Thursday, June 18, 2015

O Meu Ficheiro Excel

Foto DR
If we fasten our attention on what we have, rather than what we lack, a very little wealth is sufficient.
Francis Johnson

Há meses em que a disponibilidade financeira é difícil de controlar. Entramos numa espiral de despesas, sejam estas por motivos de saúde, lazer, ou meros gastos urgentes ou inconsequentes. Este é um desses meses. Não é a primeira vez que, por um motivo ou outro, acabo o mês próximo do zero, incapaz de guardar uma qualquer percentagem do meu salário para futuros investimentos ou necessidades.

Há cerca de cinco anos, criei um sistema em Excel de controlo e registo de gastos, o qual actualizo diariamente, e que tem sofrido melhorias sempre que estas me ocorrem, ao ponto de ser capaz de discriminar a grande maioria das coisas nas quais invisto, ou melhor, gasto, o meu dinheiro.

Talvez esta atitude seja passível de ser vista como obsessiva, ou como uma síndrome qualquer de controlo sobro todos os aspectos da minha vida. Mas, na verdade, não passa de uma rotina de lazer, que mantenho ao longo da semana, a qual não me retira mais do que três a cinco minutos por dia. Um pouco como lavar os dentes, ou a loiça depois do jantar, actualizo o meu Excel mal chego a casa com a frequência devida, sempre que houve algum gasto ou uma alteração em um qualquer dos meus saldos.

Talvez seja o meu adormecido lado de matemático a falar, mas adoro fazer gráficos, criar percentagens, analisar tendências, e estabelecer limites para com aquilo que gasto. O meu sistema tem tanto de simples como de complexo. Recorro a dois ficheiros. Um anual relativo ao ano corrente, e outro permanente que actualizo apenas no final de cada mês, onde constam os meus registos de rendimento e gastos desde Setembro de 2010 até hoje.

No primeiro mantenho um registo do saldo da minha conta bancária, de quanto dinheiro trago comigo na carteira, e até mesmo dos poucos cêntimos que mantenho guardados há quase quinze anos no meu mealheiro. Também construo algumas tabelas com objectos que desejo comprar e quanto estes custam. Noutra página, mantenho o meu balanço mensal onde discrimino cada gasto pelas categorias de Alimentação, Transportes, Renda, Utilidades e Outros. A categoria Outros é por si só descriminada numa tabela anual onde crio categorias que vão desde bilhetes de cinema, a livros, CDs, gastos com saúde, entre outros.

Embora o mês ainda esteja longe de ter terminado, a minha recente viagem a Lisboa, aliada a algumas consultas, e a outros gastos que fiz por impulso, fazem com que o horizonte não adivinhe nada de agradável. O meu plafond para este mês está cada vez mais reduzido, e creio que só com algum engenho é que não terminarei por acabar o mês a zero.

Isto não é uma grande preocupação para mim, pois, se vier a acontecer, será a primeira vez, em anos que algo semelhante me acontece, com as óbvias excepções dos meses em que fiz grandes investimentos, como a compra do meu actual portátil em Março de 2011, e da minha máquina fotográfica em Julho de 2014.

Não sou um tipo que gosta muito de depender do crédito, portanto, acabo sempre por comprar tudo a pronto. As únicas excepções que imagino fazer ao longo da minha vida estarão intimamente ligadas às compras de um carro, e eventualmente, de uma casa, se algum dia conseguir um emprego que me permita um nível de estabilidade suficiente para permanecer no mesmo local tempo suficiente para a desfrutar.

A minha vida de nómada é também ela reflectida na minha folha de cálculo. São incríveis as disparidades no que toca a gastos em alimentação, renda e transportes, quando comparo os dois anos que vivi em casa dos meus pais e trabalhei no Porto, com os restantes que, até agora, foram repartidos entre Coimbra e Covilhã.

Aqui apenas me posso culpar a mim próprio por ter optado por uma carreira que apela mais à instabilidade, e que nos força a nunca encarar a cadeira actual como um dado adquirido. Mas assim é a vida de um assessor de imprensa, de um realizador, de um editor de vídeo, de um investigador, de um director de fotografia, de um designer ou de um fotógrafo.

Em tempos disseram-me para esquecer o meu Excel, que este me fazia mal e que me tornava obcecado com os possíveis gastos que tinha pela frente. Sempre a aspirar a uma meta imaginária e, por vezes, irrealista. E isto foi verdade durante uns tempos, foi verdade até ao momento em que comecei a ver tudo aquilo que estava a perder ao deixar-me limitar pelas contas e pelo dinheiro que dispunha. As experiências que deixava de ter, as viagens que deixava de fazer, as coisas que deixava de ter, a roupa que usava até à exaustão.

Esse “clique” também aconteceu num momento em que o meu novo emprego me proporcionou uma maior folga orçamental, por causa de um considerável aumento salarial, em comparação com os anteriores.

Não sou uma pessoa que exige uma alta manutenção. Raramente compro coisas caras, dispenso a maioria dos gadgets, e contento-me com telemóveis baratos que durem uns três ou mais anos. Mas deixei de me conter perante aquilo que desejo, seja ele um livro, um vinil, ou uma minifigura de Lego. Afinal, se o posso ter hoje, para quê deixar para amanhã?

Em Junho de 2015, talvez o meu saldo final chegue ao zero, talvez até o ultrapasse, ou, se calhar, ainda vou conseguir poupar alguns trocos que sejam. Enfim, dia 30 terei a resposta que hoje atormenta o meu lado mais economicista, mas contento-me em saber que fora uma ou outra coisa, tudo aquilo no qual “gastei” o meu dinheiro este mês, trouxe-me experiências, momentos, inspiração, e alegria, que já mais teria vivido se permanecesse atrás de uma calculadora a controlar cada cêntimo que me saía do bolso.

Monday, May 13, 2013

O Escudo está Velho e Cheio de Verdete

Imagem DR
Na velha sala da minha avó tinha por hábito guardar uma série de papéis e documentos com pouca ou nenhuma importância. Por conveniência deixava-os ali, alinhados por detrás de uma figura de porcelana que ilustrava uma fadista e uma guitarra portuguesa eternamente imortalizadas em concerto. 

Ontem, ao início da tarde, decidi perder alguns minutos a organizar aquela papelada. Entre cartões caducados, horários de turmas, velhos recibos, postais e calendários, metade dos quais acabou no ecoponto, encontrei uma cesta meio escondida por entre as prateleiras. A cesta continha uma série de caricas e de porta-minas vazios. Lixo. Lixo peganhento e coberto de pó. Apenas lixo não fosse o pequeno tesouro que se escondia por debaixo deste entulho aleatório. Um tesouro pobre composto por algumas pesetas, uma moeda de duzentos escudos e outra de vinte e cinco, ambas cobertas de verdete.

Apesar de ainda guardar algumas moedas iguais a estas em bom estado, optei por as salvar. Embora espere ter sucesso na sua restauração, o mesmo não posso dizer em relação ao Escudo. Messias e bem-aventurado salvador da Pátria, nos últimos tempos, temos presenciado o crescimento de um movimento anti-Euro e pró-Escudo nunca antes visto. 

Os seus assinantes olham para a velha moeda como a resposta às nossas preces de crescimento económico e criação de emprego. Vêem o Escudo como o mítico D. Sebastião, por fim regressado das brumas. Dizem-se cientes das consequências dessa eventual operação. Afirmam serem capazes de resistir à deflação e não se importam de ver as suas poupanças reduzidas a ninharias. Contudo, falham ao serem incapazes de compreender o quão frágil é o Calcanhar de Aquiles da nossa velha moeda: A inexistente produção nacional.

Sim, o escudo permitir-nos-ias controlar as nossas próprias finanças sem um grande controlo do Banco Central Europeu. Podíamos valorizá-la ou desvalorizá-la “à vontade”, adaptarmo-nos aos mercados e injectar capital sempre que o achássemos necessário. Podíamos reduzir as taxas de cambio e tornar os salários mais atractivos para as grandes multinacionais que na década de 1990 tanto nos ajudaram a empregar e a enriquecer a população. Contudo, até chegarmos a esse ponto, teríamos que viver no limiar da pobreza extrema durante um período nunca inferior a dez anos. 

Portugal não possui neste momento produção nacional suficiente para alimentar uma população de 10 milhões de habitantes. Temos terrenos, culturas e pessoas, mas não os estamos a usar. As sementes não são plantadas e ninguém está disposto a regressar ao campo para pôr as mãos à obra. 

Com o regresso do Escudo, a comida que hoje custa um euro no supermercado não irá custar 200 escudos amanhã, mas sim mil, se não mais. Importamos demasiados produtos básicos para que a nossa produção seja sustentável. Somos limitados internamente por normas europeias que visam impedir uma excessiva competitividade de preços dos bens básicos entre os estados membros da União Europeia. 

A descida dos salários e a desvalorização das poupanças que a saída do Euro irá provocar faria com que uma grande maioria da nossa população simplesmente deixasse de ter dinheiro para comer. A actual onda de emigração seria ridícula em comparação com o êxodo que nos veríamos forçados a presenciar. Enquanto hoje em dia as pessoas apenas abandonam o país para encontrarem melhores condições de vida e empregos qualificados com melhores condições salariais, com a saída do Euro, muitos portugueses teriam que sair apenas para sobreviver. 

Que futuro para esses emigrantes? Serem explorados e maltratados como acontecia há 30 e 40 anos atrás? Teria a Europa ou qualquer outro país capacidade para os empregar? Fechar-nos-iam as fronteiras como se de uma praga se tratasse? Espero nunca vir a saber a resposta a estas questões.

A altura para sair do Euro não é agora, mas sim há doze anos atrás. O erro não foi continuarmos no Euro, mas sim, termos aderido à moeda única. Perdemos a competitividade do Escudo e perdemos a nossa capacidade de auto-gestão da nossa economia. Era cedo. Fomos imprudentes. Paciência. A cama está feita.

Mas ao continuarmos no Euro não estamos condenados a ciclos contínuos de crescimento e austeridade? Não valem a pena esses dez, vinte, ou até mesmo, quarenta anos de sofrimento para depois podermos recuperar o controlo da nossa economia? Se formos capazes de aprender com os erros cometidos na última década, não.

O Euro é hoje uma moeda frágil por ter ambicionado a tornar-se forte demasiado depressa. Sofremos um duro golpe com o lobby do dólar e optámos por nos manter independentes e por deixar a gestão das contas públicas a cada um dos estados da Zona Euro. A solução passa por desistirmos deste tipo de imposição narcisista. 

A Europa apenas será forte se for capaz de funcionar como um só. Não pode existir uma gestão de contas públicas país a país. Essa gestão tem que ser global e partilhada. Todos os estados membros devem partilhar os gastos assim como os ganhos. Deve existir um salário mínimo único e regulado em todos os países da Zona Euro. Uma única dívida. Um único PIB. Basta de desigualdade social entre o sul e o norte da Europa. Se querem uma moeda única, não basta existir um Banco Central, é necessária uma gestão central, um governo central.

Mantenhamos o nosso poder executivo, legislativo e judicial, mas deixemos a nossa economia ser aglomerada com as dos restantes países. É esse o caminho que devemos caminhar. É esse o sonho da União Europeia e a única forma de construirmos uma economia forte, sólida e capaz de competir directamente com o Brasil, com a Rússia, com a Índia e com a China. 

A Europa é o continente com as melhores condições de vida, de saúde, de segurança e de protecção social em todo o Mundo. Para quê fecharmo-nos no nosso cantinho e desligarmo-nos das maravilhas que uma Europa Unida nos tem para oferecer? 

Por mais saudades que eu sinta do Escudo, aceito hoje o Euro e espero que este não nos deixe tão cedo. O Escudo é uma peça de museu e um ícone da nossa História. Nada mais. 

O Escudo está velho e cheio de verdete. Não vale a pena restaurá-lo.

Saturday, September 15, 2012

Esmiuçar a crise

Todos se queixam, alguns a ultrapassam, poucos a compreendem. A crise é uma palavra que nos últimos anos se tem espalhado de forma viral pela boca dos portugueses. Passou a ser parte do nosso dia-a-dia, virou cliché, e fomenta quase a totalidade das conversas do povo desinformado que poucos ou nenhuns assuntos de interesse tem para partilhar com o resto do mundo. Mas falar de crise parece não passar de uma catarse de desespero e queixas, sem se ver um verdadeiro debate sobre potenciais soluções para nos livrarmos dela.

De um ponto de vista sociológico a crise teve início no dia 11 de Setembro de 2001. O medo de ataques terroristas aparentemente aleatórios em países que há muito tempo gozavam de um ambiente de paz e segurança, fez com que as pessoas aderissem à ideologia do “só vivemos uma vez” e temos que “aproveitar o dia de hoje e esquecer o amanhã”. Isto levou a que muitas famílias, principalmente das classes média e baixa, parassem de adiar futuros investimentos e recorressem ao crédito para comprarem casas, carros, gadgets e afins. Isto despoletou um crescimento nunca antes visto nos mercados de crédito, no imobiliário e no sector financeiro. As famílias aceitaram sobreendividarem-se em troca de um nível de vida superior àquele que os seus salários permitiam. Para quê guardar e pagar amanhã se posso pedir crédito e pagar hoje?

A parte mais curiosa é que tudo isto seria aceitável, desde que as pessoas mantivessem os seus empregos e que os seus salários continuassem a subir superando todos os anos o valor da inflação. Contudo, tal utopia cedo se mostrou catastrófica graças ao rápido crescimento económico dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). A mão-de-obra barata e um regime de esclavagismo que ignora por completo os direitos dos trabalhadores em alguns destes países, levou a que as grandes empresas norte-americanas e europeias deslocassem para lá as suas fábricas. O baixo custo de produção levou ao encerramento de muitas indústrias em países europeus e nos EUA. Como as fábricas começaram a fechar, os trabalhadores foram para o desemprego, deixando-os sem possibilidade de pagar os seus créditos. Iniciou-se assim um efeito dominó que culminou na explosão da bolha imobiliária dos EUA no ano de 2008.

Como os trabalhadores das fábricas ficaram desempregados, ou viram os seus salários reduzidos, o seu poder de compra diminuiu. As pequenas empresas de bens não-essenciais deixaram de ter clientes e elas também começaram a falir. Os serviços viram-se forçados a reestruturar a sua política económica o que levou a mais despedimentos e a um constante agravamento dos impostos, o que resultou num forte corte dos salários.

Com um menor poder de compra e com o já referido sobreendividamento das famílias, estas deixaram de ter dinheiro para pagar os seus créditos. Algumas deram a volta e passaram a viver a um nível mais adequado àquele que os seus salários proporcionavam, contudo, já era tarde demais. Como as pessoas deixaram de pagar os créditos, ao mesmo tempo que deixavam de ter dinheiro extra para depositar nas suas contas, os bancos começaram a ficar sem dinheiro. Embora fossem capazes de reaver as casas, carros e afins nos quais os seus clientes tinham investido, os bancos mesmo que os conseguissem vender, nunca conseguiriam repor na totalidade o dinheiro investido. Desta forma não tiveram outra solução que não falir ou então recorrer a dinheiros públicos para se tentarem salvar.

Endividamento em cima de endividamento levou a que os défices da grande maioria dos países ocidentais subissem a pique. O povo não tinha poder de compra, o desemprego continuava a subir e os pagamentos ao estado a baixar.

Outro fenómeno que contribuiu para esta situação foi o crescimento do Euro. A moeda única quando surgiu tornou-se muito atraente para os mercados internacionais. Uma moeda forte suportada pela economia europeia que era mais barata que o dólar. Isto levou a que muitos países, nomeadamente os sul-americanos, optassem por usar o Euro como moeda de câmbio, em detrimento do dólar, nas suas transacções internacionais. Como se a crise económica não bastasse, os EUA viviam assim uma forte ameaça a uma das suas principais fontes de financiamento, as transacções internacionais. O dólar desvalorizou e o Euro cresceu, chegando mesmo a igualar a libra, uma das moedas europeias mais valorizadas a nível internacional. Os EUA olharam para isto como uma oportunidade e optaram por manter o dólar baixo. A Europa virou vítima do seu próprio veneno e o dólar começou a recuperar terreno nos mercados internacionais. O Euro desvalorizou e perdeu terreno.

A crise chegou à Europa através dos pequenos países na periferia da Zona Euro. Portugal, Grécia e Irlanda, eram países aliciantes para o investimento internacional dado o seu baixo custo de produção, contudo, incapazes de rivalizar com os BRIC ou até mesmo com os países da Europa de Leste. Como se isto não bastasse, a Grécia apresentou uma agravante crise de corrupção ao mais alto nível em todo o seu sector público. Há anos que o governo grego adulterava as suas contas para parecer um país cumpridor. Mas as mentiras apenas os conseguiram levar até um certo ponto. Quando a verdade emergiu os mercados internacionais e as agências de rating perderam confiança na Grécia e na União Europeia. Isto fez com que o investimento parasse e com que a dívida externa passasse a ser negociada com juros muito elevados e incomportáveis por parte deste país. A União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional (FMI) entraram em acção e tentaram ajudar a Grécia, mas o nível de corrupção era demasiado profundo e ainda hoje esse problema parece estar longe de ser resolvido.

O caso Português é sintomático do que se passa no resto da Europa. A instabilidade política provocada pelo PSD aquando da tentativa de aprovação do PEC IV por parte do governo de Sócrates foi a última palha nas costas do nosso camelo económico. Temendo que Portugal se acabasse por tornar numa nova Grécia, os investidores internacionais perderam a confiança em nós e obrigaram-nos a pagar juros surreais, tudo por causa de um aparente mal-entendido e do despertar de uma desconfiança pornográfica na nossa capacidade de ultrapassar as diversidades financeiras.

Somos vítimas de uma ideologia que assolou o mundo ocidental após o 11 de Setembro de 2001. Somos vítimas de nós próprios por tentarmos viver acima das possibilidades, mas acima de tudo somos vítimas da actual realidade europeia da qual parecemos apenas ser parte do problema e não da solução. Portugal foi em tempos o país exemplo de como a União Europeia poderia funcionar como um elemento fomentador de crescimento. Hoje temos que voltar a ser o exemplo de como somos capazes de ultrapassar a crise e de retomar uma estabilidade económica que permita ao Euro estabilizar-se, dando espaço para os mercados recuperarem e incentivarem o investimento e a subida do emprego. As soluções estão à nossa volta, e já demonstrámos a perseverança necessária para alcançarmos a estabilidade económico-financeira que tanto almejamos. Sim, é o momento para sacrifícios, mas são sacrifícios necessários para que no longo prazo sejamos capazes de recuperar a nossa confiança de forma a que esta não mais volte a ser questionada e abalada por factores externos.

Thursday, October 13, 2011

O Meu Manifesto

Uma vez disseram-me que eu devia escolher as minhas batalhas, que é preciso separar as coisas pelas quais vale a pena lutar, das outras que não passam de desconfortos de conveniência. Nos últimos tempos tem surgido um crescente descrédito das manifestações dos “ocupas” e “desenrascados” que se fazem ouvir por todo o mundo, e embora me insira dentro desta geração, não deixo de concordar com a maioria das críticas a eles dirigidas.

Vale a pena lutar por mais oportunidades de emprego, vale a pena lutar contra o trabalho precário, vale a pena lutar por um futuro mais seguro, por melhores salários, por melhores regalias e por um tratamento mais humano com respeito pelo trabalhador. São ideais nobres defendidos pelos nossos antepassados ao longo dos séculos, algo com o qual me posso identificar. Contudo, embora estas manifestações se tenham erguido sob a bandeira desta ideologia, algumas questões radicais e impensadas têm ganho um relevo que não mereciam.

Em tempos de contenção financeira há certas medidas que devem ser debatidas e questionadas, mas não todas. O aumento de impostos coloca pressão sobre as famílias, mas tal é necessário para manter os sistemas educacional e de saúde a funcionar. Podemos questionar os restantes gastos, os investimentos mal feitos, mas os erros do passado existem para aprendermos com eles.

Não digo que as medidas actuais são as correctas, pois não o são. Não estamos a cometer os mesmos erros, mas continuaremos a errar enquanto não percebermos que a solução passa por um maior investimento na criação de emprego e de soluções estratégicas para relançar a economia. Isto são pontos aos quais os nossos líderes têm que dar resposta, mas onde podemos ajudar?

O nosso contributo como cidadãos comuns é simples, basta não vivermos acima das nossas possibilidades, não contrair créditos atrás de créditos, investir na educação, de preferência em cursos com um índice alto de empregabilidade e com um posicionamento económico estratégico, e combater o desemprego de longa duração com o risco do empreendedorismo. Mas podemos também ajudar através de medidas simples como comprar produtos nacionais, recorrer ao pequeno comércio e, sempre que possível, andar de transportes públicos.

Num mundo utópico um licenciado sairia da universidade directamente para o mercado de trabalho com o salário adequado à sua formação, contudo, tal não acontece. Embora esteja escrito em decreto-lei que o salário mínimo de um licenciado nunca deve ser inferior a mil e duzentos euros brutos mensais, o grande crescimento do número de licenciados, mais concretamente em áreas com um baixo índice de absorção e mobilidade no mercado de trabalho, torna isto impraticável.

Ao contrário do que muitos dos manifestantes reivindicam não podemos limitar-nos a esperar que nos ofereçam um emprego de mãos beijadas. Temos que construir currículo, temos que nos esforçar para dar o nosso melhor e, acima de tudo, temos que continuar a lutar pelo nosso lugar, sem nunca perder a esperança.

Após ter terminado a licenciatura estive quinze meses desempregado. Iniciei um mestrado numa área com maior empregabilidade que aquela em que me tinha licenciado. e continuei a construir currículo através de projectos não remunerados, de projectos pessoais, e de formação profissional.

Mas já tinha iniciado todo este processo ainda como estudante. Enviei currículos, fui a diversas entrevistas, mas apenas consegui emprego através de um programa do anterior governo. Essa primeira experiência deu-me alento e capacidade para enfrentar um potencial empregador com outras armas que aquelas que tinha até à altura.

Não me conformei com o meu contrato e continuei a procurar algo melhor, com um pouco de sorte encontrei um novo emprego e agarrei essa oportunidade. Todos os meses deixo algum dinheiro de lado, não pedi crédito para comprar carro, tenho um usado com dezassete anos que comprei com as minhas poupanças ainda quando era estudante. Não quero ser um exemplo para ninguém, mas pelo menos não tenho dívidas, trabalho na minha área e consegui tudo isto sem qualquer tipo de ajuda externa, ou plano de resgate.

A luta tão aclamada nas chamadas músicas de intervenção, não é um combate contra um sistema abstracto, mas uma luta pessoal para mostrarmos o nosso melhor, e fazer todos os possíveis para atingirmos os nossos objectivos.

Sim, há injustiças e devemos insurgir-nos contra elas. Temos que nos unir contra aquilo que é incorrecto, contra as medidas erradas, a nossa voz tem que ser ouvida, mas quando ela se elevar acima de toda a contestação não nos podemos engasgar, não podemos limitar-nos a fazer birras e exigências irrealistas, temos que saber argumentar a nossa posição, e reivindicar os nossos direitos.

Temos que nos mostrar solidários com a situação do país, e com as vidas dos nossos compatriotas. Temos que mostrar que somos uma geração capaz de pensar por si, de tomar as decisões acertadas, de lutar por aquilo em que acredita, mas que também é capaz de se conter, e de dar a mão a quem lhe pede ajuda.

Basta de conformismo, já chega de desabafos que terminem com “tem que ser”. Não podemos passar a vida à espera de dias melhores, está na hora de nos desenrascarmos, está na hora de sairmos à rua. Não para protestar, não para exigir mais que aquilo que é dado aos outros, mas sim para nos fazermos ouvir e para conquistarmos o nosso lugar de direito.

Está na hora de dizermos sim ao nosso futuro!

Monday, April 04, 2011

Dívidas

Descobrir a origem da crise pode parecer complexo, mas a sua explicação é relativamente simples: dívida. Hoje em dia não parece ser suficiente viver com aquilo que temos ao alcance da nossa remuneração. Queremos coisas, e para as ter recorremos ao crédito. Porquê contentarmo-nos com aquilo que podemos ter, quando é tão fácil ter aquilo que não podemos comprar?

Pedimos crédito para comprar uma casa. Pedimos crédito para comprar um carro. Se parássemos por aqui o desastre seria evitável, afinal não é qualquer um que tem 100 mil euros guardados para gastar de uma só vês, mas isto não é suficiente. Queremos coisas, outras coisas dispensáveis que não precisamos no imediato, e que para as ter bastaria poupar mais um pouco. Pedimos crédito para um computador. Pedimos crédito para as férias. Pedimos crédito para o próximo iPhone, iPad, ou para outro gadget qualquer, excessivamente sobrevalorizado. Pedimos crédito para tudo e mais alguma coisa, e quando começamos a pedir crédito para comer já é tarde demais.

As famílias endividaram-se, tentaram viver acima das suas possibilidades. Enquanto tiveram empregos fixos com salários regulares, de uma maneira ou de outra, lá conseguiam devolver o dinheiro da dívida aos bancos, e estes continuavam a respirar de alívio com o retorno do seu investimento acrescido de juros. Mas, de repente, os empregos deixaram de ser fixos, os salários deixaram de ser regulares, e o desemprego passou a ser o Pão Nosso de Cada dia.

Sem emprego, e sem dinheiro, os bancos levaram as casas, os carros e os iPhones. Quando tentaram vender as casas para recuperar o seu investimento, ninguém tinha dinheiro para as comprar, e aqueles que optaram por o fazer pagaram através de empréstimos e a preços mais baixos, pois assim ditava o mercado. Dívida atrás de dívida, com dinheiro a esvanecer que nem grãos de areia no vento, os bancos entraram em colapso e deixaram de emprestar dinheiro, vendo-se forçados a recorrer aos seus depósitos para pagar o seu próprio endividamento.

Aqueles que tinham contas no banco, aqueles que pouparam, viram o seu dinheiro desaparecer por causa dos outros que decidiram viver na ilusão de um mundo que nunca lhes pertenceu, em vez de aceitarem a dura realidade. O Mundo todo levou com uma lição de humildade, mas em vez de aprender com os erros do passado, continuou a agir da mesma forma.

Hoje, poupa-se em alimentação e em bens básicos para se mostrar aquelas coisas que não são precisas, nem tão pouco servem para nada. Um desempregado de longa-duração que arranja um emprego de três meses compra logo um carro de 30 mil euros, ou mais, apenas para o devolver quando passados os três meses regressa ao desemprego. Podia ter usado o dinheiro para alimentar a família, mas assim não o fez.

Trabalho há sete meses. Durante esses sete meses poupei e continuo a poupar. Ainda conduzo o meu carro que daqui a alguns meses fará 17 anos, não comprei outro, não pedi crédito, e tão cedo não o farei. Comprei um computador pois o meu já ia fazer cinco anos e não tinha as características necessárias para aquilo que eu preciso que ele faça. Juntei durante cinco meses e aguardei por uma promoção de uma loja de electrónica. Consegui poupar cerca de 200 euros. Também comprei outras coisas que embora úteis, não eram tão necessárias. Mas para o fazer pus dinheiro de lado, não gastei aquilo que não tinha.

O problema é puramente uma questão de mentalidade, de sensibilização para a atitude correcta. Não gastem aquilo que não têm, e tudo voltará à normalidade. Não se queixem da crise, façam algo para que ela termine. Não vivam das aparências pois, sinceramente, ninguém quer saber de vocês. Se querem mesmo algo, e se sentem que vale a pena fazerem um sacrifício para o ter, ponham algum de lado, poupem, e tudo tornar-se-á mais simples.

Há dias, no programa Quem Quer Ser Milionário, uma das participantes disse que 20 mil euros só davam para um carro usado. É este tipo de mentalidade que é necessário mudar. Com 20 mil euros não apenas se compra um carro novo bom, como se quiserem poupar mais um pouco podem ainda comprar um usado de gama alta por um preço ainda mais baixo. Nem tudo precisa de ser o melhor, ou o mais caro, e barato não é sempre sinónimo de baixa qualidade.

Se me permites ser directo, a crise é culpa tua, e de mais ninguém. A boa notícia é que ainda vais a tempo de mudar.

Thursday, March 24, 2011

O Meu Voto

Desde o nascimento deste blogue que sempre me demarquei de qualquer comentário político ou de análise da actualidade por achar que este espaço vale pela sua “inocência”, e pela divulgação de temas e pormenores que passam ao lado do comum dia-a-dia de qualquer outra pessoa. Contudo, dado os eventos que se passaram ontem, vejo-me forçado a violar esta promessa que fiz a mim próprio de forma a que a minha opinião possa ser lida e partilhada por todos aqueles que assim o desejem.

Nunca pensei algum dia votar ao centro, mas hoje não vejo outra alternativa que não votar PS. O Governo caiu ontem não por haver alguma alternativa viável ao Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) ontem proposto, nem por as medidas já implementadas serem demasiado severas, mas sim porque o Passos Coelho e o próprio PSD souberam analisar a actualidade política e tomaram a decisão de aproveitar este momento de fragilidade para assumir o poder, ou pelo menos tentar.

Se as medidas implementadas pelo PS fossem aprovadas, e se os resultados de diminuição do défice previstos no PEC fossem comprovados, o país ver-se-ia obrigado a dar o crédito onde é devido, e o PS não só quase certamente venceria as próximas legislativas com maioria absoluta, como o PSD seria relegado para um segundo plano da política nacional, mantendo-se afastado do poder durante vários anos.

O PEC ontem não foi discutido. Foram sim discutidas as ditas resoluções que ao serem todas chumbadas, determinaram que ao não haver uma alternativa viável o PEC proposto pelo actual Governo demissionário não poderia ser aprovado. José Sócrates ficou sem alternativa, restando-lhe apenas apresentar a sua demissão como tinha prometido. A verdade é que no debate de ontem à tarde na Assembleia da República, muito foi falado, muito foi criticado, mas poucas ou nenhumas soluções ou sugestões para a resolução da crise foram apresentadas. É fácil criticar, qualquer um o pode fazer, mas até ao momento, apenas o PS apresentou soluções e teve coragem para as implementar.

No rescaldo da noite de ontem, a primeira proposta de que o PSD se lembra, já em jeito de preparar a próxima campanha eleitoral, é de aumentar o IVA para 24 ou 25% de forma a salvaguardar as reformas e pensões. Ora, uma pessoa idosa a receber pouco mais que o rendimento mínimo já agora mal tem dinheiro para pagar os medicamentos e a alimentação, imaginem se o preço destes aumentar.

O problema, como sempre, está na desinformação do povo que acabará por naturalmente votar PSD só para experimentar algo diferente, sem se preocuparem em conhecer quais as suas políticas, e muito menos de as comparar com o actual PEC proposto pelo PS. Menos hipóteses terão os socialistas se José Sócrates se voltar a recandidatar. O povo vê em Sócrates a face da actual crise. E se o faz é por um bom motivo, porque de todos, ele foi o único que se sujeitou a dar a cara para implementar os passos necessários para a resolução da actual situação do país.

As políticas são severas? Paciência, a situação também o é. Se não estamos tão mal como a Grécia é porque Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças, agiu atempadamente aquando da crise imobiliária nos EUA. Por mais incompetente que José Sócrates possa ser, a verdade é que há gente competente no seio do seu Governo e é nessas pessoas em quem devemos acreditar.

Em vez de se queixarem continuamente da situação e de esperarem que tudo se resolva, mexam-se. Ajam! Não sejam meros reaccionários, aceitem as medidas que o vosso país vos pede e ajudem Portugal a sair da crise, mas não o façam de ânimo leve. Informem-se, procurem melhores condições se não estiverem satisfeitos com as que têm. Protestem quando o motivo para o fazerem tem valor e é fundamentado, não façam parte de uma oposição só porque sim.

A entrada do Fundo Monetário Internacional (FMI) é ainda evitável e não é algo que se deva desejar. Se aceitarmos ajuda do FMI teremos algum tempo para respirar um pouco melhor, mas mais cedo ou mais tarde a tremenda dívida externa que daí resultará, irá forçar-nos a maiores cortes, a subidas de preços exorbitantes, a racionamento dos bens essenciais, e a despedimentos em massa. É esse o futuro que o PSD propõe. É esse um futuro com o qual são capazes de viver?

Nas próximas legislativas votarei PS. Não me importo de remar contra a corrente de forma a defender aquilo que acho melhor para o país neste momento, mesmo que não concorde por completo com as suas políticas ou ideologias. Este é o meu sacrifício.