Wednesday, April 20, 2016

Idiossincrasias

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Poucas coisas são mais irritantes que aquela palavra teimosamente presa na ponta da tua língua. Momentâneas obsessões que tomam conta do teu cérebro. Mordazes e incapacitantes obsessões. Persistentes obsessões. Enfurecedoras obsessões. Obsessões. Obsessões. Obsessões.

Uma importante parte dos meus constantes desafios e exercícios mentais passam pelo controlo do sentimento de obsessão. Aquela voz inquietante que não te deixa adormecer enquanto não te certificares se desligaste de facto o aquecedor. Que te incita a verificares o e-mail que acabaste de enviar para teres a certeza que não te esqueceste de nenhum anexo. Isto apesar de já o teres revisto umas dez vezes antes de carregares no botão de envio.

Em certos casos esta obsessão pode ser útil. É aquele pequeno gesto que te impede de enviar um projecto com erros, e que impele um certo toque perfeccionista em cada obra que produzes. Não fosse assim, e ‘ser um perfeccionista’ seria tudo menos a resposta mais comum à pergunta, ‘qual o teu maior defeito’. Contudo, há um motivo para que ser-se perfeccionista encaixe na categoria de defeitos e não na de virtudes. A perfeição consome uma grande quantidade de tempo. Tempo esse que é precioso. Tempo esse que é apertado. Tempo esse que não tem lugar para obsessões. Especialmente para aquelas que pouco ou nada têm de racional.

Há dias tinha uma palavra presa na ponta da minha língua. Tentei ignorá-la e descansar na hipótese de que eventualmente a iria recordar. Contudo, não há obsessão mais difícil de controlar que esta. Não há nada mais irritante que aquela palavra que não consegues dizer. Após alguns minutos a arranhar o meu cérebro, escavando o meu subconsciente em busca de algo que me pudesse ajudar a encontrá-la, apenas descobri as seguintes pistas: F podia ser a primeira letra da palavra; Quintessência; e uma possível sílaba com um som ‘L’. 

A minha mente funciona de forma misteriosa, abstracta e demasiado complexa, mesmo para a minha própria compreensão. A palavra que procurava era um termo usado maioritariamente pela classe política e cujo significado é ‘uma característica comportamental peculiar a um indivíduo ou grupo’. Nada tem a ver com quintessência, e as pistas silábicas estavam erradas.

Após uma longa e infrutífera pesquisa online, parei então o episódio da série que estava a ver e fui escavar por entre uma pilha de livros em busca de um velho dicionário da Porto Editora. É um daqueles volumes laranjas pesados que raramente vemos em uso hoje em dia. Encontrei a letra F e folheei na diagonal todas as páginas desta letra, em busca da palavra que tanto me atormentava.

Enfim, desisti e recorri ao último recurso que apenas uso em caso de emergências obsessivas: pedi ajuda nas redes socias. Após uma breve troca de comentários jocosos, acabei por encontrar alguém capaz de me ajudar: Idiossincrasia. Era esta a palavra que me tinha atormentado nas últimas horas.

Sim, compreendo a profunda ironia de ter uma obsessão, ou melhor, uma característica comportamental peculiar à minha pessoa, a ditar uma incessante busca pela palavra ‘idiossincrasia’.

Não consigo descrever o sentimento de alívio que senti quando finalmente a reencontrei. Talvez seja esse sentimento a verdadeira quintessência da minha obsessão. O meu desejo por essa sensação de tranquilidade e calma catártica força-me a obcecar pela mais ínfima coisa, de forma a satisfazer a minha dose diária de paz intelectual.

Talvez isto não passe mesmo de uma característica comportamental peculiar à minha pessoa. Apenas sei que, até hoje, raras são as vezes que as pistas do meu cérebro fazem sentido a alguém que não a mim próprio. E, neste caso, nem aí surtiram algum efeito.

São as nossas próprias idiossincrasias que ajudam a construir as peculiaridades da nossa personalidade. Algumas são benéficas, outras são irritantes. Algumas são estruturantes, outras necessitam de ser trabalhadas. 

Há dias falhei em controlar a minha obsessão. Já ontem. Ontem fui dormir sem me preocupar se tinha tirado ou não as pilhas da lanterna. Pequenos passos num longo caminho. Episódicos dias, cada um a seguir ao outro.

Tuesday, April 12, 2016

Liberdade de Debate e Contra-argumentação

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Show me one piece of evidence and I would change my mind immediately

Bill Nye

Há certas coisas que não compreendo. Na base de todos os debates e discussões existem sempre, pelo menos, duas visões opostas sobre um determinado tema. O segredo para uma boa contra-argumentação passa pela capacidade de calçarmos os sapatos do nosso opositor, de compreender a origem das suas opiniões, e de desconstruir eventuais erros de lógica, de pesquisa de conteúdo, e de buracos nos seus argumentos. Contudo, este processo torna-se impossível quando nos encontramos frente a um discurso ilógico, sem nexo e sem sentido.

A acção mais simples, quando nos deparamos com este género de situações, é simplesmente ignorar. Deixar um qualquer energúmeno a falar sozinho com as suas paredes é um mecanismo muito eficaz. A sua mensagem não é replicada, e as eventuais vozes de apoio mantêm-se silenciosas por falta da tão desejada publicidade, que assim é negada a esse sujeito.

Mas, hoje em dia, a ubiquidade da nossa presença online torna difícil que alguém, por mais ilógico e irracional que seja, se mantenha incógnito e ignorado. Na maioria das vezes são as próprias pessoas que se opõe às suas ideias e que as acham ofensivas, quem mais contribui para a divulgação das mesmas. Ao partilharmos visões profundamente deturpadas, estamos a dar-lhes a voz e o meio que estas tanto desejam para se propagar. 

No entanto, ao ignorarmos essa pessoa perdemos também a oportunidade de a educar e de partilhar uma visão do Mundo, diferente daquela que ele tenta propagar. O problema é que a natureza da nossa presença online, dita que o nosso tempo seja demasiado valioso e escasso para o gastarmos a contra-argumentar contra alguém que, na maioria das situações, vai continuar a bater o pé, incapaz de compreender as tuas intenções, ou até mesmo de perceber o porquê da tua vontade em debater esse tema. 

Encontramo-nos assim numa encruzilhada onde nenhuma das opções parece ser minimamente atraente. Entre ignorar e dar início a um debate, com o tempo descobrimos que ambas as opções são as correctas. O segredo está em saber escolher as nossas batalhas. Em perceber quando devemos defender aquilo em que acreditamos, ou que vemos como correcto, e quando devemos apenas seguir em frente com as tarefas do nosso dia-a-dia. Existe ainda uma terceira opção, direccionar o argumento para alguém com melhores capacidades de contra-argumentação, ou com maior conhecimento sobre o tema, e que esteja disponível para o desenvolver em teu lugar, naquele determinado momento.

É difícil para mim compreender como ainda hoje existem pessoas intolerantes, misóginas, racistas, homofóbicas, enfim, pessoas que dedicam a sua vida a tentar assegurar que os restantes não têm direito a serem iguais as si próprios de uma forma livre, sem serem constantemente sujeitos a qualquer tipo de julgamento ou de privação dos seus direitos mais básicos.

Existem diversas situações divergentes que, de um ponto de vista ideológico, tenho muita dificuldade em compreender, mas que, contudo, sou capaz de perceber o que poderia levar alguém a pensar dessa forma. 

Não compreendo porque certas pessoas não conseguem ver a Humanidade como uma sociedade heterogénea mas merecedora de igualdade no que diz respeito aos direitos mais básicos. Não compreendo como um jovem pode defender um ensino superior com propinas. Não compreendo como alguém possa não querer que o nosso sistema de saúde seja universal e gratuito. Não compreendo como existem pessoas que acham que nem todos temos o direito a uma habituação e ao livre acesso a alimentos e refeições. Compreendo muito menos aqueles que se opõem a uma sociedade baseada no mérito de cada um, independente do estrato social de origem, do género, da raça ou do credo.

Não compreendo quem prefere a ignorância à educação. A pobreza de espírito à riqueza de conhecimento. O ódio ao amor. A guerra à paz. A morte à vida. 

Estamos mais ligados do que nunca, mas nunca foi tão fácil isolarmo-nos do resto do Mundo. Um estudo recente demonstrou que as pessoas de pensamentos extremos, sejam elas mais liberais ou mais conservadoras, têm uma tendência para delinear nas suas redes sociais um único consumo de ideias que se enquadrem nas suas. Isto significa que alguém que seja muito conservador, tem uma maior tendência para consumir medias conservadores e para excluir todas as pessoas liberais que existem nas suas redes. Este efeito faz com que o extremismo aumente, tornando cada vez mais difícil para estas pessoas compreenderem a origem dos argumentos daqueles que lhes opõem.

Isto é algo que precisamos de combater o quanto antes. A ignorância e o ódio apenas alimentam mais ódio e ignorância. A situação actual, com atentados terroristas na Europa Central, Ásia e Médio Oriente, o número crescente de refugiados, e de conflitos que os provocam, foi toda catalisada pelo medo, pela ignorância, e pela intolerância. Pela incapacidade dos povos ocidentais de compreenderem o sofrimento que a guerra e a desigualdade social causa em cada país que atropelámos e deixámos ao abandono. 

O cidadão comum pouco pode fazer para mudar esta situação. Mas uma pequena parte da solução está na nossa capacidade de educar as vozes de medo e de discórdia que todos os dias vemos partilhadas nas redes sociais. 

Hoje, apenas temos tempo para ler um título. Poucos são aqueles que lêem o lead, muito menos aqueles que consomem toda a notícia, e ainda menos aqueles que vão pesquisar informação complementar para saberem mais sobre o que se está a passar, como chegou a acontecer, e porque está a acontecer. 

Há certas coisas que não compreendo. Pessoas, ideias e acções que nunca serei capaz de perceber o porquê da sua origem. Contudo, defendo a liberdade de cada um em expressar a sua opinião. E se querem provar-me errado, apresentem-me as provas e os factos, e aceitarei com bom grado a vossa argumentação. Se não forem capazes de o fazer, talvez esteja na hora de repensarem os vossos argumentos. 

Tens o direito de te expressar. Temos o direito de não te ouvir. 

Wednesday, March 16, 2016

Et tu, Ucal?

Ucal Zero Lactose, Imagem DR
Não há pior sensação que a de sermos traídos pelo nosso próprio corpo. Há seis anos descobri que era intolerante à lactose. De um dia para o outro vi-me forçado a atirar para o lixo uma considerável fatia dos meus alimentos preferidos. Disse adeus aos iogurtes, ao queijo, às pizzas, à lasanha, ao leite-creme, à aletria, a uma série de bolos e doces. Cada despedida mais dolorosa que a anterior. Mas aquela que teve maior impacto foi o Ucal.

Este leite achocolatado nunca fez parte do meu regime habitual. Era uma rara recompensa que oferecia a mim próprio depois de uma noite longa, no regresso de um festival, ou pelo acaso de um passageiro desejo. Um precioso ritual que enfim terminava, sem direito a uma derradeira despedida.

Durante dias olhei para trás, para cada oportunidade falhada de consumir um Ucal, mas nada podia fazer. Esta bebida estava, agora, riscada para toda a eternidade da minha ementa. Assim foi, e assim segui em frente.

Deixei de comer iogurtes depois de almoçar, tirei o queijo da minha sandes da tarde, o leite de soja substituiu o de vaca nos meus cereais, as minhas pizzas, lasanhas, e até as minhas francesinhas, passaram a vir sem queijo. Mas nada procurei para substituir o Ucal. Até hoje, ainda não provei leite de soja com chocolate. Por mais que já mo tenham recomendado, simplesmente não seria a mesma coisa.

Há semanas atrás, passeava pelo Continente quando encontrei um solitário Ucal sem lactose. Isolado numa vazia prateleira, estava ali, sozinho e desacompanhado. Como se estivesse à minha espera, sob o desígnio de alguma entidade divina, condenado a aguardar eternamente pela minha chegada. Não hesitei em comprá-lo.

Por graça de um comentário neste mesmo blogue, já tinha conhecimento da existência deste novo Ucal, mas nunca o tinha visto à venda até àquele dia. Para ser sincero, nunca me dei ao exercício de o procurar, embora a minha natural curiosidade alimentasse o apetite pela sua descoberta.

Na verdade nunca fui grande fã de produtos lácteos sem lactose. São espécies contra-natura, privadas de uma das suas propriedades originais. Mas a forma como encontrei aquele Ucal, aliada à aleatoriedade estocástica do comentário que recentemente tinha lido, fez-me pôr de lado, por momentos, esta minha convicção, e persuadiu-me a dar-lhe uma nova oportunidade.

Aguardei alguns dias antes de o provar. Precisava de sentir o apetite. Aquele desejo. Aquela vontade de beber um Ucal que apenas sentia de tempos a tempos. Esse dia, ou melhor, essa noite, enfim chegou. Desci até à cozinha, peguei na garrafa e preparei-me para o provar.

Esta foi uma das piores experiências gastronómicas que tive desde aquela tarde em 2011 em que provei marmite pela primeira vez. Nunca tinha bebido algo tão enjoativamente doce. Não sei se esta é uma consequência natural da remoção da lactose, mas nunca tinha provado uma bebida tão doce ao ponto de a achar enjoativa. E eu sou um tipo que prefere o Pão-de-ló de Arouca ao de Ovar por o primeiro ser ainda mais húmido e ter uma cobertura de açúcar à volta.

A mística que guardava em torno do Ucal tinha sido desfeita. O horrível sabor desta abominação quase que destruiu todas as boas recordações que, até aquele momento, mantinha das minhas prévias experiências com este leite achocolatado, há tantos anos atrás.

Não havia nada a fazer. Ucal sem lactose não é Ucal. É uma abominação. Uma criação do demo. Um anátema. Ainda não consegui esquecer o traumatizante sabor dessa aberrante manobra publicitária.

Apenas me resta aceitar que não mais voltarei a provar um verdadeiro Ucal. Esse desejo é agora enterrado num profundo e longínquo recanto da minha memória, reservado para tarefas impossíveis e impraticáveis.

Até sempre, Ucal. Não mais irei sentir o teu agradável sabor. Triste fado este que hoje sou forçado a aceitar. Pois assim é viver sem o teu leite achocolatado.

Monday, February 29, 2016

29 de Fevereiro

Google Doodle DR
Nothing in all the world is more dangerous than sincere ignorance and conscientious stupidity.
Martin Luther King, Jr.

Há fenómenos curiosos que, à primeira vista, parecem impensáveis. É difícil imaginar nos dias de hoje alguém que defenda que a Terra é plana, que a Evolução não passa de uma teoria, que certos seres humanos têm menos direitos que outros por possuírem uma certa nacionalidade, um determinado género, uma língua, um tom de pele, um credo, ou uma sexualidade distinta da dos restantes. Contudo, seja por ignorância, propaganda, manipulação ou simples estupidez, ainda existem milhões de pessoas que pensam assim. Idiotas capazes de defender estas mesmas convicções até à última consequência, mesmo quando lhes são apresentadas provas e factos que demonstram o quão errados eles estão. O dia 29 de Fevereiro não é excepção.

De quatro em quatro anos, salvo algumas excepções que irei explicar mais à frente, temos um ano bissexto. O mês de Fevereiro ganha mais um dia. Os adeptos de futebol antecipam o Europeu, e os Jogos Olímpicos preparam-se para unir duzentas nações em torno do maior evento desportivo de todos os tempos.

Os anos bissextos existem pois a Terra demora mais algumas horas para completar o seu movimento de translação em torno do Sol, do que aquelas que encaixam em 365 dias. São mais ou menos oito horas a mais por ano.

Num período de 365 dias, oito horas parece pouco. Alguns podem vê-lo como um valor marginal. Mas, se isto é verdade para um simples ano, o mesmo não acontece quando estas horas começam-se a acumular ao longo de décadas, séculos, ou milénios. O dia 29 de Fevereiro existe então para compensar essas horas extra que acumulamos ano após ano. Não fosse por este dia e não tarda estaríamos a celebrar o Natal em pleno Verão, ou a ver os primeiros nevões na Serra a meio de Junho.

Para manter o nosso calendário estável e condizente com o ritmo das quatro estações, precisamos de corrigir periodicamente estas horas extra. E para isso podemos agradecer ao dia 29 de Fevereiro.

Contudo, existem excepções a esta regra. São bissextos todos os anos múltiplos de quatro, excepto os múltiplos de cem, a menos que estes sejam também múltiplos de 400. Por exemplo, o ano 2000, múltiplo de 400 e de cem, foi ano bissexto, já o ano 2100 não será bissexto, mas os anos 2096 e 2104 vão ser. Isto acontece porque, novamente, essas oito horas extra, não são bem oito horas. Infelizmente o Cosmos não se guia pelas nossas métricas, não deixando enfim de exigir uma forte precisão.

Fossem todos os anos múltiplos de quatro bissextos e, a cada 500 anos, tínhamos um desvio de três ou quatro dias a mais. Por este motivo, todos os anos múltiplos de cem que não sejam, ao mesmo tempo, múltiplos de 400, não são bissextos. Parece complicado, mas visto que a esperança média de vida de qualquer pessoa ainda não chega aos 200 anos, é de certa forma irrelevante preocuparmo-nos com isto. É então mais simplista decorar apenas que os anos bissextos acontecem “sempre” de quatro em quatro anos.

Não existe então nenhum grande obstáculo lógico que impeça as pessoas de aceitarem a existência do dia 29 de Fevereiro. Afinal não passa de algo tão natural no nosso calendário como os Jogos Olímpicos, o Carnaval, ou o Equinócio da Primavera. Mas claro que mesmo uma questão tão simples acabaria por ter uma grande onda de contestação. Bom, se calhar não é assim tão grande, mas não deixa de ser hilariante.

Há quatro anos, gerou-se uma onda de comentários, artigos e vídeos espalhados pelas redes sociais, a anunciar um movimento de adolescentes contra a existência do dia 29 de Fevereiro. O único argumento usado por este movimento era o quão estúpido este dia extra era. Completamente ignorantes do quão importante ele efectivamente é.

Sim, compreendo que seja inconveniente para quem nasceu neste dia, poder celebrar o seu aniversário no dia correcto apenas de quatro em quatro anos. Mas é um pequeno preço a pagar para termos um calendário, imperfeito, mas, até um certo ponto, relativamente previsível.

O dia 29 de Fevereiro é um dia que devia ser celebrado. Um feriado Mundial que promovesse a paz e o diálogo entre as nações. Afinal, um ano bissexto é também um ano de Jogos Olímpicos, e que melhor desculpa que esta, para nos sentarmos à mesa e partilharmos os nossos diferentes pontos de vista.

Percebo aqueles que se fazem passar por idiotas para ganhar cliques, visualizações, comentários, partilhas, enfim, popularidade. Contudo, ao fazerem isso, não só passam uma imagem de ignorantes, como estão a apelar ao mais baixo denominador comum. Criem conteúdo de qualidade, informem-se, e aprendam a argumentar com base em factos.

Para mais informações sobre os anos bissextos e o dia 29 de Fevereiro podem clicar aqui.

Feliz dia 29. Morram Pencas, morram! (Esse é o 23) Esqueçam as Pencas então. Pim.

Tuesday, February 23, 2016

O Barco a Remos

Barco a Remos, Fabuland; Foto: Adriano Cerqueira
Todos temos coisas que gostamos de adiar. Limpar a cozinha, arrumar o quarto, ir ao dentista, fazer exercício. A lista é infinita. Contudo, todas essas coisas atingem um ponto em que não podem mais ser adiadas. Num abrir e piscar de olhos, acordamos naquela data inevitável que ainda há dias parecia tão longínqua.

Quando a minha casa acabou de ser construída, há cerca de treze anos atrás, muitos dos meus brinquedos e objectos de infância, acabaram por ficar guardados num anexo que construímos ao fundo do meu quintal. É um simples coberto, sem portas, e com pouca protecção contra os elementos e a humidade. Ideal para fazer uns churrascos no Verão e para deixar a roupa a secar em dias de chuva, mas que para pouco mais serve.

E durante dez anos por ali ficaram. Guardados em caixas de cartão e sacos de plástico. Sem nenhuma organização aparente. Verão após Verão, adiava para o ano seguinte a árdua tarefa de os organizar. E de salvar aqueles que tivessem maior valor, das intempéries que os contínuos Invernos ameaçavam fazer cair sobre eles.

Apenas em Fevereiro de 2013 fui capaz de dizer basta. O inevitável dia que tanto fiz por adiar tinha finalmente chegado. A minha motivação chegou numa noite como qualquer outra. Antes do jantar, fui dar uma volta pelo quintal e passei pelo anexo. Uma saca entreaberta chamou-me a atenção. Lá dentro estava um jogo de tabuleiro do Space Jam. Uma raridade coleccionável que tinha saído como oferta no Jornal de Notícias em 1997. Foi com espanto que o encontrei ali, pois achava que tal como todos os meus jogos de tabuleiro e brinquedos mais valiosos, também este se encontrava a salvo no sótão da minha casa.

O meu primeiro instinto foi trazê-lo para dentro e ver se todas as peças ainda estavam intactas. Felizmente, o jogo estava completo. Com algum pó, mas completo. Na manhã seguinte, pus-me ao trabalho. Que outros tesouros estariam perdidos por ali à mercê dos elementos, das aranhas e dos gatos que por ali pernoitavam?

Demorei duas semanas a organizar as caixas. Uma semana para separar e reorganizar os conteúdos das caixas que estavam espalhadas pelo anexo, e outra para limpar os arrumos do sótão, pois também estes precisavam de uma intensa fascina.

A maioria dos brinquedos que encontrei no anexo não deixava qualquer saudade. Baldes de plástico, ancinhos, pás e formas para brincar na areia, prémios de ovos Kinder, velhos carros telecomandados há muito avariados, bolas, puzzles incompletos, e velhos jogos, ora ferrugentos ou simplesmente partidos. Mas, entre esta miríade de desilusão, houve algumas pequenas surpresas. A maior delas foi a minha colecção de sets da Lego.

Confesso que o principal motivo que me levou a demorar uma semana inteira para terminar de organizar as caixas dos anexos, foi a minha autoproclamada missão de completar todos os sets que ali encontrei.

Peça a peça, esmiucei cada recanto dos anexos e do sótão até ter a certeza que mais nenhuma iria encontrar. Para quem me conhece, isto pode parecer estranho, mas a verdade é que durante a minha infância não fui um grande fã de Lego. Power Rangers, Dragon Ball, Pokémon e Jurassic Park, foram os principais brinquedos que cativaram a minha imaginação. Havia sempre espaço para esses pequenos tijolos, mas nunca me cativavam a atenção por mais que alguns minutos. Por este motivo, deixei-os ali. A maioria deles estava dentro de um jarro de vidro. Memorabilia da antiga drogaria da minha avó. Contudo, os mais antigos, os Duplo, e os tijolos propriamente ditos, estavam espalhados por sacas e caixas de forma aleatória.

Entre 96 e 97, sempre que ia ao Modelo com os meus pais, costumava trazer um mini set. Vinham em pequenas caixas e custavam cerca de duzentos escudos. Ao todo coleccionei 22 durante esses dois anos. Costumava guardá-los nas suas caixas originais, mas quando nos mudámos, para poupar em espaço, pu-los todos dentro desse jarro. Infelizmente, também deitei fora as instruções, e com o passar dos anos por ali ficaram esquecidos. Ao fundo do meu quintal, dentro de um velho jarro de vidro.

Como não tinha guardado as instruções, não tinha forma de saber se estes estavam completos e a que sets pertenciam as outras peças que tinha encontrado. Após algumas horas de pesquisa online, encontrei o Brick Factory. Um site com um design a lembrar as páginas do Geocities, mas que tem a maior base de dados de instruções de sets da Lego.

Passei os dias seguintes a ver, ano a ano, a que sets pertenciam as peças que tinha então descoberto. Duvido que alguma vez tenha passado tanto tempo num único site como passei nesse. Com alguma sorte à mistura, descobri que todos esses vinte e dois sets estavam completos. Contudo, o mesmo não acontecia com os restantes, à excepção de um. O barco a remos da colecção Fabuland.

Quando andava na pré-primária aqui em São Miguel, lembro-me que tínhamos um balde de Legos com o qual brincávamos quase todos os dias. Muitas vezes acabava por trazer alguns para casa. Um deles, em particular, era um barco vermelho. Esse mesmo barco a remos.

Talvez por o ter trazido sem permissão mais que uma vez, acabei por receber o set completo. Não sei se este foi o primeiro set da Lego que alguma vez me ofereceram, mas sei que de todos aqueles que sobreviveram completos até aos dias de hoje, este é o mais antigo.

Fiquei tão feliz com a perspectiva de que algo tão antigo, chegou intacto às minhas mãos, com apenas algumas marcas de sujidade, que, ainda hoje, reservo para este barco a remos um local especial no meu quarto.

Este foi o maior tesouro que encontrei por entre aquelas caixas. Um pedaço da minha infância que sobreviveu a anos de negligência, esquecimento, e a incontáveis intempéries do tempo. A minha recordação mais antiga, e o primeiro tijolo na reconstrução do meu amor por estas pequenas peças.

Cada objecto conta a sua estória. As que viveu e aquelas que o futuro ainda lhe reserva. Esta não é a estória de um simples brinquedo, mas sim um pedaço da minha infância. Um episódio da minha história recente. Um pedaço das minhas paixões. Um pedaço de mim.