Thursday, February 19, 2015

Mil e Uma Noites de Carnaval

Carnaval de Ovar, Noite dos Dominós de 2011
A minha relação com o Carnaval é, no mínimo, complicada. Uma história complexa que, com maior ou menor evidência, acaba sempre por deixar a sua marca na habitual corrente de cada ano. Tendo vivido em Ovar durante grande parte da minha vida, seria de esperar que esta fosse a minha época preferida do ano, ou pelo menos aquela por que mais ansiava. Contudo, isso não podia estar mais longe da verdade.

A minha história começa cedo, quase no início. Os meus primeiros Carnavais resumem-se a uma ou outra foto em álbuns há muito perdidos algures pelas gavetas do sótão. Por melhor que seja a minha memória, são muito poucas as recordações que retenho de idades mais tenras que o meu sexto aniversário.

Sempre gostei de me fantasiar. Poder por um momento encarnar outra personagem que não eu. Dar asas à imaginação e ver o Mundo pelos olhos de uma máscara recém-encarnada. Contudo, foram raras as vezes que efectivamente encontrei um fato que realmente quisesse usar.

Em Ovar, no fim-de-semana que antecede o efémero Entrudo, realiza-se o Carnaval das Crianças. Um cortejo pelo centro da cidade, onde as crianças das escolas primárias locais se fantasiam e desfilam, com coreografias em tudo similares às dos adultos. “No meu tempo”, sinto-me sempre velho quando tenho que dizer algo como isto, mas enfim. No meu tempo, havia dois desfiles das escolas primárias. Um à sexta-feira para as escolas das classes mais baixas, e outro ao domingo para as restantes. Este tipo de discriminação levava o povo a chamar um de Carnaval dos Pobres, e o outro dos Ricos. A minha escola desfilava à sexta-feira de manhã, um percurso curto pelo centro da cidade, mal cortavam o trânsito para podermos passar, e quase ninguém usava as bancadas.

Na altura, não ligava a este tipo de separatismo elitista, apenas me preocupava com o que ia ter que andar, e com a vergonha de passear-me fantasiado pelo meio da cidade. Um destes Carnavais está mais presente que os restantes. Creio que andava na terceira classe quando fomos todos vestidos como computadores de cartão. Uma forma de protesto para que a nossa escola pudesse ter um computador. Essa máquina tão desejada acabou por chegar ainda antes de eu terminar a quarta classe, mas apenas os professores a podiam usar.

Nesse mesmo ano, encontrei no Barreto um fato vermelho de Ninja. Vinha com duas espadas de plástico e facilmente encantou a minha infantil imaginação. No domingo de Carnaval, estreei-o e assim fui com a minha mãe ver o desfile. Infelizmente, por causa do calor – sim, calor, foi um Carnaval tardio naqueles meses de Março aberrantes onde o Verão tenta roubar a ribalta à Primavera – senti-me mal e tive que voltar para casa. Não devo ter ficado lá mais do que uma hora.

Nunca gostei particularmente de assistir ao desfile. São muitas horas seguidas, de pé ou sentado, à espera que os diversos grupos terminem a sua coreografia pela Avenida Sá Carneiro. Três a cinco horas passadas ao frio, ou até mesmo à chuva, é algo que duvido que alguém possa achar agradável. Todos os anos apanhava uma constipação séria logo a seguir ao Carnaval. Sempre associei esta festa a estar doente, e a longos domingos aborrecidos.

Tive que esperar pela adolescência para poder bater o pé e recusar-me a assistir ao desfile de Carnaval. O preço dos bilhetes nem sequer era uma questão visto que o meu pai ajudava nas bilheteiras e tinha sempre alguns gratuitos para nós. Quando assim não era, a minha mãe conhecia umas pessoas que nos deixavam assistir na sua varanda, isto quando o desfile ainda passava pelo centro da cidade. Contudo, o meu profundo ódio a esta festa era tão grande que, durante anos, não mais voltei a ver o desfile.

Com a adolescência o Carnaval deixou de ser uma fantasia para passar a ser um pretexto para longas festas pela noite dentro. Não sendo uma pessoa popular no meu liceu, raras foram as vezes que recebi algum convite para sair durante a altura do Carnaval. Aí deixei de odiar o Carnaval, e passei a temê-lo. Temia-o não por medo de me tornar numa pária social, mas sim porque ser-se adolescente em Ovar significa que as tuas maiores hipóteses de começares uma relação concentram-se na altura do Carnaval.

Aquela rapariga de quem gostas mas que não sabes como abordar, depois de um qualquer Carnaval, estará certamente a namorar com alguém. Nem precisavas de esperar pelo fim das miniférias carnavalescas para o saberes. A novidade espalhar-se-ia directamente até ti. Era impossível lutar contra este destino. Eventualmente deixei de tentar. Não mais saí no Carnaval, não mais quis saber.

Quando finalmente deixei Ovar para trás, o Carnaval passou a ser algo secundário. Poucas eram as pessoas que o festejavam, embora houvesse algum interesse esporádico em conhecer a Noite dos Dominós, a mágica segunda-feira de Carnaval. Um ano inclusive, descobri mais tarde que um grande grupo de pessoas do meu curso veio a Ovar de propósito conhecer essa noite. Só me contaram passado alguns dias. Enfim.

Foi apenas em 2011 que a minha relação com o Carnaval mudou. Já com um grupo de amigos entusiasmado pelas festividades, e com a minha primeira relação estável, tudo indicava que essa noite de segunda-feira podia mesmo ser mágica. E assim foi.

Semanas antes juntámo-nos para planear os nossos fatos. Decidimos criar uma equipa de futebol americano, os Ovar Lions, e fantasiámo-nos a rigor com capacetes feitos de espuma e papel de jornal. Esse foi, de longe, o melhor Carnaval de sempre. Não me lembro de outra altura em que me tenha divertido tanto. A cidade parecia outra, o Entrudo tinha-se redimido. Não queria que aquela noite terminasse. De certa forma, ainda hoje a desejo.

Os anos seguintes tiveram os seus momentos, mas foi a noite de sábado que, inesperadamente, acabou por guardar os melhores. Foi assim de 2012 a 2014. Apenas nos voltámos a fantasiar em conjunto em 2012. Fomos à Rambo, mas com um fato comprado e um lança misseis de pressão de ar. Foi divertido, mas faltou a magia da originalidade, e de ser algo feito por nós.

Em 2014 nem sequer me fantasiei e acabei a noite a caminhar sozinho para casa, já de manhã, ao telefone com aquela que mais desejava ter ao meu lado.

Este ano, graças ao não feriado, e a um novo emprego, não pude sair na Noite Mágica. O meu Carnaval resumiu-se às noites de sexta-feira e sábado. Noites que terminaram mais cedo que o habitual. E assim, pela primeira vez em cinco anos, falhei uma segunda-feira de Carnaval.

Não gosto particularmente do Carnaval. Em Ovar são 40 dias. Demasiado tempo, demasiadas festas sempre com o mesmo tema de fundo. Para mim, chega o fim-de-semana que o antecede, e a Noite dos Dominós. Felizmente, este ano, dada a proximidade com o Natal, não foi muito mais que isso, embora numa qualquer noite de Janeiro fosse fácil cruzar-me com algum jantar ou festejo de um dos diversos grupos de Carnaval que a cidade acolhe.

O Carnaval não faz parte da minha identidade. Para mim, o Carnaval não é o desfile, não são os grupos, não é a música, não é a dança, nem a festa. Para mim, o Carnaval são as pessoas com quem o partilhamos. Um pretexto para nos fantasiarmos. Mais um motivo para uma festa entre amigos. Foi por isso que 2011 foi tão bom. Não pelo Carnaval, ou pela cidade, mas sim pelas pessoas que fizeram daquela noite uma das melhores que já vivi.

A minha relação com o Carnaval é, no mínimo, complexa. Não o aprecio, não anseio por ele. Não temo que ele volte a partir o meu coração. Mas tenho saudades daquela noite. Quero reviver cada momento. Quero mostrar o meu Dominó. Quero reencontrar a magia por entre as ruas de Ovar. Quero ser feliz. Quero mil e uma noites mágicas. Cada uma única. Cada uma especial. Cada uma, noite de Carnaval.

Thursday, February 12, 2015

O Apego da Solidão

Imagem DR
O tempo passa e com ele passa a dor. Pois tudo passa, até o amor. Na companhia de um bom livro e um violão, vou vivendo com a minha solidão.

Tudo Passa, Marjorie Estiano

Abres os olhos e acabaste de acordar. O sol não acaricia a tua face. O despertador ainda não tocou. Pela janela apenas vês nuvens. Mais um dia cinzento. Mais um dia, como outro qualquer. Por que acordaste tão cedo? Nem mesmo a preguiça te mantém desperto. Estás preso à cama. Sem vontade. Sem cansaço. Sem frio. Sem nada.

São mais os dias que acordamos assim. Sós. Isolados apenas entre os nossos botões. Os nossos pensamentos como única companhia. Sem um corpo quente ao nosso lado. Sem entusiasmo. Sem um motivo. São dias normais. Dias como outro qualquer. São estes os dias que precisas de começar a mudar. Os dias que precisas de começar a viver.

Aprender a viver com nós próprios. A gostar de nós. A ouvir o silêncio. A calar as vozes. Lições importantes e tão fáceis de negligenciar. É fácil depender de alguém. De nos agarrarmos ao apego, à rotina, aos lugares comuns, às nossas redes de segurança. É fácil, sim. Mas é também desprovido de qualquer sentido. É a apologia da preguiça intelectual. Do desafio do crescimento. O adiar do inevitável.

Lidar com a solidão começa por uma reviravolta de conceitos. Não devemos lidar ou combatê-la, mas sim refletir, compreender, aceitar e não deixar que esta nos consuma. O segredo está em sermos felizes connosco próprios. Em encontrar algo agradável nos pequenos pormenores do dia-a-dia. Nos momentos isolados. Nas horas apagadas que devemos ocupar.

Começa por refletir. Um caderno, uma caneta, um chá, ou um café. Um jardim, uma praia, ou um quarto. Um espaço confortável. Escreve se sentires essa necessidade. Desenha. Expressa-te. Pensa naquilo que gostas de fazer. Naquilo que queres fazer. Aquilo que queres melhorar em ti. Quem tu és. Quem podes ser.

Faz esse exercício as vezes que precisares. Interioriza esses desejos. Projecta o teu desafio. E age. Inscreve-te no ginásio. Nas aulas que tens andado a adiar. Cria a tua arte. Expressa-te. Investe em ti. Substitui algumas rotinas por algo mais imprevisível. Se trazes o teu almoço, experimenta comer noutro local. Sai do refeitório e procura um banco de jardim. Faz o caminho mais longo em vez de correres para casa. Desliga a televisão e lê. Levanta-te do sofá e vai conhecer a tua cidade. Troca aquela noite passada online por uma peça de teatro, uma ida ao cinema, ou um concerto. Torna os teus fins-de-semana especiais com aquilo que o Universo deixa ao teu dispor.

Em tempos disseram-me para ir aos locais que mais amo. Aos espaços com que mais me identifico. É lá que te irás encontrar. É lá onde se encontra a resposta.

É fácil confundir amor com apego. Mas são duas coisas bem diferentes. Recentemente vi uma entrevista de Jetsunma Tenzin Palmo, uma monja budista, e um ser-humano extraordinário, em todos os sentidos desta palavra. Nela Jetsunma expõe a sua visão sobre a vida. Mas o vídeo que mais me chamou à atenção foi aquele que diferencia o amor romântico, o apego, do amor genuíno.

Deixarmo-nos consumir pelo apego é um passo na direcção errada. É a negação da individualidade. O forçar de um sentimento que não é real. Um sentimento que não é genuíno. Jetsunma, apesar do seu impronunciável nome, é bastante clara na distinção entre amor e apego. Apego exige a presença constante de alguém. É intenso. E desaparece com a velocidade com que surge. Já o Amor aceita a individualidade de alguém. Admira a sua pessoa. A beleza do seu ser, e do sentimento que ambos partilham. Amar é compreender. Amar é ser feliz com a felicidade do outro. Amar é deixá-la partir. Amar é deixá-la voar.

Para aprendermos a viver com a solidão, devemos amar-nos a nós próprios. Um velho cliché. Uma frase feita. Uma afirmação verdadeira. Uma necessidade primordial. Para amar, devemos desligar-nos do simples apego, compreendê-lo e saber distinguir um sentimento do outro. Para amar, devemos estar dispostos a libertar. Não apenas aquela a quem nos entregamos, mas também as amarras que prendem o nosso coração. Que bloqueiam a nossa felicidade. Que nos impedem de agir.

Não é fácil estar só. Não é fácil viver apenas das conversas que partilhamos entre o silêncio da nossa mente. Não é fácil. Mas é necessário. É necessário aprendermos a viver connosco próprios. A gostar de nós. A combater a inércia. A perturbar a rotina. Só assim podemos crescer. Só assim nos podemos conhecer. Só assim podemos ser alguém que não nos desilude. Alguém capaz de amar. Alguém capaz de ser amado.

A confiança, a vontade, o desejo de nos expressarmos, esconde-se por entre os degraus de um longo caminho de autodescoberta. De crescimento constante. De amor por aquilo que faz de ti quem tu és. Quem tu podes ser. Aquilo que te torna único. A beleza do silêncio interrompido pela tua própria determinação.

Abres os olhos e acabaste de acordar. O sol não acaricia a tua face. O despertador ainda não tocou. Pela janela apenas vês nuvens. Mais um dia cinzento. Já estás a pé. Pronto para agarrar os inesperados encantos que este dia tem para oferecer.

Thursday, January 22, 2015

Boyhood

Boyhood
You know how everyone's always saying seize the moment? I don't know, I'm kind of thinking it's the other way around, you know, like the moment seizes us. 
Nicole, Boyhood

Boyhood é uma história simples, mas assim é a vida. Assim é crescer. Boyhood não é apenas um filme. É uma experiência. Um retrato de uma geração. São doze anos de investimento. É o trabalho de uma vida. É o sonho de Richard Linklater.

Filmado ao longo de doze anos, Boyhood segue a vida do jovem Mason, protagonizado por Ellar Coltrane, uma criança de seis anos, um adolescente de catorze anos, um jovem adulto acabado de entrar na universidade. A infância e a adolescência de Mason confundem-se com a de Ellar, pois também ele cresce, também ele vive com este projecto, com este filme, sempre guardado nos momentos especiais de cada ano de produção. De cada ano de crescimento.

Foi uma aposta de risco de Linklater, uma tarefa com tudo para correr mal. Um desafio que, mesmo que não tivesse chegado ao fim, seria honrado pela tentativa de criar algo único, algo histórico. Felizmente, o filme foi um sucesso, a experiência foi um sucesso. Ellar não comprometeu, assim como Lorelei Linklater, a filha do próprio realizador, que fez de irmã de Mason, também ela seguindo de perto o crescimento desta história, desta personagem, e deste actor.

Boyhood conta uma história simples. Uma história comum, já muitas vezes partilhada. Mas agora sobre uma perspectiva única, através dos olhos de uma criança. De uma criança que cresce. De um país que se desenvolve, que lida com as desavenças de um futuro incerto, e de uma economia descontrolada e imprevisível.

Mason, e a sua irmã Samantha são filhos de pais divorciados. Dois pais que se casaram demasiado novos. Dois pais com um rumo ainda por descobrir. Em Ethan Hawke e Patricia Arquette vemos dois caminhos paralelos, dois caminhos inversos. Um músico sem qualquer plano que viaja para se encontrar. Uma mãe divorciada com aspirações e com um doutoramento em psicologia no seu horizonte.

Ambos encontram-se algures pelo meio, sempre com Mason como pretexto para uma breve partilha de novidades e pontos de situação. Os maridos alcoólicos e possessivos de Patricia, a mulher que finalmente faz Ethan assentar e tentar novamente construir uma família. Um novo começo para Ele. Um destino ainda por descobrir para Ela.

Mason vive tudo aquilo que um qualquer rapaz experiencia nos breves e curtos momentos que a vida nos permite crescer. Apaixona-se. Testa os seus limites. Cria e destrói amizades. Recria momentos. Fortalece laços. Expressa-se. Viaja. Segue em frente. Percorre todos os caminhos possíveis. Todos os caminhos que o levam até à sua arte.

Mason não é uma criança especial. Não é um jovem especial. Mason é como nós. Apenas mais um rapaz americano do Texas que acompanha os incidentes de uma sociedade que se transforma, que cresce, que se diferencia. Um rapaz que gosta do Dragon Ball. Que bebe com os amigos. Que faz planos com a sua namorada. Que se dedica à sua paixão pela fotografia. Um rapaz talentoso, culto e preguiçoso. Não é o típico adolescente americano, mas também não é alguém que se destaque numa multidão. Mason é apenas igual a si próprio.

Alguém que cresceu. Alguém que vimos crescer. Alguém que aprendemos a compreender ao longo de doze anos, reduzidos a pouco mais de duas horas. Doze anos que passaram rápido. Um piscar de olhos para alguns de nós. Uma vida inteira para Mason.

Boyhood é uma história breve, mas assim é a vida. Assim é crescer.

Thursday, January 15, 2015

Quase Literatura

Imagem DR
Essa [literatura] simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Por que escrevo? Por uma inata necessidade de me expressar? Para me fazer ouvir? Para partilhar os meus pensamentos? Para contar as minhas histórias? Apenas porque sim, ou porque é esta a minha arte?

Não sei porque escrevo. Não sou capaz de encontrar por entre palavras forma alguma de descrever o que me motiva. A força, a energia, a vontade de transformar uma página em branco num pensamento, numa ideia, num manifesto, numa história, ou num exercício lírico. Talvez seja por isso que não sou um bom escritor. Pelo menos, não um capaz de satisfazer a minha perpétua exigência. Não, não sou um bom escritor. Ou escritor sequer. Não vivo disto. Apenas escrevo. Apenas escrevo...

Lembro-me de quando comecei a escrever para mim. Não porque fazia parte de algum trabalho da escola, ou de um imperativo de comunicar textualmente com alguém. Apenas porque sim. Queria partilhar uma ideia. Contá-la não apenas a mim, nem tão pouco àqueles que me rodeavam, mas sim partilhá-la com o Mundo. Com todos aqueles que pudessem encontrar em mim alguma espécie de reconhecimento e compreensão.

De algumas incoerentes linhas de palavras sem nexo, para indignados protestos, crónicas do dia-a-dia, manifestos activistas, contos, romances, comédias, poemas, e frases atrás de frases de ideias, pensamentos, e acções que, ano após ano, sempre mantiveram algum daquele estilo incoerente e desafiador de uma norma que nunca foi verdadeiramente aprendida.

Não é o blogue que me move. Não é uma coluna, uma nota ou um artigo. Nem tão pouco um jornal. Escrevo apenas porque sim. Porque há um ano encontrei uma peça de lego amarela no chão e quis partilhar esta história. Porque a equipa que apoio foi injustiçada e sinto a necessidade de o expor. Porque a história das personagens que criei num pensamento, num sonho, ou num qualquer momento do meu dia, merece, aliás, não, precisa de ser contada.

Escrevo porque há sentimentos que não consigo guardar. Porque há desejos que quero partilhar. Pessoas que quero ajudar. Almas gémeas que quero conhecer. Escrevo porque é parte de mim. É parte de quem eu sou. Naquela linha ténue que nos separa do resto do Mundo, são as minhas palavras, os meus pensamentos, verbais ou literários, que me mantêm constante. São elas quem me guarda, quem me indica o caminho.

São recados. Cartas. De mim para mim. De mim para quem as quiser ler. Para quem me quiser ouvir. Para quem me compreende. Para quem me deseja entender. São vozes amigas. Recordações. Histórias para desanuviar. Personagens com quem chorar, sorrir, amar. Amizades eternas. Saudades curadas ao virar de uma página. Ao suspirar de um sonho. Ao despertar de mais um dia.

Sei quem sou por aquilo que escrevo. Aquilo que escrevo é parte de quem eu sou. Com o silêncio digo muito. Com uma folha silencio o vento. Afasto-me para um local só meu onde, uma boa conversa, dá lugar a uma frase. E a outra. A outra. E a ainda mais uma. Estas dão lugar a ideias. A realidades. A Universos inteiros. A vidas que apenas tu conheces se estas não forem contadas.

Podes nunca vir a ser um Tolkien, um Martin, um Saramago, um Pessoa, um Queirós, nem tão pouco um King, ou um Sparks. Mas escreves. Expressas-te. Dás-te a conhecer. A ti e a quem te lê. Deixas de ser apenas mais uma voz, tímida por entre a multidão. És algo mais. Algo que te ultrapassa. És a tua arte. Tu és arte.

Não sei escrever. Não sou escritor. Apenas escrevo. Apenas sigo aquilo que não sei pôr por palavras. Aquilo que me move. Aquilo que me fez encher esta, e tantas outras páginas. Desde que me conheço. Desde que penso. Desde que sei. Desde que escrevo.

Não sou um bom escritor. Mas é esta a minha arte.

Tuesday, December 23, 2014

O Regresso da Véspera da Véspera de Natal Parte VIII

Design: Adriano Cerqueira
365 dias, 42 francesinhas, 26 bilharacos, 17 marcações da SciELO, 10 anos de blogue, 4 objectivas , 2 meses de Insanity, um Sagrado Chinelo e 0 pencas depois, está de volta o momento mais aguardado por todos os inconformados seguidores deste blogue, a Véspera da Véspera de Natal!

O Shaun T estava a jantar com a Menina do Gás. “Isso é subjectivo”, diz o Mindo que passava por ali, a caminho da terra desconhecida chamada Brasil. Já Jorge, o Cristo. Mas o Cristo não é Jesus? Não, o Jorge ‘acardita’. Credita? Sim, talvez. Jorge, o Cristo, pedia uma francesinha com pouco picante e uns peanurs para molhar no molho. Isso são as batatas. Não, isso são peanurs.

A Menina do Gás contava ao Shaun T como já lhe doíam os joelhos de carregar a botija pelas escadas acima no prédio do Pessoa. “You have to Dig Deeper”, aconselhou ele. “Isso foi o que ela disse”, pensou o Vasco da Gama que por ali se encontrava à procura da terra desconhecida chamada Brasil.

O Eusébio e a sua toalha por ali passeavam para servir o Shaun T. Mas ele já não tinha morrido? Não, é como o Pessoa no livro do Saramago, tens direito a nove meses para passear por aí. Mas já passaram onze! Um portal abriu-se sobre a cabeça de Eusébio. “Chevron seven is locked.” E lá foi ele explorar o Universo com o Capitão Planeta, o Widget, Jorge, o Cristo, o Lanterna Laranja e o Mindo. Deixando a sua toalha para trás. Mas onde estava a Gaia e os outros cinco para chamar o Capitão Planeta? Foram a Évora visitar José, o Filósofo. Esse não era o Sócrates? Também. Mas... Vai ali com o Perna a Paris que já te explico.

A Menina do Gás pegou na toalha para limpar o suor, bebeu um pouco de água do seu cantil, virou-se para a câmara e disse para descansares quando for preciso, e para não desistires, pois ela estava mesmo ali.

O Shaun T, deu-lhe alguns pontos pelo esforço e começou a beber a sua fórmula de recuperação e resultados. Agora vais dizer para não me esquecer? Vai comer Pipas para o planeta dos Cacoetes. Isso são amendoins. “Não, isso são Peanurs”, disse Mindo, o Cristo, que passava por ali.

Jorge, o Cristo, o Filipe Anunciação, o Mindo e o Álvaro Cunhal iam com o Coelhinho, o Pai Natal, e o Palhaço, de Comboio ao Circo, mas antes, estavam na fila da Comic Con para ver a Natalie Dormer e a Menina do Gás. Trouxeste a tua objectiva de 300mm? Não. Como esperas fotografar a Natalie no meio de uma multidão de Pipas do planeta Cacoetes. “Isso é subjectivo.” “Mindo, vai procurar a terra desconhecida chamada Brasil”, disse o Álvaro Cunhal que em tempos gostaria de se chamar Miguel. “Mas eu vivo na Foça.” “Não, Mindo. A Foça é que vive em ti.”

Mindo, e o seu gafanhoto foram apanhar o Neko Bus para visitar a Menina do Gás. Perderam-se e entraram no autocarro do Marshopping para visitarem o Ikea. Por entre os labirintos encontraram o Eusébio à procura de uma toalha. “Deixei a minha com o Sexta-feira na ilha da Páscoa.” “Isso não me parece correcto”, protestou José, o Filósofo, que por ali se descobria a comprar almofadas para o seu beliche. “Tu é que tens dois sentidos!”, respondeu o Eusébio depois de voltar para o restaurante em busca da sua toalha encantada. Uma história contada, geração, após geração.

O Littlefoot pôs-se à frente para reclamar, mas o Vasco da Gama, Jorge, o Cristo, Jesus, o Jorge, a Menina do Gás, o Shaun T, e o Capitão Planeta cortaram-se na fila, já entediados e com pressa para comer bilharacos. E as Pencas? As Pencas, não. As Pencas são narizes. E os Couvões? Os Couvões são a tua prima. Tu é que és a tua prima!

Às vezes gostava de poder dar um maior fio condutor a estas coisas. Como fiz no ano passado, lembras-te? Eu sei o que fizeste no Verão passado. Não, não é esse filme.

Alegria para o Mundo pois nasceu o Menino Jorge, o Cristo. Esse é o Jesus. E dos céus desceu cantando, o Sagrado Chinelo. Shaun T, Sexta-feira, José, o Filósofo e o Vasco da Gama, ajoelharam-se dizendo “não somos dignos da tua presença”. Jesus, o Cristo que por ali se procurava a lavar pés, foi ter com o chinelo, mas este não lhe servia. Subiu então para uma barragem e escorregou para as águas.

Jesus, o Cristo, virou-se para Jorge, o Macho Latino que gosta de peanurs, e gritou: “Disseste que havia aquecimento!” “Não, não.” “Tu disseste que tinhas vindo cá e que tinham arranjado o esquentador.” “Isso é subjectivo.” Fogo, Água, Terra, Vento, Coração. Pelos vossos poderes combinados, cala-te Mindo!

A Menina do Gás tentou levar o Shaun T de volta para o seu apartamento, mas este preferiu ficar por ali em amena cavaqueira com o Sexta-feira. As Pencas tentaram ganhar alguma relevância, sem qualquer tipo de sorte. E o Mundo ficou assim salvo, graças às peripécias dos nossos heróis, que ainda aguardam pela francesinha para molhar nos “peanurs” de Jorge, o Cristo.

Em honra do Sagrado Chinelo, espalhem pelo Mundo as palavras de felicidade que só um dia como o 23 consegue transmitir. Pois hoje é a Véspera da Véspera de Natal. Dêem as mãos e cantem todos comigo:

Morram Pencas, morram! Pim!