Monday, January 31, 2011

Quem Vem e Atravessa o Rio

Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
Miguel Torga

Há meses perdidos. Sombras de tempos mal aproveitados. Dias desperdiçados. Momentos não vividos. Este não foi um mês perdido, mas sim, um mês de transição. Não esquecido, mas ainda por escrever, como mil viagens que ficaram por relatar. Memórias apagadas de uma Coimbra infiel dão lugar a um novo Porto, à mesma ponte, aos velhos trilhos, a novos dias.

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
dirigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa
Porto Sentido de Rui Veloso

Friday, December 31, 2010

Thursday, December 23, 2010

O Regresso da Véspera da Véspera de Natal Parte IV

365 dias, 128 bilharacos, 64 pacotes de Pop Chocs, 32 dias pedrado, 16 instalações simétricas, 8 pães-de-ló, 3 distritos, 1 Uberman Shedule e 0 pencas depois, está de regresso a Véspera da Véspera de Natal! Acredita em mim, e as pencas tornar-se-ão em couvões.

Mas couvões e pencas não são sinónimos? Couves queres tu dizer, ou repolhos? Há diferença? Sim. Mas eu não quero saber.

Jesus estava a jogar ao peão enquanto o Domingos ligava a PS3 ao seu novo LED 3D. O Mindo também estava ali, por algum motivo.

“Ó Domingos, tem lá paciência”, disse Jesus enquanto acendia uma das velas do seu Menorah, apesar deste ano o Hanukkah ter sido mais cedo, mas este Jesus não recebeu o memo. No meio de visitas a Genselkirchen e celebrações do antigo avançado do Sporting de Lourenço Marques, também conhecido como Eusébio, Jesus só tinha tempo para ver vitórias a migrar para Norte.

“Mas não é inverno?”, pergunta o Mindo, que continuava por ali, apesar de toda a gente o ignorar.

“Isso é subjectivo”, responde Vasco da Gama que por acaso passava por ali para usar o telefone de Jesus para votar no António da Casa dos Segredos. "Ele é fofo e ao mesmo tempo parolo", confessou recentemente à Caras durante uma festa do Afonso Henriques com o Aristides de Sousa Mendes para celebrar a redescoberta da terra desconhecida chamada Brasil, onde o Mindo se encontrava antes de se perder por aqui.

Jesus, Domingos, Vasco da Gama, Eusébio e o gajo dos óculos escuros saíram dali. A principal razão era evitar terem que falar com o Mindo, mas este não percebeu e foi atrás deles. Juntaram-se a Sócrates, o filósofo, para debater a diferença entre pencas e couvões.

Fernando Pessoa e Camões, que tentavam versar sobre aquilo, pararam para questionar a descoberta da terra desconhecida chamada Brasil, enquanto esperavam pelo comboio das 13h06, apesar de hoje este não circular, já que é domingo.

“Mas hoje é quinta-feira!”

“Tu é que és quinta-feira!”, responde o gajo dos óculos escuros, demonstrando os seus rápidos reflexos mentais.

“’Tu é que és’ está longe de ser uma resposta digna de ser referida.”

“Tu é que tens dois sentidos!”

“Como uma estrada!”, diz o Mindo, rindo-se em alta voz, apesar de mais ninguém ter achado piada.

Fernando Pessoa, Camões, Sócrates, o filósofo, Eusébio, Vasco da Gama, e o gajo dos óculos escuros, foram-se embora, deixando em aberto a eterna questão sobre a diferença entre pencas e couvões.

Cá para mim é 42. Deixa-te disso e vai ver o Stargate Universe... Ah, pois, não podes porque foi cancelado!

Domingos perdeu a paciência e foi para Braga jogar ao peão. Esse não era Jesus? O Jorge? Não, o Cristo. Esse não nasce apenas amanhã? Não ouviste? O quê? Bird, bird, bird! Bird is the word! Porquê Jesus? Porquê?!

Fernando Pessoa regressa depois de dormir vinte minutos, e assim habilitar-se a mais quatro horas desperto antes da próxima sesta. Camões traz consigo um cartaz que arrancou do Continente onde dizia "couve penca" com uma promoção de Janeiro a Janeiro. Esse é o Pingo Doce. Deixa de implicar com as minúcias do discurso dos outros e preocupa-te com seja lá o que for que tens para fazer. Buzzkill.

No meio da confusão, enquanto Eusébio tweetava sobre o que se estava a passar no seu Android e Vasco da Gama usava o iPad para fritar umas batatas, Jesus decidiu acender mais uma das velas da sua Menorah e pôr aquele chapéuzinho na cabeça, também conhecido como yarmulke.

Todos tiraram uma foto para colocar no facebook e partilhar através do tumblr, enquanto o gajo dos óculos escuros marcava no foursquare as coordenadas do restaurante de francesinhas em Aveiro, onde todos iam cear mais logo. O Mindo actualizava o seu perfil do linkedin para alargar a sua rede de contactos no universo do stand up comedy, apesar de ser o único capaz de se rir com ele próprio.

E assim se celebra a Véspera da Véspera de Natal, numa galáxia sem sentido onde todos estes seres se reúnem para debater as tremendas complexidades da existência cuja resposta continua a ser 42. Chega então ao fim mais um ano sem que alguém alguma vez descubra qual a diferença entre pencas e couvões, couves ou repolhos.

A todos um Feliz Natal e a todos uma boa noite! Se alguém entrar pela vossa chaminé durante a noite, comer as vossas bolachas e beber o vosso leite, chamem a polícia pois acabaram de ser assaltados, o Avô Geada só aparece de 6 para 7 de Janeiro. С Рождеством!

Morram Pencas, morram! Pim!

Wednesday, November 10, 2010

Observações

Hoje é dia 10 de Novembro, uma data como outra qualquer que facilmente me passaria ao lado, não fosse por um simples pormenor: hoje termina o prazo de uma embalagem de Panrico onde ainda me sobram cinco fatias.

Desde a semana passada que sabia que dificilmente seria capaz de usar este pão todo antes do fim do prazo. Comprei-o há semana e meia por pensar que o pão que tinha em casa não era suficiente para aguentar até ao final da semana anterior. Mas não só aguentou, como ainda sobraram algumas fatias. Já quando o comprei fiquei algo reticente: “O prazo termina a uma quarta-feira? Não sei se vai dar”, disse. Mas a embalagem era pequena e a necessidade parecia ser mais urgente. Má gestão, ou uma simples atitude de “deixa andar”, que me impediu de perder alguns segundos para ver a quantidade de pão que ainda me sobrava, colocaram-me agora nesta triste situação.

Não posso dizê-lo com toda a segurança, mas creio que esta é a primeira vez que vou ter que deitar comida fora por deixar passar o prazo de validade. A única alternativa, e a mais óbvia, seria comer cada uma das fatias até à meia-noite de hoje. Mas já desde segunda-feira que este pão tem um sabor estranho. Sabor esse que apenas piorou nos últimos dias. Daí as minhas naturais reticências em lhe dar um destino que não o caixote do lixo.

Posso sempre fazer torradas, mas a torradeira não é minha, e tem um aspecto muito pouco higiénico. Duvido que fosse capaz de comer qualquer coisa que de lá saísse.

Ao falar com alguém sobre este meu pequeno dilema a reacção quase imediata foi: “anda tanta gente a passar fome no mundo”, ao qual respondi: “e ia lhes dar pão estragado?” Confesso que sinto-me mal por deitar comida fora independentemente do seu estado, mas isto talvez seja mais válido em casos de pratos que ficam por “limpar”, ou de refeições feitas em excesso, mas agora, quando a situação retrata um possível perigo de saúde alimentar, a minha consciência está limpa.

Podia fazer umas sandes e oferecer a um sem-abrigo. Mas não só não os há nesta zona, como provavelmente me iriam odiar por lhes oferecer um pão com tão mau sabor. Outros poderiam sugerir que as deixasse para amanhã, afinal o que é um dia a mais, e “eles” são sempre excessivamente cautelosos ao estabelecer os prazos de validade. Se provassem deste pão não diriam o mesmo, acreditem.

Já no último sábado vi uma caixa de hambúrgueres de seitan em promoção no Modelo. Coloquei-os no cesto mas, após uma análise mais atenta da caixa, verifiquei que o prazo tinha terminado naquele dia às sete e meia da manhã. Apesar do preço reduzido, e de estarem congelados, o que garantia pelo menos algum nível de segurança, decidi repô-los na prateleira.

É raro o produto que compre sem prestar atenção ao prazo de validade, algo que mais pessoas deviam ter em atenção. Afinal somos aquilo que comemos, e pelo menos o meu prazo é daqueles que não quero ver expirado.

Tuesday, November 09, 2010

Sensações

Jantar. Mais do que um simples hábito embebido na rotina diária, é também uma necessidade. Mas por mais que a fome, ou a simples vontade de nos alimentarmos, nos force a iniciar qualquer refeição, o jantar é algo mais, é também ele, um evento social.

Não falo dos jantares de curso, de trabalho, entre grupos de amigos, aniversários, festas, familiares, ou até mesmo românticos, mas sim do comum jantar de segunda, terça ou quarta à noite. Uma simples refeição, dois ou três pratos, uma mesa, uma cadeira, e talvez uma televisão. Uma mera equação de relativos factores que se conjugam em mais uma actividade rotineira. Quando vivido a sós, na nossa cozinha, ou sala, é mais fácil de engolir. Prepara-se a comida, vai ao prato, come-se, lava-se a loiça e o dia continua. Já fora de casa, é diferente.

Seja num restaurante, na zona de alimentação de um centro comercial ou numa cantina, o peso de enveredar por esta tarefa a sós é mais evidente. Esperamos na fila ou escolhemos uma mesa onde aguardamos para ser atendidos. Consultamos a ementa, sem nenhuma outra opinião que não a nossa, fazemos a nossa escolha, voltamos a aguardar, comemos, levantamo-nos, pagamos a conta e saímos. Isto sistematicamente, dia após dia, nada de novo, talvez o prato seja diferente, talvez a bebida, mas tudo igual, mais do mesmo.

A sós, jantar fora é mais que o mero saciar de uma fome perpétua, é também uma forçosa observação daqueles que nos acompanham naquele lugar. Estranhos. Alguns, também eles, sós, outros, nem tanto. Sentimo-nos sós no meio de uma multidão. Mesmo com o auxílio das novas tecnologias que nos permitem estar em contacto com alguém enquanto jantamos, a falta de uma conversa, por mais banal que seja, a falta de outra opinião, mesmo contrária à nossa, torna esta experiência sensaborona, insípida, entediante e, vá, chata. Ainda para mais quanto para lá de pontual, tal experiência se torna tão parte do dia-a-dia, como dormir ou respirar.

“Mais vale só que mal acompanhado”, dizem. Talvez tenham razão, talvez nunca tenham ido jantar fora sozinhos vezes suficientes.