Tuesday, July 19, 2011

Guia Prático da Procrastinação

Ao começares a ler este artigo já deste o primeiro passo. Mas não te preocupes, o caminho não é muito longo, caso contrário não valeria a pena percorrê-lo. Procrastinar não é ser preguiçoso, não é deixar tudo para a última só porque não te apetece fazer agora. Procrastinar é pôr de lado aquilo que neste momento não te irá trazer qualquer tipo de satisfação, e gastares o teu tempo com algo que gostas.

A primeira coisa a fazer é colocares-te numa posição em que pelo menos aparentes estar ocupado. Evita ler textos demasiado longos. Navega pela net em intervalos de tempo regulares e pouco espaçados. Mantém uma janela de conversação ligada com alguém que não fale muito, mas que também não te mantenha à espera de resposta por um período muito longo. E não te esqueças de deixar sempre o e-mail, e algum documento aberto no background, com fácil acesso, não vá alguém apanhar-te em flagrante delito.

Agora apenas te resta encontrar algo com o qual te ocupares. Qualquer motor de busca é um bom sítio para começar, as ideias vão surgir naturalmente e quando te deres conta já passa da hora de sair. O truque está em não gastares as tuas fontes. Não te limites a apenas um site, pesquisa coisas novas e mantém-te activo. Os sites de notícias são também uma boa forma de ocupares o teu tempo. Sugiro que consultes as secções de Ciência e Cultura, e aprofunda os temas que por lá encontrares com pesquisas na Wikipédia ou em sites da especialidade.

Adere às redes sociais, o twitter e o tumblr são os ideais, com vários links e coisas interessantes a serem divulgadas a cada minuto. Desaconselha-se o uso do facebook visto que assim corres o risco de te perderes em minúcias sociais de pouco interesse e, sinceramente, ninguém quer saber o que os outros andaram a fazer no fim-de-semana.

Enquanto o facebook é facilmente reconhecido a alguma distância, o twitter, o tumblr, e as restantes redes são vistas como corpos estranhos e não provocam no eventual bisbilhoteiro a sensação de que estás a procrastinar.

Explicado desta forma até parece que dá mais trabalho fazer nada que nada fazer. Com o tempo vais-te aperceber como isto é bem mais fácil do que parece. Provavelmente viste este link no twitter ou no facebook, e decidiste gastar alguns minutos do teu tempo a ler um artigo sobre fazer nada. Se chegaste até aqui, já estás num bom caminho.

Tuesday, June 14, 2011

A Rede Desligada

Nos últimos anos raras foram as vezes que, por um motivo ou outro, estive sem acesso à internet por um longo período de tempo. Há cerca de um ano o meu portátil avariou, como na altura não tinha outro computador em casa, nem sequer um smartphone, não tive remédio se não resignar-me ao período de espera para reparação que durou à volta de um mês.

Infelizmente, limitar-me a ficar desligado não é um luxo com o qual me possa deleitar. Era Março e o segundo semestre tinha apenas começado. Não fosse por algumas propostas de projectos e pouco ou nada havia para fazer. Pedi ajuda a um amigo para me deixar ir a sua casa usar a internet para responder a alguns e-mails, e para enviar as propostas. Como fazia isto cerca de duas vezes por semana não posso dizer que estive completamente “desligado” durante esse tempo.

Na ausência de um computador, agravando a isto o facto de estar doente, encontrei algum reconforto na televisão. Descobri algumas séries novas e revi outras que há muito tinha deixado de ver. Permaneci atento ao telejornal, praticamente o único programa televisivo que acompanho diariamente quando não tenho qualquer problema em aceder à internet, portanto, não estava mesmo nada desligado, talvez apenas um pouco fora do alcance daqueles que não tivessem o meu número de telefone.

Em 2013, talvez não seja assim. Segundo este artigo, a frequência de explosões solares vai aumentar a um nível que já não é visto desde 1859. Na altura as comunicações por via de telégrafo foram gravemente afectadas ao ponto de serem necessários longos meses até estas voltarem a funcionar.

Isto foi no século XIX onde, em comparação com a tecnologia de hoje em dia, éramos bem mais primitivos. Em 2013, se o pior cenário se vier a realizar, podemos estar perante um verdadeiro “switch off” à escala global. Não ficaremos apenas sem internet, mas os computadores, telemóveis, televisores, electrodomésticos e carros podem irremediavelmente deixar de funcionar.

Todo e qualquer aparelho maioritariamente electrónico corre sérios riscos de ficar inutilizado devido à alta intensidade de radiação solar que vai passar pelo nosso planeta, aliada aos eventuais pulsos electromagnéticos, conhecidos por serem capazes de deixar uma grande cidade às escuras em meros segundos.

Sem querer soar como um profeta do apocalipse, a verdade é que a possibilidade deste evento acontecer é algo que nos devia preocupar. Nos cenários mais optimistas, talvez apenas acabemos por sofrer algumas quebras de energia sem que delas surjam grandes complicações. Contudo, é importante olhar para nós próprios e reflectir sobre como seremos capazes de “sobreviver” sem estarmos constantemente ligados à rede.

O Mundo iria literalmente parar e, durante alguns meses, teríamos que nos reabituar a viver sem o auxílio da tecnologia. Os contactos teriam que ser feitos pessoalmente, por escrito, ou através de telefones fixos, a rádio iria substituir a internet como a principal fonte de informação imediata, a televisão teria que regressar ao analógico, os pagamentos teriam que ser sempre feitos em dinheiro e muitos carros e transportes públicos deixariam de funcionar. Outros problemas a nível do funcionamento dos serviços de saúde, registos bancários, e de comunicação com os serviços de segurança e de emergência, também marcariam esta nova sociedade inadaptada a uma vida mais “real”.

Estaremos assim tão dependentes da tecnologia que o único resultado de um switch off não programado seria o pânico geral? Gostava de acreditar que não, mas a verdade é que tudo aponta em contrário. Mas talvez nem tudo seja negativo. A falta de internet e televisão poderá incentivar as pessoas a ler e a sair de casa, a enriquecerem-se cultural e intelectualmente após se verem livres da constante amálgama de informação indecifrável que a cada segundo estes meios lhes tentam impingir.

A verdadeira ameaça, contudo, não se prende pela falta de comunicação, mas sim no risco de perdermos a nossa memória digital. Ficheiros, documentos, blogues e sites, todos arriscam-se a ser apagados se os discos e servidores onde se encontram sofrerem mazelas irreparáveis.

Todo o arquivo deste blogue encontra-se em formato digital, assim como a maioria do meu portfólio académico e profissional. Todo o conteúdo ao qual nos últimos anos dedicámos horas, dias e meses para criar poderá desaparecer em meros segundos com pouca ou nenhuma prova da sua existência. Torna-se assim importante proteger o nosso arquivo digital e, quiçá, manter algumas cópias analógicas desse mesmo arquivo.

O tempo dirá até que ponto estamos prontos para retroceder no nosso avanço digital. Até lá, como já diziam os antigos “desligados”, a prudência é mãe da segurança.

Thursday, June 02, 2011

“A vida é curta mas é ampla”

A frase é de António Feio, e foi recentemente imortalizada no filme Contraluz de Fernando Fragata. Ontem tive a oportunidade de experienciar em primeira mão essa amplitude.

Na terça-feira ao final da tarde cheguei à Estação de Ovar. Por força de alguma correria consegui apanhar o comboio que ali me deixou pouco antes das oito da noite. Tinha planeado comprar o passe de Metro antes de regressar a casa mas a ansiedade de chegar à estação a tempo forçou-me a deixar essa tarefa para o dia seguinte.

Restava-me ainda comprar o passe de comboio, algo que não me devia demorar dado o tardar da hora, contudo, assim não aconteceu. Para minha surpresa, a bilheteira da Estação de Ovar já estava encerrada. Tentei renovar o passe na máquina de venda automática que há anos ali se encontra instalada mas que apenas nos últimos meses começou a ser utilizada, sem sorte. Talvez o desgaste do tempo de inutilização tenha avariado o sistema de multibanco. Após algumas tentativas frustradas desisti e fui para casa.

Ontem restava-me apenas uma hipótese, se quisesse apanhar o comboio das oito teria que acordar ainda mais cedo e estar na estação a horas de apanhar o comboio imediatamente anterior. Assim fiz. Chegado à estação deparei-me com uma longa fila que começava a chegar até à rua. Por sorte estava lá um amigo meu que me cedeu o lugar visto que não tinha alternativa se não apanhar o próximo comboio, e a fila não parecia andar mais depressa.

Ele tentou usar uma das máquinas de venda de bilhetes em papel, contudo faltavam-lhe dez cêntimos para comprar o bilhete. Não estivesse eu ali, ele teria tido alguma dificuldade em arranjar alguém que lhos emprestasse correndo assim o risco de perder o comboio e chegar atrasado ao trabalho. Não estivesse a outra máquina avariada, nada disto teria acontecido.

Após ele partir, aguardei na fila com alguma ansiedade sem saber ao certo se seria capaz de me desenrascar a tempo do comboio das oito. A sorte esteve do meu lado e, inclusive, quase teria conseguido entrar no mesmo comboio que ele, não tivesse o senhor que estava à minha frente na fila se demorado com algumas questões irrelevantes. É sempre assim quando estamos com pressa.

Chegado a General Torres corri pelo meio da multidão para tentar ser um dos primeiros a chegar às máquinas. Escolhi a do lado oposto ao cais de embarque por a fila ser mais pequena. Esta não foi uma boa opção. A rapariga que estava à minha frente para comprar o passe estava a ter problemas com o multibanco que novamente não parecia funcionar.

A adivinhar o inevitável atraso fui para a outra fila que naquela altura já estava um pouco menor. À minha frente estava uma senhora que não sabia comprar viagens para o Andante e que me abordou para a ajudar. Evitei que esta comprasse dois passes diários por engano e corrigi o seu pedido. Perdi o próximo Metro por meros segundos. Quando lá cheguei já as portas estavam a fechar.

Não fosse por estes atrasos podia ter chegado cerca de trinta minutos mais cedo ao meu destino. Mas assim não estava escrito.

“A vida é curta mas é ampla” e são nestes pequenos pormenores, nas despercebidas coincidências do nosso dia-a-dia, que esta amplitude se revela.

Tuesday, May 10, 2011

Leves Maçãs de Discórdia

“Um jogador descontente, sem capacidade de evolução, que viu no FC Porto uma nova oportunidade para se mostrar e talvez dar o salto que tanto ambiciona.” Corria o defeso de 2010, João Moutinho ainda recuperava de uma das piores épocas dos últimos anos, culminada com a ausência da convocatória para o Mundial na África do Sul, quando fez manchete ao surpreender o universo sportinguista com a sua transferência para o FC Porto.

O meu pensamento, na altura, materializou-se na citação que relembro em cima, e que vejo hoje confirmada nas próprias palavras do antigo capitão leonino. “Só jogando no FC Porto é possível ganhar títulos. Por isso mudei”, afirmou o jogador em declarações ao Público. De facto, quem joga pelo FC Porto arrisca-se a ser campeão, e assim foi.

Ao compararmos o João Moutinho do Sporting CP com o do FC Porto, poucas ou nenhumas diferenças se encontram além da cor da camisola. Como já nos tinha habituado de Leão ao peito, afirmou-se como uma pedra fundamental do meio-campo azul-e-branco. Finalmente teve a oportunidade de descansar, dado o elevado número de alternativas de qualidade, não tinha a obrigação de jogar os 90 minutos de cada partida e pôde, assim, manter um nível de frescura física e psicológica durante toda a época. Algo que no Sporting CP apenas aconteceu na sua época de estreia quando discutia com Hugo Viana por um lugar no losango de Peseiro. Curiosamente, nessa mesma época esteve perto de ser campeão e também chegou à final de uma competição europeia.

João Moutinho não foi para o FC Porto para crescer como jogador, mas sim para ganhar títulos, para descansar, e para se valorizar como um activo que dentro em breve fará valer ao Sporting CP os 25% que ainda mantém da sua cláusula de rescisão de 40 milhões de euros. “A nível financeiro, o negócio é favorável ao Sporting CP”, disse na altura e voltaria agora a reafirmá-lo, não fosse a perda desportiva ser tão alta.

Mantinha alguma esperança neste Sporting CP no início de época. As contratações pareciam ser as acertadas, e fora a venda de Miguel Veloso ao Génova, os negócios pareciam ir de vento em popa. Faltava apenas Paulo Sérgio afirmar-se como o treinador ideal para este Sporting CP. Os bons resultados na Liga Europa ofuscavam a má prestação no campeonato e, dadas as habituais segundas voltas de sucesso a que o Sporting CP nos tinha habituado nas últimas épocas, até Janeiro ainda acreditava que uma boa carreira europeia, assim como a conquista das taças, era possível.

Mas Janeiro chegou, Liedson despediu-se, e a esperança desvaneceu. O Glasgow Rangers levou a sua melhor em Alvalade, o Vitória de Setúbal teve a sorte do jogo na Taça de Portugal, e o SL Benfica deixou-nos para trás na Taça da Liga.

A equipa que terminou a época 2009/2010 não conquistou nenhum título, mas jogava melhor futebol. Na Liga Europa alcançámos os oitavos-de-final e fomos eliminados com um empate a duas bolas em casa pelo Atlético de Madrid que viria a erguer o troféu. Na Taça de Portugal, apesar da goleada no Dragão, alcançámos os quartos-de-final, enquanto na Taça da Liga voltámos a não ir além das meias-finais. João Moutinho, Miguel Veloso e Liedson, alvos de contestação pela má época verde-e-branca, são hoje vistos como as principais ausências responsáveis pela tremenda quebra de qualidade vivida nos últimos meses.

Adrien Silva, Bruno Pereirinha e André Marques são outras promessas postas a “rodar” que podiam ter trazido uma maior estabilidade, e sentido de coesão, para esta equipa que teve na sua ineficiência defensiva, e ineficácia ofensiva, as principais deficiências que levaram a um constante insucesso desportivo.

Más decisões e um péssimo plano de investimento ditaram a realidade actual do Sporting CP. A próxima época, e esta nova direcção, ditam uma certa mudança de mentalidade. A aposta num bom treinador com provas dadas como é Domingos Paciência e uma política de contratações baseada em jovens com margem de progressão, em jogadores internacionais de renome, e na promoção de promessas da Academia de Alcochete, criam já uma base ideológica capaz de dar frutos a médio e longo prazo.

Resta aos sócios encontrarem a paciência necessária para aceitarem este novo projecto e aguardarem pelos títulos que certamente a ele virão ligados. Não seremos campeões para o ano, falta-nos uma base coerente e mesmo com as contratações anunciadas qualquer equipa em renovação precisa de tempo para se afirmar desportivamente. Mas mesmo que falhemos o primeiro lugar, acredito que ao manter esta coerência o Sporting CP será capaz de o disputar até ao fim, sem descurar um possível sucesso europeu.

Que acabem as maçãs podres, os desvios de jogadores e treinadores. Que terminem os rumores, e as constantes notícias de instabilidade. Está na altura da comunidade sportinguista se unir e ajudar a elevar este clube ao patamar competitivo que verdadeiramente merece.

Friday, May 06, 2011

De Braga a Bom Porto

Sorteio Liga Europa, Imagem DR
Há imagens que ficam gravadas na mente, memórias fotográficas de momentos que tão cedo não esqueceremos. Uma delas já tem alguns meses mas permanece tão clara como se ainda mesmo agora a tivesse acabado de ver. A fotografia de um painel, simples, que encontrei por acaso ao ler uma notícia.

O painel mostrava o resultado do sorteio dos quartos-de-final da Liga Europa. FC Porto, SL Benfica, SC Braga e mais cinco clubes, cinco clubes estrangeiros, adversários com a ambição de levantar a taça em Dublin. Cinco adversários, nenhum deles português, nenhum deles de nome, Sporting Clube de Portugal.

Jogavam-se os 16-avos de final, o Sporting CP defrontava os escoceses do Glasgow Rangers em casa e estavam a ganhar por duas bolas a uma. Na primeira-mão em Glasgow o jogo tinha terminado empatado, um golo para cada lado, com o Sporting CP a recuperar da desvantagem mesmo ao cair do pano. Adivinhava-se mais uma caminhada histórica como a vivida na época 2004/05. O jogo tinha começado às 18h05, eu regressava a casa do trabalho por volta das 20h e vi o resultado antes de entrar no carro, 2-1, faltavam cerca de três minutos para o final. Já está ganho, pensei, guardando algum do receio que negava ter.

Cheguei a casa e encontrei o meu pai a vir do café, o jogo já teria terminado e perguntei-lhe se o resultado se tinha mantido. Quando ele me confirmou o 2-2 final, limitei-me a aceitar o triste destino de uma sina que parecia condenar ao desastre esta época sportinguista. A História tinha voltado a repetir-se, já na época anterior o mesmo Sporting CP foi eliminado com um empate a duas bolas em casa, não pelo Glasgow Rangers, mas pelo Atlético de Madrid.

Tivesse o Sporting CP passado com toda a justiça que merecia, teria defrontado o PSV Eindhoven e ao deixar os holandeses pelo caminho, quisesse o sorteio manter os mesmos desígnios, disputaria com o SL Benfica, o eterno rival, por um lugar nas meias-finais. Talvez aí, a fotografia fosse diferente, e em vez de cinco seriam apenas quatro os adversários além-fronteiriços prontos para destronar o sonho luso de uma final cantada sob a língua de Camões.

Mesmo que o SL Benfica tivesse levado a melhor sobre os leões, e mesmo que os minhotos tivessem deixado o Sporting de Alvalade para trás, pelo menos, naquele momento, no rescaldo daquele sorteio, também de verde seria pintada aquela imagem que solenemente navega pelos rios das minhas recordações.

Assim não aconteceu. Passámos ao lado da História, talvez por não estar escrito que esta história fosse a nossa, talvez por ser a altura de dar lugar a outros que também lutam pelo mesmo sonho. Seja qual for a razão, ontem vimos os jogos em casa, ou nas bancadas. Sentámo-nos nas margens enquanto os outros remavam, reservando para nós o consolo de ter partilhado metade do caminho que no dia 18 de Maio de 2011 será para sempre relembrado na História do futebol nacional.

Curiosamente, foi também a 18 de Maio de 2005 que o Sporting CP disputou a final da Taça UEFA. Deixemos que SC Braga e FC Porto façam igualmente História dentro de alguns dias, enaltecendo o mérito das extraordinárias campanhas que ambos fizeram para ali chegar. Outras Histórias serão escritas, apenas espero que da próxima vez o Sporting CP não volte a naufragar nas margens do seu próprio destino.