Monday, May 13, 2013

O Escudo está Velho e Cheio de Verdete

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Na velha sala da minha avó tinha por hábito guardar uma série de papéis e documentos com pouca ou nenhuma importância. Por conveniência deixava-os ali, alinhados por detrás de uma figura de porcelana que ilustrava uma fadista e uma guitarra portuguesa eternamente imortalizadas em concerto. 

Ontem, ao início da tarde, decidi perder alguns minutos a organizar aquela papelada. Entre cartões caducados, horários de turmas, velhos recibos, postais e calendários, metade dos quais acabou no ecoponto, encontrei uma cesta meio escondida por entre as prateleiras. A cesta continha uma série de caricas e de porta-minas vazios. Lixo. Lixo peganhento e coberto de pó. Apenas lixo não fosse o pequeno tesouro que se escondia por debaixo deste entulho aleatório. Um tesouro pobre composto por algumas pesetas, uma moeda de duzentos escudos e outra de vinte e cinco, ambas cobertas de verdete.

Apesar de ainda guardar algumas moedas iguais a estas em bom estado, optei por as salvar. Embora espere ter sucesso na sua restauração, o mesmo não posso dizer em relação ao Escudo. Messias e bem-aventurado salvador da Pátria, nos últimos tempos, temos presenciado o crescimento de um movimento anti-Euro e pró-Escudo nunca antes visto. 

Os seus assinantes olham para a velha moeda como a resposta às nossas preces de crescimento económico e criação de emprego. Vêem o Escudo como o mítico D. Sebastião, por fim regressado das brumas. Dizem-se cientes das consequências dessa eventual operação. Afirmam serem capazes de resistir à deflação e não se importam de ver as suas poupanças reduzidas a ninharias. Contudo, falham ao serem incapazes de compreender o quão frágil é o Calcanhar de Aquiles da nossa velha moeda: A inexistente produção nacional.

Sim, o escudo permitir-nos-ias controlar as nossas próprias finanças sem um grande controlo do Banco Central Europeu. Podíamos valorizá-la ou desvalorizá-la “à vontade”, adaptarmo-nos aos mercados e injectar capital sempre que o achássemos necessário. Podíamos reduzir as taxas de cambio e tornar os salários mais atractivos para as grandes multinacionais que na década de 1990 tanto nos ajudaram a empregar e a enriquecer a população. Contudo, até chegarmos a esse ponto, teríamos que viver no limiar da pobreza extrema durante um período nunca inferior a dez anos. 

Portugal não possui neste momento produção nacional suficiente para alimentar uma população de 10 milhões de habitantes. Temos terrenos, culturas e pessoas, mas não os estamos a usar. As sementes não são plantadas e ninguém está disposto a regressar ao campo para pôr as mãos à obra. 

Com o regresso do Escudo, a comida que hoje custa um euro no supermercado não irá custar 200 escudos amanhã, mas sim mil, se não mais. Importamos demasiados produtos básicos para que a nossa produção seja sustentável. Somos limitados internamente por normas europeias que visam impedir uma excessiva competitividade de preços dos bens básicos entre os estados membros da União Europeia. 

A descida dos salários e a desvalorização das poupanças que a saída do Euro irá provocar faria com que uma grande maioria da nossa população simplesmente deixasse de ter dinheiro para comer. A actual onda de emigração seria ridícula em comparação com o êxodo que nos veríamos forçados a presenciar. Enquanto hoje em dia as pessoas apenas abandonam o país para encontrarem melhores condições de vida e empregos qualificados com melhores condições salariais, com a saída do Euro, muitos portugueses teriam que sair apenas para sobreviver. 

Que futuro para esses emigrantes? Serem explorados e maltratados como acontecia há 30 e 40 anos atrás? Teria a Europa ou qualquer outro país capacidade para os empregar? Fechar-nos-iam as fronteiras como se de uma praga se tratasse? Espero nunca vir a saber a resposta a estas questões.

A altura para sair do Euro não é agora, mas sim há doze anos atrás. O erro não foi continuarmos no Euro, mas sim, termos aderido à moeda única. Perdemos a competitividade do Escudo e perdemos a nossa capacidade de auto-gestão da nossa economia. Era cedo. Fomos imprudentes. Paciência. A cama está feita.

Mas ao continuarmos no Euro não estamos condenados a ciclos contínuos de crescimento e austeridade? Não valem a pena esses dez, vinte, ou até mesmo, quarenta anos de sofrimento para depois podermos recuperar o controlo da nossa economia? Se formos capazes de aprender com os erros cometidos na última década, não.

O Euro é hoje uma moeda frágil por ter ambicionado a tornar-se forte demasiado depressa. Sofremos um duro golpe com o lobby do dólar e optámos por nos manter independentes e por deixar a gestão das contas públicas a cada um dos estados da Zona Euro. A solução passa por desistirmos deste tipo de imposição narcisista. 

A Europa apenas será forte se for capaz de funcionar como um só. Não pode existir uma gestão de contas públicas país a país. Essa gestão tem que ser global e partilhada. Todos os estados membros devem partilhar os gastos assim como os ganhos. Deve existir um salário mínimo único e regulado em todos os países da Zona Euro. Uma única dívida. Um único PIB. Basta de desigualdade social entre o sul e o norte da Europa. Se querem uma moeda única, não basta existir um Banco Central, é necessária uma gestão central, um governo central.

Mantenhamos o nosso poder executivo, legislativo e judicial, mas deixemos a nossa economia ser aglomerada com as dos restantes países. É esse o caminho que devemos caminhar. É esse o sonho da União Europeia e a única forma de construirmos uma economia forte, sólida e capaz de competir directamente com o Brasil, com a Rússia, com a Índia e com a China. 

A Europa é o continente com as melhores condições de vida, de saúde, de segurança e de protecção social em todo o Mundo. Para quê fecharmo-nos no nosso cantinho e desligarmo-nos das maravilhas que uma Europa Unida nos tem para oferecer? 

Por mais saudades que eu sinta do Escudo, aceito hoje o Euro e espero que este não nos deixe tão cedo. O Escudo é uma peça de museu e um ícone da nossa História. Nada mais. 

O Escudo está velho e cheio de verdete. Não vale a pena restaurá-lo.

Wednesday, May 08, 2013

Viver Portugal

Foto: Adriano Cerqueira
Em qualquer aventura, O que importa é partir, não é chegar. 
Miguel Torga

Uma boa viagem não é medida apenas por aquilo que encontramos quando atingimos o nosso destino, mas sim pelo caminho que percorremos até o alcançar. Por cada passo. Por cada pessoa que encontramos. Pelas experiências. Pelos obstáculos e pelo engenho para os ultrapassar.

Quando era pequeno, raro era o fim-de-semana que não passava a conhecer uma nova cidade ou região. Cresci a viajar por cada canto de Portugal. Provei diversos pratos, na altura ainda exóticos para uma criança que pouco sabia além do mundo dos livros e desenhos-animados que alimentavam a sua imaginação. Visitei castelos, museus, igrejas, santuários, reservas naturais e parques geológicos. 

Fui dos primeiros visitantes a ver de perto as pegadas de dinossauro na Pedreira do Galinha na Serra de Aire. Quase que sentia a presença da extinta manada de dinossauros de pescoços longos a acompanhar-me no meu passeio. Embora nada restasse desses animais além das suas pegadas, sentia-me como a personagem Alan Grant numa das cenas iniciais do Jurassic Park.

Apaixonei-me pelas estrelinhas da Pastelaria Milano em Fátima e provei todos os tipos de Pão-de-Ló. Também passei os meus verões no Algarve. Empanturrei-me com os doces de Tavira e com as Bolas de Berlim dos vendedores ambulantes. Mergulhei nas praias da Ilha de Faro. Vi os ninhos de gaivotas nas Berlengas. Presenciei de perto o Rally de Portugal na Serra do Caldeirão. Subi à Torre dos Clérigos. Ao Bom Jesus de Braga. Entrei no Navio Gil Eanes. Visitei o Oceanário e todos os pavilhões da Expo 98. Estive na Aldeia da Luz antes das águas do Alqueva a levarem. Atirei bolas de neve na Serra da Estrela. Ri-me com o formato e desenho das canecas das Caldas. Passeei por dentro das muralhas do Castelo de Guimarães. Vi os moliceiros navegar por entre as Garças na Ria de Aveiro. Parti em viagem e regressei a casa para me maravilhar com as casas enfeitadas de azulejo e com o ritmo do Carnaval de Ovar.

Visitei os 18 distritos, entre capitais, cidades, vilas e aldeias. Aventurei-me pelo conhecido e pelo desconhecido do nosso país. Olhando hoje para trás, apenas desejo poder um dia voltar a fazê-lo. 

A Globe Spots elegeu recentemente Portugal como o melhor destino turístico de 2013. Segundo o P3, esta agência destaca o "velho charme europeu" do país e as "cidades medievais e quarteirões históricos", cheios de praças, igrejas e mosteiros, assim como os "bairros típicos, onde a roupa colorida seca à janela". Uma imagem simplista que apenas abre o apetite para a variada e saborosa refeição que é o nosso país. 

Embora o termo “Férias” seja uma palavra cada vez mais utópica no imaginário do comum português, existem opções de baixo custo a um pequeno passo da nossa porta. Sim, é possível organizar uma viagem pela Europa Central a um preço mais baixo que uma semana no Algarve. Mas há muito mais para fazer em Portugal do que apenas praia. Mesmo essa também é agradável na costa Alentejana e em pontos estratégicos do Litoral Norte. Todas elas a preços mais agradáveis para a vossa carteira.

Passei a minha infância em viagem. Um privilégio que nem todos puderam desfrutar. Se tiverem essa oportunidade não a desperdicem. Conheçam o nosso país. Visitem-no. Provem-no. Conquistem-no. Amem-no. Façam-no para que um dia possam dizer com orgulho: “Eu Vivi Portugal!” 

Tuesday, May 07, 2013

O dia em que nada fiz

Passava pouco das seis e meia da manhã quando acordei de sobressalto. O meu braço doía, estava dormente. Abri a boca para respirar como se da primeira vez se tratasse. Arrastei a minha mão para o lado em esforço. A pouca mobilidade que restava ao meu braço era apenas suficiente para redistribuir o peso do meu corpo. 

Fiquei ali. Deitado. Ligeiramente ofegante. À espera. À espera que a circulação regressasse. À espera para voltar a ter forças para me mexer. Sentia o calor dos primeiros raios de sol a penetrarem no meu quarto através dos interstícios da persiana. Aguardei alguns momentos até poder sentir novamente a minha mão. A vida. A força. A agilidade tinha regressado. Finalmente era capaz de me mover.

Virei-me de barriga para cima e direccionei o meu olhar para o tecto. Fechei os olhos durante alguns momentos. Mantinha-os cerrados na tentativa que o sono regressasse. Não me lembro. Não me consigo lembrar. Estaria num local feliz ou a fugir de outro pesadelo. Não me consigo lembrar. Abri os olhos.

O sol incidia com maior intensidade através da janela. Voltei-lhe as costas e estiquei o braço. Embora o meu quarto começasse a ter alguma claridade, grande parte ainda permanecia envolvida na escuridão da noite. Procurei o meu telemóvel na mesa que mantenho convenientemente distanciada da minha cama. É mais fácil convencer o meu corpo a largar o seu terno e confortável abraço se uma vontade maior me obrigar a levantar. 

Encontrei o meu telemóvel e puxei-o para mim. Fiquei incrédulo a olhar para as horas. Era cedo. Demasiado cedo para alguém que apenas se tinha deitado à uma da manhã. Coloquei-o de volta na mesa e tentei adormecer. Acordava atordoado de tempos a tempos sem nunca conseguir regressar ao meu sonho. Sem nunca conseguir voltar a descansar.

Sete e meia. Aquele toque inconfundível despertava-me de um estado de profundo ennui. Calei-o com o deslizar de um dedo. Tenho saudades do meu despertador de casa. De acordar com a rádio e não com um toque cíclico, impessoal e imelodioso. É tão anti climático silenciá-lo assim. Sinto falta de carregar com força num botão duro e rugoso e de violentamente martelá-lo por inúmeras vezes. Forçá-lo ao silêncio a cada nove minutos até àquele momento de auto-realização em que descubro que estava a pressionar o botão errado. 

Tenho saudades do despertador do meu quarto. Este é o meu quarto, mas não é o meu quarto. Não é o meu quarto, é apenas meu. 

Voltei a cerrar os olhos. Mais meia hora. Pensava. A latência tomou lugar e o tempo passou. Lentamente contava os minutos. Sem adormecer. Sete e quarenta e três. Sete e quarenta e sete. Às oito acordo. Às oito.

Eram oito e seis quando o tempo começou a acelerar. Oito e um quarto. Tinha que sair de cama. Era tarde. Não me sentia atrasado. Mas estava. Muito atrasado. Levantei-me e o tempo regressou ao seu ritmo natural.

Abri a janela. Sol. Uma mentira que ameaçava ter curta duração. As montanhas prolongavam-se até ao horizonte. Silêncio. Apenas o som constante da queda de água alimentava os meus ouvidos. Abri as gavetas e procurei a roupa que ia usar naquele dia. Queria apenas regressar à minha cama. Regressar a um sonho qualquer. Mergulhar nesse mundo e deixar-me envolver pelos lençóis. Perder-me eternamente num profundo relaxamento. Perder-me até que a vontade de acordar fosse mais forte que o sono.

Oito e cinquenta e três. Estou a olhar para o frigorífico. O pacote de soja que ontem tinha aberto não estava lá. Não estava lá. Talvez se tenha estragado de um dia para o outro. Encontrei-o no armário e ainda estava por abrir. O anterior ainda tinha um resto que eu guardei do fim-de-semana. Usei-o ontem. Agora lembro-me. Derramei os cereais e deixei-os envolver pelo líquido de soja. Tomei o pequeno-almoço com uma lenta pressa. 

Olhava para o relógio da cozinha enquanto comia. Trocava o meu olhar entre o prato e o relógio. O prato e o relógio. Silêncio.

Mais ninguém estava acordado. Apenas eu. Apenas eu. Eram nove e dez. Sem tempo para lavar o prato dirigi-me para o quarto. Calcei-me. Peguei nas chaves e saí. Começava a descer as escadas quando reparei que o elevador ainda ali estava. 

Não tenho por hábito usá-lo. Não para descer. Nunca para descer. Mas hoje abri a porta e entrei nele. Saí para a rua impressionado com o agradável calor que se fazia sentir. Ontem ameaçara chover, sem efeito.

Cruzei-me com estranhos. Alguns inéditos nestes meus passeios matinais. Outros, já conhecidos por frequentarem aquele local àquela hora. A todas as horas de tudo o que eu sei. Pois deles nada conheço além da sua habitual presença. 

Estavam menos carros estacionados no passeio. Menos do que é costume. A passadeira estava verde e algumas pessoas já passeavam e conversavam umas com as outras, ou apenas consigo próprias. 

Apanhei o elevador quando este estava a descer. Oito e vinte e três. Aguardei. Ontem estava avariado e vi-me forçado a descer aquela escadaria. Parava de tempos a tempos para contemplar a paisagem. Parava de tempos a tempos, pois olhar para o chão não me favorecia tão pouco as costas ou o pescoço. 

Chegou a minha vez. Calculei o tempo máximo de espera para alguém que tivesse o azar de o perder mal este iniciasse a sua descida. Ou a sua subida. Quatro minutos. Maios ou menos. Não é uma ciência exacta. Eu não sou exacto.

Chegado cá abaixo comecei a andar. Encontrei um tazo no chão. Estava estragado. Olhei para ele e continuei a andar. Ignorei-o como ignorei as cartas rasgadas daquela noite. 

Nove e meia. Cheguei ao meu destino. Não me atrasei. Nem um minuto. Estava atrasado quando acordei. Estava. Não estou. Não mais.

Era manhã quando acordei. O sol iluminava o meu quarto. Agora é tarde e já há muito que estou acordado.

Monday, May 06, 2013

A Hipérbole das Redes Sociais

Imagem DR
Uma hipérbole não é apenas uma figura de estilo. Aqueles que prosseguiram os seus estudos em matemática até ao final do secundário devem-se lembrar que uma hipérbole pode ser definida como um lugar geométrico de pontos para os quais a razão das distâncias a um foco e a uma recta (chamada de directriz) é uma constante maior ou igual a 1. 

Contudo, não me parece que esta definição seja capaz de vos reavivar a memória. Uma hipérbole compreende duas curvas sem intercepção, chamadas de "braços", que separam os focos. Conforme a distância dos pontos da hipérbole aos focos aumenta, a hipérbole começa a aproximar-se de duas linhas, conhecidas como assimptotas. Este termo já vos diz alguma coisa, certo? Mas ainda não estão bem a ver o que é? 

Bom, a equação mais simples para definir uma hipérbole é y = 1/x. Façamos assim, dou-vos um minuto para irem buscar a vossa velhinha máquina gráfica da gaveta onde a esconderam na esperança de não mais a terem que usar. 

Já a têm? Aposto que perderam uma boa meia hora a jogar puzzle bubble ou um dos outros jogos que todos programámos na máquina para nos entretermos durante as aulas mais entediantes. Experimentem colocar a função y = 1/x. Vêem as duas curvas a aproximarem-se dos eixos do x e do y sem nunca os tocarem? Isso é uma hipérbole. Precisei de 228 palavras só para chegar a um ponto que pouco tem a ver com aquilo que eu queria realmente abordar. Vamos lá tentar outra vez.

Uma hipérbole não é apenas uma figura de estilo. Hipérbole é também o nome de uma função matemática que representa uma curva que se aproxima constantemente de um ponto sem nunca o alcançar. A nível pessoal é aquilo que acontece com a minha capacidade de captação de seguidores nas redes sociais. 

Quando iniciei a minha actividade no twitter recebia diariamente diversas notificações sobre os novos seguidores que por um motivo ou outro lá se lembravam de me adicionar. Muitos apareciam através dos contactos com quem eu falava, isto ainda antes do twitter bloquear a visibilidade dos replies, outros por se interessarem por aquilo que eu tinha para dizer. Chegava a fazer mais de cem tweets por dia entre notícias partilhadas, pensamentos e conversas com os restantes utilizadores.

Sentia-me como se tivesse regressado aos tempos do mIRC. Conhecia pessoas novas todos os dias, comecei a estabelecer uma base de contactos e passei a usar o twitter mais pela componente social do que pela partilha de conteúdos. Com o tempo esta euforia foi diminuindo. Não apenas por causa do bloqueio das conversas alheias, mas também pela minha indisponibilidade para perder tempo com esta rede social. 

Apesar disso, raro é o dia que eu não partilhe uma notícia ou um pensamento no twitter. Já não o encaro como uma versão microblogue do mIRC, mas continuo a preferi-lo ao facebook. Raramente opto pelo share em detrimento do tweetar sempre que leio uma notícia ou outro conteúdo qualquer que me pareça digno de ser partilhado. 

Nos últimos dias ao olhar para o meu número de seguidores no twitter e de amigos no facebook, cheguei à conclusão que não sou capaz de captar mais do que 500 pessoas a aderirem à minha rede. Há já vários meses que o meu número de seguidores no twitter não passa dos 490. No momento em que escrevo este artigo são apenas 487. Lembro-me de um dia ter chegado aos 496. Muito perto do limite psicológico de 500 utilizadores, contudo, falta-me algo para lá chegar. 

Já no facebook, a marca dos 500 amigos foi ultrapassada de forma quase banal há alguns meses atrás. São neste momento 523. Este número é preenchido na sua maioria por colegas do meu curso e dos diversos empregos que tive nos últimos anos. Também lá estão os meus amigos, amigos de amigos e uma ou outra pessoa que conheci num evento, fosse ele social ou não, e que por lá ficaram. 

Já fiz uma análise aprofundada sobre a origem dos meus contactos do facebook. Podem relembrá-la aqui, ou simplesmente ignorar esta frase e continuar a ler esta minha epifania. Ainda estão a jogar puzzle bubble? Tenham cuidado, não gastem as pilhas da máquina antes de experimentarem a equação que eu referi lá em cima. 

O que me tem perturbado nos últimos dias é precisamente o facto desta minha bolha social não se conseguir expandir além dos 500 contactos. Valor esse que já por si é bastante inflacionado. Basta olhar para a minha página profissional do facebook que ao fim de três meses tem apenas 68 likes, sendo que apenas 58 dos quais pertencem aos meus contactos. Isto significa que pouco mais de 10% dos meus amigos do facebook querem realmente saber sobre aquilo que eu faço.

O que posso então fazer para atrair mais pessoas a verem aquilo que eu tenho para dizer? Acusaram-me uma vez de ser demasiado consensual. Dificilmente conseguiria fazer com que mais pessoas lessem o meu blogue se não começasse a ser mais parcial e controverso. Por mais bem escrito que seja, um artigo apenas suscita interesse se conseguir apelar às emoções mais cruas da alma daqueles que o lêem. A verdade é que embora continue a investir na imparcialidade das minhas observações, ao longo dos anos os textos que conquistaram um maior número de visualizações foram precisamente aqueles que apelavam às minhas emoções. 

Encontro-me assim preso a um limite psicológico de contactos e visualizações que, de certa forma, vejo como um forte elemento desmotivador. Esta baixa rede de alcance não reflecte a qualidade e o interesse dos meus conteúdos. Mesmo nos momentos em que me aventurei no comentário político e nos manifestos activistas pouca visibilidade alcancei além de uma partilha ou outra no Google Plus e de um ou dois likes no facebook. Alcance que seria bastante maior se tivesse sido escrito por outra pessoa que não eu. 

Não seria necessário ser alguém famoso ou uma rapariga atraente a fazê-lo. Diariamente vejo textos e artigos de pessoas anónimas e com pouca qualidade de escrita a serem partilhados e difundidos pelas redes sociais. Sejam eles relatos de injustiças ou simples apelos emocionais. Independentemente da sua natureza, posso sempre dar um ou mais exemplos de artigos similares que eu próprio escrevi em tempos mas que não mais de 100 pessoas os leram. 

O que posso então fazer para contrariar esta tendência? Qual a fórmula mágica para rebentar com esta hipérbole e transformá-la numa recta crescente e constante? 

Como já referi diversas vezes, não estou disposto a diminuir a qualidade dos meus artigos. Isto implica uma redução da periodicidade do meu blogue. Um mal necessário, embora compreenda que seja esse o principal factor que me impede de alcançar uma audiência constante e fiel. Mas como posso rentabilizar algo que não me oferece qualquer rendimento além da satisfação pessoal? Com tão pouco tempo livre para usufruir no meu dia-a-dia torna-se complicado, se não mesmo impossível, repetir feitos como os 14 artigos publicados em Dezembro de 2012. Feito esse que motivou a histórica marca de 1135 visualizações num único mês. 

É esta a minha voz e não tenciono mudá-la em favor da fama fácil, apelando ao mínimo denominador comum. 

O importante não é a quantidade das visualizações mas a qualidade das mesmas. Mas se com tão poucas já tive crónicas e contos publicados em revistas o que poderia acontecer se o meu alcance fosse maior? Um contrato com uma editora para escrever um livro? 

Conheço pessoalmente casos em que isso aconteceu. E embora reconheça a qualidade da escrita e da imaginação dessas pessoas, acredito que sou melhor, acredito que a minha voz, que as minhas histórias têm valor e que merecem ser ouvidas.

Divago. A minha máquina gráfica há muito que ficou sem bateria. Para já, sucumbo perante a inevitabilidade matemática da hipérbole das minhas redes sociais. Sucumbo na esperança de um dia ser capaz de forçar o meu caminho para lá da fatalidade desta equação e de alcançar o reconhecimento que a minha voz tanto merece. Irei ultrapassar a barreira dos quinhentos, dos mil. 

A minha onda será imparável.
  

Tuesday, April 02, 2013

Primeiras Impressões

Imagem: Cat Ghost Comics
“Não existem segundas oportunidades para criar uma boa primeira impressão”. Cliché. Lugar-comum. Frase feita. Ou outro qualquer sinónimo. É este o primeiro pensamento que ocorre sempre que nos deparamos com esta afirmação. Embora esta frase seja verdadeira na sua natureza mais simples, bastando para isso seguir a lógica ordinal da sua premissa, não passa de um desperdício de letras sempre que a encontramos num guia sobre entrevistas de emprego.

Já todos lemos inúmeros artigos sobre como preparar uma entrevista de emprego. Seguimos atentamente os cinco, dez, quinze ou infinitos passos necessários para impressionar um potencial empregador. Motivados por necessidade, inexperiência, ou simples curiosidade, lemos cada conselho até à última linha. Artigo, após artigo, chegamos à conclusão de que no fim dependemos sempre de nós próprios. Do nosso à vontade e da nossa capacidade de dar a volta às questões.

A gramática da imagem

Tenho a sorte de na minha área ser incentivado um dress code casual. Com a excepção de certos eventos formais, o dia-a-dia não exige a obrigatoriedade de usar um fato, embora, como seria de esperar, também não é aconselhado sermos desleixados ao ponto de aparecermos de pijama ou com algo que revele de forma óbvia a nossa posição perante uma certa subcultura. Entre um empresário e um metaleiro, algum meio-termo se há-de arranjar. 

Numa entrevista de emprego devemos ter uma noção realista das normas de visual aplicadas dentro da área à qual nos candidatámos. Se no meu caso apresentar-me de fato seria um erro, devendo assim optar por uma roupa simples, igual àquela que usaria num dia normal, tal pode não se aplicar em empregos que exijam uma apresentação mais formal. Contudo, aí levanta-se a questão: Como podemos ser nós próprios se somos forçados a vestir algo no qual nos sentimos desconfortáveis?

O simples facto de te sentires desconfortável com aquilo que trazes vestido já é um ponto negativo. Se a priori já sabes que vais ter que te apresentar de uma certa forma, deves habituar o teu corpo a sentir-se confortável dentro desse visual. 

Devem-se lembrar da velha superstição de que nunca se deve estrear roupa nova no dia de um exame. Tal como toda a sabedoria popular, mesmo a mais duvidosa, tem algo que se lhe diga. Ao estrearmos uma peça de roupa nova, principalmente se estivermos a falar de calçado, o nosso corpo vai estranhá-la ao início. Vamos sentir um ligeiro desconforto por este elemento novo ser diferente daquilo a que estamos habituados e esse mesmo desconforto vai criar uma situação de instabilidade emocional que, por mais ligeira que seja, vai sempre ter influência na nossa postura, na nossa concentração, mas, acima de tudo, no nosso à vontade.

Como no caso dos exames, também não devemos levar roupa por estrear para uma entrevista de emprego. Com isto não quero dizer que devemos usar roupa velha, mas se quiserem impressionar o vosso empregador com um vestido novo ou com um fato acabadinho de comprar, usem-no pelo menos uma vez antes da entrevista. Sem querer cair no lugar-comum de tornar este artigo em mais uma lista de conselhos para ter sucesso numa entrevista, a verdade é que este é um ponto importante que nem sempre é abordado. O potencial empregador vai-se aperceber imediatamente do vosso desconforto. Isto abre a porta para toda uma série de preconceitos que não irão abonar em vosso favor.

É de esperar algum nervosismo, principalmente para aqueles que acabaram de sair da faculdade e que se encontram pela primeira vez nestas andanças. Mas não há nada pior do que darem a entender que sofrem de alguma espécie de mal-estar e que não conseguem sentir-se à vontade com esta situação.

“Onde se vê daqui a cinco anos?”

Possivelmente a pergunta que mais vezes aparece nessas “receitas” de sucesso. Não sei se existe algum livro ou manual que todos os empregadores são obrigados a ler com uma lista de perguntas que devem ser feitas. No meu caso, apenas por uma vez me fizeram as habituais questões que todos conhecemos. “Quais são os seus passatempos?”; “Qual a sua principal qualidade? E defeito?”; “Se se pudesse descrever em uma palavra qual seria?”, etc. Infelizmente, foi na minha primeira entrevista. Dizer que correu de forma desastrosa é ser simpático comigo próprio. Não é que não estivesse preparado para este tipo de questões, mas cometi erros de principiante que no fim fizeram-me questionar se não era algum personagem estereotipado numa sitcom banal que não conseguiria ser renovada no final da primeira temporada. 

Mas essa experiência foi suficiente para melhorar a minha postura daí em diante. E a verdade é que fora um ou outro caso, não posso dizer que tenha voltado a ter uma entrevista que tivesse corrido mal. 

É certo que nunca mais me deparei com esse tipo de questões, mas mesmo assim não fui poupado a algumas inquisições difíceis. Na maioria dos casos, apenas me faziam perguntas sobre o meu background e sobre aquilo que me motivava a querer trabalhar naquele lugar e naquele emprego em específico. Mas alguns acrescentavam uma ou outra ratoeira. A última que foi capaz de me surpreender foi quando me perguntaram sobre como me sentiria se ficasse em segundo lugar. Suspeito que esta questão procurava perceber o quão motivado eu estaria para conseguir aquele emprego. Na altura optei por ser honesto e afirmar que apesar da frustração que mais do que provavelmente iria sentir, “a vida continua”. Sim, eu caio nestas frases feitas de vez em quando, principalmente se me colocarem sobre pressão criativa. 

Hoje penso que essa talvez não seria a resposta mais adequada, contudo, visto que se tratava de um emprego com algumas exigências técnicas acima daquelas que actualmente possuo, não creio que tivesse sido um factor determinante no facto de eu não ter ficado com o lugar. 

Heineken dá o exemplo

Por mais que nos tentemos preparar para uma entrevista a verdade é que no fim a única coisa que podemos esperar é o inesperado. Lá estou eu outra vez a cair em mais um cliché, mas devem concordar que com este tema é difícil não o fazer. 

A meu ver não há melhor exemplo disto que o mais recente método de recrutamento da Heineken. Método esse que acabou mesmo por se tornar num vídeo viral com algum sucesso nas redes sociais. 

O procedimento começa de uma forma aparentemente normal. O candidato chega, apresenta-se e aguarda pelo entrevistador. A partir do momento em que este se apresenta tudo deixa de ser previsível. Em um dos casos o entrevistador deu a mão ao candidato e levou-o pela mão, como se de um casal apaixonado se tratasse, até ao gabinete da entrevista. Lá, questionou-o sobre se aquele gesto o tinha feito sentir confortável. A seguir ao “sim” desonesto do perplexo candidato o entrevistador respondeu-lhe da seguinte forma: “A sério? Você é um tipo muito estranho”. 

Seguiram-se desmaios, birras e alertas de incêndio. Situações inesperadas de emergência que colocavam o candidato sob stress e forçado a agir por instinto. Como teste final, o candidato era convidado por um grupo de bombeiros a segurar numa rede para apanhar uma pessoa que se ia lançar de um prédio em chamas. Nem todos deram resposta ao apelo dos bombeiros, limitando-se apenas a observar e a esconderem-se no meio da multidão. 

Todas estas entrevistadas foram filmadas, editadas e colocadas no site interno da Heineken para que os próprios trabalhadores da empresa pudessem votar no melhor candidato. Uma espécie de reality show interno. O candidato mais votado foi o escolhido para o lugar.

O próprio anúncio de que este tinha sido aceite foi feito, como não podia deixar de ser, de uma forma completamente inesperada. Momentos antes de um jogo da Juventus para a Liga dos Campeões o candidato entrou no estádio juntamente com a equipa responsável por abanar a lona com o logótipo da Liga dos Campeões no centro do relvado. Agarrado à enorme lona da mesma forma que se tinha agarrado à rede dos bombeiros, o candidato viu o seu nome e uma mensagem de parabéns aparecerem no ecrã gigante do estádio. Imaginam-se a ser aplaudidos por 40 mil pessoas no meio de um campo de futebol enquanto vos é anunciado que conseguiram o emprego que desejavam? Duvido que nos seus sonhos mais íntimos aquele candidato alguma vez tivesse imaginado uma situação destas. 

Por mais que nos preparemos para uma entrevista de emprego a única forma de causarmos essa boa primeira impressão resume-se a sermos iguais a nós próprios e a sentirmo-nos confortáveis, não apenas connosco mas com o ambiente que nos rodeia. Esperar o inesperado. Visualizar-nos a ter o emprego. Frases feitas. Lugares-comuns. Clichés inúteis que de nada servem se apenas tentarmos mostrar algo que não somos.