Friday, February 16, 2007

Antepassado Comum


Um destes dias deparei-me com um documentário sobre o voo dos Pterossauros. Estes répteis voadores foram o primeiro grupo de vertebrados a desenvolver o voo, contudo, a forma como o conseguiram fazer tem intrigado os paleontólogos há muito tempo.

A parte que achei mais interessante neste documentário resume-se a um pequeno detalhe. Numa nota de mera curiosidade, um dos indivíduos diz que certos fósseis de pterossauros mostravam vestígios de penas. Isto pôs-me a pensar, e daí desenvolvi uma teoria.

Até à data, apenas dois grupos de animais são conhecidos por terem desenvolvido esta característica, as Aves e os Dinossauros. Sendo confirmada a presença de penas nos Pterossauros, isto só pode significar uma coisa: os Dinossauros e os Pterossauros partilham um antepassado comum.

Esta asserção vale de pouco, visto muitos já terem suspeitado de tal ligação. Este simples facto não é suficiente nem para apoiar esta teoria, nem para a refutar. Uma explicação simples seria que os Pterossauros desenvolveram penas por um processo de evolução convergente. Pelo mesmo motivo que os Dinossauros e as Aves o fizeram, os Pterossauros também podiam ter optado por desenvolver esta característica. No entanto, acho isto pouco provável.

Não se tratam de simples espinhos em espécies diferentes de cactos que não têm qualquer ligação genética entre eles, mas de um mecanismo de voo muito sofisticado e que para o qual seriam necessários milhões de anos de evolução.

Isto leva-me a crer que, pouco depois dos Dinossauros e dos Pterossauros se terem separado na grande árvore da evolução, estes mantiveram algumas características comuns aos seus antepassados, entre elas as penas, ou os "códigos" necessários para que estas eventualmente se desenvolvem-se.

Atendendo ao facto de que a primeira ave, a Archaeopteryx, existiu à cerca de 145 milhões de anos, podemos supor que por esta altura os Dinossauros já teriam desenvolvido penas. Se concordarmos que as Aves evoluíram directamente destes, podemos considerar a presença de penas em alguns dos Dinossauros mais primitivos.

Os primeiros Dinossauros surgiram à cerca de 250 milhões de anos, após estes se terem separado das restantes ordens de répteis existentes até à data. Os Dinossauros destacaram-se das outras espécies devido ao seu maior metabolismo, e à sua extraordinária capacidade de adaptação.

Devido aos poucos fósseis que até hoje foram encontrados, nunca foi ponderada a hipótese de Dinossauros que não os do Cretácico, terem possuído penas. Mas se olharmos para a Archaeopteryx podemos afirmar que estes podem tê-las desenvolvido no mínimo, durante o Jurássico Médio. Vou ainda mais longe e teorizo que as tenham desenvolvido pouco após a sua dispersão evolutiva por volta do Triássico Tardio.

Devido à descoberta destes fósseis de Pterossauros com penas, posso supor que a evolução das penas pode ter ocorrido bastante mais cedo do que até hoje se acreditava. Desta forma, para ambos estes grupos as possuírem, é credível que ou o seu antepassado já as possuía, ou ambos tinham a mesma programação genética pronta para ser activada.

Como a última suposição é bastante improvável, é possível imaginarmos Dinossauros tão primitivos como o Eoraptor ou o Coelophysis, com o corpo coberto de penas, ou algo muito similar a estas.

A minha teoria resume-se a supor que a evolução das penas pode ter ocorrido bastante mais cedo. Até à data apenas foram descobertos alguns fósseis de Dinossauros com penas, e a maioria destes eram espécies do Cretácico.

Espero pacientemente por algum dado que suporte a minha teoria, mas até lá fica aberta a discussão. A evolução das penas pode ter sido um processo bastante longo e demorado. Convém, contudo, não dar como garantida a informação até hoje descoberta e manter, assim, a busca incessante pelo conhecimento que um dia nos levará a um maior entendimento da evolução do voo, e das próprias Aves.

Friday, January 19, 2007

Exames

1) Isto é uma pergunta? Justifique.

R.: Isto é uma resposta, interprete.

Thursday, January 11, 2007

Overhearing

Imagem DR
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.

Fernando Pessoa

Cada objecto nasce de uma simples ideia. Uma semente que brota de um temeroso e sofrível processo criativo que, na maioria das vezes, apenas dá origem a um fruto intragável. Uma premissa que no início se apresenta como atraente, pode revelar-se inútil, ilusória ou inexequível. Que fazer com algo que fica aquém do esperado? Com algo cuja qualidade deixa muito a desejar. Ou que demonstra ser nada mais que uma pirâmide de minúcias frustrantes?

Matar. É preciso saber matar os nossos “bebés”. Ou os nossos “queridos” se a imagem anterior for demasiado forte para os vossos frágeis estômagos. Este foi o caso de “Overhearing”. Uma curta-metragem de minuto e meio de duração. O meu primeiro projecto em vídeo na faculdade. Projecto esse que nasceu torto e não mais se endireitou.

Vítima de um bloqueio criativo, de falta de meios, e de pessoas predispostas a actuar segundo a minha direcção, vi-me perdido, de câmara na mão, sem saber o que fazer.

A minha ideia original era simples e algo interessante. Um rapaz que passeava pelas ruas do Porto, perdido no Universo dos seus pensamentos, tropeça na conversa de dois estranhos que cruzam o seu caminho.

Queria filmar uma conversa quotidiana e descontextualizada entre um casal que cruzasse o caminho do personagem principal. Sabia que rua queria usar. O tema escondido da conversa. Tinha uma ideia de quem podia ser o casal. E queria gravar tudo isto através do olhar do protagonista, com um ou outro plano dele e do casal para dinamizar a narrativa do vídeo.

Enfim, queria colocar o espectador no meu lugar. Queria que vivessem um pouco dos percursos solitários que forçosamente fazia todos os dias. Queria partilhar com o Mundo a beleza dos aleatórios e incoerentes encontros que alimentam a mais banal das viagens casa/trabalho, ou escola/casa.

“Overhearing” era a minha forma de comunicar a solidão do meu percurso. De mostrar o quão partilhada é esta solidão. Uma solidão acompanhada, por entre aglomerados de vidas interligadas. Desligadas, sós, mas ao mesmo tempo unidas, completas por momentos de ligação sem qualquer planeamento ou previsão.

Contudo, o resultado final não representou nada disso. Sem ninguém com quem contracenar, acabei por filmar um percurso simples, sob o ponto de vista do protagonista que vai de casa até à estação. Sem diálogos. Sem qualquer encontro. Apenas uma ou outra pausa. A porta de um comboio a abrir-se. E esse mesmo comboio a partir.

Durante alguns anos deixei esse vídeo no Youtube e aqui no blogue. Cheguei mesmo a partilhá-lo no primeiro rascunho do meu portefólio. A sua fraca qualidade, e o facto do mesmo nada ter a ver com o objectivo que inicialmente desejava executar, fizeram-me apagar todo e qualquer vestígio do mesmo online.

Não soube matar o meu “querido”. Não encontrei outra inspiração que não essa, e o meu bloqueio criativo persistiu por mais algum tempo.

Nem todos os projectos foram cunhados para o sucesso. Alguns devem ser logo descartados. Outros jamais irão além do medíocre ou do razoável. “Overhearing” tinha algum potencial, faltaram-lhe os meios, as pessoas e a criatividade. E assim morreu.

Talvez um dia o revive. Talvez um dia o escreva. Talvez um dia o grave. Para já, regressa às gavetas da memória, eternamente adormecido nos primórdios de uma alma criativa ainda por lapidar. 

Wednesday, January 10, 2007

Uma Verdade Inconveniente

Imagem DR
"Estamos a matar o planeta." Esta é a afirmação mais presunçosa e estapafúrdia que alguma vez ouvi. Fala-se em aquecimento global, poluição, proliferação de armas de destruição maciça, energia nuclear, terrorismo, etc. E continuam a dizer que estamos a "destruir" ou a "matar" o planeta? Podemos ser mais egocêntricos e megalómanos? Como pode uma espécie que por cá anda há cerca de 500 mil anos, achar-se poderosa o suficiente para destruir o planeta?

Uma mera passagem sob o parágrafo anterior vai criar ondas de contestação, ou no mínimo de estranheza. Mas antes de se precipitarem em preconceitos, leiam isto até ao fim e talvez compreendam o meu ponto de vista.

Hoje tive a oportunidade de ver o documentário do Al Gore, "An Inconvenient Truth". Fiquei impressionado, não pelo que foi dito, já que a grande maioria daquelas verdades já eram do meu conhecimento, mas por ser um ex Próximo Presidente dos E.U.A. a divulgar esta mensagem que há muito vem a ser ignorada.

Não estou a dizer que o que foi dito no documentário está errado. Pelo contrário, não podia estar mais correcto. Ao longo do último século poluímos o nosso ar, a nossa água, destruímos habitats, levámos espécies à beira da extinção e até exterminámos algumas. E quantas dessas não terão ficado ainda por descobrir?

Somos uma espécie descuidada, que olhou para o progresso científico sem pensar nas consequências. A nova ciência é totalmente desprovida de moral. Os investigadores limitam-se a pegar em estudos anteriores e a dar o passo seguinte, alienando-se assim de qualquer tipo de responsabilidade.

"Não fui eu que comecei isto. Lá por que o acabei, não quer dizer que tenha que levar com as consequências." É exactamente este tipo de atitude que leva um país como os E.U.A. a não rectificar o protocolo de Quioto, e que levou os avanços tecnológicos do último século a criarem todos estes problemas que agora deixamos para as próximas gerações tentarem resolver.

Sim, mesmo que comecemos a mudar os nossos hábitos agora, o ambiente ainda vai levar cerca de cinquenta anos a recuperar. Contudo, isto não é motivo para não agir, muito pelo contrário, é razão mais do que suficiente para nos levantarmos do sofá.

Tudo isto podem ver por vós próprios, seja através do documentário, ou numa simples pesquisa. A informação está toda espalhada, basta encontrá-la e juntar as peças.

Mas o que realmente querem saber, e o que ainda vos intriga, é "se pensas assim, e concordas com isto tudo, porque raio escreveste aquele primeiro parágrafo?" Talvez tudo se resuma a uma questão de semântica: Nós não estamos a destruir o planeta. A Terra já atravessou desastres ecológicos astronomicamente maiores, e incomparáveis com aquele que estamos a atravessar, e sobreviveu.

A Terra era um planeta jovem e saudável muito antes das primeiras formas de vida aparecerem. A verdade é que o que estamos a fazer é a destruir o nosso "Mundo", o nosso presente, e o futuro dos nosso filhos.

Estamos a destruir o ambiente, e as condições favoráveis à vida que neste momento habita este planeta. Estamos a pôr em perigo o mais variado tipo de formas de vida, e o nosso próprio futuro. A espécie humana não é tão invulnerável a estas alterações como podemos pensar.

Pode ser trágico pensar desta forma, mas a Terra vai continuar aqui muito depois de nós desaparecermos. As espécies que hoje conhecemos vão se extinguir, mas outras surgirão para ocupar o seu lugar. As massas continentais vão deslocar-se e aproximar-se. Oceanos vão desaparecer, montanhas erguer-se-ão. A Terra vai continuar o seu ciclo habitual, até o Sol se tornar num gigante vermelho e a engolir.

Como podem ver, não podemos falar em "destruir" o planeta. Nós somos apenas um vírus a atacar os ecossistemas e a frágil biosfera terrestre. Mas o planeta, esse, mantém-se intacto e pronto para nos dar uma lição.

É por isso que devemos começar já a tratar o planeta com respeito, e a fazer todos os possíveis para minimizar o nosso impacto num ambiente tão frágil. Podemos estar cá há pouco tempo, mas já excedemos o nosso convite.