Monday, January 29, 2024

Do Supercontinente Dominado por Dinossauros ao Movimento das Placas Tectónicas

Ilustração de Ricardo Galvão

Quando olhamos para um mapa, o nosso primeiro instinto passa por encontrar o nosso país ou a nossa cidade. Se estivermos com vontade de viajar, talvez paremos para traçar a distância entre a nossa casa e o próximo destino de férias. Mas, se nos afastarmos um pouco e começarmos a observar o traçado de cada continente, começamos a ver algumas semelhanças.

A mais óbvia é a forma como a costa da América do Sul parece encaixar perfeitamente com a costa africana. Como duas peças de um puzzle à escala continental.

Mais estranha esta coincidência fica quando descemos ao terreno e encontramos estruturas geológicas, como vales e montanhas, que parecem ter sido partidos ao meio pela separação destas duas massas continentais.

Para além disso, quando escavamos o solo, encontramos rochas e fósseis idênticos em ambas as margens dos continentes.

Atualmente, sabemos que isto acontece porque África e América do Sul fizeram parte de um supercontinente chamado Gondwana, juntamente com Madagáscar, com o subcontinente indiano, com a Austrália e com a Antártida.

Este supercontinente começou a separar‐se há cerca de 140 milhões de anos, num mundo ainda dominado por dinossauros. E, muito antes disso, a própria Gondwana tinha‐se já separado de outro supercontinente, conhecido por Pangeia que, para além da Gondwana, era composto também pelas massas continentais que um dia viríamos a chamar de Europa, Ásia e América do Norte.

O movimento dos continentes e das placas oceânicas é hoje conhecido por tectónica de placas. Um fenómeno que moldou a superfície da Terra desde há 3,4 mil milhões de anos e que continua ativo ainda hoje.

Placas Tectónicas

Se cortarem uma cebola ao meio, podem ver que esta é feita por camadas que se diferenciam a partir de um núcleo central. E, tal como acontece com a cebola, também o nosso planeta está dividido em camadas.

A camada que vai desde a superfície até uma profundidade entre os 40 e os 70 quilómetros é conhecida por crosta. A crosta é constituída maioritariamente por rocha sólida e tem uma espessura que pode variar entre os 5 e os 70 quilómetros.

A parte mais fina da crosta terrestre pode ser encontrada na bacia oceânica. Esta é composta essencialmente por basalto, uma rocha vulcânica, e tem uma espessura que varia entre os 5 e os 10 quilómetros.

Por baixo da crosta está o manto. O manto é a camada mais espessa da estrutura terrestre, atingindo uma profundidade de 2900 quilómetros. Esta camada está, na verdade, dividida em duas, o manto superior e o manto inferior, separados por uma zona de transição.

O manto é composto por minerais de silicatos ricos em ferro e magnésio que, por ação da pressão e das temperaturas elevadas, adquire uma viscosidade que lhe confere propriedades próximas às de um líquido.

A viscosidade destas rochas faz com que elas se movam em correntes de convecção entre o limite do núcleo e a crosta. O material mais quente sobe enquanto o material mais frio se afunda.

O movimento destas correntes tem um papel fundamental na tectónica de placas, permitindo que estas se movam.

A seguir ao manto encontramos o núcleo. Este está dividido em duas regiões, o núcleo externo e o núcleo interno. O núcleo externo é uma camada líquida composta essencialmente por ferro e níquel e situa‐se entre os 2900 e os 5150 quilómetros de profundidade.

O núcleo interno está a 6371 quilómetros de profundidade e é onde, por fim, chegamos ao centro da Terra. Mas, em vez de uma praia paradisíaca com dinossauros e homens primitivos, o núcleo interno da Terra é na verdade uma camada sólida com 70% do tamanho da Lua composta por uma liga de ferro e níquel. Esta camada tem uma temperatura média próxima da da superfície do Sol, atingindo os 5430 °C.

De regresso à superfície, para explicar a tectónica de placas primeiro precisamos de compreender a natureza da litosfera e da astenosfera.

A litosfera é a camada sólida mais exterior do nosso planeta e é composta pela crosta e pela parte superior do manto, podendo atingir os 100 quilómetros de profundidade. Já a astenosfera é a zona superior do manto terrestre, localizada entre os 80 e os 200 quilómetros de profundidade.

É na litosfera que encontramos as placas tectónicas que assentam e interagem diretamente com a astenosfera.

Como a astenosfera é uma camada menos rígida que a litosfera, esta permite que as placas tectónicas se movimentem sobre si. Isto faz da astenosfera uma camada fundamental para a movimentação horizontal e vertical das placas tectónicas.

Como se lembram, este movimento é alimentado pelas correntes de convecção entre o manto e a crosta terreste.


Wednesday, July 04, 2012

Grafeno: Potencial na Ponta de Um Lápis

Imagem: Folha de Grafeno
Supercondutores, supercapacitadores e nanotecnologia, são alguns exemplos das possíveis aplicações deste derivado da grafite. Descoberto por Hanns-Peter Boehm em 1962, o grafeno é uma folha plana de átomos de carbono densamente compactados. Considerado um dos materiais mais resistentes até hoje descobertos, este compósito de carbono permite a construção de nanoestruturas com um elevado valor de condutividade e de capacitação de energia.

Por outras palavras, o grafeno permite o desenvolvimento de processadores mais rápidos e compactos, e de baterias de longa duração com aplicações nas áreas da informática, electrónica, na distribuição e armazenamento de energia e no aumento da autonomia dos veículos eléctricos. A investigação desenvolvida no âmbito destras aplicações valeu em 2010 o Prémio Nobel da Física aos cientistas de origem russa Konstantin Novoselov e Andre Geim.

O mais curioso sobre este material é a sua simplicidade. Composto apenas por átomos de carbono, o principal elemento estruturante de toda a vida na Terra, pode ser desenvolvido a partir da grafite, um mineral comum usado em lápis, sim, lápis. Todos os lápis que alguma vez usaram ao longo da vossa vida eram feitos de grafite.

Este mineral constituído apenas por átomos de carbono é, na sua base molecular, muito similar aos diamantes, também estes compostos apenas por carbono. Considerados como as maiores moléculas existentes, os diamantes apenas diferem da grafite na sua ligação entre as várias camadas de carbono. De facto, a própria grafite pode ser transformada em diamantes. Para isso, basta submete-la a pressões e temperaturas elevadas, semelhantes àquelas pelas quais os diamantes passaram nos 3,3 mil milhões de anos que demoraram a ser criados. Sim, esse pedaço de “gelo” que têm no vosso anel de noivado é quase tão antigo como a própria vida – estima-se que os primeiros indícios de vida no nosso planeta remontam à 3,65 mil milhões de anos atrás.

Embora já tenham sido criados diamantes em laboratório através de grafite, não comecem a coleccionar os lápis que têm perdidos lá em casa, pois embora à primeira vista estes falsos diamantes não aparentem ser diferentes das suas cópias reais, têm um valor de mercado insignificante e não passam despercebidos ao mais comum dos ourives. 

Sendo o grafeno um dos principais materiais do futuro, as suas aplicações não se resumem apenas às áreas do processamento e da energia. O desenvolvimento de nanotecnologia com base em grafeno permite que este tenha aplicações em biotecnologia, saúde e ciências biomédicas. Está inclusive a ser desenvolvido no Instituto Superior Técnico (IST) de Lisboa um projecto que potencia o uso de nanotecnologia na distribuição de medicamentos pelo organismo e na detecção de células cancerígenas.

Todo um universo de novas descobertas e desenvolvimento tecnológico em potencial, resguardado ao longo dos séculos na ponta de um simples lápis.

Tuesday, November 08, 2011

Se o Mundo Acabar Hoje?

Asteróide 2005 YU55, Foto DR
Por volta das 23h30 desta noite o asteróide 2005 YU55, com 400 metros de diâmetro, vai rasar a Terra a uma distância de 324.600 quilómetros, distância menor que a que separa a Lua do nosso planeta (384.000 km). Embora esta notícia não seja alvo de uma forte cobertura mediática, despertou em alguns cépticos um certo sentimento de apreensão, impulsionado por um alegado teste das transmissões de emergência dos media norte-americanos, que a FEMA (Federal Emergency Management Agency) tem programado precisamente para hoje.

Apesar deste sentimento não passar de uma preocupação desmedida, refutada pela comunidade astronómica mundial, não deixa de ser interessante ponderar sobre as eventuais consequências do impacto de um asteróide de grandes proporções no nosso planeta. Nestas situações é comum referir-se o asteróide de 10 km de diâmetro que caiu na Península do Yucatan (México) há cerca de 65 milhões de anos atrás, até hoje indicado como um dos principais responsáveis pela extinção dos dinossauros.

O que aconteceria então se o 2005 YU55 atingisse a Terra? Embora não tenha tamanho suficiente para causar um Evento de Nível de Extinção como aquele que caiu no México no final do período Cretácico, seria capaz de causar elevados estragos a uma escala global, dependendo da zona que fosse atingida.

Com fortes probabilidades de colidir numa zona marítima, visto o nosso planeta ser 70% coberto por água, causaria enormes tsunamis capazes de arrasar países inteiros, fazendo desaparecer linhas costeiras por completo. Mesmo regiões mais interiores a largas dezenas de quilómetros da zona de rebentação seriam afectadas pela fúria das águas.

Um impacto em terra teria resultados catastróficos, capaz de destruir uma região inteira e arrasar cidades, tornando inabitável toda a zona em volta. Mas as consequências em curto prazo não são nada em comparação com aquilo que a Humanidade teria que viver a seguir. Dependendo da zona atingida pelo asteróide, são diversas as consequências a longo prazo para a vida no nosso planeta.

Desde uma camada de poeira fina a cobrir a nossa atmosfera durante anos, a extensos invernos nucleares, causados por um abrupto aumento do efeito de estufa, nenhum cenário abonaria qualquer tipo de esperança para a manutenção do nosso nível de vida actual. Às incontáveis mortes causadas por fome, doença e exposição ao frio, há que acrescentar o racionamento de água e alimentos e a supressão de muitos dos direitos de uma sociedade democrática.

Como iria reagir a Humanidade a esta situação? Veríamos a luta pela repartição de recursos incrementar os conflitos entre os países? Seríamos solidários uns com os outros? Estaríamos prontos para dar a mão ao próximo sem nos preocuparmos connosco? Felizmente, não teremos que responder a estas perguntas tão cedo. Contudo, não deixa de ser irónico que embora sejamos mais evoluídos tecnologicamente que os nossos antepassados, continuamos a ser tão ou mais vulneráveis que os dinossauros quando confrontados com os desígnios do Universo.

Se o Mundo acabar hoje? A única certeza que temos é que por mais informados que estejamos nada nos poderá preparar para uma catástrofe de tamanhas proporções.

Para mais Informações:
What Would Happen if Asteroid 2005 YU55 Hit Earth?

Tuesday, June 14, 2011

A Rede Desligada

Nos últimos anos raras foram as vezes que, por um motivo ou outro, estive sem acesso à internet por um longo período de tempo. Há cerca de um ano o meu portátil avariou, como na altura não tinha outro computador em casa, nem sequer um smartphone, não tive remédio se não resignar-me ao período de espera para reparação que durou à volta de um mês.

Infelizmente, limitar-me a ficar desligado não é um luxo com o qual me possa deleitar. Era Março e o segundo semestre tinha apenas começado. Não fosse por algumas propostas de projectos e pouco ou nada havia para fazer. Pedi ajuda a um amigo para me deixar ir a sua casa usar a internet para responder a alguns e-mails, e para enviar as propostas. Como fazia isto cerca de duas vezes por semana não posso dizer que estive completamente “desligado” durante esse tempo.

Na ausência de um computador, agravando a isto o facto de estar doente, encontrei algum reconforto na televisão. Descobri algumas séries novas e revi outras que há muito tinha deixado de ver. Permaneci atento ao telejornal, praticamente o único programa televisivo que acompanho diariamente quando não tenho qualquer problema em aceder à internet, portanto, não estava mesmo nada desligado, talvez apenas um pouco fora do alcance daqueles que não tivessem o meu número de telefone.

Em 2013, talvez não seja assim. Segundo este artigo, a frequência de explosões solares vai aumentar a um nível que já não é visto desde 1859. Na altura as comunicações por via de telégrafo foram gravemente afectadas ao ponto de serem necessários longos meses até estas voltarem a funcionar.

Isto foi no século XIX onde, em comparação com a tecnologia de hoje em dia, éramos bem mais primitivos. Em 2013, se o pior cenário se vier a realizar, podemos estar perante um verdadeiro “switch off” à escala global. Não ficaremos apenas sem internet, mas os computadores, telemóveis, televisores, electrodomésticos e carros podem irremediavelmente deixar de funcionar.

Todo e qualquer aparelho maioritariamente electrónico corre sérios riscos de ficar inutilizado devido à alta intensidade de radiação solar que vai passar pelo nosso planeta, aliada aos eventuais pulsos electromagnéticos, conhecidos por serem capazes de deixar uma grande cidade às escuras em meros segundos.

Sem querer soar como um profeta do apocalipse, a verdade é que a possibilidade deste evento acontecer é algo que nos devia preocupar. Nos cenários mais optimistas, talvez apenas acabemos por sofrer algumas quebras de energia sem que delas surjam grandes complicações. Contudo, é importante olhar para nós próprios e reflectir sobre como seremos capazes de “sobreviver” sem estarmos constantemente ligados à rede.

O Mundo iria literalmente parar e, durante alguns meses, teríamos que nos reabituar a viver sem o auxílio da tecnologia. Os contactos teriam que ser feitos pessoalmente, por escrito, ou através de telefones fixos, a rádio iria substituir a internet como a principal fonte de informação imediata, a televisão teria que regressar ao analógico, os pagamentos teriam que ser sempre feitos em dinheiro e muitos carros e transportes públicos deixariam de funcionar. Outros problemas a nível do funcionamento dos serviços de saúde, registos bancários, e de comunicação com os serviços de segurança e de emergência, também marcariam esta nova sociedade inadaptada a uma vida mais “real”.

Estaremos assim tão dependentes da tecnologia que o único resultado de um switch off não programado seria o pânico geral? Gostava de acreditar que não, mas a verdade é que tudo aponta em contrário. Mas talvez nem tudo seja negativo. A falta de internet e televisão poderá incentivar as pessoas a ler e a sair de casa, a enriquecerem-se cultural e intelectualmente após se verem livres da constante amálgama de informação indecifrável que a cada segundo estes meios lhes tentam impingir.

A verdadeira ameaça, contudo, não se prende pela falta de comunicação, mas sim no risco de perdermos a nossa memória digital. Ficheiros, documentos, blogues e sites, todos arriscam-se a ser apagados se os discos e servidores onde se encontram sofrerem mazelas irreparáveis.

Todo o arquivo deste blogue encontra-se em formato digital, assim como a maioria do meu portfólio académico e profissional. Todo o conteúdo ao qual nos últimos anos dedicámos horas, dias e meses para criar poderá desaparecer em meros segundos com pouca ou nenhuma prova da sua existência. Torna-se assim importante proteger o nosso arquivo digital e, quiçá, manter algumas cópias analógicas desse mesmo arquivo.

O tempo dirá até que ponto estamos prontos para retroceder no nosso avanço digital. Até lá, como já diziam os antigos “desligados”, a prudência é mãe da segurança.

Friday, September 18, 2009

Ciência de Dez Valores

Conhecidos os resultados de acesso ao ensino superior, a Universidade do Porto voltou a bater recordes ao conseguir uma taxa de colocação de 100% nas vagas para o ano lectivo 2009/10. Apesar destes dados, é de salientar que muitos dos cursos da Faculdade de Ciências, como Biologia, Geologia e Química, continuam a ter algumas das médias de entrada mais baixas, em alguns casos a rondar os 12 valores.

De há uns anos para cá, a tendência tem sido de uma contínua subida na procura por cursos de Ciência pura, contudo, há não muito tempo atrás não era raro alunos com média de secundário inferior a 10 conseguirem colocação simplesmente por os cursos referidos não terem preenchido as vagas. Estará esta tendência a demonstrar uma maior aposta dos portugueses na formação científica? Talvez, mas este assunto merece algumas reticências.

Os últimos anos de governo trouxeram um aumento na oferta de cursos profissionais de equivalência ao ensino secundário, contudo o antigo agrupamento Científico Natural, continua a ser o mais procurado pelos jovens que todos os anos ingressam no décimo ano de escolaridade. Como se explica então a falta de interesse por cursos de ciências? A questão parte de uma predisposição social.

A verdade é que a grande maioria dos alunos que optam pela vertente científica no secundário assim o fazem com vista a concorrerem a cursos da área da saúde. O tão afamado curso de Medicina é visto por muitos como a concretização máxima dos estudos de nível secundário, e o destino obrigatório para os melhores alunos. Um dogma português que todos os anos retira as melhores mentes académicas das áreas que mais precisam delas, como é o caso das Ciências puras.

A sobrevalorização da área da saúde no nosso país leva a que apenas aqueles com médias baixas, ou os poucos apaixonados que arriscam em seguir os seus sonhos, optem por cursos de Ciências. Este caso é paradigmático. Em países como os EUA, apenas os melhores alunos optam por seguir as Ciências teóricas, e as carreiras académicas da área da saúde acabam por ser atribuídas, em muitos casos, a alunos medianos que mais do que arranjar emprego, ou querer provar alguma coisa, procuram enveredar pelo nobre caminho de ajudar os outros.

A principal falácia dos defensores da aposta na saúde no ensino superior é a facilidade na obtenção de emprego. Ora todos os anos são formados cerca de mil médicos nas universidades portugueses, a estes juntam-se mais dois mil enfermeiros, num país com dez milhões de habitantes e com um défice de hospitais e centros de saúde, mais cedo ou mais tarde estaremos perante um mercado de saúde saturado sem capacidade para integrar as centenas de profissionais que todos os anos saem das nossas universidades.

Já nos cursos de ciências, tomando como exemplo a Geologia, todos os anos são formados entre 30 a 40 novos geólogos. Com um mercado que cada vez mais oferece emprego na área, não estará na altura de apostar nestes cursos?

Ingressar no ensino superior com o único propósito de arranjar emprego retira às universidades aquilo que elas defendem, isto é, a procura de conhecimento. Um curso superior não deve ser visto como um meio para atingir um fim, mas sim como uma plataforma de conhecimento que nos fornece as ferramentas necessárias para crescermos como pessoas e profissionais, e para entendermos melhor o mundo em que vivemos.

Ano após ano, vemos cientistas de países diferentes a receber o prémio Nobel da Química e da Física. Quando chegará a vez de Portugal? Volta e meia é digno de notícia um ou outro cientista nacional que recebeu um prémio de menor gabarito, muitas vezes por recurso à ajuda de universidades estrangeiras. Isto prova que temos qualidade, temos a base para criar os próximos vencedores de prémios Nobel, mas estamos a desperdiçá-los com falsas esperanças de trabalho fácil e de aprovação social.

É necessário investir na ciência nacional e motivar os jovens a escolherem outros caminhos. Os tempos de cursos de ciências com média de 10 valores que não chegam a preencher as vagas têm que acabar. Temos que tornar a Ciência numa área atractiva para as maiores mentes jovens que todos os anos vivem a dúvida entre seguir os seus sonhos ou optar pelo caminho mais socialmente aceitável. As peças estão na mesa. Cabe ao governo, e a cada um de nós, fazer o melhor para que o cenário do puzzle seja de um futuro de inovação e de reconhecimento científico a nível mundial.

Friday, April 27, 2007

Planeta Bob

Imagem DR
A Terra pode não ser um paraíso, mas é o nosso lar. A NASA recentemente divulgou a descoberta de um novo planeta fora do sistema solar. Este novo planeta por enquanto tem o nome de Gliese 581 b. O novo planeta recebe esta designação por orbitar a estrela Gliese 581, uma anã vermelha nas últimas etapas da sua existência.

Gliese 581 b é um entre vários planetas descobertos neste sistema, mas tem a particularidade de ser rochoso, apesar do seu tamanho ser próximo do de Neptuno, e de possuir água.

A água não é um elemento raro no espaço, normalmente surgindo no estado gasoso ou sólido, como no caso de Europa, uma das luas de Júpiter. No entanto, dados da NASA indicam que a temperatura da superfície deste planeta varia entre 0 ºC e 40 ºC, o que é suficiente para possuir água no estado líquido.

Outro facto interessante sobre este planeta é que a sua órbita é tão próxima da sua estrela, que se o colocássemos no Sistema Solar, este ultrapassaria Mercúrio, e tomaria o lugar de planeta mais próximo do Sol.

Na notícia da SIC sobre esta descoberta, é referida a incapacidade de o alcançarmos por ele se situar demasiado longe. Ainda é posta a questão desta viagem interestelar apenas ser possível se os eventuais habitantes desse planeta possuírem uma tecnologia muito mais avançada que a nossa. Mas algo me diz que não precisamos de nos preocupar com isso.

A força gravítica de um astro tão grande seria inviável para a vida como a conhecemos. Se vida inteligente se desenvolvesse, na melhor das hipóteses, seria subaquática e completamente minúscula em comparação a nós, devido às extremas forças em acção. Outro facto a ter em atenção é que a estrela deste planeta está a morrer, e as condições nesse sistema não devem ser as melhores. Já para não falar que a luz que recebemos agora tem já vários milhares de anos, por causa da longa distância que tem que percorrer.

Nós como espécie sempre demonstrámos uma certa tendência para nos aniquilarmos, e só temos esse poder há pouco mais de cem anos. Será que mil anos não seria demasiado tempo para uma civilização tão avançada sobreviver?

Até que ponto é a vida inteligente um privilégio para o Planeta? Seremos nós os únicos que não se conseguem entender entre si, ou será isto uma maldição que cai sobre toda a vida em qualquer lugar? Só uma viagem a esta nova baga azul na escuridão do espaço poderia responder a estas, e a outras perguntas.

Friday, February 16, 2007

Antepassado Comum


Um destes dias deparei-me com um documentário sobre o voo dos Pterossauros. Estes répteis voadores foram o primeiro grupo de vertebrados a desenvolver o voo, contudo, a forma como o conseguiram fazer tem intrigado os paleontólogos há muito tempo.

A parte que achei mais interessante neste documentário resume-se a um pequeno detalhe. Numa nota de mera curiosidade, um dos indivíduos diz que certos fósseis de pterossauros mostravam vestígios de penas. Isto pôs-me a pensar, e daí desenvolvi uma teoria.

Até à data, apenas dois grupos de animais são conhecidos por terem desenvolvido esta característica, as Aves e os Dinossauros. Sendo confirmada a presença de penas nos Pterossauros, isto só pode significar uma coisa: os Dinossauros e os Pterossauros partilham um antepassado comum.

Esta asserção vale de pouco, visto muitos já terem suspeitado de tal ligação. Este simples facto não é suficiente nem para apoiar esta teoria, nem para a refutar. Uma explicação simples seria que os Pterossauros desenvolveram penas por um processo de evolução convergente. Pelo mesmo motivo que os Dinossauros e as Aves o fizeram, os Pterossauros também podiam ter optado por desenvolver esta característica. No entanto, acho isto pouco provável.

Não se tratam de simples espinhos em espécies diferentes de cactos que não têm qualquer ligação genética entre eles, mas de um mecanismo de voo muito sofisticado e que para o qual seriam necessários milhões de anos de evolução.

Isto leva-me a crer que, pouco depois dos Dinossauros e dos Pterossauros se terem separado na grande árvore da evolução, estes mantiveram algumas características comuns aos seus antepassados, entre elas as penas, ou os "códigos" necessários para que estas eventualmente se desenvolvem-se.

Atendendo ao facto de que a primeira ave, a Archaeopteryx, existiu à cerca de 145 milhões de anos, podemos supor que por esta altura os Dinossauros já teriam desenvolvido penas. Se concordarmos que as Aves evoluíram directamente destes, podemos considerar a presença de penas em alguns dos Dinossauros mais primitivos.

Os primeiros Dinossauros surgiram à cerca de 250 milhões de anos, após estes se terem separado das restantes ordens de répteis existentes até à data. Os Dinossauros destacaram-se das outras espécies devido ao seu maior metabolismo, e à sua extraordinária capacidade de adaptação.

Devido aos poucos fósseis que até hoje foram encontrados, nunca foi ponderada a hipótese de Dinossauros que não os do Cretácico, terem possuído penas. Mas se olharmos para a Archaeopteryx podemos afirmar que estes podem tê-las desenvolvido no mínimo, durante o Jurássico Médio. Vou ainda mais longe e teorizo que as tenham desenvolvido pouco após a sua dispersão evolutiva por volta do Triássico Tardio.

Devido à descoberta destes fósseis de Pterossauros com penas, posso supor que a evolução das penas pode ter ocorrido bastante mais cedo do que até hoje se acreditava. Desta forma, para ambos estes grupos as possuírem, é credível que ou o seu antepassado já as possuía, ou ambos tinham a mesma programação genética pronta para ser activada.

Como a última suposição é bastante improvável, é possível imaginarmos Dinossauros tão primitivos como o Eoraptor ou o Coelophysis, com o corpo coberto de penas, ou algo muito similar a estas.

A minha teoria resume-se a supor que a evolução das penas pode ter ocorrido bastante mais cedo. Até à data apenas foram descobertos alguns fósseis de Dinossauros com penas, e a maioria destes eram espécies do Cretácico.

Espero pacientemente por algum dado que suporte a minha teoria, mas até lá fica aberta a discussão. A evolução das penas pode ter sido um processo bastante longo e demorado. Convém, contudo, não dar como garantida a informação até hoje descoberta e manter, assim, a busca incessante pelo conhecimento que um dia nos levará a um maior entendimento da evolução do voo, e das próprias Aves.