Em pequenos temos todos uma pontinha de génio.
Eça de Queiroz, Cartas de Inglaterra

Quando pensamos nos velhos tempos da escola primária, lembramo-nos dos tempos passados no recreio. Das amizades que se perderam. Das brincadeiras, das correrias para casa para ver os desenhos-animados, das idas à praia, das visitas de estudo, e da falta de preocupações. De um tempo em que o mais importante era brincar, crescer, e encontrar felicidade nas pequenas coisas do dia-a-dia. No doce que a tua avó te oferecia, no novo brinquedo que recebias, ou na lata que servia de bola nos intervalos.

As calorosas recordações que guardo destes tempos, preenchem o meu coração com um profundo saudosismo e fazem-me sorrir. Lembro-me de ir de comboio à feira de Espinho com a minha avó, e de ela me oferecer um guarda-chuva de chocolate naquela pastelaria da esquina da Rua 19. Dos carrinhos que a minha mãe me trazia do Porto quando chegava tarde do trabalho. De desfilar vestido de Computador de cartão no Carnaval das escolas, de ir à catequese na minha bicicleta verde. De fazer sopas com ervas colhidas na casa da minha tia-avó. De brincar aos Power Rangers com os meus amigos, e ser sempre o azul. Da exposição sobre Dinossauros que ajudei a organizar na minha escola em que todos os meus colegas participaram ao desenhar cada um, um dinossauro diferente. Lembro-me de ver o Dragon Ball, os Popples, os Ursinhos Carinhosos, o Em Busca do Vale Encantado. De não deixar passar um sábado sem gastar as quatro cassetes do Vale Encantado, desde o original até ao quarto. De brincar com dinossauros, legos, carrinhos. De aprender a jogar xadrez. De jogar monopólio com os meus pais. E daquela garagem que recebi no Natal e que parti quando tropecei em cima dela. Enfim, dos momentos felizes que marcaram a minha infância.

Lembro-me que a ideia de crescer sempre foi algo que não me agradou, queria continuar a ser criança, a usar a minha imaginação, e a brincar. Não queria parar de brincar só porque tinha de crescer. No fundo do meu coração desejava ser uma espécie de Peter Pan. Eternamente jovem. Eternamente feliz.

Há uns anos tive uma discussão com uma colega de curso sobre a diferença geracional que existia entre a minha geração, e a das pessoas dois anos mais novas que eu. O argumento dela era que uma diferença geracional não podia ser definida dentro de um espaço de tempo tão curto. Embora de um ponto de vista sociológico me veja forçado a concordar com ela, a verdade é que houve muitas, talvez pequenas, mas muitas diferenças entre as pessoas que nasceram no mesmo ano que eu, e as gerações que se seguiram.

Na minha escola primária nós não frequentávamos o 1.º Ciclo, nem o primeiro, segundo, terceiro ou quartos anos tinham esse nome. Eramos alunos da escola primária, da primeira à quarta classe. Tínhamos um crucifixo por cima do quadro de ardósia, e todas as manhãs, mal a Professora chegava, levantávamo-nos das secretárias e rezávamos uma Avé Maria antes de a aula começar. Quem não fazia o trabalho de casa, ou quem fosse mal comportado, levava uma reguada e ficava sem recreio. Prática que se extinguiu pouco tempo depois de eu ter avançado para o 5.º ano, mas que ainda hoje defendo. Apesar de tudo, quando bem aplicada, um pouco de disciplina apenas ajuda uma criança a crescer, e não o contrário. Nós respeitávamos a nossa Professora, não pelo medo da dor de levar uma reguada, mas pela pessoa em si, e pela forma como nos ensinava as bases responsáveis por sustentar o nosso conhecimento, e o nosso crescimento, como estudantes e como pessoas.

Já nos tempos do liceu, actual secundário, enquanto eu era uma espécie de proto-hipster que gostava de bandas pouco populares e que tiveram o seu auge nos anos 70/80 ou inícios da década de 90, como New Order, Joy Division, Happy Mondays, Sex Pistols, The Doors, The Smiths, Pink Floyd, The Cranberries e Nirvana, a maioria dos meus colegas limitavam-se a seguir a música pop da altura e o hip-hop banal sem qualquer mensagem ou sentido profundo.

Enquanto eu lia Stephen King, Saramago, Pessoa, Arthur Conan Doyle e Oscar Wilde, eles deixavam-se adormecer nas aulas de Português e mostravam pouco interesse pelas experiências literárias que lhes eram ali apresentadas.

Tive o meu primeiro computador aos oito anos, um Pentium 100 sem ligação à Internet. Apenas o usava para brincar com o paint, escrever algumas coisas em Word, e jogar alguns jogos. Nunca fui grande fã de jogos de vídeo. Tive uma Sega Master System II e uma Playstation, mas raramente as usava, sempre preferi jogos de tabuleiro e desportos. Gostava de nadar e de fazer bodyboard, e cheguei mesmo a tentar implementar uma rotina semanal para jogar jogos de tabuleiro com a minha família, mas não pegou. Neste aspecto faltou-me sempre ter amigos mais próximos que pudesse convidar para irem lá a casa, ou um irmão/irmã, que se interessasse por este tipo de coisas.

Tinha 15 anos quando recebi o meu primeiro telemóvel, e mesmo nisso fui algo precoce. Tive que esperar por 2004 para enfim ter ligação à Internet de banda larga. Passei pelos chats do aeiou, pelo mIRC, pelo MSN Messenger, pelo hi5 e pelo MySpace. Aprendi a fazer contas aos escudos e não aos euros, fui à Expo 98, e fiquei admirado como uma exposição em Lisboa podia rivalizar com o tamanho da minha própria cidade.

Enfim, tudo isto, coisas que evoluíram a um ritmo alucinante nas últimas duas décadas e que para quem nasceu dois, três, ou quatro anos mais tarde, já faziam parte da História quando começaram a reconhecer o Mundo que as rodeava. Por não terem passado por isto, por não terem vivido estes momentos, ou por estes não passarem de vagas recordações na mente de uma criança de oito ou seis anos, por tudo isto, é que, para mim, existe uma grande diferença geracional, visivelmente vincada nos comportamentos e na forma de pensar daqueles que nasceram poucos anos depois de mim, mas que não passaram por o mesmo que eu.

Hoje, ser fã de Joy Division é quase um lugar-comum, contudo, no meu tempo era apenas e aqueles que tinham efectivamente vivido a Madchester e a era dourada da Factory Records enquanto esta estava a ocorrer. Para mim, foi preciso esperar pela faculdade para encontrar alguém com gostos musicais, literários e artísticos semelhantes aos meus. Pessoas com uma cultura musical muito mais avançada do que eu podia imaginar para alguém da minha idade, e outros exemplos que facilmente se difundiram nos anos que se seguiram, muito graças à crescente facilidade no acesso à Internet.

Com isto não quero afirmar que a minha geração é melhor que aquelas que se seguiram. Só pretendo vincar esta clara diferença geracional que talvez apenas aqueles que estão do meu lado conseguem ver de forma clara. A verdade é que quem nasceu depois de nós, quem não viveu as mesmas experiências, quem não presenciou a evolução da sociedade e da tecnologia, que nós presenciámos, toma hoje como garantido muitas coisas que nós sempre valorizámos. E isto reflecte-se na forma como encaram a vida, e aqueles que os rodeiam.

Não somos melhores, ou piores. Não existe certo, ou errado. Apenas duas gerações diferentes, semelhantes em certos aspectos, e muito próximas nas idades, mas distintas nos pormenores. Distintas naquilo que, por mais pequeno que seja, faz muita diferença.

Thursday, June 25, 2015

Até Sempre, Alicarius

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A recordação é o perfume da alma. É a parte mais delicada e mais suave do coração, que se desprende para abraçar outro coração e segui-lo por toda a parte.
George Sand

Ano e meio depois, voltei à Casa da Pedra. Retenho de lá mais memórias da minha passagem pelo INESC Porto, agora INESC TEC, do que de qualquer outra coisa. Ultimamente deixei de pedir queijo sempre que como uma francesinha. Este é normalmente substituído por uma camada extra de fiambre. Não é a mesma coisa, mas, infelizmente, não posso continuar a brincar com a minha intolerância.

Embora o regresso à Casa da Pedra esteja, desta vez, ligado ao aniversário de um amigo, e à minha estreia do Jurassic World em IMAX, aquele espaço, e as suas francesinhas, sempre estiveram, de certa forma, ligadas à minha passagem pelo INESC Porto. Era 16 de Janeiro de 2011, tinha-me despedido de Coimbra há dois dias. Era domingo e amanhã regressava ao Porto para começar a trabalhar no INESC Porto. Eu, e alguns amigos, decidimos celebrar o meu regresso a “casa” com uma francesinha no L’Auberge no Furadouro. Não sei se foi pelo momento que esta representava, ou pela qualidade do cozinheiro que entretanto se mudou para outras paragens, mas aquela foi, naquele dia, a melhor francesinha que alguma vez tinha comido fora do Porto. E assim se manteve até ao momento que lá regressámos.

Desde que o L’Auberge trocou de cozinheiro, as suas francesinhas, não mais voltaram a ser tão boas como antes. Apesar de ainda manterem algum nível de qualidade, não chegam sequer a rivalizar com as do Alicarius em Aveiro. O actual número um na nossa lista da melhor francesinha fora do Porto. Infelizmente, também eles mudaram recentemente de gerência e de cozinheira. Mal soubemos desta inevitável mudança, combinámos um regresso ao preciso local onde tudo começou.

Curiosamente, as mesmas pessoas com quem partilhei essa última noite no Alicarius, foram aquelas que me acompanharam nesta recente visita à Casa da Pedra. O Paulo, o Luís, o João, e a Fabiana. Os últimos quatro que, comigo, provaram a última infame francesinha com pão da avó, do Alicarius. Desde essa noite que lá não regressei. Talvez a qualidade da francesinha se mantenha igual, talvez esteja melhor, ou, talvez tenha piorado. Para já, esse é um mistério que não anseio por resolver.

A minha passagem pelo INESC Porto não foi mais longa que um ano. Contudo, foi tempo suficiente para criar amizades que ainda hoje mantenho, para conhecer novos locais, para ganhar experiência e para visitar restaurantes como a Real Churrasqueira e a Casa da Pedra, um dos meus locais preferidos para comer francesinhas no Porto.

Tudo muda com o tempo. O emprego, as pessoas, as cidades, os gostos, e até mesmo o paladar. Este ano, num curto espaço de tempo, já me despedi de algumas coisas que tomava como garantidas. Coisas que faziam parte da minha rotina, e que, nem sempre, as pude aproveitar da melhor forma possível. O Alicarius é apenas mais uma numa longa lista de despedidas que jamais terminará de crescer. É assim que a vida funciona. Um breve momento que sobrevive apenas na memória daqueles que o partilharam.

Ainda me lembro da primeira vez que visitei o Alicarius. Eu, o Paulo e o Luís. Estávamos lá não apenas para provar a francesinha, mas também para debater ideias para um novo projecto que queríamos fazer em conjunto, o Rarely Interesting. Um site sobre tudo, com críticas a jogos, livros, música e filmes. Um site que morreu à nascença, mais pela minha falta de empenho, que a deles. Um projecto que, infelizmente, não foi para a frente, e que volta e meia, penso tentar ressuscitar. Apenas mais uma numa longa lista de ideias que acabam por nunca sair do papel.

Foi esse o pretexto que me deu a conhecer aquela que é, ainda hoje, a melhor francesinha fora do Porto. Por enquanto, não posso aconselhar ninguém a lá regressar, pois ainda não provei os produtos da nova gerência, nem tão pouco conheço quem o tenha feito.

Talvez um dia lá regresse. Talvez um dia essas memórias voltem a solidificar-se num local que é muito mais para mim, para nós, que um mero restaurante. Tenho saudades desta constante.

Anseio por constantes, nas quais ainda me possa rever. São cada vez menos, e cada vez mais escassas. Para já, resta-me a Casa da Pedra e o Verso em Pedra. Talvez por terem pedra no nome, movem-se lentamente pelo tempo com a confiança de um continente granítico, e a estabilidade de uma rocha resguardada dos efeitos da erosão.

Mas por agora, apenas me resta dizer três simples palavras. Até sempre, Alicarius. Até ao meu regresso. Até uma próxima recordação.

Thursday, June 18, 2015

O Meu Ficheiro Excel

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If we fasten our attention on what we have, rather than what we lack, a very little wealth is sufficient.
Francis Johnson

Há meses em que a disponibilidade financeira é difícil de controlar. Entramos numa espiral de despesas, sejam estas por motivos de saúde, lazer, ou meros gastos urgentes ou inconsequentes. Este é um desses meses. Não é a primeira vez que, por um motivo ou outro, acabo o mês próximo do zero, incapaz de guardar uma qualquer percentagem do meu salário para futuros investimentos ou necessidades.

Há cerca de cinco anos, criei um sistema em Excel de controlo e registo de gastos, o qual actualizo diariamente, e que tem sofrido melhorias sempre que estas me ocorrem, ao ponto de ser capaz de discriminar a grande maioria das coisas nas quais invisto, ou melhor, gasto, o meu dinheiro.

Talvez esta atitude seja passível de ser vista como obsessiva, ou como uma síndrome qualquer de controlo sobro todos os aspectos da minha vida. Mas, na verdade, não passa de uma rotina de lazer, que mantenho ao longo da semana, a qual não me retira mais do que três a cinco minutos por dia. Um pouco como lavar os dentes, ou a loiça depois do jantar, actualizo o meu Excel mal chego a casa com a frequência devida, sempre que houve algum gasto ou uma alteração em um qualquer dos meus saldos.

Talvez seja o meu adormecido lado de matemático a falar, mas adoro fazer gráficos, criar percentagens, analisar tendências, e estabelecer limites para com aquilo que gasto. O meu sistema tem tanto de simples como de complexo. Recorro a dois ficheiros. Um anual relativo ao ano corrente, e outro permanente que actualizo apenas no final de cada mês, onde constam os meus registos de rendimento e gastos desde Setembro de 2010 até hoje.

No primeiro mantenho um registo do saldo da minha conta bancária, de quanto dinheiro trago comigo na carteira, e até mesmo dos poucos cêntimos que mantenho guardados há quase quinze anos no meu mealheiro. Também construo algumas tabelas com objectos que desejo comprar e quanto estes custam. Noutra página, mantenho o meu balanço mensal onde discrimino cada gasto pelas categorias de Alimentação, Transportes, Renda, Utilidades e Outros. A categoria Outros é por si só descriminada numa tabela anual onde crio categorias que vão desde bilhetes de cinema, a livros, CDs, gastos com saúde, entre outros.

Embora o mês ainda esteja longe de ter terminado, a minha recente viagem a Lisboa, aliada a algumas consultas, e a outros gastos que fiz por impulso, fazem com que o horizonte não adivinhe nada de agradável. O meu plafond para este mês está cada vez mais reduzido, e creio que só com algum engenho é que não terminarei por acabar o mês a zero.

Isto não é uma grande preocupação para mim, pois, se vier a acontecer, será a primeira vez, em anos que algo semelhante me acontece, com as óbvias excepções dos meses em que fiz grandes investimentos, como a compra do meu actual portátil em Março de 2011, e da minha máquina fotográfica em Julho de 2014.

Não sou um tipo que gosta muito de depender do crédito, portanto, acabo sempre por comprar tudo a pronto. As únicas excepções que imagino fazer ao longo da minha vida estarão intimamente ligadas às compras de um carro, e eventualmente, de uma casa, se algum dia conseguir um emprego que me permita um nível de estabilidade suficiente para permanecer no mesmo local tempo suficiente para a desfrutar.

A minha vida de nómada é também ela reflectida na minha folha de cálculo. São incríveis as disparidades no que toca a gastos em alimentação, renda e transportes, quando comparo os dois anos que vivi em casa dos meus pais e trabalhei no Porto, com os restantes que, até agora, foram repartidos entre Coimbra e Covilhã.

Aqui apenas me posso culpar a mim próprio por ter optado por uma carreira que apela mais à instabilidade, e que nos força a nunca encarar a cadeira actual como um dado adquirido. Mas assim é a vida de um assessor de imprensa, de um realizador, de um editor de vídeo, de um investigador, de um director de fotografia, de um designer ou de um fotógrafo.

Em tempos disseram-me para esquecer o meu Excel, que este me fazia mal e que me tornava obcecado com os possíveis gastos que tinha pela frente. Sempre a aspirar a uma meta imaginária e, por vezes, irrealista. E isto foi verdade durante uns tempos, foi verdade até ao momento em que comecei a ver tudo aquilo que estava a perder ao deixar-me limitar pelas contas e pelo dinheiro que dispunha. As experiências que deixava de ter, as viagens que deixava de fazer, as coisas que deixava de ter, a roupa que usava até à exaustão.

Esse “clique” também aconteceu num momento em que o meu novo emprego me proporcionou uma maior folga orçamental, por causa de um considerável aumento salarial, em comparação com os anteriores.

Não sou uma pessoa que exige uma alta manutenção. Raramente compro coisas caras, dispenso a maioria dos gadgets, e contento-me com telemóveis baratos que durem uns três ou mais anos. Mas deixei de me conter perante aquilo que desejo, seja ele um livro, um vinil, ou uma minifigura de Lego. Afinal, se o posso ter hoje, para quê deixar para amanhã?

Em Junho de 2015, talvez o meu saldo final chegue ao zero, talvez até o ultrapasse, ou, se calhar, ainda vou conseguir poupar alguns trocos que sejam. Enfim, dia 30 terei a resposta que hoje atormenta o meu lado mais economicista, mas contento-me em saber que fora uma ou outra coisa, tudo aquilo no qual “gastei” o meu dinheiro este mês, trouxe-me experiências, momentos, inspiração, e alegria, que já mais teria vivido se permanecesse atrás de uma calculadora a controlar cada cêntimo que me saía do bolso.

Thursday, May 14, 2015

O Violino Azul

Le Violon Bleu de Raoul Dufy
What I wish to show when I paint is the way I see things with my eyes and in my heart.
Raoul Dufy

O Violino Azul de Raoul Dufy. Há cerca de dez anos, numa visita a Serralves, comprei uma cópia deste quadro. Mandei-a emoldurar. Queria pendurá-la no meu quarto. As suas paredes brancas entediavam-me. Queria cor. Queria algo que lhe desse alguma identidade. Guardei esse quadro numa prateleira qualquer, e assim ficou. Durante dez anos. Ali ficou.

A ganhar pó, ainda envolto no seu plástico original, esquecido, no canto de uma estante. Há duas semanas decidi que era hora de fazer alguma coisa. Retirei-o do plástico e procurei por um espaço na parede onde o pudesse pendurar. Mesmo por cima da aparelhagem, entra a televisão e a estante.

Num final de tarde, já cansado de mais um longo dia de trabalho, e depois da habitual passagem pelo Continente, fiz um desvio até ao Leroy Merlin. Por entre molduras e outros materiais, encontrei os tais pregos de fixação. A última peça num puzzle com já uma década de atraso.

Este sábado escolhi o local, um pouco mais acima daquilo que tinha imaginado e fixei-o na parede. Após uma tão longa espera finalmente pendurei o Violino Azul inspirado por Raoul Dufy.

Agora que o posso contemplar sempre que visito o meu quarto, sinto uma ligeira sensação de desapontamento. Pendurei-o um pouco alto de mais, e ligeiramente mais para a direita do que tinha planeado. Mas, agora, talvez pela primeira vez desde que para lá me mudei, sinto que o meu quarto está finalmente decorado como o imaginava. Do Violino Azul, ao Pinguim de Macaroni, do mini Atomium, também ele há cinco anos fechado numa pequena caixa, até à primeira foto que alguma vez revelei, e aos sets de Lego que há dois anos recuperei após décadas de negligência entre sótãos e caixas caóticas de velhos brinquedos.

O meu quarto sempre teve a sua própria personalidade, reflexo da minha, ou de uma mescla caótica, entre o meu Eu e o desejo dos próprios objectos que nele habitam. Hoje são raros os momentos que o visito. Apenas o reservo por duas noites todas as semanas. Já assim o faço há dois anos, e assim continuarei a fazer, pelo menos durante o futuro próximo.

O que é então o meu quarto? Uma exposição de objectos não-essenciais que coleccionei ao longo dos anos? Um retrato da minha infância, adolescência, enfim, da minha vida? Uma instalação de arte? Um museu dedicado a mim próprio? Ou apenas um local para dormir quando regresso a casa, e onde guardo aquilo com que mais me identifico.

Cada objecto no meu quarto tem uma história. Cada álbum, cada livro, cada pedaço de memorabilia, cada brinquedo, enfim, cada coisa que hoje e sempre o compôs.

Nunca senti o meu quarto como algo feito para ser mostrado ou exibido. Nunca o achei como um espaço adulto, mas sim como um local meu, apenas meu, composto por tudo aquilo que eu gosto e que em tempos me fez feliz. Será sempre um projecto em construção. Alterável. Inconstante. Único.

Durante dez anos adiei pendurar aquele quadro. Durante uma década esqueci-me dele num qualquer canto. Uma recordação constante de mais um entre muitos projectos inacabados, enfim concluído, por uma ligeira onda de inércia que me forçou a agir.

O Violino Azul de Dufy. O mais recente ocupante do meu quarto. Um hóspede há muito habitué que, finalmente, teve direito ao seu lugar de destaque.

Thursday, April 02, 2015

Adeus Covilhã

Paredes da Covilhã, Foto: Adriano Cerqueira
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Ricardo Reis

Há algum tempo que não leio. Não como naquele dia. Não esperava terminar o livro tão depressa. Não esperava devorá-lo em menos de um dia. Afinal, escolhi-o para descansar. Para me livrar por momentos daquele Universo. Passavam dez meses desde que tinha começado a ler A Song of Ice and Fire, livro após livro, sem descanso. As viagens de comboio ajudavam. Se ajudavam!

Evolução e Criacionismo: Uma Relação Impossível”, uma obra teórica. Uma colaboração entre vários autores, entre os quais, Octávio Mateus, O paleontólogo português, e alguém cujo trabalho admiro. Era um dia atípico. Finalizado o meu contrato com a RTP poucos dias antes, tinha então duas entrevistas de emprego. Uma no Porto pelas nove e meia, e outra em Lisboa às seis da tarde. A de Lisboa era a que mais me atraía, não só pela posição em si – estava a candidatar-me para o lugar de designer numa exposição temporária sobre borboletas – mas também pelo local, o Museu de História Natural. A do Porto era mais apelativa, sim, trabalhar como editor de vídeo para um projecto educativo sobre Engenharia encaixava-se mais dentro das minhas aptidões, contudo, o desafio era pequeno, e a temática menos apelativa.

20 de Dezembro de 2012. Parti em viagem. De Ovar para o Porto, do Porto para Lisboa, de Lisboa para Ovar. Fiz nesse dia cerca de sete horas de viagem, sem contar com algumas horas mortas de espera entre comboios e entrevistas. A única constante era o livro que trazia comigo. Página após página. Capítulo após capítulo, quando enfim cheguei a casa, umas meras dez páginas me separavam da sua conclusão. Foi a primeira vez que li um livro em menos de vinte e quatro horas. Foi a primeira vez que quebrei verazmente a minha regra de saborear cada página com o devido tempo que esta merece.

Semanas mais tarde recebi as respostas. Com poucos dias de diferença. Segundo lugar em Lisboa, quinto no Porto. Não fiquei colocado. Não me deixei surpreender pelo resultado, apesar da frustração que é ficar tão perto do primeiro, e tão desejado, lugar. Enfim, não estava escrito.

Foi numa tarde não muito diferente daquela que fiquei a conhecer o meu próximo destino: Covilhã. Fiquei na Covilhã. A entrevista tinha corrido muito bem e estava confiante num bom resultado. A vontade de me mudar para tão longe, para lá da Serra da Estrela, era pouca, se não mesmo nenhuma. As oportunidades escasseavam, e o projecto não parecia mau de todo. Desta vez não havia mais comboios ou metros. Apenas um Expresso. Companheiro semanal durante vinte e dois meses. Vinte e dois meses que não foram mais, pois hoje faço dois anos da minha mudança para a Covilhã, e já lá não resido.

Vinte e dois meses guardam em si mais histórias que aquelas que quero, ou que posso, contar num espaço tão reduzido como este. Vinte e dois meses de saudades por um local que todas as semanas ansiava por abandonar. Vinte e dois meses de convívio, de amizade. Vinte e dois meses de muito mais do que podia esperar.

Tivesse seguido à risca o plano que me tinham delineado e ainda teria mais dois meses de Covilhã, de Comunicar Ciência, de Beira Interior, pela frente. Mas era hora de partir. Na verdade, essa hora já tinha passado há muito. Talvez em Outubro, talvez em Maio. Mas de algo estou certo. Não havia outro sítio, outro local, outra casa, ou outra cidade que não a Covilhã. Ao longo destes vinte e dois meses era lá que eu tinha que estar. Era lá onde eu tinha que viver. Já era tarde para Ovar, e ainda muito cedo para Coimbra. Porto e Faro eram boas recordações. E Lisboa. Lisboa era tudo isto. Tudo isto e algo mais que ainda não sou capaz de compreender.

Hoje sei que tenho saudades da Covilhã. Saudades de entrar no LabCom. De ouvir o Sousa a perguntar se era feliz, ou se me encontrava bem. Dos almoços com a Sara e o Rodolfo, e das sessões de terapia que lhe oferecíamos entre um prato qualquer e umas Papas de Carolo. De coleccionar Legos com a Ana e a Cristina. Das sessões de cinema do Fernando. Das noites divididas entre o Japonês e a Taberna. Das particularidades de cada pessoa que conheci. Enfim, da Covilhã.

Nunca te vi como mais que um degrau na longa escada que ainda tinha por percorrer. Assim foste, e assim serás relembrada. Foste aquilo que precisava, quando precisava. Uma solução, uma oportunidade. Um retiro, uma viagem. Uma experiência, uma necessidade. A única constante. A minha casa fora de casa.

Faz hoje dois anos que me mudei para a Covilhã. Faz hoje dois meses que de lá me despedi. Obrigado Covilhã. Obrigado pela dureza do teu Inverno. Obrigado pelo acutilante calor do teu Verão. Obrigado por seres igual a ti própria. Pela frieza do teu raciocínio. Pelo realismo do teu sentimento. Enfim, obrigado e adeus. Adeus, Covilhã. Até sempre.