Tuesday, February 23, 2016

O Barco a Remos

Barco a Remos, Fabuland; Foto: Adriano Cerqueira
Todos temos coisas que gostamos de adiar. Limpar a cozinha, arrumar o quarto, ir ao dentista, fazer exercício. A lista é infinita. Contudo, todas essas coisas atingem um ponto em que não podem mais ser adiadas. Num abrir e piscar de olhos, acordamos naquela data inevitável que ainda há dias parecia tão longínqua.

Quando a minha casa acabou de ser construída, há cerca de treze anos atrás, muitos dos meus brinquedos e objectos de infância, acabaram por ficar guardados num anexo que construímos ao fundo do meu quintal. É um simples coberto, sem portas, e com pouca protecção contra os elementos e a humidade. Ideal para fazer uns churrascos no Verão e para deixar a roupa a secar em dias de chuva, mas que para pouco mais serve.

E durante dez anos por ali ficaram. Guardados em caixas de cartão e sacos de plástico. Sem nenhuma organização aparente. Verão após Verão, adiava para o ano seguinte a árdua tarefa de os organizar. E de salvar aqueles que tivessem maior valor, das intempéries que os contínuos Invernos ameaçavam fazer cair sobre eles.

Apenas em Fevereiro de 2013 fui capaz de dizer basta. O inevitável dia que tanto fiz por adiar tinha finalmente chegado. A minha motivação chegou numa noite como qualquer outra. Antes do jantar, fui dar uma volta pelo quintal e passei pelo anexo. Uma saca entreaberta chamou-me a atenção. Lá dentro estava um jogo de tabuleiro do Space Jam. Uma raridade coleccionável que tinha saído como oferta no Jornal de Notícias em 1997. Foi com espanto que o encontrei ali, pois achava que tal como todos os meus jogos de tabuleiro e brinquedos mais valiosos, também este se encontrava a salvo no sótão da minha casa.

O meu primeiro instinto foi trazê-lo para dentro e ver se todas as peças ainda estavam intactas. Felizmente, o jogo estava completo. Com algum pó, mas completo. Na manhã seguinte, pus-me ao trabalho. Que outros tesouros estariam perdidos por ali à mercê dos elementos, das aranhas e dos gatos que por ali pernoitavam?

Demorei duas semanas a organizar as caixas. Uma semana para separar e reorganizar os conteúdos das caixas que estavam espalhadas pelo anexo, e outra para limpar os arrumos do sótão, pois também estes precisavam de uma intensa fascina.

A maioria dos brinquedos que encontrei no anexo não deixava qualquer saudade. Baldes de plástico, ancinhos, pás e formas para brincar na areia, prémios de ovos Kinder, velhos carros telecomandados há muito avariados, bolas, puzzles incompletos, e velhos jogos, ora ferrugentos ou simplesmente partidos. Mas, entre esta miríade de desilusão, houve algumas pequenas surpresas. A maior delas foi a minha colecção de sets da Lego.

Confesso que o principal motivo que me levou a demorar uma semana inteira para terminar de organizar as caixas dos anexos, foi a minha autoproclamada missão de completar todos os sets que ali encontrei.

Peça a peça, esmiucei cada recanto dos anexos e do sótão até ter a certeza que mais nenhuma iria encontrar. Para quem me conhece, isto pode parecer estranho, mas a verdade é que durante a minha infância não fui um grande fã de Lego. Power Rangers, Dragon Ball, Pokémon e Jurassic Park, foram os principais brinquedos que cativaram a minha imaginação. Havia sempre espaço para esses pequenos tijolos, mas nunca me cativavam a atenção por mais que alguns minutos. Por este motivo, deixei-os ali. A maioria deles estava dentro de um jarro de vidro. Memorabilia da antiga drogaria da minha avó. Contudo, os mais antigos, os Duplo, e os tijolos propriamente ditos, estavam espalhados por sacas e caixas de forma aleatória.

Entre 96 e 97, sempre que ia ao Modelo com os meus pais, costumava trazer um mini set. Vinham em pequenas caixas e custavam cerca de duzentos escudos. Ao todo coleccionei 22 durante esses dois anos. Costumava guardá-los nas suas caixas originais, mas quando nos mudámos, para poupar em espaço, pu-los todos dentro desse jarro. Infelizmente, também deitei fora as instruções, e com o passar dos anos por ali ficaram esquecidos. Ao fundo do meu quintal, dentro de um velho jarro de vidro.

Como não tinha guardado as instruções, não tinha forma de saber se estes estavam completos e a que sets pertenciam as outras peças que tinha encontrado. Após algumas horas de pesquisa online, encontrei o Brick Factory. Um site com um design a lembrar as páginas do Geocities, mas que tem a maior base de dados de instruções de sets da Lego.

Passei os dias seguintes a ver, ano a ano, a que sets pertenciam as peças que tinha então descoberto. Duvido que alguma vez tenha passado tanto tempo num único site como passei nesse. Com alguma sorte à mistura, descobri que todos esses vinte e dois sets estavam completos. Contudo, o mesmo não acontecia com os restantes, à excepção de um. O barco a remos da colecção Fabuland.

Quando andava na pré-primária aqui em São Miguel, lembro-me que tínhamos um balde de Legos com o qual brincávamos quase todos os dias. Muitas vezes acabava por trazer alguns para casa. Um deles, em particular, era um barco vermelho. Esse mesmo barco a remos.

Talvez por o ter trazido sem permissão mais que uma vez, acabei por receber o set completo. Não sei se este foi o primeiro set da Lego que alguma vez me ofereceram, mas sei que de todos aqueles que sobreviveram completos até aos dias de hoje, este é o mais antigo.

Fiquei tão feliz com a perspectiva de que algo tão antigo, chegou intacto às minhas mãos, com apenas algumas marcas de sujidade, que, ainda hoje, reservo para este barco a remos um local especial no meu quarto.

Este foi o maior tesouro que encontrei por entre aquelas caixas. Um pedaço da minha infância que sobreviveu a anos de negligência, esquecimento, e a incontáveis intempéries do tempo. A minha recordação mais antiga, e o primeiro tijolo na reconstrução do meu amor por estas pequenas peças.

Cada objecto conta a sua estória. As que viveu e aquelas que o futuro ainda lhe reserva. Esta não é a estória de um simples brinquedo, mas sim um pedaço da minha infância. Um episódio da minha história recente. Um pedaço das minhas paixões. Um pedaço de mim.

Sunday, January 17, 2016

Dez Anos de No Sense of Reason

Design: Adriano Cerqueira
É difícil imaginar que já passaram dez anos. É difícil contabilizar trezentas e dez publicações. Entre crónicas, contos, poemas, vídeos, fotos, imagens, estórias sem sentido, episódios do dia-a-dia, momentos de introspecção, sentimentos, enfim, incontáveis palavras espalhadas por cento e vinte meses de dedicação, esforço e devoção a um espaço. A um blogue. A um diário. A uma eterna constante inspirada nas letras de uma música desconhecida.

Foram anos de inspiração e de desespero. Dez anos a olhar para uma página em branco. A correr para o teclado sempre que aquela ideia surgia. A gatafunhar no meu bloco, ou numa nota do telemóvel, cada pensamento solto que pontualmente me assolava. Foram meses de revisão. De parágrafos apagados. De ideias deitadas fora. De projectos por concretizar. De artigos por escrever.

Dez anos cumpridos com falhas, sob um auto-imposto ritmo de trinta publicações por ano, e pelo menos uma por mês. Incontáveis Dezembros passados a espremer cada letra até à exaustão, esperando pelo confortável descanso de sentido e razão que aguarda o eterno 23.

Foram noites perdidas a editar o podcast d’A Rádio da Rádio. E a escrever. Sempre a escrever. É impossível olhar para trás e não ver tudo aquilo que mudou nos últimos dez anos. Pois tudo mudou. Mas este espaço, este blogue, sempre se manteve constante. Com novos layouts, diferentes designs, novos estilos e nova imagem. Mas sempre único. Sempre aberto. Sempre presente. Sempre meu.

Dez anos volvidos desde a criação deste blogue, e há doze anos como blogger, continuo sem um propósito, sem um motivo, sem um público e sem um tema. Escrevo porque sim. Apenas porque sim. Escrevo como um exercício. Escrevo porque tenho algo para dizer. Escrevo para que me leiam. Escrevo para mim. Para todos. Para alguém e para ninguém. Escrevo porque gosto. Porque o preciso de fazer. Porque o tenho que fazer. Escrevo porque sim. Apenas porque sim.

Viajo entre linhas de mundos e opiniões. Atravesso caracteres ilimitados. Exploro a lírica da minha língua. Vou além dos limites da minha criatividade. Descanso nos confins da minha imaginação. Luto pelas ínfimas ideias de uma musa eternamente adormecida. Escrevo. Falo. Filmo. Desenho. Fotografo. Viajo. Faço algo acontecer e guardo-o aqui. Uma pequena oferta para aqueles capazes de me oferecer algum do seu tempo.

Obrigado a cada pessoa que por aqui passou. A cada leitor, seja ele anónimo ou conhecido. A cada visualização. A cada subscritor. A cada seguidor. A cada amigo. A cada ligação. Obrigado por cada comentário. Por cada crítica. Pelo vosso apoio. Pela vossa presença. Pela vossa perseverança. Obrigado a todos aqueles que ajudaram a manter-me motivado. A todos aqueles que acompanharam este blogue ao longo dos últimos dez anos. Obrigado.

Nesta aventura o importante foi partir, pois o destino deste espaço constrói-se a cada nova publicação. Em cada frase. Em cada imagem. Em cada comentário. Online desde a distante tarde de 17 de Janeiro de 2006. São já dez anos de No Sense of Reason. Os primeiros dez anos do meu projecto mais antigo. Do meu projecto mais fiel. Da principal constante da última década que hoje celebro.

Os primeiros dez anos de No Sense of Reason.

Monday, December 28, 2015

As Passas da Meia-noite

Imagem DR
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
O Andaime, Fernando Pessoa

Meia-noite. Ano Novo. Champagne. Doze passas. Doze desejos. Faz parte da nossa natureza. Todos desejamos algo, ou alguém. Todos queremos obter o inalcançável. Melhorar as nossas condições. Todos queremos ser melhores do que somos, de quem fomos, do que a vida reservou para nós. Procuramos por uma estrela-cadente sob o céu nocturno. Deixamos uma moeda descansar no fundo de uma gruta ou de uma fonte. Sopramos as velas dos nossos bolos, e as pestanas dos nossos olhos. Enfeitamos as portas com Maias. Comemos doze passas.

No fundo, sabemos que uma simples uva secada e conservada para nosso consumo, nenhum poder tem para nos conceder algum desejo, além do saciar de um particular apetite por uvas passas. Pois não é essa a sua função. Da mesma forma que o meteoro que rasga a atmosfera durante a noite nada mais pretende que não desintegrar-se na sua abrupta queda até ao nosso Planeta. Tal como a moeda apenas quer cumprir o seu desígnio e circular entre estranhos até ao dia em que for guardada num qualquer álbum de um coleccionador, ou reciclada para formar novas moedas, quiçá de um valor superior.

Sabemos isto, contudo, a tradição persiste. O sonho continua vivo e os nossos desejos dele se alimentam. Pois muito daquilo que desejamos não passa disso, sonhos. Alguns impossíveis, outros improváveis, outros apenas à distância da nossa própria determinação. Olhemos para as zero horas do novo ano, não como uma altura para desejar algo em vão, mas como uma altura para redistribuir as nossas prioridades e para preparar os passos que desejamos seguir.

Nem todos os sonhos são fáceis de se concretizar. Alguns dependem apenas da sorte e estão fora do nosso controlo. Se o teu desejo é ganhar o Euromilhões, bem podes apostar todas as fichas nas doze passas, em trevos de quatro folhas ou em ferraduras de cavalo. Existe sempre a possibilidade de o venceres, sim, mas esta é tão pequena, que apenas um acto de pura sorte pode ajudar-te a concretizar esse desejo. É algo que está fora do teu controlo e que, sobre o qual nada podes fazer, além de registar o teu boletim e esperar pelo resultado.

O mesmo se aplica àqueles que desejam que a sua equipa seja campeã ou que vença uma competição europeia. Tal como tu, os adeptos dos teus rivais também desejam o mesmo. Se isso bastasse, uma tecnicalidade qualquer faria com que todos fossem co-campeões, ano sim, ano sim. Aqui, novamente, nada podes fazer além de a apoiares em todos os momentos. Podes fazer-te sócio, ir ao estádio ou ao pavilhão, bater palmas enquanto eles passam pela estrada, ou correm pelo tartan. Mas o resto depende inteiramente dos atletas, dos treinadores e das direcções. A tua camisola da sorte não impediu que eles perdessem aquele jogo. A tua presença no estádio não garante vitórias. Os teus cânticos oferecem uma ajuda anímica e empurram a equipa para a vitória, mas, no fundo, nada podes fazer para mudar o destino de uma época. A uva passa que comeste em nada afecta o que lhes vai acontecer ao longo do ano. Mas não a deixaste de comer.

Se há sonhos que estão fora do teu alcance, outros há que dependem apenas de ti. Se o teu desejo é arranjar um emprego, mudar, encontrar algo melhor, ou algo que te faça sentir mais realizado, apenas tens que te mexer. Esforça-te. Investe no teu currículo. Sai da tua zona de conforto. Regressa aos estudos se assim for necessário. Não tenhas medo de lutar por aquilo que queres. Emigra. Muda de cidade. Cria a tua empresa. Abre uma actividade. Profissionaliza o teu passatempo. Nenhuma uva passa pode fazer isto por ti. E cada moeda é uma ajuda na concretização deste sonho. Não a desperdices numa qualquer fonte. Não contamines mais as águas dessa gruta.

Já outros desejos não dependem apenas de ti. Se te queres apaixonar, não vais encontrar a resposta no fogo de uma estrela-cadente. Sai com os teus amigos. Fala com quem encontras pelo caminho. Conhece pessoas novas. Explora o teu Mundo e todos aqueles que te rodeiam. Viaja. Abre os teus horizontes. Visita os sítios que te apaixonam. Faz aquilo que amas. Alguém que deseja partilhar esses mesmos momentos contigo, acaba sempre por esbarrar no teu caminho. Apenas tens que estar de olhos bem abertos, e pronto para dar esse passo.

Não receies a rejeição. Cresce com cada não, em cada encontro, em cada beijo, em cada batida do teu coração. Melhora os aspectos que menos agradam em ti, mas mantém-te fiel a ti próprio. Não tentes ser alguém diferente de quem és, e lembra-te que são também os teus defeitos que te fazem único para a pessoa que te ama.

Podemos desejar a perfeição, mas não a podemos alcançar. Esquece as resoluções de ano novo. Nunca vais deixar de fumar, ou de beber. Nunca te vais inscrever num ginásio. Nem tão pouco vais começar a comer de forma mais saudável.

Não se apenas deixares tudo isto nas mãos de uma uva passa. Se desejas mesmo mudar um certo hábito em ti. Se desejas melhorar o teu corpo e a tua saúde, age. Levanta-te. Esforça-te. Motiva-te. Faz algo para que essas resoluções deixem de se repetir, ano após ano, sem qualquer efeito visível.

Se nada desejas mudar em ti mesmo, aceita quem és. Aprende a viver contigo próprio e a ser feliz com tudo aquilo que faz de ti quem tu és. A felicidade está ao alcance da tua determinação, e não nas folhas de uma rara erva daninha.

Meia-noite. Ano Novo. Champagne. Doze passas. Um momento para pensares em ti. No que desejas. No que queres. No que tencionas fazer agora que deixaste mais um ano para trás. As doze passas que hoje comes nada têm de mágico. Mas há magia neste momento. Há magia em ti. Há magia em quem não deixa o seu fado nas mãos do destino. Uma, duas, três. Doze passas já passaram. E tu? Como vais passar mais um ano?

Wednesday, December 23, 2015

O Regresso da Véspera da Véspera de Natal Parte IX

Design: Adriano Cerqueira

365 dias, 42 remakes, 28 bilharacos, 16 logos, 12 sequelas do Em Busca do Vale Encantado, 6 Pecados Mortais, 2 meses de Insanity, um Indominus Rex, One Punch Man e 0 pencas depois, sejam bem-vindos a mais um episódio do Regresso da Véspera da Véspera de Natal, o momento mais aguardado pelos dois leitores deste blogue e por todas as pessoas que hoje partilharam a hashtag Christmas Eve Eve!

O Son Goku estava nas palhas estendido à espera de um autocarro engolido por um gato para o levar para a floresta encantada. “Simon, a tua broca é a broca que vai perfurar a terra, os céus e todo o caminho até o amanhã”, disse Jesus, o Jorge que por ali passava ora nas palhas deitado, ora nas palhas estendido. Esse é o Cristo. Não, o Jorge. Jesus, o Cristo estava com o Vasco da Gama, o Eusébio, a Menina do Gás, o Mindo e a sua toalha em busca da terra desconhecida chamada Brasil. Mas a toalha não era do…? Isso é subjectivo!

Um tipo careca aproximou-se de Son Goku que por ali se encontrava, agora deitado a comer uma laranja ao lado do que podemos descrever como um gato cinzento gigante. Não devias ter feito estas referências ao teu vizinho Totoro no ano passado? O Postal de Natal era temático e tudo. Sim, mas agora devia aparecer o Mindo a dizer o quão subjectiva é a tua questão, mas ele foi com o Cristóvão Colombo procurar a terra desconhecida chamada Brasil. Não era o Vasco? O Palmeirim? Esse ainda está à procura do quarto Rei Mago. O persa Artaban? Não, um tal de Santiago. Não são dados muito às literaturas na Rádio Comercial.

“Ora viva e sejam bem-vindos a mais um programa da Rádio da Rádio”. Não estás no dia certo. 2010 já ficou muito atrás. Sim, sim, mas então e o Jesus, o Jorge? Braga e Funchal não lhe ficam bem, gosto mais de o ver em Alvalade, o verde realça mais os seus olhos. O que dizem os olhos do Son Goku? “Escolho-te a ti!” Não.

O tipo careca, que se chamava Saitama, disse Olá e perguntou ao Son Goku onde era o Pingo Doce mais próximo. Naquele momento Jesus, o Cristo, Vasco da Gama e a Menina do Gás apareceram em cima de uma Nau voadora com uma cara encrustada na face da proa. “Venham connosco se quiserem viver.” “Mas o Pingo Doce está com desconto nas laranjas”, disse Saitama aborrecido com toda esta situação. 

“Há um Pingo Doce cinco minutos a pé da nossa paragem”, gritou a Menina do Gás para o Saitama.

Saitama, Son Goku, a tolha, Vasco da Gama, Jesus, o Jorge, e a Menina do Gás largaram voo em busca da terra desconhecida chamada Brasil. 

“Onde vamos?”, perguntou Afonso Henriques que por ali passeava no seu Pégasos enquanto polia a sua espada de cinco metros. 

“Estamos em busca da terra desconhecida chamada Brasil. Precisamos do Mindo para subjectivar as situações que se vão sucedendo”, respondeu Jesus, o Cristo. Não era o Jorge? Também. E a toalha, não te esqueças da toalha. Sim, também já li o Hitchhiker's Guide to the Galaxy.

Chegados à terra desconhecida chamada Brasil, encontraram o Sexta-feira a falar com uma bola de voleibol. 

“Onde é o Pingo Doce?”, perguntou o Saitama.

“Tens que virar naquela palmeira e depois segues até ao Centro Cultural, depois do Carro Funerário.”

“O Cangalheiro vai à frente armado em bom rapaz, um dia irá atrás?”, perguntou o Son Goku.

“Sim, depois deve aparecer à vossa esquerda”, completou o Sexta-feira.

Por entre as árvores apareceu o Mindo com um saco de laranjas. “Eram as últimas do Pingo Doce.” 

Uma aura negra envolveu o nosso herói numa profunda onda de raiva. “Múltiplos murros normais!” Gritou Saitama, e o Mindo desapareceu, assim como toda a floresta que os rodeava. 

“O que aconteceu ao Mindo?”, questionou a Menina do Gás.

“Isso é subjectivo”, disse Saitama, nas palhas estendido com um saco das laranjas. Jesus, o Cristo, o Jorge, Son Goku, Vasco da Gama, o Afonso Henriques e o Sexta-feira deitaram-se nas palhas. Ora deitados, ora estendidos. Nas palhas. Sempre nas palhas.

Já ouviste falar em fios condutores? Não mas dava jeito para aquelas longas viagens em que só te apetece adormecer.

Enquanto o Mindo procurava aterrar num local minimamente suave, chegou o autocarro engolido por um gato. Saitama e o Son Goku levantaram-se e despediram-se dos restantes. Vasco da Gama, Sexta-feira, Jesus, o Cristo, e a Menina do Gás voltaram para a Nau e deixaram a terra desconhecida chamada Brasil em busca de um Mindo que nunca tinham visto mas que sabiam, dentro dos seus corações, que era subjectivo.

Em honra do Sagrado Chinelo, que morreu pelos nossos pecados, espalhem pelo Mundo as palavras de felicidade que só um dia como o 23 consegue transmitir. Pois hoje é a Véspera da Véspera de Natal. Dêem as mãos e cantem todos comigo:

Morram Pencas, morram! Pim!

Tuesday, December 22, 2015

Kung Fury

Kung Fury
A mixture of very broad and very sly that's quite simply a whole lot of fun.

Review on Rotten Tomatoes

Kung Fury is possibly the best thing ever. Wait, don’t leave. Stick around for a bit and let me explain why.

Let’s crunch the numbers. David Sandberg’s thirty one minute short is one of 2015’s biggest internet hits. Released on May 28th, it has, as of today, over twenty two million views on YouTube. This crowdfunding success, with a total budget of 630 thousand dollars, actually managed to place second in this year’s Directors' Fortnight section at the Cannes Film Festival. Seriously, if you haven’t seen it, what are you waiting for?

But what makes Kung Fury such a big success? Well, the Internet, of course. It all began when David Sandberg, a Swedish filmmaker, quit the commercial directing business, back in 2012, and focused on writing a script for an action comedy film set in the 1980s, inspired by action films of that era. He initially spent five thousand dollars on producing and shooting footage with his friends, which resulted in a trailer that swept the web by surprise.

The trailer was used for a Kickstarter campaign to produce a full feature film based on his script. With an initial bid of 200 thousand dollars, the trailer’s overnight success allowed them to raise over triple that amount and set them off on a journey through time back to the old days of NES Games and VHS players.

Kung Fury has the perfect recipe for timeless nostalgia. For those of us who grew up in the 80s and the 90s, this short film offers us what is probably the most action packed acid trip down memory lane that we could’ve ever wished for. Just have a look at the film’s synopsis.

During an unfortunate series of events a friend of Kung Fury is assassinated by the most dangerous Kung Fu master criminal of all time; Adolf Hitler, a.k.a Kung Führer. Kung Fury decides to travel back in time, to Nazi Germany, in order to kill Hitler and end the Nazi empire once and for all.

Oh, and it has Vikings and Laser Raptors too. What on Earth is a Laser Raptor? Just go watch the movie and find out. Seriously, just go. It’s free. And on YouTube. You can’t ask for a better bargain.

Kung Fury has just the right dose of nostalgia all mixed together in one great short film that will keep your eyes glued to the screen. It has a Van Damme cosplaying renegade cop, fighting pinball machines, muscle cars, NES Power Gloves, time-travel, old school 80s-style hacking, MS-DOS, VHS Tracking, Vikings, Dinosaurs, Kung Fu, Thor, Hitler, Nazis and David Hasselhof. Freaking David Hasselhof rekindled his music career with Kung Fury’s hit song “True Survivor”. You think you can hassle the Hof9000?

Nostalgia has grounded itself as one of our generation’s greatest trends. But why are we so pumped up over the 80s and the 90s? Well, because those are the decades where most of us who are now in charge of the production and development of online and creative content, grew up in.

We are the kids who grew up watching old VHS tapes to the point that they were simply unusable anymore. Who walked around with our Walkmen and our backpacks filled with cassette tapes. Who hanged out at old arcades to play 8-bit games. Who listened to The Doors and Pink Floyd albums on our dad’s record players. We are the ones who grew up without the internet or cellphones. The ones who couldn’t wait for the latest action figure from our favorite movie or TV show. The ones who woke up early every morning to watch cartoons. Where 3D was wearing red and green glasses to look at some cool images in a book, or at a poorly made animation on TV.

We grew up with silly action packed blockbuster movies, filled with ridiculously awesome one liners and buffed up dudes who couldn’t actually act but who were awesome at kicking some random bad guy's ass. Movies built upon foundations of unbelievable premises and seizure inducing unrealistic plots that never made any sense.

Kung Fury is a representation of all of this and so much more. It’s not afraid to present itself as what it is. A silly action packed sci-fi parody comedy of mid-80s action films. You can even purchase an actual VHS copy of this short film in their online store. Kung Fury speaks to its audience and gives them exactly what they’re longing to see. And it just doesn’t stop.

80s and 90s nostalgia is the bread and butter of the entertainment industry and it has been for a few years now. Although this trend will most likely eventually come to an end, for now, we are still fueling it with our unquenchable thirst for the good old days of our childhood. And even though we are perfectly aware that those days are never coming back, we can still find some comfort in well done throw backs and parodies just like Kung Fury.

Haven’t seen it, yet? What are you waiting for?