Wednesday, September 22, 2010

Défice de falta de atenção

Reparei que tenho andado despistado ultimamente. Distraio-me com uma tremenda facilidade, e é com grande esforço que consigo manter-me atento a algo, especialmente quando alguém fala comigo.

“Isto não vem de agora”, uma frase que da última vez que a ouvi, da última vez que me lembro pelo menos, vinha ligada a algo bem mais profundo, mas agora apenas serve para ilustrar a minha recém-descoberta incapacidade de focar-me apenas numa coisa durante um longo período de tempo. Mas é a melhor forma que encontrei para iniciar este exercício de introspecção.

Desde sempre que quando falo com alguém em condições de bastante ruído por vezes chego a um ponto em que simplesmente deixo de perceber o que a pessoa está a dizer. Na maioria das vezes limito-me a acenar e a fazer sons que mascarem a minha falha de audição, contudo, por vezes, peço para repetirem, mas antes que o possam fazer ouço, como um eco, o que me tinham dito anteriormente, como se apenas agora o estivessem a dizer, e houvesse alguma espécie de atraso no canal de comunicação.

Nunca prestei muita atenção a isto, achando que se tratava apenas de uma ilusão auditiva. Talvez, embora não tivesse ouvido, o meu cérebro seja capaz de ler os lábios e gestos do outro e interpretar o que foi dito tendo em conta a informação ao seu dispor.

Ultimamente isto tem-se agravado muito mais. Vejo-me a esquecer-me facilmente das tarefas que me proponho a fazer. O exemplo mais comum é abrir um browser e esquecer-me do site que queria consultar. Também por vezes levanto-me para ir a um sítio qualquer e encontro-me no meio do corredor a pensar no porquê de ali estar.

Sempre tirei vantagem da minha memória quase fotográfica que me permitiu concluir o liceu com pouco ou nenhum esforço. Tinha uma vasta capacidade de memorizar os mais ínfimos pormenores dos sítios que visitava de forma a poder reproduzi-los sem problemas dias, meses ou até mesmo anos mais tarde. Mas agora sinto como se o meu disco rígido estivesse cheio, sem lugar para mais informação.

De regresso à falta de atenção. Já chega a ser preocupante. Ontem convidaram-me para ir a um sítio, perguntei onde, mas não ouvi. A minha mente fugiu para outro lugar e apenas fixei a hora sem fazer ideia para onde me dirigia. Por embaraço, não voltei a perguntar e apenas deixei as coisas se desenrolarem até que me voltassem a dizer o sítio. Embora tenha boa memória para caras e nomes, ultimamente ao conhecer alguém novo, é raro o caso em que me lembro do nome.

Também ao ler uma notícia ou um livro, começo a divagar para outros lugares, sem deixar de ler cada palavra, mas ao mesmo tempo não as leio pois não lhes presto atenção. Cheguei ao ponto de reler o mesmo texto duas, três, quatro vezes seguidas antes de conseguir verdadeiramente assimilar o que lá está escrito.

Sinto-me como o J.D. num episódio de Scrubs. É raro manter uma conversa com alguém sem que a minha mente se aventure em outros pensamentos. Muitas vezes sou eu próprio que me apercebo do que se está a passar e forço-me a despertar deste sono.

Talvez a resposta esteja aí, não me lembro da última vez que dormi bem. Acordo várias vezes durante a noite e desperto ao menor ruído. Tento voltar a adormecer, mas demoro horas a fazê-lo.

Isto é mais notável quando estou sob stress, ou quando algo me preocupa. Nisso, este último ano não ajudou em nada. Mesmo quando estou a conduzir, já aconteceu esquecer-me do caminho e seguir em piloto automático pela estrada fora aos círculos. Não que eu não saiba o destino, ou por onde tenho de ir, mas simplesmente fico ausente do meu próprio corpo e começo a observar-me a partir de um ponto exterior. Tal é muito evidente quando vou a conversar com mais alguém. Pareço ter perdido a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Será um efeito secundário do cocktail de comprimidos ao qual me submeti durante meses? Estarei a atingir o limite de stress que o meu corpo e a minha mente aguentam? Não sei, mas acho que preciso de ajuda.

Thursday, September 16, 2010

À Margem da Tecnologia

Por vezes pareço ter um dom especial para tomar as decisões erradas nos piores momentos. Pelo menos no que toca ao investimento tecnológico, esse dom tem sido bastante evidente. Cépticos? Bom, nesse caso resta-me apenas enumerar os argumentos que fazem disto regra, e nada melhor do que começar pelo início.

Em meados da década de 90 – diria 1996, mas não tenho a certeza do ano exacto – comprei o meu primeiro computador, um Pentium 100. Na altura optei por não apostar na internet, por ainda ser pouco usada e não ter uma distribuição significativa em Portugal. Talvez esta decisão não tivesse sido assim tão disparatada, apesar de hoje em dia ser impensável adquirir um computador sem ligação à net, na altura a realidade era bem diferente. Contudo, passei ao lado de um bom investimento que me colocaria à frente do meu tempo e acabei por optar pela escolha mais segura.

Poucos anos passaram até que o meu velho Pentium 100 ficasse obsoleto. Ter um computador incapaz de ligar à afamada auto-estrada da informação era a mesma coisa que ter um enorme pisa-papéis que nem sequer era bonito o suficiente para servir de adorno. É em meados de 2000 que passo ao lado de mais um grande investimento. O meu segundo computador, um Pentium 4 com 10 gigabytes de Memória e 128 Mb de RAM, já veio equipado com um modem e portas USB, também elas novidade na altura, mas quando questionado se queria incluir um leitor de DVD, decidi que não valia o esforço extra, visto que os DVDs ainda não eram muito usados e “apenas serviam para ver filmes”. Sim, foram estas as palavras exactas do rapaz que me atendeu na loja onde fui encomendar o meu PC.

Os anos passaram, no entretanto investi num gravador de CDs, num modem externo de banda larga – na verdade foram dois, mas isso agora também não interessa –, aumentei a RAM para 256 Mb e instalei um segundo disco interno de 20 Gb. Ainda comprei uma placa de rede mas nunca fui a tempo de a pôr a funcionar visto que o sistema de alimentação avariou e um familiar que se dispôs a repará-lo, limitou-se a deitá-lo para o lixo, tornando o CPU completamente inútil. Não fosse por isso e ainda hoje estaria a funcionar.

Na altura já tinha comprado o meu terceiro computador, que ainda hoje uso. Setembro de 2006 foi o mês em que ele chegou. Tinha acabado de entrar na Universidade e como acontece com a grande maioria dos estudantes os meus pais ofereceram-me um portátil. Um Asus com 120 Gb de memória, 1024 Mb de RAM e um processador Intel Centrino Duo com 1,73 GHz. Veio equipado com placa Wireless, placa de vídeo com ligações Firewire e S-Video que até hoje não tive necessidade de utilizar – ou melhor, quando tive necessidade, acabaram por se mostrar inúteis para a tarefa em questão – , até veio com um microfone incorporado que também nunca usei por ser perfeitamente inútil visto que só capta bem a voz se falarmos directamente para ele.

“Mas então onde está o problema? Parece-me bem equipado mesmo para os requisitos de hoje”, dizem vós. De certa forma o vosso raciocínio não está errado, mas o meu portátil falha em dois aspectos que são hoje tomados como garantidos, não possui ligação por bluetooth, o que me forçou a comprar uma drive de bluetooth de forma a poder transferir as fotografias do meu telemóvel para o portátil, e veio sem uma webcam incorporada, não que eu tivesse grande interesse em usá-la, até porque o portátil já veio com uma webcam externa que serviu bem nas situações em que a tive de usar, mas é uma componente presente em praticamente todos os portáteis vendidos hoje em dia.

Desta vez a culpa recai totalmente sobre a minha simples ignorância. Na altura ainda não compreendia o que o bluetooth realmente significava e pensava veemente que o meu portátil já vinha com ele incorporado na altura em que o comprei. Para a próxima é melhor prestar mais atenção às especificações.

É mesmo esse o motivo que dá hoje origem a este artigo. Após quatro anos de desempenho razoável, em que posso apenas apontar dois momentos de falha épica – a primeira no ano passado quando me vi forçado a formatar o portátil após um ataque de vírus massivo, e a segunda no início deste ano em que o ecrã deixou de funcionar e optei por o trocar por um novo, investimento esse que me custou quase 350 euros –, está na altura de trocar de computador. Até porque a minha formação académica e profissional implicam a necessidade de uma máquina bem mais actual e potente.

Mais uma vez vejo-me com um dilema. Apostar num bom computador um pouco acima da média daqueles hoje disponíveis para venda, ou então fazer um esforço extra para adquirir um portátil com leitor de Blu-ray e um ecrã 3D – de salientar que a tecnologia 3D em portáteis ainda está numa fase experimental e as opiniões que encontro online dizem que por enquanto não vale a pena o investimento (talvez um dia me venha a rir disto).

A questão é simples, estarei novamente a investir num computador no momento precisamente anterior a uma nova evolução das tecnologias informáticas, ou será que à quarta é que é de vez e este acabe por ser o timing exacto para esta aquisição.

Até Janeiro manter-me-ei atento ao mercado e daqui a quatro ou cinco anos, quando voltar a trocar de equipamento, serei então capaz de confirmar ou de desmentir aquilo que até hoje tem sido regra.

Tuesday, September 14, 2010

Intermission, O Intervalo do Segundo Acto

Recomeça… se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.
Miguel Torga

O segundo acto pode ser muito difícil de se escrever. Encontrar o ponto certo da história que faça a ponte entre a apresentação do conflito e a sua resolução. Às vezes deixamo-nos envolver pelo elenco e passamos tão subtilmente por essa transição que nem sequer tomamos conhecimento dessa existência. Outras vezes, a história apenas muda, num momento estamos no primeiro acto e no seguinte somos levados para o meio do segundo, com pouco ou nenhum aviso. Talvez este último descreva da melhor forma o início do meu segundo semestre.

Ao entrar neste mestrado foram dadas várias opções para as disciplinas em que poder-me-ia inscrever no segundo semestre, das quais teria que escolher apenas três. As minhas primeiras escolhas recaíram sobre Fotografia e Cinema, Sistemas Gráficos e Animação 3D e Interfaces Multimodais. A mudança de paradigma na minha proposta de tese fez-me optar, ainda no primeiro semestre, por Tecnologias Web em detrimento de Interfaces Multimodais. Embora a primeira tivesse exame – o último e único exame que tive de fazer na segunda metade deste primeiro ano – a necessidade de aprofundar os meus conhecimentos de programação para a Web, motivaram-me a pôr de lado Interfaces Multimodais, disciplina que na altura não sabia sobre o que iria tratar, nem tão pouco havia informação sobre os seus objectivos e respectivo plano curricular.

Contudo, esta não foi a única alteração ao plano de estudos que inicialmente delineei. Em Janeiro, no final de uma aula de Tecnologias da Comunicação Multimédia, um professor da minha licenciatura foi lá apresentar uma nova disciplina dedicada apenas ao desenvolvimento e produção de um Documentário. Os interessados teriam que optar por Laboratório Multimédia II e Guionismo. As aulas seriam dadas em parceria com o Mestrado em Ciências da Comunicação da UP, e, para tal, teríamos ao nosso dispor salas de aula, equipamentos de filmagem e apoio técnico por parte da TVU, empresa de conteúdos multimédia sediada nas mesmas instalações. A ideia pareceu-me bastante aliciante, e apesar de me ver forçado a abdicar de 3D juntamente com Fotografia e Cinema – que acabaria por ir dar ao mesmo, só que com um nível de desenvolvimento muito inferior –, inscrevi-me na disciplina de Produção de Documentários. Foi a melhor decisão que podia ter tomado.

E assim as três opções iniciais deixaram de figurar no meu plano de estudos sem que eu tenha dado um passo sequer para dentro de uma sala de aula.

Devido aos atrasos nas apresentações de Sistemas Digitais Interactivos, as minhas férias entre semestres foram reduzidas a dois dias. Como já se tinha passado no primeiro semestre as aulas começaram com um atraso considerável, pelo menos aquelas que eram leccionadas na FEUP. A primeira a ter início foi a disciplina de Produção de Documentários. Regressar ao meu velho curso foi uma verdadeira lufada de ar fresco em comparação com os últimos meses passados na Faculdade de Engenharia. Voltar a ter aulas a 15 minutos a pé da estação, sem necessitar de fazer transbordos no metro, era mesmo o que estava a precisar. O stress da viagem que por vezes chegava a hora e meia entre Ovar e Paranhos criava uma tensão demasiado forte sob o meu estômago, principalmente depois dos problemas de saúde que tive por essa altura.

A disciplina em si foi a melhor que tive neste primeiro ano. Não fosse por ela e talvez tivesse desistido do mestrado. Embora tenha dado bastante trabalho, foi bom poder fazer algo que realmente sabia fazer, poder melhorar a minha experiência na edição de vídeo e produção de documentários, e abrir caminhos para a minha definitiva proposta de tese.

As aulas eram dadas por Soraia Ferreira, da Yellow Entertainment, produtora sediada em Gaia, José Azevedo, professor de Guionismo e Artur Pimenta Alves, director do Doutoramento em Médias Digitais. Pontualmente, Andrew Garrison, professor convidado da Universidade de Austin, Texas, também lá aparecia para dar a sua opinião sobre os projectos e encaminhar algumas das nossas ideias.

Desenvolvemos dois projectos ao longo do semestre. O primeiro, um documentário individual com a duração máxima de três minutos. Fiz o meu sobre a produção do Pão-de-Ló de Ovar, na confeitaria Flor-de-lis. O segundo, e mais importante, um documentário de dez minutos que seria realizado em grupo, desde a ideia até à sua execução. Cada um de nós propôs uma ideia. Duas delas foram escolhidas e dois documentários produzidos. A minha proposta foi sobre a sobrevivência dos quiosques de jornais, mas a falta de um personagem concreto motivou que fosse deixada de parte. As propostas escolhidas foram The Uberman Schedule, em que participei, e outra sobre os perigos da falta de privacidade nas redes sociais, nomeadamente, no facebook.

The Uberman Schedule documenta a experiência de David Silva, o colega que propôs a ideia. Durante 10 dias o David tentou “sobreviver” a um horário de sono que implicava dormir apenas 20 minutos de 4 em 4 horas, em vez de dormir as 8 horas habituais. Todas as peripécias envolventes tornaram a realização deste documentário ao mesmo tempo exaustiva e empolgante. Nalguns dias não era apenas o David a viver sob o horário do Uberman Schedule, nós também o acompanhámos, pelo menos num dia em que o guião nos levou até à Maia, onde o David vive, por volta das 4 da manhã para filmar um jogging ultra-matutino.

O limite de dez minutos acaba por ser a principal crítica ao desenvolvimento do documentário em si. Isso e a interacção com os alunos de Som que não conseguiam compreender o tom que pretendíamos dar a este projecto. Um projecto deste calibre devia ter direito a um tempo mais extenso de exibição. Acabámos por editar uma versão de 13 minutos que para já conta com uma participação no Festival de Vídeo Universitário UFrame, que terá lugar na Coruña no início do próximo mês.

As aulas em si eram bastante interactivas e dinâmicas. Víamos documentários e comentávamos as técnicas usadas. Apenas lamento a falta de tempo para desenvolver tópicos como a construção de um guião e toda a produção por detrás do desenvolvimento de um documentário, temas que por si só davam disciplinas independentes e até mesmo licenciaturas próprias. Mas foi dado aquilo que podia ser dado com o tempo e recursos ao nosso dispor. Embora o mais importante tenha sido o projecto em si, terminei a disciplina com 16.

Agora vem o outro lado da moeda, as restantes disciplinas. Neste segundo semestre apenas tivemos uma cadeira obrigatória, Metodologias de Investigação e Gestão de Projecto. Esta disciplina é dividida em duas componentes Metodologias de Investigação, leccionada por três professoras da Faculdade de Letras e Gestão de Projecto, leccionada por outros três professores da Faculdade de Economia.

A primeira que pensava poder indicar-me um melhor caminho para o desenvolvimento da minha ideia de tese, acabou por desapontar. As aulas eram entediantes e apenas davam matérias já antes leccionadas durante a licenciatura. O projecto consistiu do desenvolvimento da ideia – sim, da ideia, nem sequer um projecto de investigação foi – de um projecto de investigação, com recurso ao software online ideapuzzle. Nem tudo foi um total desperdício de tempo, o ideapuzzle mostrou ser uma ferramenta muito útil na preparação de uma tese e tenciono voltar a recorrer a ele no futuro.

Já Gestão de Projecto foi uma completa idiotice. É que não há mesmo outro termo. Tivemos apenas 3 aulas em que os professores falaram sobre marketing e outros aspectos da existência de uma empresa no mercado. Tudo muito por alto e com pouco fundamento. No final pediram-nos um plano de negócios de uma empresa inventada por nós, sem qualquer base ou modelo para o desenvolver. Como se isto não fosse mau o suficiente, apenas soubemos as notas na semana passada, isto quando legalmente todas as classificações do segundo semestre tinham que ser atribuídas até 31 de Julho. Tive 14, a nota mais baixa que tive até agora neste mestrado.

Por fim, falta referir Tecnologias Web. Embora a professora tenha-se mostrado bastante disponível e fosse clara no ensino dos temas abordados, os conteúdos estavam algo desadequados à realidade da disciplina. Em cerca de 10 aulas, abordámos 9 linguagens de programação para a Web. É impossível desenvolver profundamente uma linguagem de programação com apenas três horas de aula. Quem pouco ou nada sabia, saiu de lá a saber apenas um pouco mais, e quem já tinha algum background nesta área acabou por ficar a saber o mesmo e a fazer a disciplina apenas por fazer.

A avaliação baseava-se em três pequenos projectos que interagem entre si para a criação de um trabalho final que consistia no desenvolvimento de uma aplicação Web. O meu grupo acabou por fazer um site sobre colecções de Canecas em que o utilizador podia criar o seu perfil e assim organizar a sua colecção de canecas.

Tecnologias Web foi a única cadeira com exame que tive no segundo semestre. O exame é de consulta e bastante acessível, contudo, requer algum estudo. No total dos trabalhos e do exame, terminei a disciplina com 16.

Este segundo semestre foi mais calmo e em vários aspectos melhor que o primeiro. Contudo, a grande maioria dos problemas evidenciados no semestre anterior mantiveram-se. Este mestrado necessita de uma forte remodelação a nível de plano de estudos. Talvez uma maior aposta em disciplinas dedicas à aprendizagem de tecnologias fosse o caminho a seguir. A ideia de grupos multidisciplinares embora seja boa, acaba por não ajudar no crescimento do conhecimento dos alunos, pelo menos, não da forma como é hoje implementada. Cada um de nós chega ao ano da tese com praticamente os mesmos conhecimentos com que iniciou o mestrado, o que nos força a enveredar por um projecto dedicado apenas à área que corresponda ao nosso background do primeiro ciclo de estudos superiores.

Resta agora saber o que o próximo ano me reserva, até lá questiono-me se esta terá sido, de facto, a melhor opção.

Monday, August 30, 2010

As Terras do Meu Verão

Foto: Mar do Furadouro, Ovar; Autor: Adriano Cerqueira
Portugal
  • Aveiro (Visita, Compras&Utilidades)
  • Carriço (Almoçar)
  • Coimbra (Visita)
  • Faro (Aeroporto)
  • Fátima (Visita ao Santuário e Igreja da Santíssima Trindade, Compra de Estrelinhas de Fátima)
  • Figueira da Foz (Visita)
  • Leiria (Passagem)
  • Lisboa (Jantar, Transbordo, Walking with Dinosaurs: The Live Experience)
  • Oliveira do Douro (Visita)
  • Porto (Cinema)
  • São Jacinto (Viagem de Bicicleta)
  • Torreira (Praia)
  • Vila Nova de Gaia (Transbordo)

Alemanha
  • Colónia (Visita, Dormida)

Holanda
  • Amesterdão (Visita)
  • Haarlem (Visita)
  • Keukenhof (Visita)
  • Roterdão (Almoçar, Visita)
  • Santpoort (Dormida, Visita, Praia)

Bélgica
  • Bruges (Dormida, Visita)
  • Bruxelas (Visita)
  • Charleroi (Aeroporto)
  • Leuven (Dormida, Visita)
  • Waterloo (Visita)

Saturday, August 21, 2010

Uma Vez, Só por Uma Vez

Sorte. É algo que nunca tive. Não a sério. Uma vez ganhei um passe InterRail num passatempo da CP e não o pude usar, pelo menos, não da forma que gostaria. A única outra coisa que alguma vez ganhei foi uma máquina fotográfica descartável num sorteio da Windsor School, a minha antiga escola de Inglês. Tirei umas duas fotos e não mais a usei, quando me lembrei de a usar o prazo de validade já tinha expirado e as fotos que continha estavam estragadas.

Ao crescer sempre tive que fazer o dobro do esforço para alcançar aquilo que queria. As coisas que para os outros estavam ao alcance de um pedido ou de um simples gesto, sempre exigiram de mim um processo bem mais intrincado e complexo. Era o miúdo da Bonjóia, com cara de idiota, que provavelmente nunca iria longe. Acabava sempre por lhes provar o contrário.

Nunca fui bom com primeiras impressões, se alguém não se der ao trabalho de me conhecer – e, normalmente, apenas o fazem por imposição ao invés de verdadeiro interesse – ficam para sempre com uma ideia errada de mim. A nível académico e profissional sempre foi assim. Raro foi o professor que não me achava ignorante até ao momento do primeiro teste em que as minhas notas geralmente lhes surpreendiam e passavam a tratar-me com algum respeito e menor preconceito.

Aos 13 anos estava a passar férias com os meus pais em Quarteira, no Algarve. Eles tinham ido ao mercado comprar sapateiras e eu tinha ficado no apartamento sozinho. Decidi então ir jogar à bola para o quarto, até hoje não sei bem porquê, devia estar mesmo aborrecido. Rematei a bola contra o espelho e ele partiu-se. Não sou muito supersticioso mas dado a minha constante onda de má sorte, encontrei nesse episódio a única explicação lógica para o que se passava comigo. Esperei sete anos e quando o dia finalmente chegou, nada aconteceu. Tudo permaneceu na mesma. Comecei então a pensar que talvez o meu azar se devesse a algo mais do que uma mera maldição.

A primeira vez que levei o meu carro ao Porto, fiquei sem combustível em ambos os tanques – o meu carro é a GPL, por isso tem dois – em plena hora de ponta no meio do acesso da Ponte da Arrábida ao Campo Alegre. Por algo que até hoje reconheço como um pequeno milagre, consegui voltar a ligar o carro e levá-lo até à bomba de serviço mais próxima. Até hoje ainda não devolvi o funil que me emprestaram para pôr a gasolina no depósito, visto que tive de deixar o carro num parque de táxis e ir a pé até à bomba para ir buscar um garrafão de combustível. Sim, garrafão, os bidões já tinham esgotado por isso tive que comprar um garrafão de água, deitar a água fora e enchê-lo com gasolina na bomba. Descobri que a gasolina da Repsol é azul escura, por isso não foi um total desperdício de tempo e dinheiro.

Nesse mesmo dia quando me preparava para regressar a casa descubro um enorme risco na porta do lado do passageiro, risco esse que lá ficou até ao inverno passado em que dois mecânicos decidiram pintar o meu carro sem me consultar. Foi a sua prenda de natal para mim, uma prenda que me custou 400 €, mas pronto.

Terminei o 12.º ano em 2006. Fui o melhor aluno do meu liceu e por isso recebi um certificado e uns vales Fnac no valor de 45 €. No ano seguinte o ministério da educação teve a brilhante ideia de premiar os melhores alunos com cheques de 500 €, sem efeitos retroactivos, claro.

Mesmo na faculdade, raros foram os momentos em que a sorte me sorriu. No último semestre grande parte dos meus colegas passou a odiar-me pelo simples facto de alongar a minha decisão sobre que estágio escolher, decisão essa que punha em causa o futuro de um dos rapazes mais populares, cuja média não era suficiente para ele escolher o estágio que quisesse.

Ninguém se importou em perguntar qual o motivo por trás da minha indecisão. Eu só estava a passar por um dos piores momentos dos últimos anos. No dia em que estava prestes a entregar a minha ficha de candidatura a estágio, aliás no exacto momento em que a preenchia, a rapariga de quem gostava chamou-me para fora da sala e simplesmente disse-me que não havia qualquer hipótese de alguma vez existir algo entre nós.

Sim, naquele momento a única coisa que me apetecia fazer era tomar uma grande decisão que iria influenciar a minha vida para os próximos seis meses. Enfim, talvez eles nunca tenham passado por um mau momento em que se viram forçados a dar prioridade a coisas mais importantes, talvez seja eu o único marcado pela sina da má sorte.

Nesse dia, depois de conversar com ela, saí da faculdade em direcção ao Campo Alegre – ironia, eu sei – para ter a já habitual aula de Russo – sim, era uma quarta-feira –, chovia bastante e decidi tomar um atalho por uma pequena viela em empedrado, com uma descida bastante íngreme. Pareceu-me ver algo em cima do guarda-chuva, distraí-me por um segundo e caí de frente. Magoei-me nas mãos e os meus joelhos começaram a latejar, levantei-me, sacudi alguma da lama e fui directo para a aula. Ainda me consegui limpar o suficiente para que nenhum dos meus colegas reparasse no estado em que eu estava.

Devido à minha indecisão uma das pessoas que tinha como amiga e cuja minha admiração por ela era, e é, bastante alta, começou aos gritos comigo. Hoje já fizemos as pazes, mas foi naquele momento que tive a confirmação que o Porto, que a minha cidade, não tinha lugar para mim. Cometi um erro ao escolher ir estudar para lá, cometi um erro ao escolher aquele curso, e este parecia apenas o início de novas tormentas que o futuro adivinhava.

Não costumo ganhar, aliás é muito raro. Seja jogos como cartas, Uno, xadrez, damas, Monopólio, Cluedo, ou desportos como futebol, andebol, basquetebol ou outra coisa qualquer. Apenas na natação consegui algumas vitórias, mas isso foi em outros tempos. No secundário, quando jogávamos futebol, sempre que eu marcava um golo festejava efusivamente a correr pelo campo todo com os braços abertos para ir abraçar o guarda-redes. As pessoas perguntavam-me porque reagia daquela forma por causa de um golo que pouco ou nada valia, mas quando recebia um 20 num teste simplesmente aceitava e voltava para o meu lugar. A resposta é simples: sorte. Um golo é sinónimo de esforço e um pouco de sorte à mistura. Sorte, essa coisa que não sei o que é. Já um teste é algo preparado e a nota quase sempre é aquela esperada.

“Azar ao jogo, sorte ao amor”, costuma-se dizer, pois eu sou a excepção que confirma a regra. No outro dia uma amiga minha perguntou-me o seguinte: “Porque não namoras? És um rapaz tão sensível, não faz sentido não namorares”. Se alguém souber a resposta, agradecia que ma contasse. A primeira rapariga de quem gostei acabou por namorar com o meu melhor amigo. A rapariga que convidei para o baile de finalistas, apesar de inicialmente ter aceitado ir comigo, acabou por ir com outro pois se tinha “esquecido” do meu convite. Uma vez perguntei a uma amiga minha se queria sair comigo, ela apenas perguntou se eu estava parvo e fugiu. Não fugiu de verdade, estávamos à espera do autocarro, o dela chegou, ela entrou e nada mais me disse.

O meu avô morreu no dia 8 de Dezembro de 2004. Não o conheci, não verdadeiramente. Desde que me lembro que ele vivia assolado pela doença de Parkinson, tinha dificuldades em falar, e nos últimos anos tinha mesmo perdido essa capacidade. Não chorei quando ele morreu, odeio-me por isso. Desde esse dia que vivo assolado por uma enorme tristeza que apenas consigo mascarar com uma personagem que interpreto todos os dias antes de sair de casa.

O ano de 2005 foi o pior ano da minha vida até agora. A minha avó materna sofria de problemas de circulação e passava a vida a ser operada à perna. Quando regressava a casa, os dias dela eram passados a chorar e aos gritos com dores. Era algo muito triste que colocava a minha família sob um stress constante. Acabou por haver apenas uma solução, ela teve que amputar a perna. Desde aí que está numa cadeira de rodas, ainda a encontro a chorar de vez em quando, mas pelo menos já não sente dores.

Como se isto não bastasse a firma onde a minha mãe trabalhava foi à falência nesse mesmo ano e ela foi assim forçada, ao fim de 25 anos, a entrar no desemprego. O momento até foi bom, pois pôde dedicar o seu tempo a tomar conta da minha avó. Não mais arranjou emprego e é agora o meu pai o único que nos sustenta. Por isto tudo isolei-me bastante do resto do mundo e só hoje começo verdadeiramente a sarar das feridas causadas por esse ano terrível. Procurei ajuda e apoio mas poucas foram as pessoas que me acudiram. A minha namorada na altura acabou inclusive comigo por causa da minha distância. Não a culpo, pois não lhe contei o que se estava a passar, talvez o devesse ter feito, mas não o fiz.

De regresso ao presente, este ano tem sido tudo menos rico em sorte. Em Março a poucos dias do concerto dos The Cranberries, no Campo Pequeno, em Lisboa, adoeci. Não era uma simples gripe, mas algo bem mais grave que me obrigou a ficar medicado durante cerca de três meses. Não fui ao concerto, faltei a uma semana de aulas e passei os meses seguintes num estado de dormência emocional apenas suplantado pela ligeira high dos medicamentos.

No mestrado, ao montar uma instalação multimédia interactiva que custou ao meu grupo um total de 300 €, tivemos que discutir com outro grupo a divisão do espaço para a expor, o que nos atrasou um dia na montagem. Ao fim de 72 horas seguidas de trabalho não conseguimos pôr o som e o vídeo a funcionar, o que nos forçou a simular quase todos os elementos interactivos que a instalação possuía. Pelo menos as luzes funcionaram. Nessa mesma manhã comecei a ter os primeiros sinais da doença que me assolou nos meses seguintes e por causa das dores cheguei com uma hora de atraso à faculdade. Apesar deste investimento, o professor apenas nos deu 14 por achar que a ideia não era inovadora.

Mais recentemente a CP lembrou-se de marcar uma greve geral no dia em que eu ia ter o único exame deste semestre. Felizmente consegui arranjar boleia, caso contrário não teria forma de ir ao Porto. Sim, porque ao mesmo tempo o meu carro estava com problemas no motor de arranque.

No dia em que fui ao café ver o Portugal vs. Espanha, do último Mundial, com uns amigos meus, o meu carro deu de si e fiquei a pé, logo quando tinha dito que dava boleia a um deles. Já agora, Portugal perdeu por 1-0 e foi eliminado.

Podia continuar a enumerar os meus momentos de má sorte, mas acho que ficam com uma boa ideia.

Uma vez, só por uma vez, gostava de ter um momento de sorte, um dia em que tudo corresse bem e pudesse sentir-me feliz como qualquer outra pessoa.

Hoje não é um desses dias e, sinceramente, já não quero saber.