Sunday, March 18, 2012

Dois Mil e Dois

Em dois mil e dois o mundo era um lugar diferente. Isso, qualquer idiota consegue ver sem a necessidade de consultar um almanaque ou algo que a ele se assemelhe. Afinal estamos em dois mil e doze e o Google nunca foi tão eficaz. Mas em dois mil e dois o meu mundo era muito diferente, a começar pela tecnologia que tinha ao meu dispor.

Ainda não tinha telemóvel, embora o meu pai já fosse no seu segundo, não havia necessidade de um adolescente de catorze anos ter um. O meu primeiro computador com internet estava a fazer dois anos, tinha apenas dez gigabytes de disco e cento e vinte e oito megabytes de RAM. Na altura que o comprei o rapaz da loja disse-me que não valia a pena ter leitor de DVDs pois estes apenas serviam para filmes. O monitor continuava a ser o velho Philips do meu primeiro PC que já na altura tinha uns bons seis anos, ou não tivesse ele chegado cá a casa em mil novecentos e noventa e seis.

Já me aventurava pelos chats do IRC, AEIOU, entre outros. Apenas o ligava à noite e nunca por mais do que uma ou duas horas, não fosse a conta do telefone disparar do dia para a noite. Ainda não tinha ouvido falar em banda larga, muito menos em fibra óptica. Os computadores portáteis eram “coisa de ricos”, demasiado caros para tentar compreender a necessidade de ter um. Os tablets eram sonhos futuristas e o touch screen apenas uma brincadeira que tinha visto na Expo 98, e num ou outro museu.

Sonhava com visitar Londres, algo que ainda não fiz, mas agora apenas me detenho pela falta de oportunidade, visto que o preço da viagem é hoje bastante acessível, ao contrário de dois mil e dois, quando achava improvável que algum dia tivesse dinheiro para ir mais além de Espanha.

Já me tinha habituado ao Euro, sem necessidade de usar uma calculadora de conversão ou de gastar muitas horas a jogar a edição especial do Monopólio que tinha recebido no Natal anterior.

Não saía muito de Ovar, ainda não tinha descoberto a música, e limitava-me a gastar o meu tempo a ler ou a ver desenhos animados. Comecei a sair à noite nesse ano. Não tinha propriamente amigos portanto apenas saía quando havia jantares de turma ou o aniversário de alguém. Poucos eram aqueles que bebiam e ninguém fumava, pelo menos, não ainda.

O meu pai ainda tinha a sua Ford Escort de noventa e quatro, sem nenhuma mossa ou risco, quase que passava como nova. Até dois mil e sete, este foi o último ano que passei férias no Algarve. Viagem rápida pela A2, inaugurada recentemente. Ficámos em Quarteira, uma semana num T0. Apenas eu e os meus pais. A minha avó não quis ir.

Embora já tivesse televisão por cabo, ainda recorria à parabólica para ver alguns canais. Dividia os meus dias entre o Cartoon Network e o Canal Panda, e aos fins-de-semana fazia maratonas a ver as minhas cassetes do Em Busca do Vale Encantado no velho vídeo que tantas vezes teve que ir para arranjar por necessidade de limpar as suas cabeças. Dois euros chegavam e sobravam para ir ao cinema. Todos os sábados o meu pai deixava-me no Gaiashopping para eu ir ver um filme enquanto ele ia visitar a minha avó.

Em dois mil e dois tudo era mais simples. Não havia reportagens na TV sobre nomofobia. Ninguém sabia que a Apple existia, nem tão pouco havia vontade para socializar compulsivamente online de forma contínua. Estava desligado mas mantinha-me informado.

Há dez anos tudo era tão diferente e ainda assim tão igual. Há dez anos tudo era tão simples e ainda assim tão complicado. Há dez anos o futuro era tão distante e hoje mostra-se tão próximo.

Em dois mil e dois o meu mundo era um lugar diferente. Isso, mesmo sendo idiota, ainda o sei.

Wednesday, February 29, 2012

Vinte e Nove

Todos os meses têm vinte e oito dias, mas apenas onze têm vinte e nove. Isto é verdade todos os anos, excepto este. Bom, este e todos os anos bissextos que a ele se seguem. Tivesse eu nascido neste dia há 24 anos atrás e faria hoje apenas seis anos de aniversário.

Há muito simbolismo por trás do número vinte e nove, ou não fosse onze o resultado da soma dos seus dois dígitos. Mas deixando de lado superstições e numerologia, para aqueles que, como eu, este dia não retém qualquer valor sentimental, é apenas uma simples quarta-feira. O último dia do mês. Uma data que quase passaria despercebida não fosse a sua tão invulgar natureza.

Os anos bissextos são algo mais que datas para Campeonatos Europeus de Futebol e Jogos Olímpicos, são mais ainda que o acerto de calendário que lhes traz o propósito de existência. São anos místicos pelo simples motivo de nos fazerem aguardar por eles. O intervalo entre eles parece-nos curto, mas é quatro vezes mais longo que qualquer festa anual. A Primavera vê o seu início adiado por mais um dia. As datas de Março adiante, correm dois dias da semana para a frente em vez de apenas um. Dividimos o nosso ano por trezentos e sessenta e seis, e adiamos o seguinte por mais vinte e quatro horas.

Na verdade, hoje apenas compensamos as oito horas a mais que todos os anos a Terra demora a dar a volta em torno do Sol. Recentemente chegaram mesmo a sugerir que Fevereiro passasse a ter trinta dias, desta forma todos os anos seriam iguais, os feriados calhariam nos mesmos dias da semana, restando-nos apenas o fardo de aguentar com uma semana a mais de X em X anos.

Estas contas dos dias apenas nos dão dores de cabeça. Porque não tornar o vinte e nove de Fevereiro feriado mundial? Mais um dia de descanso em vez de mais um dia de tédio e adiamento de planos. Em dois mil e dezasseis será a uma segunda-feira. Mote ideal para um fim-de-semana prolongado.

Celebremos o anunciar do mês da Primavera. Março está à porta, já com um dia de atraso, mas quase a chegar. É triste ver o dia que dá nome e particularidade a este ano, passar despercebido no meio de um calendário.

É triste nascer-se a vinte e nove de Fevereiro, mas talvez haja um sabor especial em celebrar o nosso aniversário no verdadeiro dia em que ele ocorreu. Espera prolongada que traz mais valor ao tão desejado momento.

Hoje é vinte e nove de Fevereiro. Mais um dia no calendário. Um dia que sozinho define todo um ano.

Sunday, February 05, 2012

No Comment

My body’s aching, my heart is broken, my spirit is crushed, my hopes are shattered, and my dreams are no more.

Wednesday, January 25, 2012

Os Jovens Gostam de F*der?

Em 2005 escrevi uma crónica no meu antigo blogue com o título Os Jovens Não Gostam de F*der, nela falava sobre como era cada vez mais habitual os jovens banalizarem o sexo ao ponto de o tratarem como um mero alívio de desejos físicos, retirando o amor e qualquer sentimento da equação.

Limitar o acto sexual à simples concretização do prazer físico retira todo e qualquer valor ao gesto de entrega à pessoa em questão. Não há emoções, não há uma continuidade de desejo, não há um interesse pela descoberta da essência da outra pessoa, e de ambos como uma unidade. Há apenas um vazio, um orgasmo forçado, um sentimento de que ambos apenas foram usados à falta de melhor.

Sete anos passados desde a publicação desse artigo, embora a minha opinião se mantenha, não vou tão longe ao ponto de afirmar que os jovens não gostam de f*der, porque a verdade é que gostam e muito, contudo, a grande maioria não sabe fazer amor, se é que alguma vez o fez.

Nas inúmeras conversas que já tive com pessoas popularmente promíscuas, sem contar com os casos de ninfomaníacos diagnosticados, as respostas à pergunta sobre porque o fazem é sempre a mesma: “É diversão, ambos sabemos disso, não há problema”.

Curiosamente essas mesmas pessoas volta e meia afirmam que por mais “divertida” que essa vida seja, no fim do dia acabam por se sentir sós, por sentir a falta de algo mais, de poderem estar com alguém que não desapareça na manhã seguinte. Alguém que é apenas sua, alguém que sejam capazes de amar, alguém com quem o sexo não seja apenas um acto físico, mas sim a máxima ilustração do amor que sentem um pelo outro. 

Por mais tentador que o desejo seja, a sua própria definição martiriza-nos a um fim decepcionante. Apenas desejamos algo que não temos, depois de o conquistarmos já não precisamos de o desejar, o desejo morre e o prazer perde-se numa efémera desilusão. Já o amor é algo mais sólido, mais duradouro, uma ligação que vive além da simples paixão, algo pelo qual vale a pena lutar, e que, quando é verdadeiro, nos dá mais prazer que o mais selvagem dos desejos.

Por mais intenso que o sexo seja, o real momento de felicidade não acontece durante o orgasmo, mas sim depois, quando a seguramos nos nossos braços e ambos os nossos corações batem como um. Quando nos perdemos no olhar da outra pessoa e naquele momento sabemos que a amamos. Não há melhor sentimento que esse.

Não importa o número de parceiros ou a quantidade de sexo. É muito melhor o calor da pessoa que amas, quando ao fim de dez anos juntos continuam a sentir o mesmo que no primeiro dia, do que partilhar a tua cama com uma pessoa diferente todas as noites e sentires o frio do teu quarto na manhã seguinte.

Embora não compreenda como essas pessoas conseguem agir assim, aceito-as como elas são, acreditando que um dia possam ser capazes de concretizar a vontade, que por vezes demonstram, em encontrar algo pelo qual valha a pena lutar. Como alguém me disse há pouco tempo: “Não me faz diferença que outras pessoas o façam, mas eu não funciono assim”.

Friday, January 06, 2012

1979

Certas músicas contam uma história para cada um de nós. Uma história que vai muito além da sua letra ou da sua melodia. Associamos músicas a momentos, seja pelas memórias que nos trazem quando as ouvimos, seja por terem começado a tocar naquele preciso instante. Faixas aleatórias passam a ser inesquecíveis, tornando-se parte da nossa própria história, acompanhando-nos de perto para o resto das nossas vidas.

Verão de 2003, na altura tinha quinze anos e não estava com muito sono. Já passava da meia-noite quando, após ter desligado o PC, decidi ficar pela sala a ver televisão. Os meus pais já estavam a dormir portanto mantive o volume baixo. Vi um filme qualquer que terminou por volta das duas da manhã e comecei a fazer zapping pelo Discovery Channel e o Odisseia, parando por vezes no Sol Música quando não encontrava nada de jeito para ver.

As horas iam passando e pouca ou nenhuma vontade tinha de me deitar. Fui buscar a minha cassete do Em Busca do Vale Encantado e comecei a ver. Terminou pouco antes das cinco da manhã. O Canal Panda ainda não tinha dado início à edição do dia seguinte.

Por volta das seis da manhã já conseguia ver um simples vislumbre da aurora pela janela da sala. Nunca tinha visto o dia nascer, pelo menos não desta forma. Continuei a fazer zapping e parei na MTV, após alguns videoclips, começou a tocar a 1979 dos Smashing Pumpkins, nunca a tinha ouvido antes mas conseguiu captar a minha atenção no imediato. Não consegui apanhar o nome da música nas legendas por isso tentei decorar alguma parte da letra para poder procurá-la na manhã seguinte. Os esforços foram em vão. Quando a manhã enfim chegou já me tinha esquecido por completo da letra. Tinha apenas a melodia para me guiar.

Fiquei à janela a ver o sol nascer com a MTV ou o VH1 a tocarem no fundo. A minha mãe acordou por volta das sete da manhã para ir trabalhar. Quando me viu na sala a ver televisão perguntou-me porque tinha acordado tão cedo. Embora tivesse levado alto raspanete por ainda não ter ido para a cama, deixei-me ficar por ali. Não me lembro o que fiz durante o dia, apenas me lembro de ter perdido a consciência por volta das seis da tarde depois de me sentar no sofá por alguns segundos. Quando acordei eram quase sete, cheguei a estar perto de 36 horas acordado. Até hoje, não sei bem porque o fiz, talvez quisesse testar os meus limites, talvez estivesse apenas aborrecido.

Dessa noite o único episódio memorável acabou por ser o videoclip da 1979. Foram precisos cinco anos para encontrar a música, quando, por mero acaso, ouvi-a a tocar na rádio. Desta vez anotei algumas frases numa mensagem do meu velho telemóvel e encontrei-a com alguma facilidade após uma pesquisa pela letra no Google.

As memórias daquele nascer do sol vão para sempre ficar ligadas a esta música e ao videoclip que a acompanha. Momentos improváveis de pouco significado que permanecem assim guardados nos nossos pensamentos, apenas porque numa simples noite de Verão não me apeteceu ir dormir.