Thursday, September 18, 2014

Dig Deeper, Dois Meses de Insanidade

Insanity Workout, Imagem DR
Digno de admiração é aquele que tendo tropeçado ao dar o primeiro passo, levanta-se e segue em frente.
Carlos Fox

Duas semanas. Faltam apenas duas semanas para terminar um programa de sessenta dias. Um programa que me puxou até aos limites da resistência, e da aptidão física. Um programa que me fez mergulhar nas minhas reservas de energia, levá-las até ao vermelho, e continuar em esforço até aos alongamentos finais e ao tão esperado cool down. Faltam apenas duas semanas mas apenas penso no que irei fazer a seguir.

Insanity. O nome é adequado. Mesmo para alguém que já seja viciado em exercício, experimentar, ou apenas ver os primeiros vídeos a frio, faz-nos encher a cabeça com palavras como “impossível”, “exagerado” e “esgotante”. E foi precisamente isso que pensei na primeira vez que fiz o fit test. Tinha programado começar no dia 20 de Maio. Contudo, algumas complicações a nível pessoal e uma pesada onda de desmotivação, levaram-me a adiar por mais algumas semanas. No dia 9 de Julho disse para mim próprio que já estava farto de desculpas e decidi começar.

O Insanity é um programa de exercício com a duração de sessenta dias e que pode ser feito em casa. É apenas necessário um tapete, uma televisão ou um computador, água, e muita força de vontade. Os criadores do programa recomendam o uso de um monitor cardíaco para catalogar o vosso progresso. Eu optei por não usar um, pois na altura que comecei não tinha a confiança necessária para acreditar que seria capaz de o levar até ao fim, e decidi por não fazer esse investimento. Hoje, arrependo-me desta opção, pois além da minha percepção subjectiva, e das claras melhorias no meu corpo, não sou capaz de afirmar com precisão o quanto melhorei nos últimos dois meses.

Criado por Shaun T, um antigo atleta norte-americano, e uma estrela no mundo do fitness, este programa de sessenta dias baseia-se em exercícios de cardio e de controlo do núcleo abdominal através de um conceito de treino de intervalo máximo (max interval training, no original). Num treino de intensidade normal, os exercícios têm uma evolução constante, começam devagar e vão crescendo até um momento de alta intensidade que é seguido de um movimento de recuperação, e de uma pausa longa. O Insanity não funciona assim. Não existe uma evolução, nem movimentos de recuperação. O ritmo é intenso desde o início e as pausas, que não duram mais que trinta segundos, são abruptas. Os exercícios não abrandam. Apenas param.

Um total de onze vídeos com duração média de quarenta minutos, repartidos ao longo de sessenta dias. Este programa requer bastante dedicação. Uma hora por dia, seis dias por semana, com apenas um dia de descanso. É intenso. É desgastante. Mas depois de ultrapassar a barreira do primeiro mês, dificilmente me imagino a começar ou a terminar o meu dia sem aquela hora de insanidade intensa.

Os resultados são impressionantes. Mesmo após os dias mais difíceis não sinto qualquer dor, e rapidamente recupero a energia necessária para as minhas tarefas do dia-a-dia. Antes de começar a fazer Insanity, vivia uma rotina quase sedentária de casa/trabalho. O meu único exercício eram os quarenta minutos diários a pé que fazia entre casa e o meu local de trabalho. Estava desmotivado e a passar por um momento em que a insegurança e o pessimismo reinavam, e controlavam os meus pensamentos. Comecei também a ganhar peso, e a perder alguma da confiança que normalmente me caracteriza.

Não foi o Insanity o principal motor por trás da minha transformação nas últimas semanas, mas foi uma fonte de motivação constante e uma ajuda imprescindível. Hoje sinto-me bem mais seguro e confiante. Estou a investir em mim e a crescer a cada dia que passa. Tenho mais energia, e as ondas negras do pessimismo estão a ser levadas por uma maré de optimismo, que espero um dia manter como constante.

A importância de dar aquele primeiro passo, um gesto tão simples como levantar-me da cama e pôr um vídeo a dar, é hoje clara, enorme. De uma magnitude cujo epíteto ainda se está por revelar. Nós próprios somos o melhor agente de motivação. O melhor impulsionador. Somos a pessoa que mais confia e que mais acredita em nós. Devemos alimentá-la. E o Insanity é um bom começo.

Não o fiz pelos resultados, mas sim para provar a mim próprio de que sou capaz. Cheguei mesmo a convencer dois amigos a aventurarem-se por este caminho de insanidade, e mais três já mostraram interesse em fazer o mesmo. Um deles vai mesmo terminar nos próximos dias, enquanto eu próprio ainda tenho mais duas semanas pela frente.

Existem inúmeros programas de exercício que podem ser feitos a partir de casa e com resultados comprovados. Insanity, Insanity Asylum, Focus T25, Hip-Hop Abs, Turbo Fire, P90X, para nomear alguns. Uma pesquisa detalhada, e algumas horas perdidas a informarem-se sobre aquele que é mais adequado para as vossas necessidades pode ajudar-vos a dar o salto para uma vida mais saudável e cheia de energia.

Nas palavras de Shaun T, não comprometam a forma, vão ao fundo e puxem com mais força, pois vocês conseguem.

Thursday, August 14, 2014

Como Abafar o Silêncio

Imagem DR
Existe no silêncio uma tão profunda sabedoria que às vezes ele se transforma na mais perfeita resposta.
Fernando Pessoa

Combater o silêncio é das tarefas que exige um maior nível de complexidade criativa, não fosse esta uma necessidade imperativa para o nosso próprio bem-estar. Não me refiro ao silêncio por si próprio, mas sim aos contínuos barulhos de fundo que com os quais, com maior ou menor esforço, somos obrigados a conviver.

Quem vive numa cidade está habituado à azáfama do dia-a-dia. O trânsito contínuo, os passos e vozes imperceptíveis de uma multidão atarefada. O ocasional alarme, sirene, ou outro tipo de som disruptivo. O comboio da uma e quarenta e dois, os ciclistas madrugadores e os animais domésticos que anseiam por liberdade. Todos eles, sons comuns, habituais, clichés auditivos que aprendemos a desligar das nossas mentes com alguma facilidade.

No campo, nos arredores, ou numa região rural, são os grilos, os lobos, os animais da pastorícia, a dança das folhas nas árvores, e o riacho que corre pelo nosso quintal. Sons pacíficos, ensurdecedores para o habitante citadino mal acostumado, mas também eles comuns e passíveis de serem ultrapassados após uma satisfatória habituação.

Mas, por vezes, o silêncio não é suficiente. Os sons de fundo intensificam-se, e deixamo-nos assolar por ondas de reverberação que nos impedem de pensar, de raciocinar, de criar. O silêncio das nossas mentes contrasta com o inaudível barulho do exterior.

É nestes momentos que o afamado conceito de open space pode revelar-se como o nosso pior inimigo. Sim, um espaço aberto no local de trabalho permite um maior convívio entre os colegas, possibilita a troca de ideias e impressões sobre uma dada temática ou parâmetro do projecto, facilita o contacto entre pares, e pode, ele próprio, ser uma fonte de inspiração. Contudo, passado o processo de brainstorming, e quando as acções requeridas não exigem qualquer tipo de automação, o trabalho criativo exige apenas duas peças essenciais: concentração e silêncio.

São várias as técnicas usadas para nos concentrarmos e silenciar as distracções quando o nosso ambiente laboral, pela natureza do espaço, assim não o permite. Desde desligar a Internet, as redes sociais, e outros elementos cuja atracção alimenta uma inconsequente produtividade, à própria deslocação do criativo para outro local, cada um tem o seu método e este apenas funciona ao nível pessoal de cada indivíduo. Dito isto, alguns destes métodos funcionam dentro de um variado leque de pessoas.

Quando o nosso empregador não nos possibilita o acesso a um gabinete isolado, a nossa ausência, ou até mesmo a possibilidade de trabalhar através de casa, precisamos de isolar a nossa mente, os nosso dedos, e os nossos instrumentos criativos, da multidão de colegas que nos rodeia.

O método mais comum é o uso da música, não só como elemento de isolamento mas também de inspiração. Para algumas pessoas qualquer género serve, tenha ela letra, ou apenas instrumental. O som de algo a abafar o ruído do open space é suficiente para se concentrarem. Para mim, esse processo não é assim tão simples. Como, por vezes, o meu trabalho criativo implica alguma escrita, vejo-me forçado a excluir todo o tipo de música com letra. A minha mente tem o hábito de se concentrar na letra, mesmo que a língua do artista não faça parte da minha lista de fluência verbal.

Música clássica, sons da natureza, lounge, ou algo com um tom mais calmo e sereno, também não encaixam nesta receita. Sinto a necessidade de algo que me impele a trabalhar, que abafe o silêncio, mas que também alimente a minha inspiração, mas não de forma excessiva. Preciso de ser capaz de me abstrair da própria melodia, ao mesmo tempo que a uso para me motivar, e fazer mover os meus dedos, as interfaces do meu computador, os meus olhos, e a minha própria mente.

Foi através desta necessidade, aliada a uma constante busca por música instrumental para ilustrar alguns vídeos, que descobri duas bandas que mesmo neste momento, preenchem esse vazio sonoro que tanta falta me faz. São elas Explosions in the Sky e God is an Astronaut. Duas bandas similares, e ao mesmo tempo diferentes. Ambas instrumentais, ambas com álbuns distintos, versáteis, e ricos em diversidade, com uma narrativa sensorial que apenas pode ser experienciada por um ouvido atento, e uma imaginação aberta.

São elas os meus esteios nos momentos em que a minha mente se encontra inundada por mil vozes, à excepção da sua própria. São elas quem impulsiona a minha imaginação e criatividade. Quem me inspira, quem me motiva. Quem faz os meus dedos dançarem por páginas em branco, por artboards limpos, por linhas de código, e por timelines caóticas.

Com persistência e necessidade, encontrei um método simples de isolar a minha necessidade criativa, mesmo quando me encontro imerso por um mar de estímulos auditivos irregulares.

Combater o silêncio é das tarefas que exige um maior nível de complexidade criativa. É uma arte em si próprio, e uma necessidade do nosso dia-a-dia. Persistência, necessidade, pesquisa, e algum acaso foram as ferramentas que me permitiram desenvolver o meu método. O vosso encontra-se à distância de um momento de silêncio.

Friday, August 08, 2014

Melodias pela Calçada

Imagem DR
I poured my booze all down the kitchen drain,

And watched my bad habits get flushed away.

I thought that, that would keep my head on straight,

And all my pain would be in yesterday.
Coffee & Cigarettes, Michelle Featherstone

Há músicas que parecem ser escritas a pensar em nós. Guardadas em segredo por privados locais distantes, à escuta, sempre à espreita, daquele momento. Do momento que se revelam. Do momento que se apresentam para nós. Do momento onde tudo faz sentido. A letra. O tom. A forma como ela nos toca num lugar profundo que, sem saber, desejávamos desbloquear.

Uso a música e sou usado por ela. Como fonte de inspiração. Como espírito de motivação. Aquele incentivo extra que me move para agir, para terminar aquele exercício em alta, para escrever, para tomar decisões, para acreditar, para determinar, para valorizar. Uso a música e sou usado por ela.

Mas, por vezes, uma música deixa de ser um instrumento para atingir um fim, uma ferramenta de memória, ou uma esponja de silêncio. Por vezes, uma música toca-nos tão profundamente que parece apenas cumprir o seu propósito no momento em que se dá a conhecer. Como se um cósmico compositor a tivesse preparado especialmente para a banda sonora da nossa vida. Misturada por um caprichoso editor de som, com um excelente sentido de timing.

No guião do nosso breve caminho, quem o escreveu, previa nas suas anotações o vislumbre necessário desta melodia, desta letra, no preciso instante em que seria mais necessária. E assim foi, assim é, assim sempre parece. Guardo para mim, em memórias ainda recentes, o momento que descobri a música que não evitei citar antes mesmo de começar a escrever.

Estava entediado, numa pacata tarde de Domingo. Procurava por algum sentido, por algo novo entre os meandros da rede invisível que nos une. Ouvia pela enésima vez a Careful, da Michelle Featherstone, uma cantora discreta, cuja obra é apenas conhecida pelo seu contributo em séries e filmes com um certo nível de popularidade. Ouvia esta música há alguns meses, revia-me nela com o desejo que esta fosse o espelho de alguém que não eu, capaz de me ver de idêntica forma àquela que a letra ilustrava.

Nada sentia, apenas mais uma passagem por uma terra que já bem conhecia, e cujos encantos já nenhum segredo guardavam. Decidi explorar algumas das recomendações. Muitas, lugares comuns que me habituei a ignorar, outras, com pouco ou nenhum sentido para ali figurarem. Contudo, a mesma continuava a surgir. Escolha após escolha. Música atrás de música. A mesma sugestão surgia naquele canto. Como que uma novidade, colocada em destaque para ser promovida.

Cedi, e carreguei para a ouvir. A letra prendeu-me no primeiro segundo. Todo o universo que me rodeava passou para segundo plano. O barulho apagou-se em silêncio, as cores, as formas, os objectos, as pessoas, não passavam de um bokeh desfocado. Apenas eu e a música existíamos naquele instante. Corri para o quarto para a ouvir na minha aparelhagem, e replicar por entre as paredes da minha casa aquele momento.

Devo-a ter ouvido não mais que três ou quatro vezes naquele dia. Mas pareceu-me como se nenhum outro som tivesse ocupado a minha mente naquele dia. Aquela era a música que tinha de ouvir. A música que precisava de ouvir. A percepção que devia receber. A realização que faltava compreender.

Há músicas que parecem ser escritas a pensar em nós. Aguardam no nosso caminho. Aguardam pelo momento que nos sentimos prontos para as ouvir. Aguardam por aquele segundo cuja sua melodia, vibra em sintonia com o ritmo do nosso ser, com a amplitude da nossa alma. A música é uma constante do nosso dia. Um fundo que apaga o silêncio. Um sentimento. Uma distracção. Um vício impossível de quebrar. A música é arte. A música é aquele passo que nos move para despertar.

A música é eterna. A música, apenas é.

Monday, July 14, 2014

O Lego Amarelo

Foto DR
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…

Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”

Há dias que acordamos com um profundo sorriso a iluminar a nossa manhã. O sol brilha através da janela, deixamo-nos envolver pelo seu calor, e por uma energia indescritível que nos move para sair da cama. Dias em tudo idênticos a um outro qualquer, mas que nos abraçam por uma onda imparável de optimismo.

O nosso andar ganha um ligeiro toque de dança, a nossa face transpira confiança, e as pessoas com quem nos cruzamos não conseguem deixar de esboçar um sorriso, ou de nos abordar com um alegre “bom dia”.

Para mim, um desses dias aconteceu a nove de Janeiro. Uma quinta-feira como qualquer outra. Talvez movido pelo entusiasmo e pela ansiedade da viagem que ia fazer no dia seguinte. Talvez apenas por se tratar de uma manhã calma banhada por um morno Sol de Inverno. Acordei envolvido por uma forte e constante brisa de energias positivas. Um sentimento reflexo na minha face, e na de todos aqueles que se cruzaram no meu caminho.

Todas as manhãs desloco-me a pé para o trabalho. Um percurso que me demora entre quinze a vinte minutos. Há já alguns meses que comecei a ir pelo caminho mais directo, em constante descida, evitando assim a preguiça de aguardar pelo elevador de Santo André.

Embora o elevador me permita vislumbrar parte da paisagem da Serra, prefiro fazer o outro caminho. Escondido por entre algumas vielas em paralelo, esta rua pouco conhecida e quase inacessível para os carros, é um atalho que me oferece um ligeiro conforto no meu rotineiro destino matinal.

Guardado por um mural pintado com uma representação da cidade, envolto por umas esguias escadas que contornam uma capela em granito, este caminho leva-me pelas traseiras de uma despida Galeria Comercial. Ao lado da mesma, quase no fim da rua, encontro uma escola.

Pelas vozes agudas, pelos cânticos e risos de crianças, que nunca vejo, presumo que se trate de uma Escola Primária, algo camuflada por entre os edifícios desta escarpa. Nessa manhã, não me recordo de ouvir o típico alvoroço das brincadeiras de recreio, nem tão pouco dos alegres desconhecidos que se cruzaram comigo. Mas houve um pequeno pormenor que chamou a minha atenção.

Por entre a rua de paralelos, a brilhar através dos interstícios do granito, estava uma peça de Lego. Um pequeno tijolo amarelo de quatro encaixes. Uma das peças mais comuns que podemos encontrar. Parei para o observar. Estava sujo e um pouco gasto numa das faces, mas fora isso, era perfeito.

Olhei em volta para ver se encontrava a criança a quem aquela peça pertencia, mas estava só naquela viela. Pelo acumular de detritos à sua volta, fiquei com a sensação que este Lego já ali se encontrava há alguns dias. Limpei-o e trouxe-o comigo.

Não me lembro de mais nada sobre o resto do dia. Apenas aquele momento guardo com o máximo de pormenor. Esta quinta-feira, pela simples onda de optimismo que me despertou, tinha já para si reservado um espaço nas minhas memórias. Mas este pequeno pormenor. Este momento que quase me passou ao lado, tivesse eu escolhido ir pelo elevador, fez com que lhe desse o nome do “dia em que encontrei um Lego amarelo”.

Hoje guardo-o no meu quarto, juntamente com outros objectos recheados de simbolismo. São curiosas as coisas que se cruzam no nosso caminho. De tão efémeras passagens, que o mais minúsculo pormenor nos pode desviar do seu encontro.

O anúncio de emprego que encontramos no twitter. As pessoas que conhecemos quando não queríamos sair de casa. Um “olá” dividido por entre umas escadas passageiras. O avião perdido. O encontro adiado. A peça de Lego que encontramos no chão.

Coincidências. Destino. Caos. A beleza do acaso que aprendemos a apreciar quando olhamos à nossa volta, e encaramos o imprevisto que o dia nos tem para oferecer.

Tuesday, July 08, 2014

Máscaras Virtuais

Imagem DR
Máscaras, todos as usamos.
Faces feridas encobertas,
Desgostos, disfarçados de sorrisos.
Mentiras, perdidas em desenhos.

Carnavais das nossas vidas,
Dias extras que não vivemos,
Tudo escondido por detrás,
De todo um emaranhado que se desfaz.

XIV, Adriano Cerqueira

Todos usamos máscaras. Escudos que nos protegem das adversidades do dia-a-dia. Do chefe inconsequente que não valoriza a nossa opinião, do cliente mal educado que pensa ter sempre razão. Do empregado que se engana no nosso pedido, da vizinha pronta a encontrar o mínimo motivo de coscuvilhice. Daqueles que nos magoam, que nos irritam, ou que nos maltratam. Todos usamos máscaras.

Mecanismos de defesa que, com alguma astúcia podem jogar a nosso favor. Usamos máscaras para esconder a dor, a indignação, o ódio, o irracional. Mas também as usamos para reconstruir quem somos para os outros. Para conquistar a confiança de alguém, para esconder os nossos defeitos, para ganhar respeito entre os nossos pares, para seduzir quem desejamos. Todos usamos máscaras.

A ascensão das redes sociais, a ténue linha dúbia que mistura o público com o privado, veio acentuar esta necessidade de alimentação das diversas máscaras que possuímos. Recentemente encontrei o vídeo What’s on your mind?, realizado por Shaun Higton. Durante dois minutos e meio somos transportados para a dicotomia real/virtual de Scott Thomson, alguém não muito diferente de cada um de nós. Neste vídeo vemos o contraste da sua vida real, com a máscara de positivismo que ele alimenta no seu perfil do facebook.

Da comida pré-congelada, a uma relação fria condenada ao fracasso, ao emprego cinzento que o faz ser despedido. Da depressão que o assola, até à sua profunda solidão. Scott usa as redes sociais para transmitir a imagem oposta, em busca da aprovação dos seus amigos virtuais. Contudo, por mais likes que as suas publicações recebam, a realidade mantém-se inalterada, ele está, e assim continua, só.

Os últimos tempos têm sido férteis em campanhas com um simples objectivo: desligar. Desliguem o telemóvel. Desliguem o facebook. Olhem à vossa volta. Falem com um estranho. Não percam as oportunidades que desvanecem sempre que o nosso olhar fica colocado a um pequeno, ou a um grande ecrã. Mensagens fortes. Mensagens úteis. Mensagens necessárias. Ignoradas tão rapidamente como qualquer outro vídeo viral.

A cada dia que passa cresce o culto da aprovação virtual. Tudo o que fazemos é exposto, partilhado, identificado, visto e gostado. Procuramos chegar ao máximo de pessoas possíveis, com o prato acabado de cozinhar, a tarde passada na praia, a festa que visitámos, a viagem que fizemos. Fazemo-lo para nós, para os outros, para registo, para reconhecimento. Fazemo-lo porque sim. Porque o botão “finalizar”, confunde-se com o botão “partilhar”. Fazemo-lo porque já não sabemos ter experiências que não possamos partilhar com a nossa rede de contactos. Contactos que muitas vezes não passam de desconhecidos com quem nunca trocámos uma única palavra. E mesmo assim continuamos a fazê-lo. Não porque nos satisfaz, mas sim por não querermos ser ignorados, por não querermos ser apenas mais um numa longa linha do tempo repleta de futilidade.

Queremos ser a excepção. Queremos ser o destaque. Queremos a popularidade, a fama. Queremos ser diferentes. Mas também não queremos ficar para trás. Queremos visitar, fazer, e ter tudo aquilo que é cool, tudo aquilo que é moda, tudo aquilo que é partilhável. Tudo aquilo que os outros partilham virtualmente.

Queremos viver nesse Universo, onde todas as pessoas estão a sorrir nas fotos, onde todas as refeições parecem pratos gourmet, onde a vida de todos é alegre, sem discussões, sem dificuldades, e onde todos os seus sonhos lhes são oferecidos de bandeja. Queremos viver nesse mundo de ilusões e de máscaras. Construímos a nossa própria máscara para nos sentirmos integrados, para fazermos parte do grupo. Para que “gostem” de nós.

Contudo, nós não somos essa máscara. Nós somos o Scott. Temos momentos altos, e baixos. Dias alegres, e tristes. Somos felizes, discutimos. Sofremos de depressão, e euforia. Temos amigos, estamos sós. Somos únicos, temos defeitos. Somos iguais a nós próprios, e não às máscaras que nos tentam impingir.

Desliguem. Encerrem a sessão. Desliguem. Bloqueiem a vossa conta. Desliguem. Sejam livres. Desliguem. Sejam únicos. Desliguem. Não há foto mais bela, que aquela tirada sem intenção. Não há momento mais belo, que aquele que não precisamos de partilhar. Não há pessoa mais bela, que aquela que não tem medo de ser igual a si mesma.

Não há máscara mais bela, que aquela que não precisamos usar.