Thursday, December 18, 2014

Em Comum

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A friend should be one in whose understanding and virtue we can equally confide, and whose opinion we can value at once for its justness and its sincerity.
Robert Hall

Convivemos com, essencialmente, quatro tipos de pessoas. Aquelas que seguem as nossas recomendações, aquelas que embora não o façam no imediato eventualmente acabam por o fazer, aquelas que as ignoram mas que as acabam por descobrir por mero acaso, e aquelas que apenas as seguem depois de outra pessoa as ter recomendado.

Todos conhecemos alguém que se encaixa numa destas categorias. Dentro do nosso grupo de amigos, entre os familiares mais próximos, assim como nos colegas de trabalho, e nos conhecidos com quem partilhamos certos aspectos da nossa vida.

O que faz alguém aceitar a tua opinião ou seguir alguma sugestão, seja ela um destino de viagens, um livro, um filme, ou uma banda, parte do tipo de relação que essa pessoa partilha contigo. Do respeito que nutre, ou não, por ti. Do reconhecimento do teu “bom gosto”, ou de uma partilha de interesses em comum.

Nem sempre foi fácil encontrar alguém que partilhe dos mesmos gostos que nós. A internet e as redes sociais, hoje em dia, facilitam a disseminação e a partilha de conhecimento. Fenómenos que antes eram vistos como obscuros, ou restritos a um determinado nicho, podem hoje ressurgir e tornarem-se facilmente populares, bastando para isso que alguém com um certo grau de influência sobre os seus pares o partilhe.

Quando andava no liceu, não conhecia ninguém com quem pudesse falar sobre música, livros, filmes, séries, ou outro qualquer elemento cultural, que não aqueles que faziam parte da cultura pop da altura. “Ninguém vê o Em Busca do Vale Encanto, ninguém ouve New Order, e ninguém gosta da Primavera.” Durante meses mantive esta frase no meu Messenger, era o meu protesto silencioso contra a falta de alguém com quem falar sobre as coisas que mais gostava.

Com o passar dos anos a situação mudou, e hoje é raro encontrar quem não goste, ou quem não tenha pelo menos ouvido falar da maioria das coisas que eu gosto. Contudo, há agora uma diferença. Enquanto no passado seguir uma recomendação de alguém implicava algum investimento, gastos em deslocações e, por vezes, dias inteiros dedicados a essa demanda cultural, hoje basta uma simples pesquisa num motor de busca e alguns minutos do teu tempo.

Esta redução do custo de investimento e de consumo de bens culturais, que são hoje, na sua maioria, gratuitos e disponíveis online, fez com que o paradigma da interacção, e da partilha desses mesmos bens dentro do nosso grupo de amigos, passasse a ser encarado de outra forma.

Enquanto há poucos anos aceitava-se que alguém não pudesse comprar um álbum, ou ir ao cinema, hoje essa questão já não se coloca. Sim, existe conteúdo pago, e ir ao cinema nunca foi tão caro, contudo, e sem querer entrar no ramo da pirataria, hoje existem inúmeras formas legais para ver um filme, uma série, ou ouvir música, de forma gratuita.

Uma amizade, ou outra qualquer relação, não é definida pela partilha de gostos em comum, embora estes possam ter sido a base que a susteve numa fase inicial. Contudo, a dinâmica com que alguém lida com uma recomendação tua, diz muito sobre certos aspectos da vossa interacção. Desde o respeito, ao reconhecimento do quão bem essa mesma pessoa te conhece. Aspectos esses que se estendem à avaliação da qualidade da tua crítica, e da tua própria opinião.

Não me vejo como um líder de opinião, nem tão pouco defendo que os meus gostos sejam superiores aos de qualquer outra pessoa. Não os procuro impor, e apenas os partilho quando algo me apaixona, ou quando acho que essa pessoa pode também vir a gostar.

Contudo, não há sensação pior que ver alguém agradecer a outro por algo que tu próprio lhe recomendaste. Num Mundo cheio de informação, os filtros são necessários, mas, por vezes, é descabido não reconhecer um simples gesto de partilha.

Procuro sempre seguir as recomendações de quem perdeu algum do seu tempo para as partilhar comigo. Não sou um líder de opinião, mas sugiro que também o façam. Quem sabe todo o Universo de novas paixões, experiências e aventuras que estão a perder só porque escolheram ignorar a sugestão de alguém. É tão fácil como carregar em Play.

Thursday, November 27, 2014

Romance do Dia-a-dia

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In this world there are only two tragedies. One is not getting what one wants, and the other is getting it.
Oscar Wilde

São as pequenas coisas. São elas que me movem. São elas que mais desejo. Todas as histórias começam com breves momentos de exposição. Informação prévia sobre a vida e o universo das personagens, oferecida pelas subtilezas da narrativa, ou forçada pela garganta abaixo quando a criatividade é escassa.

Nas comédias românticas essa exposição é muitas vezes conhecida por “meet cute”. Aquele momento absurdo e hilariante que junta ambos os protagonistas. O rapaz que vai contra uma rapariga e a ajuda a apanhar os livros. O herói que salva a donzela em perigo. A rapariga que te encontra no elevador e que também gosta de The Smiths.

Aquela primeira troca de olhares. O sorriso embaraçoso. O ódio incompreensível que impede aquela pessoa de sair dos teus pensamentos. Uma longa lista de clichés e lugares-comuns, com presença obrigatória em qualquer comédia romântica. O resto da história é contada nas estrelinhas de encontros e desencontros. Entre coincidências e acasos. Falhas de comunicação. Dramas, separações e reencontros. Um grande gesto romântico no final que ata todos os nós, e que conclui a história como um belo laço de seda, arrumado no topo de uma surpresa ainda por abrir.

Essa surpresa são todas as pequenas coisas que ficam por contar. Os actos mundanos filtrados pelo guião. As rotinas diárias que, fora algum diálogo, montagem, ou encontro inesperado, raramente fazem parte do produto final. As idas ao supermercado. Os passeios de mãos dadas. Brincar com os pratos que queremos comprar quando passamos por uma montra de cerâmica. As manhãs de Sábado passadas na cama. Deixá-la adormecer no teu colo enquanto vêem televisão. As longas viagens de carro e a habitual discussão sobre que música ouvir. Os silenciosos passeios à beira-mar. As brincadeiras com o gato, ou o cão, ou ambos. A partilha de tarefas. E todos os outros pormenores que dizem presente numa vida a dois.

São as pequenas coisas. São elas que me movem. São elas que mais desejo. Pormenores do quotidiano que, talvez por passarem despercebidos, vêem a sua magia ignorada pelo mais comum dos observadores. Contudo, é nestas coisas que penso quando penso em romance. Não. Não ignoro a paixão, o desejo, a química, o momento. Também sonho com inesquecíveis primeiros encontros em que todas as fichas caem no seu lugar. Com a ansiedade do primeiro beijo. Com a possibilidade do não. Com as noites eternas de partilha entre dois corpos apaixonados. Com os pequenos e grandes gestos que um romance nos apresenta.

Mas são as pequenas coisas o que mais desejo. Assim o é, pois tão raras foram as vezes que as tive. O desejo não é permanente, mas sim uma constante que se apaga assim que o seu objecto é alcançado. Com isto não afirmo desejar uma vida de monótona rotina. Não. Desejo sim essa rotina, não pela sua natureza previsível, mas pela magia dos pequenos detalhes, que apenas surge quando a partilhamos com alguém.

O consolo de descobrir uma caixa de Petit Gâteaus entre os congelados quando ela já tinha desistido de procurar. Juntar os pontos para lhe oferecer aquele peluche, desistir da ideia e tentar sequestrá-lo sem ninguém ver. O bolo que fazes antes dela chegar a casa, e que acabas por deixar queimar porque não atinas com aquele forno. Aquela série que vêem ao telefone quando estão distantes. Momentos para muitos banais. Para mim, únicos. Reais. Mágicos.

É a magia do dia-a-dia. É ela que me move. É ela que mais desejo. O Amor é descoberto entre os detalhes. Nas rotinas que partilham. Nos tempos mortos. Nas conversas. No silêncio. No trabalho. Na diversão. Nos sonhos. No presente. Nas tardes aborrecidas de Domingo. No fim-de-semana prolongado em viagem. No adeus no aeroporto. No até já do pequeno-almoço. A dois. A sós. Nas palavras. No pensamento. O Amor está lá. Dia após dia. No romance da rotina.

A paixão do dia-a-dia. É ela que me move. É ela que mais desejo.

Thursday, October 16, 2014

Estrelinhas de Fátima

Estrelinhas de Fátima, Foto: Adriano Cerqueira
Algumas viagens valem, não pelo destino, mas sim por aquilo que nos espera quando lá chegamos. São os pequenos pormenores que nos movem. Que aceleram aquele primeiro passo. Que nos fazem saltar da cama, ansiosos pelo dia que temos pela frente. Uma viagem é uma companhia, um caminho, um desvio, um obstáculo, um mapa, um destino, um pormenor. Uma Estrelinha de Fátima.

Este é o primeiro Outono em nove anos cuja chegada não é sinónimo de uma nova temporada de How I Met Your Mother. Os fãs da série que, como eu, ainda estão a remoer o inesperado final que este Março nos ofereceu, recordam-se das longas viagens ininterruptas de Ted e Marshall até Chicago, com o único objectivo de comerem uma Pizza do Gazolla’s.

Uma Pizza não muito diferente de uma outra qualquer, que, no momento a seguir à provarem, fá-los questionar se aquela longa viagem teria valido a pena. Contudo, eles continuam a lá regressar, ano após ano, pelo mesmo motivo. Não o fazem pela Pizza, mas sim pela viagem, pelos momentos que partilham, pelas memórias que cimentam a sua amizade, e pelas inevitáveis peripécias que acabam por colorir o seu percurso.

Todos temos a nossa Pizza do Gazolla’s. Seja ela a melhor francesinha, o Hambúrguer gigante, aquele restaurante Mexicano, ou aquele bolo de chocolate que não mais conseguiste replicar. Para mim, são as Estrelinhas de Fátima da pastelaria Milano. Esta está longe de ser a primeira vez que escrevo sobre elas. Talvez o faça pelas memórias de infância que as acompanham, pelas histórias que trazem envoltas em cada pedaço deste pequeno doce de ovos com amêndoa e açúcar, ou pelo inigualável sabor que lhes é tão característico.

O misticismo em volta desta quase desconhecida iguaria é reforçado, em parte, pela sua raridade. Especialidade única desta pequena pastelaria, são elas também espécies ameaçadas, cuja subsistência irá depender da longevidade deste estabelecimento, da qualidade da sua confecção e da receita, aí guardada em segredo.

Desde pequeno que Fátima é sinónimo de Estrelinhas. Bom, Estrelinhas e Pegadas de Dinossauro, mas isso é outra história. Todos os anos ansiava pela habitual viagem até ao Santuário com o único propósito de as provar. A longa e cansativa viagem, e o tédio inconsequente do dia era compensado por os pequenos momentos de prazer que este pequeno pormenor me proporcionava.

Trazia sempre algumas para casa, mas dada a natureza deste doce, o melhor é mesmo comer na hora. Esta semana tive a sorte de me oferecerem algumas. Há já alguns anos que lá não regresso, e nas poucas vezes que o fiz, nem sempre encontrei a pastelaria aberta, ou então perdi-me à sua procura.

Começo a perceber que as Estrelinhas de Fátima têm uma vontade própria e que nem sempre se deixam revelar. Nem sempre uma viagem tem o sucesso de nos levar até ao destino que tanto desejávamos, mas, por vezes, esse resultado é aquele que mais precisávamos naquele momento.

Vejo quase como uma missão a necessidade de as divulgar. De tornar este desconhecido deleite popular entre aqueles que apreciam a boa gastronomia portuguesa. Contudo, temo também pela banalização de algo que me é tão próximo, e tão valioso. Pois, pudesse eu comer uma Estrelinha todos os dias e talvez a ignorasse, como faço com os Pastéis de Nata, e vulgares croissants.

A viagem, a raridade, o misticismo, o sabor, as memórias, a sua História. São estas coisas que fazem as Estrelinhas de Fátima únicas. São estes pormenores que fazem delas especiais. É tudo isto que me faz escrever sobre elas. É tudo isto que faz com que elas valham a pena.

Se passarem por Fátima, seja em peregrinação, ou apenas de passagem, dêem um salto até à Pastelaria Milano. Provem. Saboreiem. Julguem-nas de vossa justiça, e sigam o vosso caminho. Seja ele qual for, até às vossas Estrelinhas particulares. Já as minhas, encontram-se aí. Apenas aí.

Wednesday, September 24, 2014

A Bicicleta Cinzenta

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Ainda sinto nas minhas costas o calor daquela tarde de Julho. Era 2005 e estava ansioso para estrear a minha nova bicicleta. Saí de casa pouco depois das duas da tarde. Partia em direcção à Torreira com pouca, para não dizer nenhuma, noção da distância que me separava do meu destino. Lancei-me à estrada com alguma água, mas sem protecção do Sol, e com uma roupa inadequada para este trajecto.

Comprei a minha bicicleta numa superfície comercial que entretanto fechou e voltou a abrir. Na altura, em vez de uma livraria, o espaço era ocupado por uma loja de electrodomésticos. Tinha um pequeno orçamento e estava disposto a poupar o máximo possível. Tinha apenas duas opções, uma bicicleta de montanha básica, cinzenta, e outra em tons de vermelho com suspensões nas rodas da frente e ligeiramente mais cara. Nenhuma das duas era adequada para andar na estrada, mas estava longe de poder investir numa que o fosse.

Acabei por escolher a cinzenta, e usei o dinheiro que me restou para comprar um DVD, uma edição especial de um dos meus filmes preferidos. Aguardei alguns dias antes de fazer a sua viagem inaugural. Podia ter escolhido um trajecto mais simples, e mais curto, mas não o fiz. Podia ter ido à praia, ou apenas passeado pelo centro. Não. Escolhi fazer um percurso de vinte quilómetros, sem qualquer preparação, e durante as horas de pior calor. Era, claramente, um adolescente imprudente.

Até à rotunda que ligava à estrada da Ria, o meu percurso apresentou-se banal e sem qualquer incidente. Ou não o tivesse já feito incontáveis vezes ao longo da minha vida. Mas os cerca de cinco quilómetros que separam aquela rotunda da minha casa, em nada faziam adivinhar o que viria a seguir. Três quartos de um caminho ainda por percorrer, repletos de longas rectas infinitas, com pouca ou nenhuma sombra onde me abrigar, acolhidas por um calor infernal, apenas apaziguado pela ligeira brisa que atravessava as calmas águas da Ria.

A cada pedal que dava, parecia estar mais longe do meu destino. O cansaço não tardou a tomar conta de mim. Foram incontáveis as paragens que fiz, ora para beber água, ora para me abrigar do Sol e do calor que queimava as minhas costas. Lembro-me das dores. Lembro-me do meu respirar ofegante, lembro-me da motivação que me fez continuar até à Torreira, apenas para voltar e repetir de novo, todo o mesmo caminho.

Foi um erro que não voltei a cometer. E uma bicicleta que durante muito tempo permaneceu parada. Nos tempos que se seguiram apenas a usava para me levar até ao liceu, ou para dar alguns passeios, acompanhado por um novo velho CD que ansiava por ouvir. Da garagem, passou para os arrumos abertos do quintal. Durante mais um Inverno húmido e rigoroso, nada a protegeu das intempéries, além do pequeno telhado que a cobria. Reencontrei-a no Verão de 2007, enferrujada e com um pedal que cedo não tardou em se partir. Nada fiz para me livrar da ferrugem, mas troquei a corrente, arranjei o pedal e enchi os pneus.

Nesse, e nos Verões que se seguiram, comecei a viajar de bicicleta com alguns amigos. Saímos cedo de casa, enquanto ainda não estava um calor impeditivo. Escolhíamos um destino e íamos até lá. Fosse pelos lamaçais da Marinha, pelas subidas e matas de São João, ou pela Ria, na mesma estrada onde em 2005 me aventurei. Uma tradição que permaneceu intacta até 2010. Até à nossa última longa viagem entre Ovar e São Jacinto.

Não foi o calor, nem as suas queimaduras. Não foi o pedal partido do Luís, nem a ferida na perna do Paulo depois de eu ter chocado com ele. Não foi o cansaço, nem aquela terrível subida do Calvário que, no regresso, parecia mais alta que a Serra da Estrela. Nem tão pouco foi a falta de vontade, ou de tempo. Simplesmente deixou de acontecer.

Não mais voltei a pegar na minha bicicleta. Com os pneus furados, uma nova camada de ferrugem, e a impossibilidade de trocar de mudanças, ela é hoje nada mais que uma velha recordação, ainda guardada à espera de um local onde possa descansar eternamente.

Há quatro anos que sonho em comprar uma nova. Estando mesmo disposto a investir mais um pouco, para ter uma bicicleta adequada ao uso que lhe quero dar. Contudo, ainda não aconteceu, nem tão pouco o farei durante este Verão. Uma velha tradição que, para já, continua o seu interregno, com data ainda por definir.

Hoje, mais do que nunca, quero muito andar na minha bicicleta.

Friday, August 08, 2014

Melodias pela Calçada

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I poured my booze all down the kitchen drain,

And watched my bad habits get flushed away.

I thought that, that would keep my head on straight,

And all my pain would be in yesterday.
Coffee & Cigarettes, Michelle Featherstone

Há músicas que parecem ser escritas a pensar em nós. Guardadas em segredo por privados locais distantes, à escuta, sempre à espreita, daquele momento. Do momento que se revelam. Do momento que se apresentam para nós. Do momento onde tudo faz sentido. A letra. O tom. A forma como ela nos toca num lugar profundo que, sem saber, desejávamos desbloquear.

Uso a música e sou usado por ela. Como fonte de inspiração. Como espírito de motivação. Aquele incentivo extra que me move para agir, para terminar aquele exercício em alta, para escrever, para tomar decisões, para acreditar, para determinar, para valorizar. Uso a música e sou usado por ela.

Mas, por vezes, uma música deixa de ser um instrumento para atingir um fim, uma ferramenta de memória, ou uma esponja de silêncio. Por vezes, uma música toca-nos tão profundamente que parece apenas cumprir o seu propósito no momento em que se dá a conhecer. Como se um cósmico compositor a tivesse preparado especialmente para a banda sonora da nossa vida. Misturada por um caprichoso editor de som, com um excelente sentido de timing.

No guião do nosso breve caminho, quem o escreveu, previa nas suas anotações o vislumbre necessário desta melodia, desta letra, no preciso instante em que seria mais necessária. E assim foi, assim é, assim sempre parece. Guardo para mim, em memórias ainda recentes, o momento que descobri a música que não evitei citar antes mesmo de começar a escrever.

Estava entediado, numa pacata tarde de Domingo. Procurava por algum sentido, por algo novo entre os meandros da rede invisível que nos une. Ouvia pela enésima vez a Careful, da Michelle Featherstone, uma cantora discreta, cuja obra é apenas conhecida pelo seu contributo em séries e filmes com um certo nível de popularidade. Ouvia esta música há alguns meses, revia-me nela com o desejo que esta fosse o espelho de alguém que não eu, capaz de me ver de idêntica forma àquela que a letra ilustrava.

Nada sentia, apenas mais uma passagem por uma terra que já bem conhecia, e cujos encantos já nenhum segredo guardavam. Decidi explorar algumas das recomendações. Muitas, lugares comuns que me habituei a ignorar, outras, com pouco ou nenhum sentido para ali figurarem. Contudo, a mesma continuava a surgir. Escolha após escolha. Música atrás de música. A mesma sugestão surgia naquele canto. Como que uma novidade, colocada em destaque para ser promovida.

Cedi, e carreguei para a ouvir. A letra prendeu-me no primeiro segundo. Todo o universo que me rodeava passou para segundo plano. O barulho apagou-se em silêncio, as cores, as formas, os objectos, as pessoas, não passavam de um bokeh desfocado. Apenas eu e a música existíamos naquele instante. Corri para o quarto para a ouvir na minha aparelhagem, e replicar por entre as paredes da minha casa aquele momento.

Devo-a ter ouvido não mais que três ou quatro vezes naquele dia. Mas pareceu-me como se nenhum outro som tivesse ocupado a minha mente naquele dia. Aquela era a música que tinha de ouvir. A música que precisava de ouvir. A percepção que devia receber. A realização que faltava compreender.

Há músicas que parecem ser escritas a pensar em nós. Aguardam no nosso caminho. Aguardam pelo momento que nos sentimos prontos para as ouvir. Aguardam por aquele segundo cuja sua melodia, vibra em sintonia com o ritmo do nosso ser, com a amplitude da nossa alma. A música é uma constante do nosso dia. Um fundo que apaga o silêncio. Um sentimento. Uma distracção. Um vício impossível de quebrar. A música é arte. A música é aquele passo que nos move para despertar.

A música é eterna. A música, apenas é.

Monday, July 14, 2014

O Lego Amarelo

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O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…

Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”

Há dias que acordamos com um profundo sorriso a iluminar a nossa manhã. O sol brilha através da janela, deixamo-nos envolver pelo seu calor, e por uma energia indescritível que nos move para sair da cama. Dias em tudo idênticos a um outro qualquer, mas que nos abraçam por uma onda imparável de optimismo.

O nosso andar ganha um ligeiro toque de dança, a nossa face transpira confiança, e as pessoas com quem nos cruzamos não conseguem deixar de esboçar um sorriso, ou de nos abordar com um alegre “bom dia”.

Para mim, um desses dias aconteceu a nove de Janeiro. Uma quinta-feira como qualquer outra. Talvez movido pelo entusiasmo e pela ansiedade da viagem que ia fazer no dia seguinte. Talvez apenas por se tratar de uma manhã calma banhada por um morno Sol de Inverno. Acordei envolvido por uma forte e constante brisa de energias positivas. Um sentimento reflexo na minha face, e na de todos aqueles que se cruzaram no meu caminho.

Todas as manhãs desloco-me a pé para o trabalho. Um percurso que me demora entre quinze a vinte minutos. Há já alguns meses que comecei a ir pelo caminho mais directo, em constante descida, evitando assim a preguiça de aguardar pelo elevador de Santo André.

Embora o elevador me permita vislumbrar parte da paisagem da Serra, prefiro fazer o outro caminho. Escondido por entre algumas vielas em paralelo, esta rua pouco conhecida e quase inacessível para os carros, é um atalho que me oferece um ligeiro conforto no meu rotineiro destino matinal.

Guardado por um mural pintado com uma representação da cidade, envolto por umas esguias escadas que contornam uma capela em granito, este caminho leva-me pelas traseiras de uma despida Galeria Comercial. Ao lado da mesma, quase no fim da rua, encontro uma escola.

Pelas vozes agudas, pelos cânticos e risos de crianças, que nunca vejo, presumo que se trate de uma Escola Primária, algo camuflada por entre os edifícios desta escarpa. Nessa manhã, não me recordo de ouvir o típico alvoroço das brincadeiras de recreio, nem tão pouco dos alegres desconhecidos que se cruzaram comigo. Mas houve um pequeno pormenor que chamou a minha atenção.

Por entre a rua de paralelos, a brilhar através dos interstícios do granito, estava uma peça de Lego. Um pequeno tijolo amarelo de quatro encaixes. Uma das peças mais comuns que podemos encontrar. Parei para o observar. Estava sujo e um pouco gasto numa das faces, mas fora isso, era perfeito.

Olhei em volta para ver se encontrava a criança a quem aquela peça pertencia, mas estava só naquela viela. Pelo acumular de detritos à sua volta, fiquei com a sensação que este Lego já ali se encontrava há alguns dias. Limpei-o e trouxe-o comigo.

Não me lembro de mais nada sobre o resto do dia. Apenas aquele momento guardo com o máximo de pormenor. Esta quinta-feira, pela simples onda de optimismo que me despertou, tinha já para si reservado um espaço nas minhas memórias. Mas este pequeno pormenor. Este momento que quase me passou ao lado, tivesse eu escolhido ir pelo elevador, fez com que lhe desse o nome do “dia em que encontrei um Lego amarelo”.

Hoje guardo-o no meu quarto, juntamente com outros objectos recheados de simbolismo. São curiosas as coisas que se cruzam no nosso caminho. De tão efémeras passagens, que o mais minúsculo pormenor nos pode desviar do seu encontro.

O anúncio de emprego que encontramos no twitter. As pessoas que conhecemos quando não queríamos sair de casa. Um “olá” dividido por entre umas escadas passageiras. O avião perdido. O encontro adiado. A peça de Lego que encontramos no chão.

Coincidências. Destino. Caos. A beleza do acaso que aprendemos a apreciar quando olhamos à nossa volta, e encaramos o imprevisto que o dia nos tem para oferecer.

Thursday, June 05, 2014

O Quiosque da minha Praça

Quiosque Santa Camarão, Ovar
O que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância.
Eça de Queirós

As cidades são ecossistemas vivos em constante mutação. Evoluem, adaptam-se, crescem, e transformam-se. Adequam-se às necessidades da sua população, e da tecnologia que a sustenta. Moldam a geografia dos seus arredores, e convivem em simbiose com a caótica azáfama do dia-a-dia.

Contudo, este desenvolvimento nem sempre é sinónimo de melhoria. Como acontece com a própria Natureza, também a evolução urbana está repleta de exemplos de tentativas falhadas, de projectos inacabados, de ramos extintos, e de mutações erráticas que provaram ser fatais.

Ao longo da nossa vida, assistimos a diversas mudanças em edifícios e locais que, em tempos, nos pareciam constantes, imutáveis, e eternos. A escola que fechou, o parque infantil que deu lugar a um grupo de condomínios, ou a praça que em tempos verdejante, agora não passa de um largo cinzento.

Para mim, um desses locais é um velho quiosque de madeira que há muito deixou de existir. Lembro-me dos finais de tarde de Primavera com o Sol a brilhar nos raios das rodas da minha bicicleta. Rasgos de calor que envolviam os nossos pés, cansados de um longo dia passado na escola.

Passava por aquele quiosque todos os dias. Sempre à distância, fora o ocasional impulso de comprar cromos, guloseimas, ou se alguma colecção me aliciasse a curiosidade. Mesmo assim, ainda era um dos seus clientes mais assíduos.

As suas janelas não precisavam de estar abertas, o simples facto da sua fundação permanecer ali, dava outra alma àquela praça. Era também ele parte da personalidade daquele local. Um ícone constante do caminho que todos os dias fazia entre a minha casa e a escola.

Infelizmente, também ele foi vítima do tempo. A desculpa podia ser a do costume. Ter um quiosque é um negócio arriscado e muito pouco lucrativo, não seria estranho para ninguém que este acabasse por fechar. Contudo, não foi este o motivo que ditou a sua extinção, mas sim a construção de uma estátua.

Diz-se que é uma espécie de estátua. Na verdade, não passa de um mural dedicado a um pugilista em tempos com fama mundial, que, por acaso, vivia naquela mesma praça. O quiosque foi demolido para dar lugar a essa obra, que peca por ser feia, pela sua degradação, e por não se enquadrar com o espaço que a envolve.

Aquela praça que em tempos era visitada por pessoas desejosas de comprar o seu jornal, é agora um espaço esquecido. Uma cápsula do tempo, em perpétua deterioração. Do quiosque apenas restam algumas marcas na calçada. Fora a dita estátua, apenas um velho crucifixo e o esqueleto de uma cabine telefónica decoram o local, rodeado por árvores e alguns lugares de estacionamento.

Sempre que por lá passo, deixo-me envolver por um profundo sentimento de saudade, e de raiva pela falta de visão que tiveram. Ainda havia espaço para manterem lá o quiosque. Este podia ter sido transformado numa esplanada. A praça podia ainda hoje respirar com vida.

Em vez disso, ela é agora um espaço desolado, esquecido, uma sombra daquilo que já foi.

A evolução das cidades traz com ela muitas coisas positivas. Escolas, hospitais, parques urbanos, centros culturais, melhores acessos, e novos espaços de convívio, e de recriação. Contudo, o crescimento urbano não pode esquecer a identidade dos locais. Deve sim, ser feito com estratégias de reabilitação e com objectivos que possibilitem dar uma nova vida ao local.

Como esta, há muitas praças iguais. Não deixem que estas se percam nas memórias dos seus habitantes, dêem-lhe cor, animem-nas, inovem e enriqueçam-nas. Nas ruínas de um quiosque perdido, construam novas recordações.

Tuesday, April 29, 2014

Mousse de Chocolate

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In the sweetness of friendship let there be laughter, and sharing of pleasures. For in the dew of little things the heart finds its morning and is refreshed.

Khalil Gibran 

Todos os dias tento sair um pouco mais cedo para almoçar. Faço isto, não porque dois minutos fazem toda a diferença no que toca a apanhar, ou não, uma fila considerável na cantina, mas sim porque, quanto mais tarde for, maiores são as probabilidades da mousse de chocolate já se ter esgotado.

Esta pequena sobremesa faz toda a diferença no meu dia. É melhor que a maioria das mousses de confecção rápida, apesar de ficar algo aquém das mousses caseiras. Algumas pessoas podem mesmo achá-la banal. Contudo, para mim, não existe comparação entre comer gelatina ou papas de carolo, e mousse de chocolate.

Sofro de uma certa desilusão sempre que chego ao final da fila, apenas para encontrar uma gelatina, ou uma salada de fruta à minha espera. Algo que insiste em acontecer há já algumas semanas. Podia simplesmente desistir de sonhar com a tão elusiva mousse. Podia fazê-la em casa, e deliciar-me sempre que o apetite por ela chamasse. Mas não seria a mesma coisa.

O pequeno indescritível prazer de encontrar uma mousse de chocolate no final da fila do almoço, pode alterar por completo as minhas expectativas para o resto do dia. Ou, simplesmente, oferecer uma diversão das profundas questões que assolam um dia menos solarengo.

A felicidade não depende apenas de uma mousse de chocolate. Estivesse ela disponível todos os dias, e não passaria de mais uma banalidade como a gelatina, ou o arroz que insiste em acompanhar todos os pratos daquela cantina. São os pequenos pormenores, os raros detalhes, que surgem de ocasião em ocasião, e sem aviso prévio, que desenham a beleza do nosso dia. São estas pequenas coisas que dão cor à Vida.

Fosse a mousse banal, e também ela sofreria de incompreensíveis sentimentos de abandono e desprezo. Eternamente condenada a aguardar sob a vitrina. Ansiosa pelo dia em que alguém a escolheria para compor o seu prato. Afinal, “se fosse a mousse também gostaria de ser comida”.

A mousse de chocolate, um olhar de profunda compreensão, o raio de sol matinal que acaricia a tua pele, o último pacote de chicletes de banana, um sorriso inesperado, o lugar livre à porta de casa, um beijo roubado. Momentos. Pormenores. Pequenas coisas que alimentam a nossa alma. Detalhes que nos definem. Enormes réstias de esperança.

A música aleatória que tão bem acompanha um certo instante. A fala de um filme na qual te revês. A palavra que acabaste de descobrir e que aparece em toda a parte. A frase inspiradora que resume todo o teu dia. A mão que te reconforta sem nada pedires. O abraço sentido que não queres largar.

Momentos, em nada diferentes da mousse de chocolate que teimo em perder.

Dêem valor às pequenas coisas. Mantenham um olho atento aos detalhes que alegram o vosso dia-a-dia. Construam a vossa essência, um pormenor de cada vez. E felicitem-se com uma mousse, para celebrar cada sentimento de dever cumprido.

“O sucesso é a soma de pequenos esforços, repetidos dia sim, e no outro dia também”, Robert Collier.