Thursday, January 09, 2014

Descartáveis Cápsulas do Tempo

Imagem DR
Everywhere I travel, tiny life. Single-serving sugar, single-serving cream, single pat of butter. The microwave Cordon Bleu hobby kit. Shampoo-conditioner combos, sample-packaged mouthwash, tiny bars of soap. The people I meet on each flight? They're single-serving friends.

Fight Club (1999) 

Esvaziar a reciclagem. Tem a certeza? Sim. Ok. Delete. Um clique. Feito. Nunca foi tão fácil apagar alguém da nossa vida. Fotos, vídeos, e-mails, mensagens. Simples zeros e uns, efémeros e descartáveis como a própria tecnologia que os sustém. Qualquer contacto, qualquer perfil, é facilmente bloqueado, “desamigado”, “apagado” para sempre. Como se nunca tivesse existido. 

Em tempos, guardávamos cartas, postais, álbuns, cassetes e fotografias soltas em caixas de sapatos, baús, ou envelopes. Escondidos para nunca serem abertos, salvo aquele rasgo de nostalgia que inevitavelmente nos assolava. Algumas cartas podiam ser queimadas, algumas fotos também, caso a superstição não falasse mais alto. Mas era mais fácil guardá-las num canto do armário, ou numa prateleira do sótão. 

Hoje não. Ninguém escreve cartas. Ninguém revela fotografias. Os próprios álbuns já são digitais. Apagá-los é, para uns, uma obrigação, um mal necessário, exigido pelas novas personagens na história da sua vida. Para mim, é impossível. As memórias estão lá. Os momentos aconteceram. Não vale a pena pensar o contrário. Negá-lo é mentir a nós próprios e não aceitar seguir em frente. Embora para alguns, o acto de apagar seja visto como uma forma de catarse, para mim não passa da cobarde opção de fugir pelo caminho mais fácil. 

Digitais ou analógicos, guardo os meus mementos. As velhas caixas de sapatos, hoje substituídas por pastas, as cartas por e-mails e mensagens, as fotografias por JPEGs. Saíram do sótão para um canto remoto do meu disco rígido. Naturalmente guardadas entre pastas de memórias, documentos de trabalho, jogos, e outros que tais. Permanentes. Facilmente acessíveis. Recuperadas, se necessário, mas nunca apagadas. 

Mantenho-as por perto, a aguardar pelo dia em que as possa rever, com saudade, mas sem mágoa, com nostalgia, mas sem dor. 

Mais difícil, talvez, seja apagar os seus contactos. Seja o número de telefone, ou a amizade virtual, fechar eternamente uma porta exige muito mais de nós do que o acto de apagar as lembranças físicas, ou a memorabilia, que alguém nos deixou. Difícil mas, infelizmente, comum. 

Fora um ou outro caso pontual, de contactos que se perderam na transição entre o MSN Messenger e o facebook, ou que relutantemente permanecem distantes desses mundos virtuais, posso afirmar que ainda hoje mantenho os contactos de todas as pessoas que tiveram algum papel na História da minha vida. 

Devemos sempre fazê-lo. Não sabemos quando esse contacto pode vir a ser útil. Seja por motivos profissionais, ou pessoais. Não sabemos quando alguém pode mudar. Não sabemos quando nós próprios podemos ser a pessoa indicada para as ajudar. Não sabemos. Nada sabemos. 

É uma visão pragmática, mas necessária. Ninguém consegue alimentar trezentos, quinhentos, ou mil amigos. O normal é mantermos um núcleo duro entre cinco e dez amizades, mais uns quantos conhecidos e colegas de trabalho. O resto não passa de conveniência. Amizades momentâneas, que ocupam o teu tempo naquela longa viagem. Pessoas que te ajudam quando estás em apuros numa tarefa que não dominas. Amigos de amigos, que os entretêm, e a ti também. Pessoas que alimentam o teu portefólio de contactos. Pessoas que existem para aquele momento, e nada mais. 

Todos os contactos são importantes. Ou pelo menos têm potencial para um dia o serem. Todas as memórias são necessárias. Ajudam-nos a definirmos quem verdadeiramente somos. Apagá-las é um desperdício de energia, e a negação de tudo aquilo que aprendemos com elas. 

Lembrem-se que quando apagam alguém, uma foto, uma carta, ou um e-mail, estão também a apagar um pedaço de vós. Construam a vossa cápsula do tempo, contacto a contacto, objecto a objecto. E guardem-na. Mesmo que nunca tenham intenção de a abrir, encontram conforto em saber que o podem fazer. 

O tempo cura todas as feridas, mas as memórias não são infalíveis. É bom ter algo que nos ajude a recordar quem fomos em tempos. Pequenos pedaços com o poder de nos salvarem se algum dia nos encontrarmos perdidos, nas encruzilhadas do nosso caminho.

Monday, December 23, 2013

O Regresso da Véspera da Véspera de Natal Parte VII

Design: Adriano Cerqueira
365 dias, 42 filhoses, 26 bilharacos, 15 indexações, 7 momentos de impacto, 2 rumos certos, um Mindo e 0 pencas depois, está de regresso o momento mais ignorado por toda a gente durante o ano, a Véspera da Véspera de Natal!

Era 23 de Dezembro. A noite antes da Véspera de Natal. A Véspera de Consoada. A Antevéspera. Enfim, era 23 de Dezembro. Como manda a tradição, o Zé estava a passear por um Centro Comercial qualquer, à procura das últimas prendas que, forçosamente, se deixaram ficar para o fim.

Enquanto lutava por entre as hordas de enraivecidas multidões que batalhavam pelo último bacalhau do Continente, como se este fosse a última Coca-Cola do Deserto. Patrocinado por uma bebida qualquer, como o Pôr-do-Sol daquela música. O nosso herói deparou-se com uma manjedoura algo perdida em um dos recantos daquele enorme não-lugar, edificado como hino ao capitalismo desbaratado.

Para seu espanto, esta manjedoura era a única coisa que, embora estivesse aberta, não tinha uma única fila para nela entrar. Levado pela curiosidade e pela necessidade de estar nalgum sítio onde pudesse esticar os braços sem que a sua mão se deparasse com as fuças de umas três ou quatro pessoas, o Zé dirigiu-se para a manjedoura.

Lá dentro estava o Menino Jesus, ora nas palhas estendido, ora nas palhas deitado. Jesus, o Jorge, também se encontrava lá, ajoelhado, a pedir a Deus que lhe concedesse as sete bolas de cristal, para que este pudesse chamar o Shenlong e pedir-lhe o desejo de continuar no banco do Glorioso por mais uns anitos.

Deus não parecia estar muito virado para lhe responder, mas o Menino Jesus ali estava, ora estendido, ora deitado, mas sempre nas palhas. Quando Jesus, o Jorge, terminou, chegou a vez do Zé. Jesus, o Menino, levantou-se e deu lugar à sua versão mais adulta. Não a que aparece no cartaz publicitário dos Pregos Garcia, mas a outra que andou a pregar pela Galileia, à la Diogo Morgado.

“Então moço, ‘tá tudo?”, perguntou Jesus.

“Meu, esse tipo de linguagem é tão 90’s que já chateia.”

“Bom, já estou um pouco farto de ter por aqui os espertalhões do costume que respondem ‘Tu não és meu pai’, sempre que lhes pergunto, ‘que te traz aqui, meu filho’.”

“Parece-me justo.”

“Ora não fosse eu Jesus, o Jorge… Quer dizer, o Cristo”.

“Honestamente, este ano não há propriamente algo que eu queira. Talvez, não ter que escrever esta história, fosse uma boa escolha. Mas tenho umas três pessoas que aguardam ansiosamente por este momento, ano após ano, e sinto que não lhes posso falhar.”

“Nesse caso, porque não ofereces a ti próprio um dia de descanso?”

“Mas, se não sou eu a valorizar o Dia 23 de Dezembro, quem o fará? O Eusébio, e a sua toalha? O Bruno, que é de Carvalho? A Menina do Gás? O Capitão Planeta? O Vasco da Gama? Um El-rei D. João, o segundo, o quarto, ou o sexto? O Fernando Pessoa?”

“Não sei, talvez possa ser o…”

“…não esse não! Esse, jamais (leia-se jamé como os franceses o fariam)”

Mas antes que o Zé pudesse concluir, a voz que todos temiam deixou-se entrar pela manjedoura a dentro.

“Isso é subjectivo”, respondia o Mindo, esse ser inexplicável daquela terra desconhecida, chamada Brasil.

“Rápido, finge que estás a ler, ou a olhar pela janela”, disse o Zé para Jesus, o Cristo.

O Mindo ficou confuso. Mindo usa arreliar. É super eficaz.

“Na verdade Zé, não tem mal nenhum em tirares um dia para ti. Fazer algo em cima do joelho, não merece a pena. Por vezes é bom parares para reflectires, e assim puderes escolher o caminho que o Senhor melhor indicou para ti”, concluiu o Mindo antes de esvanecer tão depressa como apareceu.

Jesus acrescenta, “sim, basta seguires o caminho por aquele corredor. Na esquerda tens umas escadas de acesso ao parque subterrâneo. Ninguém as usa, é uma boa forma de evitares a multidão.”

O Zé agradece e dirige-se para a porta da manjedoura, mas antes de sair, hesita e dirige-se uma vez mais para Jesus.

“Imagino que a maioria das pessoas que te procuram pedem conselhos, os números do Euromilhões, ou um jagunço para ir dar uns belos tabefes no Primeiro-Ministro e no seu Vice – a não confundir com a revista, site, ou seja lá o que aquilo for.”

“Podes crer, esta malta tem falta de originalidade, ou de inspiração digamos assim”, responde Jesus.

“Nesse caso, e embora eu saiba que o teu aniversário é apenas a 17 de Abril, dou-te os meus parabéns, este bolo de chocolate com cobertura de maçapão, e ainda uma camisola do Sporting CP, com o número 12, como presente.”

Jesus, paralisado de felicidade, e sem palavras perante este gesto tão atencioso, levantou-se e abraçou o Zé como se fossem velhos conhecidos que já não se viam há anos.

O Zé seguiu para casa e decidiu descansar. “Este ano vou dormir até tarde, dar um salto aos correios, ir para a Lan com o pessoal, e à noite vou ao Glicíneas ver o The Hobbit, A Desolação de Smaug”. Afinal, nada melhor do que homenagear um dia em particular, depois deste já ter acontecido.

Hoje já não é o dia 23 de Dezembro, mas no fundo, todos os dias são 23 de Dezembro. Excepto hoje, pois hoje é Noite de Consoada. Véspera de Natal. Noite de ceia feliz. Noite de Paz. Noite de família. Noite de folia. Mas, uma coisa, certamente não o é. Não é noite de Pencas.

Morram Pencas, morram! Pim!

Thursday, December 05, 2013

A Mais Bela das Artes

Hard Club, Porto, Foto: Blitz
Music has always been a matter of Energy to me, a question of Fuel. Sentimental people call it Inspiration, but what they really mean is Fuel. I have always needed Fuel. I am a serious consumer. On some nights I still believe that a car with the gas needle on empty can run about fifty more miles if you have the right music very loud on the radio.

Hunter S. Thompson

A Música é uma constante. Define momentos. Alimenta a nostalgia. Afoga o silêncio. Enche o espaço. E recarrega a alma. Entretém-nos em longas viagens a sós. Inspira-nos. Apazigua uma manhã parada no trânsito. Dá cor a uma conversa. Liga-nos. Liberta-nos. Desbloqueia o preconceito. Desinibe o nosso corpo. Faz do sonho, realidade.

Cada um de nós tem as suas histórias. As suas canções. “Há quanto tempo não ouvia isto”. Um simples acorde e somos levados para outro tempo, para outro lugar. Um refrão, e um sorriso toma conta da nossa face. Um excerto de uma letra, e os nossos olhos enchem-se de lágrimas. Cada melodia, uma reacção diferente. Distinta de ouvinte para ouvinte. Sempre pessoal, nunca indiferente.

Há diversos momentos que associo a uma música, a uma banda, ou a uma letra em particular. Muitos, demasiado pessoais para os poder partilhar. Alguns onde uma determinada música, ou um concerto por inteiro, são os principais protagonistas. E outros em que a letra de uma música transporta os meus pensamentos para outros universos, realidades distintas da nossa, ou simples recordações.

Um desses momentos foi a primeira vez que ouvi a Untouchable dos Anathema ao vivo. Reservei a data do concerto no Hard Club do Porto com alguns meses de antecedência. Sempre presente na minha agenda, ficou esquecido nos recantos da minha memória. Por falta de tempo, e de pesquisa, ignorei o facto de os Anathema terem lançado um novo LP, o Weather Systems. O concerto ia ser o meu primeiro contacto com este álbum.

Por entre músicas familiares, surgiu a Untouchable. Mesmo hoje, sou incapaz de descrever o que senti naquele momento. A energia que me envolveu. As emoções que trespassaram o meu coração, e ganharam vida naqueles segundos. Ouvi cada acorde, cada letra, com completa atenção. Fiquei paralisado com a beleza daquela melodia. Naquele instante, nada mais existia. Apenas o belo e sereno aroma de algo que, tão profundamente, toca na tua alma, e que se deixa envolver num terno abraço de compreensão e empatia.

Uma surpresa agradável. Uma experiência irrealizável.

A música também pode servir como uma escapatória. Um meio para libertar frustrações e limpar a tua mente de pensamentos negativos. Em 2011, por obra do acaso, o dia de defesa da minha tese de mestrado coincidiu com a data do concerto dos Within Temptation no Coliseu do Porto. A prenda ideal, a celebração necessária para apagar toda e qualquer tensão que aquele dia podia revelar. E assim foi. Saí do concerto sem voz. Numa noite fria de Outubro, estava completamente suado da cabeça aos pés. Saí de lá sem energias, e com uma sede dos diabos. Mas sentia-me livre. Pronto para um novo começo.

Foram vários os concertos marcantes a que já assisti. Do inigualável espectáculo dos Bon Jovi em 2008, até ao sonho tornado realidade de ver os New Order ao vivo, na sua última tour em 2005. Poder cantar todas as músicas daquela que é a minha banda de “todos os tempos”, tão próximo deles. Vê-los a corresponder ao meu pedido para que tocassem a Regret. Sentir de perto a melancolia da última despedida de uma banda com décadas de existência, e incrivelmente desconhecida pela grande maioria da minha geração.

Incontáveis histórias. Entre concertos, festivais, álbuns, vinis e CDs. Incontáveis momentos. Vividos na companhia desta eterna constante da própria condição humana. Uma arte única. Um acto de criação que nos eleva mais próximos do divino. A eterna vitória sob o inóspito e silencioso desconhecido destino.

Mesmo enquanto escrevo estas palavras, ouço atentamente à inspiradora melodia de Explosions in the Sky. Agarro-me a eles para apagarem o silêncio, para orientarem os meus pensamentos, e para guiarem os meus dedos, na construção desta sinfonia literária que, também ela, reflecte nos seus parágrafos cada nota, e cada composição, da mais bela das artes. A música.

Thursday, November 14, 2013

As Terras do Meu Verão

Foto: Janela em Belmonte; Autor: Adriano Cerqueira
Portugal
  • Albergaria-a-Velha (Transbordo)
  • Arada (Produção “No Rumo Certo”)
  • Aveiro (Compras&Utilidades, Visita)
  • Belmonte (Almoço, Visita)
  • Cascais (Visita)
  • Covilhã (Residência, Visita)
  • Espinho (Cinanima, Visita)
  • Estarreja (Visita, Concerto Luísa Sobral)
  • Lisboa (DocLisboa, Visita)
  • Porto (Aeroporto, Compras&Utilidades, Festival da Francesinha)
  • Marinha (Festival da Francesinha, Produção “No Rumo Certo”)
  • Miramar (Almoço)
  • Oliveira de Azeméis (Visita)
  • Santa Maria da Feira (Feira Medieval)
  • São Jacinto (Praia)
  • São João da Madeira (Cinema, Compras&Utilidades)
  • São João de Ovar (Produção “No Rumo Certo”)
  • São Vicente de Pereira (Produção “No Rumo Certo”)
  • Torre (Visita)
  • Torreira (Visita)

Reino Unido
  • Londres (Estadia, Visita)

  • Abbey Road
  • British Museum
  • Buckingham Palace
  • Camden Town
  • Green Park
  • Harry Potter Platform 9 3/4
  • Her Majesty’s Theatre (The Phantom of the Opera)
  • Houses of Parliament
  • Hyde Park
  • Lambeth North (The Steam Engine)
  • London Eye
  • King’s Cross
  • M&M’s World
  • Museum of Natural History
  • Notting Hill
  • Piccadilly Circus
  • Portobello Road
  • Royal Albert Hall
  • Science Museum
  • St. James Park
  • Tate Modern
  • Thames River Cruise
  • Tower Bridge
  • Tower of London
  • Trafalgar Square
  • Victoria Station
  • Westminster Abbey

  • Stansted (Aeroporto)

Thursday, November 07, 2013

Difícil simples gesto de Amar

Foto DR
The Beatles, they had it all figured out, okay? 'I Want to Hold Your Hand.' The first single. It's effing brilliant, right?... That's what everybody wants... They don't want a twenty-four-hour hump sesh, they don't want to be married to you for a hundred years. They just want to hold your hand.

Rachel Cohn, Nick & Norah's Infinite Playlist

Encontro-me, por vezes, a pensar sobre os valores que fomos esquecendo. Escondidos por trás de um véu de conformismo paradigmático. De uma liberdade ilusória que nos encaminha para a solidão. Os Beatles acertaram logo no início. Apenas queremos dar a mão. Um gesto tão simples, tão profundo, tão doce, tão carinhoso, tão inocente, tão vulnerável. Um gesto tão real, hoje banalizado como o vazio de Amor de um romance promíscuo e efémero.

Damos a mão. Mas não sabemos amar. Esquecemo-nos. Gritámos por liberdade. Por uma sociedade sexual. Aberta. Sem tabus. Conseguimo-lo. Libertámo-nos. Mas esquecemo-nos de amar.

É comum vermos online uma foto de um casal de idosos, juntos há mais de 75 anos. A mensagem, traduzida ou não, é sempre a mesma. Um repórter pergunta ao senhor qual o segredo da longevidade do seu casamento. Ele responde, “no nosso tempo quando algo se partia, arranjávamos, não deitávamos fora.”

Hoje, é raro isso acontecer. É mais fácil desistir perante a primeira adversidade, do que trabalhar sobre o assunto, e encontrar uma solução para a ultrapassar. É comum ver um casal a separar-se mal esbarram contra a primeira barreira. Seja por falhas de comunicação, ou desinteresse. Por um exagerado facilitismo, ou ausência de motivação. Por falta de entrega. Por promiscuidade. Por serem demasiado liberais. Ou, por simplesmente, não se estarem para se chatear. Usam-se, e deitam fora, como uma pastilha elástica que já perdeu o sabor.

Não é suficiente dar as mãos. Saltam de uma amizade com benefícios para a seguinte. Dizem “amo-te” se for necessário. Mas não amam. Não fazem amor. São apenas dois corpos a saciarem-se. Dois corpos que não comunicam. Que se desapegam, culminado o seu prazer. São dois. Nunca um. São sexo. Nunca amor.

Não condeno one night stands. Nem tão pouco coloridas amizades, benéficas de mútuos acordos, tão mecânicos e impessoais, que não conseguem ser mais profundos que uma mera visita às Finanças. Não condeno a liberdade sexual. É um direito nosso. Um direito de experimentar diferentes formas de prazer, de nos explorarmos a nós próprios. De nos conhecermos melhor.

Condeno sim, a banalização do Amor. Condeno esta aparente apatia pela perda de um valor base. De algo que define a nossa própria existência. De algo que dá sentido à vida. De algo tão indescritível, de tanto bem que nos faz. Condeno o esquecimento da importância de amar. De sacrifício. De ultrapassar obstáculos. A dois, como um. Condeno a proliferação de uma vida a sós, eternamente promíscua e desprovida de compromisso.

“Não queremos uma sessão de 24 horas de sexo. Não queremos estar juntos até aos cem. Queremos dar as mãos.” Sentir o afecto um pelo outro. Amar. Saborear este pequeno momento. E, de mãos dadas, ultrapassar todos e quaisquer obstáculos que encontramos pelo caminho.

Amar é assustador. É uma entrega total. Impossível de explicar, mas fácil de compreender. Nem todos somos capazes de o fazer logo desde o início. Embora nasça connosco, precisamos de crescer para sermos capazes de o ouvir. Algo que era tão fácil na nossa infância, mas que esquecemos na adolescência. Todos. Cada um a seu ritmo. Aprendemos a amar. Aprendemos a nos entregar a quem amamos. Aprendemos a aceitar o Amor de braços abertos. A arriscar. A sermos felizes.

Não podemos sucumbir ao medo. À mágoa. À possibilidade de um desgosto. É natural temer pela incerteza do futuro. Mas esqueçamos isso. Apenas queremos dar as mãos. Os dois. Apenas queremos amar. A dois. Apenas queremos este momento. Para nós. Mas hoje, apenas queremos dar as mãos.

And when I touch you I feel happy inside, it's such a feeling that my love... I can't hide. You got that something, I think you'll understand. When I say that something, I want to hold your hand.

The Beatles, I Want To Hold Your Hand