Sunday, October 02, 2016

Viver com Intolerância

Imagem DR
Passaram já seis anos desde que fui diagnosticado com intolerância à lactose. De um momento para o outro a punchline de uma qualquer sitcom passou a ser uma grande parte da minha vida. Um desbloqueador de conversas, uma peculiaridade, enfim, passei a ser aquele tipo que em todas as pizzarias tem que explicar ao empregado o porquê de ter pedido uma pizza sem queijo. Estou certo que algumas já devem ter vindo com algum cuspe como ingrediente surpresa. 

Estaria a mentir se dissesse que a transição para uma alimentação desprovida de leite e dos seus derivados foi fácil. Não foi. Longe disso. Desde que me conheço que os meus pequenos-almoços consistiam de leite com cereais. Após passar uma temporada no hospital a propósito de uma gastroenterite daquelas mesmo fortes quando tinha 14 anos, ainda tentei suster-me à base de bolachas e chá pela manhã, mas esse martírio não durou mais que dois meses. A verdade é que sempre tive dificuldade em comer algo mais sólido pela manhã. Sou a antítese do típico pequeno-almoço britânico, quanto mais líquido e menos consistente, melhor.

Com o passar dos anos comecei a conseguir experimentar coisas novas. Torradas acompanhadas por uma caneca de cevada, eram o substituto ideal para aquelas manhãs em que o leite ou os cereais já se tinham terminado, e ainda não tinha ido às compras. Foi essa a solução natural para corrigir a minha necessidade de cereais logo após o acordar. Pelo menos, durante algum tempo.

Como nunca gostei de manteiga, já barrava as torradas com margarina bem antes de saber sequer que a intolerância à lactose era mesmo algo real e não apenas um instrumento argumentativo que os escritores de comédia adoravam usar. Quando eventualmente me fartei de comer pão seco todas as manhãs, recorri ao leite de soja para fazer regressar os meus tão adorados cereais à minha dieta matinal. 

Esta solução não foi tão simples para as minhas restantes refeições. Desde pequeno que sempre comia um iogurte depois do almoço, uma sandes mista a meio da tarde, e a ocasional salsicha enrolada em queijo com batatas fritas e mostarda que fazia a meio da noite sempre que não conseguia dormir, o que era muito comum na minha adolescência e no início das minhas aventuras como jovem adulto.

Isto para não falar de todas as refeições deliciosas que contêm queijo, como Pizza, Lasanha, e uma grande parte da gastronomia italiana que sempre adorei. Mas o golpe mais duro foram mesmo os doces. Sempre disse que, se possível, vivia apenas de bolos, doces e outras sobremesas. Contudo, raro é aquele que não contém uma pequena dose de leite. Nunca apreciei leite-creme, mas aletria (esta ‘a’ no início da palavra vai sempre fazer-me confusão), cheesecakes, pão-de-ló, e qualquer outro bolo amanteigado passaram assim a entrar na lista de coisas que devo evitar.

Os mais entendidos neste assunto já devem ter percebido que a minha intolerância não é das mais graves. Tinha 21 anos quando após dois meses de dores intermitentes e agonizantes acabei por faltar a duas semanas de aulas, entre hospital, consultas e muitas horas passadas em casa a recuperar. Perdi sete quilos e ganhei uma gigantesca dose de medicamentos como acompanhamento para as minhas refeições dos meses que se seguiram. 

Enfim voltei a atingir a normalidade. Era Maio quando finalmente consegui sair de casa para correr com os meus amigos até ao Furadouro. Lembro-me bem dessa tarde. Foi a primeira vez em meses que me senti com energia para fazer algo mais exigente do que levantar-me da cama.

À custa deste episódio herdei um sistema digestivo bastante delicado. Além do leite há outros alimentos que raramente acompanham a minha dieta, como feijões, batatas, azeitonas, tremoços, bananas, amendoins e outros frutos secos, a grande maioria das bebidas gaseificadas, e qualquer prato excessivamente picante. Nenhum destes alimentos, além do leite, são proibitivos, mas desde então que moderei bastante a forma e a frequência com que os consumo.

O mesmo acontece com bolos, doces e outros produtos feitos com leite e seus derivados. Evito-os, mas uma fatia ou outra não me faz mal. É impressionante a quantidade de alimentos que consumimos com alguma porção de lactose, por mais ínfima que seja. Basicamente, para ter uma dieta verdadeiramente saudável, teria que cozinhar todas as minhas refeições, do mais elaborado jantar, à mais simples bolacha. E ninguém tem tempo para isso.

Não é que não goste de cozinhar, mas imaginem que sempre que vos apetece um palmiere ou um Pão de Deus o tivessem que cozinhar. Pois.

Por isso corro alguns riscos de vez em quando, compensando sempre com uma extra dose de fibra e água para amenizar as inevitáveis consequências de uma inapropriada refeição rica em lactose.

Volta e meia recordo-me de todos aqueles Ucal, Ovos Kinder, queijos da serra e fatias de bolos que recusei ao longo dos anos. Hoje arrependo-me de todas essas decisões, especialmente porque Ucal sem lactose é possivelmente a bebida mais enjoativa que alguma vez foi criada. Parem de tentar brincar com a ordem natural das coisas e deixem o leite ser leite. Ucal de soja com chocolate teria sido uma ideia tão melhor…

Felizmente a soja é um bom substituto para a maioria das ofertas que o leite proporciona. O leite de soja é melhor, mais leve, mais suave e o sabor conjuga bem com os cereais, especialmente com os de chocolate. Os iogurtes e os pudins de soja não são maus e, para quem não gosta de soja, existem outras alternativas como o leite de aveia, e o de arroz.

São produtos mais caros que o típico leite de vaca, mas são mais saudáveis e boas alternativas para quem quiser cortar o leite da sua dieta. 

Os últimos seis anos foram ricos em experiências e em constantes mudanças, aleatórias, inesperadas e previsíveis em todos os aspectos da minha vida. Aquela manhã em Março de 2010 quando acordei com dores indescritíveis e uma falsa ameaça de apendicite foi, possivelmente, apenas o início de uma longa aventura que ainda hoje se perpétua no tempo.

Sou intolerante à lactose. É algo que faz parte de mim. Mas não é algo que me define. 

Wednesday, March 16, 2016

Et tu, Ucal?

Ucal Zero Lactose, Imagem DR
Não há pior sensação que a de sermos traídos pelo nosso próprio corpo. Há seis anos descobri que era intolerante à lactose. De um dia para o outro vi-me forçado a atirar para o lixo uma considerável fatia dos meus alimentos preferidos. Disse adeus aos iogurtes, ao queijo, às pizzas, à lasanha, ao leite-creme, à aletria, a uma série de bolos e doces. Cada despedida mais dolorosa que a anterior. Mas aquela que teve maior impacto foi o Ucal.

Este leite achocolatado nunca fez parte do meu regime habitual. Era uma rara recompensa que oferecia a mim próprio depois de uma noite longa, no regresso de um festival, ou pelo acaso de um passageiro desejo. Um precioso ritual que enfim terminava, sem direito a uma derradeira despedida.

Durante dias olhei para trás, para cada oportunidade falhada de consumir um Ucal, mas nada podia fazer. Esta bebida estava, agora, riscada para toda a eternidade da minha ementa. Assim foi, e assim segui em frente.

Deixei de comer iogurtes depois de almoçar, tirei o queijo da minha sandes da tarde, o leite de soja substituiu o de vaca nos meus cereais, as minhas pizzas, lasanhas, e até as minhas francesinhas, passaram a vir sem queijo. Mas nada procurei para substituir o Ucal. Até hoje, ainda não provei leite de soja com chocolate. Por mais que já mo tenham recomendado, simplesmente não seria a mesma coisa.

Há semanas atrás, passeava pelo Continente quando encontrei um solitário Ucal sem lactose. Isolado numa vazia prateleira, estava ali, sozinho e desacompanhado. Como se estivesse à minha espera, sob o desígnio de alguma entidade divina, condenado a aguardar eternamente pela minha chegada. Não hesitei em comprá-lo.

Por graça de um comentário neste mesmo blogue, já tinha conhecimento da existência deste novo Ucal, mas nunca o tinha visto à venda até àquele dia. Para ser sincero, nunca me dei ao exercício de o procurar, embora a minha natural curiosidade alimentasse o apetite pela sua descoberta.

Na verdade nunca fui grande fã de produtos lácteos sem lactose. São espécies contra-natura, privadas de uma das suas propriedades originais. Mas a forma como encontrei aquele Ucal, aliada à aleatoriedade estocástica do comentário que recentemente tinha lido, fez-me pôr de lado, por momentos, esta minha convicção, e persuadiu-me a dar-lhe uma nova oportunidade.

Aguardei alguns dias antes de o provar. Precisava de sentir o apetite. Aquele desejo. Aquela vontade de beber um Ucal que apenas sentia de tempos a tempos. Esse dia, ou melhor, essa noite, enfim chegou. Desci até à cozinha, peguei na garrafa e preparei-me para o provar.

Esta foi uma das piores experiências gastronómicas que tive desde aquela tarde em 2011 em que provei marmite pela primeira vez. Nunca tinha bebido algo tão enjoativamente doce. Não sei se esta é uma consequência natural da remoção da lactose, mas nunca tinha provado uma bebida tão doce ao ponto de a achar enjoativa. E eu sou um tipo que prefere o Pão-de-ló de Arouca ao de Ovar por o primeiro ser ainda mais húmido e ter uma cobertura de açúcar à volta.

A mística que guardava em torno do Ucal tinha sido desfeita. O horrível sabor desta abominação quase que destruiu todas as boas recordações que, até aquele momento, mantinha das minhas prévias experiências com este leite achocolatado, há tantos anos atrás.

Não havia nada a fazer. Ucal sem lactose não é Ucal. É uma abominação. Uma criação do demo. Um anátema. Ainda não consegui esquecer o traumatizante sabor dessa aberrante manobra publicitária.

Apenas me resta aceitar que não mais voltarei a provar um verdadeiro Ucal. Esse desejo é agora enterrado num profundo e longínquo recanto da minha memória, reservado para tarefas impossíveis e impraticáveis.

Até sempre, Ucal. Não mais irei sentir o teu agradável sabor. Triste fado este que hoje sou forçado a aceitar. Pois assim é viver sem o teu leite achocolatado.

Tuesday, May 28, 2013

A última vez que bebi Ucal

Campanha publicitária da Parmalat
4 de Julho de 2007. Era de madrugada e estava a recuperar de uma noite dividida entre o recinto do festival Super Bock Super Rock e o chão da Gare do Oriente. Ainda faltava algum tempo para o comboio mas a fome já apertava. Devia passar pouco das sete da manhã. A única coisa que estava aberta era o Modelo 24 no ventoso andar de baixo. Alguns jornais já tinham chegado, mas fora isso a prateleira de imprensa estava praticamente vazia.

Fui a Lisboa com um grupo de colegas da faculdade para ver os concertos do dia anterior. O cartaz era um dos melhores que já tinha visto. O dia 3 de Julho completava-se com Arcade Fire, Bloc Party , The Magic Numbers, Klaxons, The Gift, Bunnyranch e Y?. Passámos grande parte da tarde e a noite inteira na primeira fila, apenas com pausa para jantar durante o concerto dos The Gift. Após tantas horas de pé só queria poder deitar-me numa cama confortável repleta de quentes cobertores.

Tal ainda estava a algumas horas de distância quando decidimos entrar no Modelo 24 para tomar o pequeno-almoço. Não me lembro do que comi, talvez um donut, um lanche, ou um outro bolo qualquer. Mas lembro-me que bebi um Ucal. Talvez essa memória também se teria perdido não fosse esse o último Ucal que eu voltaria alguma vez a beber.

Nunca tive o hábito de beber leite com chocolate. Todas as manhãs, quase como ritual, comia um prato de cereais ao pequeno-almoço. Na maioria das vezes as minhas escolhas recaíam sobre Chocapic, Nesquik ou Crunch. Daí não ter necessidade de acompanhar com leite achocolatado o leite que, pelos cereais que o acompanhavam, já por si o era.

Raras foram as vezes em que bebi Ucal. Aquecido, natural ou fresco. Adorava esse pedaço de céu engarrafado. Contudo, tal como a Nutella, apenas o bebia em certas e determinadas situações. Como quem diz, sempre que uma oportunidade surgia, mas, infelizmente, era difícil tal acontecer.

Passados três anos, em Março de 2010, descobri que era intolerante à lactose. Uma condição muitas vezes alvo de gozo pelos comediantes devido a algumas das suas consequências fisiológicas. 

Ao contrário das alergias, embora as intolerâncias impliquem uma forte má disposição do meu sistema digestivo, podendo resultar em irritações ou até mesmo em úlceras, posso continuar a consumir alguns produtos lácteos desde que o faça pontualmente e com extrema moderação.

Infelizmente esta minha descoberta não se deu por acaso. Esta condição aliada ao stress, maus hábitos alimentares e horários desregulados, obrigou-me a passar umas duas semanas de cama e a tomar uns quantos comprimidos durante pelo menos dois meses. Perdi sete quilos e passei por um dos períodos de maiores dores que alguma vez tive.

Desde então, deixei de consumir produtos fortes em lactose. Leite, manteiga, iogurtes, queijo e natas. É espantosa a quantidade de produtos que contém derivados de leite. Não são apenas os bolos e as bolachas mas também os gelados, os pudins e as gomas. Até mesmo a Nutella tem vestígios de lactose.

Motivado pela minha paixão por francesinhas e pela minha missão de encontrar a melhor francesinha fora do Porto, a cada dois ou três meses arrisco-me a comer uma. Evito comer o queijo, embora lá dê uma trinca ou outra.

Também não deixei de comer bolos, se bem que, sempre que possível, tento evitar usar leite ou manteiga na sua confecção. Substituí a manteiga pela planta e o leite pelo leite de soja, ou, como já me corrigiram, pela bebida de soja. Pelo menos assim terei que dizer até ao dia em que descubra um método de ordenhar a soja.

Costumava beber um iogurte todos os dias depois do almoço. Agora já não o faço. Como sempre um kiwi, uma tangerina ou uma maçã. Gelados, de longe a longe e apenas no Verão. Até o Bacalhau com Natas já não faz parte da minha ementa. A menos que estejamos a falar do famoso Bacalhau com Natas do Paulo cujo ingrediente secreto é o facto deste se esquecer das natas.

Já a Nutella não consigo deixar, ou não fosse eu doido por ela. Mas apenas a como na Primavera ou no Verão. A minha casa não tem aquecimento central portanto, durante o Inverno, é impossível manter a Nutella no seu estado cremoso. Podia comer Nutella dura? Podia, mas não é a mesma coisa.

Sou intolerante à lactose e não toco num copo de Ucal há quase seis anos.

Após o pequeno-almoço apanhámos o inter-cidades para o Porto. Saí em Espinho enquanto os meus colegas seguiram viagem. Até nisso tive o azar deste comboio não parar em Ovar. Do resto do dia, de pouco ou nada me lembro. Cheguei a casa, deitei-me, adormeci e eventualmente acordei.

Uma viagem de regresso como qualquer outra, num dia que, para além das memórias da grande noite de concertos, ficou para a História como a última vez que bebi Ucal.