Tuesday, February 23, 2016

O Barco a Remos

Barco a Remos, Fabuland; Foto: Adriano Cerqueira
Todos temos coisas que gostamos de adiar. Limpar a cozinha, arrumar o quarto, ir ao dentista, fazer exercício. A lista é infinita. Contudo, todas essas coisas atingem um ponto em que não podem mais ser adiadas. Num abrir e piscar de olhos, acordamos naquela data inevitável que ainda há dias parecia tão longínqua.

Quando a minha casa acabou de ser construída, há cerca de treze anos atrás, muitos dos meus brinquedos e objectos de infância, acabaram por ficar guardados num anexo que construímos ao fundo do meu quintal. É um simples coberto, sem portas, e com pouca protecção contra os elementos e a humidade. Ideal para fazer uns churrascos no Verão e para deixar a roupa a secar em dias de chuva, mas que para pouco mais serve.

E durante dez anos por ali ficaram. Guardados em caixas de cartão e sacos de plástico. Sem nenhuma organização aparente. Verão após Verão, adiava para o ano seguinte a árdua tarefa de os organizar. E de salvar aqueles que tivessem maior valor, das intempéries que os contínuos Invernos ameaçavam fazer cair sobre eles.

Apenas em Fevereiro de 2013 fui capaz de dizer basta. O inevitável dia que tanto fiz por adiar tinha finalmente chegado. A minha motivação chegou numa noite como qualquer outra. Antes do jantar, fui dar uma volta pelo quintal e passei pelo anexo. Uma saca entreaberta chamou-me a atenção. Lá dentro estava um jogo de tabuleiro do Space Jam. Uma raridade coleccionável que tinha saído como oferta no Jornal de Notícias em 1997. Foi com espanto que o encontrei ali, pois achava que tal como todos os meus jogos de tabuleiro e brinquedos mais valiosos, também este se encontrava a salvo no sótão da minha casa.

O meu primeiro instinto foi trazê-lo para dentro e ver se todas as peças ainda estavam intactas. Felizmente, o jogo estava completo. Com algum pó, mas completo. Na manhã seguinte, pus-me ao trabalho. Que outros tesouros estariam perdidos por ali à mercê dos elementos, das aranhas e dos gatos que por ali pernoitavam?

Demorei duas semanas a organizar as caixas. Uma semana para separar e reorganizar os conteúdos das caixas que estavam espalhadas pelo anexo, e outra para limpar os arrumos do sótão, pois também estes precisavam de uma intensa fascina.

A maioria dos brinquedos que encontrei no anexo não deixava qualquer saudade. Baldes de plástico, ancinhos, pás e formas para brincar na areia, prémios de ovos Kinder, velhos carros telecomandados há muito avariados, bolas, puzzles incompletos, e velhos jogos, ora ferrugentos ou simplesmente partidos. Mas, entre esta miríade de desilusão, houve algumas pequenas surpresas. A maior delas foi a minha colecção de sets da Lego.

Confesso que o principal motivo que me levou a demorar uma semana inteira para terminar de organizar as caixas dos anexos, foi a minha autoproclamada missão de completar todos os sets que ali encontrei.

Peça a peça, esmiucei cada recanto dos anexos e do sótão até ter a certeza que mais nenhuma iria encontrar. Para quem me conhece, isto pode parecer estranho, mas a verdade é que durante a minha infância não fui um grande fã de Lego. Power Rangers, Dragon Ball, Pokémon e Jurassic Park, foram os principais brinquedos que cativaram a minha imaginação. Havia sempre espaço para esses pequenos tijolos, mas nunca me cativavam a atenção por mais que alguns minutos. Por este motivo, deixei-os ali. A maioria deles estava dentro de um jarro de vidro. Memorabilia da antiga drogaria da minha avó. Contudo, os mais antigos, os Duplo, e os tijolos propriamente ditos, estavam espalhados por sacas e caixas de forma aleatória.

Entre 96 e 97, sempre que ia ao Modelo com os meus pais, costumava trazer um mini set. Vinham em pequenas caixas e custavam cerca de duzentos escudos. Ao todo coleccionei 22 durante esses dois anos. Costumava guardá-los nas suas caixas originais, mas quando nos mudámos, para poupar em espaço, pu-los todos dentro desse jarro. Infelizmente, também deitei fora as instruções, e com o passar dos anos por ali ficaram esquecidos. Ao fundo do meu quintal, dentro de um velho jarro de vidro.

Como não tinha guardado as instruções, não tinha forma de saber se estes estavam completos e a que sets pertenciam as outras peças que tinha encontrado. Após algumas horas de pesquisa online, encontrei o Brick Factory. Um site com um design a lembrar as páginas do Geocities, mas que tem a maior base de dados de instruções de sets da Lego.

Passei os dias seguintes a ver, ano a ano, a que sets pertenciam as peças que tinha então descoberto. Duvido que alguma vez tenha passado tanto tempo num único site como passei nesse. Com alguma sorte à mistura, descobri que todos esses vinte e dois sets estavam completos. Contudo, o mesmo não acontecia com os restantes, à excepção de um. O barco a remos da colecção Fabuland.

Quando andava na pré-primária aqui em São Miguel, lembro-me que tínhamos um balde de Legos com o qual brincávamos quase todos os dias. Muitas vezes acabava por trazer alguns para casa. Um deles, em particular, era um barco vermelho. Esse mesmo barco a remos.

Talvez por o ter trazido sem permissão mais que uma vez, acabei por receber o set completo. Não sei se este foi o primeiro set da Lego que alguma vez me ofereceram, mas sei que de todos aqueles que sobreviveram completos até aos dias de hoje, este é o mais antigo.

Fiquei tão feliz com a perspectiva de que algo tão antigo, chegou intacto às minhas mãos, com apenas algumas marcas de sujidade, que, ainda hoje, reservo para este barco a remos um local especial no meu quarto.

Este foi o maior tesouro que encontrei por entre aquelas caixas. Um pedaço da minha infância que sobreviveu a anos de negligência, esquecimento, e a incontáveis intempéries do tempo. A minha recordação mais antiga, e o primeiro tijolo na reconstrução do meu amor por estas pequenas peças.

Cada objecto conta a sua estória. As que viveu e aquelas que o futuro ainda lhe reserva. Esta não é a estória de um simples brinquedo, mas sim um pedaço da minha infância. Um episódio da minha história recente. Um pedaço das minhas paixões. Um pedaço de mim.

Thursday, May 14, 2015

O Violino Azul

Le Violon Bleu de Raoul Dufy
What I wish to show when I paint is the way I see things with my eyes and in my heart.
Raoul Dufy

O Violino Azul de Raoul Dufy. Há cerca de dez anos, numa visita a Serralves, comprei uma cópia deste quadro. Mandei-a emoldurar. Queria pendurá-la no meu quarto. As suas paredes brancas entediavam-me. Queria cor. Queria algo que lhe desse alguma identidade. Guardei esse quadro numa prateleira qualquer, e assim ficou. Durante dez anos. Ali ficou.

A ganhar pó, ainda envolto no seu plástico original, esquecido, no canto de uma estante. Há duas semanas decidi que era hora de fazer alguma coisa. Retirei-o do plástico e procurei por um espaço na parede onde o pudesse pendurar. Mesmo por cima da aparelhagem, entra a televisão e a estante.

Num final de tarde, já cansado de mais um longo dia de trabalho, e depois da habitual passagem pelo Continente, fiz um desvio até ao Leroy Merlin. Por entre molduras e outros materiais, encontrei os tais pregos de fixação. A última peça num puzzle com já uma década de atraso.

Este sábado escolhi o local, um pouco mais acima daquilo que tinha imaginado e fixei-o na parede. Após uma tão longa espera finalmente pendurei o Violino Azul inspirado por Raoul Dufy.

Agora que o posso contemplar sempre que visito o meu quarto, sinto uma ligeira sensação de desapontamento. Pendurei-o um pouco alto de mais, e ligeiramente mais para a direita do que tinha planeado. Mas, agora, talvez pela primeira vez desde que para lá me mudei, sinto que o meu quarto está finalmente decorado como o imaginava. Do Violino Azul, ao Pinguim de Macaroni, do mini Atomium, também ele há cinco anos fechado numa pequena caixa, até à primeira foto que alguma vez revelei, e aos sets de Lego que há dois anos recuperei após décadas de negligência entre sótãos e caixas caóticas de velhos brinquedos.

O meu quarto sempre teve a sua própria personalidade, reflexo da minha, ou de uma mescla caótica, entre o meu Eu e o desejo dos próprios objectos que nele habitam. Hoje são raros os momentos que o visito. Apenas o reservo por duas noites todas as semanas. Já assim o faço há dois anos, e assim continuarei a fazer, pelo menos durante o futuro próximo.

O que é então o meu quarto? Uma exposição de objectos não-essenciais que coleccionei ao longo dos anos? Um retrato da minha infância, adolescência, enfim, da minha vida? Uma instalação de arte? Um museu dedicado a mim próprio? Ou apenas um local para dormir quando regresso a casa, e onde guardo aquilo com que mais me identifico.

Cada objecto no meu quarto tem uma história. Cada álbum, cada livro, cada pedaço de memorabilia, cada brinquedo, enfim, cada coisa que hoje e sempre o compôs.

Nunca senti o meu quarto como algo feito para ser mostrado ou exibido. Nunca o achei como um espaço adulto, mas sim como um local meu, apenas meu, composto por tudo aquilo que eu gosto e que em tempos me fez feliz. Será sempre um projecto em construção. Alterável. Inconstante. Único.

Durante dez anos adiei pendurar aquele quadro. Durante uma década esqueci-me dele num qualquer canto. Uma recordação constante de mais um entre muitos projectos inacabados, enfim concluído, por uma ligeira onda de inércia que me forçou a agir.

O Violino Azul de Dufy. O mais recente ocupante do meu quarto. Um hóspede há muito habitué que, finalmente, teve direito ao seu lugar de destaque.

Tuesday, June 24, 2014

True Faith

True Faith, Foto: Adriano Cerqueira
I used to think that the day would never come,
I'd see delight in the shade of the morning sun.
My morning sun is the drug that brings me near,
To the childhood I lost, replaced by fear.
True Faith, New Order

Cada objecto conta uma estória. Do fabrico, à aquisição, do seu passado, e das pessoas que o tornaram possível, ao seu presente, e àqueles que perpetuam as suas qualidades. Hoje trago-vos a história de algo que transita do plano do etéreo e do abstracto, para a realidade física apenas através de suportes analógicos ou digitais. Estou a falar de música. Estou a falar de New Order. Estou a falar da True Faith.

Produzida por Stephen Hague em 1987, True Faith é um dos singles mais populares dos New Order. Reeditada em 1994 e 2001, esta música chegou a estar em quarto lugar nos Tops do Reino Unido no seu ano de lançamento. Popularizada em filmes como American Psycho, ou Bright Lights, Big City, esta faixa foi ainda alvo de covers por bandas como The Wombats ou Anberlin.

Esta foi das primeiras músicas dos New Order com as quais tive contacto. Embora ela nunca tenha sido editada num dos álbuns regulares de New Order, apareceu em algumas compilações como o Substance, The Best of, International, Singles e Total.

Com uma letra tão abstracta como o seu vídeo, é difícil encontrar um sentido real para os versos que a compõem. Como era hábito na altura, o título não surge em qualquer momento da música, e parece de certa forma, desligado do conteúdo e da mensagem que esta transmite.

A interpretação mais comum da letra, retrata a história de um toxicodependente, viciado em heroína, arrependido pela infância que perdeu, e pelas pessoas que a sua dependência afastou. Pessoalmente, prefiro vê-la como um grito à esperança de um futuro livre. Limpo das amarras de um passado repleto de arrependimentos.

Fascinado pela música, pelos seus ritmos positivos, pela ambiguidade da letra, e pela aleatória originalidade por detrás da arte que compõe as suas diversas encarnações, ainda antes de adquirir qualquer álbum dos New Order, procurei efusivamente por este single.

Foi apenas em Setembro de 2004 que desisti de procurar no mercado nacional. Em menos de cinco minutos encontrei o single que há tanto procurava na loja britânica da Amazon. Nunca tinha feito uma compra online, e tinha algum receio que algo pudesse correr mal. Contudo, tal não aconteceu e tive apenas que esperar algumas semanas para o ter. Ao longo dos anos, coleccionei várias versões desta música, quer em Single 7”, Maxi Single 12” e mesmo uma colectânea de remixes, da qual confesso não ser grande fã.

À excepção do single em CD, todas os restantes elementos da minha curta colecção foram comprados em segunda mão. Pela qualidade dos mesmos, quer da capa, quer do próprio disco, presumo que estes pertenciam a pessoas que tinham cuidado com os seus vinis. Se o faziam por gosto, por lhes darem pouco uso, ou por serem donos de lojas com stock para liquidar, não o sei dizer ao certo. Contudo, por vezes encontro-me a pensar sobre as histórias que estes discos escondem. Por quantas mãos passaram. Quem os ouviu e em que situações. Terão assistido ao nascimento de romances? A festas de arromba? Será que foram partilhados entre amigos, ansiosos por descobrir uma música nova? Quantos se sentiram desiludidos? Quantos se apaixonaram?

A True Faith é uma peça estruturante da minha colecção de música, quer em vinil, quer em CD. A sua arte de capa é icónica, e uma das minhas preferidas. Durante anos usei-a como avatar do MSN Messenger, assim como em outras redes sociais. A música em si é parte de mim. Da mesma forma que as diversas versões que hoje possuo são parte integrante da minha memorabilia de New Order.

Cada objecto conta a sua estória. As que viveu e aquelas que o futuro ainda lhe reserva. Esta não é a história de um CD, de um vinil, ou de um mp3. Esta não é a história de uma música, de uma banda, ou de um fã. Esta é a história da True Faith. Esta é a minha história.