Thursday, December 17, 2015

As Terras do Meu Verão

Foto: Libelinha nas Margens do Rio Paiva; Autor: Adriano Cerqueira
Portugal
  • Amadora (Visita)
  • Arouca (Visita, Castanhas de Ovos e Pão-de-Ló)
  • Aveiro (Visita, Compras&Utilidades)
  • Barra (Visita, Tripas)
  • Canelas (Almoço)
  • Coimbra (Visita, Cinema, Compras&Utilidades)
  • Conimbriga (Visita às Ruínas Romanas)
  • Costa Nova (Visita, Minigolfe)
  • Espinho (Compras&Utilidades)
  • Espiunca (Caminhada pelos Passadiços do Paiva)
  • Gaia (Compras&Utilidades)
  • Gondomar (Batizado)
  • Ílhavo (Visita)
  • Lisboa (SBSR 2015, Visita)
  • Manteigas (Viveiro da Fonte Santa)
  • Matosinhos (Comic Com 2015)
  • Monção (Almoço, Visita)
  • Porto (Concerto de God is an Astronaut, Serralves em Festa, Visita, Cinema, Compras&Utilidades)
  • Santa Maria da Feira (Viagem Medieval, Compras&Utilidades)
  • São João da Madeira (Compras&Utilidades)
  • Sintra (Visita)
  • Sistelo (Visita)
  • Torre (Visita)
  • Torreira (Visita)
  • Vagos (Visita)
  • Valença (Visita)
  • Vila Real (Visita)

Tuesday, December 15, 2015

Do Alto de São João

Mar da Cova da Beira, Foto: Adriano Cerqueira
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

Todas as manhãs atravesso uma pequena vila. Do Alto de São João vejo o quanto da cidade as suas escarpas me permitem. Da varanda da minha cozinha vejo, ao longe, as luzes do estádio invulgarmente acesas. O longínquo parece próximo, e o próximo, bom, o próximo resguarda-se por entre as brumas da noite. De manhã não é assim. Da janela do meu quarto vejo a ponte, as estradas e os carros que as alimentam. Vejo prédios e árvores. Vejo o quanto da cidade as suas paredes me permitem.

De manhã não vejo a cidade. Atravesso-a por momentos enquanto desço até à estrada, mas esta logo desaparece. Por entre vielas esquecidas e mal alcatroadas faço o meu caminho, a pé, sempre a pé. Atravesso uma pequena vila sem nome. Um oásis de pequenas casas e vivendas, com um ou outro apartamento a pontoar o meu caminho. Subo, desço, e volto a subir, por íngremes passeios com pouca ou nenhuma calçada. Dia sim, dia sim, atravesso esta vila. Sempre igual, inalterada pelos planos de uma urbe que a parece ter esquecido.

Achava-a assim, calma e constante, em todas as manhãs do meu caminho. Mero engano. Esta vila também começa, aos poucos, a sofrer alterações. Quando por ali passo não vejo Centros Comerciais, lojas, nem mesmo cafés. Não vejo Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, ou qualquer outro serviço. Conto pelos dedos os carros que se atravessam pelo caminho. E, a partir de um certo ponto, são mais as árvores que as casas que governam a paisagem.

Contudo, este pequeno pedaço de arredores limitados por uma placa quase imperceptível para quem ali passa, começa a sofrer algumas alterações. Assim é de há uns meses para cá. Com o passar dos meses assisti à conclusão de uma obra e ao nascer de outras duas. Uma casa, até então abandonada viu o seu quintal destruído, hoje ocupado por máquinas e cimento. Numa pequena ribanceira onde antes descansavam alguns pinheiros, está hoje a ser construído um prédio. Uma obra improvável para quem antes passava por ali.

Mas o pior estava reservado para esta semana. As árvores que em tempos guardavam a última descida que todas as manhãs faço, foram agora cortadas. Consigo ver para lá do prédio e da estrada que invariavelmente tenho que atravessar. O eucaliptal que se guardava do lado mais distante do caminho é agora visível a vários metros de distância. A terra está despida, o meu percurso é, agora, mais ventoso. A paisagem deixou de ser bela. Deixou de ser natural. O fim do meu passeio pela vila é agora apenas mais uma extensão da cidade que todas as manhãs ignorava.

Há um ano não era assim. Da minha janela via a escarpa da Serra. Uma queda de água. Velhos edifícios resgatados por uma natureza determinada em persistir às acções dos seus esquecidos habitantes. Uma ponte. Um mar de nuvens. O branco da neve, e as luzes nocturnas de uma cidade adormecida.

Todas as manhãs atravessava uma pequena cidade. Sempre com a vista dos extensos vales à minha esquerda. Passava por jardins, por lojas, igrejas, carros e pessoas. Passava pela Câmara, por bancos e outros serviços. Atravessava esta cidade de uma ponta à outra. Também então por subidas e descidas. Estas, bem diferentes daquelas por que hoje passo.

Pouco ou nada vi mudar nas incontáveis vezes que fiz este caminho. Uma ou outra loja abriu e pouco, muito pouco mais. A extensa paisagem manteve-se bela, inalterada, constante. Um fundo fácil de ser tomado como garantido. Fácil para alguns, difícil para mim.

Quão agradável é uma bela paisagem pela manhã. Hoje, o meu caminho apenas me desperta alguma curiosidade sobre a evolução das obras que crescem a cada dia que passa, e algum regozijo pelos carros que se enganam e seguem até uma rua sem saída apenas para voltarem para trás.

Erro induzido por mim, imagino, pois no fim dessa rua encontro uma escada e dois atalhos. Um alcatroado que me dá acesso à estrada e ao percurso mais longo para o meu destino, e outro, mais directo, por entre silvas e terra batida, impossível de atravessar à noite, e mais difícil ainda no Inverno.

Do Alto de São João vejo o quanto do meu caminho os prédios me permitem. Todas as manhãs atravesso uma pequena vila. Uma vila em constante mutação. Da pequena vila vejo quanto da Terra se pode ver no Universo. E, por enquanto, isso é suficiente.

Wednesday, December 09, 2015

A Minha Árvore de Natal

Christmas Lights; Foto: Adriano Cerqueira
O Christmas Tree, O Christmas tree,
How lovely are your branches!
In beauty green will always grow
Through summer sun and winter snow.

Desde que me conheço, e desde que tenho capacidade para o fazer, que sou eu quem monta e enfeita a Árvore de Natal em minha casa. É assim há anos, e ontem não foi excepção. Normalmente aproveito a ocasião para encher a casa com músicas de Natal enquanto enfeito a árvore, o presépio, e os restantes motivos que tradicionalmente se espalham pela sala, da entrada até à cozinha.

Talvez por causa do tempo cinzento que ontem se fazia sentir, ou por há três semanas atrás ainda andar de manga curta, desta vez, enfeitar a Árvore de Natal não passou de um acto mecânico. Como se não passasse de uma vulgar tarefa doméstica. Ou outra qualquer obrigação, feita com pouco, ou mesmo nenhum prazer.

Este ano não se fez ouvir nenhuma melodia natalícia. Nem sequer tirei uma única foto à árvore depois de enfeitada e apropriadamente iluminada. O único acto que ainda me fez sorrir foi a já habitual oferta de uma laranja ao Menino Jesus.

A verdade é que já há alguns anos que pouco ou nada muda nos nossos enfeites de Natal. Há alguns objectos que são já tradicionais e não podem ser evitados. As imagens do presépio, as três casas cobertas de neve, alguns enfeites da Árvore de Natal mais velhos que eu, as duas velas em forma de Pai Natal, os dois anjos, e a habitual estrela que descansa no topo. Nos últimos anos, a única coisa que mudou foram as luzes, isto porque as anteriores acabam sempre for falhar mais ano, menos ano, e alguns motivos novos que foram surgindo, ora por oferta, ora apenas porque sim.

A nossa colecção de postais também tem vindo a crescer. O topo do móvel da televisão está a ficar mais pequeno a cada ano que passa. Pela primeira vez, tive mesmo que deixar alguns postais de fora, ora por falta de espaço, ora porque não tinham valor suficiente para ficarem assim expostos.

Contudo, embora cada ornamento, cada postal, e cada figura conte uma história, a verdade é que fora estes pequenos pormenores, já não me revejo nesta Árvore de Natal. Sempre sonhei com uma árvore grande, daquelas que chegam quase até ao tecto. Em ambas as casas em que já vivi com os meus pais, não havia espaço para uma árvore dessas, e isto continua sem mudar. Se a primeira casa era muito pequena, nesta, a culpa recai na escolha de mobiliário feita pelos meus pais.

Ontem, enquanto preparava os enfeites e procurava desesperadamente em, literalmente, todas as gavetas pelos postais, apenas para os encontrar por baixo da cabana do presépio, pensava para mim próprio que precisávamos de novos ornamentos. Comecei a imaginar uma árvore feita do zero, com novas luzes, novas bolas, novas fitas, e uma nova estrela. Um sonho, para já, improvável.

Há já algum tempo que sinto que os anos passam como meses, os meses como semanas, e as semanas como dias. Talvez por isso, ainda não me sinta em Dezembro. Esta estranha onda de calor, que embora ténue, ainda hoje persiste, também não ajuda. Faltam cerca de duas semanas para o Natal, mas assim não parece. As noites são frias, os dias são amenos. As folhas ainda caem das árvores, coloridas em tons outonais como se ainda agora estivéssemos a entrar em Novembro.

Sim, já há pelo menos dois meses que é impossível entrar num centro comercial, ou ligar a televisão sem ouvir uma música de Natal, ver um enfeite, ou uma qualquer promoção natalícia, incentivando a onda de consumo já típica desta época do ano. Mas mesmo assim, questiono-me, onde está o espírito natalício?

Com o fim provisório do feriado de 1 de Dezembro, muitas famílias adiaram para ontem a preparação dos seus enfeites natalícios. Também eu aproveitei este feriado para alimentar uma tradição que durante anos, em minha casa, nunca teve uma data definida. Contudo, não o fiz com o habitual espírito que habitualmente cresce em mim ao longo desta época.

Talvez porque apenas lá passo os meus fins-de-semana. Talvez por não olhar para o apartamento que divido durante a semana como uma casa, mas sim como nada mais que um ponto de passagem. Talvez por ainda não sentir que hoje é Dezembro, e que 2015 está quase a terminar. Não consigo encontrar um motivo preciso, mas este ano ainda não encontrei o meu espírito de Natal.

A duas semanas da Véspera de Natal, ainda vou a tempo de o encontrar. Não fosse esta a minha época preferida. O dia por que mais espero ao longo de todo o ano. O dia mais quente. O dia mais feliz. O dia em que a minha árvore fica ainda mais bela. O dia de Natal.

Wednesday, December 02, 2015

The Man in the High Castle

Imagem DR
A weird time in which we are alive. We can travel anywhere we want, even to other planets. And for what? To sit day after day, declining in morale and hope.

Philip K. Dick, The Man in the High Castle

Sou um ávido consumidor de séries. Durante anos a minha lista de episódios semanal, entre sitcoms, séries e anime ultrapassava confortavelmente os dois dígitos. Encontrava tempo em todos os intervalos que tinha. Quando chegava a casa, depois do jantar e, se necessário, sacrificava uma ou duas horas de sono para me manter a par dos mais recentes desenvolvimentos.

Hoje, o meu tempo é muito mais escasso, e esses intervalos são bem mais curtos. Ainda tento manter-me a par das poucas séries que sobreviveram ao passar dos anos, mas à medida que estas são canceladas ou que simplesmente chegam ao fim, em vez de as substituir por algo novo, deixo um espaço vazio, preenchido por algo mais urgente.

Por este motivo, são raras as séries novas que consigo acompanhar. Por vezes, durante as férias, num fim-de-semana mais livre, ou numa noite mais longa, consigo recuperar algum do tempo perdido e dar uma olhadela nas sugestões mais recentes. Foi isso que aconteceu este fim-de-semana.

Pela primeira vez em algum tempo senti a necessidade de ver uma série inteira de uma só vez. Simplesmente não consegui parar. Embora a primeira temporada tenha apenas dez episódios, cada um tem a duração de uma hora. Dez horas. Foram dez horas partilhadas entre sábado e domingo, dedicadas apenas a esta série. Dedicadas à história de Frank e Juliana, de Joe e Smith, num Universo paralelo onde as forças do eixo saíram vitoriosas da Segunda Guerra Mundial. É esta a premissa de The Man in the High Castle.

Inspirada no livro homónimo do autor norte-americano Philip K. Dick, The Man in the High Castle é um olhar alternativo da História Mundial, através de um paralelismo ideologicamente inverso de uma Terra dividida ao meio entre duas superpotências, a Alemanha Nazi, genocida e tecnologicamente evoluída, e o Império Japonês, a desfolhar um leve princípio liberal mas tradicionalmente opressor.

Embora nos sejam oferecidos alguns aperitivos sobre como este novo Mundo é desenhado para lá das fronteiras dos EUA, a história desenrola-se quase inteiramente em três cidades norte-americanas, Nova Iorque, São Francisco e Canon City. Neste Universo os EUA foram divididos em três, o Grande Reich Nazi no lado este, os Estados Pacíficos Japoneses no lado oeste, e uma zona neutra conhecida como a União dos Estados Americanos Livres. Este terceiro não é mais que um país fantoche do Governo Nazi, uma “buffer zone” entre os dois impérios, uma zona sem lei, patrulhada por Marshalls, muito ao estilo do Velho Oeste.

Um Mundo alternativo, envolto por uma profunda carga negativa, expressa numa bela cinematografia, fria, carregada, enfim, adequada ao pesar que duas forças governadas por ideais malignos impõe sobre a pouca população que resta após vagas constantes de opressão, genocídio e lavagem cerebral.

The Man in the High Castle segue a história de um grupo de pessoas presas neste Universo. Uma série de películas começam a surgir com imagens da nossa História, dos eventos que não aconteceram neste Mundo. A vitória dos Aliados, a capitulação da Alemanha Nazi e do Império Japonês, a divisão da Alemanha, e o crescimento da União Soviética. Um grupo de resistentes tenta juntar estas películas com o objectivo de retaliarem contra as forças opressoras e, assim, recuperarem um Mundo que nunca viveram mas que é seu por direito.

Algumas componentes de Fringe, uma das minhas séries preferidas, surgem pontualmente, à medida que a narrativa se desenrola. Mas quem está à espera de ver o Peter e a Olivia a entrarem em acção para salvar o dia, ou o Walter a comer alcaçuz, desenganem-se. Não há espaço para comédia, luz, ou esperança neste Universo sombrio. Esta é uma série profunda, pesada. Uma história que durante os próximos dias vai ocupar os teus pensamentos, os teus sonhos. Uma série que te faz pensar. Uma série que tão cedo não vais esquecer.

O clima cinzento e deprimente põe em alerta os teus mecanismos de defesa. Por momentos podes sentir-te tentado em imaginar o Marty McFly e o Doc a aterrarem o seu DeLorean no meio de Times Square para reporem a linha do tempo original. Mas esse pensamento fugaz será efémero, pois durante os sessenta minutos de cada episódio, nada mais será capaz de prender a tua atenção. Não há como fugir ao Universo de The Man in the High Castle.

Aguardo ansiosamente pela segunda temporada desta série. Algo que pode nunca chegar a ver a luz do dia devido à polémica campanha de marketing desempenhada pelo estúdio produtor da série. Talvez colocar símbolos Nazis e do velho Império Japonês em metros e paragens de autocarro norte-americanos não sejam a melhor estratégia para publicitar o vosso produto. Especialmente quando o público ainda desconhece o conteúdo da série.

Polémicas à parte, The Man in the High Castle vale cada segundo das dez horas que compõe a primeira temporada. Desde a terrorífica música de abertura, aos pins da lapela dos oficiais das forças do eixo. É nos pormenores que esta série constrói a sua história. Na grandiosidade de um Universo Alternativo, de uma América dividida, de um Mundo em chamas, de um futuro sem esperança.

The Man in the High Castle merece todos os elogios. Uma narrativa cuja profunda qualidade tão cedo não sairá da nossa memória colectiva.