Thursday, August 06, 2020

Como emitir um acto isolado?

Se ao longo da vossa carreira profissional já emitiram um recibo verde, este processo é em tudo similar. Qual é então a vantagem de emitir um acto isolado, também conhecido como acto único, em vez de um recibo verde?

Os actos isolados são usados para tarefas ou projectos pontuais com uma única entidade e, ao contrário dos recibos verdes, não exigem que a pessoa tenha actividade aberta no portal das finanças.

Algumas fontes indicam que é possível emitir mais que um acto isolado por ano, desde que estes sejam realizados com empresas diferentes. No entanto, o mais seguro é recorrer a este recurso apenas uma vez durante o vosso ano fiscal.

Se tiverem mais que uma actividade extra prevista para trabalhos complementares ao vosso emprego oficial durante um determinado ano, o melhor será recorrer aos recebidos verdes.

O processo de emissão de um acto isolado é relativamente simples, sendo hoje possível realizá-lo online através do portal das finanças.

Antes de iniciarem o processo, devem primeiro negociar com a empresa o valor a ser pago. Os actos isolados carecem de pagamento do IVA à taxa normal, mediante algumas excepções. Por isso, devem incluir sempre na vossa proposta de orçamento o valor total com o IVA discriminado.

Por exemplo, se fizerem um orçamento para €500 devem multiplicar este valor por 1,23, (considerando o IVA à taxa máxima de 23%) o que dá um valor de total de €615, com o IVA a custar €115.

Depois de negociado o valor, está na hora de emitir a factura. Para tal, devem deslocar-se ao portal das finanças, fazer login, entrar em ‘Facturas e Recibos Verdes’ e escolher a opção ‘emitir’.

Devem então seleccionar ‘Factura’, preencher a data e escolher a opção ‘Factura Acto Isolado’.

Depois, na secção ‘Adquirente de Bens ou Serviços’ é necessário preencher o nome, o país, a morada e o número de contribuinte da empresa.

Por baixo, na secção ‘Transmissão de Bens ou da Prestação de Serviços’, devem seleccionar a opção que melhor se adequa ao vosso caso, escrever uma breve descrição, colocar o valor base do serviço, e seleccionar a taxa de IVA.

O valor total da factura é imediatamente calculado após a taxa ser seleccionada. Depois, basta carregar em ‘emitir’ no topo da página e terão acesso à factura. Esta deverá ser então enviada para a empresa.

Antes de receberem o pagamento a empresa deverá pedir-vos alguma informação como o número de contribuinte, o IBAN ou a vossa morada.

Embora a forma de pagamento dependa de empresa para empresa, o ideal é esperarem pelo pagamento antes de emitirem o recibo final.

Assim que o dinheiro entrar na vossa conta, devem dirigir-se ao portal das finanças, carregar em ‘Facturas e Recibos Verdes’ e novamente seleccionar a opção emitir.

Desta vez terão que carregar na opção que diz ‘Recibo’. Aqui o sistema vai pedir-vos para seleccionar a factura à qual este recibo diz respeito. Como este se trata de um acto único, só vos deve aparecer uma única opção.

Seleccionada a factura, o portal vai preencher de forma automática a informação sobre a empresa, sendo novamente necessário acrescentar o valor do orçamento e seleccionar a taxa de IVA. Nesta secção terão também que seleccionar qual o regime de IRS a aplicar nesta transacção.

Se o valor do acto isolado for inferior a €10 mil, estão isentos de pagamento de IRS. Se for o caso devem então seleccionar a opção ‘Dispensa de retenção - art. 101.º-B, n.º1, al. a) e b), do CIRS’ antes de finalizarem a emissão do recibo. Para mais informação sobre a isenção de retenção em fonte de IRS sugiro que consultem esta página.

Depois de emitirem o recibo é necessário proceder ao pagamento do IVA. Usando o exemplo anterior, para um serviço com um custo base de €500, têm a receber da empresa um total de €615. Deste valor, €115 correspondem à taxa de IVA que terá que ser paga.

Para tal não é necessário sair do portal das finanças. Na barra de pesquisa procurem por ‘modelo P2’. Deverá então aparecer a opção ‘Guias de Pagamento Modelo P2’.

Seleccionada esta opção devem carregar em ‘Pagamentos de IVA’ e em ‘Submeter Novo Documento’.

Aqui terão que colocar o valor do IVA, que neste caso são €115, e seleccionar a opção ‘Acto Isolado’ onde diz ‘Tipo de Pagamento’.

Ao carregarem em ‘Submeter’ será emitida de forma automática a entidade e a referência de pagamento. O pagamento pode ser feito numa caixa de multibanco ou através de homebanking, num computador, ou na aplicação do vosso banco.

O pagamento do IVA terá que ser feito até ao final do mês seguinte à emissão do recibo do acto isolado. É por este motivo que devem sempre esperar pelo pagamento da empresa antes de emitirem o recibo.

Existem, contudo, algumas actividades que estão isentas do pagamento de IVA. Para saberem se o vosso serviço está ou não isento de IVA podem consultar o artigo 9º do CIVA (Código do Imposto sobre o Valor Acrescentado).

Friday, May 29, 2020

O que é afinal um Cartucho?

Cartucho, Fonte: DR

Se têm por hábito usar o Spotify certamente já tropeçaram num anúncio que vos agradece por terem escolhido aquela plataforma em alternativa à rádio, a um CD, a uma cassete, a um vinil, ou a um cartucho, “se soubesses o que isso era”.

O que é afinal um cartucho? Um cartucho, também conhecido por Stereo 8, era um suporte de áudio com base numa fita magnética bastante similar a uma cassete embora fosse um pouco maior. Esta fita podia conter até oito faixas de música e funcionava num circuito fechado que permitia que este voltasse ao início sem ser necessário rebobinar.

Para aqueles que já nasceram num Mundo digital onde os formatos físicos e analógicos não passam de uma relíquia de um passado algo distante, usados apenas para enfeitar as estantes do apartamento de um qualquer hipster, as cassetes, fossem estas de música ou de VHS, precisavam de ser rebobinadas para voltar ao início.

Poucas coisas eram mais chatas na altura do que colocar uma cassete no vídeo ou na aparelhagem e ter que esperar alguns minutos até que esta voltasse ao ponto inicial.

Qualquer vídeo, walkman, rádio ou aparelhagem tinha esta capacidade, no entanto isso não impediu as empresas de criarem máquinas específicas para rebobinar cassetes.

Estas máquinas eram usadas especialmente em clubes de vídeo, aquelas casas de aluguer de filmes que existiam antes da Netflix, porque, bom, as pessoas teimavam em não rebobinar as cassetes depois de as alugarem. Alguns destes videoclubes costumavam inclusive cobrar uma taxa extra a quem se esquecesse de rebobinar a cassete.

Os cartuchos tinham então a vantagem de que assim que a última música acabasse de tocar, esta seria seguida pela primeira sem que para tal fosse necessário carregar num qualquer botão. No entanto, um cartucho não era apenas uma cópia em fita magnética de um álbum. As particularidades desta tecnologia obrigaram os produtores de música a fazer alguns ajustes.  

Enquanto num disco de vinil as músicas são repartidas pelos dois lados do disco, os cartuchos eram divididos em quatro programas. Cada programa podia conter até duas músicas sendo que estas não podiam ser divididas de forma linear. O primeiro programa teria que conter a faixa um e a faixa cinco, enquanto o segundo teria a faixa dois e a faixa seis.

Isto criou um problema na passagem de conteúdo de um álbum em vinil para um cartucho. Para o resolver era muitas vezes necessário partir as músicas em duas partes cortando-a durante uma pausa instrumental ou entre repetições de um refrão.  

Por vezes era também necessário trocar a ordem das músicas, mudar o seu comprimento ou introduzir períodos de silêncio de forma a ajustar a duração das músicas à duração de um programa na fita.

Isto levou a que alguns cartuchos incluíssem conteúdo extra, transformando-os em autênticos objectos de colecção para os fãs de artistas como Lou Reed ou Pink Floyd.

No álbum Animals (1977) de Pink Floyd a música Pigs On The Wing tem uma versão extensa criada em específico para o seu cartucho.

Este formato era principalmente usado em auto rádios e foi bastante popular nos EUA entre as décadas de 1960 e 1980. Contudo, deste lado do Atlântico os cartuchos nunca ganharam a mesma popularidade, tendo perdido a corrida para as cassetes.

Se costumam ver séries e filmes norte-americanos provavelmente já viram cartuchos a ser usados sem se aperceberem. Sempre que uma personagem coloca um bloco cinzento no auto rádio sem o tirar da caixa ela está a usar um cartucho.

Por exemplo, se são fãs da série How I Met Your Mother, talvez se lembrem de um episódio em que o Marshall e o Ted fizeram uma viagem até Chicago num carro que insistia em tocar em loop a música ‘I’m Gonna Be (500 miles)’ dos The Proclaimers.

Acreditem ou não, isto era um problema algo comum. Quando um auto rádio avariava, devido ao circuito fechado dos cartuchos, este podia ficar preso na mesma música, tocando-a em loop incessantemente.

No filme As Good as It Gets (1997) vemos Melvin, interpretado por Jack Nicholson, a preparar a banda sonora para a viagem de carro que ele faz com Carol (Helen Hunt) e Simon (Greg Kinnear). Esta banda sonora consiste num conjunto de cartuchos etiquetados com o nome dos artistas que ele guarda num compartimento ao lado do assento do condutor.

Os cartuchos, o betamax, os laser discs e os minidiscs são exemplos de tecnologias que tiveram alguma popularidade a nível local mas que nunca conseguiram conquistar o mercado a um nível tão global como as cassetes, o VHS, os CDs ou os DVDs.

Hoje não passam de uma memória de um tempo analógico onde o mínimo erro podia transformar uma viagem corriqueira numa história épica, ou numa sessão de tortura.

Agora que já sabem o que é um cartucho da próxima vez que ouvirem o anúncio do Spotify, não se esqueçam de pedir àquele senhor para tentar ser um pouco menos condescendente.

Tuesday, December 31, 2019

As Terras do Meu Verão

Foto: Palácio de Versailles, Autor: Adriano Cerqueira
Portugal
  • Albergaria-a-Velha (Rede Expressos)
  • Amadora (Residência)
  • Aveiro (Entrevistas 90 Segundos de Ciência, Compras&Utilidades)
  • Braga (Entrevistas 90 Segundos de Ciência)
  • Carcavelos (Praia)
  • Coimbra (Entrevistas 90 Segundos de Ciência)
  • Espinho (Compras&Utilidades)
  • Gaia (Compras&Utilidades)
  • Gondomar (Natal)
  • Lisboa (Residência, Cinema, Compras&Utilidades)
  • Montargil (Visita e Estadia)
  • Mora (Visita ao Fluviário de Mora)
  • Odivelas (Compras&Utilidades)
  • Ovar (Carnaval, Residência)
  • Paredes de Coura (Vodafone Paredes de Coura)
  • Ponte de Lima (Estadia, Jantar Diamenta Azul)
  • Porto (Entrevistas 90 Segundos de Ciência, Compras&Utilidades)
  • Santa Maria da Feira (Compras&Utilidades)
  • Santo Amaro de Oeiras (Praia)
  • São João da Madeira (Compras&Utilidades)
  • Sintra (Visita)
  • Torreira (Praia, Almoço)
  • Vila do Conde (Compras&Utilidades)
  • Vila Real (Entrevistas 90 Segundos de Ciência, Aniversário Ricardo)

Ilha da Madeira
  • Funchal (Entrevistas 90 Segundos de Ciência, Visita)
  • Câmara de Lobos (Visita)
  • Porto Moniz (Visita, Almoço)
  • São Vicente (Visita)

França
  • Paris (Visita ao Louvre, Bateau Mouche, Montmartre, Moulin Rouge, Torre Eiffel, Sacre Cœur)
  • Versailles (Visita ao Palácio)

Monday, December 23, 2019

O Regresso da Véspera da Véspera de Natal Parte XIII

365 dias, 215 entrevistas, 90 Segundos de Ciência, 85 temas esmiuçados, 37 casas visitadas, 26 bilharacos, 7 títulos europeus, 4 coletes amarelos, 3 bairros gentrificados, 2 concertos de New Order, uma única nova publicação neste blogue e 0 pencas depois, sejam bem-vindos a mais um episódio do Regresso da Véspera da Véspera de Natal, a tradição anual mais aguardada pelos fiéis seguidores da Igreja Universal do Sagrado Chinelo, e por todos aqueles cujo ódio a pencas os une neste santo dia.

Começamos a nossa história na terra desconhecida chamada Brasil, onde o Mindo é rei e senhor e também treinador do Flamengo.

"Esse não é Jesus, o Jorge?", questiona a Menina do Gás, enquanto segura num bule consciente que em tempos escreveu músicas sobre astronautas perdidos no espaço.

"Isso é subjectivo", grita o Mindo enquanto brinca com dois ímanes, rindo-se de algo cuja graça é desconhecida a todos menos a ele.

De regresso à terra desconhecida chamada Brasil, Jesus, o Cristo, ora nas palhas deitado, ora nas palhas estendido, festeja a conquista da Libertadores após oitocentos e oito minutos de tentativas falhadas de falar espanhol.

Cansado de se deitar e estender nas palhas, Jesus, o Cristo, pede a Jesus, o Jorge, a Gama, o Vasco, a Gás, a Menina, a do Eusébio, a Tolha, a de Carvalho, o Bruno, a Sebastião, o rei, e a Mindo, o subjectivo, para irem comprar cabaças para fazer bilharacos.

"Tão perto do Natal já todas devem estar esgotadas", alerta Henrique, o Infante, que por ali passava para abastecer a sua nau eléctrica com baterias de lítio e jerricãs de gasóleo, não fossem os camionistas lembrar-se de entrar novamente em greve.

"É por isso que devemos garantir que os meios de produção jamais saiam do poder do proletariado", afirma Cunhal, o Álvaro, enquanto tuítava um extenso manifesto alertando para o perigo da normalização do discurso liberal.

A Menina do Gás, Vasco da Gama, Eusébio e a sua toalha, partilharam efusivamente este manifesto acrescentando a ele episódios testemunhados na circunavegação do Mundo que estes fizeram acompanhados por Dave, o Casado à Primeira Vista, também conhecido como David.

Acesa que estava a discussão sobre o preço da cabaça miúda, discussão essa que se agravou quando de Carvalho, o Bruno a chamou de abóbora, sem qualquer justa causa, num canto afastado do horizonte, era possível avistar o Mindo, ainda a rir-se dos dois ímanes que por ali se encontravam.

Caía a noite na terra desconhecida chamada Brasil, quando a Marta da Teleseguro mandou vir um Glovo da Telepizza para poupar nos portes, com uma dose extra de cabaça miúda.

A noite estava salva, faltando apenas que todos confirmassem que leram os termos e condições.

"Isso são peanurs", afirmou Jesus, o Cristo, ora nas palhas estendido, ora nas palhas deitado.

Em uníssono todos se prepararam para a confecção dos bilharacos, enquanto o rapaz da Glovo esperava pela sua gorjeta.   

Pessoa, o Fernando, Moisés, e os seus Heterónimos, – os de Pessoa, o Fernando, não os de Moisés, que, até à data, se tinha Heterónimos, todos eles nos são ainda desconhecidos – pediram a Pedro Álvares Cabral se este tinha trocos para pagar ao rapaz da Glovo.

"Fazia por MBWay mas agora cobram taxas e comissões”, lamenta Soares, o Bernardo, enquanto acrescenta ao seu livro mais este desassossego.

"Já pensaram em criar uma conta no Revolut?", questiona o rapaz da Glovo que traz consigo um panfleto e uma história da viagem que fez à terra conhecida chamada Islândia, onde usou esse cartão sem qualquer gasto adicional.

Já na terra desconhecida chamada Brasil os bilharacos estavam prontos para serem servidos.

À mesa sentava-se Jesus, o Jorge, a Menina do Gás, o rapaz da Glovo, Fernando Pessoa e os seus Heterónimos, Vasco da Gama, a Marta da Teleseguro, de Carvalho, o Bruno, a toalha do Eusébio, Álvaro Cunhal e os meios de produção, Moisés, Sebastião, o rei, e Dave, o Casado à Primeira Vista, também conhecido como David.

"Falta o Mindo!", alerta Jesus, o Cristo, ora nas palhas estendido, ora nas palhas deitado.

Pela porta uma voz carregando uma travessa de bilharacos afirmou, "Isso, isso é subjectivo!"

Após a refeição, Mindo e a turma do papagaio amarelo embarcaram na nau eléctrica de Henrique, o Infante patrocinada pela Tesla. Para o horizonte seguiram em busca de uma terra onde as pencas ainda não sejam conhecidas.

E assim regressa o dia mais aguardado ao longo de todo o ano. Dediquem estas horas a espalhar pelo Mundo as palavras de felicidade que só um dia como o 23 consegue transmitir.

Pois hoje é a Véspera da Véspera de Natal. Dêem as mãos e cantem todos comigo:


Morram Pencas, morram! Pim!

Friday, October 04, 2019

Twitter à distância de onze anos

Aniversário do Twitter

Foi numa aula de Novos Media já no meu terceiro ano de faculdade que me foi dada a conhecer uma nova rede social que, na altura, estava ainda longe de alcançar o impacto mediático que hoje tem. Estou a falar, obviamente, do twitter.

De microblogue, a sala de chat, de um espaço para criar e contar histórias, a uma caixa-de-ressonância de opiniões, ao longo dos últimos anos vi esta rede social evoluir e transformar-se. Muitos daqueles que conheci nesses primeiros tempos há muito que deixaram de participar no dia-a-dia desta rede. Alguns porque já não se identificam naquilo que ela se tornou, outros porque encontraram noutro espaço algo mais aliciante com o qual perder o seu tempo.

Quando comecei a usar esta rede usava-a essencialmente como uma plataforma para partilhar ideias e pensamentos. Era um microblogue usado para partilhar todas aquelas frases soltas demasiado pequenas para justificaram o espaço e a energia que uma publicação em um dos meus blogues exigia.

Cedo comecei a observar que nem todas as pessoas usavam o twitter da mesma forma. Algumas limitavam-se a partilhar ligações de notícias, vídeos ou outro tipo de conteúdo que achavam interessante, enquanto outras tinham transplantado a essência do mIRC para esta plataforma, e usavam-na como uma simples sala de chat para conhecer e interagir com novas pessoas.

Demorei algum tempo, confesso, mas eventualmente aprendi a responder, a fazer retuítes e a interagir com os diferentes utilizadores que povoavam esta rede. Ainda sou do tempo, sim, neste caso terei mesmo que usar esta expressão, mas de facto, ainda sou do tempo em que era possível ver as interacções de um utilizador com contas que nós não seguíamos. Foi, aliás, desta forma que conheci muitas das pessoas com quem interagi nos meus primeiros anos de twitter.

Um dos episódios mais caricatos foi quando aprendi a utilizar hashtags. Já tinha visto pessoas a colocar cardinais antes de uma palavra mas nunca percebi ao certo porque o faziam. Um dia, a acompanhar um evento, perguntei a várias pessoas o que era uma hashtag e qual a ligação que deveria colocar no meu navegador para acompanhar esse evento.

Após algumas tentativas frustradas acabei por recorrer ao Google, onde aprendi que uma hashtag era uma etiqueta precedida de um cardinal usada para ligar uma série de tuítes a um único evento.

Hoje em dia, basta carregar em uma dessas etiquetas para ver todos os tuítes em que elas são incluídas. Naquela altura não. Se queríamos seguir uma determinada hashtag era necessário ainda pesquisar por ela. Felizmente, esta alteração, ao contrário de muitas outras, acabou por ser positiva. Tanto que rapidamente redes como o facebook e mais tarde o instagram também adoptaram esta técnica, ignorando onde a mesma tinha sido originada.

Durante estes onze anos, confesso mais uma vez que nem sempre fui um utilizador assíduo. Por volta de 2012, já muitas das pessoas com quem convivia e falava numa base diária tinham saído desta rede. A partir daí comecei apenas a usar o twitter para divulgar artigos do meu blogue, notícias de ciência, música, vídeos e um ocasional pensamento solto.

Foi em 2015 que decidi voltar a usar esta rede de forma habitual. Comecei a seguir novas contas, a responder e a interagir com novas pessoas e, eventualmente, comecei a criar conteúdo que ia muito além da divulgação de projectos pessoais ou de pensamentos soltos.

Ao fim destes onze anos testemunhei como o twitter, os seus utilizadores, e o universo das redes sociais se alteraram em consonância com as vontades e com as necessidades das pessoas e do mercado digital.

Com esta riqueza de utilizadores com conceitos, ideias, percursos e histórias de vida distintas, o twitter transformou-se naquilo que é hoje. Para o bem, e para o mal.

Ao longo deste processo de transformação aprendi a identificar os diferentes tipos de utilizadores que coabitam nesta rede social. Podemos encontrar onze géneros claros de utilizadores que, primeiro em 140, e hoje em 280 caracteres, usam esta rede com os seus próprios propósitos e objectivos.

Algumas pessoas reflectem um pouco de cada um, mas é ainda possível encontrar exemplos de contas dedicadas apenas a um único foco.

O Ideólogo

Foi uma das primeiras espécies a habitar o twitter. São pessoas que publicam pensamentos e conversas internas sem nunca interagir com ninguém. Se em tempos eram a forma mais popular de usar este rede, hoje são vistos como párias, ignorando por completo um dos principais pilares de qualquer rede social, a interacção.

As Câmaras de Eco

Utilizadores que usam a sua conta para partilhar notícias, vídeos ou ligações sem nunca produzirem conteúdo próprio. Se têm alguma espécie de interacção com outras contas ou utilizadores, fazem-no apenas à base de retuítes.

Os Workaholics

Contas ‘profissionais’ usadas apenas para partilhar eventos relacionados com trabalho, ou com projectos desenvolvidos pelo seu utilizador. A interacção é mínima, usando a rede social como uma montra para eventuais empregadores. São pessoas para quem as redes sociais são uma ferramenta que usam para construir a sua própria personagem. O objectivo final é retirar os proveitos da sua popularidade online para fazer crescer a sua carreira profissional.

Os "papa conferências"

Estas contas limitam-se a fazer o acompanhamento de conferências. A opinião é dada através da selecção das citações dos oradores acompanhadas das hashtags do evento. A maioria apenas funciona uma vez por ano mas alguns parecem fazer vida disto.

Os storytellers

Uma espécie ameaçada que chegou até a ser alvo de notícias há cerca de oito anos. Foram um dos primeiros fenómenos associados a esta rede. Estas contas usam o twitter para contar pequenas histórias. Aspirantes a escritores que encontraram nos 140 caracteres, que agora são 280, o desafio ideal para a sua procrastinação.

Os endoutrinadores

Espécie que apareceu por volta de 2016. Políticos ou aspirantes a tal, que usam o twitter para criar bolhas de opinião onde o debate tem sempre um único sentido. Rodeiam-se de Yes Men que controlam para tentar humilhar e calar quem tem uma opinião diferente.

Os produtores de conteúdo

Especialistas e pessoas comuns que usam esta rede para partilhar e esclarecer temas que podem ou não estar na berra da agenda mediática. Conhecidos por construir longas threads, disponibilizam sempre fontes e ligações para quem quer saber mais.

Os facebookers

Pessoas que cresceram com o facebook e que tentam replicar a experiência que lá tiveram nas restantes redes sociais. Usam o twitter para partilhar fotos e acontecimentos do seu dia-a-dia na esperança de receberem gostos e interacções.

Os perfis ligados

Contas que apenas existem porque ‘temos que estar em todo o lado’. Os seus tweets são apenas links de publicações feitas no facebook ou no instagram. A interacção é rara e muitas vezes inexistente.

Os sociais

Malta que está aqui desde o início e que ainda usa o twitter como uma sala de chat. Dizem ‘bom dia’ e passam o tempo a interagir com outras pessoas, seja através de respostas ou por mensagem privada.

Os trolls

Utilizadores que apenas existem para ver o Mundo a arder. Nunca dizem nada sério. Insultam tudo e mais alguma coisa. Os perfis são falsos e devem ser sempre evitados. Alimentam-se de atenção. Sem atenção acabam por definhar.

Cada um de nós já passou por um destes diferentes estágios num certo momento. Alguns ficaram presos a uma destas identidades, outros fluem entre aquelas que mais se adequam à sua personalidade. É esta riqueza que torna o twitter um espaço tão interessante e, ao mesmo tempo, tão perigoso.

Para mim? Para mim continua a ser aquela casa onde os meus pensamentos, as minhas ideias, as minhas notas soltas sobre um determinado tema, habitam, coabitam e viajam para lá das páginas da minha mente, e para lá da projecção da minha voz, ou da minha escrita.

Não é um espaço que me define, mas é um espaço onde sei que tenho, e onde sempre irei ter, a minha voz.